Domingo, 8 de Janeiro de 2012
Viagem a Cuba - por Carlos Loures

 

(Adaptado de texto publicado no Estrolabio)

 

Hoje, aniversário da entrada de Fidel em Havana, uma semana após o triunfo do Movimento 26 de Julho, recordo a alegria com que as notícias que nos chegavam eram recebidas. Depois, quando em 1962, na sequência da chamada «crise dos mísseis», para se proteger dos Estados Unidos, Cuba se acolheu nos braços da União Soviética, ao fascínio seguiu-se uma profunda desilusão. Para fugir de um imperialismo, submeteu-se a outro. Muitos companheiros antifascistas a quem manifestávamos o nosso desencanto, diziam-nos que não era «a mesma coisa» - claro que não era. A fase revolucionária terminara. Quando em 25 de Novembro a nossa Revolução terminou - não voltámos ao fascismo. Mas...

 

Porém, aqueles primeiros três anos da Revolução Cubana, tal como os 18 meses da nossa Revolução dos Cravos, foram algo que marcou os jovens daquela época. Não escapei à regra. Ouvir o verbo emocionado e emocionante de Fidel, lendo na Praça da Revolução, as declarações de Havana, particularmente a segunda, era arrepiante. É sob a emoção dessas recordações que escrevo este texto.

Embora a admiração pela Revolução Cubana há muito tivesse morrido, era um projecto meu visitar Cuba, como quem revisita a juventude e algumas das ilusões perdidas (porque há outras que nunca se perdem e é isso que nos mantém vivos). Há poucos anos atrás, com a minha mulher e um casal amigo (o Gomes Marques e a Célia) metemos mãos à obra. As agências só ofereciam pacotes inaceitáveis – três dias em Havana e quatro em Varadero. Mas nós íamos lá fazer uma viagem de doze horas, atravessar o Atlântico para ir à praia, com a Caparica e as praias da linha aqui tão perto? Mas acabámos por descobrir uma alternativa aos pacotes usuais. Uma boa alternativa que agora vejo estar mais divulgada. Um carro de aluguer à nossa espera no aeroporto de Havana, hotéis reservados por um itinerário escolhido por nós, a começar e a acabar na capital – Havana, Matanzas, Cienfuegos, Sancti Spíritus, Camagüey, Ciego de Ávila, Santiago de Cuba, Trinidad, Santa Clara, Havana… Tudo por um preço razoável, pouco acima do que custavam os tais pacotes turistiqueiros.

 

Durante duas semanas percorremos quase quatro mil quilómetros, vimos o que queríamos, sem guias turísticos a incomodar-nos. E lá fomos à Baía dos Porcos, ao Quartel de Moncada, à Sierra Maestra, ao museu da Revolução, a todos os lugares de culto. Visitámos Havana em pormenor, fomos aos locais frequentados por Hemingway, e até almoçámos em Varadero. Varadero é um local de veraneio, sem nada de especial (a não ser o mar maravilhoso das Caraíbas) – Hotéis, edifícios de apartamentos, etc. Nada, nesse aspecto, que Vilamoura ou Torre Molinos não tenham – tal como pensávamos, não se justifica ir tão longe. Mas o nosso itinerário foi uma maravilha.


Falámos com muita gente. Pudemos verificar que, apesar de algum medo à repressão que inegavelmente existe, as pessoas falaram connosco com à-vontade. Encontrámos mais descontentes nas grandes cidades, Havana e Santiago, principalmente. As condições de vida são constrangedoras. Racionamento dos bens mais elementares – lâminas de barbear, pensos higiénicos, géneros de primeira necessidade, arroz, ovos, leite, tudo é racionado. As casas de Havana, algumas lindíssimas, estão em ruínas. O turismo é uma das saídas. Cozinha-se em casa para os turistas. São os chamados «paladares», alternativas aos restaurantes. Combina-se previamente, escolhe-se a ementa e à hora combinada lá temos a mesa posta e anfitriões dispostos a deixar-nos sós ou a conversarem connosco, como preferirmos. Pelas ruas andam pessoas das mais diversas idades a cooptar clientes para os paladares. Em Ciego de Ávila um professor universitário de avançada idade andava nesta tarefa, recitando-nos de memória poemas de Nicolás Guillén. Para não falar da prostituição, mais ou menos encoberta, que pessoas normalíssimas, qualificadas, quase todas com cursos superiores, se vêem obrigadas a praticar para completar ordenados baixíssimos. A prostituição em Cuba é, de uma maneira geral, uma forma desesperada de sobrevivência.

