
O conto de Manuela Degerine, A Senhora do Cabo foi o vencedor do nosso Concurso.
Manuela Degerine nasceu em Lisboa em 1958, licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa. Foi professora em Queluz e em Macau; ensina agora o português num liceu de Paris.
A sua obra literária consiste quase exclusivamente na criação ficcional, tendo merecido, por parte da críitica literária, um excelente acolhimento. Os romances publicados por Manuela Degerine são: A curva do O , Lisboa, 1991, Jardins de Queluz, Lisboa, 1994; A Dúvida e o Riso, Lisboa, Uma Gota de Orvalho, Lisboa, 2000; O Peixe Sol, Lisboa, 2002.
Sobre o seu conto A senhora do Cabo, publicado no dia 17 de Dezembro sob o pseudónimo de Ana Terrabuzzi, o júri justifica assim a tribuição do primeiro prémio:é uma narrativa que revela originalidade de escrita e da própria estrutura textual, controlando, desde o início, o discurso indirecto livre, sem dúvida eficaz para proporcionar ao leitor um ritmo sequencial de tonalidade expressiva. Revisitando situações e histórias de um passado que animou o Cabo Espichel com o seu envolvimento lendário, a narradora resgata a imagem da avó, Elisa Rosa Penim, e a sua «condição feminina face ao infinito do tempo», libertando-a das convenções sociais e convertendo-a numa «nova lenda desta senhora do Cabo».
Vamos então ler
A senhora do Cabo
A tua avó era um bocado atrevida, dizia a prima Maria Luísa com a hipocrisia do eufemismo, porém eu desconfiava da versão, que sabia convencional, por conhecer Maria Luísa, logo substituía o qualificativo por arrojada ou inovadora, que melhor assentavam em Elisa Rosa Penim, a minha avó, contente por me falarem dela, embora Maria Luísa não percebesse o que a movia, atribuísse significados vulgares a incomprendidos signos, a prima da minha avó evocava a visita de um doutor ao Cabo Espichel, que doutor não me perguntes, o que recordo é a cena final, o tal doutor, os faroleiros, os semafóricos, os guardas fiscais a fumarem frente ao oceano e, na versão malquerente da prima, Elisa Penim pavoneava-se à volta deles, não, nunca aceitei a história por ela contada, parcial narradora de uma prima insubmissa, para além de bonita, o verbo pavonear-se parecia-me errado, a tia Marquinhas, a prima Maria Eufrásia, no pouco que diziam, contavam o sofrimento da minha avó, é certo que Elisa Penim pôs o melhor chapéu para aparecer diante de um homem que arrastava consigo luzes, lojas, teatros, livrarias, pastelarias, é certo que Elisa Penim naquela tarde, como em tantas ocasiões, lamentou não haver nascido homem para se juntar ao grupo, para escapar à sua prisão azul, para oferecer outras cores à imaginação, pois sendo filha do faroleiro-chefe, nascera no Cabo Espichel e frequentara a escola na Azóia, que lhe revelara bosques, montanhas, Nun'Álvares Pereira, mas os pais tinham oito filhos e o futuro das mulheres era casarem, bastando saberem ler e escrever, Elisa Penim sentira desde a infância uma curiosidade dolorosa por outros mundos, aquém e além das festas de Santa Maria do Cabo, das marcas deixadas pela mula que a Virgem montava, Nossa Senhora da Pedra da Mua, pegadas de dinossáurios com cento e cinquenta milhões de anos, o que Elisa Penim ignorava, a tragédia da condição feminina face ao infinito do tempo e do espaço, do céu e do mar azuis, tanto mais que o rei D. Carlos, cientista oceanógrafo e contador de histórias, almoçara esporadicamente no Cabo e, em tais ocasiões, Elisa Penim arranjara maneira de se manter presente, ajudando a servir o monarca, demorando-se por ali invisível, o faroleiro-chefe respondia às perguntas do soberano, narrava naufrágios, tempestades, prodígios, pescas milagrosas, o Rei explicava fenómenos marinhos e, no contentamento da inabitual liberdade, alargava a conversa além dos temas habituais, evocando até os faustos de Santa Maria do Cabo em tempos de D. José e D. Maria I, aquela menina casou anos mais tarde com o meu avô, homem austero, semafórico, uma pequena ascensão