Pintura de GEORGES BRAQUE
Os Violinos
O arranque vibra
ao som das cordas brancas
soltando a harmonia
de sombras solitárias espelhadas no céu
entre satélites.
Os arcos riscam ondas de luz
ao espírito de coros conventuais.
Os primeiros violinos
espalham suspiros de vento
evadido de um tempo gotejante.
Cinzento e leve
percorre as abóbadas do universo
fecundando a multiplicação dos séculos
na busca de perpétua fantasia
sublime e mística.
Dedos pisando as cordas,
vibrações expandidas,
soltas, vivas.
A voz noturna chama .
Os segundos violinos,
batendo os arcos como asas
em vibratórios movimentos
largam no ar um fio melódico
de vestes brancas
à procur da revelação das notas certas.
Tocam a alegria dourada
dos girassóis dançando pelo corpo.
Vigor da existência
paixão e esperança
beleza encantadora das cordas
que depositam paz nos corações.
Um espaço
um silêncio de braços
um gesto de compasso.
Subitamente
todos sobem o rio das ninfas musicais,
entre fontes de amor
e beijos de amantes nupciais.
Num hino superior
os violinos tornam-se senhores
das emoções hunanas plantadas
pela terra.
Som majestoso este
ao encontro dos corações
onde jazem
pecados encardidos de o serem.
tristeza e vozes em clausura
agora libertas pelos violinos
que procuram virtudes incógnitas
no superior sentido do destino.
E assim termina a partitura!
(inédito)
Um Café na Internet
O meu quintal é pequeno e está encarcerado entre três outros. A nascente o maior, tem uma palmeira anã e dois altos e nobres pinheiros nórdicos; voltado a sul o mais pequeno, língua de terra com duas árvores, de nunca soube o nome, cujo porte fazia perigar o telhado da minha casa em dias ventosos; o de poente era inofensivo com a pequena piscina bordejada por relva.
Cheguei a esta moradia quando a família era mais numerosa. Sem discussões, decidimos plantar no quintal uma palmeira facto que geralmente, vem a acabar em um bico-de-obra se, passadas décadas, a desejamos abater. Com os anos a planta vai crescente e pode ganhar altura inquietante. Foi o que aconteceu.
Para entretenimento dos fins-de-semana plantei também um hibisco e uma laranjeira cuja natureza lhes atribuía desempenhos diferentes. O primeiro conjugava a súbita beleza das suas flores caducas e a segunda a reprodução de saborosos e refrescantes frutos. Infelizmente a vidas de ambos seria infeliz: o hibisco, após de luxo, vestido de imensa cor que oferecia um toque de alegria àquele espaço, acabou por morrer; a laranjeira foi perdendo vitalidade apesar do meu constante socorro. A palmeira engordava e subia numa ânsia de domínio de tudo quanto a rodeava, a danada.
Tratada, regada, mas roubada de sol, a pobre laranjeira vivia triste, produzindo apenas alguns magros frutos. Bem falava eu com ela sem qualquer resultado prático. Aliás, eu falo com as árvores e as plantas numa voz suave e doce. Certamente vocês julgam que tenho a tampa da panela e bater mal, mas não. Falo-lhes do clima, do verde das folhas, das regas, do sol, das flores que provocam alergias pela primavera.. Mesmo de mim já tenho conversado, vejam lá! Há quem diga que nos escutam, e eu fico-me nessa que é consolo sem imposto.
Das conversas com a minha laranjeira resultou a decisão inabalável de a libertar das garras palmeira cortando esta pela raiz. Estava a sugá-la como fizera ao hibisco. Imponente, bebia-lhe o sangue e comia-lhe o sol não se satisfazendo apenas com o seu quinhão. Antes que se tornasse dona de um poder que aniquilasse os mais fracos era preciso dar-lhe um zás definitivo.
Contratei dois mercenários do abate de árvores, equipados de correntes e uma potente serra elétrica. E vai disto! Faz favor! Foi combate para uma manhã até que a palmeira ficasse estendida no solo do quintal. Deixei ali o cadáver a secar durante dois anos e, entretanto a moradia da frente foi vendida e o novo proprietário rapou tudo antes que as suas grandes árvores dessem cabo do telhado da minha casa e ele se visse metido a despesas. A palmeira secou, perdeu peso, mirrou enquanto a laranjeira engordou de ramagem, cresceu, deu laranjas, liberta de quem lhe chupava o tutano.
As laranjas que passei a receber como prémio são grandes, de bela cor e pele rugosa, embora nada comparável, por exemplo, à penugem da pele dos pêssegos de toque aveludado; as peras, perfeitamente lisas, traduzem a rigidez do caráter interior do fruto; nada, porém, como as ameixas cuja delicadeza tem a lisura suave do cetim. Mas, de todos os frutos, o que guarda um certo mistério sexual é o morango completo sedutor carnal desde o vermelho rubro da pele à sensualidade da forma. Só não foi de todo escolhido para enganar o Adão porque com morangos não haveria árvore do bem e do mal.
Acontece, então, arrancada a palmeira e as árvores do vizinho a laranjeira ganhou vida, energia,, ramagem. Frutos e alegria. Se pudéssemos nós arrancar da sociedade os “palmeirões” que por aí andam certamente acontecia-nos o mesmo que à laranjeira, medrávamos e não dávamos dinheiro à troika..
Agora, o diálogo com a minha laranjeira é outro. Faço-lhe festas no enrugado dos ramos, retiro-lhe as folhas queimadas, acaricio com a ponta dos dedos as novas laranjas, Sente-se bem a laranjeira que tenho no meu quintal e eu com ela. Tenho ali uma amiga para conversar das amarguras e alegrias da vida, que são poucas.

VAMOS AO CINEMA

Do corpo se fez vento que passa pelo tempo sem ter a noção da relatividade de ser corpo e menos ainda de ser tempo. E todavia vagueia entre o ponto de ser e de não ser, de estar e de morrer.
Do vento se fez nuvem a cobrir a cor do sol das manhãs em que uma melancolia fina chega com os frios do inverno.
Esconde-se a juventude e o envelhecer sob as pálpebras cuja leitura dos olhos penetra nos nossos corações. A beleza da fêmea desperta em toda a plenitude, mas da mulher, que passava pelo tempo na consciência do equilíbrio do nada que também possuí o seu equilíbrio, vibra em toda a serenidade.
A terra guarda a luxúria dos sentidos correndo como torrente de lava em cadinho de ouro para delírio da materialidade.
Já depois do esquecimento da beleza, o magnifico esplendor do corpo corrompe-se à fadiga dos anos. Obediência à solidão dos sentidos.
A floresta da imaginação cerrou-se não permitindo mais ver a cor do sol tornado prata no revestimento da moldura digital que guarda a nossa memória.
Obtida a paz das raízes de séculos, a agitação carnal tornou-se fonte inexpressiva pela flacidez da matéria.
Do que foi morrendo lentamente, tão lentamente que nem nos damos conta que o passado perde toda a sedução no presente.
Não obstante todos os corpos possuem mensagens escondidas pela natureza do tempo a conceder.
A ciência, que em si guarda a temperatura da sua própria idade, forma, afinal, um arco de solidão que o anjo acompanha qual pomba.
A paz de redimir a matéria pelo conteúdo dos nossos sonhos.
(inédito)

VAMOS AO CINEMA
Na morte de Claude Chabrol - por António Sales
Este texto de António Sales, que foi já publicado no Estrolabio, apresenta outra frente deste espaço - a homenagem a grandes homens do cinema - como é o caso de Claude Chabrol.
A primeira vez que estive em Paris terá sido no ano de 1959. Naquela época andava envolvido até à raiz dos cabelos com os cineclubes, os suplementos literários da imprensa regional, e exercendo o meu papel nas coisas de cinema no jornal da minha terra, “Badaladas”, assim como nas revistas “Visor” e “Imagem”, desta última era director o José Ernesto de Sousa (1921-1988), que tinha à sua volta um conjunto de apoiantes, a que eu pertencia, que o estimularam a realizar o filme “Dom Roberto”, estreado no cinema Império perante o entusiasmo da malta nova. Era a “Nova Vaga” portuguesa.
Para mim foi o grande momento em que aprendi tudo quanto podia e dizia respeito à preparação e realização de filmes, a sua linguagem técnica e estética, o trabalho do argumentista, os scripts, o som, a montagem. Assim como tínhamos actores e realizadores de culto também tínhamos escritores como o Georges Sadoul e publicações, a revista “Cahiers du Cinema”, espécie de bíblia cinematográfica formadora de científicos leitores “filhos” dos seus críticos e articulistas, futuros cineastas da “Nouvelle Vague”, entre os quais Claude Chabrol.
Tudo isto acabou por exercer sobre a minha pessoa paixão intelectual pelo que decidi, nessa tal primeira passagem por Paris, servir-me do meu cartão de crítico de cinema da revista “Imagem” e apresentar-me nos estúdios de Billincourt, a Cinecittái italiana, para entrevistar o senhor Claude Chabrol que rodava o filme “A Double Tour” com a bela italiana Antunella Lualdi. Através do organismo oficial francês de cinema marquei dia e hora para o acontecimento que se deu logo pela manhã num encontro de simpatia comunicativa, capaz de desfazer o nervosismo de um jovem que se via perante um nome, a par de Trufault e Godard, o chefe de fila da “Nouvelle Vague”.
Recordo-me bem daquele homem de estatura média a deitar para o baixo, o rosto magro e afilado e uns óculos de grossos aros de massa que pareciam destacar uns olhos coruscantes. A seguir aos cumprimentos iniciais convidou-me a ir para o estúdio onde filmava e aí nos sentámos, naquelas cadeiras de lona, símbolo dos realizadores. E daí, entre instruções de filmagem e amena conversa decorreu a entrevista e a manhã.
Claude Chabrol nasceu em Paris em 24 de Junho de 1930 e faleceu recentemente na mesma cidade (11 de Setembro), com 80 anos, vítima de um ataque cardíaco. Foi inicialmente importante referência da chamada Nova Vaga francesa, saída dos “Cahiers di Cinemas, com os filmes “Le Beau Serge” (1958), “Les Cousins” (1959) “À Double Tour” (1959), “Les Bonnes Femmes”(1960) e outros que se seguiram na sua careira de produtor e realizador.
Os seus primeiros filmes são trabalhos livres das convenções a que estávamos habituados e representavam um tipo de cinema mais imaginativo e autêntico tanto da linguagem estética como na direcção de actores bem mais solta. Todavia, nesse mesmo ano de 1959 há dois nomes que se impõem verdadeiramente: Jean-Luc Godard com “A Boute de Soufle” e François Truffaut com “Os 400 Golpes”.
