Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
A SEMANA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES

  ENCERRAMOS HOJE ESTA SEMANA DEDICADA AO "NOSSO CÔNSUL EM BORDÉUS" COM ESTE VÍDEO

SOBRE ENCONTRO DE AMIGOS  DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES.

 

VOLTAREMOS A FALAR NELE.

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
SEMANA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Alguns livros sobre Aristides de Sousa Mendes:



publicado por Carlos Loures às 23:55
editado por João Machado às 13:18
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ALGUNS LIVROS SOBRE ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Durante mais de uma década após a sua morte, um manto de silêncio ocultou a grandeza de Aristides de Sousa Mendes. A primeira homenagem partiu de Israel - em 1966, sendo-lhe atribuído o título de «Justo entre as nações». Em Portugal, só em 1987 é publicamente reabilitado, sendo condecorado com a Ordem da Liberdade. A partir de então,  multiplicaram-se as obras sobre Aristides de Sousa Mendes. De figura ignorada, passou a herói nacional. Entre os muitos livros que lhe têm sido consagrados, estão estes:                          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                 

  

 

 

               

  

 

                                                                                                      

 

                                                                                      

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                  



publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
A SEMANA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES

A casa que pertenceu ao cônsul português Aristides de Sousa Mendes em Cabanas de Viriato (concelho de Carregal do Sal, Viseu) tem de ser recuperada para evitar a ruína, devido ao seu avançado estado de degradação. A Câmara e a fundação não se entendem e a obra está parada.

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 3 - por Fernando Correia da Silva

(Continuação)

 

RECLAMAÇÃO

 

Em 1945, terminada a guerra, desaparecem os condicionalismos políticos que desaconselhavam a reapreciação do meu processo. Envio carta ao Presidente da Assembleia Nacional. A mim me referindo na 3.ª pessoa, reclamo: «Tendo-lhe sido enviadas instruções pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sobre vistos em passaportes, essas instruções continham na 1ª alínea a proibição absoluta de os dar aos israelitas, sem discriminação de nacionalidade.

 

Tratando-se de milhares de pessoas de religião judaica, de todos os países invadidos, já perseguidas na Alemanha e noutros países seus forçados aderentes, entendeu o reclamante que não devia obedecer àquela proibição por a considerar inconstitucional em virtude do art.º 8.º n.º 3 da Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca da religião que professa, medida que aliás se lhe tornava necessária para saber a religião dos impetrantes, e assim negar ou conceder o visto.

 

Nestes termos, se o reclamante não obedeceu à ordem recebida do Ministério, não fez mais que resistir, nos termos do n.º 18 do art. 8º da Constituição, a uma ordem que infringia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião (art.º 8.º, n.º 19).

 

E não se pretenda que a inviolabilidade de crenças não é, segundo a Constituição, um direito para os estrangeiros visados, por não se acharem residindo em Portugal, único caso em que poderiam ter os mesmos direitos que os nacionais (do art.º 7.º) pois não se trata no caso presente de um direito dos estrangeiros mas de um dever dos funcionários portugueses, que nem em Portugal nem nos seus Consulados, também território português, poderão sem quebra da Constituição interrogar seja quem for sobre a religião professada, para negar qualquer acto da sua competência, o que a admitir-se significaria odiosa perseguição religiosa, mormente quando se impunha o direito de asilo que todo o país civilizado sempre tem reconhecido e praticado em ocasiões de guerra ou calamidade pública.»

 

Concluo: «Não alegou na resposta que deu no mesmo processo disciplinar estas circunstâncias, pelo motivo de, lavrando a guerra na Europa, não querer dar publicidade e relevo a uma atitude, por parte de funcionários do Estado, que sobre ser inconstitucional poderia ser interpretada como colaboração na obra de perseguição do governo hitleriano contra os judeus, o que representaria uma quebra da neutralidade adoptada pelo governo. Não pode porém suportar a evidente injustiça com que foi tratado e conduziu ao absurdo, a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sido severamente punido por factos pelos quais a Administração tem sido elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano, pois os encómios cabem ao país e à sua população cujos sentimentos altruístas e humanitários tiveram larga aplicação e retumbância universal, justamente devido à desobediência do reclamante.

 

Em resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente “contra a Nação”.

 

Pede deferimento

 

(a) – Aristides de Sousa Mendes »

 

Não recebo qualquer resposta. Estou pois definitivamente condenado à miséria e à desonra.

 

HOSPITAL DA ORDEM TERCEIRA

 

Lisboa, 3 de Abril de 1954. Estou no Hospital da Ordem Terceira, na Rua Serpa Pinto. Abro a mala, retiro o lenço, enxugo os olhos. O meu tio, Dr. Aristides de Sousa Mendes, acaba de falecer, trombose cerebral agravada por pneumonia. A sua esposa, a minha tia Angelina, morreu em 1948 com uma hemorragia cerebral e ficou vários meses em coma, coitada. Todos os seus filhos, meus primos, vivem hoje nos Estados Unidos e no Canadá, conseguiram escapar a tempo deste purgatório... Sou eu a única familiar presente. O meu tio era um homem bom, sempre a pensar no bem dos outros. É por isso que morre pobre e desonrado.

 

MEMÓRIA

 

1. Em 1967, em Nova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para a recordação dos mártires e heróis do

 

Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro». A Censura salazarista impede que a imprensa portuguesa noticie o acontecimento.

 

2. Encorajada com a homenagem de Israel, Joana Sousa Mendes, filha de Aristides, em 1969 escreve ao Presidente Américo Tomás a pedir a reabilitação da memória do seu pai. Não obtém qualquer resposta.

3. Em Portugal, o “caso” Sousa Mendes só vem a público em 1976 com um artigo de António Colaço no Diário Popular. Tema retomado em 1979 por António Carvalho num outro artigo em A Capital.

4. Ainda em 1979 o Presidente Mário Soares concede, a título póstumo, a Ordem da Liberdade a Aristides de Sousa Mendes. 5. Em 1988, depois de muitas resistências do Antigamente infiltrado no Abril, a Assembleia da República e o Governo português, pressionados pelos filhos de Sousa Mendes e pelos americanos (entre estes o congressista Tony Coelho), finalmente procedem à reabilitação do Cônsul.

6. Após a morte de Aristides foram executadas as hipotecas do recheio da Casa do Passal.

 

Esta ficou ao abandono e os vizinhos passaram a usá-la como galinheiro, pocilga e curral. As novas autoridades portuguesas, as democráticas, estimularam uma fundação a recuperá-la para hotel ou museu. Projecto congelado: a Casa do Passal continua a desfazer-se, é hoje uma cariada cabana de Viriato. Com o seu desaparecimento, ainda há quem tenha a esperança que também desapareça a memória de Aristides Sousa Mendes – será esse um consolo do Antigamente...

