Esta é cabana na mata.
A cabana que construímos num daqueles piqueniques de Agosto onde as famílias e os amigos se reúnem à volta de mesas fartas, e onde se dorme a sesta em mantas de algodão, tecidas em velhos teares de madeira.
Este é o Pinhal do Rei, a Mata Nacional de Leiria um daqueles sítios maravilhosos, desconhecido por muitos, adorado pelos que conhecem os seus recantos.
Não importa que rei mandou plantar, se D. Dinis, se D.Afonso III, o que importa é que se tem mantido ao longo dos séculos, com bom planeamento de recursos e manutenção, ainda que atraiçoado por diversos incêndios.
A sua área é vasta, e atravessa diversos concelhos. No entanto, a parte que mais me fascina, é a zona entre a Marinha Grande e o mar, e atravessada pela ribeira de Moel.
Aqui, não há só pinheiros, a flora é variada, e surgem árvore de porte gigantesco por entre os fetos, urzes e camarinhas, ao lado de mimosas, eucaliptos e medronheiros.
Cada recanto é maravilhoso, convida ao lazer e à descontração. Cada recanto convida ao namoro. Cada recanto é uma perdição de natureza.
A mata “pertence “ ao povo, que a ama, que faz dela o local de passeio de fim de semana, que a percorre a pé ou de bicicleta, que conhece a encruzilhada de estradas e aceiros e os locais mais escondidos.
Que venera as Árvores, a Ponte Nova, a Fonte da Felícia , o Vale dos Pirilampos.
Que conhece o Pombal do Rei, a ponte do P, as árvores “notáveis”, as árvores “serpente” , os “pontos”, e todas as curvas, todos os buracos e todos os solavancos da estrada calcetada.
Que deixa as crianças brincar no rio, onde também se arrefecem as garrafas, entre rãs e sermantigas .
Que se deita sobre a caruma, sem medo de aranhões ou sardaniscas.
Que a escolhe como cenário das mais quentes trocas de amores e promessas.
Que a escolhe como local de acolhimento de eventos sociais, culturais, desportivos, manifestações e brincadeiras.
Pelo respeito e amor que tenho ao local, seria a primeira a subscrever um documento contra a sua conversão em parque natural ou santuário: deixaria de ser o local de todos os que o amam e respeitam - e sim, respeitam, porque nesta zona não se veem os amontoados de lixo que tanto desfiguram outros pontos da mata e das outras matas de Portugal-, para ser mais um local vazio, cheio de árvores, arbustos e toda a fauna local, mas sem a alma e a alegria das gentes.
Foto de Margarida Ruivaco
As primeiras que vi, há cerca de vinte anos, deixaram-me de boa aberta.
Depois de hectares de oliveiras, hectares de laranjeiras, hectares de girassol, atravessámos centenas de “ventoinhas”, num planalto do sul de Espanha, e achei-as lindas.
Há uns anos, passei a vê-las da janela do meu quarto, no alto das Serras de Aire e Candeeiros, junto ao mar da Nazaré, ao longo da A8, ou tantos outros locais, e ainda que possa concordar com dezenas de argumentos contra, para mim continuam encantadoras. Por admirar, por perceber, ficam os custos associados, mas isso já é outra conversa.
Quando começaram a construí-las, passavam aqui na estrada camiões e atrelados, que cortavam o trânsito, num desfile que podia demorar horas. As pessoas paravam, a admirar gigantescas partes brancas, peças de um estranho puzzle. Semana após semana, a serra foi sendo plantada com estas estranhas árvores, que à noite se fazem notar com cintilantes luzes vermelhas.