social, para ela insignificante, no Cabo nascera, no Cabo viveria, prisioneira do infinito, o céu e o mar até ao fim dos seus dias, ela com pé pequeno e imensos olhos castanhos, nasceram fatalmente dois filhos, seguiram-se anos dolorosos, durante os quais Elisa Penim fez frente ao oceano, porquanto o marido detinha um poder social, jurídico, económico, tivesse recato, tivesse vergonha, pensasse nos filhos, raras vezes a deixando ir a Lisboa, de onde ela trazia jornais que lia aos analfabetos, de onde ela regressava contudo silenciosa, com olhos vermelhos de olhar as modas e os modos, carregada de tecidos que, nas semanas seguintes, transformava em vestidos, casacos e chapéus para levar à missa, não, Elisa Penim não se pavoneava, Elisa Penim sentia-se suspensa num vazio azul, a espuma, os ouriços, os cavalos-marinhos, os dias de tempestade, as noites de luar, as estrelas do céu e do mar não chegavam para preencher tal vácuo, tinha uma única amiga, a Candinha, com quem trocava segredos e chapéus, que conheci tão alegre, protagonista do drama que depois te contarei, segredos do Cabo, crónicas de muitos tormentos, alguns acrescentaram um guarda fiscal à história, a Elisa Rosa Penim bastava ser da terra e não do mar, bastava a mordaça, bastava o equívoco, bastava a imensidão do tempo, bastava o desespero do aquém, bastava a paixão estética por outos mundos, para quê um guarda fiscal, vizinho de faroleiros e semafóricos, Elisa Penim entregou o ouro à irmã Marquinhas, a qual pensou que o queria esconder do marido, a quem as boas almas não se coibiam de explicar o missal, os vestidos, os chapéus, não há algas sem água, recomendou à irmã e ao cunhado, Pedro Terrabuzzi, se algo lhe sucedesse, cuidassem da menina, o pai cuidaria do rapaz, saiu durante a noite, revelou depois o marido, sendo encontrada no sopé da falésia com os olhos vendados e o enigma da sua morte mas, decorridos tantos anos, não obstante a dor, o silêncio, o embaraço, a incompreensão, as reticências, as conveniências que obscureceram a minha avó, eu herdei, com estes brincos, as palavras de uma possível versão: a nova lenda desta senhora do Cabo.
Conforme temos noticiado, o júri deste Concurso emitiu ontem ao fim do dia a sua decisão. O segundo prémio foi atribuído ao conto Manhã cedo, apresentado sob o pseudónimo de Glória Ipomoea no dia 12 de Dezembro. A autora é MARGARIDA RUIVACO.
Margarida Ruivaco
Margarida Manuela Pinho Fernandes Ruivaco, nasceu em Março de 1975 na Nazaré. «Acidentalmente», pois considera-se natural de Maceira, Leiria. Engenheira civil licenciada pelo Instituto Superior Técnico, possui uma microempresa de Engenharia e, esporadicamente, dá aulas num Instituto Politécnico. Sobre si mesma e sobre a sua escrita, diz: «Adoro ler, e gosto muito de escrever, embora tenha um pouco de vergonha que familiares e amigos leiam o que escrevo, no que diz respeito a escrita criativa, porque diz muito de mim. No entanto, sou bastante activa nas redes sociais, muito opinativa e até um pouco mordaz. » (…) «Mantenho um blog, que não publicito, onde comecei a publicar as minhas estórias e outras coisas de mim. Permite-me escrever longe do escrutínio dos que me estão próximos. Permite-me continuar a escrever sem adoptar o novo acordo ortográfico».
Foi sobre a sua maneira de escrever, e particularmente sobre «Manhã Cedo», que o nosso júri opinou: «o conto aborda o tema da contraposição cidade/campo, sendo este último o objecto do sonho da voz narrante que deixa perceber, ao nível do desejo, «o início das manhãs que hão-de vir». Numa linguagem essencial e particularmente substantiva, o percurso onírico faz-se do imaginário de uma transposição da cidade para o campo, permeado, porém, por sinais de modernidade».
Manhã Cedo
Ainda o despertador não tocara, e já ela estava na rua.
A madrugada fresca de um Outono quente era a melhor maneira de começar o dia.
O cheiro da terra húmida de orvalho entrou nela, respirou fundo, suspirou, e saiu pela porta da cozinha.
