Hélia Correia Sul
(Adão Cruz)
Aquele não era o som da peste, pensou Joan. Não tinha, como têm os lamentos, uma direcção certa; não buscava um efeito contra as portas cerradas do céu e do inferno. Havia um brado, a rouquidão de um esforço. E um emaranhado de rumores que lhe seria fácil ordenar, pegando-lhes nas pontas um a um, isolando as camadas de modo a poder dar-lhes um nome e um motivo. Nada, porém, gerado pela terra costumava merecer-lhe uma atenção.
No seu terraço, olhava para as estrelas. E estava ali faziam tantos anos que nem mesmo o mais velho dos vizinhos se lembrava de o ter visto chegar. Visitavam-no às vezes mancebos de liteira e velhos que tremiam nos seus gibões escarlates. Mas também os peixeiros e mesmo os que viviam nos cantos das ruelas na esperança de um frete ou de um bom roubo trepavam pela escada em caracol que os conduzia até Joan de Sória para que ele decifrasse na vontade dos astros que fortuna aguardava os seus recém-nascidos. Era uma espécie de revolução o facto de um plebeu e até um vadio poderem consultar para os seus filhos os livros de uma ciência que passara de credo a credo e de regime para regime porque a todos servira sem um estremecimento.
O povo amava e alimentava Micer Joan, mas uma coisa e outra às escondidas. Quando, ao raiar do sol, ele se encostava sobre o grande baú que era o seu leito, via poisada no tijolo da braseira uma escudela cheia com as papas de milho e às vezes a cabeça de um peixe a fumegar. Entre as mulheres que o assistiam e as fadas. Joan não encontrava substancial diferença. Mesmo no fim das noites de maior lucidez em que a doce tontura do cansaço era o mais desejado dos prazeres ele encharcava a cara e bocejava, sentava-se a comer com ruidosas exclamações de apreço para as não ofender nos seus desvelos.
Pelo contrário, os nobres queriam-lhe um certo mal pois os desastres de que os avisara haviam quase todos sucedido. E não sabiam se Micer Joan lhes dera a conhecer os seus destinos traçados muito antes de eles nascerem, no início das eras do universo, pela mão que aprecia e distribui a dor — ou se, com nomeá-los, ele é que os inscrevia numa folha que Deus deixara limpa mas não suficientemente resguardada. A curiosidade e o medo eram, no entanto, mais fortes que essa dúvida e os fidalgos, já que Joan de Sória recusava sair ainda que fosse o rei a convocá-lo, vinham vê-lo na plena luz do dia. sem o menor disfarce, levando à frente os moços que se davam os braços para não escorregarem nas podridões da rua e recolhendo as capas que corriam o risco de lhes ficarem presas nos varandins de tábua, mais baixos do que os ombros de qualquer cavaleiro. Não queriam revelar a repugnância com que se sujeitavam a buscá-lo.
Micer Joan gostava daqueles bairros. E, do seu torreão de adobe e pedra, pairava sobre o peso, a sujidade, as tarefas despóticas dos homens. Mentia um pouco, o menos que podia, somente o necessário para os aliviar quando estavam a ponto de lançar fogo às casas num grande desespero.
Adão Cruz Mãe
(foto da eurodeputada italiana Licia Ronzulli que tem levado o filho consigo para várias sessões do Parlamento Europeu)
Mãe a palavra universal a palavra mais consensual da humanidade
Nem Deus… Deus é de uns e não de outros Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos
A mãe não a mãe é de todos sem excepção
A mãe é de todos e é só nossa a mãe é do crente e do ateu a mãe é do pobre e do rico do sábio e do ignorante
A mãe é dos poetas dos filósofos e artistas dos bons e dos maus a mãe é do amigo e do inimigo
Não há mãe de uns e não de outros não há ninguém sem mãe não há mãe de ninguém
A mãe é de toda a gente a mãe é de cada um a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto
A mãe é do longe e do perto da água e do fogo do sangue e das lágrimas da alegria e da tristeza da doçura e da amargura da força e da fraqueza
A mãe é certeza e aventura é medo e firmeza dúvida e crença a haste que se ergue no céu ou se aninha rente ao chão para que a morte a não vença
A mãe é a outra parte de nós
Sem mãe somos metade sem mãe nada é exacto igual a um igual a infinito onde se tocam princípio e fim onde os tempos se encontram sem tempo presente passado e futuro
A mãe é tudo a mãe é de mais a mãe é o máximo
A mãe é a lágrima que não seca no sorriso que não se apaga a nuvem que chove no sol que aquece a mensagem da luz e da harmonia e dos acordes matinais com que abre o nosso dia
A mãe levanta-se no orvalho das lágrimas da noite e mesmo cansada não perde a voz nem a cor da madrugada
A mãe é a voz que se não teme a voz que se confia a voz que tudo diz nas consoantes do grito nas vogais do silêncio nos abismos da agonia
Mãe
Primeira palavra a nascer a última palavra a morrer a mãe é sempre a mesma a mãe nunca é outra na sua infinita diferença
A mãe é criação a mãe é sempre o fim da obra-prima inacabada a mãe nunca é ensaio nem esboço nem projecto
A mãe é um milagre no milagre do mundo o único milagre concebido neste mundo real e concreto
Chora para que outros riam ri para que a dor a não mate mistura-se com a luz das estrelas para vencer a escuridão devora as nuvens por um raio de sol
A mãe é beleza e poesia aurora fulgurante aurora adormecida a mãe é bela porque é simples a mãe é simples porque nasce da silenciosa lógica da vida
A mãe é o que é a mãe é a fragilidade da semente a força do tronco a beleza da flor a doçura do fruto o dom de renascer
A mãe é tudo numa coisa só
Amor
(Conclusão)
O Culto de Fátima que havia sofrido um recesso devocional com a derrota dos exércitos nazistas, agora com o suicídio de Hitler foi repentinamente reavivado. Em outubro de 1945 o Vaticano ordenou que fossem organizadas grandiosas peregrinações até o Santuário de Fátima. Em 1946 a Senhora de Fátima foi solenemente coroada diante de meio milhão de peregrinos. A coroa, pesando 1.200 gramas é de ouro maciço. Ela tinha 3l3 pérolas, 1250 pedras preciosas e 1400 diamantes. Pio XII se dirigiu do Vaticano aos peregrinos, afirmando que as promessas da Senhora de Fátima seriam cumpridas. “Estai prontos”, ele admoestou. “Não pode haver neutros, nem um passo atrás. Organizai-vos como cruzados”(5).
Em 1947 começou a Guerra Fria. O ódio contra a Rússia Soviética foi promovido sob os auspícios do Vaticano o qual enviou uma estátua da Senhora de Fátima com a “mensagem” dela, em peregrinação ao redor do mundo. A estátua foi enviada de país em país, a fim de desencadear o ódio contra a Rússia. Todos os governos a saudavam. Dentro de poucos anos, à medida em que crescia a Guerra Fria, a estátua já tinha ido à Europa, Ásia, África, Américas e Austrália, tendo visitado 53 nações. A ruptura entre o leste e o oeste continuou a aumentar.
Em 1948 começou a ameaçadora corrida atômica americana-russa. Em 1949, Pio XII, no intuito de fortalecer o front anti russo, excomungou qualquer pessoa que votasse ou apoiasse os Comunistas. E logo em seguida, os teólogos católicos americanos disseram aos Estados Unidos que era o seu dever usar a bomba atômica (6). No ano seguinte 1950 a “estátua peregrina” que havia começado a viajar em 1947, no ano exato do início da Guerra Fria, foi enviada por avião, acompanhada pelo Padre Arthur Brassardi, sob as ordens expressas de Pio XII... para Moscou. Ali, com a calorosa aprovação do Almirante Kirk, Embaixador Americano, ela foi solenemente entronizada na igreja dos diplomatas estrangeiros. Para qual razão específica? “Aguardar a iminente liberação da Rússia soviética” (Nota da Tradutora: essa “iminente liberação” esperou por quarenta longos anos! Contudo se mil anos para Deus são como um dia, quem sabe para a Virgem esses 14.600 dias não corresponderiam a apenas algumas horas? Afinal, ela é ou não é uma deusa?)
Não contente com isso a Senhora de Fátima apareceu quinze vezes em pessoa a uma freira nas Filipinas. Ela repetiu sua admoestação contra o Comunismo. Depois disso, uma chuva de rosas caiu aos pés da freirinha. Um jesuíta americano levou as miraculosas pétalas para os Estados Unidos, a fim de reativar a energia dos católicos fanáticos, liderados pelo criminoso americano Senador McCarty e muito dos seus apoiadores (7). Entrementes os promotores americanos da guerra, liderados por proeminentes católicos estavam se preparando fervorosamente para uma guerra atômica contra a Rússia. Católicos influentes, nas posições mais responsáveis não falavam de outra coisa. No dia 06.08.49, o advogado católico, General Mac Grath, dirigindo-se às “tropas de choque” católicas dos Estados Unidos – Os Cavaleiros de Colombo – em sua convenção em Portland Oregon apressou os católicos a “levantarem-se e colocarem-se como armadura da Igreja Católica militante em batalha para salvar o Cristianismo” (Cristianismo significando, é claro, a Igreja Católica). Ele ainda apressava o país a uma “audaciosa ofensiva”.
Naquele mesmo ano, outro católico, uma das personalidades mais altas do governo americano, James Forestal, o principal cruzado contra o Comunismo nacional e estrangeiro, ajudou o Papa Pio XII a vencer as eleições na Itália enviando dinheiro americano além de dinheiro de seu próprio bolso. James Forestal, que estava em constante contato com o Vaticano e com o Cardeal Spellman, sabia melhor do que ninguém o que estava acontecendo em certos quadrantes americanos católicos. Por uma simples razão: ele era o Secretário Americano da Defesa. Um dia, quando escutou o barulho de uma aeronave de guerra, ele saiu correndo por uma rua de Washington, com a mais fatídica das mensagens: “os russos nos invadiram” gritava ele. Mais tarde sem levar em conta a garantia de Pio XII de que os russos seriam derrotados com o auxílio da Senhora de Fátima, o católico James Forestal, Secretário Americano da Defesa, pulou de uma janela do 16º andar de um prédio, no Capitólio Americano, temendo que fosse tarde demais para os russos serem derrotados (8).
No ano seguinte outro católico fanático foi nomeado para outro posto importante. Francis Mathews foi nomeado Secretário da Marinha Americana. Na manhã em que fez o pacto de compromisso (junho de 1949), Mathews, sua esposa e seis filhos assistiram contritamente a missa e receberam a Santa Comunhão na capela naval em Washington.
Alguns meses depois (outubro de 1949) o Cardeal Spellman foi convocado a Roma por Pio XII, com quem manteve repetidas e prolongadas reuniões particulares. Embora dando margem a agudas especulações essas reuniões ficaram no mais absoluto segredo. O novo Secretário da Marinha dos Estados Unidos, de modo muito estranho, logo em seguida, começou a ter contatos ativos não usuais com católicos proeminentes. Dentre estes, o Jesuíta Padre Walsh, Vice Presidente da Universidade de Georgetown; o Cardeal Spellman; o Chefe da Legião Americana; e os líderes dos Veteranos Católicos de Guerra. E com o Senador McCarty, o arqui criminoso Senador que sob conselho de um padre católico estava exatamente iniciando uma campanha difamatória que quase iria paralisar os Estados Unidos por alguns anos. A imprensa católica começou uma campanha de guerra psicológica, através de toda a nação. Menções abertas de uma rápida guerra atômica, mais uma vez, eram feitas. A culminância dessas atividades veio num discurso entregue em Boston, em 25.08.50, por Mr. F. Mathews. O arqui católico Secretário da Marinha Americana, porta voz de certas forças do Senador do Vaticano, convocou os Estados Unidos a desencadearem um ataque contra a Rússia soviética a fim de tornar o povo americano “os primeiros agressores pela paz, como iniciadores de uma guerra de agressão”, acrescentou ele, “e isso nos daria um título orgulhoso e popular: seríamos os primeiros agressores pela paz”.
O discurso causou sensação, tanto nos Estados Unidos como na Europa. A França declarou que “não tomaria parte em qualquer guerra de agressão... visto como uma guerra preventiva... liberaria nada menos que ruínas e túmulos de nossa civilização” (9). A Grã-Bretanha enviou uma resposta de protesto ainda mais ferina.