Às vezes penso em Don Quijote, e imagino que as pudesse perseguir e pelejar pela sua amada, perante tais gigantes de três braços. Imagino-o a cavalgar pelos cumes, no seu cavalo, escanzelados, enlouquecido pelo som do vento nas hélices, chamando por Dulcineia. E chegado ao Golgota das serras, aí gritaria “ Vitória!”, após desfazer três ou quatro, a golpes de espaça e lança
Há, no entanto, uns aerogeradores que me parecem mágicos. Requerem um dia de chuva miudinha e nevoeiro. Seguindo de manhãzinha, no IC2, de norte para sul, logo após a localidade de Venda das Raparigas, se o nevoeiro estiver bem baixinho, iremos dar com uma hélice que parece girar, suspensa das nuvens, ao nosso lado esquerdo. É uma imagem fabulosa a que já tive oportunidade de assistir algumas vezes, e é de cortar a respiração.
Ainda assim, continuam a fascinar-me e a arrancar-me sorrisos sinceros, e a encher-me o coração de serenidade, só de olhar para o seu movimento.
Foto de Margarida Ruivaco
Centum Cellas é daqueles sítios que me faz pensar que não devemos estar a ver as coisas como elas são.
Localizada em Colmeal da Torre (Belmonte), uma povoação no fim do mundo, isto é o que resta de um imponente edifício da época romana, no século I, que talvez tenha sido uma villa de cem quartos, uma prisão de cem celas, um forte, ou uma torre de vigia.
Se Lúcio Cecílio, seu eventual dono, viesse hoje ao mundo, ou se nos espreita de um outro universo, deve dar voltas e voltas de agonia.
Classificado como monumento nacional, encontra-se ao “Deus dará”, bem ao estilo da tutela, que é como um cão que havia lá em casa, que não comia, mas também não deixava os outros tocar na ração. Mais um, de tantos.
Protegido por uma rede rota e um portão aberto, é mais um local que podia servir de polo dinamizador de uma região tão esquecida, mas que se limita a permanecer hirto, enrijado pelos ares frios da serra.
Por outro lado, se na antiguidade tantos povos se fixaram por aqui, se aqui passavam as principais estradas da península, se foi zona de grande comércio, agricultura, pecuária e extracção mineira durante séculos, e se foi abrigo de tantas comunidades e nova pátria dos judeus, e se daqui partiu Pedro Álvares Cabral, o que é que nos está a faltar para voltar a encher de vida esta região de Portugal?
Paisagem, não falta. Terrenos também não. Estradas, caras bem sei, também já existem. Boa gastronomia e bem receber, são naturais.
O que é que tantos viram, que a luz do desenvolvimento nos cega e não nos deixa ver?
Foto de Margarida Ruivaco
Já não posso apanhar, aqui, o comboio para a praia de S. Martinho do Porto, e em boa altura o fiz, quando me lembrei de levar as filhas e sobrinhas a meio do Verão passado.
Um hábito com dezenas de anos, repetido todos os verões por tantas crianças e suas avós e tias, acabou.
A garotada chegava saltitante, com toalhas e baldinhos, e as acompanhantes chegavam cansadas, com os chapéus de sol e cestos do lanche, às nove e pouco da manhã, e haveria de chegar o comboio, e o bilhete seria comprado ao revisor. Tudo isto para, em pouco mais de vinte minutos, se por os pés na areia escura e passar o resto do dia de molho nas águas quase paradas. Com regresso marcado para depois do lanche da tarde.
Na estação de Martingança- Gare já só param comboios de mercadorias: contingências da vida, da vida da Linha do Oeste e da deseconomia do país.
Não posso afirmar que fosse fã do comboio. A única vez que tentei ir de comboio para a universidade, a viagem em bancos de pau ainda pareceu mais lenta, de tanto desconforto. Durou, ainda assim, cinco longas horas, para cerca de 140 quilómetros e mais 3 transportes públicos, tempo suficiente para ir e voltar, caso a viagem tivesse sido feita no autocarro do costume. Não voltei a repetir, apesar das carruagens se terem modernizado, e nos últimos anos, terem sido dotadas dos confortos necessários.
Desde os anos 30 que esta estação está ligada ao desenvolvimento económico da região: era princípio e fim da linha de Caminho de Ferro Mineiro do Lena, desactivada em 1950.