No canteiro em frente, a salsa, os coentros, cebolinho e tomilho. Arrancou algumas folhas mortas. Sacudiu algumas folhas caídas do carvalho.
Quercus faginea. Alto, velho, magro, tronco torto e enfezado, com meia dúzia de bolotas. Lindo! Ao lado de castanheiros, carregados de ouriços.
Passou a garagem, pegou na mangueira e regou uns tomateiros retardados, que jamais viriam a dar fruto, só pelo sim, pelo não.
As folhas caídas dos choupos, húmidas, não restolharam sob os passos.
Não era altura de ter muita coisa.
As poucas uvas tinham sido apanhadas e comidas, porque ainda não arranjara coragem de aprender a fazer vinho, vinho que jamais iria sequer tentar provar.
Do milho, sobravam os canoucos na terra.
“ Dava-me jeito uma vaca”.
As maçarocas secavam, à espera de um dia que tivesse tempo para as descamisar.
“Dava mesmo jeito uma vaca. Comia os canoucos, comia as camisas, depois era lavrar.
Vaca não, depois que é que lhe fazia? Quem é que ia limpar tanto estrume, tirar leite todos os dias? Vaca não, cabras. Comiam as silvas .”
Presas, para não comerem tudo.
As abóboras estavam no ponto. Menina e gila. Não sabia como lá foram parar, era para serem só courgetes, que tratara de apanhar antes de serem uns monstros de casca dura.
Pensou em doce.
“Um dia destes, calha. Ficam já para prenda do Natal!.
À espera, os canteiros para as batatas, cebolas, batata doce. Daqui a uns dias as couves e os brócolos estarão mesmo a jeito.
Os marmelos vêm aí.
Acabaram-se os feijões e as alfaces e os morangos. Acabaram-se as pêras-rocha e as maçãs Jonagold, red delicious, golden, starking.
Já não há figos, pingo de mel, para colher todos os dias de manhã.
O damasqueiro, o pessegueiros, e as ameixoeiras estão enganadas com o tempo, e florescem como se estivessem a chegar ao Verão outra vez. Pode ser que a cerejeira acorde, e dê o que não deu em Maio...
O programador da rega estava ligado.” Óptimo, já sabes o que tens a fazer.”
Um arrepio , toca a mexer.
Deixou milho nas galinhas, granulado no coelhos, o porquito ainda dormia.
Voltou para dentro. Voltou a sair. Apanhou roupa, no estendal abrigado, estendeu mais roupa.
“Daqui a uns dias vai ser lixado, quando começar a fazer frio, dou cabo dos dedos”.
A máquina do pão apitou, entrou, tirou o pão, quente, perfumado, e pôs a arrefecer na grelha, para não ficar húmido.
Sete horas, acaba-se o silêncio. “Daqui a uns dias ainda vai ser de noite, já não posso andar por aí”
Lá dentro, o rádio acorda com notícias que mais ninguém quer ouvir. Ainda é lusco fusco, porque o Outono está quente, mas a Terra não se enganou na rotação nem na translação, e os dias custam a despertar. Mais ninguém quer abrir os olhos.
Mais ninguém quer sentir o cheiro da madrugada. Mais ninguém, e não sabem como é bom
Na cama, rebolou, e ficou a ouvir mais notícias, o toque do despertador já não a estremunha, espera por ele, sonhando acordada com o início de manhãs que hão-de vir.
- Acorda! Acorda, são horas!Acorda
- Já vou!
- Não é já , é agora.
Na verdade, não começa o dia a falar com flores e frutas, ou com as galinhas. Sonha com eles, no seu quarto de cidade.
Conforme temos noticiado, o júri deste Concurso emitiu ontem o seu veredicto. O terceiro prémio foi atribuído ao conto Mel de caju, apresentado sob o pseudónimo de Xabéu no dia 12 de Dezembro. O autor é ADÃO CRUZ.
Adão Pinho da Cruz nasceu no lugar de Figueiras, freguesia de Castelões, concelho de Vale de Cambra, em 1937. Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, especializado em Cardiologia e sub-especializado em ecocardiografia. Prestou serviço militar na Guiné, entre 1966 e 1967, como alferes médico.