Chabrol, havia revelado uma forma notável de cinema em termos de montagem e direcção de actores acaba por cair num certo retrocesso que representa uma perca de inspiração, de espontaneidade e sinceridade em relação às suas primeiras obras em benefício da habilidade executiva. De qualquer modo Claude Chabrol marcou num certo período o cinema francês como o cinema europeu. Como nunca mais ouvimos falar dele (e dos outros e de novos) pudemos julgar que deixou de filmar o que é mentira.
Naquele tempo sabíamos dessa cinematografias porque víamos filmes franceses, italianos, suecos, ingleses e não apenas os hamburgers de celulóide que passaram a impingir-nos em quantidades industriais. Devido a tais indigestões até supomos que os europeus deixaram de fazer cinema por imposição da CIA ou do FBI. Talvez fosse tempo da EU pensar que a unidade, prestígio e economia também passam pelo cinema como no passado ficou provado sem termos bandeira azul com estrelinhas.
António Sales A mentira é apenas uma verdade melhorada
(Adão Cruz)
Mente! Dez mil vezes mente!
Não tenhas escrúpulos das palavras falsas pois são as palavras falsas que eles gostam de ouvir. Estão ávidos de palavras falsas, e submissas, e lisonjeiras, e mesmo neutras.
As palavras falsas têm um carácter beato, adornam-se de escapulário e tornam-se piedosas e devotas. São envolventes e deslizam entre a virtude e a compaixão.
As palavras submissas são suaves e simpáticas mas também mesquinhas. São marcadas pelo vício da humildade e da gratidão. Usadas com propriedade são óptimas para amaciar a pele dos nossos legítimos superiores.
As palavras lisonjeiras – Oh, as palavras lisonjeiras – como são insinuantes e bem sucedidas. São formosas, delicadas e descaradamente parasitárias. Eles adoram as palavras lisonjeiras, derretem-se por elas.
E as neutras? As palavras neutras têm a particularidade de ser inofensivas. São lisas e cinzentas pelo que jamais comprometem.
Mente! Dez mil vezes mente!
As pessoas veneram as mentiras que alimentam o seu ego único e insuperável.
Lança-te na mentira se queres obter da vida a recompensa das tuas ambições. Não percas um instante, não hesites, não tenhas dó de ti nem dos outros. Eles gostam da impiedade das mentiras piedosas.
Mente! Dez mil vezes mente!
Mente por necessidade, por hipocrisia, por prazer. Mente com alegria e volúpia para que possas sentir dos outros a atenção, o desejo e a preferência em estar junto de ti.
Mente!
Sê bom rapaz e mente.
Se não souberes, aprende. É urgente!
Um Café na Internet
O “Sentimento trágico da vida” é um dos importantes título do grande pensador espanhol Miguel de Unamuno que morreu em 1936 mas cujo pensamento atravessou todo o século XX e ainda hoje perdura. Foi um homem de poderosa personalidade e rebeldia a quem a Espanha deve não apenas a grandeza cultural mas um grande amor pelo país que o fazia sofrer.

Para Unamuno a razão não significava necessariamente o esclarecimento mas antes a reflexão sobre as múltiplas duvidas que as fronteiras entre o mundo físico e o mundo místico estabelecem, a substância da matéria contraposta à dolorosa dúvida da imortalidade que o ser humano persegue para além de si próprio criando mitos ou procurando formas de expressão que prolonguem o seu nome como se isso fosse a sua existência, conhecedores que somos no nosso tempo diminuto da relatividade de todas as coisas, sobretudo de nós mesmos.
Se procurarmos bem raros se perpetuam no sentido do “eterno” conhecimento terreno, se eternos considerarmos dois ou três milénios, mesmo na herança daqueles que através da arte oferecem a sua expressão mística interior, capaz de criar emoções e despertar sentimentos que perduram por séculos para além das sua vidas, mesmo esses prolongaram-se na sua arte ainda em termos materiais que os suportam e lhe concedem a imortalidade terrena.
Não obstante, a dúvida da imortalidade não se encontra naquilo que de material se deixa na terra após a morte mas no transcendental que ultrapassa a decomposição do corpo a começar por fixar-se no plano da perenidade da alma. Mesmo que a alma, na sua perspectiva abstrata, se prolongue para além do indivíduo ela perde os contornos materiais que a tornavam “visível” conferindo-lhe um sentido super universal porque se o corpo não existe sem alma esta, do meu ponto de vista, não existe sem aquele (não necessariamente o mesmo).
A humana capacidade de amar, sofrer, sentir, interpretar, viver para o prazer ou para o espírito resulta dessa unidade aparentemente antagónica entre a razão da matéria e a idealização do espírito. Não há apenas uma parte mesmo quando o contrário parece evidente pois perdida uma perdida está a outra. Em termos humanos a matéria sem alma não se concebe e a alma sem matéria é uma noção abstracta, um dogma que contraria a razão.
Talvez por isso a teoria da reincarnação venha ganhando força e adeptos porque somos incapazes de aceitar que a vida humana seja exclusivamente material e, com a morte, definitivamente finita. Mesmo acreditando que após a morte a alma se liberta do corpo e sobe ao espaço de uma forma indefinida porque não vê, não ouve, não sente, subsiste a dúvida de que sendo na terra corpo e alma uma unidade, a morte de um não determinaráo eterno desaparecimento do outro.
Chegados aqui a razão conduz ao desenlace trágico que reduz o ser humano à relatividade física da sua existência e á angustiante interrogação daquilo que estará para além da sua existência se algo estará, efectivamente. No fundo, o que a razão resiste em aceitar é o nosso desaparecimento definitivo porque se for assim somos nada e a passagem é curta. E se o for o significado moral e humanista da existência sai desvalorizado e adulterado nas nossas noções eternas de esperança e de futuro. Essa será a angústia destrutiva que a fé, qualquer fé, procura equilibrar.
Unamuno disse “já não empreendo nada que possa durar”, talvez porque durar é sempre relativo pois nada pode durar eternamente. Para conseguir ultrapassar o desespero do nada tivemos de criar formas abstractas que nos transportam a um todo universal, a uma mundividência para além do concreto e representada pelo dogma da fé que suporta a nossa vontade de infinitude.
Este tema é também ele infinito para o bem de todos. Algumas vezes, antes de adormecer conjeturo sobre ele sem que chegue, obviamente, a qualquer conclusão. Apesar das minhas dúvidas, sempre que o abordo aproximo-me um pouco mais das interrogações da matéria que, esta sim, desaparecerá comigo para sempre.
António Sales Paisagem acidental
(Adão Cruz)
Da janela contemplo a voz do vento que despe a árvore da folhagem deixando nus e secos e rugosos os braços roídos pelos anos.
Fugiu a juventude da sombra acolhedora onde o amor vivia plantado na seiva das raízes e a alma repousava no colo a mulher amada.
Agora as horas morrem com as primeiras névoas que anunciam a chegada dos frios da existência e na natureza ouve-se a voz tristíssima da solidão carregada da melancolia de um coro alentejano.
O teu amor vem visitar-me de esperanças despertando histórias que vagueiam pelas veredas do passado e eu fico-me sem gestos nem palavras à espera que aconteças na suavidade baça dos meus anos, nesta fadiga de mistura de cadência dos teus passos com a presença cheirosa do teu corpo e do teu jeito de afagar os meus cabelos com as tuas mãos de renda.
Oferece-me aquele beijo de muitos anos e senta-te ao meu lado a contemplar cada instante que se afasta de nós, enquanto o meu corpo flutua na clepsidra do tempo.
Um Café na Internet
(Publicado no jornal Badaladas" - Torres Vedras - em 02.02.12)
O relógio de pêndulo que se encontra na minha sala parou. Não por falta de corda, mas decidiu parar cansado de contar o desassossegado tempo e bater as horas com sonoridade que percorria toda a casa.
O relógio de pêndulo que vive na minha sala não é daqueles altos, grandalhões, antes um modesto objeto de mesa, feito em madeira, com entalhes simplórios, terminando num frontão cortado e liso; uma portinha de vidro, delicadamente decorada por um por um círculo de flores pintadas à mão, deixa ver no interior o mecanismo dos ponteiros e os números das horas suas companheiras. Não é uma peça rara mas apenas um daqueles simpáticos relógios fabricados por uma antiga fábrica minhota
Comprei-o em Chaves, num dia de Outubro de 1975, depois de esperar, com minha mulher, vinte minutos que a loja abrisse após o almoço e pudéssemos observar de perto o relógio que nos cativava na montra. Nunca consegui explicar a mim mesmo a razão deste amor à primeira vista de uma peça adquirida com satisfação e carinho. Discutido o preço acabei por trazê-lo numa bela caixa de cartão onde haveria de fazer a viagem para o sul.
Bendita viagem! Logo chegado começou a cantar as horas acompanhando-as com o sussurrar dos minutos o que me aconchegava o tempo ao corpo de tal modo que em breve o modesto relógio de pêndulo deixou de ser um relógio para se tornar um amigo. Normalmente não cuidamos da importância dos objetos que convivem connosco e só lhes reconhecemos a importância da saudade quando nos faltam, Mesmo mudos, inertes incapazes de esboçar o mais pequeno sintoma de vida, sem o sabermos habitam no nosso coração afirmando-se com a sua presença. Aconteceu que ao longo de 36 anos o relógio de pêndulo participou em tudo, dentro desta minha casa, com as suas badaladas: risos, lágrimas, palavras, beijos, anseios, lutos, prazeres, doenças, até no silêncio é a ele que oiço, esteja onde estiver, alertando-me da sua companhia. Nesse espaço solitário em que reflicto sobre a verdade das coisas naquilo que representa a dor de se existir, cada badalada que emite + uma forma de me avisar que vivo – simboliza a presença de um companheiro de jornada ao pé de mim vigilante dos meus desassossegos de alma. Aproximamo-nos, ele quando toca, eu quando reforço a sua energia dando-lhe corda a fim de ouvir a sua voz.
Agora parou! Já procurei descobrir a causa do seu coma profundo coma sem resultado. Dei-lhe corda e nada; fiz oscilar o pêndulo e nada. Parou como se de morte fosse porque um relógio de mesa, bem tratado e acarinhado, não morre sem primeiro pedir licença ao tempo. Passo por ele e vejo-o moribundo sobre a mesa do seu habitat e sinto uma amargura no meu coração por saber que terá de esperar durante algum tempo para eu o poder levar às urgências do relojoeiro. Precisa de uma corda nova para bombear o sangue do tempo para os ponteiros, mas as taxas moderadoras aumentaram desmesuradamente e eu tenho de poupar o dinheiro para o tratamento. Ali quieto, observo-o, o pêndulo e os ponteiros inertes e sem vida. Os silêncios na casa ganharam volume deixando-me embrulhado no frio dos pensamentos que resulta da incapacidade política do país. É certo que o meu relógio de pêndulo não tem culpa da cabotinice alheia e menos ainda da tristeza de um povo acostumado à desgraça. Por isso badala talvez para levantar ainda a minha velha consciência solitária que vai perdendo em cada mês o barro da esperança.