A linha passava por Maceira, com ramal de acesso à Fábrica de Cimentos do Liz, e seguia por A-do-Barbas, Maceirinha, Vale Salgueiro, tendo uma estação em Pinheiros-Calvaria, que se encontra abandonada, mas em razoável estado de conservação. Depois, na Batalha, o comboio parava de novo, nas estações Velha e Nova, e voltava a seguir viagem direito à serra.
Um novo ramal daria acesso às minas de carvão da Barrojeira, e a linha continuaria junto ao rio Lena, até chegar a Porto de Mós. Ziguezagueando pelas Serras da Pevide e de Aire e Candeeiros, por entre túneis e pontes, puxada por vacas, a locomotiva Skoda chegaria então às Minas da Bezerra, onde era extraído carvão que seria distribuído por diversas do pais, assim que o comboio regressasse a Martingança e se fizesse a ligação à Linha do Oeste.
Às vezes surpreendo-me a pensar se, à devida escala, Portugal não teria sido muito mais moderno e desenvolvido , há um século atrás, do que o nos querem fazer acreditar.
A primeira vez que fui a Paris, foi pelos dias da Queda do Muro de Berlim. Sem que déssemos por isso... Atravessámos a cidade de carro em poucos minutos, parámos num “fast-food”, ( o meu primeiro, de toda a vida!), nos Campos Elísios e seguimos viagem para a Alemanha. No regresso, passados poucos dias, tentámos ver mais qualquer coisa, mas comemorações davam azo a estradas fechadas, polícias na rua, voltámos a descer os Campos Elísios e regressámos a Portugal.
A outra vez que fui a Paris, foi numa escapadela de fim de semana, frio, ventoso, chuvoso, mas nada que nos tivesse impedido de visitar o possível em duas noites e dois dias.
Paris III
Foto de Margarida Ruivaco
Paris foi assim:
Sair do hotel, perto da Gare du Nord, bem cedinho, e entrar no primeiro café aberto para um pequeno almoço demasiado dispendioso.
Seguir a pé, à chuva, à procura de uma sapataria, pois a chuva intensa dera cabo dos sapatos. Dar de caras com as Galerias Lafayette, e ficar encantada a ver as montras com bonequinhos articulados. Entrar, sair com uns sapatos e pensar como seria bom ser rico e poder percorrer todas aquelas lojas com dinheiro no bolso.
Comprar mais um chapéu de chuva aos vendedores ambulantes e um chapéu de feltro a condizer com o casaco.
Seguir de metro até perto do Trocadéro, fechado devido a greve. Descer direito à Torre Eiffel, e desistir de esperar à chuva.
Ver que está um barco para partir, e correr para apanhar um lugar numa viagem pelo Sena, aproveitando uma súbita paragem da chuva. Aproveitar todos os segundos, e todos os olhos. Relembrar as aulas de francês do 7º ano, com mais de 20 anos e sentir a magia. Beijar o marido debaixo da ponte certa e esperar que o desejo se concretize ( continuo à espera, mais de dois anos passados...).
Sair do barco, de novo com chuva, desistir de novo da torre e apanhar o metro para o Arco do Triunfo.
Almoçar no mesmo “fast-food”, tantos anos depois, e descer os Campos Elísios, a pé, absorvendo luz e montras, aspirando Paris, o cheiro a maçãs, caramelo e crepes, de todas as barraquinhas de vendas, em pleno mês do Natal.
Apanhar o metro e atravessar Paris, direitinhos ao Sagrado Coração. Ver que Paris já não é igual ao de lá atrás. Ser surpreendida por vendedores que em menos de um suspiro já nos fizeram uma pulseira de macramé no pulso, e procurar o ascensor.
Admirar Paris, do alto do monte, entrar, sair, fotografar, e já escuro, descer para Montmartre, parar em Place du Tertre e sentir-me Amélie.
Continuar a descer, e descer, e descer, e tanto que se desce na Rua Foyatier...até Pigalle. Perder a vergonha. Entrar em lojas, sem corar. Ver o preço dos espectáculos do Moulin Rouge , sorrir, e, pelo tardio da hora, voltar a pé para o Hotel, para um duche, e roupa seca...