Usando palavras suas: «a profunda vivência da guerra e o profundo contacto com uma população miserável, constituíram uma das mais ricas e marcantes experiências da sua vida». Apanhado pela explosão do 25 de Abril, não fugiu ao novos deveres de cidadania criados pela Revolução e, nomeado pelo Governador Civil de Aveiro, exerceu durante um ano as funções de Presidente da Comissão Administrativa da Câmara municipal de Vale de Cambra.
É membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, da Sociedade Europeia de Cardiologia, da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e foi também membro da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos. Para além da sua actividade como médico, é escritor e pintor, com diversos livros publicados, de contos, poemas e pinturas. Fez várias exposições, individuais e colectivas, realizadas em Portugal e no estrangeiro.
Principais obras publicadas: Esta Água Que Aqui Vem Dar (poemas e pinturas-1993), Vem Comigo Comer Amendoim (contos, ilustrados por Manuel Cruz-1994), Palavras e Cores (prosa poética e álbum de pinturas-1995), Adão Cruz – Tempo, Sonho e Razão (álbum de pinturas e textos de Albano Martins e César Príncipe-2003), Nova Ponte Sobre um Velho Rio (conjunto de três pequenos volumes de poesia, com capas sobre pinturas do autor-2006), Adão Cruz – Hora a hora rente ao tempo (álbum de pinturas e texto do autor-2007) e Adão Cruz – Um gesto de silêncio(álbum de pinturas e poemas, com texto do autor -2010).
Sobre o trabalho que distinguiu, o júri emitiu o seguinte comentário. um texto de qualidade e beleza, que respira sensualidade integrada na realidade humana e telúrica. De realçar: «E assim se deu ao tempo a recordação de uma espécie de vento fustigando as entranhas e erguendo no ar o corpo que ardia por dentro com sabor a mel, antes de dar ao fogo a momentânea liberdade de queimar o sonho que morre ao longe, ao pé dos coqueiros.»
Vamos ler
Mel de caju
A Isabel nunca andara na Faculdade, para falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato, era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres nascidas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave, caminhando fora dos passos. Isabel, um torvelinho de tonturas.
O homem dela sabia a mulher que tinha e todo se babava quando se dizia que ela era mais linda que surucucu empinada, mais doce que fruto de cajú. Todo ele era uma viagem por dentro da Isabel, adivinhando-lhe o mundo no contar das coisas. Manhã levantada era sol de todo o dia, noite deitada era sonho que não dormia.
Um dia…
Frente à palhota da Isabel, o médico limpava com uma compressa embebida em permanganato de potássio, as feridas do dorso das vacas, verdadeiros buracos abertos pelos estilhaços das granadas e pelos pássaros pica-sangue, impiedoso tormento dos animais.
Ao cair da noite…
Tudo é fingimento quando o sangue não se entorna no desaconchego da solidão. O provisório serve o regresso da alma, o fogo de outros calores invade os olhos através de janelas que há muito se não abriam. Aceitou o convite, não mediu a fome nem a galinha, sonhou o despir da Isabel até à nudez pecaminosa e espetou os olhos no cair da noite.
Ao cair da noite Isabel estava no último acto da confecção do delicioso cafreal da tabanca. Primeiramente refogado, apenas em sumo de limão e piri-piri, depois grelhado na brasa e em seguida frito com cebola.
Os olhos dele cravaram-se não na galinha mas nas ancas da Isabel. Seguiam a luz sensual do petromax, que penetrava abusivamente na malha de tule até às roupas que vinham de dentro. Senhora de reflexos e de encontros, Isabel não prestava menos atenção à sedução do que à galinha.
Não era preciso entender como é que uma pequena caixa e um disco de madeira giravam música. O esvoaçar do tule era o centro do mundo, o arder da fogueira de todo o frio. Toda a força daquele colo maternal, toda a ternura da silhueta envolta em cabelos penosamente desfrisados durante longos anos, toda a firmeza das carnes subtis, todo o trigo desse abrigo adormecido, toda a tempestade recolhida nesse pedaço de noite tombaram sobre a febre quando Isabel iniciou o streep-tease.
E assim se deu ao tempo a recordação de uma espécie de vento fustigando as entranhas e erguendo no ar o corpo que ardia por dentro com sabor a mel, antes de dar ao fogo a momentânea liberdade de queimar o sonho que morre ao longe, ao pé dos coqueiros.