Enquanto o povo do mundo inteiro repelia a monstruosa proposta, George Craig, da Legião Americana, declarava (agosto de 1950): “sim, os Estados Unidos iniciariam a III Guerra Mundial sobre nossos termos e ficariam prontos, quando o sinal pudesse ser dado, para os nossos bombardeiros voarem sobre Moscou”.
O fato de advogar uma “guerra atômica preventiva” ter sido feito primeiro por um católico não foi mera coincidência. Mr. Mathews, o chefe do segmento mais importante das Forças Armadas Americanas – a Marinha, o maior instrumento de guerra do mundo, havia se tornado a obra verbal do seu mestre espiritual – Pio XII. Pois o arqui católico Mathews não era apenas um constante beijoqueiro do anel dos membros da hierarquia católica americana, ele era um dos mais ativos promotores do Catolicismo em ação nos Estados Unidos. Além disso, este super católico Secretário da Marinha Americana era o Gerente do Serviço Nacional Católico da Comunidade e ainda mais sinistro, o supremo cavaleiro dos Cavaleiros de Colombo (10), a tropa de choque do poder católico nos Estados Unidos, e, o que é melhor, o camareiro secreto particular do Papa Pio XII.
A hierarquia católica, a imprensa católica e os Cavaleiros de Colombo, todos apoiavam a advocacia de Mr. Mathews de uma guerra atômica preventiva. O padre jesuíta Walsh a mais destacada autoridade católica nos Estados Unidos, ex agente secreto do Vaticano na Rússia (1925) disse ao povo americano que “o Presidente Truman seria moralmente justificado ao tomar medidas defensivas proporcionais ao perigo”. Isto significava sem dúvida o uso da bomba atômica (11).
Quando os Estados Unidos prosseguiram com a fabricação da bomba de hidrogênio até mesmo o gerente da Comissão de energia Atômica, Senador Brian MacMahon, estremeceu de horror ante a perspectiva do massacre certo de 50 milhões de pessoas com uma arma tão letal (12). Contudo os católicos aprovaram o uso da mesma. O Padre Connell declarou que o uso da Bomba de Hidrogênio pelos Estados Unidos era justificado, porque “os Comunistas poderiam utilizar sua grande força armada... para enfraquecer os defensores dos direitos humanos".
A advocacia de uma guerra atômica preventiva pelo supremo cavaleiro dos Cavaleiros de Colombo – Mr. Mathews – assumia tremenda significação quando se recorda que o discurso do Secretário da Marinha dos Estados Unidos não causou surpresa a certos líderes seletos do catolicismo, muito menos ao Vaticano. Como assim? Simplesmente porque Mr. Mathews havia revelado o conteúdo do seu discurso em Boston aos católicos de elite, antes de entregá-lo. De fato, dias antes de ser pronunciado. O principal em tudo isso é que entre esses católicos havia pessoas influentes e entre elas, o líder da hierarquia católica dos Estados Unidos, o Cardeal Spellman.
Agora, deve se lembrar que o Cardeal Spellman estava em permanente contato pessoal com o Papa Pio XII de quem ele fora amigo íntimo e conselheiro particular para assuntos políticos desde a II Guerra Mundial. O Cardeal Spellman, além de tudo, era o conselheiro e amigo pessoal do mais influente líder militar da América. Desse modo, qualquer coisa importante que fosse conhecida no “pequeno Vaticano” em Nova Iorque como era chamada a residência do Cardeal Spellman, era imediatamente conhecida no Vaticano em Roma e vice-versa. O Papa Pio XII fora bem informado sobre todo o processo, muito antes do discurso de Mathews em Boston. De fato, a evidência é de que ele tenha sido um dos seus mais tácitos instigadores. As visitas contínuas nesse tempo de líderes militares influentes do Estados Unidos ao papa, (cinco num só dia), as freqüentes audiências secretas com o Cardeal Spellman, os contatos extra oficiais com os cavaleiros de Colombo, tudo isso indicava que Pio XII sabia muito bem o que de fato estava para acontecer (13).
Alguns anos mais tarde, numa cruzada de ódio, num discurso falado simultaneamente nas 27 línguas principais, nas principais estações de rádio do mundo, Pio XII reiterou “a moralidade... de uma guerra defensiva” (isto é, uma guerra atômica e de hidrogênio), exigindo, conforme descrito sombriamente no London Times: “o que quase se iguala a uma cruzada da Cristandade” e que o Manchester Guardian ostensivamente denominou “a bênção do papa para uma guerra preventiva” (14).
Ante Pavelic, o Arcebispo Stepinac (que o papa havia promovido a cardeal) e todos os batalhões da Ustashi, diante de tal grito de guerra papal, ficaram em alerta. Dessa vez não iriam perder, visto como seu protetor, o próprio Pio XII, agora se aliara, em vez de a Hitler, a um novo apoiador e parceiro – a mais poderosa nação da terra, os vitoriosos Estados Unidos da América.
Nestes lamentáveis dias de encenação da tragicomédia de Fátima, torna-se imperiosa a leitura do
capítulo 20 do impressionante livro de Avro Manhattan, o Holocausto do Vaticano, onde se expõe de maneira admirável, ainda que a tradução seja má, a fabricação do maior embuste do século XX. Não deixem de ler, se têm respeito pela transparência do vosso pensamento e se acreditam que vale a pena a gente saber as linhas com que se cose… ou melhor, as linhas com que nos cosem.
Pessoalmente, eu não tenho direito a desrespeitar quem quer que seja que acredite no que quiser, e não o faço. A minha vida prova-o. Pelo contrário, tenho todo o direito de combater as crenças, sejam elas quais forem, como homem de pensamento livre e cidadão de razão e consciência, quando tais crenças se apresentam, através de irrefutáveis provas, como falsas e geradoras de profundo obscurantismo, nefasto ao desenvolvimento saudável do homem.
Num mundo extremamente desenvolvido do ponto de vista científico, num mundo de inimagináveis infinidades, num mundo cujas minúsculas descobertas científicas recentes, nos dizem que há, numa galáxia que não é a nossa, de entre triliões de galáxias, biliões de planetas aparentemente com condições semelhantes às da Terra, arranjem e acreditem no Deus que quiserem, mas, “por amor de Deus”, não caiam no ridículo de acreditarem num deus do Universo que tem, como ministros e seus representantes, Ratzinger e o Bispo de Leiria.
Adão Cruz
Capítulo 20
A VIRGEM MARIA E O SECRETÁRIO DA MARINHA DOS ESTADOS UNIDOS CONVOCAM A III GUERRA MUNDIAL
Quarenta anos antes do julgamento do idoso Ministro do Interior da Croácia, de 86 anos, na Corte de Zagreb, onde ele foi considerado culpado de crimes de guerra e condenado à morte, a provável eclosão da III Guerra Mundial fora visualizada e quase se tornava em certeza. De fato ela fora considerada uma bênção por Artukovic, Ante Pavelic e seus batalhões da Ustashi, pelo Arcebispo Stepinac, pelo Cardeal Mindszenty e por outros experts. Ela fora esperada com não menos ansiedade em certos quadrantes dos Estados Unidos, pelas mais altas autoridades do Vaticano e pelo próprio papa.
O Papa Pio XII arqui intrigante diplomático e político, era um firme crente na inevitabilidade dessa guerra. Mais que isso, ele condicionou milhões de católicos a aceitá-la sem problema. Em verdade, até a dar-lhe boas vindas, como um instrumento de propagação do poder da Igreja Católica. Ele justificava isso na suposição de que a Virgem Maria era sua aliada. Desde 1917, ano da Revolução Russa, ela havia aparecido a três crianças analfabetas em Fátima, uma desolada localidade em Portugal.
Sua aparição fora acompanhada por um milagre um tanto estranho:
O sol empalideceu, girou três vezes ao redor de si mesmo, como se tivesse rodas... E no final dessas convulsivas evoluções, ele pareceu saltar fora de sua órbita e se adiantou na direção das pessoas num curso em zig-zag, parou e regressou à sua posição normal.
Isso foi visto por uma grande multidão junto às crianças e “durou doze minutos” (1).
O fato de dois milhões de pessoas no mundo inteiro jamais terem notado esse sol se agitando, rodando e pulando fora de sua órbita não preocupava a Igreja Católica de modo algum. Pelo contrário, às massas católicas foi dito que acreditassem que o sol, na aparição da Virgem Maria, realmente tinha se movido em zig-zag, como prova de autenticidade de sua presença. E, é claro de suas mensagens.
As mensagens da Virgem foram para induzir o papa a fazer “a consagração do seu Imaculado Coração” e a seguir, “a consagração da Rússia”. Ela predisse: “A Rússia se converterá”; “O Santo Padre me consagrará a Rússia”. Mas ela também advertiu que, se isso não fosse atingido, “os erros dela (Rússia) se espalhariam pelo mundo inteiro, causando guerras e perseguições... e várias nações seriam destruídas”... No final, contudo, a Virgem Maria prometeu, como meio deconsolação, que a Igreja Católica triunfaria, após o que “o Santo padre me consagrará a Rússia”. “A partir daí ela (Rússia) se converterá e um período de paz será concedido ao mundo”.
Essas citações são das mensagens autenticadas da própria Virgem Maria, conforme relatado a uma das crianças e completamente aceitas pela Igreja Católica como uma genuína revelação da Mãe de Deus (2).
Dentro de poucos anos o Culto de Fátima havia crescido a grandes proporções. O número de peregrinos multiplicou-se de 60 em 13.06.1917, para 60.000 em outubro do mesmo ano. De 144.000, em 1923, foi para 588.000, em 1928. O total de seis anos foi de 2 milhões de pessoas (3). O Vaticano levou a sério as promessas. O Monsenhor Pacelli, o futuro Pio XII, que era a eminência parda por trás de Pio XI, patrocinou uma política de apoio ao Fascismo na Itália e ao Nazismo, na Alemanha, no sentido de ajudar a cumprir a profecia da Virgem. Isso foi a tal ponto, que ele se tornou o instrumento principal de auxílio para levar Hitler ao poder. Ele o fez, forçando o Partido Católico Alemão a votar em Hitler nas últimas eleições gerais da Alemanha em 1933 (4). A idéia básica era muito simples. O Fascismo e o Nazismo, além de esmagar os Comunistas na Europa, por último esmagaria a Rússia Comunista. Em 1929 Pio XI assinou uma Concordata e o Tratado Laterano com Mussolini, chamado por ele de “o homem enviado pela Providência”. Em 1933 Hitler se tornou o Chanceler da Alemanha. Em 1936 Franco começou a Guerra Civil. Em 1938 dois terços da Europa já eram fascistas e rumores da II Guerra Mundial eram ouvidos mais e mais ameaçadoramente em toda parte.
Ao mesmo tempo, contudo, a Europa também se tornara fatimizada. O Culto de Fátima, com ênfase sobre a promessa de conversão da Rússia feita pela Virgem, foi dada a maior promoção pelo Vaticano. Em 1938 o Núncio papal foi enviado a Fátima e a quase um milhão de peregrinos foi dito que a Virgem havia confiado três grandes segredos às crianças. Depois disso, em junho daquele mesmo ano, a única sobrevivente das três crianças, aconselhada pelo seu confessor, sempre em contato com a hierarquia católica, e daí com o Vaticano, revelou o conteúdo de dois dos três grandes segredos.
O primeiro segredo foi uma visão do inferno (algo bem conhecido no mundo moderno). O segundo ia mais direto ao ponto; era uma reiteração de que a Rússia Soviética iria se converter à Igreja Católica. O terceiro foi entregue num envelope selado e posto sob a custódia das autoridades eclesiásticas, não podendo ser revelado antes de 1960.
A dramática reiteração da revelação do segundo segredo sobre a Rússia Soviética assumiu imediatamente uma tremenda significação religiosa e política. O tempo da “revelação” não poderia ter sido melhor escolhido. As ditaduras fascistas estavam falando a mesma língua: a aniquilação da Rússia Soviética. No ano seguinte estourou a II Guerra Mundial. Em 1940 a França foi derrotada. Toda a Europa havia se tornado fascista. Em 1941 Hitler invadiu a Rússia. A profecia da Virgem finalmente estava para se cumprir. No Vaticano havia regozijo. Já por esse tempo Pacelli se tornara papa com o nome de Pio XII (1939).