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
SEMANA DEDICADA A ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Continuamos a homenagem a Aristides de Sousa Mendes. Hoje vamos ouvir o Benedictus do "Requiem à Memória de Aristides de Sousa Mendes", da autoria de Luís Cipriano, numa interpretação do Coro Misto da Covilhã e da Orquestra Sinfónica da EPABI sob a direcção do compositor.

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 3 - por Fernando Correia da Silva

(Continuação)

 

VISTOS PARA A VIDA

 

 

Aristides de Sousa Mendes com a família.

 

 

 

Em 1940 Sousa Mendes passa vistos a milhares e milhares de refugiados de guerra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:

 

 - Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.

 

Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos.

 

 

Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos.

 

O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos.

 

No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar, o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima: - Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...

 

 

A grosse Mensche, um grande Homem!

 

SALAZAR NÃO PERDOA

 

O meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel. Sou judeu e americano. Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr. Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, em França, passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já partiram para a América, outros ainda estão em Portugal. Também prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito carenciados. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e, apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade.

 

O seu irmão, que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar jamais perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes. Num povoado do Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a albergar muitas famílias de refugiados, às quais, em França, passara vistos para entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa família, foi obrigado a hipotecar todo o recheio. O Dr. Sousa Mendes já não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria. Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá. Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros, estou certo disso.



publicado por Carlos Loures às 20:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
A SEMANA DE ARISTIDES SOUSA MENDES

Apresentamos hoje um segundo documentário sobre Aristides de Sousa Mendes.

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 2 - por Fernando Correia da Silva

 

(Continuação)

 

 

 

 
Palácio da família em Cabanas de Viriato

 

 

TENHO SEDE...

 

Sousa Mendes, diplomata português ora neste, ora naquele país.

 

Não consigo dormir, viro-me para a esquerda, viro-me para a direita, ora tenho frio, ora calor, ora me tapo, ora destapo. Vivo em Bordéus e de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Febre? Talvez acesso da malária que apanhámos em Zanzibar, tu, eu, os nossos filhos. Ou talvez as sezões que antes eu apanhara em Demerara, na Guiana Francesa. Estou em crer que o paludismo já mordeu a minha alma. Tenho pressa, tenho sede. Que horas são? Angelina dá-me água.

 

Estou sempre a zanzar de um lado para o outro, na cama e na vida. A diplomacia tem destas coisas, não dá tempo para um homem assentar e deitar raiz. Será por isso que eu torno sempre às mais profundas. Em 1908 tentaram cortá-las, no Terreiro do Paço mataram-me el-Rei D. Carlos, também o príncipe herdeiro. Lesa-majestade, lesa-vida... Dois anos depois o 5 de Outubro, bandeiras republicanas são içadas, já definha a História pátria. E agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Não gosto que me entalem o lençol no colchão, até parece que estou dentro de uma camisa de forças. De mãos dadas, livres corríamos... Em Cabanas de Viriato tenho um palácio mandado levantar pelos fidalgos meus ancestrais, é a Casa do Passal. Dela, de manhãzinha, de mãos dadas saíamos a correr, saltávamos de fraga em fraga. Tinhas 15 anos e eu 18. Lembras-te ó prima, ó namorada, ó prometida? Quanto mais prima, mais se lhe arrima, diz o povo e tem razão. A vila de Nelas fica ali além e o rio Dão corre lá mais em baixo. É só atravessá-lo para chegarmos a Viseu. No lado oposto, atrás de nós, a Serra da Estrela, a soberana, domina toda a paisagem. Inocência e liberdade, nós a correr, bem me lembro, quisera eu regressar aos tempos que já foram... Porém, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Insónia. Sinto o calor do teu corpo, vontade minha é outra vez fazer amor contigo. Porém temo engravidar-te, catorze vezes já pariste em sangue e sofrimento, expiação do pecado original, filha de Eva que tu és. E não devo refrear-me porque é pecado, devo ser tal como Deus me fez. Além do mais a nossa união foi consagrada pela Santa Madre Igreja, criai-vos e multiplicai-vos. Se, por causa de nossos pais Adão e Eva, fomos expulsos do Paraíso, cumpra-se então o destino que Deus nos traçou. Refrigério para o teu martírio será aleitares mais outra criança que virá para alegrar as nossas vidas. Contudo temo que toda esta inquietação esteja a perder sentido. Temo que já tenhas alcançado a menopausa embora, por vergonha, não o confesses. E se isso realmente aconteceu, o teu silêncio converte o nosso desejo em luxúria e pecadores nos tornamos, é a radical tentação da carne, penitência, penitência, mea culpa, tenho a casa cheia de imagens do Senhor e da Virgem que foi a sua Mãe. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Há por aqui um mosquito que não me deixa dormir. César é o meu irmão gémeo. Juntos, íamos tomar banho no rio Dão. Juntos, cursámos Direito na Universidade de Coimbra. O nosso pai é juiz. Mas César e eu optámos pela diplomacia, não pela magistratura ou advocacia. Até nas carreiras somos gémeos. Tomámos o caminho errado? Creio que sim, somos monárquicos e, com a implantação da República, passámos a ser descriminados. Fui Cônsul na Guiana Francesa, 1 ano; em Zanzibar, África britânica, 7 anos. Ali estou sempre doente, também a minha mulher e os meus filhos, paludismo. Peço para me transferirem. No Palácio das Necessidades de Lisboa, que é o Ministério dos Negócios Estrangeiros, finalmente atendem o meu pedido e mandam-me para o sul do Brasil, sou nomeado Cônsul em Curitiba. Estamos em 1919, tenho 34 anos. Só por causa das minhas convicções monárquicas o novo Governo de Sidónio Pais, sem mais nem menos, suspende-me de funções. Consequências: inactividade, redução brutal de vencimentos e família cada vez maior. É o limiar da miséria, é o desespero. Na Embaixada portuguesa no Rio de Janeiro, César é o Encarregado de Negócios, felizmente. Movimenta-se, consegue que 34 prestigiados cidadãos portugueses, residentes em Curitiba, subscrevam um “protesto contra uma campanha miserável movida contra o Cônsul português por criaturas sem vislumbre de senso moral”. A iniciativa de César dá resultado: no final do ano suspendem a suspensão. Mas continuo sob mira e alvo não quero ser. Tudo se agrava, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Não quero travesseiro, já me basta a almofada. 4 anos mais novo do que eu, em Santa Comba Dão, no nosso distrito de Viseu, nasceu homem que vai dar muito que falar, estou em crer. Também ele cursou Direito na Universidade de Coimbra mas depois optou por Economia e Finanças, não pela Diplomacia. Em 1910, em Viseu, no Colégio do Cónego Barreiros, durante a sua conferência sobre a “Educação da Mocidade”, ele disse: “A vontade deve ser educada no amor a Deus e ao próximo, no amor à família, à honra e à dignidade, ao trabalho e à verdade”. Estou de acordo. Este moço pode vir a ser uma barreira contra a falta de escrúpulos que submerge a nação. O seu nome? António de Oliveira Salazar. Um dia será alçado a lugar cimeiro do país, prevejo. Mas quando é que ele vai assumir o poder para nos salvar? Tenho pressa, tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Este cobertor felpudo é muito quente, trato de empurrá-lo para os pés da cama. Não me deixam ficar em Curitiba, não lhes convém, a colónia portuguesa está bem ciente da perseguição que me fizeram. Mandam-me para Cônsul temporário em S. Francisco da Califórnia. Temporário é equivalente a vencimento reduzido e, em dois anos, nascem mais dois filhos meus. Outra vez o limiar da miséria, o desespero. Depois mandam-me novamente para o Brasil. Em Agosto de 24 sou Cônsul em S. Luís do Maranhão, no norte. E em Dezembro estou a gerir interinamente o Consulado de Porto Alegre, no extremo sul. “Interinamente” é eufemismo de “corte nos vencimentos”... Cansam-me estas viagens, estas deslocações sucessivas, mas o pior de tudo é a falta de dinheiro. Além do mais, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Mas não cedo, não renego, a causa monárquica também é minha, antes quebrar que torcer. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Abafado, já a suar, vontade minha é desfazer-me do pijama, é ficar nu, mas isso não é distinto, não fica bem a um chefe de família. Em 1926 estou outra vez em Lisboa, presto serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. A 28 de Maio ocorre o golpe do General Gomes da Costa, é a Ditadura Militar. Para surpresa minha, em Março de 27 sou nomeado Cônsul em Vigo, na Galiza, cargo de muito prestígio. Um amigo meu, funcionário interno do Palácio das Necessidades, diz-me que fui escolhido “por motivo de confiança”, pois o regime militar vê em mim “o funcionário próprio para inutilizar os manejos conspiratórios dos emigrados políticos contra a Ditadura”. Os militares foram gentis, fizeram-me justiça mas estão equivocados a meu respeito: não sou um denunciante, pedras eu não atiro, nem a primeira, nem a segunda, nem qualquer outra. Que horas são? De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Sonhar, às vezes é antecipar. Em 1928 Salazar sobe à ribalta, é ele o novo Ministro das Finanças da Ditadura Militar. Com o auxílio do exército impõe novas contribuições, veta despesas públicas, alcança o equilíbrio do orçamento, liquida a dívida flutuante e estabiliza a moeda. Já ninguém consegue arredá-lo, ou ele ou a bancarrota. Em 1930 acontece o óbvio: Salazar, de Ministro das Finanças galga a Presidente do Conselho de Ministros. Talvez possa agora restaurar a monarquia. Poderia, lá isso poderia... Poderia mas não quer pois, sem estirpe nem coroa, quem está a converter-se em soberano absoluto é o próprio Salazar, metamorfoses. Ilusão, triste ilusão a minha e agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Daqui a pouco vou precisar do robe, acho que o deixei aos pés da cama. Não correspondo às expectativas dos militares mas eles continuam a prestigiar-me, não sei porquê. Em 1929 nomeiam-me Cônsul em Antuérpia, na Bélgica. Ali permaneço durante 9 anos. Com apenas 50 anos já sou o decano do corpo diplomático. O rei belga, Leopoldo III, simpatiza muito comigo, por duas vezes me condecora. Mas em 38 sou nomeado Cônsul em Bordéus, França. Peço para ser mantido em Antuérpia, cidade onde fiz tantos amigos. Salazar, para minha consternação, recusa o pedido e sigo para Bordéus. De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