Nos campos, sobretudo em granjas colectivas, encontrámos mais adeptos do regime, gente saudando-se de punho cerrado. Também é verdade que nos campos a vida não é tão difícil, pois os bens alimentares essenciais são ali produzidos e, portanto, escasseiam menos. Porém, numa coisa todos estão irmanados, fidelistas, antifidelistas: no ódio aos Estados Unidos. Mesmo os opositores ao regime, têm consciência de que sem o bloqueio norte-americano, o povo não sofreria tanto. É evidente que o bloqueio tem impedido o advento da democracia. Toda a gente sabe isso. Só a CIA e a Casa Branca se obstinam em não o reconhecer. Tivemos esperança em que Obama mudasse as coisas - afinal os sinais de mudança estão a chegar-nos do interior da ilha, com um Raúl Castro menos discursivo e mais pragmático a tentar que as coisas melhorem. Oxalá. O povo cubano já sofreu demasiado.

 

 



publicado por Carlos Loures às 19:00
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11 comentários:
De Paulo Rato a 9 de Janeiro de 2012 às 00:19
O bloqueio americano não acabou com a revolução cubana. Tem, de facto, impedido o glorioso advento da querida "democracia" tipo USA, em que só em ocasiões especialíssimas, alguém ganha alguma eleição sem ter dinheiro para pagar a sua propaganda... Ou a que tem florescido no Irão, como irá florescer, com a tomada do poder por fascistas, também chamados, na região, "integristas islâmicos", nos países recentemente bafejados pela "primavera árabe": haverá então muita liberdade de expressão e muitas mulheres lapidadas e escravizadas ao machismo vencedor. Vai ser uma alegria!
Mas o bloqueio obrigou Cuba a procurar o único apoio que podia ter. E tudo se paga... Também não foi por isso que a revolução acabou: foram precisos muitos anos de esforços da CIA e outras democráticas e benfazejas instituições para se chegar onde se chegou e há-de chegar.
Só gosto do preto e branco nos filmes. Mesmo aí, a minha acuidade visual permite-me ver pormenores em tons de cinzento que parece que escapam à maioria...
Para uns, o desenlace da história dos mísseis, p.e., é uma estrondosa vitória do Kennedy e da CIA, enquanto, para outros, significou o êxito do plano traçado por Fidel com a URSS, para garantir que Cuba não seria invadida pelo seu todo-poderoso vizinho, "dunque"... foi uma derrota e um buraco nos planos americanos para a América Central e do Sul, cujos resultados todos conhecemos (Chile, Argentina, Brasil, Bolívia,... só democracias e tortura da boa, mui democrática), incluindo a invasão da minúscula e perigosíssima Granada (até o republicano Clint Eastwood lhe mete uma farpa, muito a propósito, no "Sagento de Ferro")...
O povo cubano já sofreu demasiado. E também a minha paciência com a visão a preto e branco da história da URSS (que, mesmo a cores, não me agrada), incluindo a versão infantilizada do partido a que ainda pertenço.
Ah! estive em Cuba várias vezes, nos primeiros anos da revolução. Encontrei pouquíssimos cubanos com ar de desgraçadinhos. Encontrei muitos com o sentimento de terem deixado de habitar mais uma casa de putas dos USA e terem recuperado a sua dignidade. Claro que as coisas, vistas à distância e com os "guias" apropriados, distinguem-se um bocado mal...
A descrição do artigo mostra que alguém já ganhou ou está a ganhar. Mas não é Cuba, nem os cubanos nem a liberdade.
A não ser, claro, para os que entendam que Portugal, governado por uma "tróika" que não elegeu, à qual o governo em exercício, péssimo e imbecil, mas eleito, tem o maior gosto em servir de capacho, ainda é um país livre e democrático. E que a liberdade de expressão está assegurada.
Mas ando com pouca paciência para anedotas tétricas: não me apetece rir desta bosta em que andam a atascar-nos, "enquanto...", como diz o Jorge de Sena, que tem um curioso poema (Tratado de Dermatologia - Intemezzo cubano) muito adequado a filmes P/B, em "Vigília Cívica", "...eles votam pela adopção da ementa parlamentarista"...