Regressar a Pigalle, de autocarro, jantar, e regressar a pé, aproveitado a aberta, e uma noite calma e pouco fria, para descobrir outras ruas de Paris.
Voltar a sair, bem cedo, para sermos os primeiros a chegar ao Louvre, aberto excepcionalmente, em dia de greve. Assistir ao acordar dos sem abrigo. Descobrir que toda agente quis chegar primeiro ao Louvre, e que será uma guerra perdida.
Dirigir-se apressadamente para Orsay, e nem passar o rio para o outro lado, só de ver a fila.
Caminhar junto ao rio até Notre Dame, que visitámos, bem como ao museu da Cidade.
Tentar de novo a torre. E, de novo, desistir.
Apanhar o primeiro comboio e sair em Versailles.
Almoçar, reforçadamente, e palmilhar, encantada, o palácio. Sair de coração cheio, de alma cheia, e com dores nos pés.
Regressar, de comboio, e, pela última vez, tentar “A” torre. A torre guardada por guardas armados, com centenas de metros de filas de gente a olhar para cima.
Mas Paris é mais que isso, pelo que seguimos de novo, a pé, ao longo do rio, aproveitando as última horas do dia.
Ficar com saudades, ainda antes de sair do comboio que leva ao aeroporto.
A primeira vez que fui a Paris, foi pelos dias da Queda do Muro de Berlim. Sem que déssemos por isso... Atravessámos a cidade de carro em poucos minutos, parámos num “fast-food”, ( o meu primeiro, de toda a vida!), nos Campos Elísios e seguimos viagem para a Alemanha. No regresso, passados poucos dias, tentámos ver mais qualquer coisa, mas comemorações davam azo a estradas fechadas, polícias na rua, voltámos a descer os Campos Elísios e regressámos a Portugal.
A outra vez que fui a Paris, foi numa escapadela de fim de semana, frio, ventoso, chuvoso, mas nada que nos tivesse impedido de visitar o possível em duas noites e dois dias.
(Foto de Margarida Ruivaco)
Paris II
Quando se chega a Paris já de noite, pode estranhar-se a luz amarelada das ruas, espelhada em fachadas que mais parecem tabletes de chocolate branco. Contrasta com a fealdade das estações de metro, e com os subúrbios atravessados pela linha do comboio.
Gostei da cidade, do quarto de mansarda, das esplanadas do café da esquina, que nos são vendidos mascarados de romance. O ar limpo, asseado, discreto, o sossego e a tranquilidade no meio da grande cidade. Simpatia, ar sorridente.
Lojas de flores, de pão, de vinhos, as montras animadas, tudo parece convidar ao passeio, à estada, esquecer que existem outros países e locais menos cintilantes, onde moramos, e ficar para sempre por aqui.
Do outro lado da cidade, a vida nocturna, a mistura de gentes e as cores vibrantes, chocantes, atravessar as praças por entre os pintores, descer as escadas em direcção à agitação, fazem o coração bater e pensar que não é preciso conhecer qualquer outro local do mundo.
Até o céu se parece fundir com os telhados escuros e estar mesmo ali ao alcance da nossa mão e dos nossos sonhos.
Olhando mais de perto, porém, e sob os escrutínio de olho profissional, a cidade parece diferente. Os edifícios aparentam um luxo e qualidade que não têm, e atropelam as regras mais elementares que vigoram aqui em Portugal. Espaços reduzidos, materiais de aparência cara, que não valem o seu preço, regras de higiene e salubridade postas em causa em qualquer mesa ou balcão de cafetaria.
Como se Paris fosse apenas um enorme trompe-l'oeil, e que, a qualquer momento, nos possamos estatelar contra uma parede, que aparenta ser a mais bela das avenidas.
Que disfarçadas de variedade e diferença, as indiferenças andam por ali à solta.