De outras vezes o sonho converte-se em pesadelo, ânsias, ao acordar a minha apetência é gritar. Em 39 rebenta a II Guerra Mundial. Os alemães invadem a Polónia e os Países Baixos e a França, Paris é ocupada. Depois a horda ariana começa a descer para sul e sudoeste, vêm aí os assassinos! Milhares e milhares de refugiados de guerra acampam nos jardins do Consulado e nas ruas vizinhas. Franceses, belgas, holandeses, checos, austríacos e até alemães. Judeus mas também cristãos. Querem vistos para o meu país, querem vistos para a Vida. Mas de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições: com a Presidência do Conselho, Salazar acumula agora a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros e proíbe que se passem vistos a refugiados de guerra, principalmente a israelitas. Outra vez me desilude o moço de Santa Comba. Diz-se católico mas esqueceu-se do amor ao próximo que Jesus apregoava e praticava para exemplo de todos os fiéis. Que faço eu? Acato a ordem do Presidente do Conselho? Impassível, vou então ficar à janela a assistir à matança dos inocentes? Não, não e não! Não sou cúmplice da chacina, vou desobedecer a Salazar, vou passar os vistos e salvar os perseguidos. Prefiro estar com Deus contra um homem, do que estar com um homem contra Deus. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 20:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Domingo, 29 de Janeiro de 2012
SEMANA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Esta semana falaremos muito de Aristides de Sousa Mendes - a esta hora publicaremos pequenos documentários sobre uma personagem tão positiva.

 

 



publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 1 - POR Fernando Correia da Silva

Este texto é transcrito, por amabilidade do autor, do site "Vidas Lusófonas", o qual está a atingir os 25 milhões de visitas (www.vidaslusofonas.pt). Dada a sua extensão, dividimo-lo em quatro partes. Hoje, publicamos a cronologia ("Quando Tudo Aconteceu") onde, como é norma nas biografias daquele site, as datas relevantes da vida do biografado são acompanhadas dos acontecimentos mais importantes da história de Portugal e do mundo.