De Carlos Loures a 9 de Janeiro de 2012 às 09:23
Em Cuba não tive «guias apropriados», pois não viajei com associações "de amizade". Vi o que quis e falei com quem quis o que é, implicitamente, um elogio à flexibilkidade do regime. Pudemos, eu e as pessoas com quem fui - entre elas o nosso António Gomes Marques - observar o que de positivo e negativo tipifica a vida dos cubanos. A miséria, a escassez de bens essenciais, pelo menos nas cidades é indesmentível. O asco aos ianques comum mesmo aos que divergem do Governo. Na União Soviética, onde estive com os mesmos amigos, também sem o acompanhamento dos tais guias que só nos levam onde é conveniente, também encontrámos quem ansiasse pela«liberdade» e quem tivesse consciência de que para a generalidade dos povos da União as coisas iam piorar - com as mafias a comandar as operações - como se verifica.

Meu caro Paulo - ou os óculos com que observamos as realidades raramente têm cor neutra e não podemos impor as lentes de que gostamos aos outros. Em Cuba, na Rússia, na Estónia, na Letónia, cada um observa a realidade com os conhecimentos e com os preconceitos que tem. Nada a fazer se, perante uma mesma realidade objectiva, pessoas diferentes vêem realidades diferentes. Querer impor a nossa visão aos outros não é possível, nem justo, nem sério. Mas podemos defendê-la.


De adao cruz a 9 de Janeiro de 2012 às 14:07
Carlos e Paulo
Estou do lado dos dois, mas talvaz mais do lado do Paulo. Estou do lado do Carlos quando diz que cada um vê a realidade com os dados que tem e que pessoas diferentes vêm realidades diferentes. Concordo contigo, Carlos, quando dizes que os óculos raramente têm a cor neutra, mas ainda bem, pois não acredito em neutraldades isentas e límpidas, nem na tua nem na minha. Querer "impor" a nossa visão aos outros não é possível, mas é o que todos dizemos ao nosso interlocutor, quando fazemos exctamente o mesmo. Penso que não é isso que o Paulo pretende, nem é isso que me parece. O Paulo faz, a meu ver, um apanhado pedagógico duma realidade que me perece muito difícil de contestar. Não vejo no seu texto nada no sentido de impor o que quer que seja, mas apenas uma saudável e amarga argumentação no sentido de que os outros possam dar razão à nossa razão. Por outro lado, sempre vi os que, forte e feio ou fraco e bonito, malham em Cuba, louvando e dignificando a virgindade da sua revolução, e se esquecem de que uma virgem é virgem uma única vez, e, pelo facto de ser futuramente, profundamente e indignamente fodida, não a obriga a perder a dignidade, pelo contrário obriga-a a lutar com firmeza até à morte para não perder a dignidade. Com todos os erros possíveis e admissíveis, com todas as consequências manifestas ou latentes, com todas as soluções mirabolantes que nunca ninguém antepõe ou apõe às suas críticas, mais suaves ou mais contundentes, não ouço ninguém dizer: esta FIRMEZA é, de facto, uma histórica REVOLUÇÃO, no verdadeiro sentido do termo, ainda que os seus objectivos possam permanecer por longo tempo na linha do horizonte. Mas Cuba não é, nem de longe nem de perto, a grande culpada, e não pode ser responsbilizada, quando apenas é a grande vítima de uma gigantesca, grosseira e cobrde agressão, levada a cabo pelos "bons", pelos "justos" e pelos "intocáveis".