Vou rapar dinheiro do fundo dos bolsos de modo a que volte a cantar em minha casa ajudando a florir alguns dos meus pensamentos.
UM CAFÉ NA INTERNET
O Chico é um indivíduo que há mais de nove anos, todos os sábados ou domingos, toca a campainha a pedir o meu contributo semanal. Nunca falta, salvo por doença, e se em um desses dias não abrimos a porta ele volta durante a semana.
O Chico despreza os prédios pelo que só “ataca” moradias. Com os prédios perde-se muito tempo e não dá a conta, confessou-me em resposta a uma pergunta direta que lhe fiz. A rua onde moro é curta e, certamente, a colheita fraca, mas para o Chico todas as ruas são boas desde que recolha alguma coisa. As qualidades são a regularidade e a persistência de modo a conquistar um lote de “clientes” Assim, com esta regularidade conseguiu conquistar um lote de “clientes” que, no seu caso, não imagino quantos sejam.
O nosso homem veste o figurino físico calhado para a atividade que desempenha; sujeito relativamente baixo, bastante magro, curvado, um ultra leve capaz de andar na casa dos cinquenta e muitos. Devido a problemas nos pés tem um andar escangalhado, balouçante, ora à esquerda ora à direita, transmitindo a sensação de que a qualquer momento o esqueleto desmancha-se como se fosse peças de um lego . O rosto é a imagem de marca da angústia da pobreza expressa nos olhos pretos, tristes, atirados lá para o fundo das órbitas. Na cara contam-se os ossos e as rugas profundas, direi sofredoras, marcadas na pele. Mas a barba sempre feita, de um tipo desenxovalhado.
Fala com voz baixa, escura, de uma lentidão exasperante como o ministro da finanças Vítor Gaspar, todavia, suficiente para eu saber certas coisas, deste homem, ao longo de tantos anos.
No entanto desconheço quando e porquê começou a pedir embora desde sempre tenha rejeitado pedir em posto certo, de mão estendida, à espera das esmolas caindo do céu. Em todas as profissões é preciso fazer pela vida e a de pobre não é exclusão. Há que combater a inércia, o lamento, a desgraça, de modo a evitar passar o drama para os “clientes”. Pedir com dignidade é um imperativo e uma técnica nada fácil pelo que ele logo de início estabeleceu a sua estratégia: pouca conversa e muito trabalho a procurar almas generosas selecionando as melhores ruas que torne o palmilhanço eficaz.
Ao princípio o Chico habitava numa barraca daquelas sórdidas, feitas com tábuas, pedaços de cartão e folhas de zinco. Queixava-se muito do frio e do ca, conseguindo obter algum velho calorífero e ventoinha para amenizar o ambiente na barraca. Há anos passou a viver num quarto alugado e fiquei satisfeito quando me deu a notícia. Além do dinheiro dão-lhe roupas, sapatos, cobertores, comer, utensílios, um rádio portátil e um televisor de um “cliente”. Numa certa medida posso dizer que a sua sina melhorou bastante mas também testemunho que para tal trabalhou honradamente, percorrendo quilómetros e quilómetros a pé, todos os dias da semana, sem sábados, domingos ou feriados. Jornadas incansáveis de persistência e de informação atualizada sobre locais onde oferecem almoços e roupas a pessoas carenciadas.
A sua profissão desconhece o desemprego mas conhece bem demais a concorrência que tem aumentado, e muito, nos últimos anos. A crise toca-lhe porque as pessoas passaram a dar menos e há casos em que perdeu “clientes” por estarem afogados em dívidas. Ele, pedindo aqui umas calças, além uma camisa, noutra porta uns sapatos vai formando o guarda-roupa que lhe permite andar de forma modesta mas limpo e arranjado. Como ele diz: “Um pobre, lá por ser pobre, deve andar limpo e cuidado”.
Imperturbável continua a sobreviver num recanto escondido dos conflitos nacionais pelo que está totalmente isento de impostos e taxas, sem férias nem gratificações não reclama, se alguma vez reclamou. Desconhece o mercado (salvo o dele) e as ordens da troika, borrifa-se para quem manda porque só obedece a si próprio. Ou seja, é um indivíduo autenticamente livre porque nega-se a mergulhar no nosso pântano do consumismo, das aparências, da mentira e da hipocrisia.
Eu gosto do Chico! Aliás, eu e a minha mulher gostamos do Chico e sentimos a falta quando está algum tempo ausente. O Chico não tem aparecido, estará doente? Quando regressa conta umas tretas na sua voz sumida. Depois, se ela vai à porta pergunta por mim, ou vice versa, pela filha, pelo netinho, até pela saúde do nosso cão Belchior antes dele morrer.
Acreditem que tenho por este homem uma particular simpatia. Regozijo-me com a sua astúcia, a sua humildade, o seu penoso trabalho de andarilho de pedir. Pela sua forma livre de viver sem penhoras, sem dívidas aos bancos, sem avales de letras, sem prestações, sem empréstimos, sem amargos fiscais, sem ódios, sem stress, sem empréstimos, sem automóvel, sem telemóvel, sem pressas, sem conflitos. Não fuma, não bebe, não joga o poker, não tem companheiros e trabalha sozinho. Uma vez por ano, no verão, vai à terra de férias para ver a família e, certamente, depositar no banco algumas das suas economias.
O Chico está incluído no segmento da economia paralela e nenhum dos seus “clientes” pensa pedir-lhe fatura da sua dádiva.
Jean-Paul Sartre
(Paris,1905 -1980)
OS POETAS
Os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem. Dado que é com e pela linguagem, concebida como uma espécie de instrumento que se pratica a busca da verdade, não é preciso imaginar que eles procurem descobrir o que é verdadeiro ou expô-lo. (...) Se o poeta conta, explica ou demonstra, a poesia torna-se prosaica; o poeta perdeu a partida.
(O que é a Literatura)
__________________________
António Sales
(Torres Vedras, 1936)
LETRAS
De letras compõem-se as palavras,
letras de muitas línguas
muitos mundos.
Sementes rituais
de cores inebriantes,
também ervas daninhas,
amargas, soluçantes.
De letras grandes e pequenas
fabricam-se as palavras,
com pernas e sem pernas,
gordas, magras,
altas, baixas,
todas elas, porém,
prontas a marchar.
Umas redondas, meigas,
esculpidas de beleza
perdidas de paixão, arrebatadas.
Letras obesas
sebosas e servis,
castradas de carácter
pobres e imbecis.
Há letras de chorar
e letras de sonhar,
luminosas
alegres de encantar,
brilhantes como estrelas
de mãos dadas a bailar.
Ai letras
minhas queridas letras!
Semeiam palavras
orvalhadas de sol.
Miguel Torga
(São Martinho de Anta, Sabrosa, 1907 — Coimbra, 1995)
ARTE POÉTICA
Fecho os olhos e avanço.
E começa o poema.
Rodeiam-me os fantasmas
Fugidios
Dos versos que persigo.
A regra é caminhar
E chegar sem saber.
De tal modo é cruzada
A encruzilhada
Onde o milagre pode acontecer.
Mas sendo, como é, de cabra-cega
O jogo,
E é um destino jogá-lo,
É sempre incerto que o principio.
Tacteio no vazio
Da expressão,
Vou seguindo
Seguindo,
E ganho quando sinto a salvação
No próprio gosto de me ir iludindo.
__________________
Natália Correia
(Fajã de Baixo, São Miguel, 1923 — Lisboa, 1993)
A DEFESA DO POETA
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.
-----------
Ilustrações de Adão Cruz
(conclusão)
No dia 29 de Outubro de 1965 regressaste à pátria. Manhã radiante de sol aquela em que, de um avião da Varig, descarregaram a urna com os teus restos mortais no Aeroporto da Portela. Definitivamente separavas-te do Brasil esse país sobre o qual, nas costas de um documento de caixa da casa Magazine Mesbla, do Rio de Janeiro, deixaste este apontamento a lápis: «Quanto a escrúpulos não foram com êles que progrediram as cidades do sul da Bahia, que se rasgaram as estradas, plantaram-se as fazendas, criou-se o comércio, construiu-se o porto, elevaram-se os edifícios, fundaram-se jornais, exportou-se cacau para o mundo inteiro. Foi com tiros e tocaias, com falsas escrituras e medições inventadas, com mortes e crimes, com jagunços e aventureiros, com prostitutas e jogadores. Com sangue e muita coragem» (BNL – espólio de AB – cota 12/883), palavras que, embora não pareça, significam amor por aquela nação.
Seja, enfim, como escreveste! Mas doze anos e dois meses após a tua partida aqui chegam os teus ossos reduzidos ao nada das tábuas de um caixão. Começa, então, o derradeiro acto do teu drama oficialmente encenado pelos representantes (ali presentes) do ministério dos Negócios Estrangeiros, da Educação Nacional, do Instituto de Alta Cultura, alguns familiares e amigos, que acidentalmente tomaram conhecimento, e dois ou três jornalistas. Diz o Diário Popular, da tarde desse dia, que depois das formalidades alfandegárias o féretro seguiria para a Igreja da Encarnação, etapa fúnebre inexistente pois ficou na alfândega entre embrulhos, malas e utensílios à espera de despacho para um cemitério, conforme noticiava o Diário de Notícias do dia 30: «Os despojos de António Botto foram sepultados no Cemitério dos Prazeres [onde repousam] ao lado de Fernando Pessoa, de João Villaret e de outros amigos de toda a vida», para sempre supunha o repórter na sua boa fé. Afinal não tinha havido igreja nem sequer enterro pois à tarde, na primeira página, o Diário Popular tratava de informar os leitores que o funeral continuava «por não se fazer» tendo apenas saído da alfândega do aeroporto «para ficar à guarda de um cemitério lisboeta». Tão depressa se entendessem as diversas entidades seriam organizadas cerimónias fúnebres com «o expressivo nacional que o grande lírico do amor indiscutivelmente merece». Sermão? Missa cantada? Bandeira nacional? Discursos e condecorações? Uma incógnita para um programa que começava mal.
Demoraram um ano e treze dias a organizar essas cerimónias. Não rias, por favor, peço-te! De certo modo terás razão, pois significava que regressavas em força e mais uma vez, como aliás era de tua natureza, disposto a provocar o escândalo. Bom, o desrespeito pela tua memória a todos indignava. Sobre a tua pessoa desapareceram as notícias e das ossadas nem rasto. Há quem diga que te atiraram para uma arrecadação do cemitério, outros - por decoro - concedem-te o direito a um gavetão anónimo e alguns dão como referência vaga uma “ausência” em parte incerta. Com o tempo a história tornou-se absurda e começou a dar origem a pressões que colocavam a ridículo as três representações oficiais (Ó Botto, até depois de morto eras incómodo!). Mas não de todo foste esquecido. Amigos teus como o Aníbal Contreiras, Mário Azenha e José Galhardo, presidente da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais, não deram tréguas às autoridades forçando-as a uma decisão definitiva.