 

QUANDO TUDO ACONTECEU:

 

1885: Filhos de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes, os gémeos César e

 Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nascem em Cabanas de Viriato, Distrito de Viseu, Portugal. - 1907: César e Aristides licenciam-se em Direito na Universidade de Coimbra e depois seguem a carreira diplomática. - 1908: Em Portugal, el-Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro são assassinados. Aristides casa com a sua prima Angelina; o casal virá a ter 14 filhos. - 1910: Aristides é nomeado Cônsul em Demerara, Guiana Francesa. Revolução de 5 de Outubro e proclamação da República portuguesa - 1911/16: Aristides Cônsul em Zanzibar, problemas de saúde para toda a família. - 1914: Início da I Guerra Mundial. - 1916: Portugal entra na I Guerra Mundial a favor dos Aliados; batalha de Verdun, massacre do corpo expedicionário português. - 1918: Termina a I Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Reino Unido, etc.). Aristides é nomeado Cônsul em Curitiba (Brasil). - 1919: Por causa das suas convicções monárquicas, Aristides é castigado pelo governo de Sidónio Pais. - 1921/23: Aristides dirige, temporariamente, o Consulado de S. Francisco da Califórnia, cidade onde nasce o seu 10.º filho. - 1924: Aristides Cônsul em S. Luís do Maranhão (Brasil). Depois, passa a dirigir, interinamente, o Consulado de Porto Alegre (Brasil). - 1926: Aristides regressa a Lisboa para prestar serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. Em Portugal, revolução militar do 28 de Maio conduzida pelo Marechal Gomes da Costa. - 1927: A Ditadura Militar portuguesa confia em Aristides e nomeia-o Cônsul em Vigo. - 1928: Salazar, Ministro das Finanças. - 1929: Aristides é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia (Bélgica). - 1930: Salazar, Presidente do Conselho de Ministros. - 1936: O rei belga, Leopoldo III, condecora Aristides de Sousa Mendes, decano do corpo diplomático. - 1938: Salazar nomeia Aristides de Sousa Mendes Cônsul de Portugal em Bordéus. - 1939: Salazar e Franco assinam o Pacto Ibérico. A Alemanha de Hitler invade a Polónia, início da II Guerra Mundial. Com a Presidência do Conselho, Salazar acumula a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros. - 1940: Contrariando as ordens de Salazar, Aristides de Sousa Mendes, no Consulado de Portugal em Bordéus, passa mais de 30.000 vistos a judeus e outras minorias perseguidas pelos nazis. Salazar condena Sousa Mendes a um ano de inactividade e depois aposenta-o sem qualquer vencimento. - 1945: Termina a II Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos da América, União Soviética, etc.). Aristides de Sousa Mendes dirige carta à Assembleia Nacional, reclamando (em vão) contra o castigo que lhe fora imposto pelo Governo. - 1948: Morre Angelina de Sousa Mendes. - 1954: Assistido apenas por uma sobrinha, Aristides de Sousa Mendes morre «pobre e desonrado», no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa. - 1967: Yad Vashem, autoridade estatal israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro». - 1998: A Assembleia da República e o Governo português finalmente procedem à reabilitação oficial de Aristides de Sousa Mendes.

 

 

 

 

 

O RABINO KRUGER

 

Na fotografia: o rabino Kruger com Aristides de Sousa Mendes

 

 

Na Polónia já estou acostumado ao anti-semitismo e não me espanta que, no outro lado, na Alemanha, Hitler tome o poder. Pelas ruas de Berlim judeus são perseguidos, espancados e mortos - é que nos escrevem, é que nos dizem, é o que lemos, oi gewalt. O meu nome é Chaim Kruger e sou rabino numa klein statle, num pequeno povoado. “A guerra é inevitável”, prevejo, “e em breve os nazis estarão aqui”. Não é fácil mas, com economias feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938 conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas.

 

Em 1939 os alemães invadem a Polónia e, logo a seguir, os Países Baixos. Com a minha família, outra vez estamos em fuga. Chegamos a Paris mas logo abalamos para sudoeste porque os alemães já estão a invadir a França. Milhares, dezenas de milhares de refugiados, judeus e outras minorias, pejam os caminhos; são antinazis franceses e belgas e holandeses e checos e alemães, também algumas famílias ciganas. Uma, ou duas vezes por dia, caças alemães mergulham em voo picado sobre as estradas e metralham os caminhantes. Há dezenas de mortos nas bermas, todos eles ensanguentados. Ainda ouço os gritos, choros, lamentações, oi wais mir. Quis Deus que eu, e os meus, tenhamos escapado sempre ilesos, graças a Deus, dank main Got.

 

Para fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América, onde parentes nossos esperam por nós.

 

Chegamos a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não entendo o que se passa. Cá fora um francês, também ele refugiado e, ao que suponho, comunista, explica-me:

 

- Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro ministro português, está entalado. Portugal tem uma aliança antiquíssima com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a simpatia do fascista Salazar vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados. Por isso estou em crer que Salazar lava as mãos e vai impedir a entrada de refugiados em Portugal. Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora não obteve qualquer resposta. - Quem é o Dr. Mendes?

 

- É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes. Mendes, Mendes...

 

O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu. Tenho que falar com o Dr. Mendes. Dirijo-me ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas depois sou recebido. É um cavalheiro muito distinto, porém com feições angustiadas. Deve estar a viver uma grande tragédia, bem posso imaginar qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque também ele tem muitos filhos, acho que doze. Convida-nos a pousar em sua casa para darmos algum descanso às crianças. Aceito, agradeço e pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece:

 

- Rabi, não se iluda com o meu apelido Mendes. Até onde eu posso rastear, a minha família, há pelo menos cinco gerações, é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento. Errei o alvo, main mazle, má sorte a minha,...

 

Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me. Depois ouso perguntar-lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a necessária autorização do seu Governo.

 

- Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança? Levanta-se. Amargurado, segura-me o braço.

 

- Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência.

 

 Conduz-nos a sua casa, que fica no Quai Louis XVIII, por trás do Consulado. Apresenta-nos à sua esposa, D. Angelina, e a três dos seus filhos mais velhos. Indica os aposentos que nos destina. Deseja-nos um bom descanso. Apesar de gentio, apesar de goi, este Dr. Mendes is a Mensche, é realmente um Homem.

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 19:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Com o trailer do filme The consul of Bordeaux, chamamos a vossa atenção para a petição que pusemos para assinatura de argonautas e de visitantes do blogue e para magnífica biografia de Aristides de Sousa Mendes, de Fernando Correia da Silva que começamos a publicar hoje às 19 horas.

 

 

 
 

The Consul of Bordeaux (O Cônsul de Bordéus)

O filme português “O Cônsul de Bordéus”, é uma co-produção c/ França, Espanha, Belgica e Polónia terá uma ante-estreia a 16 de Junho em Bruxelas. Em Portugal deve ser estreado em Setembro.