Pio XII encorajava os católicos a se apresentarem como voluntários no front russo. Os católicos – a maioria deles sendo devotos da Virgem de Fátima – logo se juntaram aos exércitos nazistas da Itália, França, Irlanda, Bélgica, Holanda, América Latina, Estados Unidos e Portugal. A Espanha enviou sua Divisão Azul Católica. Em outubro de 1941, enquanto os exércitos nazistas se colocavam ao redor de Moscou, Pio XII, dirigindo-se a Portugal, apressou os católicos a orar pela rápida realização da promessa da Senhora de Fátima. No ano seguinte, 1942, após Hitler ter declarado que a Rússia Comunista tinha sido “definitivamente” derrotada, Pio XII numa mensagem de Jubileu, cumpriu a primeira das exigências da Virgem, “consagrando o mundo inteiro ao seu Imaculado Coração”. O Cardeal Cerejeira (Portugal) escreveu no mesmo ano: “as aparições de Fátima abrem uma nova era... é o delinear do que o Imaculado Coração de Maria está preparando para o mundo inteiro”. A nova era, em 1942, era um continente europeu completamente nazificado, com a Rússia sendo aparentemente varrida do mapa mundial, o Japão conquistando metade da Ásia, e o Fascismo Mundial atingindo o seu ápice. O Império Fascista se evaporou após o colapso de Hitler. Em 1945, a II Guerra Mundial terminou. E a Rússia Soviética para vexatória surpresa de Pio XII emergiu como segundo maior poder mundial.
(Conclui amanhã)
Em nada me interessa a Igreja católica em si mesma. Porém, como cidadão, não posso ficar ao lado dos fenómenos que afectam, positiva ou negativamente, a sociedade e a humanidade. Desde há muitos anos que me arrepia o paganismo que se fabricou em Fátima, a monumental impostura que se ergueu no nosso país. Mas muito mais do que o paganismo me arrepiam os crimes de toda a ordem que estão na sua génese.
Sou médico há meio século, tive na minha frente toda a espécie de pessoas, desde a mais ignorante à mais sábia. Respeito tanto os ignorantes como os sábios, os cultos e os incultos, mas não tenho o mínimo respeito nem contemplação pela ignorância e pela incultura. Também não sinto respeito pelo trabalho de quem quer que seja que se dedique, de uma maneira ou de outra, a cultivar a ignorância, a escamotear a verdade e a anular a razão.
O maior crime que se pode cometer contra o Homem não é matá-lo mas tapar-lhe os olhos. Ao matar o Homem não se mata a ideia. Ao tapar-lhe os olhos mata-se o Homem e a ideia.
Há pessoas crentes, inteligentes e cultas. Simplesmente, em meu entender, não foi a cultura, mas outra razão qualquer, que gerou e enraizou a crença. A verdadeira cultura é, habitualmente, um obstáculo e remete muito mais para o antagonismo do que para o agonismo da fé. A Igreja tem homens inteligentes, não podemos negá-lo, embora minados de fragilidades e contradições que, na minha opinião, resultam de uma consuetudinária mentira e de uma hierarquia fundamentalista que impõe, pela inércia das ideias paralíticas e pela força do poder temporal a que sempre esteve ligada, uma mensagem que nada tem a ver com a do verdadeiro Cristo nem com a libertação do Homem. Antes pelo contrário, explora e expande todos aqueles conceitos arcaicos que sempre contribuíram fortemente para a exploração e a repressão, liderando sofismaticamente a luta pelos fracos, no terreno fértil de uma humanidade sofredora, aterrorizada e inculta, vítima maior desse mesmo poder que sustenta e sempre sustentou a Igreja.
Entre a mentalidade e a esclerosada verdade de monsenhores, rotulados de catedráticos, entre as habilidades retóricas, os rendilhados e emaranhados raciocínios de homens inteligentes, entre as palavras de homens bons, palavras, no entanto, não alheias a uma incapacidade de definição e de posicionamento quanto à etiopatogenia dos males da humanidade e à crítica da Igreja, entre tudo isto, repito, e a reflexão, a coragem, a lucidez, a clareza e a serenidade de quem tudo isto denuncia, vai um abismo.
Como é possível que homens inteligentes dentro da igreja embarquem nesta tão primária encenação no palco da Cova da Iria? Ou andam a fazer de conta? Penso que muitos milhares, se não milhões de pessoas, já ouviram esclarecedoras e corajosas denúncias contra uma das maiores fraudes do século, co-responsável - a par de tantos outros mecanismos de anestesia mental que o poder detém ou inventa - pelo atraso do nosso povo e da nossa sociedade. Por que razão será tão difícil libertar as pálpebras e abrir os olhos?
A Igreja católica, essa portentosa catedral multinacional, historicamente enrodilhada num mar de escândalos e de obscuras e complexas ligações, adquiriu tal poder que já nem se importa que o produto que fabrica seja o antídoto de tudo aquilo que pretende proclamar. Com efeito, a Igreja deve ser hoje a maior fábrica de ateus.
Nestes negros dias de Fátima, em que parte da humanidade mergulha na escuridão do absurdo, é imprescindível desanestesiar a memória, e permitir-lhe algum recobro, a fim de que ela nos diga que Igreja é esta que está por detrás da lamentável tragicomédia do 13 de Maio.
Como diz o nosso amigo Carlos Loures, os crimes da Igreja católica são tão numerosos que nem uma obra com a extensão da Enciclopédia Britânica, composta a corpo 8, os poderia descrever.
E continua, o amigo Carlos: “Voltando a Pacelli - os judeus protestaram e, desta vez, com razão. Durante a 2ª Guerra Mundial, Eugenio Pacelli foi tão isento que lhe chamavam «il Tedesco». Sabia-se que o cardeal Pacelli era germanófilo. Parte da sua formação académica decorrera em Munique e em 1929 vivia em Berlim. Foi neste ano que Pio XI o chamou ao Vaticano e o nomeou secretário de Estado. Negociou com Mussolini o Tratado de Latrão (a Igreja Católica recebeu 750 milhões de liras e reconheceu o regime fascista). Foi Pacelli quem, em 1933, quebrou o isolamento diplomático a que a comunidade internacional votara o novo governo alemão, aprovando a Concordata entre o Vaticano e o governo de Hitler.
“Em 1939, Pacelli, sucedeu a Pio XI como nome de Pio XII. A sua relação com Mussolini e Hitler sempre foi cordial. Não podia deixar de saber da «solução final», que previa a eliminação dos 11 milhões de judeus da Europa. No Natal de 1942, referiu discretamente as «centenas ou milhares» de pessoas que, sem outra culpa que não a sua nacionalidade ou etnia, estavam «assinalados pela morte e por uma progressiva extinção». Sabia também que muitos dos que iam para as câmaras de gás não era pela sua etnia, mas sim pela sua opção política ou pela sua orientação sexual. Entre os esquerdistas e os homossexuais executados, havia numerosos católicos”.
“Quando do morticínio no Gueto de Roma, em Outubro de 1943, Pio XII permaneceu em silêncio. A Santa Sé mandou uns telegramas e fez uns telefonemas para o embaixador alemão, aceitando as justificações ladradas pelo diplomata. Quando a guerra terminou, Pio XII proporcionou passes, salvos condutos e passaportes a criminosos de guerra, fascistas e nazis, bem como a colaboracionistas italianos que estavam abrigados no Vaticano e assim puderam recomeçar as suas vidas no Paraguai, na Argentina ou em Espanha. E para cúmulo da severidade, deu-lhes pequenas quantias em dinheiro”.
E era este homem, devoto e fanático da senhora de Fátima!
Fala-se muito do holocausto nazi e de Estaline, fala-se alguma coisa da tenebrosa Inquisição, não se fala nada do holocausto praticado pela igreja católica na Croácia e não só, aquando da segunda Guerra Mundial. E a barbaridade e crueldade deste holocausto não fica a dever nada, pelo menos em qualidade, ao holocausto nazi. Em certas circunstâncias parece superá-lo.
Nestes dias de profunda mentira e hipocrisia, nestes dias de propaganda da santidade do Vaticano e de sonoros Avés, todos os alertas são poucos. A todos os não católicos e a todos os católicos que têm dignidade e sentimento de vergonha, e acredito que serão muitos, eu apelo para que leiam “O holocausto do Vaticano”. Livro banido e temido pela Igreja, um dos livros mais lidos no mundo, não é, por todas as razões e mais alguma, fácil de encontrar e muito menos de obter. Apesar de já o ter lido em tempos, sempre procurei encontrá-lo. Encontrei-o na Net, na versão inglesa, também traduzida, embora muito deficientemente, pelo “translate” do Google. Podem aceder a ele em www.reformation.org/holocaus.html .
Sobre esse holocausto, que nos mostra à saciedade quem é a Igreja que inventou Fátima e preside às suas rendosas cerimónias, transcrevo este magnífico texto de Airton Evangelista da Costa:
INQUISIÇÃO NA CROÁCIA
É muito comum referirmo-nos aos dez séculos de Inquisição – a Idade das Trevas – como a única e mais cruel máquina de extermínio de não católicos e de conversão forçada, em que acatólicos foram perseguidos, torturados e mortos. Recordemos que passados mais de duzentos anos do famigerado Santo Ofício milhares de não católicos foram dizimados na Croácia – os Sérvios Ortodoxos – sob a aquiescência e omissão da Hierarquia Católica. Ali esteve em operação o espírito da Inquisição. “A magnitude da carnificina pode ser melhor avaliada pelo fato de que dentro dos primeiros meses, de abril a junho de 1941, 120.000 pessoas pereceram. Proporcionalmente, à sua duração e a pequenez do território, foi este o maior massacre já acontecido em qualquer lugar no ocidente, antes, durante e após o maior cataclisma do século – a II Guerra Mundial (The Vatican´s Holocaust – Avro Manhattan (1914-1990), 1986.
A ferocidade foi de tal monta que os “nazistas ficaram horrorizados”. A bestialidade suplantou “tudo que fora experimentado na Alemanha de Hitler”. Mônica Farrell, uma ex-católica romana, relata em seu livro Ravening Wolves (Lobos Vorazes), citada por Mary Schultze, em “Conspiração Mundial”:
“Este é um registro das torturas e assassinatos cometidos na Europa entre 1941/43, pelo exército de ativistas católicos, conhecido como Ustashi [organização terrorista], liderado por monges e padres e do qual até mesmo freiras participaram. As vítimas sofreram e morreram por causa da liberdade de consciência. O mínimo que podemos fazer é ler os registros de seus sofrimentos e guardar na lembrança o que aconteceu, não na Idade Média, mas na nossa própria geração iluminada. Ustashi é outro nome da Ação Católica”.
O novo Estado Independente da Croácia, agindo em conexão com o nazismo de Hitler, da forma mais cruel e repugnante perseguiu, trucidou, torturou e matou mais de um milhão de pessoas em pouco tempo.
A PARTICIPAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
Tudo começou no dia 10 de abril de 1941, quando foi proclamado o Estado Independente da Croácia, como resultado do triunfo do exército alemão que já havia entrado no país. Na verdade estava nascendo o Novo Estado Católico, sob a liderança espiritual do Arcebispo Stepinac. Diz Avro Manhattan:
“Naquele mesmo dia, os jornais de Zagreb [capital] veicularam anúncios com o objetivo de que todos os residentes ortodoxos sérvios do novo Estado Católico deveriam evacuar a cidade dentro de 12 horas; e qualquer que colaborasse com um Ortodoxo seria imediatamente executado.
No dia 13 de abril, Ante Pavelic, governante do Novo Estado, chegou a Zagreb procedente da Itália. No dia seguinte, o arcebispo Stepinac foi encontrá-lo pessoalmente e o congratulou pelo cumprimento da obra de sua vida. Qual era a obra da vida de Pavelic? A criação da tirania fascista mais impiedosa de todos os tempos para desonrar a Europa”.