O Júri, reunido em 5 de Janeiro de 2012 no Teatro «A Barraca», distinguiu, por unanimidade, os seguintes contos:
A senhora do Cabo: é uma narrativa que revela originalidade de escrita e da própria estrutura textual, controlando, desde o início, o discurso indirecto livre, sem dúvida eficaz para proporcionar ao leitor um ritmo sequencial de tonalidade expressiva. Revisitando situações e histórias de um passado que animou o Cabo Espichel com o seu envolvimento lendário, a narradora resgata a imagem da avó, Elisa Rosa Penim, e a sua «condição feminina face ao infinito do tempo», libertando-a das convenções sociais e convertendo-a numa «nova lenda desta senhora do Cabo».
Manhã Cedo: o conto aborda o tema da contraposição cidade/campo, sendo este último o objecto do sonho da voz narrante que deixa perceber, ao nível do desejo, «o início das manhãs que hão-de vir». Numa linguagem essencial e particularmente substantiva, o percurso onírico faz-se do imaginário de uma transposição da cidade para o campo, permeado, porém, por sinais de modernidade.
Mel de Caju: um texto de qualidade e beleza, que respira sensualidade integrada na realidade humana e telúrica. De realçar: «E assim se deu ao tempo a recordação de uma espécie de vento fustigando as entranhas e erguendo no ar o corpo que ardia por dentro com sabor a mel, antes de dar ao fogo a momentânea liberdade de queimar o sonho que morre ao longe, ao pé dos coqueiros.»
O Júri:
Manuel Simões
António Baptista Lopes
António Gomes Marques
Hélder Costa
Nota: Os nomes dos concorrentes foram introduzidos pela Coordenação em substituição dos pseudónimos.
O Júri, reunido em 5 de Janeiro de 2012 no Teatro «A Barraca», distinguiu, por unanimidade, os seguintes contos:
A senhora do Cabo: é uma narrativa que revela originalidade de escrita e da própria estrutura textual, controlando, desde o início, o discurso indirecto livre, sem dúvida eficaz para proporcionar ao leitor um ritmo sequencial de tonalidade expressiva. Revisitando situações e histórias de um passado que animou o Cabo Espichel com o seu envolvimento lendário, a narradora resgata a imagem da avó, Elisa Rosa Penim, e a sua «condição feminina face ao infinito do tempo», libertando-a das convenções sociais e convertendo-a numa «nova lenda desta senhora do Cabo».
Manhã Cedo: o conto aborda o tema da contraposição cidade/campo, sendo este último o objecto do sonho da voz narrante que deixa perceber, ao nível do desejo, «o início das manhãs que hão-de vir». Numa linguagem essencial e particularmente substantiva, o percurso onírico faz-se do imaginário de uma transposição da cidade para o campo, permeado, porém, por sinais de modernidade.
Mel de Caju: um texto de qualidade e beleza, que respira sensualidade integrada na realidade humana e telúrica. De realçar: «E assim se deu ao tempo a recordação de uma espécie de vento fustigando as entranhas e erguendo no ar o corpo que ardia por dentro com sabor a mel, antes de dar ao fogo a momentânea liberdade de queimar o sonho que morre ao longe, ao pé dos coqueiros.»
O Júri:
Manuel Simões
António Baptista Lopes
António Gomes Marques
Hélder Costa
Nota: Os nomes dos concorrentes foram introduzidos pela Coordenação em substituição dos pseudónimos.
981 caracteres tem este blogoconto de João- "Dias Tranquilos" - o último a chegar, vamos então lê-lo:
Parece que o mundo cresce dia após dia. Uma flor que nunca vi. Uma nota que passou desapercebida neste maravilhoso noturno de Chopin. A migalha de pão esquecida na mesa. Preciosa é a vida.
Cada intervalo de silêncio pode ser ampliado até à plenitude deste imenso e fantástico vazio.
Tento ler o livro sintonizada com o tempo da chama que aos poucos se esvai. As velas ardem até restarem brasas. Devagar, sem deixar que seja eu a apagá-las antes do tempo. Renuncio à pressa.
Aceitar quem somos, com todos os nossos enganos. Reconhecer em cada um dos nossos actos a consequência dos mesmos, descobrir qual a intenção de cada um deles é renunciar à nossa vaidade.