 

Dirigido por:
Francisco Manso
João Correia

Elenco:


Vítor Norte……………………………Aristides de Sousa Mendes
João Monteiro………………………..Aaron Apelman
Carlos Paulo…………………………..Rabino Kruger
Manuel de Blas……………………….Maestro Francisco de Almeida
Leonor Seixas…………………………Alexandra Schmidt
Sara Barros Leitão……………………Esther Apelman
Joaquim Nicolau………………………José Seabra
Susana Sá……………………………..Sarah Kruger
Patricia Ferreira……………………….Clotilde Sousa Mendes
Pedro Cunha…………………………..Amorim
São José Correia………………………Andreé Cibal
Laura Soveral…………………………..Esther Velha
Miguel Borines…………………………Cabo Espanhol
António Capelo…………………………Teotónio Pereira
João Cabral……………………………..Faria Machado

Produtor:
Daniel Markowicz

 

 



publicado por Carlos Loures às 17:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 28 de Janeiro de 2012
Apelo a favor da Casa do Passal, da Fundação Aristides Sousa Mendes

O novo governo português para tentar controlar despesas etc resolveu entre outras coisas fechar todas as Fundações que não sejam auto-suficientes,  que precisem da ajuda do estado para sobreviver. Entre estas foi incluída  a Fundação Aristides de Sousa Mendes. Amigos e alguns familiares de Sousa Mendes têm-se mexido para evitar isso e que o governo faça uma excepção, dado a natureza e importância  da figura de  Aristides Sousa Mendes.


Entre várias coisas que temos feito  saliento mostrar o interesse e vontade da Comunidade Internacional por este assunto. Por isso  sugerimos/pedimos que de toda a parte do mundo cheguem a Portugal pedidos nesse sentido, de manter o apoio à  Fundação Aristides Sousa Mendes (Eu mesmo tenho feito os meus contactos, do Vaticano à Argentina, Canadá  Eslovénia, Reino Unido, Polónia ...). Todos somos poucos para este esforço, que tem de se manter enquanto a decisão a favor não tiver sido feita.  O que será feito no dia 2 de Fevereiro pelo Dr. Marques Guedes.


Se puderes,  depois de leres o que segue envia para os teus amigos, especialmente estrangeiros e portugueses que estão  no estrangeiro (é ridículo, mas a experiência ensinou-me : para os "nossos" em Portugal... tem outro valor se o apelo vier de fora  ( é urgente; o dia de decisão é a 2 de Fevereiro)....

E aqui vai em ambas as línguas ( podes talvez pôr na tua página de facebook, também).


Por isso, para facilitar, aqui vai um esboço da petição a enviar por E mail  que pode servir de base, modificado conforme necessário ou, se quiserem, até basta copiar e enviar.


A seguir está uma versão em inglês, incluindo uma explicação dos acontecimentos e uma versaõ da minuta.

 

Lisboa- Portugal,

 Excelência,

 

       A antiga residência de Aristides de Sousa Mendes, «Casa do Passal», porque evoca os actos heróicos deste grande humanista, de que Portugal se deve orgulhar, é a todos os títulos Monumento de toda a Humanidade. 

       Seria grande perda para a Humanidade que este espaço ruísse e daí também a importância da continuidade da Fundação Aristides de Sousa Mendes, detentora desse espaço e empenhada em homenageá-lo por acção empenhada de familiares e amigos desta causa.

       São estes os motivos que me levam a pedir a Vossa Excelência o favor da sua intervenção, para que a Fundação Aristides de Sousa Mendes e a Casa do Passal sejam alvo de medidas que assegurem a sua existência e recuperação.

       Com os meus respeitosos cumprimentos, e consideração,

 

xxxxx (nome)

 FAVOR MANDAR O E MAIL PARA :

 franciscojosemartins@pcm.gov.pt

=======================================

ENGLISH

================== 

As you may be aware  of (or not) the   new portuguese government  has taken multiples measures to face the difficult  monetary/fiscal position Portugal finds itself at the moment. Among these has mandated   the extinction of the many  Foundations which  are not self-sufficient  and  so far have depended on  the government for  survival.  One of these is  the Aristides Sousa Mendes  Foundation , responsible for the keeping of the  Aristides de Sousa Mendes' home (Casa do Passal).


Efforts are being made to salvage,  repair and  eventually have this home.  In  the words of late John Paul Abranches " The Sousa Mendes family would like to see the old family home restored to what it used to be and dedicated as a Museum of Tolerance and Human dignity, dedicated to the victims of the Inquisition, World War II, the Holocaust, and other acts of intolerance. "


The  deadline for the decision  is February  2nd.  So it is very urgent that we act now.    Can you add your voice  and send this E mail petition?


And if it is not abusing: maybe your assistants could  pass this around to other friends there...  a few can make a difference.

 

I am attaching a "suggestion letter" which I am sending around the world   as a "basis "  for this purpose.


Grateful for your time and help on this,

===========================

Exmo  Senhor

 Dr. Marques Guedes

c/o Dr. FranciscoJosé Martins

 Lisboa-Portugal


                     Aristides  de Sousa Mendes' home, casa do Passal, stands as a reminder of the act  of heroism by this great humanitarian, of whomPortugal  can so rightly be proud. It has been designated as a National Monument and belongs to all mankind.

                        It would be a great loss to all of mankind if this house were to collapse, and so it is of utmost urgency and importance that the Fundação Aristides de Sousa Mendes, which owns this edifice, be preserved—allowing Aristides de Sousa Mendes’  descendants , former refugees and their descendants, along with friends from all around the world, to continue honoring the memory of this great humanitarian.

                    For this reason I am asking your Excellency to kindly intervene and take the necessary measures to preserve the Fundação Aristides de Sousa Mendes, which, as you know, is currently in danger of being extinguished.

                        Thank you for your consideration.

                         With my highest consideration and estime,

 

NAME ETC

PLEASE SEND EMAIL TO:

 franciscojosemartins@pcm.gov.pt



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Este texto é uma forma de homenagear o Dia Internacional de Memoria das Vitimas do Holocausto - dia 27 de Janeiro. Por Aleksandra Serbim

Aristides de Sousa Mendes – Uma Pedra Lapidada. 


 

A Pedra Bruta

 

Surgia em Portugal uma pedra ainda em estado bruto, a 19 de Julho de 1885, mais precisamente em Cabanas de Viriato que pertence ao concelho de Carregal do Sal, a meio caminho entre as cidades de Coimbra e Viseu. Ninguém imaginava que dali sairia o maior Diamante da época.


Aristides de Sousa Mendes formou-se em Direito em 1907, juntamente com seu irmão gémeo, César, pela Universidade de Coimbra. Ambos seguem carreira diplomática. Ele passa por diversos países, como Cônsul de Portugal. Mas foi em 1940, quando foi Cônsul em Bordéus, que ele se depara com o maior dilema de toda sua vida: obedecer a Salazar ou obedecer à sua consciência? Foi então que ele, na manhã de 16 de Junho, decidiu: “Vou salvá-los a todos”. Assim, durante um curto intervalo de dias, Aristides concede cerca de 30 mil vistos, dentre esses, 10 mil para Judeus. Estava exausto, sem comer e dormir. Tudo o que fazia, com a ajuda de seus filhos, era assinar passaportes. E foi assim que ele foi considerado o homem que mais salvou vidas durante o Nazismo. Católico fervoroso, pronunciou frases como estas:

 

“Só agindo desta maneira, de acordo com a minha consciência, serei digno da minha fé de cristão”.