Decidi que voltaria, sempre que pudesse, mas que nunca ficaria por muito tempo.
A primeira vez que fui a Paris, foi pelos dias da Queda do Muro de Berlim. Sem que déssemos por isso... Atravessámos a cidade de carro em poucos minutos, parámos num “fast-food”, ( o meu primeiro, de toda a vida!), nos Campos Elísios e seguimos viagem para a Alemanha. No regresso, passados poucos dias, tentámos ver mais qualquer coisa, mas comemorações davam azo a estradas fechadas, polícias na rua, voltámos a descer os Campos Elísios e regressámos a Portugal.
A outra vez que fui a Paris, foi numa escapadela de fim de semana, frio, ventoso, chuvoso, mas nada que nos tivesse impedido de visitar o possível em duas noites e dois dias.
Paris I
Em Paris, as famílias são numerosas e os bebés andam de carrinho na rua.
Em Paris, as famílias são numerosas e os bebés andam de carrinho no metro e no comboio.
Em Paris, as famílias são numerosas e os bebés andam de carrinho, na rua, no metro e no comboio, mesmo se estiver a chover.
Em Paris, os monumentos estão cheios de gente.
Em Paris, as ruas estão cheias de gente.
Em Paris, os monumentos e as ruas estão cheios de gente, até o Sena está cheio de gente.
Em Paris, as montras brilham mais.
Em Paris, os centros comerciais brilham mais.
Em Paris, as montras e os centros comerciais brilham de mais, e eu não posso pagar o preço que pedem.
Mas como andar de mãos dadas ainda não paga bilhete, pude admirar, sem outros custos, famílias numerosas que não têm medo, nem da cidade, nem da chuva, nem das filas, nem do rio, nem das lojas brilhantes apinhadas de gente, e gostei muito.
Foto de Margarida Ruivaco
A Costa Vicentina é um prazer, por isso temos voltado, quando podemos,. Montada a tenda pelos lados do Carvalhal da Rocha, desfrutamos da natureza, do mar, da praia, das arribas e do sossego, enquanto ainda não é Agosto.
Alguns dias são dedicados aos passeios, às aventuras, aos tesouros, pelo que, numa das vezes fomos parar às arribas da Amoreira.
Subimos a encosta, pelo pior carreio, é claro, pois somos useiros em só ver a estrada larga, uma vez chegados ao destino. Subimos pela areia, evitando os limonium, os cardos, as belas armerias e as luzernas, enterrando os pés e cansando as pernas, suando desalmadamente.
E foi por isso que nem demos conta de que o homem chegasse, calmo, descontraído, contrastando com os nossos calores e arfares, caminhando pela estrada de terra batida, uns metros ao lado.
- Se pudesse, fazia aqui a minha casa, começou ele, quando se dirigiu a nós.
Foi então que vimos um senhor de idade muito avançada, vestido como se fosse inverno num dia de calor abrasador.
E sem que ninguém perguntasse, lá foi explicando que vivia sozinho, que almoçava e jantava numa associação, e que todos os dias saía de carro, com o equipamento de pesca e vinha ali, àquele sítio, ou outras praias das redondezas. Que dantes apanhava sargos, e douradas e robalos “assim”, e exemplificava , abrindo os braços, detalhando pescarias de há mais de cinquenta anos.
E que agora, se fosse para um lar morria, pois não poderia voltar todos os dias para ver o mar.
- E era aqui que eu vinha construir a minha casa, se pudesse, vê-se todo o mar para, norte, sul e oeste, e vê-se toda a terra...
Antes de partir, à procura do almoço, afastou umas soagens e, junto a uns funchos marinhos, agachou-se e pôs a mão sob um tufo de arbustos empoeirados.
Rasgou o arbusto, junto ao chão, e ofereceu-me uma mão cheia de braças perfumadas de tomilho limão.
- Ora veja lá, menina, há alguma colónia que cheire melhor que isto?
Porque aqui por estes lados, cheira às coisas boas da vida.