A História revela que a conexão Igreja-Estado sempre produziu uma máquina poderosa, pronta para cercear a liberdade de consciência. Em 28.06.1941, o Arcebispo Stepinac abençoou e aprovou o novo governo com as seguintes palavras: “Enquanto o saudamos cordialmente como Chefe do Estado Independente da Croácia, imploramos ao Senhor dos Astros que lhe dê as bênçãos divinas como líder do nosso povo”. Pavelic, o novo líder, “era o mesmo homem sentenciado à morte por assassinatos políticos; uma vez pelos tribunais iugoslavos, pela morte do Rei Alexandre I, e outra, pelos franceses, pela morte do Ministro Francês do Exterior, Barthou”.
O Vaticano ficou mais vinculado ainda ao Novo Estado Fascista quando membros da Hierarquia Católica foram eleitos para o SABOR (parlamento totalitarista), dentre eles o Arcebispo Stepinac. Avro Manhattan revela que “todos os oponentes em potencial – comunistas, socialistas, liberais – foram banidos ou aprisionados. Uniões comerciais foram abolidas, a imprensa foi paralisada, a liberdade da fala, de expressão e pensamento tornaram-se coisa do passado. Todo esforço foi feito no sentido de forçar a juventude a se filiar às formações para-militares, enquanto as crianças eram moldadas pelos padres e freiras. O ensino católico, os objetivos católicos, e os dogmas católicos tornaram-se compulsórios em todas as escolas. O Catolicismo foi proclamado como religião oficial do Estado”.
A participação da Igreja Católica no novo Estado torna-se ainda mais evidente quando sabemos que “o primeiro Comandante Ustashi no Distrito de Udbina foi o frade franciscano Mate Mogus. No comício de 13.06.41, em Udbina, ele fez esta homilia: `olhai, povo, para estes dezesseis bravos Ustashis, que têm 16.000 balas e matarão 16.000 Sérvios…”; Em Dvor na Uni, o Pe. Anton Djuric, fez um diário de suas atividades, como funcionário da Ustashi. O diário mostra que sob suas ordens a Ustashi derrubou e incendiou a Vila de Segestin, onde 150 Sérvios foram assassinados…”.
O plano diabólico aprovado por Pavelic, conforme declaração dos Ministros da Ustashi, era o seguinte: “Todos os que entraram em nosso país há 300 anos atrás devem desaparecer… a nova Croácia se livrará de todos os Sérvios em seu meio, a fim de se tornar cem por cento católica, dentro de dez anos…mataremos uma parte dos sérvios, levaremos outra para fora e o resto será forçado a abraçar a religião católica romana…o Estado Independente da Croácia não pode nem deseja reconhecer a Igreja Ortodoxa Sérvia”
Não é válido defender Stepinac com a alegação de que ele pretendia defender a Iugoslávia do comunismo, a julgar que o nazismo seria algo um pouco melhor. Nada justifica o apoio irrestrito ao sanguinário governo de Pavelic.
CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO
Leiam o que está escrito em “O Holocausto do Vaticano”:
“Os representantes da única `Igreja verdadeira´ não apenas conheciam tais horrores, como alguns deles eram autoridades nesses mesmos campos e até haviam sido condecorados por Ante Pavelic. Como exemplo, temos o Pe. Zvonko Brekalo, do campo de concentração de Jasenovac, que foi condecorado pelo próprio líder com a “Ordem do Rei Zvonimir”. O Pe. Grge Blazevitch, assistente do comandante do campo de Bozanski-Novi; o irmão Tugomire Soldo, organizador do massacre dos Sérvios, em 1941. E outros mais”. Nesse tempo, estava no comando da Igreja Católica o papa Pio XII (1876-1958), pontífice de 1939 a 1958.
Tais campos de concentração estavam sob a supervisão direta de Pavelic. Aos ustashis cumpria enviar para os campos as pessoas não confiáveis, que eram sumariamente liquidadas. Vejamos apenas uma pequena descrição dos horrores:
“Em março de 1943 os internos do campo de Djakovo foram propositadamente infectados com tifo, causando a morte de 567 pessoas; em 15.09.41, a mesma coisa aconteceu no campo de Jasenovac, chegando a 600/700 o número de mortos; no campo de Stara Gradiska, 1.000 mulheres foram mortas; dos 5.000 Sérvios Ortodoxos levados para o campo de Jasenovic, no final de agosto de 1942, 2.000 foram mortos a caminho, os restantes transferidos para Gradina, onde, em 28.08.41, foram mortos a marteladas; no campo de Krapje, em outubro de 1941, 4.000 pessoas foram assassinadas, enquanto no campo de Brocice,em novembro de 1941, 8.000 tiveram o mesmo destino; de dezembro de 1941 a fevereiro de 1942, em Velika Kosutanica e Jasenovac, mais de 40.000 Sérvios Ortodoxos trazidos dos vilarejos das fronteiras da Bósnia, foram exterminados, inclusive 2.000 crianças; em 1942, havia cerca de 24.000 crianças, somente no campo de Jasenovac, das quais 12.000 foram assassinadas a sangue frio. Uma grande parte das restantes, tendo sido mais tarde liberada diante da pressão da Cruz Vermelha Internacional, pereceu aos montes, de intensa debilidade física. Em destas crianças, acima de 12 meses, morreram após saírem do campo por causa de soda cáustica adicionada à alimentação; o Dr. Katicic, Presidente da Cruz Vermelha, por haver denunciado ao mundo o extermínio em massa das crianças, foi internado no campo de concentração de Stara Gradiska, por ordem de Pavelic; na primavera de 1942, no desejo de imitar os campos nazistas da Alemanha e da Polônia, pessoas foram cremadas ainda vivas, simplesmente empurrando-as para dentro dos fornos previamente aquecidos”.
BEATIFICAÇÃO
“Há dois anos [1998] João Paulo II beatificou o Arcebispo de Zagreb, Cardeal Alojzije Stepinac, defensor da “limpeza étnica” implementada pelos católicos croatas nos anos 40, e prepara-se para fazer o mesmo em relação a Pio XII, o papa que pecou por omissão. Com a palavra Settimia Spizzichino, a única judia romana que sobreviveu a Auschwitz, depois de ser cobaia de Joseph Mengele:
“Voltei sozinha de Auschwitz [Cidade da Polônia, na província de Bielsko-Biala. Famosa por abrigar o maior campo de concentração nazista durante a segunda guerra mundial]. Perdi minha mãe, duas irmãs, uma sobrinha e um irmão. Pio XII poderia ter nos alertado para o que ia acontecer, poderíamos fugir de Roma e nos juntar aos guerrilheiros. Ele nos jogou nas mãos dos alemães. Tudo aconteceu debaixo de seu nariz. Quando dizem que o papa é como Jesus Cristo, sei que não é verdade. Ele não salvou uma única criança. Não fez absolutamente nada.” (O Estado de S.Paulo, 26.03.2000).
Sobre o assunto, li na Internet: “Decerto que o Papa pode beatificar e canonizar quem quiser, mas a beatificação de alguém com um passado no mínimo nebuloso como o Cardeal Stepinac [elevado a cardeal em 1953] é um insulto à memória de todos os que foram assassinados pela Ustasha e pelo nazismo”.
Com a derrocada de Hitler, caiu por terra o sonhado Estado Católico da Croácia. Em 11 de outubro de 1946, a Suprema Corte em Zagreb condenou o Arcebispo Stepinac a 16 anos prisão em trabalhos forçados. As principais acusações, conforme consta do processo, foram: 1) colaboração política com o inimigo e seus agentes; 2) convocação dos sacerdotes católicos para colaborarem com os traidores, conforme circular distribuída em 28.04.1941; 3) como presidente da Ação Católica e do congresso dos bispos influenciou a imprensa católica, que fez propaganda do fascismo, elogiou Hitler e Pavelic, e deu cobertura a todo o processo. Stepinac saiu da prisão antes do tempo previsto.
Não iremos descer aos detalhes das conversões forçadas de ortodoxos, que, diante do poder da espada, temendo por sua vida e de seus familiares, submetiam-se aos humilhantes ritos de iniciação ao catolicismo; também não faremos referência às crianças órfãs, aos milhares, que foram expatriadas, raptadas e levadas para outros países; colocadas em orfanatos dirigidos por padres e freiras, rebatizadas com nomes católicos, crescendo sem o contato com seu grupo étnico e religioso original; não falaremos do modo sanguinário, feroz e cruel como muitos Sérvios foram torturados e mortos, enterrados vivos, sangrados, mutilados; das dezenas de templos ortodoxos que foram destruídos ou transformados em salas destinadas às atividades ligadas ao catolicismo. Avro Manhattan, em seu minucioso trabalho em The Vatican´s Holocaust, registra à guisa de conclusão:
“Os massacres da Ustashi, todas as atrocidades cometidas por oficiais católicos, padres ou monges, faziam parte de um esquema friamente calculado para a total eliminação das massas ortodoxas, ativa e passivamente resistindo à sua absorção pela Igreja Católica no sentido de se tornarem ovelhas do seu rebanho. De fato, esta foi a política premeditada pela hierarquia católica, agindo em favor do seu verdadeiro e único inspirador – o Vaticano”.
E termino eu, dizendo e resumindo:. Guerras do Vaticano contra o nascimento da Jugoslávia, política católica de penetração e desintegração, separatismo croata, a USTASHI, assassinatos políticos, a Gestapo Católica, delegações fascistas ao papa, Ante Pavelic, o carrasco, e Pio XII em negociações secretas, expedições punitivas, execuções em massa, o aluno franciscano que cortou as gargantas de 1360 prisioneiros, ortodoxos sérvios crucificados, olhos arrancados das órbitas, famílias inteiras enterradas vivas por freiras e padres católicos, clero ortodoxo assassinado, a conversão ou a morte perante o monstro franciscano Padre Filipovic. Arcebispo Stepinac, supremo vigário apostólico do Exército Ustashi, campos de concentração para crianças ortodoxas, tudo com o aval do Vaticano. Um milhão de vítimas. O PAPA PIO XII ABENÇOA PAVELIC E A USTASHI por todas as suas acções em prol da defesa da fé .A mesma fé que o Vaticano ergue e alimenta em Fátima. Felizmente que não são tempos de holocausto.
Adão Cruz Inadmissível atentado ao Pingo Doce na esquina do Bonjardim
(pormenor da Ribeira Negra de Júlio Resende)
A pobre mulher tinha lágrimas nos olhos.
Pudera!
Encostada à carrinha da polícia, aguardava a elaboração do auto, que o agente escrevia, com ar de gozo.
A pobre mulher tinha, na soleira de uma porta, à esquina da rua do Bonjardim com Fernandes Tomás, uma pequena caixa de esferovite com duas marmotas, que procurava vender.
Esta situação também me arrancou das entranhas algumas lágrimas de raiva e revolta, ainda mais pelo facto de este local distar uma centena de metros do Pingo Doce, que, como sabemos, se lembrou de festejar o Primeiro de Maio da forma mais vergonhosa e escandalosa que se possa imaginar, pela falta de ética, moral, ética social, negocial, comercial. Para não falar no monte de ilegalidades e irregularidades que, eventualmente, estarão por detrás de acto tão feio. Numa situação caótica como aquela valerá tudo, porventura, até escoamento do que está fora de prazo.
Mas a carrinha da polícia não esteve lá, pelo menos a ver se as marmotas eram frescas, pois até eu já comprei no Pingo Doce um polvo podre. A carrinha da polícia só vai ao Bonjardim, multar quem se atreve a vender duas marmotas que deveriam estar, por exemplo, na banca de peixe do Pingo Doce e não ali na soleira de uma porta.
Notícias de hoje dizem o seguinte:
“A investigação da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) à campanha promocional dos supermercados Pingo Doce no 1.º de Maio vai estar concluída no início da próxima semana, informou o inspetor-geral.”
“A rádio Antena 1 afirmou que a ASAE detetou a prática de “dumping” em três produtos (arroz, óleo e uísque) vendidos na promoção do Pingo Doce no 1.º Maio, notícia que António Nunes não confirmou nem desmentiu à Lusa.”
“Grandes superfícies lucram mais de 50% em alguns alimentos
O lucro das grandes superfícies supera os 50 por cento na venda de alguns tipos de alimentos, revelou o Observatório dos Mercados Agrícolas.”
Mas o Pingo Doce está a rir-se à tripa-forra, com o papo cheio e com a alma elevada aos céus destas ignominiosas catedrais de consumo.