Na verdade eles não sabiam o que fazer contigo. Não tinham vagas onde prantar os teus ossos. Molestados com a situação chamaram a Câmara para os ajudar e o município decidiu conferir-te, não uma medalha pelos bons serviços poéticos prestados à cidade, mas um gavetão escondido no cemitério do Alto de S. João. Escrevia o Diário Popular sobre esta tua aventura póstuma: «Perseguido na vida - uma vida de malfadado destino - António Botto sofre ainda, depois de morto, esperando - como que esquecido - mais de um ano por uma derradeira morada...»(Diário Popular, Lisboa 11.11.1966).
No dia de S. Martinho de 1966 - tu que nunca foste um pândego dos copos - lá recolheste à morada que te deram com a modéstia de quem havia escrito «Da vida não quero nada / De tudo me hei-de esquecer...». Começou a cerimónia no grande portão oriental numa manhã de «um sol ático brilhando sobre as colinas de Lisboa», de acordo com um descritivo jornalístico e como, certamente, terias desejado. A tua urna seguiu acompanhada pelas tais autoridades em ar solene, escritores, intelectuais, gente do teatro, familiares e um reduzido número de admiradores e amigos, alguns dos quais bateram-se incansavelmente por um funeral digno. Depositaram-te no gavetão 1952 da rua 17, escondido por detrás de altos jazigos, com a singeleza da inscrição «À memória do poeta António Thomaz Boto», com um só tê, respeitando o que havias pedido numa carta endereçada do Brasil a George Lucas, a propósito de mais uma edição de Canções: «Não ponham Boto com dois tês, já me pesam» ( Maria da Conceição Azevedo dos Santos Fernandes – Dissertação de mestrado em Literaturas Comparadas Portuguesa e Francesa, séculos XIX e XX – António Botto, Vida e Obra Lisboa 1994). Uma prova de humildade que jamais havias tido.
O teu drama encerrava-se, enfim, na singularidade do título de O Século Ilustrado: «Um poeta arquivado numa gaveta» quando, dizia, gostarias de ter ficado no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres. Esta não era efectivamente a terra prometida mas a de um destino amargo que nem a morte te soube dar com a dignidade merecida. «Quero morrer em beleza», pediste numa das tuas canções, mas não foi possível António, desculpa lá.
Pedro Moutinho canta Meu Amor na Despedida, um poema de António Botto:
Da esquerda para a direita Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Gualdino Gomes e Júlio da Costa Pinto à porta da Havaneza de Lisboa em 1938.
Percurso Esgotado
(continuação)
Durante longos doze dias a presença constante de amigos nunca deixou só D. Carminda, dia e noite a seu lado falando-lhe baixinho na esperança de o despertar do estado de coma. Botto sofre, luta contra a morte lá no fundo do seu alheamento, mas Caronte e a sua barca esperam-no na Baía de Guanabara. Há uma luz cristalina que lhe abre um caminho infinito por um túnel de cânticos. É a luz de Lisboa a abençoá-lo com as pequenas casas de Alfama a descreverem um desenho suave sobre o rio. Há varinas na rua gritando o peixe, ardinas correndo a vender jornais, amoladores de facas e navalhas anunciando-se ao som estridente da flauta. Olha o Fernando no Martinho da Arcada, o Pacheko a pintar cenários para revistas, a Amália a cantar no Luso, a Beatriz Costa a fazer uma rábula no Variedades! À porta da Bertrand está o Aquilino Ribeiro e o seu grupo e o Gualdino Gomes, esse crítico arrasador, continua a frequentar o Café Chiado onde se encontram agora os neo-realistas. Nas avenidas passam Buicks, Chevrolets, Studbakers. Vem ali o Villaret a declamar a Julieta do Beco das Cruzes e o Filipe Pinto a cantar um fado meu. Raul Leal diz-me que me esperas e tu, António Ferro, também. Já vou, já vou aí!
Talvez nunca se tenha sentido tão tranquilo, tão seguro de si, tão suavemente humano como neste dia 16 de Março de 1959. Não há dúvidas nem certezas, tampouco vaidades e egoísmos. Está tudo finalmente concluído e cumprido. Um silêncio de luzes mortas ilumina-lhe a estrada para além. Carminda toma-lhe as mãos e sobre elas repousa as lágrimas de uma vida. Enche-se o quarto da generosidade daquela mulher, do seu amor indimensionável. Há pessoas assim capazes de sacrifícios pelos outros. Nos limites de uma consciência para além do coma mortal reconhece na rapidez de um segundo que não tem mais o direito de a sacrificar à sua fama nem ao exibicionismo do seu talento. Fugazes sombras convidam-no como musas inspiradoras a conhecer outro território sublime. Quebra a ténue lâmina de fogo que o separa desse destino infinito e, soerguendo-se do leito, deixa-se ficar humildemente debruçado nos braços da morte a repousar da tragédia.
Após autópsia o corpo do poeta é transferido, pelas 11 horas da manhã do dia 17, para as instalações da Beneficência Portuguesa onde permanece em câmara ardente. Ali comparecem um representante do Presidente da República do Brasil e outro da embaixada de Portugal além de outras instituições. Às 17 horas desse mesmo dia, depois do «esquife [ter sido] retirado da Beneficência Portuguesa pelos representantes diplomáticos de Portugal, Associações Portuguesa e amigos» o funeral segue para o cemitério de S. João Batista com a urna envolta numa bandeira de Portugal, conforme pedido de D. Carminda. Astério de Campos faz o elogio fúnebre do poeta diante do túmulo, a sepultura nº 771. José Maria Rodrigues, que escreveu a este propósito uma reportagem emocionante, acentua que o funeral foi «vazio de gente». Em contrapartida O Globo informa que ao funeral «compareceu grande número de intelectuais, poetas, jornalistas, representantes do Sindicato dos Jornalistas, presidente da Associação Brasileira de Imprensa e populares». Celebrado, popularizado, vendido, traduzido, reconhecido no Brasil como só dois ou três escritores portugueses vivos o seriam naquele tempo; morria pobre, esquecido da pátria, desprezado pelos editores, esta figura dramática que fora essencialmente um provocador, agora morto, enterrado, sossegado e em paz.
Pura ilusão! Passado muito pouco tempo já se especulava sobre as posições da embaixada de Portugal em ter criado dificuldades para a transladação do corpo para Portugal, conforme a vontade de D. Carminda, tornando o acto inviável. Afirmava-se também que a embaixada não teria dado a merecida atenção à morte do poeta, notícias que obrigaram a embaixada a publicar nos jornais um esclarecimento sobre a forma como actuou não faltando com a sua presença e colaboração no acto fúnebre e pagando todas as despesas com o funeral. Na verdade, o cônsul português no Rio de Janeiro terá explicado à viúva que a transladação dependeria do consentimento das autoridades de Lisboa (jornal A Voz de Portugal) o que demoraria imenso tempo. Por cá, isto é, em Lisboa, dizia-se que as autoridades, ou melhor a autoridade Salazar é que não concedera licença para tal.
A tua saga, António, estava ainda longe de terminar mesmo depois de morto. Mas isso que importava se o melhor elogio à tua pessoa, se assim o quisermos entender, seria publicado no mês de Abril, no nº. 22 da revista Leitura–a revista dos melhores escritores, na secção “Os dias, os factos, os homens”: «pediu [António Botto], antes de morrer, para ser enterrado em Portugal. Dificuldades de ordem burocrática negaram ao poeta o seu último desejo. (…) Assim, como Portugal não reclamou o seu Poeta, nós o guardaremos até o dia em que poetas portugueses mortos em exílio voltem a ter lugar no coração da pátria.», o que só viria a acontecer seis anos depois.
Apesar de tudo o Brasil foi teu amigo.
_____________________
Carlos Mendes canta um poema de António Botto - Não me peças:
Percurso Esgotado
(continuação)
Mês e meio separa-o da morte, um tempo que não posso reconstituir por ausência de acontecimentos relevantes para António Botto. Tudo vulgar, tudo normal, como se um vazio se tivesse abatido sobre o poeta durante esse curto período. Modesta a vida do casal, sem aquelas peripécias de incumprimento de dívidas e até a saúde tinha estabilizado na sua fragilidade. Estava sereno como raras vezes estivera nos últimos anos pois não andava aos tombos, mais por mercê dos amigos que visitava, diga-se em abono da verdade, que por sua iniciativa de trabalho. Paulo Rabello era assíduo mártir das suas investidas, Pedro Bloch – seu médico dedicado – dava-lhe consultas graciosas, Danton Jobim e Saldanha Coelho ajudavam-no muitas vezes segundo o diz Alberto da Costa e Silva no seu livro Invenção do Desenho. As noites, senão todas muitas delas, eram ocupadas no restaurante “O Corridinho”, casa típica portuguesa onde costumava dizer poesia para ganhar uns cobres.
Dias antes de ser atropelado concede uma entrevista que virá a ser publicada já depois da sua morte no jornal A Voz de Portugal, na página de espectáculo Esta Semana Aconteceu, dirigida por José Maria Rodrigues também correspondente da revista portuguesa O Século Ilustrado. A entrevista acompanha uma emocionada e comovedora reportagem sobre a morte do poeta e terá sido a última que ele deu antes de falecer. Ocupa meia página com duas fotos onde podemos ver além de António Botto, o proprietário António Mestre e Ivone Ruth, o cronista Marcos André, o editor António Pedro Rodrigues e o citado jornalista a quem o escritor responde que vão aparecer novas obras suas as quais «foram batizadas com estes nomes que [lhe] parecem bastante sugestivos: Ainda não se escreveu, primeiro volume de 500 páginas [tinha que ser coisa em grande], Os Mastros do meu Navio, O Livro da Revolta Mundial» e vai por aí fora com mais cinco títulos e um estudo sobre Fernando Pessoa. Longe das tais quinhentas páginas só apareceu postumamente o primeiro título, os outros correspondem a projectos ou trabalhos em esboço como seria o caso de O Verdadeiro Fernando Pessoa (BNL – espólio de AB – cota E12/198) em que Botto evoca a sua amizade com o poeta de Ode Marítima, as conversas no Martinho da Arcada e os conselhos que lhe dava como se fosse o seu guia. «A sua obra não era obra, não nos deixou obra alguma; deixou dispersos desarrumados em prosa e verso», escreve sobre o homem que morre, efectivamente, com os «dispersos desarrumados» e quase desconhecido, mesmo no seu país, classificando as Odes de Ricardo Reis um «jogo gongórico» em que teria procurado imitar-lhe as Canções. Mesmo sendo um texto que não teve publicação a indesmentível amizade de Fernando Pessoa, este sim verdadeiro amigo e impulsionador da sua obra, merecia mais sensatez.