 

“Se tantos judeus estão a sofrer por causa de um católico (Hitler), é justo que um católico (Aristides) sofra por tantos judeus”.

 

“Prefiro antes estar com Deus contra os homem, do que com os homem e contra Deus.”

 

Considerado como louco e traidor, ele é afastado de suas funções e obrigado a voltar para Lisboa. Logo a seguir é aberto um Processo Disciplinar para apurar a desobediência do Cônsul. Em Agosto, Salazar destituiu-o de seu cargo e depois seu rendimento foi cortado. Ele ainda preparou sua própria defesa, alegando que fez o que fez por um “Acto de Consciência”, e que não estaria infringindo nenhuma lei, pois foi um “acto humanitário”, e isso a Constituição garantia. Depois cita o artigo 8º da Constituição – o qual diz que ninguém pode ser perseguido pelas suas crenças. Mas sua defesa foi em vão, seus recursos negados e sua punição severa. Com uma família numerosa (14 filhos) ele vê-se em sérias dificuldades financeiras. Foi a Comunidade Judaica de Lisboa que o amparou, garantindo-lhe uma ajuda mensal e que suas refeições fossem feitas na cantina, junto com os refugiados judeus.


Finda-se a II Guerra. Hitler suicida-se. E, o mesmo Salazar que não respondera a nenhum dos inúmeros telegramas de Aristides, envia agora um telegrama de condolências pela morte do líder Nazi. E ainda decreta luto oficial em Lisboa por dois dias, com a bandeira a meia haste. E, em 16 de Maio de 1945, é proferido o “Discurso da Paz”, no qual Oliveira Salazar afirma que fez o que pôde para ajudar os refugiados e lamentou não ter podido fazer mais. Essas palavras deixaram Aristides tremendamente revoltado com a tamanha desfaçatez do líder fascista.


Os últimos anos de sua vida foram muito difíceis. Fica viúvo. Depois vê seus filhos emigrarem um a um para os EUA, com a ajuda da comunidade judaica, já que em Portugal sofriam severas perseguições. Por fim perde todos seus bens. Em 3 de Abril de 1954 morre Aristides de Sousa Mendes, devido a uma trombose seguida de uma pneumonia. Morreu na miséria, sem ter sequer um fato para vestir. Foi enterrado com um hábito franciscano. Não presenciou a tão desejada reabilitação de sua carreira, tão pouco algum reconhecimento público pelos seus actos de heroísmo. 

 

A “Lapidação”


Lapidação se refere ao processo de tornar uma pedra bruta em pedra preciosa. Para ser lapidada, a pedra precisa sofrer desgastes, pressões, perder arestas, para fazer sobressair o seu brilho e aumentar o seu valor. Todo o percurso de vida do Diplomata, até chegar ao fatídico momento em Bordéus, serviu como um longo processo de lapidação de seu carácter e sua consciência. 


Há também um outro sentido para a palavra lapidação: refere-se à forma de execução por apedrejamento dos condenados à morte. É uma maneira antiga e cruel de matar lentamente, mantendo muitas vezes o réu consciente. Infelizmente Aristides teve que passar também por essa lapidação.


Segundo José de Castro: “A pedra que Salazar mandara colocar sobre o processo estava lá para ficar.” Sim, houve uma pedra mortífera no meio do caminho de Aristides de Sousa Mendes, fruto do furor do líder fascista pela desobediência de um Cônsul.


Eu pretendo investigar em meu Doutoramento como a figura de Aristides de Sousa Mendes está representada hoje na memória colectiva dos portugueses e estudar alguns traços de sua personalidade, tais como: o altruísmo, a coragem, o senso de justiça.


Porém, em minhas observações preliminares e entrevistas informais, tenho constatado alguns factos pouco animadores:


– Muitos jovens desconhecem quem foi Aristides e o que ele fez. Refiro-me aqui a jovens universitários, licenciados e uns ate já pós-graduados.

– Ouvi uns relatos de pessoas que têm algum conhecimento da história do Cônsul de Bordéus. Porém, eles acabaram por confessar que duvidam de que Aristides tenha de facto salvado a vida de 30 mil pessoas. E, pasmem, ainda dão os créditos de sua bravura a Salazar, justificando que se não fosse a política de neutralidade de Portugal, os vistos de Aristides não teriam atingido êxito algum. Como se Salazar, de certa forma, tivesse acobertado e protegido o diplomata.

– Já li relatos como este: “É possível que seja herói, mas o que eu acredito mesmo é que cada um dos 30.000 judeus (os judeus sempre foram muito abastados), lhe pagou o favor. E se assim foi, de portugueses que vão contra a lei, em troca de dinheiro, ainda temos e sempre tivemos.” São ideias como esta, sem nenhuma base de informação de dados reais, que circulam na mentalidade de alguns portugueses. Toda a frase está incorrecta. Primeiro: das 30 mil pessoas que Aristides salvou, 10 mil é que eram judeus. Segundo: nem todo judeu é abastado como muitos pensam. E terceiro e mais importante: Aristides nunca ganhou absolutamente NADA! Nenhum centavo por suas assinaturas. Muito pelo contrário, ele só perdeu. Perdeu sua carreira e todos os seus bens.

- Uma das grandes referências da vida de Aristides encontra-se hoje em ruínas. Conhecida como a Casa do Passal, em cabanas de Viriato – foi o local onde ele viveu, e, depois do seu retorno de Bordéus serviu inclusive de abrigo para várias famílias de judeus que não tinham para onde ir. Este valioso prédio histórico aguarda dos órgãos públicos a liberação da verba para se construir o Museu Aristides de Sousa Mendes, cuja finalidade será abrigar todos os registos da memória material e imaterial sobre o grande humanitário português. Porém a casa está muito degradada e as vigas de sustentação já se encontram em estado adiantado de deterioração, podendo a qualquer momento desabar.


Pois bem, estes quatro motivos supracitados têm-me causado uma inquietação que beira a revolta. Como é possível que a geração actual não saiba quem foi e nunca tenha escutado sobre Aristides? E, como crer que alguns da geração do 25 de Abril desconheçam e deturpem os fatos históricos a este ponto? Parecem menosprezar os actos humanitários do Cônsul, e o que é mais grave, justificam nas entrelinhas que Salazar seria o merecedor do título de Aristides. E, enquanto isso, a Casa do Passal espera… Mas até quando suas pedras de sustentação podem aguentar?