Prepara a merenda e a manta, enche a mochila de ti e do teu eu mais sereno, pega-na melhor companhia e sigam de carro até à vinha. Virem à direita e estacionem. Ponham os pés ao caminho, e se quiserem, ignorem todos os sinais vermelhos e amarelos.
Desçam no carreiro de terra, até ao muro de pedra, e chegando aí, subam as lajes de pedra, e sigam, mantendo o muro à direita.
Aproveitem para sentir o cheiro da terra, da urze e das madressilvas, e o jogo de sombras dos carvalhos e dos loureiros, projectados nos musgos e nas giestas.
Escutem as abelhas e o canto dos pássaros, e fixem as cores dos lírios roxos,das estevas ou, sendo inverno, do gilbardeiro.
Da mata de carrascos, sanguinhos, aroeiros e troviscos poderão saltar coelhos, e, com um pouco de sorte, algum esquilo ou raposinho.
Quando alguma clareia parecer mais suave, mais macia, mais doce, ou se a fome apertar, então é estender a manta e dividir o pão e o conduto as peras sumarentas e as fatias de pão de ló.
Acompanhar com água fresca ou com sumo de laranja.
Depois, e para desfrutar do passeio, compete limpar da manta tudo o que possa atrair formigas, e deitar, fazendo silêncio.
Desfrutar da paz do sol. Adormecer na Mata do Cerejal. Para mais logo regressar ao mundo real.
Aqua radium, as águas termais radioactivas, de há quase 100 anos fizeram daquele lugar do fim do mundo uma estância de luxo.
Um belo hotel, em ruínas, deixa-me inquieta. Sou eu e as casas, as casa e eu... e o que faz aquele palácio de granito arruinado na encosta da Serra? Serra da Pena... dá pena, sim.
Consigo, assim de repente, imaginar o corrupio de senhoras de bem, as suas filhas e damas de companhia, a passarem temporadas charmosas naquele local fantástico. Senhores de bigode e chapéu, lendo o jornal na esplanada.
Dizem que a água e as lamas, da natureza do urânio que veio a fazer parte “da” Bomba Atómica eram cura certa para doenças de pele e gastrointestinais, até serem decretadas perigosas, nos anos 40 do século passado.
Nada me diz, isto de fazer bem ou mal à saúde: vejo só o palácio, e faço projectos, faço obras, e em segundos, volto a vê-lo resplandecer, ao sol de Abril de um sábado de Páscoa.
Quero sair do carro, chegar mais perto, sentir a aspereza da pedra, talhada para estar ali. Uma simples placa avisa que a propriedade é privada, e que não posso entrar.
Fica a comichão: um dia, tenho de lá entrar!
A Batalha é logo ali.
Se deixarmos o carro em qualquer um dos parques, em cinco minutos podemos atravessá-la a pé, e isso é uma das coisas que mais aprecio na vila.
Isso, e poder-se ver o céu, porque não há grandes edifícios a tapá-lo.
Se as casas fossem mais baratas, teria ido morar para lá. Mas também se pagam a calma e os sossego, as rotundas ajardinadas.
À segunda feira, há mercado, a praça, e as ruas enchem-se de cestas, carrinhos e bicicletas. Durante o resto da semana, reinará a calma. Se não for Maio, se não for Agosto. As lojas são as mesmas, desde que eu me lembro. Não todas, mas muitas. E na sapataria, na retrosaria, na farmácia, no supermercado, na papelaria atendem-me as mesmas caras que eu sempre conheci, desde que frequentava o infantário. A Batalha tem a festa das cerejas, da Trindade, e tens as festas em Agosto. Engalana-se a rigor, e enche-se de gente, nas tasquinhas e nos concertos. E quando se aproxima o natal, resplandece de luz.
Mas maior que tudo, e sempre à vista, a batalha tem o Mosteiro, e tem o “cavalo”.
E tem o patim: lajedo de pedra calcária enegrecida, onde os meninos aprendem a andar de bicicleta, que as noivas vão varrendo com a cauda dos seus vestidos, e que eu lavei com brocado de seda, em tarde de chuva.