Deambulava na noite do Rio, escrevi na primeira edição (António Botto, Real e Imaginário – edição Livros do Brasil - Lisboa 1997) quando foi atropelado na Avenida Copacabana, em frente ao Lido, em 4 de Março de 1959. O verbo deambular transmite a ideia de que António Botto andaria por ali à deriva o que não era o caso. Hoje sabe-se que teria decidido ir ter com o seu amigo Paulo Rabello pelo que saiu de casa (ali perto), com vestimenta ligeira e sem documentação. Nessa altura já bastante surdo, ao atravessar a movimentada avenida o poeta é atropelado por um veículo do governo brasileiro (automóvel da aeronáutica informam uns jornais, um camião noticia outro), cujo motorista põe-se em fuga mas sendo a matrícula registada por transeuntes é depois participado às autoridades. Entretanto, Botto fica imobilizado no asfalto com fractura de crânio até ser posteriormente conduzido para um hospital. A ausência do poeta ao encontro com Rabello leva o advogado e D. Carminda a contactarem amigos, polícia e hospitais onde será localizado na madrugada do dia cinco em estado de coma.
Quando a imprensa começa a noticiar o acidente damos conta de várias versões sobre o hospital em que a vitima terá dado entrada, seja no Hospital do Pronto-Socorro, no Miguel do Couto ou no Sousa Aguiar, onde na verdade veio a falecer. A questão da transferência para outro hospital enquanto vivo (também falada para o Gomes Lopes), não se terá verificado por oposição dos médicos Guilherme Romano e Herbert Moses, que o assistiam, dada a gravidade do seu estado (Voz de Portugal, 22.03.1959). Transferência houve, sim, mas para um quarto particular por ordem do secretário da saúde do Rio de Janeiro.
Logo que o poeta foi identificado apresentaram-se no hospital representantes da prefeitura da cidade, das associações portuguesa e brasileira de imprensa e da brasileira de escritores. O embaixador português, Dr. Manuel Rocheta, que se encontrava fora da embaixada, providenciou para que o cônsul geral visitasse o sinistrado e providenciasse no que fosse preciso. Em Portugal a imprensa escreve que António Botto deu entrada no hospital como indigente, fazendo assim acreditar que ele encontrava-se num estado de extrema pobreza. De facto, como indigente o registaram por ser um sinistrado desconhecido e indocumentado que após ter sido identificado nada lhe faltou.
Apesar do comportamento muitas vezes criticável, das frequentes confusões em que se metia, dos permanentes empréstimos que pedia, das mentiras com que alimentava a sua personalidade, Botto jamais foi escorraçado ou abandonado nos piores momentos. O Brasil que o acolheu em glória também o respeitou na modéstia da sua condição de escritor em decadência não deixando sequer de dar uma larga cobertura jornalística aos acontecimentos dos seus últimos dias.
(continua)
______________
Palavras De Um Rouxinol, poema de António Botto declamado por Manuela de Freitas
________________
Percurso Esgotado
(Continuação)
À meia-noite uma multidão espalha-se pela Baía de Guanabara festejando ruidosamente o novo ano de 1959, último de uma década tempestuosa: conflitos, doenças, hospitais, dívidas, despejos, pobreza, um gigantesco saco de maleitas que o perseguiu sem que os êxitos, poucos, o tenham compensado. Um tempo longo, António, sem nada a acrescentar à tua obra de Lisboa. O que há são textos, poemas soltos, artigos, ensaios, rascunhos de memórias, trabalhos sem unidade que confiram carácter até porque o livro Ainda não se Escreveu não é significativo.
Com quem brindaste no instante simbólico de mandares para o lixo o tempo das más recordações e erguer a taça das ilusões reconquistadas, agora que o destino parece querer recolocar paz e ordem no teu espírito? Com amigos, certamente, mas com Carminda em particular, selando a esperança de ambos. Parece um pacto bizarro, no mínimo insólito, o da vosso relação íntima de mais de trinta anos que nada teve a ver com paixão, prazer ou atracção física, coisas arredadas pela tua homossexualidade confessada e consentida por Carminda desde a primeira hora. Neste caso a palavra amor traduz uma relação afectiva cuja raiz platónica não impediu, antes reforçou, laços de mútua generosidade e sacrifício.
Carminda da Conceição Rodrigues foi a mulher da sua vida não pela beleza mas pelos anos que viveu com o poeta participando dos seus êxitos e fatalidades com devota admiração. Sem desfalecimentos, senhora de uma coragem silenciosa, foi a aduladora sombra feminina tornando menos agrestes as amarguras e angústias consequentes das agitações do seu feitio. Nesse longo e doloroso percurso foi sua mulher de facto e não de passagem. Fiel apesar da solidão sexual, generosa na humildade espiritual da sua presença, paciente na consciência do seu sacrifício. Se não lhe desejaste o corpo ela ofereceu-te a alma compreendendo o teu comportamento e criando em teu redor, com a sua companhia, um poema sem nome deitado na trajectória da tua vida. Por conseguinte é justo que inscreva neste livro algumas linhas que a retirem do esquecimento dos humildes, elevando a simplicidade de um caso de amor dedicado capaz de dar sem pedir nada em troca.
Nesta história tu não foste menor, António, foste mesmo surpreendentemente amante no sentido de um companheiro que retribuiu oferecendo de si o carinho e a dignidade que Carminda merecia. Apesar do teu exacerbado narcisismo não a repudiaste nem a desprezaste, porque a teu lado a quiseste como tua mulher mesmo nos acontecimentos públicos da tua vida. É difícil interpretar este comportamento generoso num homem de vincado egoísmo pela sua personalidade. Em tudo quanto escreveste ou disseste a seu respeito não se encontra um queixume, uma palavra de crítica, um desabafo onde a desmereças. Pelo contrário, Carminda surge como a companheira com quem divides sacrifícios mas também repartes bons momentos, ou para quem procuras encontrar meios de minorar a tristeza dos dias de chumbo. Nas piores situações, quando o desânimo e a revolta tomam conta da razão, não se encontra um arrependimento por essa união em que as dores do viver deram asas aos sentimentos.
Fica dessa relação uma imagem de indefectível amor como se qualquer coisa inexplicável vos ligasse. Custa-me defini-la de felicidade, palavra aplicada às alegrias e fortunas da vida quando tudo corre sem sobressaltos. Não obstante, entendo que também pode existir felicidade no sofrimento quando este nos fortalece e aguenta unidos apesar dos erros e desaires. Embora vaidoso, megalómano, estou convicto que na solidão das tuas mágoas choraste algumas vezes as lágrimas de ambos, lágrimas de um homem que pagou caro os defeitos do seu carácter mas soube, sem hesitações, minorar o silencioso drama da sua companheira de uma vida.
Mal despontara o ano de 1959, mais precisamente no mês de Fevereiro, já o nosso poeta teria transferido novamente a residência, agora para a Avenida Princesa Isabel (onde fazia tenda a portuguesa vendedora de galinhas que lhe emprestara o dinheiro para o médico), visto ser esse o remetente da segunda carta que Botto endereça a Salazar. Nesse mês adquire na Casa Samuel Rodrigues (vendia rádios, refrigeradores, pianos), sedeada na Avenida Copacabana, um conjunto de artigos no valor de 44.000 cruzeiros, entregando 20.000 à vista e o restante em prestações com letras de 2.400 cruzeiros cada. Parece, então, que as coisas iam melhor. Em termos de saúde sem dúvida, de bem-estar deixara para trás as casas miseráveis onde até aí vivera, de dinheiro nem falo pois adquirira o hábito de viver emprestado com “honrados” calotes a que habituara os amigos. De qualquer modo tudo aponta para uma certa estabilidade capaz de proporcionar a recuperação da sua obra criando algo de novo o que até aqui não tinha acontecido. Os inéditos careciam de unidade, estrutura literária, inspiração capaz de representar renovação na sua obra. Títulos existem vários, indicações também, mas tudo sem sequência nem orientação. Não se encontra um fio, uma identidade, uma forma de comunicação literária entre o seu mundo e o dos outros.
Embora António Botto não deixe transparecer mas a glória advém-lhe do passado. É possível que o excessivo culto pela sua pessoa o impedisse de tomar consciência da debilidade que a sua imagem literária ia assumindo, admito, porém, vislumbres dessa consciência escondida dos outros como de si próprio. Resulta daqui uma frustração maligna em relação ao Brasil consequente da inadaptação ao tipo de vida, ao carácter temperamental e alegre do povo, àquela imensidão que confere uma dimensão do mundo bastante para além do nosso umbigo. Botto foi um deslocado em terras brasileiras e o êxito surpreendente da chegada só serviu para alimentar ilusões que acabaram por marcar a sua alma com a agonia da decadência.
Nesta trajectória biográfica a aproximar-se do fim compreendo melhor a personalidade do poeta que imolou o seu talento pela vaidade. Contudo, afirmou-se sem lançar anátemas e infelicidade sobre destinos alheios. Gerou invejas e semeou antipatias com as suas mentiras e inimigos com a sua má-língua, não digo inocente mas participativa das tertúlias literárias e que Lisboa adorava. Os actos mais críticos e prejudiciais, as atitudes mais frívolas e imponderadas, a obsessiva paixão pelo sucesso e pela glória constituíram um roteiro de provocações contra si próprio. O grande inimigo foi o prazer exacerbado com a sua pessoa, a grande fraqueza o luxo da celebridade, a maior pobreza a sua falta de convivência com a humildade. Nada disto, porém, ofusca a beleza da maioria dos seus poemas e outros textos.
Tinhas talento? Certamente que sim. Os teus detractores podem querer apagar a importância da tua obra poética (sobretudo) mas não podem riscá-la do movimento modernista português dos anos vinte. Aliás, sempre soubeste isso, acontece que não soubeste foi gerir o teu talento, a tua arte. Agora que esse talento está gasto aproveita ainda a esperança em o reanimares. Se puderes aproveita-a bem porque a esperança será intemporal enquanto a felicidade, pelo contrário, é curta e a tua está esgotada.