Acredito que estes tristes factos, no fim de contas, estão todos interligados a uma única causa: há em Portugal o que eu chamo de “herança maldita de Salazar”. Suas ideias fascistas não acabaram no 25 de Abril, muito menos com sua morte. A sua punição foi levada a cabo além da morte de Aristides. Os anos de silêncio sobre a figura de Aristides, decretado pela pedra salazarista, explicam em boa parte o desconhecimento desse herói pela geração actual. Assim, a execução por lapidação perdura post-mortem. E, cada vez que alguns destes quatro motivos acima são evidenciados, é como se fosse atirada mais uma pedra à memória do nosso herói.


Seria então errado questionar que:


- Os simpatizantes das ideias salazaristas continuam a actuar, no “backstage” da nossa trama social, e, como sombras, subtilmente, evocam fantasmas com pedras em punho, para dilacerar a luz da história e aterrorizar os actores da democracia?


- Até que ponto estariam esses fantasmas impedindo o aparecimento de novos Aristides?


Enquanto a memória desse grande humanitário português não for devidamente (re)conhecida, honrada e recordada, a pedra de Salazar irá continuar como uma sombra sobre a história de Aristides de Sousa Mendes. É preciso coragem para remover todo e qualquer vestígio dessa pedra, para que outras novas pedras sejam elevadas. Não mais pedras que ferem, nem tão pouco pedras que silenciam. Serão pedras que conclamam a honra e coragem de um homem que foi acima de tudo justo e bom!

 

O Raro Diamante


Antes uma pedra fez sombra, tentando ofuscar a luz de Aristides de Sousa Mendes. Agora, é chegada a hora de trazer o brio de sua vida ao reconhecimento público, com pedras que construam fortalezas e memoriais ao herói português.


Pedras como as que todos os anos muitos judeus deixam depositadas sobre o túmulo de Aristides. É um costume judaico colocar pedras no lugar de flores. Pedras que simbolizam o respeito e eterna gratidão pelo homem que cumpriu a mais nobre das missões: salvar vidas. E, como está escrito no Talmud: “Quem salva uma vida, salva a humanidade inteira”.


Foi também a comunidade judaica a prestar-lhes a primeira homenagem. Em 1961 são plantadas árvores no jardim do Museu Yad Vashem (Memorial às Vitimas do Holocausto), em Jerusalém. A mesma instituição em 1966 entrega à filha de Aristides a “Medalha de Ouro dos Justos”, título máximo que significa “Justo entre as Nações”. Ele é o único português a obter tal homenagem.


Mas só em 1988 que é aprovado pela Assembleia da República o projecto lei que reintegra Aristides de Sousa Mendes à carreira diplomática à título póstumo, com a promoção de Embaixador. Foi preciso esperar ainda 14 anos após o 25 de Abril para que a pesada pedra que Salazar pôs em cima de Aristides começasse a ser destruída, e ser feita a tão sonhada justiça à sua figura. 


A primeira homenagem ao Cônsul de Bordéus em Portugal ocorre no Algarve, em Maio de 1993, no Cemitério e Museu Judaico de Faro, com a presença do então Presidente de Portugal, Dr. Mário Soares. Foram lá plantados 18 ciprestes e dedicados ao Diplomata herói, pois no judaísmo o numero “18” é escrito em hebraico por Chai (חי), que significa VIDA.


Depois uma série de homenagens, das mais variadas formas, tem acontecido no mundo inteiro e também em Portugal. Aristides de Sousa Mendes vira nome de rua em Bordéus, vários livros são escritos sobre sua vida, documentários realizados, peças teatrais encenadas, exposições, bustos, lápides, condecorações… E, é Portugal quem produz o primeiro filme sobre o seu herói. “O Cônsul de Bordéus” ainda não tem data para estrear em Portugal, mas já foi exibido na Semana de Cinema Português de Israel e no Festival de Cinema de Goa (Índia).


«Se nós temos algum herói moderno é Aristides de Sousa Mendes, uma personalidade fascinante e que foi esquecido por razões políticas e por laxismo nacional», disse à Lusa o realizador Francisco Manso quando iniciou a rodagem do filme, em Viana do Castelo.


Esperemos também que em breve seja finalmente restaurada a Casa do Passal, onde dará lugar ao Museu Aristides de Sousa Mendes e toda sua história preservada e divulgada como deve ser. As pedras desgastadas pelo tempo serão restauradas e fortificadas, criando o alicerce de uma nova era em Portugal. Era em que todos os portugueses conhecerão sobre esse fascinante homem. Era em que todos se possam orgulhar e se inspirar nele, para que, mais a frente, tenhamos outros tantos justos como foi Aristides – o Cônsul de Bordéus, a Pedra Lapidada, o Rochedo de Israel.


Tenho de testemunhar a profunda admiração que as pessoas têm por si em todos os países onde exerceu as funções de cônsul. O senhor é para Portugal a melhor das propagandas, é uma honra para a sua pátria. Todos aqueles que o conheceram louvam a sua coragem, o grande coração, o espírito cavalheiresco … se os Portugueses se parecem com o cônsul-geral Mendes, são um povo de cavalheiros e de heróis”.


Trecho da carta da escritora Gisèle Allotini, dirigida a Aristides de Sousa Mendes.

 

 

 

Fontes de Referência:

http://amigosdesousamendes.blogspot.com/

http://www.esas.pt/jaca/docs/Aristides.pdf

http://mvasm.sapo.pt/

Documentário da RTP – “Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul Injustiçado”



publicado por João Machado às 21:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Uma nova argonauta - Aleksandra Serbim

Aleksandra Serbim nasceu em 1972, no Recife, Brasil. Licenciada em Psicologia pela Universidade Federal de

Pernambuco, fez o Mestrado em Antropologia pela mesma universidade. Trabalhou cerca de 10 anos como Psicóloga Institucional, actuando como pesquisadora na área das Ciências Sociais (Psicologia e Antropologia); a sua tese de Mestrado incide sobre a importância do rito do Shabat para a conservação da cultura e identidade judaicas.

 

Participou na organização da exposição:José Antônio Gonsalves de Mello: o homem e seu tempo”, apresentada no III Encontro de Estudos Judaicos da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) em Abril de 2002, no VII Encontro de Antropólogos do Norte-Nordeste (ABANNE – Recife), em Novembro de 2001, no Museu da Cidade do Recife (Forte das Cinco Pontas) e na Sinagoga Kahal Zur Israel, ambos em exposição permanente desde Agosto de 2001.