E onde nós somos maiores, do tamanho do nosso amor.
Parece não importar que os os vestígios pré históricos abundem, e que os romanos tenho escolhido este lugar para se estabelecerem, e nele construírem belíssimas villas, e que, depois da queda, visigodos tenham dançado no cimo do monte.
Poucos conhecem a azulejaria árabe e os nomes das localidades, nem as lembranças de judeus fugidos que aqui se implantaram.
Nem que os reis e os bispos de há 5 séculos atrás lhe dessem grandes honrarias.
Parece não importar que antes do cimento, era mais do que um planalto margoso.
Que era um planalto margoso, mas cercado de quintas e florestas, com ribeiras ladeadas por moinhos, terra de maçãs, de madeira e de resina.
E um dia chegou o progresso: primeiro uns, depois outros, colocaram Maceira no mapa. Os primeiros, de um lado, os de pouca sorte, os segundos do outro, os que prosperaram.
Com o progresso chegou emprego, para os de cá, e para os de fora. Chegou, portanto a inveja e a disputa.
Mas também chegaram as escolas, a cantina, os balneários, a zona desportiva, o teatro, que à distância de quase um século, fizeram a diferença, e atraíram os olhares. O bairro da utopia.
Os bons e os maus. As melhores intenções e as piores atitudes. O desenvolvimento. As expropriações. As oportunidades. As convulsões. O lucro.
E, um dia, a poluição descontrolada.
Em trinta anos tudo mudou. A fábrica, a empresa, causa e efeito, é fonte de desenvolvimento, e elemento activo da comunidade. Continua a garantir, como aos nossos bisavôs, emprego e regalias.
Os telhados já não são cinzentos e há verde nos jardins. As pedreiras são museus e aulas de geologia e biologia. A fábrica é história, todos os dias.
A vila é mais do que isso. Mas também é. Não é bonita. Mas é a minha.
E lá voltei. E aqui lhe presto homenagem.
É preciso respirar fundo e encher o peito de ar. E de coragem.
Olhando em volta, e nesta fase, vemos pinheiros e medronheiros, arbustos comuns, e um caminho de terra batida, troncos de madeira na vez de degraus. À direita. Poente.
Depois, é por os pés ao caminho, e subir, serpenteando o monte.
E à medida que o coração acelera no peito, também a cabeça acelera.
E se isto é mesmo um vulcão e decide entrar em erupção agora? O que tinha Rodrigo na cabeça, há 1300 anos, quando subiu ao monte e aqui decidiu viver?
Então, começa a escada, propriamente dita?
Quem fez isto não sabia que os degraus não estão regulamentares? Que corrimão é este? Como trouxeram os materiais até cá acima?Quem se lembrou de construir a ermida lá em cima?
Vão escasseando os pinheiros, e vai sobrando ar. Algumas aves de rapina. E eis que surge o mar!
Parando para respirar.
E é nesta altura que as perguntas perdem o sentido, e as respostas surgem naturalmente. É subir, é subir...300 degraus.
E lá em cima, não restam dúvidas. Rodrigo tinha razão.
Porque as relíquias de um santo merecem um lugar assim. Porque perto do céu, se vê mais claro.xxx Porque de um lado é verde, do outro mar, e, por cima, ar.
Porque daqui se viram os sarracenos e os cruzados. As reconquistas. A partida e chegada e barcos, desde sempre.
Porque daqui se avistam os mosteiros, os comboios, e as chaminés, e o Sítio.
Porque a 156m de altitude, no Monte” Saião” (Seano, Sião), o de São Brás e São Bartolomeu, pode ser o topo do mundo.
Pelo menos, a 3 de Fevereiro.
Se há coisas das quais gosto mesmo, passear é uma delas. Melhor: viajar!
Viagens são passeios longos e demorados onde se calhar não voltaremos, mesmo que não se saia do sofá. Ir, já é mais difícil, mas viajar, é uma questão de nos pormos a isso.