Está a rir-se da humilhação a que submeteu os trabalhadores de um povo inteiro, está a rir-se da ASAE, cuja rede é demasiado pequena para tão grande peixe, está-se marimbando para a legalidade e para a ética.
Só a pobre mulher da esquina do Bonjardim não tem vontade de rir. É um peixe demasiado pequeno para tão grande rede.
O sol quando nasce…
Primeiro
Único
Verdadeiro
Maio acordado
Penoso
Duro
Forçado
Floresta de braços e abraços
Festa dor do Maio primeiro
Carne e alma
Seio fecundo
Onde corre o leite que alimenta o mundo
Ir e voltar
A ir e a vir
Noite e dia
Penoso caminho da vida inteira
Para prender um braço de sol
Entre mãos crispadas
Calejadas
Calor que os filhos aquece
Calar da fome que os adormece
Luta que não esmorece
Na esperança de outros sóis
Medos e canções de Maio
Maio de sempre
No fundo dos corações
Terra vida
Vida de todos que amam a terra
Na palma da mão
Aberta e solidária
Festa da alegria
Maio dor e lágrimas
Nunca Maio da agonia
Sol inteiro roubado
Sol do acordar de Maio
Incandescente
Que o sol será de todos
Maio de sol nascente
Adão Cruz Comemorações da hipocrisia
(Adão Cruz)
Eu peço desculpa por meter, hoje, no Estuário, irmão do delicioso Jardim das Delícias, este creme feito de leite azedo e de gosto amargo mas não sou eu o responsável pelos ingredientes.
Aquilo que se passou naquele lugar que dá pelo nome de Assembleia da República, e deveria chamar-se Assembleia dos Interesses alheios à República, foi uma enfadonha cantilena sem qualquer alma e um despudorado ramalhete de hipocrisia. Até os pobres dos cravos pareciam todos murchos.
Ainda que respeitando e salvaguardando as pessoas honestas e sinceras que lá se encontravam, esta desenraizada cena, esquálida e amarelecida múmia da revolução, sem sangue nem vida, repugna e faz subir à garganta um nó que só consegue desatar-se quando uma lágrima de saudade humedece o canto dos olhos.
Ouvir o Presidente percorrer no seu discurso todo um mundo feito de males e bens, com a escamoteada intenção de branquear os males e redimir-se da grande responsabilidade que teve na génese da miséria que hoje somos, vá que não vá. O que se torna insuportável é ouvi-lo a meter, a martelo e a contragosto, o 25 de Abril aqui e ali, disfarçadamente , para enfeitar as palavras do discurso.
E quase nos apetece dar razão àquele sujeito com ar assim… assim grosso modo, de olhos ramelados pelo ódio, usando o cérebro com a fralda de fora, aquele sujeito com comportamento que parece marginal à linha darwiniana, aquele sujeito com a polícia à perna e que terá deitado mil e tal milhões de todos nós pelo cano abaixo, ou por canos que ninguém sabe onde vão dar, quando chama a estas coisas “folclore abrileiro”.
Claro que não é ao folclore da Assembleia que ele quer chegar. Embora isso o incomode, ele sabe que é uma farsa com a qual até poderia ser tolerante e colaborante, se fosse hipócrita, coisa que, honra lhe seja feita, não é. É facho genuino, embora por vezes use entre dentes e com sorriso provocador, a palavra democracia, que ele sabe não ter na sua boca a minima força para ser levada a sério.
Onde ele quer chegar com o seu “folclore abrileiro” é mesmo às comemorações autênticas e verdadeiras, à pureza e ao cerne das comemorações do 25 de Abril, mas todos sabemos que isso não passa de uma daquelas tiradas genuinamente fascistas que desde há muitos anos lhe entopem a garganta.
Mas o 25 de Abril é grande de mais para almas tão pequenas.
Objectivo principal: Toledo ou, descodificando, o Terreiro do Paço e os seus ministérios. As viaturas atravessam a lezíria sem impedimento. Chegam à auto-estrada e, procurando recuperar o atraso com que tinham saído da unidade, vêm a grande velocidade. Chegam à portagem da auto-estrada do Norte às 5.30, saem da 2ª Circular para o Campo Grande. Em duas horas, a coluna percorreu 90 quilómetros, o que é uma grande velocidade para as autometralhadoras. Salgueiro Maia ouve num dos rádios um carro-patrulha da PSP a informar o seu Comando da passagem da coluna, impressionado com o número de autometralhadoras. Mas passemos a palavra ao comandante Maia: «Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da Cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era de mais parar a Revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço». Às 6.00 a coluna atinge finalmente Toledo, o coração do regime! Os carros de combate cercam os ministérios, a divisão da PSP aquartelada no Governo Civil, a Câmara Municipal, a Marconi e o Banco de Portugal. No centro da praça uma Chaimite e uma autometralhadora EBR, com o jipe do comandante, constituem o posto de comando e a força de intervenção de Salgueiro Maia. A primeira parte da sua missão é cumprida com êxito - chega ao seu objectivo antes de ser dado o alarme geral. Charlie Oito, ou seja, Salgueiro Maia, comunica a Tigre, ou seja, a Otelo: - Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena (Banco de Portugal e Rádio Marconi)! Entretanto, os comunicados vão-se sucedendo na rádio.
(in biografia de Salgueiro Maia - Vidas Lusófonas - CL)
05h00 - Após uma viagem sem problemas, a coluna da EPC passou na portagem da auto-estrada, em Sacavém. No Quartel-General da Região Militar de Évora (QG/RME) foi recebida ordem do Ministério do Exército para entrar de prevenção rigorosa.- Marcelo Caetano recebe um telefonema do director-geral da PIDE/DGS, major Silva Pais, que lhe comunica estar a Revolução na rua, sendo a situação muito grave, pelo que se tornava necessário que o Presidente do Conselho se refugiasse no Quartel do Comando-Geral da GNR no Largo do Carmo.
05h15 - Leitura do 3º comunicado que, entre outros apelos, aconselhava a população a permanecer em casa. Grande parte desta, pelo contrário, foi para a rua, passando a manifestar um acolhimento eufórico à iniciativa dos militares, misturando-se com eles, conferindo, assim, ao golpe militar, muitos dos contornos de uma verdadeira revolução.
05h19 - O general Nascimento telefonou ao recém nomeado CEMGFA, general Luz Cunha, a informá-lo de que "está muita tropa na rua e é preferível seguir para aqui".
c. 5h20 - O general Viotti de Carvalho, vice-chefe do Estado-Maior do Exército (EME) determina ao comandante da EPTm para proceder à escuta das comunicações militares e as relatasse para o Estado-Maior.
No entanto, há largas horas que a referida unidade militar desempenhava aquela missão, mas a favor do MFA.
05h27 - O ministro do Exército ordena ao RI 6, do Porto, que liberte o Q.G./R.M.P, determinação que não será cumprida, uma vez que a unidade era afecta ao MFA.
05h30 - No itinerário para o Terreiro do Paço, Salgueiro Maia cruza-se com viaturas da Polícia de Segurança Pública, no Campo Grande e, cerca de 10 minutos depois, com a Polícia de Choque, na Av. Fontes Pereira de Melo, que não se manifestam.
c. 05h30 - O Comando Territorial do Algarve (CTA) ordena a entrada em prevenção rigorosa das suas três unidades.
05h32 – O ministro do Exército determina ao general Carvalhais que se ocupe da protecção dos CTT, Águas e Electricidade.
05h45 - O 4º comunicado sintetiza os anteriores alertando para que a situação não se encontra ainda totalmente controlada.
05h46 - O Ministro do Exército ordena ao comandante do Regimento de Cavalaria 7 (RC 7), coronel António Romeiras Júnior, que, com os carros de combate M47, tome posições em Vale de Cavalos para deter uma coluna da EPC que fora «referenciada no Cartaxo» e que «vem a caminho de Lisboa».
05h50 - Uma força do CICA 1 ocupa o centro emissor de Miramar (Porto) do R.C.P.
c. 05h55 - As forças de Salgueiro Maia instalam-se no Terreiro do Paço, de forma marcadamente intimidatória. Encontram-se cercados os ministérios, a Câmara Municipal, a Marconi, o Banco de Portugal e a 1ª Divisão da P.S.P., estando dirigidas as metralhadoras para as janelas do Ministério do Exército. «Estamos aqui para derrubar o Governo» declara Salgueiro Maia ao jornalista Adelino Gomes.
05h59 - O ministro do Exército telefona ao coronel Romeiras Júnior, e ordena-lhe que "veja se consegue salvar esta coisa, pois estamos todos cercados", recebendo a resposta que as forças daquela unidade iam a caminho e já se encontravam na Av. 24 de Julho.
"Estamos aqui para derrubar o Governo", afirmou Salgueiro Maia a um jornalista. Os governantes esquecem-se com frequência do verdadeiro objectivo da governação - servir os cidadãos da República. Quando, perante tribunais que lhes pedem conta, vitimizam-se é não raro usam a locução latina Vae victis! ai dos vencidos. Sim, "ai dos vencidos" - no 25 de Abril os vencedores foram generosos e, passados 38 anos, os vencidos, seus filhos e netos, aí estão no Poder. Vamos ler o que Adão Cruz nos diz sobre
VENCEDORES E VENCIDOS
Presume-se que os vitoriosos deste Mundo, sejam os vitoriosos que provocaram ou facilitaram a fabricação desta plataforma em que vivemos, da barbárie ocidental dos tempos modernos, da poluição, da fome, da super-alimentação e da alimentação envenenada, o mundo da degradação, da auto-destruição e da massificação da economia, o mundo-universo da droga, do suicídio, da delinquência, da violência e do extremismo.
O mundo da industrialização irracional e da epidémica loucura do consumismo, do materialismo acéfalo, do ultraliberalismo e do monetarismo, cujo útero fecundo reside nos tecnocratas da rapina e na cabeça do patrão planetário que condecora os vitoriosos e condena os derrotados.
Este mundo em que a delinquência cresceu exponencialmente, os tratamentos psiquiátricos e as baixas por perturbações mentais subiram em flecha, o consumo de tranquilizantes foi multiplicado por dez, para gáudio dos fabricantes, os suicídios aumentaram para cima de um terço, o recurso à droga tornou-se maciço e os crimes por tráfico não têm conta.
Em nome da competitividade e convergência, da indiscutibilidade das decisões, da globalização, da modernidade, da flexibilização, da privatização, palavras inquestionáveis das estratégias de dominação por parte daqueles que sabem quem tudo ganha à custa de quem tudo perde, cometeram-se as maiores barbaridades.
Tais fórmulas estão a transformar-se numa ideologia sem sentido que leva à destruição sistemática do Homem, através da toxicodependência, do desemprego de longa duração, do baixo salário, do crescimento dos sem-abrigo, do desespero, apatia e iliteracia da juventude, do assalto às economias pelas mãos de luva branca, hoje quase institucionalizado entre os ditos políticos que mais não são do que homens sem qualquer honra, vergonha ou dignidade, da perversão dos conceitos de saúde que endeusam os remédios e transformam cada doente numa renda fixa, da aniquilação da resistência e da vontade dos homens dignos deste país, da inoperância da Justiça, da ideologia do pensamento único.
Todos estes fenómenos se acentuam quando se desenvolvem políticas doentias de tipo paranoico-monetarista, destinadas a reforçar o poder do capital de forma profundamente patológica, através de absurdos super-lucros e mais-valias, do escandaloso desvio do nosso dinheiro para obscenas reformas de ninhadas de parasitas, do esmagamento da qualidade de vida da maior parte da humanidade. Circulam no mundo muito mais de três triliões de dólares avidamente à procura do sítio onde se lucra mais, nem que esse sítio seja o imenso cemitério para onde resvalam milhões de vítimas.
Não basta os políticos tidos por mais sérios dizerem que a solidariedade é um factor fundamental e o princípio mais importante do nosso século.
Não basta dizerem que continua a haver países mais ricos e outros mais pobres e, dentro dos mais ricos, cada vez maior diferença entre ricos e pobres.
Não basta dizerem que a pobreza e a exclusão geram guerras intermináveis.
Tudo isto é sabido e não é cantarolando a Paz e a Cooperação, de mão dada com os senhores da guerra que se ganha o título de vencedor.