(continua)
_____________
Blandino & Sara Luz interpretm a Canção 6, de António Botto:
Os Últimos Anos de Infortúnio
(continuação)
Após ser obrigado a abandonar a residência da Almirante Alexandrino o casal aloja-se numa casa má na Rua Joaquim Murtinho, nº 549, ainda no bairro de Santa Teresa. Este terá sido um tempo negro como se depreende pela carta endereçada ao seu grande amigo e advogado Paulo Rabello a quem confessa que se tem privado de tudo: «Vendi tudo de valor quanto tinha. A última derradeira jóia que vendi foi um relógio de pulso Patek, todo em ouro». Data deste período o único desabafo que encontramos acerca da mulher: «Não gosta de se desfazer dos vestidos, sapatos, chapéus, jóias, mesmo que precise de pão para a boca». Mesmo estas considerações revelam exagero como se falasse de um moderno guarda-roupa, que não era o caso visto ambos vestirem modestamente segundo as observações de diversos dos seus amigos.
Mal instalado, sobrevive da colaboração em jornais, dos direitos de autor que vai recebendo, do auxílio dos amigos. Declama poesia num restaurante típico português ganhando, mal, o sustento diário: «Comemos arroz, café, chá, um resto de queijo e pão», escreve num dos seus dolorosos apontamentos da segunda metade de 1958. Para o médico de Carminda pede 1000 cruzeiros emprestados a uma portuguesa com venda de ovos e galinhas na Avenida Princesa Isabel, mas no dia seguinte a mulher não leva a primeira injecção «porque não havia dinheiro para o pavio, quanto mais para a vela».
A Portugal chegam ecos desta situação e um articulista do jornal O Século escreve, por altura do falecimento do poeta, na secção “Últimas Notícias” (19 de Março de 1959), algumas linhas trágicas a encerrar uma breve nota biográfica: «Um dia, após anos de silêncio, soube-se aqui que o cantor das quentes noites lisboetas estava num asilo de indigentes, para onde o remetera a caridade alheia. Fora preso por vadiagem na grande metrópole projectada para o céu em gritos de cimento, quando abordava transeuntes e lhes sussurrava: - Sou o António Boto. Vinte cruzeiros por um poema». Esta fantasia, derivada certamente do processo de internamento hospitalar na Santa Casa da Misericórdia, ajuda-nos a compreender os exageros que envolveram a vida e a carreira literária do autor de Dandismo porque no Brasil, como em Portugal, o dinheiro entrava-lhe nos bolsos e saía deles com grande facilidade. O próprio Botto regista que Samuel Ribeiro «honrado santista, e cultura aprimorada», ofereceu-lhe trezentos mil cruzeiros, «como lembrança de um lial admirador de toda a minha obra» (sic). Concluo que boa parte das dificuldades financeiras com que sempre lutou deveram-se à sua total ausência de economia.
Paulo da Cunha Rabello é advogado, director-gerente da Sociedade de Incorporações e Realizações, Lda., intelectual e poeta, amigo e admirador de António Botto a quem este recorre e mais abertamente se confessa nos momentos de maior dificuldade. A partir de Niterói Paulo Rabello torna-se uma espécie de anjo da guarda do nosso compatriota pois não só o defende nas questões jurídicas como lhe facilita a resolução dos problemas que delas resultam. Em Junho de 1958 o advogado recebe do tribunal a ordem de despejo da Av. Almirante Alexandrino e apesar de Botto se alojar na Rua Joaquim Murtinho não deixa de procurar, com a colaboração do amigo, outro local onde possa viver com dignidade e respirar com esperança. Inicia então uma batida por Copacabana em jornadas exaustivas e desanimadoras pois o que vê é «tudo caro e mau». São dias tristes, angustiantes, dolorosos, que o poeta regista no seu diário. Em 13 de Outubro o casal passa pelo escritório de Paulo Rabello onde a par da informação sobre a jornada falam da peça A Raposa e as Uvas, de Guilherme de Figueiredo, em cena no Teatro Copacabana. Antes de regressarem a Santa Teresa «debaixo de uma chuva horrível, peganhenta, em que a cidade velha, escura, desmantelada, nos comunica o frio da desgraça e da morte», procuram um pouco de conforto e calor humano com esse amigo de todas as horas, conversando sobre poesia, sobre acontecimentos correntes como seja o aniversário da Elbi (?) com quem Botto diz ter dançado duas vezes. Depois a noite cai, o dramaturgo de Alfama retoma a realidade para regressar a casa e ao deixar o “bonde” atravessa a Joaquim Murtinho cruzando-se com «ratos, ratazanas e baratas» que passavam diante de si. Nessa casa gélida, pobre, «miserável» como lhe chama, posso imaginar que todos os dias, mesmo nos de sol, acorda com «o céu pesado, da cor dos cemitérios», conferindo ao drama do casal a dimensão da tragédia não fora a intervenção de Paulo Rabello em conseguir um «apartamento salvador». Nesse Dezembro de 58 faz no notário um contrato de locação com o Dr. Firmino Von Doellinger da Graça, representado por sua esposa na escritura do apartamento 902, situado no 9º andar do edifício Granada, Rua Belfort Roxo, nº 169, Bairro de Copacabana. O contrato estabelece uma renda de 1000 cruzeiros por mês, ficando Cunha Rabello como fiador e responsável contratual o que só comprova que António Botto tinha, de facto, amigos. O desafortunado ano de 1958 acabava a flutuar entre a tranquilidade e a esperança de uma paz que tardava em chegar. Apesar do tempo lhes ir fugindo os seus corações estremeciam na fé de que ainda teriam direito ao seu pequeno naco de felicidade.
Tomado pela consciência do íntimo silêncio de si próprio, onde fenece a chama criativa dos anos vinte e trinta, pouco fala do que escreve. Toca-lhe a dor e o desespero que caracterizam os versos do seu drama mas falta-lhe a voz da sedução e a capacidade em provocar emoções violentas e profundas como fora o caso da “Polémica das Canções” que arrebatou a intelectualidade lisboeta nos idos anos vinte. Todavia, de 1958 data uma introdução ao livro Mastros do meu Navio, que não chegou a publicar, aproveitando-a em Ainda não se Escreveu, obra póstuma cujo original enviou para as Edições Ática, em Lisboa, pouco tempo antes de falecer e onde acabará por ser editada. «Depois de onze anos ausente da minha Pátria, sem publicar, sequer, uma única obra inédita, apareço finalmente. A mim, meteram-me numa cova rasa, e puseram este letreiro para quem passasse e olhasse: - morreu de vez. Porém ressuscitei, não ao terceiro dia, como o Deus que nos faltava, mas ao cabo de onze anos (..)». Mais valia que não tivesse ressuscitado este escritor a quem a doença foi minando o talento, fragmentando o tempo e o verso sem epopeia e sem arte. Na mente do poeta interceptam-se segmentos rápidos de memórias, esfumam-se no espaço rostos de amigos, lides literárias, tertúlias, conferências, bastidores de teatros, dislates de conservadores e provocações que criaram escândalos. Anjos anunciadores de recordações passam acenando-lhe gestos simples de amor e amizade. Muito embora António Botto sinta nos seus amigos brasileiros carinho e manifesto calor humano percebe que a sua realidade se tornou fugidia como uma pena levada pela maré nos mares de Iemanjá.
(continua)
____________
Vamos escutar Celeste Rodrigues num fado com letra de António Botto - "Meus Olhos"
Os Últimos Anos de Infortúnio
(continuação)
O Brasil que lhe ofereceu glórias não lhe poupou desgraças. Humanamente o poeta esquece as primeiras e
enreda-se na malha das segundas. Na sua psique fragilizada acumulam-se recalcamentos que alivia em apontamentos escritos sobre o país escolhido para emigrar. No diário, entre 13 de Outubro e 23 de Novembro de 1958, talvez num dos mais tristes momentos da sua vida, António Botto não poupa comentários críticos e depreciativos em impressões avulsas, na maioria telegráficas, indicando pessoas, marcas, coisas, observações da vida corrente, estabelecendo o contraponto entre a nação rica e «a miséria [que] é o pão de cada dia».
A sua realidade conjugada com um envolvimento social difícil deprime a ponto de proclamar a revolta interior de forma algo violenta: «Levanta-te Rei D. João VI, e vem presenciar este novo campo de concentração para os que trabalham. Os outros, os magnates, esses arrastam correntes de ouro pelas ruas da capital desprezada, cheia de lixo e covas onde se podem enterrar os pobres» (BNL- espólio de AB – cota E 12/63).
Botto foi sempre um homem sensível à miséria social, provavelmente pela vincada memória das suas origens sobre as quais podia mentir mas não se podia furtar. Em muitos dos seus poemas e outros textos encontramos solidariedade com a dor e infelicidade alheias. Creio que foi sincero no desgosto perante o drama dos outros onde integrava também o seu. A realidade dos que labutavam no charco da ignorância e da pobreza entristecia-o, pelo que não deixou de se emocionar com o destino daqueles que viviam no limbo do sacrifício. Daqui deriva, certamente, a imagem de um Brasil «árido [onde], a hostilidade é o brazão sem nobreza deste país condenado pela política» (BNL-espólio de AB-cota E 12/163). Não obstante ser política qualquer crítica social (mesmo a sua), o lusitano poeta declarava-se «visceralmente anti-política», pois dizia: «…De resto não sou um político: sou um poeta» (Revista da Semana), o que não o impediu de escrever, provavelmente em 1954, durante o levantamento popular na Hungria, o Poema aos Estados Unidos da América sem Política Nenhuma (inédito dactilografado no espólio), de gosto duvidoso mas suficiente para concluir que o seu autor era manifestamente anti-estalinista e anti-comunista. E não serão por acaso políticas as duas cartas escritas a Salazar? Remetida a primeira, ainda em 1958, da Almirante Alexandrino, felicitas o ditador pelo aniversário que ocorrerá em 27 de Abril, informando-o que o teu maior desejo seria estar em Lisboa nessa data para poderes «apertar a sua mão comovido e feliz».Um caso de idolatria, para não dizer bajulação, a repetir-se na segunda, datada de 2 de Fevereiro de 1959, em que manifestas a tua veneração de sempre para com o ditador, «Agora que esse caso deploravelmente lamentável do sr. General Humberto Delgado deixou de andar nas notícias de jornais, todos os dias, como oposição que foi (…)». Para quem era «visceralmente anti-política» tornava-se evidente que a política não te era de todo indiferente, ou pelo menos um certo tipo de personalidades políticas, como se deduz pela desconfortável leitura das duas cartas carregadas de elogios. Estes serão, contudo, pecados menores ditados pelo exagero que punhas nas palavras e atitudes como se representasses em palco a figura de António Botto por ti próprio. Este exercício de um salazarismo servil, jamais manifestado enquanto viveste em Portugal, só encontra explicação no desejo secreto que acalentavas de regressar à pátria. Salazar nunca te respondeu. Salazar não gostava de ti.