De Carlos Loures a 9 de Janeiro de 2012 às 15:14
Em muitos aspectos, o lado do Paulo (ou o teu) são o meu lado. Mesmo que quiséssemos não conseguiríamos impor fosse o que fosse uns aos outros. O meu reparo não tem a intenção de fazer prevalecer a minha maneira de ver (seria disparatado tentá-lo, sequer) - o Paulo põe as coisas como se quem não pensar como ele esteja errado. Ora, de facto, trata-se de um problema de optometria - as lentes que usamos fazem-nos ver a realidade de uma certa maneira - a "realidade objectiva" em certas matérias é um mito. Em Cuba ou na Rússia vi o que vi com as minhas lentes - vi coisas positivas e outras negativas. No post usei a "minha" isenção - não podia usar outra. O Paulo diz que em Cuba encontrou pouca gente com ar de «desgraçadinhos». Ou fomos em alturas diferentes ou não andámos pelos mesmos sítios - no centro de Havana, uma família numerosa tinha para comer uma panela de arroz requentado - um exemplo entre muitos. O António Gomes Marques, que não usa as mesmas lentes, ficou tão comovido como fiquei e tenho a certeza que tu ou o Paulo reagiriam como nós. Há coisas que nem a cor das lentes conseguem transformar.


De adao cruz a 9 de Janeiro de 2012 às 16:01
"Ah! estive em Cuba várias vezes, nos primeiros anos da revolução. Encontrei pouquíssimos cubanos com ar de desgraçadinhos. Encontrei muitos com o sentimento de terem deixado de habitar mais uma casa de putas dos USA e terem recuperado a sua dignidade."
O Paulo fala nos primeiros anos da revolução, e eu acredito nisto que ele diz. Como acredito no que tu dizes, e que nada me admira, anos depois... da tal perda da virgindade.


De Carlos Loures a 9 de Janeiro de 2012 às 16:21
Enquanto houve auxílio de uma superpotência, da URSS, que comprava toda a produção de cana-de-açúcar, as coisas foram estando equilibradas. Quando lá estive com o António e as nossas mulheres, Cuba já estava entregue a si mesma. A diferença de uns anos entre as visitas do Paulo e a minha, pode fazer toda a diferença. Nós deparámos com uma penúria confrangedora - ainda que sofrida com uma grande dignidade. Não é um povo de mendigos - ninguém nos pediu nada - esperavam que os convidássemos para comer. por exemplo. É uma gente magnífica.


De Paulo Rato a 9 de Janeiro de 2012 às 17:50
Obrigado ao Adão por me ajudar, na clarificação de alguns pormenores a que convém estar atento.
Não se trata, aqui, de uma questão de optometria, de dioptrias ou de cor de lentes. A "diferença de alguns anos" entre as nossas visitas (minhas e a do Carlos e António) é de mais de 40 anos, praticamente duas gerações... é uma enorme diferença de tempo e de experiências, um "buraco" que as visitas mais recentes de alguns amigos (como a vossa), me ajuda a preencher - em parte - mas não apaga o que vivi.
O que tentei fazer foi remeter a reflexão a que o artigo convidava para uma perspectiva histórica (a possível, por enquanto), que me pareceu dele ausente; relembrar uma parte importante do que se passou - à margem da "corrente principal", que sabemos por quem é traçada; relevar as razões de algumas decisões, tomadas nos primeiros anos da Revolução Cubana, e que, "nessa altura" e em muitas descrições posteriores, pretensamente "históricas", foram e continuam a ser "esquecidas" ou "reinterpretadas" à maneira... por quem "constrói" certo tipo de "guias" (porque não me referia a nenhum guia de carne e osso... nem turístico, mas a informação seleccionada e direccionada - e não apenas pelos USA... - que, queiramos ou não, nos condiciona).
Já se debateram, aqui e no "Estrolábio", vários aspectos da resistência anti-fascista, em relação aos quais tenho experiências, informações e opiniões que me levam a discordar do que neles foi dito. Mas nunca intervim, por duas razões: a primeira é considerar que não vale a pena remexer certos caldeirões, a não ser em reconstituições históricas, para as quais não há ainda distanciamento suficiente, muito menos por parte de quem esteve lá dentro, nós incluídos; a segunda, definiu-a o "jovem Marx".
Se intervim agora, foi porque, antes de mais - e como já perceberam - para mim, Cuba é um caso afectivo muito particular.
Mas também porque o anseio "democrático" que o "bloqueio" estaria a impedir me pareceu excessivamente coincidente com um conceito de democracia que se transformou num artigo de consumo muito vendido no querido e democrático "ocidente" em que nos é dado estacionar: um conceito que não consigo engolir, embora também não defenda o das "democracias populares", nomeadamente aquela tão fofinha e quiducha que é praticada na China do "desenvolvimento" a 325 velocidades (do Reino do Divino "Juche" da Coreia do Norte, nem vale a pena falar).
E, como não gosto de me repetir, mais não direi.