Uma vez fui a África. Fomos. Não aquela em que se passa mal, que está em guerra . Não àquela da fome e da doença. Não à da violência e falta de amor.
Fomos à que deixa saudades e vontade de lá ficar. Foi um ir, e foi um prazer.
E foi a esta África, pois não sei se teríamos a coragem, a dignidade e o coração para aguentar outra.
Foi a uma África onde é preciso pouco ter para se ter e ser feliz.
Se o dia começava cedo, a noite também não tardava a chegar. Não fazia frio e até a chuva era quente e sabia bem.
O mar era índico, indígo, azul, cheio de peixes coloridos. As praias era brancas e douradas e eram só nossas.
As árvores que não serviam para nada, serviam para tudo. As outras davam frutas, doces, perfumadas, saborosas, de todas as cores. As palmeiras e coqueiros tinham degraus e davam garrafas.
As sebes de buganvílea pintavam as estradas de alcatrão preto ou saibro laranja.
O motorista do autocarro esperava por nós, e ninguém reparava se íamos de chinelos à cidade.
Hoje não tinha sido o último dia para entregar o trabalho, hoje tão pouco, e amanhã logo se veria.
As crianças brincavam na rua, com coisas nenhumas, e mesmo assim jogava-se à bola e saltava-se à corda. Riam e corriam em bando, e dançavam ao ritmo dos pés e das mãos e dos tambores.
Roupas velhas, panos vermelhos, missangas verdes e amarelas. Colares e pulseiras. Madeiras perfumadas e malaguetas. Lagostas, caranguejos, ananás e mangas doces como mel, bananas encarnadas e cocos verdes, com água a sair à pressão.
África é safari e viagem. Pelas savanas adentro, debaixo de um sol quente, por estradas escarlates e poeirentas, a sentir o pó na cara e no cabelo, e não se sentir sujo. É ouvir os sons do calor, e as cigarras.
É elefantes e leões preguiçosos, zebras e girafas, à sombra do baoba. São lagartos azuis a correrem atarantados.
É almoços e jantares faustosos no meio do fim do mundo, com o pouco que há e ainda sobra.
É chegar à noite e dormir debaixo das estrelas, numa cama gigante de lençóis macios bordados de flores naturais acabadas de colher, depois de um bom banho.
E outras coisas que não me passaram à frente dos olhos, mas não quis ver, para não recordar.
Excertos do meu caderno de capas azuis “ Enquanto espero por ti - as coisas boas da vida”, com algumas adaptações.
Para as filhas/os que ainda não tinha, em Novembro de 2001, reescritos em Janeiro de 2012.
Vou levar-te a um dos meus locais favoritos: a nossa costa.
Chegaremos a meio da tarde, antes de o sol se pôr no mar.
Da serra do Bouro, de um sítio que te hei-de mostrar, talvez se aviste a Berlenga, por entre moinhos derrubados.
Segue comigo para norte, e vai olhando à tua esquerda.
O Sol, amarelo, irá tornar-se, gradualmente, numa bola laranja. Umas vezes será mar, outras vezes verás mata.
As cidades que vemos ao longe, as montanhas cobertas de neve, nuvens desfeitas de cor, serão entretanto apenas estradas riscadas pelos aviões.
O mar vai estar à espera, uma coberta de azuis e verdes. Os pés do peixes fazem ondas brancas, as rendas de um lençol. Irrequietos, porque a cama fica desfeita, e os lençóis levantam os barcos.
A renda desfaz-se e vai com o vento, até onde ele quiser.
Quando chegarmos a S. Pedro de Moel, o farol estará aceso junto à concha . Seguiremos a pé , na passadeira vermelha, no soalho de pinho, até ao areal da Praia Velha, onde as ondas rebentam de saudades dos penedos, que acabaram mesmo ali ao lado.
Porque o sol já entra na água e em segundos desaparecerá, pouco a pouco virá a noite o o ar do pinho desejar bons sonhos a ti, e ao mar, que se espraiará na areia, até adormeceres.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
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