 

Desde 2005 vive em Portugal, residindo actualmente no Algarve. É doutoranda em Psicologia na Universidade do Algarve.

 

Lançou em 2011 “Amor Só de Mãe”, seu primeiro romance. Actualmente, desenvolve investigação sobre a vida de Aristides de Sousa Mendes. E este é o tema da sua primeira colaboração no nosso blogue.

 

Bem-vinda, Aleksandra!

 

Aristides de Sousa Mendes e o Algarve - por Aleksandra Serbim

 

 

 

Era fim de 2002, eu estava perto de concluir meu Mestrado em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), onde estudei sobre a tradição do Shabat e a manutenção do judaísmo. Foi nessa altura que ouvi falar sobre Aristides de Sousa Mendes. E, foi amor à primeira vista! Perguntei-me: “Como é possível, eu não ter ouvido falar dele antes?” Então, depois disse para mim: “A história de um grande homem como este não pode ficar entre poucos. É preciso que o máximo de pessoas saiba quem ele foi e o que ele fez.”

Assim decidi: “Um dia farei meu doutoramento sobre ele!”

 

Alguns anos se passaram. Eu casei, vim morar em Portugal, mais precisamente no Algarve, onde tive meus filhos. E, qual foi a minha surpresa ao saber que a genealogia de Aristides de Sousa Mendes está directamente relacionada com o Algarve. Pelo seu lado familiar “Sousa” ele estará ligado à figura de Madragana Ben-Bekarque pertencia à Comunidade Judaica deFaro, na altura do Rei D. Afonso III, e, segundo consta, sua ascendência provinha do próprio Rei David de Israel.

 

Foi também no Algarve que houve a primeira homenagem a Aristides de Sousa Mendes em Portugal.

 

Há na capital algarvia um importante centro histórico, que é o Cemitério Judaico de Faro. Este é o último vestígio dos judeus em Portugal. Depois que os judeus foram expulsos pela Inquisição, os seus descendentes que moravam em Gibraltar e no Norte da África foram convidados pelo Marquês de Pombal a retornarem, para ajudar a reconstrução do país, devastado pelo terrível terramoto de 1755. E foi assim que em Faro se formou uma importante comunidade.Nessa altura o cemitério foi instituído, funcionando de 1838 a 1932. Mas, só em 1992 o cemitério, então abandonado, foi restaurado.

 

Em frente dele foram plantados dezoito ciprestes, em homenagem ao grande Aristides de Sousa Mendes.

 

E por que escolheram o numero 18?

 

Porque este número no judaísmo tem um significado muito especial. O “18” em hebraico é escrito pelas palavras CHAI (חי) – que significa também VIDA.

 

Em Maio de 1993 houve a cerimónia de dedicação do espaço, realizada pelo então Presidente de Portugal, Dr. Mário Soares e mais 400 dignitários e convidados. Este é hoje o único monumento vivo a Aristides em Portugal. Hoje o Cemitério abriga o Museu-sinagoga Isaac Bitton e é aberto à visitação pública, servindo como eminente referência turística internacional. Na entrada principal do cemitério, do lado direito, o visitante também encontrará uma placa em homenagem a Aristides, com sua foto e os dizeres: “Humanitário Português”.

 

Mas as homenagens não podem parar por aí. Em 2011 eu retomo meus estudos e inicio meu Doutoramento em Psicologia pela Universidade do Algarve. Agora sim, finalmente posso honrar com a palavra que dei há quase 10 anos atrás. Desde então, tenho voltado meus estudos para a construção de uma tese que traga em si o reconhecimento da representação da vida de Aristides de Sousa Mendes.

 

Esta é minha pequena contribuição para manter acesa a sua memória, assegurando que seu ato heróico será tido como referência no meio académico, e sua história perpetuada por toda uma geração vindoura.

 

 



publicado por Carlos Loures às 10:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARGONAUTAS

Adão Cruz

Afonso da Rocha Aguiar

Aleksandra Serbim

Álvaro José Ferreira

Amadeu Ferreira

Ana Afonso Guerreiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Mão de Ferro

António Marques

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Dorindo Carvalho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Pereira Marques

Francisca da Rocha Aguiar

François Morin

Hélder Costa

João Brito Sousa

João Machado

João Vasco de Castro

Joaquim Magalhães dos Santos

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Goulão

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Peres Lopes

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Margarida Antunes

Margarida Ruivaco

Maria Inês Aguiar

Mário Nuti

Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)

Moisés Cayetano Rosado

Octopus

Paulo Ferreira da Cunha

Paulo Rato

Paulo Serra

Pedro Godinho

Pedro de Pezarat Correia

Raúl Iturra

Roberto Vecchi

Rui de Oliveira

Rui Rosado Vieira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Vasco Lourenço

pesquisar neste blog
 
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

A SEMANA DE ARISTIDES DE ...

SEMANA DE ARISTIDES DE SO...

ALGUNS LIVROS SOBRE ARIS...

A SEMANA DE ARISTIDES DE ...

ARISTIDES DE SOUSA MENDES...

SEMANA DEDICADA A ARIST...

ARISTIDES DE SOUSA MENDES...

A SEMANA DE ARISTIDES SOU...

ARISTIDES DE SOUSA MENDES...

SEMANA DE ARISTIDES DE SO...

ARISTIDES DE SOUSA MENDES...

ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Apelo a favor da Casa do ...

Este texto é uma forma de...

Uma nova argonauta - Al...

últ. comentários
Óptimo texto do Álvaro José Ferreira sobre o Berna...
Amigo Josep,O teu português é excelente e a anos-l...
Na ex-Jugoslávia, nenhuma etnia está isenta de cul...
Quanto mais não fosse, ficar-lhe-ia para sempre gr...
Carlos Leça da Veiga pede que coloquemos este seu ...
Caro amigo, peço-lhe desculpas pelo meu português ...
Amigos Josep e Carlos,A teologia sempre foi uma ár...
Este Estuário ficou lindíssimo. Posso afirmá-lo po...
Ser mãe é ser pedra, muro, ser a mão que nos agarr...
Obrigada pela dica no facebook, Augusta, belíssimo...
Muito obrigada por publicar a notícia. Lá imos hoj...
É ver por que cartilhas andam os nossos dirigentes...
Estou inteiramente de acordo com o teor deste comu...
Baseado na experiência inglesa, Jean-Jacques Rouss...
I és clar que és una nota d'humor. I així l'he lle...
Pentacórdio (agenda cultural)
14 a 20 de Maio - Parte I

14 a 20 de Maio - Parte II

14 a 20 de Maio - Parte III

arquivos

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

todas as tags

participar

participe neste blog

Posts mais comentados
subscrever feeds
Economia
links