De Carlos Loures a 9 de Janeiro de 2012 às 18:34
Também acho que esta discussão a nada conduz. No post , que me lembre, não falei da tutela soviética sobre Cuba (a qual existiu, como todos sabemos) e o que acho é que uma certa pedagogia dos comentários do Paulo não me devia ser dirigida - até porque decorre daquilo que o Paulo acha que está certo, convicção que respeito, mas não partilho. E os argumentos utilizados parecem atribuir ao texto de partida a defesa dos regimes chinês e coreano, por exemplo. Ou a defesa do ocidente, coisa que não faço em parte nenhuma.

Porém, na verdade, para mim não há imperialismos bons e o KGB não é foi melhor do que a CIA. Duas organizações abomináveis e criminosas. Branquear uma delas é coisa que nunca faria.


De Paulo Rato a 9 de Janeiro de 2012 às 19:04
1) Não me dirigia a ninguém, Debatia o conteúdo de um texto.
2) Comigo não há "parecem atribuir". Ou atribuem ou não atribuem.
3) Não atribuem.
4) Incomoda-me que leiam coisas que não escrevi. Embora seja muito comum. Deve ser a isso que chamam "obra aberta". A minha é fechada.
5) Devo estar a escrever muito mal.
6) Amigos como dantes.
7) Finis


De Augusta Clara a 9 de Janeiro de 2012 às 16:37
Nunca fui a Cuba mas gosto muito dos cubanos por tudo o que já li sobre eles. E não me vou meter aqui sobre a situação geoestratégica mundial a que sempre estiveram submetidos.
O que ainda não percebi é qual é a vossa divergência tão profunda. A mim parece-me que, no fundamental, estão os três a dizer o mesmo. Ou já entraram noutro concurso?


De António Gomes Marques a 10 de Janeiro de 2012 às 00:56
Não quero polemizar, mas não posso deixar de dizer alguma coisa também, particularmente em atenção às palavras da Augusta.
Revejo-me em muito do que os três - Carlos, Paulo, Adão - escreveram e, como para os três, também a Revolução Cubana foi para mim um verdadeiro hino à esperança, nunca me passando pela cabeça que, um dia, pudesse ver em Cuba o que vi, subscrevendo o que o Carlos escreveu.
Em Santa Clara fomos, como não podia deixar de ser, visitar o monumento (não quero dizer túmulo) a Che Guevara, cuja fachada principal tem gravada - as letras são de ferro - a carta de despedida que o Che escreveu a Fidel. Li-a ali, carta essa que já conhecia, e não resisti à emoção, as lágrimas que chorei foram de raiva e. curiosamente, não senti que fossem contra Fidel ou contra o regime, mas contra os imperialismos fascistas, agora chamados mercados, que nos têm oprimido e que são geradores do sofrimento dos povos, incluindo o povo cubano, e que conseguem também transformar um genuíno libertador, como Fidel foi, num tirano que não posso apoiar.
Estou a lembrar-me do momento e as lágrimas afloram de novo.
Lembro também o respeito que essas lágrimas mereceram à Helena, ao Carlos e à Célia, a minha mulher.
Podemos discutir tudo isto de viva voz, num dia a combinar e confrontar o que uns e outros viram, em momentos bem diferentes.
Abraça-vos a todos, sem esquecer a Augusta, com amizade o
António


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