Ao elegerem o inimigo errado, muitos dos pregadores da paz e da liberdade foram co-responsáveis pelo engrossamento do exército de refugiados, oprimidos e condenados da terra.
Co-responsáveis no abrir de portas e no estender de tapetes às chancelarias do crime organizado.
Por mais que preguem e por mais conferências que façam, não anulam o descrédito em que caíram ao pretenderem convencer-nos de que as expectativas de paz, liberdade e justiça são possíveis com o aperto de mão dos verdadeiros terroristas do mundo ou com as orações a Deus, as quais, pelos vistos, só são ouvidas quando saem da boca dos afortunados e não quando tomam a forma de gemidos - que para gritos não há força -, dos milhões de zairenses, bósnios, sudanezes, ruandeses, somalis, afegãos, iraquianos, líbios e tantos outros que morrem às pilhas no deserto do silêncio, da fome e do sangue.
Nós andamos distraídos com os fumos de incenso que os nossos governantes e responsáveis vão espargindo pelos quatro canais da estupidez institucionalizada.
Importantes grupos económicos, células de um cancro universal de cura muito difícil que não se compadece com mesinhas diplomático-folclóricas, detêm todo o poder da informação, e a informação com poder para mudar os comportamentos está nas suas mãos, mãos que a usam de forma humilhante para inundar de publicidade perversa e ignominiosa desinformação as cabeças de um povo sem vontade, massificado, estupidificado, ridicularizado, americanizado.
Neste pérfido mundo há, no entanto, almas grandes a par das almas pequenas.
As almas grandes são raras, mal conhecidas e propositadamente escamoteadas, mas são as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão imortal, a dimensão da poesia, da honra e da dignidade supremas do Homem feito à medida do homem.
Nunca ninguém foi considerado vencido por não realizar integralmente os seus ideais, por não conseguir, no curto tempo da sua existência, eliminar as razões da sua luta contra a exploração, a degradação e a injustiça.
Contrapor vitórias e derrotas neste contexto de náusea universal em que vegetamos é ignorar radicalmente as aspirações da humanidade e contribuir, ainda que inconscientemente, para o seu esmagamento.
Galileu não foi um vencido, não foram derrotados Marx e Engels, não foi derrotado Luther King mas sim o racismo.
Vencido não foi o Padre Américo por não ter eliminado a pobreza, derrotados foram os que mantiveram a pobreza que o Padre Américo não conseguiu extinguir.
Derrotado não foi Amílcar Cabral mas sim os responsáveis pelo martírio do crucificado continente africano.
Óscar Romero foi assassinado mas não vencido, vencidas foram as forças militares que o mataram e nas quais a Igreja retrógrada se encontrava representada.
Derrotado não foi Leonardo Boff, apesar de esmagado pela pressão de uma Igreja absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, uma Igreja que confunde a voz de Deus com a voz do Pentágono, e cuja prática nada tem a ver com a doutrina de Cristo.
Vencido não foi Fidel, que mantém, heroicamente, a par do seu povo vitoriosamente faminto, uma espinha cravada na garganta do imperialismo norte-americano.
Paulo Freire morreu com rios de pedagogia a correrem-lhe dos olhos, ao defender a vocação ontológica do Homem e ao condenar a ideologia fatalista que se abate sobre as classes dominadas.
Quem foi derrotada não foi a Pedagogia do Oprimido mas o obscurantismo imposto por todos os novos esclavagistas.
Derrotados são os Papas que perverteram o conteúdo humanista do cristianismo e que ajudaram a matar a esperança dos povos numa sociedade sem exploradores nem explorados, elevando à categoria de profetas todos os vândalos deste manicómio contemporâneo.
Derrotado foi e continua a ser o obscurantista Ratzinger, o tal dos olhos que não enganam, que dirigiu a cruzada contra a Teologia da Libertação e contra tudo o que depois de João XXIII poderia ter feito avançar um pouco a justiça do mundo, aparentando renascer agora como vencedor, em Cristo.
Derrotados e ridículos são todos aqueles que mandam recados e bombas a povos gloriosamente soberanos, no sentido de impor a sua integração no rebanho dos países oprimidos e explorados.
Não podemos esquecer que a peçonha imperialista se derrama pelo mundo como uma doença, mediada pela tragicomédia dos cérebros brumosos que infestam muitas Direcções e Administrações, mascarada por uma democracia de faz de conta, criada para enganar os tolos através da pregação de velhos e novos missionários do crime, apoiados em vencedores, discípulos e servidores, para elevarem à máxima dimensão a exploração miserável dos tempos ditos modernos.
Quem não faz pose para a história, quem não é capaz de definir o belo porque este o transcende, quem considera a criação artística uma necessidade, quem gosta na vida, para si e para os outros, de tudo o que um ser humano gosta, quem quer a justiça mas também quer o sol e o mar para todos, quem diz que o amor e a amizade são dos maiores valores da vida, quem gosta de apanhar conchas na praia, longe de jornalistas contratados para fotografarem barrigas e calções, quem não monta elefantes para ser grande, quem não dá voltas à terra mas calcorreia os campos, quem hipoteca, de forma martirizada, a sua vida na luta contra todos os crimes da exploração humana, quem usa a vida toda uma vida na luta contra o abismo entre ricos e pobres, de forma autêntica e não através de hipócritas, religiosas e caritativas panaceias, quem mede a tolerância e a plena liberdade dos cidadãos pela sua própria liberdade, sabendo a anedota que é a liberdade no seio da ignorância, da incultura e da injustiça, nunca pode ser um vencido ou um derrotado.
Qualquer Homem com esta capacidade humana e vital da ética, vertente de criativa hermenêutica, feito de experiência moral, que conhece as contradições concretas do nosso agir e nos ensina fraternalmente a reconhecê-las, consciente das histriónicas personalidades dos vencedores, não pode ser um vencido.
Todo o viver ético comporta um trabalho sem descanso, feito de conhecimento, liberdade e responsabilidade, caldeado na mais perfeita unidade e seriedade.
Mostrem-me este valor ético na politiquice dos vencedores.
Se a ética trata dos grandes apelos, e a moral do normativo e do particular, a perspectiva ética não é mais do que o autêntico e verdadeiro encontro com o outro.
É na relação com os outros que nós percebemos quem somos.
O sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência.
Mostrem-me este valor na politiquice dos vencedores.
A cultura da diferença estrutural da mente humana e a anulação da diferença entre direitos são critérios maiores de vitória em todas as vertentes da vida, mas ninguém acredita que façam parte autêntica do ser estrutural dos habituais vencedores.
Não é o grau de facilidade ou dificuldade ou a carga pragmática ou utópica que ditam o que deve ser feito ou obstam àquilo que deve ser feito, mas é, sobretudo, a força que contraria o conselho descomprometedor da verdade da nossa consciência perante a submissão.
O reconhecimento da identificação com os autênticos valores de liberdade em todo um processo de unificação pessoal e colectivo, exprime uma inquestionável adesão ao Bem e à Justiça, uma interioridade só reconhecida às almas grandes.
Mostrem-me este valor na politiquice dos vencedores.
É por tudo isto que ABRIL é e será sempre o GRANDE VENCEDOR.
Informação: por ausência dos seus responsáveis na próxima semana não se publicarão as rubricas "Estuário", "Jardim das delícias" e "Terna é a noite". O "Estuário" retomará a publicação no próximo dia 30, as outras duas rubricas no dia 2 de Maio.
Adão Cruz A minha música
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(Adão Cruz)
Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie.
Como foi possível parecerem-me tão semelhantes?
Que percebe de sons este monocórdico espírito?
Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.
Como vou misturar é quase certo que nada existe nada está perto nem eu estou triste com Embryons desséchés e Peccadilles importunes?
Eu próprio me sinto mistura de contradições e acasos harmonia de contrastes santidade e pecado.
Nada percebo de música mas quero que a música seja ar chuva ou vento olhos boca sustento febre delírio amor e tormento.
Não sei onde fica a música nem a terra onde ela conduz sei apenas que é de sol e de luz ar puro e perfume o caminho da música para o alto dos montes.
Adão Cruz Esse bocadinho de tarde cinzenta
(Adão Cruz)
Ela não sabia mas a vida havia-lhe ensinado naturalmente que os mais belos poemas se fazem com gestos e palavras simples
Que os nossos corpos ainda que distantes no tempo se uniam como a clara e a gema
Fora da jaula com a ponte ao longe sentia-se voar e dizia que o ar fresco da liberdade acendia nela um poderoso desejo
Nos corredores da casa o céu abria-se ao vê-la frente ao espelho provando a blusa que lhe trouxera de fora
Ao sentir a sua pele macia coberta apenas pela leve blusa que vestia frente ao espelho ficava enraivecido por alguém lhe pôr as mãos em cima uma vida inteira
Sentir nos dedos a maciez do seu sexo era um poema com versos de fogo
Para lá da beleza a transparente ternura da infelicidade prendia cada vez mais aos olhos aquele corpo de sonho e magia
Os seus beijos não tanto pela sensualidade como pela necessidade de fuga através deles para um qualquer lugar de paz e segurança tornavam mais dolorosa a hora que viria a seguir sem ela
A alegria que tinha ao vê-la entrar era tão grande quanto a tristeza que sentia ao vê-la sair
Era como se levasse consigo a sina de não voltar embora tivesse voltado sempre como uma aparição
Era como se o mundo caísse ao chão e se partisse e não houvesse forma de unir os pedaços
Uma imensa amargura pelo desencontro de idades e de vidas cerrava os olhos mas a beleza interior daquela mulher sabia abri-los e agarrar o sol de forma sublime
Nesse bocadinho de tarde cinzenta só uma alma grande podia fazer da tristeza e da amargura um acto de amor
Adão Cruz Ressurreição
Na sequência de algumas crónicas sobre as minhas vivências na guerra colonial da Guiné, publicadas no Aventar e no Estrolabio, recebi um mail de um amigo que não vejo há quarenta e cinco anos. Por mero acaso, este amigo, o alferes Ruca, leu os meus textos e enviou-me esse mail dizendo: você é que é o médico da minha companhia, o Adão Cruz?! Vou mandar-lhe uma foto em que estamos os dois à porta de uma Dornier. Com efeito lá estávamos, a entrar ou a sair, não me lembro bem, da avioneta.
O Ruca era um alferes da Companhia que veio substituir a nossa, a 1547. Por artes que já expliquei noutros artigos, obrigaram-me a ficar mais algum tempo no mato, e, portanto nesta nova Companhia onde conheci o Ruca e outros. Não tenho qualquer dificuldade em fazer amigos, amigos a sério, seja em que situação for.
Soube, através de um nativo que costumava escrever-me, o Abibe Tal, alguns anos depois de regressar, que o alferes Ruca tinha perdido uma perna. Quando recebi o mail, respondi-lhe com um caloroso abraço de nostalgia e saudade.
Um dia, ao abrir a minha caixa de correio electrónico, dei com uma afectuosa resposta ao comentário do Ruca, vinda do amigo Daniel Carvalho, o capitão Daniel Carvalho. Imediatamente o contactei através do seu e-mail:
Caro Daniel Carvalho
Lembro-me muito bem de si. Eu era o médico da 1547 do capitão Vasconcelos, que o meu amigo veio substituir. Depois da Companhia ir embora ainda fiquei cerca de dois meses na companhia do capitão Torre do Vale, que está nessa fotografia (a foto do artigo que eu havia publicado e que ele havia visto).
Um grande abraço
Adão cruz
Ontem, dia 31 de Março de 2012, recebo do amigo Daniel Carvalho o seguinte mail:
Caro doutor Adão
Muito obrigado pela sua simpática e pronta resposta, que me deu muita satisfação e agradavelmente me surpreendeu, na medida em que eu tinha encontrado na net o seguinte comentário numa das fotografias colocadas pelo "Zeca do Rock" (alferes José das Dores):
Navio Uige, 7-05-1966>Saída do Cais da Rocha do Conde Óbidos - Lisboa
Da dta: Alf José das Dores>Alf Sap Fernando Gaspar
Alf Médico Gomes Pedro, Assistente do Prof Dr Jácome Delfim
[Com boina] Alf Médico Adão Pinho da Cruz [falecido]
© Foto Alf José das Dores
Cruzes, canhoto... felizmente, contrariamente ao que aquele comentário me tinha levado a crer, o nosso doutor Adão continua vivo e oxalá que assim continue por longos e saudáveis anos.
