Sempre Galiza!
Pedro Godinho
Sempre Galiza!
Porque para vários de entre nós de há muito que ela está presente – na mente e no coração – e para outros há vontade de a reencontrar e melhor a conhecer.
Porque as galegas, artes, letras, cultura, têm tesouros que, pela qualidade e proximidade, nos emocionam e tocam a consciência, e com a Galiza partilhamos duas falas variantes duma língua comum: o galego-português.
Porque, no passado, também nós conhecemos a dominação e tivemos de lutar pela nossa libertação, simpatizamos com aqueles que no presente ainda têm de lutar pela sua autodeterminação.
Porque, para mais, a nação galega é uma das nove de língua portuguesa, razão acrescida para a amizade e solidariedade.
Porque em várias terras de Portugal, ao longo dos anos, convivemos com as galegas e galegos que a aventura ou a fuga da miséria ou da perseguição até nós trouxe e com eles nos caldeámos e portu-galizámos.
Porque de ambos os lados da raia o coração é grande e as afinidades entranham-se.
Por tudo isso, e o mais que ficou por dizer, dedicaremos sempre um espaço próprio à Galiza e aos bons e generosos.
Ficam, galeguistas, convidados a comparecer e colaborar.
Grande aperta.
Sempre Galiza!
E a abrir, escolhemos um poema de Ernesto Guerra da Cal, um grande argonauta.
PÁTRIA
«Porque volvió, sin regresar, Ulises.»
MIGUEL ANGEL ASTURIAS
A Galiza
é para mim
um mito pessoal
maternal e nutrício
com longa teimosia elaborado
de louco amor filial
de degredado
(E de facto é também
—porquê não confessá-lo—
um execrável vício
sublimado)
A Galiza
foi sempre para mim
um refúgio mental
um jardim de lembranças
sossegado
um ninho de frouxel acolhedor
para onde fugir
do duro batalhar e do estridor
da Vida
do acre ressaibo do Pecado
Subterfúgio subtil
e purificador
de interior evasão
para o descanso da alma
na calma
pastoril
da perfeição de Arcádia
da Terra Prometida
da imaginação
A Galiza
é o meu amor constante
tranquila e fiel esposa
e impetuosa amante
sempre
como Penélope a tecer
na espera
ansiosa e plácida
paciente e palpitante
do retorno final
do seu errante e navegante Ulisses
—outra quimera!
Amo-a
como o náufrago desesperado
ama a costa longínqua e ansiada
que nunca há-de avistar
Amo-a
com saudade antevista de emigrado
que à partida se sabe já
fadado
a ser ausente morrinhento
de nunca mais voltar
Porque ninguém jamais regressa do desterro
à mesma terra que deixou
(O Espaço dissolve-se no Tempo:
os lugares
e as gentes que os habitam
mudam e morrem sempre
e nós também morremos
e mudamos
Posso eu acaso me reconhecer
naquele rapaz loiro
que chorando partiu
um dia crepuscular e montanhoso
de Quiroga
no Sil
há tantos anos
e tantos desenganos?)
Amo-a
Amei-a sempre
porque nunca deixei
de estar ligado a Ela
pelo umbigo
Porque Ela foi meu berço
e onde quer que eu morrer
Ela há-de ser
o meu íntimo
e último jazigo
Amo-te
enfim
Galiza
coitada, triste e bela Pátria minha
como Tu és
como o Senhor
num mal dia te fez
órfã de história e alienada de alma
vespertina submissa e maliciosa
rústica e pobrezinha
Amo-te
sobretudo
como eu te quereria
como eu em mim te crio
dia após dia
como um encantamento da minha infância
e da minha fantasia
Amo-te
como eu
tresnoitado poeta evangelista
te invento e mitifico
E, como com Jesus Cristo fez Mateus,
visto com ilusórios véus
a tua miseranda e cinzenta Paixão
e intento
com interna e intensa
distante devoção
pôr-te um ninho de Glória imaginária
num apócrifo Novo Testamento
ESTORIL
1984
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
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