O caso da tua exoneração compulsiva da função pública foi disso significativo embora o inquérito oficial tenha englobado sete funcionários, entre os quais três senhoras. Na altura (1942) eras 1º escriturário de 2ª classe do Arquivo Geral do Registo Criminal e Policial e foste acusado de “Não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social; Fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição (…)”. Publicado o resultado do processo no Diário do Governo Botto vem para a rua e passou a vangloriar-se publicamente de ser o primeiro pederasta português com direito a reconhecimento oficial, chegando a mandar imprimir cartões de visita com tal classificação. A sobranceria sarcástica do autor de Ciúme acerca da deliberação que o atinge esconde um presumível ressentimento sobre a decisão pública, a qual terá efeito devastador na sua vida. A nova ordem jesuítica do salazarismo nunca lhe perdoou a personalidade arrevesada e provocatória atacada por muitos mas também defendida como forma de salvar o poeta e a sua obra da onde de hipocrisia moralista.
Na prática colegas de letras afastaram-se, ou cortaram relações, com António Botto devido ao seu homossexualismo e feitio maledicente origem de sérios dissabores de que o período do Brasil não foi excepção. Queixava-se, por isso, de ser esquecido pelos amigos, não ser acarinhado como sentia merecer, do infortúnio que o atingia ao ponto de considerar que «a perseguição [entrara consigo] no barco». A estiagem da sua carreira literária e a arquitectura de fantasias roubam-lhe lucidez pois classifica-se figura ilustre à qual a Colónia Portuguesa não presta homenagem, antes lhe torpedeia os lugares que tem nos jornais Mundo Português, Voz de Portugal e Globo. Na realidade todos são culpados das suas desgraças e ele o único inocente, como podemos ler em registo inédito: «Acabo este livro de impressões sobre o Brasil, pedindo uma indemnização ao Império da Banana porque vim iludido com as falsas reportagens de tanto cretino comprado para as fazer. Indemnização pela neurastenia., pela perda da saúde, pelos aborrecimentos, pela perda da vontade pela vida, e pela soma de infâmias que pretenderam com a semente da inveja manchar o meu nome limpo de artista, de Homem e de Poeta» (sic) (BNL-espólio da AB- cota E12/174).
Estes desabafos fortemente ditados pela amargura de situações desesperadas não correspondem literalmente à verdade. António Botto sentia prazer em lamentar-se pelas desatenções de que era vítima esquecendo-se que imensas vezes as motivava. Não obstante, são incontroversas as provas de constante e verdadeira amizade de muitos portugueses e brasileiros ali radicados. Rodearam-no de atenções, proporcionaram-lhe oportunidades, ajudaram-no moral e materialmente impedindo a sua queda total. Mesmo nos piores momentos, apesar de Botto nada de relevante ter acrescentado à sua obra publicada em Portugal, desfrutou de condigna posição entre a intelectualidade brasileira e destaque na imprensa como se verifica no noticiário do seu internamento na Beneficência Portuguesa e depois nas circunstâncias da sua morte.
(continua)
Em cima: Retrato de António Botto por Almada Negreiros
Ana Carolina Pereira interpreta "Canção", de António Botto:
Os Últimos Anos de Infortúnio
(continuação)
O caso Martinez, a doença e o internato, têm o seu quê rocambolesco. Segundo o próprio Botto explica pelo seu punho (BNL,espólio A.B.-cota E12/175) num apontamento a lápis tomado numa toalha de mesa em papel, da Casa Atlântica da Avenida Copacabana. Foi internado na enfermaria (sublinhado meu) 268 da Real Benemérita Sociedade de Beneficência Portuguesa que viria mais tarde a público explicar tratar-se não de enfermaria mas do quarto particular nº 268. O certo é que Botto tece fortes queixas à assistência na instituição pelo que no dia 6 de Novembro passam-no para o quarto particular nº 254. Mas o poeta afirma que em todo este tempo em vez de melhorar piora e troca os cuidados do Dr. Paulo Brás pelos do cirurgião Renato Machado. Afinal, que doença, ou doenças, atacam António Botto a um ponto de tal gravidade?
A garganta e os ouvidos sabemos serem órgãos frágeis neste homem que sempre os tratou mal. Os exames radiológicos mostraram opacidade nos seios da face e do crânio e a última análise deu maus resultados mas desconhece-se a origem. Nada é possível garantir e a polémica da assistência prestada pela Beneficência Portuguesa arrastou-se pelos jornais ao ponto daquele hospital prestar esclarecimentos públicos, informando que não sendo António Botto sócio da instituição ali foi internado gratuitamente. Acusações aparte, Botto acabou pedindo ao ministro Lafayette de Andrade, simultaneamente provedor da Santa Casa da Misericórdia, transferência para esta instituição, que lhe foi concedida e concretizada no dia 29 de Dezembro daquele malfadado ano de 1955. Cabe ao médico Luciano Rossi assisti-lo e logo no dia 10 de Janeiro de 1956 uma análise ao sangue não vaticina nada de bom, mas desconhece-se a doença.
Na Misericórdia o poeta é instalado no quarto nº 18, da 14ª enfermaria, aquele onde viria a ocorrer a célebre entrevista de José Alberto Teixeira Leite, com fotos de Alberto Ferreira, publicada em 19 de Maio de 1956, no nº 20 da Revista da Semana, do Rio de Janeiro, entrevista onde afirma que aos sete anos partira para Inglaterra e com dezoito incompletos principiava «a publicar no Suplemento Literário do jornal The Times Square os [seus] primeiros ensaios sobre escritores daquele tempo». Confesso, António, que fiquei perplexo com esta colaboração desconhecida, certamente por ignorância minha e de muitos outros que escreveram sobre a tua obra e a tua pessoa. Penitencio-me, até porque não fui confirmar tal colaboração ao Times Square, assim como a história de teres sido matriculado numa «escola de comprovada categoria», a fim de tirares um curso de arquitectura, são efabulações para brasileiro ler.
Eras assim, um contumaz esbanjador de grandezas pois nem sequer reconheceste, perante o jornalista, as tuas dificuldades económicas: «Não estou na indigência, de modo algum. Tenho ainda as minhas propriedades em Portugal e meus livros publicados em várias editoras (…) rendem-me direitos autorais». Uma parte era verdade, outra ficção. Não estarias na indigência, é facto, mas o teu senhorio, Manuel Vitorino, preparava-se para te fazer as malas com uma acção de despejo. Quanto aos estudos, frequentaste em Lisboa a escola primária e pouco mais visto o resto ter sido resultado do autodidatismo o que não é nenhuma desonra.
A leitura da entrevista traduz um tom ameno e até uma certa boa disposição, o que não invalida a exigência de cuidados com a saúde do poeta, sendo operado, em Outubro de 1956, no Hospital da Gambôa (Cais do Maná), por qualquer razão que se desconhece. D. Carminda, mulher fidelíssima e de indiscutível solidariedade para com o seu marido, por essa ocasião rondando os setenta anos, é assaltada dentro do hospital pelo método do esticão, ficando sem a mala, dinheiro e documentos. António Botto, após a operação regressa à Santa Casa da Misericórdia sendo surpreendido por um carta do ministro Lafayette de Andrade, que o transfere para o Hospital de Nossa Senhora do Socorro no dia 23 de Novembro de 1956, no desejo de proporcionar maior conforto ao doente.
No fim desta infeliz trajectória hospitalar o autor de Baionetas da Morte regressa a casa, na Almirante Alexandrino, onde o espera o senhorio com um rol de rendas em atraso, aliás, contestadas pelo inquilino, num processo que ser-lhe-á desfavorável obrigando-o a abandonar a casa em Abril de 1958. Tinham corrido no Brasil onze anos de malfadada sina, agora faltavam-lhe apenas onze meses para a chegada da malfadada morte.
(continua)
__________________
Escolhemos hoje mais um poema de António Botto, desta vez cantado por Teresa Silva Carvalho, "Choram meus olhos" .
Os Últimos Anos de Infortúnio
(continuação)
O atentado contra Carlos Lacerda (1954), onde morre o major da aeronáutica Rubem Florentino Vaz, confere ao descontentamento político uma dimensão violenta e perigosa. Café Filho não consegue acalmar os protestos contra uma economia em descalabro pela constante desvalorização da moeda. A mediocridade da geração de políticos é evidente como evidente se torna a superioridade dos intelectuais saídos da Geração 45 e do Concretismo que darão às artes e às letras obras de Cândido Portinari, Óscar Niemer, Villa-Lobos, João Cabral de Melo Neto, Bueno de Rivera, Lasa Segall, Péricles da Silva Ramos, Manuel Bandeira e outros. Graciliano Ramos (Vidas Secas, Memórias do Cárcere) morre em 1953 e o curioso poeta Ascenso Ferreira, falecido em 1955 (Catimbó e Outros Poemas), revela-se, sobretudo, na interpretação da sua poesia através de recitais. Augusto Schmidt, escritor modernista (Fonte Invisível), torna-se grande amigo de António Botto assim como José Gerardo Vieira (A Mulher que Fugiu de Sodoma), mas são os murais de Cândido Portinari, na sua força telúrica de cores e formas, que levarão à glória este pintor autodidacta que viria a falecer em 1962.
Do maciço da Tijuca o panorama do Corcovado é de uma beleza esmagadora a esconder a miséria das favelas sob o tecto maravilhoso que a natureza deu e o homem sujou. Não obstante, as eleições de 1955 vão trazer ao poder uma nova direcção, prestígio, desenvolvimento, motivação popular que coloca com o seu voto na presidência da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Ganha o futuro do Brasil que conhece a implantação da indústria automobilista, medidas económicas e sociais inovadoras e o sonho antigo de criar de raiz a capital no interior. Voo luminoso, começado em 1956, tem apogeu em Brasília inaugurada em 21 de Abril de 1960. Nunca como então as nossas relações estiveram tão próximas e prometedoras. Foi essa diplomacia de proximidade que levou o embaixador do Brasil a estar presente nas comemorações do 25º aniversário da posse do teu amigo Manuel Gonçalves Cerejeira como cardeal-patriarca de Lisboa.