Gostei muito de rever a foto do seu "homónimo" Adão Doutor que, em Bigene, eu cheguei a conhecer e que o meu amigo refere numa das suas interessantes crónicas divulgadas na Net. Era um lindo bébé. Voltou a ter notícias dele ao longo desses 45 (!) anos entretanto decorridos?
Um grande abraço
Daniel Andrade de Carvalho
(Falecido)!!!
Soube-me porreiramente esta ressurreição!
E para terminar, deixo-vos com a bela história do “Adão Doutor”, que o Daniel Carvalho agradavelmente recordou:
Adão doutor
Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupações que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes. Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.
Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos diferentes, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques, por imposição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil, e a desvirtuação constituía um perigo possível. Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. Com o tempo as janelas foram-se abrindo, e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.
As mulheres de Bigene e não só de Bigene pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato. Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam um cheiro nauseabundo. Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido eram graves e frequentes, soube eu mais tarde.
Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi actuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas, dentro da mesma escala de cultura. Estou disposto a comprová-lo através de exemplos sérios nascidos da minha experiência.
Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca, acerca de higiene e infecções, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que modesta e minúscula.
Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar, nesta altura, a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto. Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha, electricista de profissão, brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de fio a pavio a minha sebenta de obstetrícia, e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.
Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho, que apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.
Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, único possível, indispensável aos primeiros tempos de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de maneira tão eutrófica e perfeita.
Uma semana após o nascimento, vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente: “doutor, vou dar-lhe uma linda notícia, que a mim, pessoalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio…aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se? A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de “Adão Doutor”.
Adão Cruz Guiné - Irkutsk
(Adão Cruz)
Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.
O capitão foi buscar um copo de água e entornou-a lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.
Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…
Desconfiado, levou o copo à boca…
Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!
O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.
Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
Adão Cruz O pecado original
(Adão Cruz)
Quando nasceu trazia entranhados em si dois grandes pecados, o pecado original e o pecado de ter sido gerado em mãe solteira.
Para além disso fora parido quase moribundo.
Imagine-se o terror de sua mãe que já o via a arder no fogo do inferno.
O pai, mais racional, não tinha assim tão maus pressentimentos.
Para ele, Deus não seria capaz de condenar, e logo com penas eternas, um ser indefeso, pelo facto de a pia baptismal distar três quilómetros do local de nascimento.
Pegaram na mulher mais à mão e no homem mais ao pé, embrulharam num coeiro aquele escarro de gente e correram a sete fôlegos em direcção à igreja.
Ambos conheciam a gravidade do pecado original.
As almas dos que morrem em pecado mortal ou apenas de pecado original descem ao inferno anunciava o Concílio de Florença em 1439.
Todos sabiam que o baptismo era a única terapêutica que salvava e apagava o pecado original.
Se chegasse à pia com vida, não seria este pecado, marca da infâmia dos seus longínquos antepassados, que o levaria à condenação eterna.
Quanto ao outro, o pecado de amor, o pecado de sua mãe, nada constava na tradição que o considerasse passaporte directo para as profundas, embora fosse exactamente igual ao primeiro mas muito mais recente.
No mínimo, em cima do outro, agravaria certamente, a sentença divina.
Portanto, as perspectivas não eram animadoras nesta correria para a salvação.
Nada mais dominava o pensamento dos hipotéticos padrinhos - assim o permitissem serem-no, efectivamente, a graça divina - senão o terror.
Já com alguma idade, esse esperançoso par lembrava-se de ter ouvido da boca de um padre velhinho de quem se dizia ser pai de onze filhos, que um papa chamado Bento XIV e outros seus sucedâneos aprovaram o baptismo de fetos e abortos, bem como dos fetos de mulheres grávidas mortas, aos quais faziam chegar a água benta através de um sifão especial ou de uma cesariana.
O medo era tão grande que chegaram a arranjar fórmulas especiais para baptizar abortos ainda sem forma humana ou mesmo aberrações e monstruosidades resultantes de distracções ou falhas nos cálculos divinos.
Já a meio do caminho da igreja, os corações dos dois estafetas salvadores quase pararam ao sentir que nada pulsava naquele montinho de carne.
Apertaram-no contra o peito e deram-lhe algumas palmadinhas suaves, não fossem acabar com o sopro de vida em que ainda acreditavam.
Aquele minúsculo projecto, à falta de melhor resposta, reagiu com o intestinal ruído que precede ou acompanha uma pequena dejecção de ferrado, o que aliviou um tanto os padrinhos, embora soubessem que esse facto não constituía, propriamente, uma manifestação de vida.
No último minuto, provavelmente já na fronteira do entroncamento onde divergem os caminhos do céu e do inferno, o nascituro usou pela primeira vez as cordas vocais soltando um pequeno gemido que logo se fez choro convulso ao sentir a água benta e fria na cabeça.
Crê-se, hoje, que não fora a água fria mas o nome que pretenderam dar-lhe a razão do seu choro.
Era como que voltar à estaca zero, uma espécie de restitutio ad integrum do pecado original, tornando inútil toda aquela corrida para a pia da salvação.
Os seus gritos devem ter ecoado como ribombante trovão para lá dos séculos, no ex-paraíso, hoje deserto, no lugar onde os pais da humanidade condenada, não sabendo para que servia aquilo que tinham entre as pernas, pagaram com a perda da felicidade eterna o terem-no descoberto.
Para que ele parasse de chorar, não tiveram outro remédio senão esquecer o nome.
A força do sacramento venceu, o diabo recuou, enfiou o rabo entre as pernas, e assim o detergente divino, limpando a nódoa do pecado original, deu ao mundo mais um cristão.
Adão Cruz Poema Inteiro
(Adão Cruz)
Foi a noite mais triste a mais negra noite mais triste do que todas as sombras mais triste do que a noite de Orfeu mais triste do que a sombra dos coqueiros sem lua mais negra do que o mergulho do tarrafe nas águas fundas do Cacheu
O homem honesto vítima de esconso agravo sozinho na noite sem força sem amor sem atitudes enrolou-se na torrente de lágrimas e não dormiu as longas horas dessa noite tudo se tinha rasgado o sol a lua a paisagem os rios os braços e o sonho em tiras de trapos que à toa foi enfiando nos sacos de lixo sozinho na noite sem que uma espada refulgisse em suas mãos impondo a fronte e a palavra no renascer do horizonte
O nevoeiro inesperado entrou pela frincha da janela e comeu tudo comeu a casa que caiu comeu os olhos que deixaram de ver comeu as mãos tensas que deixaram de tocar a casa ruiu não ficou pedra sobre pedra e no fim nem pedras se viam no chão nem terra nem pó tudo limpo impecavelmente limpo feito em nada num lençol apenas mordido de pétalas e sedução
E o nada entrou na alma como nevoeiro cerrado e o coração deixou de bater preso na argila agarrada às veias apenas um fio de luz de prata fria incandescente atravessava o sítio onde devia estar a mente e as ideias gerando um lamento seco como um gemido fremente não há remédio para o gemido o gemido é a coisa mais só mais terrível mais cortante da carne viva latido de cão
perdido no monte não dorme ante o silêncio de mil ouvidos moucos e agarra-se ao sangue como crude apenas o dissolve a lama da noite jorrando fontes de silêncio sobre um corpo sem beijos de bocas atadas e olhos sem horizonte
A noite do desespero despenhou-se sobre a cidade cuspindo nomes falsos fincou as garras nas janelas rasgou em feridas extensas o corpo nu da solidão queimou a vida em catedrais de cinzas abriu com estrondo a porta de saída sem porta de entrada a janela era só uma frincha desmesurada tudo era dentro e tudo era fora sem nada… nada havia pelo meio só livros a voar sem paredes nem estantes de permeio
Tudo soava a violino sem cordas num ritmo de movimento sem cor sobre um tabuleiro sem pedras sem força nem entreactos numa franca abertura da porta que desce aos infernos chorando a virtude em forte clamor à beira da morte que sobe no sangue glosando a pobreza de mil retratos impressos noutra era em letra de amor atirados ao fundo abismo de uma profunda cratera
Havia em tempos cobertores ainda que dobrados em opróbrios jugulares havia um cobertor alheio como lívido veneno dentro de casa mas não há casa nem cobertor que aqueça por dentro o frio é mais dentro do que de fora do corpo não há fora nem exterior nem mãos nem cara apenas dor e um mar de nada gelado sem brilho e sem cor enganando a amargura de uma fogueira sem calor
O nevoeiro traiçoeiro penetrou de mansinho sorrateiro enleou-se no orvalho gelado e num abraço apertado dançaram os dois até se esfumarem e entrarem pelos olhos cegos e pela respiração já frouxa prestes a apagar-se no chão sem pedras desenhado no pó que se havia sumido num tempo esquecido na imobilidade das promessas e no correr das águas em qualquer sentido
Gritou o homem sem voz pela mãe que havia morrido como gritam os filhos pelas mães e as mães pelos filhos vivos que não ouvem nos momentos de aflição mas não havia mães nem filhos nem momentos de aflição eram apenas restos de uma ilusão espalhados pelo chão que não era chão mas uma angustiante perda de forças para gritar se gritar fosse água no incêndio da solidão
O tempo era de morte seria assim a morte pior não seria se houvesse uma porta de entrada para onde para o nada e não de saída para onde para a vida se vida houvesse para o frio da rua se rua houvesse para a fímbria do mar se o mar tivesse fundo onde o silêncio grita e explode numa girândola de palavras e gestos de outroras perdidos entre nuvens que choveram relâmpagos
entontecidos
A memória era um vidro estilhaçado vermelho de sangue quebrado um pedaço de vidro partido que o nada deixou esquecido entre os dedos sangrantes do homem que caminhava por dentro do nevoeiro quando homem inteiro nada sendo agora desde que em nada se desfez a casa e dela tomou conta o nevoeiro
Ainda havia lágrimas havia restos de sonhos pedaços de vida espalhados pelo chão que agora estava impecavelmente limpo depois da entrada do nada e da inundação do nevoeiro como se nada ali tivesse caído ou fosse lambido pelo orvalho que entrou pela frincha da janela agora em buracos que davam para a rua esburacada onde a violência silenciada pelo vinho azedo havia deixado todas as coisas na sombra do barro da terra apagando milhões de estrelas demasiado cedo
No ar se ar havia voava um texto de mil palavras sem língua uma nicotínica melodia de álcool e soníferos na frágil clareza de um cérebro brumoso se cérebro havia trancado de sofrimento entre a perda e a morte gargalhando a fraqueza para tentar encher o último momento se momento era aquele onde cabia a tristeza e o sofrimento de uma aurora escondida onde os astros quebraram a luz que dá luz à cidade e as pálpebras se incendiaram com os olhos de fora
Altas horas da noite por entre castanheiros podres e montes de estevas sem cheiro precipícios e falésias suicidas lânguidos cantares da planície seca secaram as lágrimas fugiram as sombras dos olhos baços do pensamento inteiro e uma luz de prata sensual escorreu de alto a baixo quase conclusiva persuasiva desejosamente metafísica mas de cálculo tão frio que a força das lágrimas quentes avançou no sono precipitado por entre abismos para as águas do mar
Do fundo dessa longa noite gritam as mãos erguidas novos olhos doces de chorar e negar o velho altar do homem empoleirado grosseiro brutal avarento derradeiro a condição de ser inteiramente outro com sabor a mel a terra e a resina nem eterno nem intacto nem primeiro sem medo de caminhar por dentro do nevoeiro sem medo nem angústia de se perder devorado pelo orvalho de pedra de qualquer noite mais triste que possa tombar sobre o leito de morte de um homem inteiro
Dia Mundial da Poesia
(e o início da Primavera)
(Adão Cruz)
Adão Cruz Dia de enganos
Uma gaivota beijando a espuma branca das águas fundas em bailado grandi mestri culminando as chaminés do cabo do mundo.
O barco ao longe só estático no horizonte como eu aqui de olhos fitos nas rochas.
Gaivotas bailando Rossini mascagni massenet sem ponte nem horizonte verdi wagner bizet sobre a espuma da tarde sem dia do dia sem ponte sem horizonte para lá das rochas negras e nuas.
Marcia trionfale dunas de espuma branca abraçando as rochas do meu deserto tão perto do mar imenso tocando as nuvens por dentro de mim.
Alguém me leva nas asas da gaivota por dentro de mim em doce intermezo de rios de sol e mar sem fim.
Alguém me passeia por dentro de ti cavalcate delle valchirie a vertigem avança em turbilhão até planar bailando sobre o coração cravado no sol poente vermelho e quente do sangue que verti.
Bruscamente o prelúdio voando dentro de mim a alma que resta em meditazioni pelo espaço imenso tocando aqui e ali as penas das asas que perdi.
Vesti la giuba viajante da barcarola com ar triunfante va pensiero seguro de quem se apoia nas pedras nuas da orla do mar esquecendo o mar que navega infinito mistério.
Ethel Feldman Maresia

Sempre procurei não pensar apenas com a cabeça dos dedos. Sempre procurei não sentir apenas com o toque da pele. Sempre procurei não julgar apenas pela cor e pelo cheiro.
Em reacção ao atentado à comunidade judaica de Toulouse, a todos os títulos profundamente condenável, disseram:
Aníbal Cavaco Silva – Foi um ataque hediondo e cobarde (…), um acto que é uma ofensa aos valores em que assentam as nossas sociedades
François Hollande – Quando há um acto racista, anti-semita (…), devemos juntar-nos nestes momentos (…)
Nicolas Sarkozy – Aconteceu em Toulouse, numa escola confessional, com crianças judias, mas podia ter-se passado aqui no IV arrondissement de Paris
Eu pergunto: Onde se poderá ler a reacção destes senhores e da sociedade em geral, ao sanguinário atentado perpetrado, há dias, por soldados americanos no Afeganistão, matando à queima-roupa e desportivamente 17 civis, maioritariamente crianças, dentro das suas próprias casas?
Por que será que tudo e todos falam no atentado de Toulouse e tudo e todos deitam para trás das costas o atentado de Cabul e tantos outros?
Caterine Ashton, ao evocar as vítimas de Toulouse, falou “no que se passa na Síria, no que se passa em Gaza e em diferentes partes do mundo”. Caíram-lhe em cima, ao ponto de Ehud Barak declarar que as declarações da senhora Ashton eram escandalosas e sem fundamento, porque o exército israelita age em Gaza com grande cuidado e precisão para proteger a vida de incentes. Um porta-voz da senhora Ashton, movido pelo politicamente correcto, esclareceu que ela apenas se quis referir “às tragédias que provocam a morte de crianças”.
Tudo isto seria para rir se não fosse tão amargo.
Este mundo é um penico.
Adão Cruz Zulmiro
(Manel Cruz)
Diziam que ele tinha o diabo no corpo mas não tinha. Pelo menos assim o afirmava a sua prima, sabida que era em coisas de mau-olhado e almas penadas. O diabo no corpo era outra coisa. O que ele tinha era uma comichão dos diabos que o atormentava dia e noite, obrigando-o a coçar-se até se arranhar e fazer sangue.
O Ti Salvador dizia que, sem borbulha, sem mancha ou licenço à flor da pele, o mal estaria por baixo, sabe-se lá onde. Dada a falta de qualquer médico nas redondezas, o Ti Salvador reclamava-se de toda a sabedoria nestas coisas de maleitas, sabedoria já herdada de seu pai e avô. Para entrar debaixo da pele, só uma mezinha muito antiga, raramente usada por cheirar muito mal. Uma pasta de azeitonas esmagadas, com uma mão cheia de sementes de linhaça e outra mão cheia de coirato bem cozido e bem pisado, uma colher de óleo de rícino e uma pequena porção de merda de galinha.
Zulmiro, sem fé nenhuma, besuntou-se da cabeça aos pés e naquele dia a comichão desapareceu. Mas era tal o fedor que a sua presença exalava, que as pessoas não se aproximavam dele a menos de cinco metros. Zulmiro não aguentou a cura e preferiu a coçadura.
Zulmiro sabia bem qual a causa do seu mal e do seu sofrimento. Não só sabia como tinha a certeza. Simplesmente, nunca o contara a ninguém, por vergonha. Tudo começara com aquele beijo atamancado, arrepiado, babado, a saber a remédio das bichas. Tudo começara naquele dia em que a Maria tola o empurrou para trás da porta, lhe apertou a ferramenta até o fazer ganir e lhe assapou a boca desdentada na sua, como uma ventosa, deixando-o agoniado semanas a fio.
Por isso ele sabia qual o remédio para o seu mal. Não só sabia como tinha a certeza. Só outro beijo o poderia salvar, um beijo limpo, casto e puro, a ferver de amor e ternura. Mas como iria ele arranjar uma namorada, assim a coçar-se como um bicho ou a cheirar a estrume?
A Fatinha há muito que lhe punha os olhos em bico. Era uma dor de alma, para quem quer que o sentisse, ver o Zulmiro a chorar pelos cantos, perdido na angústia de nunca dela se poder aproximar. A Fatinha cantava na capela o Hosana nas alturas e outras coisas. Um dia, aguentando a comichão até humanos limites, o Zulmiro ajudou-a a levantar uns livros que lhe haviam caído do regaço. A Fatinha agradeceu com um sorriso tão doce e tão terno que o Zulmiro não teve mais comichão até ao fim da missa.
Mais tarde, Zulmiro soube pela Tia Alice, sua madrinha, que a Fatinha lhe confessara gostar muito do afilhado, que achava um rapaz bonito e bondoso, e não acreditava que tivesse o diabo no corpo. Zulmiro andou até à Páscoa com estas palavras nos ouvidos e na cabeça, fazendo delas a mais bela canção do acordar e do adormecer. Além disso, caíra sobre ele a bênção do Céu. Quanto mais nelas pensava, menos a comichão o apoquentava.
Um dia, Zulmiro encheu-se de coragem. Empastelou-se de mezinha pestilenta durante três dias, a seguir tomou um banho de alto abaixo, borrifou-se com água-de-colónia e foi à capela. Fatinha estava sozinha nas suas tarefas de zeladora do Coração de Jesus. Zulmiro ajoelhou-se no primeiro degrau do altar, lavado em lágrimas, e contou-lhe toda a sua desgraçada história, desde o maldito dia da investida da Maria tola, quando ele tinha treze anos.
Fatinha afagou-lhe o rosto, e, perante o olhar atónito da Virgem, depôs-lhe nos lábios o beijo mais doce que algum dia um ser humano sentiu.
E assim o diabo meteu o rabo entre as pernas, deixando o Zulmiro em paz e cheio de felicidade.
E também a Fatinha, que, ao fim de nove meses, mesmo sem autorização de Deus, lhe deu o primeiro Zulmirinho.
Adão Cruz, Clara Reis, Eva Cruz, Isilda Graça À Nelly-Poema a quatro mãos
(autor desconhecido)
Amaina o vento
sobre a areia rendada de espuma branca.
Do alto da falésia metade do sol se esvai
abrindo o céu à lua inteira.
Uma mantilha de ouro estende-se a teus pés.
Tímidas gaivotas olham para os teus dedos
e de ternura as algas te acariciam.
Sabem que o mar é teu
que tu és dele
e sempre dele sentiste o ondular das ondas
nas teclas do teu piano.
Jovem mulher com seu piano de sol
de sombra e de tempestade
escreve suavemente na areia branca
a partitura quase incriada quase incerta
do instinto palpitante das ondas da vida.
O corpo arde por dentro
e o sangue fervente navega nos dedos febris
dobrados pela música do cantar da vida
até à exaltante alegria de morrer.
Subirão à tua face
as águas incendiadas pelo mítico brilho da falésia
que aquecem as ruas frias da nossa cidade interior.
Impregnados de silêncio
teus cabelos se incendeiam
de gesto fulgurante ou de loucura.
Onde a mulher começa nasce o sorriso
e o desejo se faz auréola de santidade
até que a beleza e o lume
se dêem tempo de incendiar a vida.
Sempre foste memória que se perde e se ganha
na espuma de um mar fecundo de fogo e leite
vertido num piano em noite de lua cheia.
No jogo das tuas mãos
levadas pelo vento da maré
nasce a luz e a sombra do linho branco
e a tua música subirá contigo
entrelaçada em algas
até pousar no alto da falésia.
Adão Cruz Ser gente
(Adão Cruz)
Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente?
Ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos sectores da Administração e do empresariado, de onde deveria vir o exemplo e não o assalto miserável a quem trabalha, eu entendo o que os meus pais quereriam dizer, com o ser gente.
Ser gente seria, porventura, ir mais além do que trabalhar com seriedade e honestidade. Ser gente pressuporia a construção de alguma coisa dentro de nós e fora de nós que assenta, a meu ver, em quatro pilares fundamentais:
1 - O pensamento. O pensamento é o suporte mais poderoso e a armadura mais forte do homem, a mágica força da sua criatividade e da sua razão de ser. Sem pensamento o homem não pode ser gente, o homem não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento tem tantos inimigos! São inimigas todas as inúmeras formas de anestesia mental, falsamente lúdicas, falsamente festivaleiras, falsamente religiosas, falsamente futebolísticas, levando a sociedade à ignorância, através de uma espécie de coma vigil que a impede de raciocinar. É inimigo o vazadouro de lixo mental da televisão, com que a sociedade vai enchendo a disquete da sua metacultura. Inimiga a perversão mediática da política, que deveria ser a nobre arte de uma verdadeira democracia participativa, inimiga a política pornografada em degradantes guerras de interesses que escamoteiam os verdadeiros problemas nacionais, inimiga a política atafulhada no maior lamaçal de corrupção de sempre.
2 - O segundo pilar do alto edifício que é ser gente decorre do primeiro e chama-se cultura. Não se trata da cultura do enciclopedismo balofo, somatório de vagos conhecimentos, empilhamento de ideias improdutivas, a cultura-cassete dos tempos de hoje, a cultura-espectáculo, mas sim a cultura do dia-a-dia, a cultura autêntica da dignidade da vida, a cultura irrepreensível do percurso.
3 - O respeito pelos outros constitui o terceiro pilar. Simplesmente, não há respeito pelos outros se não houver respeito por nós próprios. Quem não se respeita a si mesmo não pode respeitar os outros. E quem tem respeito por si próprio não pode ser falso, corrupto, ladrão, indigno, especulador, manipulador de pessoas e ideias, criminoso, traficante e sabujo. O respeito dos outros é o espelho de nós próprios.
4 - O quarto pilar desta edificação é a solidariedade, a solidariedade no seu sentido global, já que a solidariedade pontual, ainda que louvável, não conduz a nada em termos sociais. É o caso da caridade, que não sendo de forma alguma negativa, pode ter, ao contrário do que acontece com a justiça, efeitos nefastos quando pregada como fim em si mesma. O primeiro passo da solidariedade está no entender da indispensabilidade da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades, a todos os níveis. O segundo passo reside, por parte do cidadão, no cumprimento correcto da lei, no cumprimento escrupuloso e competente dos seus deveres de cidadania, no mais correcto exercício da sua profissão e da missão de que cada um está incumbido. Viver dos outros, implica viver para os outros.
É triste reconhecermos que uma parte dos homens de hoje, dos homens que mandam, dos homens que podem, dos homens que estão à frente de governos e de instituições de alta responsabilidade não são gente, nunca foram gente nem para lá caminham. São verdadeiros exemplares da mediocridade e da ausência de formação e de escrúpulos, a ocupar grandes e rendosos postos, arremedos de gente, excrescências malignas da sociedade, contrafacções da honra e da dignidade, são a parte podre da humanidade. A epidemia de corruptos é disso exemplo, e o que conhecemos é a ponta do iceberg.
A esses, os que se apresentam como cabotinos deste palco da vida, para os que não reconhecem a sua inutilidade e dilatam dia a dia a sua perversidade, e pensam que a roubar é que são grandes e que a viver à grande e à francesa à custa da miséria e do trabalho dos outros é que estão acima do mundo e do homem comum, eu lembro que no seu estômago já não cabe mais nada e nos seus cofres o dinheiro já não passa de entulho. Ainda bem que existe a morte, o único mecanismo democrático da vida.
Adão Cruz
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Aleksandra Serbim
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Amadeu Ferreira
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António Mão de Ferro
António Marques
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José Magalhães
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