O António Ferro, após a última exposição de arte no SNI seguiu a diplomacia e andou por essa Europa fora até falecer há pouco tempo. Diz-se que “o velho” mandou-o viajar porque estava farto dele. D’Assumpção, Sá Nogueira, Nikias Skapinakis são os novos provocadores da pintura irritando os conservadores já dispostos a ceder snobmente às obras da Vieira da Silva. O Almada, o nosso do Manifesto Anti Dantas, pintou o retrato do Fernando Pessoa, condenado à celebridade, pelo menos entre nós. O Jorge Brum do Canto filmou Chaimite e o amigo António Lopes Ribeiro foi-se ao Eça com O Primo Basílio. Surrealistas entretêm-se em discussões mesquinhas com o Cesariny à cabeça, sobretudo depois do desaparecimento do António Maria Lisboa. A sensação do grupo é Alexandre O’Neill (gente nova, António, que desconheces), poeta reinventor da palavra e da ironia com Cadernos de Poesia. A Agustina e a Irene Lisboa escreveram duas obras de referência: A Sibila (1954) e Uma mão Cheia de Nada, Outra de Coisa Nenhuma (1955). Aí vão para tu leres homem, ao menos a ver se deixas esse torpor! Eh!, chegou aqui a Ciranda de Pedra da Lígia Fagundes Teles, mas os grandes escritores brasileiros que se vendem por cá são o Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo e, naturalmente, Josué de Castro e Jorge Amado, estes na candonga. A PIDE apreendeu a edição de Quando os Lobos Uivam, do Aquilino. A peça Alguém terá de Morrer, do Francisco Rebello, é aplaudida no Trindade, mas se queremos vibrar, sentir um cheiro diferente sobre as tábuas do palco temos de aplaudir O Crime de Aldeia Velha do Bernando Santareno. A televisão iniciou as transmissões regulares tornando-se a coqueluche das casas dos ricos e o divertimento nocturno dos cafés dos pobres. O arménio Calouste Gulbekian legou um império a Portugal, salvo seja, deixando em testamento a vontade de criar uma fundação com o seu nome. Sebastião da Gama, jovem poeta de vinte e sete anos, finou-se no início de uma obra prometedora Recordas-te do Alves da Cunha, da Maria Matos, do Nascimento Fernandes? Puseram de luto o teatro.
A rua Almirante Alexandrino, nº 154, no bairro popular de Santa Teresa, onde o casal se instala em Outubro de 1955, irá ser o palco de mais uma situação conflituosa e amarga no curto futuro do poeta. Por cima do apartamento viviam uma brasileira e um galego, «pessoas de xadrez», como Botto as classificava, cujo sujeito odiava portugueses. Provavelmente, alguém da família Martinez, ou ele próprio, sofrera em Lisboa humilhações que ficaram gravadas para a vida inteira. Há rancores de estimação que nos consomem pelo que portugueses por perto eram veneno pela certa. Botto está, assim, em má vizinhança. A dupla desafia a paciência de um oriental quanto mais a de um poeta doente. Arrastam móveis, divertem-se com música alta, esmeram-se em actividades ruidosas fora de horas, mantendo a estratégia do permanente desassossego. O dia a dia torna-se um inferno pelo que António queixa-se ao senhorio Manuel Vitorino de Almeida que não só faz ouvidos de mercador como lhe aumenta a renda dos 1.700 cruzeiros para 2.500. Uma exorbitância! Proclama o poeta, comprando um litígio com a “caridosa alma” do senhor Manuel. Os Martinez atacam-no com o barulho e o Manuel com a renda, fazendo a tormenta do português. Desde há muito, sabemos Botto portador de uma inflamação auditiva grave a piorar porque o stress domina-o, a tensão arterial eleva-se e na manhã de domingo 23 de Outubro de 1955, pelas onze horas, António Botto adoece de modo a gerar inquietação: «Quando o médico chegou eu já estava surdo e quase no outro mundo», lamenta-se. No dia 26 de Outubro é internado no Hospital da Beneficência Portuguesa, começando com estes acontecimentos a sua descida ao purgatório.
A imprensa dá notícia chamando-lhe “o grande poeta universal”. «Está ali a tratar-se de uma doença que os médicos não declaram, mas não vítima de um derrame cerebral» como chegou a ser noticiado. Mas a maleita é grave e o poeta reage com lentidão. Visitam-no colegas de letras e jornalistas. D. Carminda mantém-se a seu lado. Os dois únicos semanários da colónia portuguesa pouco escrevem ou noticiam enquanto a imprensa brasileira manifesta-se sobre o acontecimento com «todo o louvor e mágoa».
(continua)
________________________
Hoje vamos ouvir "O Mais Importante Na Vida", de António Botto, dito por Manuela de Freitas:
Os Últimos Anos de Infortúnio
(continuação)
A década da sua máxima produção poética e merecido destaque foi a dos anos vinte que arrancou a Fernando Pessoa, no início da carreira do seu amigo, as algo exageradas afirmações ao considerar António Botto o «único exemplo (...) na literatura europeia, do isolamento espontâneo e absoluto do ideal estético em toda a sua vazia integridade» (António Botto e o Ideal Estético em Portugal). Quando em 1929 Pessoa recorre à colaboração de Botto para iniciarem a Antologia de Poemas Portugueses Modernos já este ocupa um lugar especial na nossa poesia o que levaria José Régio a considerá-lo mais tarde, «Grande poeta e grande artista isolado (...) tem já uma obra que pelas esquesitices do ritmo, as subtilezas da ironia, os arrojos confessionais, os recantos de intenção e os achados de expressão depurada, - é bem moderno» (A Moderna Poesia Portuguesa – p.90-Ed.Inquérito, 2ª ed. – Lisboa s/data).
Mas não é só Amorim de Carvalho que coloca questões desta ordem. No espólio de António Botto encontra-se um pequeno recorte de jornal brasileiro (não identificado) com o sugestivo título Quem copiou quem? a propósito de um soneto de Francisco Luiz Bernárdez cujo primeiro verso «Hombre que nasces entre desventuras» (sic) é igual ao «Homem que vens de humanas desventuras» (“Canções” – edições Bertrand 1956, soneto nº15/ou nº 14; edição Circulo de Leitores 1978, p.255; ed. Presença (1999), p.210), cujos versos de Botto foram popularizados em fado por Carlos do Carmo.
Francisco Bernárdez nasceu em Buenos Aires a 5 de Outubro de 1900. Seus pais eram galegos e vieram para Ourense. Jovem, Bernárdez, fixou-se na Galiza, mais precisamente em Vigo, como redactor do jornal Pueblo Gallego. Ali viveu entre 1922 e 1925, iniciando a sua carreira literária, com algumas temporadas em Madrid e um ano em Portugal. Regressou à Argentina onde teve actividade literária considerável e conheceu a fama poética. Morreu em 1978. Nesta questão de plágio é indesmentível o facto dos versos dos dois sonetos (argentino e português) serem efectivamente iguais. Resta saber quem publicou primeiro, isso não consegui apurar, mas coincidência não é de certeza num soneto completo.
Bem menos cáustico que Amorim de Carvalho, Eugénio de Andrade manifesta uma posição bastante crítica em relação à poética de António Botto mesmo quando lhe reconhece algum mérito. Também Oscar Lopes, no volume VIII da História Ilustrada das Grandes Literaturas, não concede tréguas à menorização da obra do autor de Canções caracterizada por uma «rima quase sempre ocasional e muito pobre», repassada pelas imagens do «amor secreto e sensual, o fado alfacinha, o populismo, casos de miséria e de paixão». Ao referir-se a Olympíadas considera que «a ode ao desporto desce do pindárico até ao pindérico». Botto nunca foi o que ele se imaginava, um dos maiores, dos únicos grandes poetas da língua portuguesa. «A mim, o que me afligia em António Botto era o cabotinismo, e o que nele havia de artificial, sobretudo quando falava.» (Eugénio de Andrade), fruto da megalomania que haveria de o conduzir à desgraça e que justifica os seus pedantes e antipáticos exageros. Todavia a linguagem, ou o verso populista minimizado por alguns críticos, era, segundo uma lúcida abordagem de Joaquim de Matos (“Letras & Letras” nº 30, Porto, Junho 1990) «uma relação entre o prosaico e o poético [pelo que] o poema apresenta-se ao jeito de uma carta, diálogo com pessoa ausente (…) numa linguagem directa de oralidade (…) poderemos dizer que entramos pela prosa e saímos pela poesia». A forma, o estilo e a espontaneidade fixaram o tal populismo segundo um valor caracterizado pelo dramatismo da linguagem, já para não repetirmos a força expressiva do seu próprio drama.
Se o poeta das Curiosidades Estéticas manifesta, para lá da forte dualidade entre o amor e o prazer carnal, as contradições de um comportamento onde é observável a densidade dorida e traduzida, não raramente por uma certa cumplicidade entre o amor e a morte («Têm-se o amor da própria morte»), abre-se a formas menos negras e angustiosas em Piquenas Esculturas, poemas que figuram como peças modeladas («Busco a beleza na forma») e chegam a representar alegria e vitalidade, sentimentos pouco frequentes na sua poesia, permitindo que o amor assuma uma certa mística do prazer, «uma formosa animalidade inconsciente» como caracteriza o espectáculo viril do corpo masculino na dedicatória que antecede os cinco poemas de Olimpyadas. É essa animalidade que o seduz («E aqueles corpos/ de gentilíssimo talhe/ e sóbria musculatura») num elogio dionisíaco à beleza, à elegância do movimento, ao sentimento de força e à coragem. Dandismo é um livro de despedidas e de separações, umas expressas e outras intuídas («Não vás ainda/ Vê comigo a manhã que vai romper»). Não o denunciando o título, ressalta deste livro uma amargura profunda se não mesmo um desespero que estes dois tristíssimos versos retratam: «Anda um ai na minha vida/ Como lágrima que passa». Ciúme (1934) confirmaria uma plenitude dramática que levaria João Pedro de Andrade a considerar António Botto «um dos mais dolorosos casos da poesia portuguesa» (“Dicionário da Literatura”-Figueirinhas – Porto 1977/ ou 1973).
Quando em 1930 aparece uma nova edição de Canções, Botto é um homem em conflito interior que mais tarde se manifesta na sua poesia e em outros trechos da sua obra. Dotado de uma sensibilidade superior sofre física e psiquicamente com um certo sentido místico da vida que o impede de interpretar a realidade prática mas não de estabelecer desígnios fantasistas para compreender o sofrimento. Afastado, por natureza, dos conflitos sociais verificados à sua volta, interna-se em si e no seu drama. Todavia, os versos e outros textos não deixam de se revestir de uma forte identidade emotiva com os pobres, os desafortunados, os sofredores, os marginalizados. Salvo uma ou outra excepção quando as suas incursões literárias penetram criticamente no plano social, raramente ultrapassam os padrões de solidariedade ou de revolta moral segundo uma visão humanista que prevalece.
(continua)
____________
Hoje temos para vos oferecer uma interpretação da fadista Maria Fernandes do poema de António Botto "Não me chamem pelo meu nome". Uma ainterpretação diferente da de Mísia ( que já apresentámos).
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
Vasco Lourenço
L'utilization des entités juridiques a des fins illicites (Relatório da OCDE sobre Paraísos Fiscais)
Arquivo
Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa
Histórias de suicidios famosos em Portugal
Livros Proibidos Nos Útimos Tempos da Ditadura
biografias
crónicas
livros
música
Património Imaterial da Humanidade
Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo
rubricas
Blogues
Amigos Maiores que o Pensamento
De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas)
Editoras