A renúncia ao desejo insano, sombrio, leviano é um acto de amor. Não adianta lamentar o mal que fizemos enquanto perpetuarmos pela vida fora o mesmo padrão.
O verde ganha matizes com o amarelo ontem ainda escondido. Por onde ando Babu me acompanha. Se me sente inquieta se perde. Se me sento em paz lambe cada um dos meus dedos. Nenhum dos problemas ficou esquecido, por isso esta dor de estômago fiel companheira.
Regressar a Lisboa é voltar à procura da solução das coisas suspensas.
Levo comigo estes dias agora tranquilos.
Vamos terminar hoje a publicação dos contos concorrentes ao I CONCURSO DE BLOGOCONTOS DE A VIAGEM DOS ARGONAUTAS. Concorreram 42 trabalhos que o júri está já a apreciar. O veredicto será publicado na primeria semana de Janeiro. Como informámos, os prémios serão entregues durante um Encontro a realizar no início de Fevereiro.
A iniciativa seguinte será um amplo debate sobre a Democracia, a sua natureza, as diferentes formas sob as quais os políticos a interpretam... em suma, que Democracia queremos. Oportunamente publicaremos os moldes em que o debate se irá realizar.
Estamos a publicar depoimentos diversos sobre o tema. Ontem, demos a palavra a José Saramago; hoje será a vez do jornalista e humanista uruguaio Eduardo Galeano. Ouçamo-lo:
938 caracteres, foi quantos Cleo usou para nos falar do seu "Trapezista":
"Quando pensamos que ter encontrado a forma de amar, de observar ou de lembrar alguém, já tudo mudou.” ( PeggyPhelan)
Dou um passo em falso, ouço o público suspenso no medo. De ponta-cabeça vejo as cabeças, brinco de roda – volto a subir. Agradeço os aplausos daqueles que fazem da vida - assistir. No dia que caí desamparada, fiz do meu corpo envergonhado foto de revista, conversa de festa.
Fiquei, pedaços feito um quebra-cabeças.
Na tasca da esquina, o operário bebe.Arrota e fala do sangue que viu no chão. No bar, a mulher de boca pintada grita excitada que nunca tinha presenciado semelhante desgraça. Segreda ao companheiro vestido de preto como era intenso o vermelho.
A velha, a criança, o pobre e o rico – todos viram.
Na minha terra todos gostam de circo. A notícia acontece quando o elefante enlouquece ou a trapezista vira tomate.
Quando penso que encontrei a vida, já tudo mudou. Quero guardar na memória o fulgor daquele vermelho - o manto que expiou a minha dor.
O bailarino cantou a morte do cisne num grito sem som. Esticou-se no palco. O cisne dançou a morte de quem o cantou.
Se o tempo parasse no tempo. Já tudo mudou.
"Mostarda" o nosso 40º blogoconto. Tem os 1094 caracteres que vamos ler:
Sei que daqui a pouco é Inverno. Paro na mostarda – ao lado azeitonas, conservas, ovas, chocos, embalagens apetitosas. Está a meu lado na descoberta dos temperos. Procura pela mostarda em grão que a receita determinou como regra do tempero. Tento explicar que se não houver em grão, pode tentar em pó. Responde-me que não saberá dosear.
Já vamos no terceiro supermercado e a mostarda só nos aparece em pó. Acaba por aceitar. Será em pó a mostarda.
Aos poucos percebe que pode substituir e acrescentar outros temperos que a receita não aconselha. Seu olhar mostra bem estar.
Olha-me e diz carinhosamente, quem sabe se em vez do comprimido para dormir, um bom charro e relaxa. Passo o braço na sua cintura, responde-me com seu braço em torno do meu ombro. Sorrimos.
Tímidos, não ficaremos por muito tempo abraçados.
Da minha janela vejo o mar, meses a fio estive voltada de costas para ele. Ia para meu quarto fechava as persianas. Meu horizonte em quatro paredes.
Falamos da vida, falamos dos livros. No olhar um sorriso. Pergunta-me se sei da outra louca, daquela mulher que perdeu o juízo de tanto sofrer. Por vezes a dor é assim, enlouquece.
Talvez um dia encontre mostarda em grão. Quem sabe se não é esse o tempero que falta.
Amanhã é domingo, ainda é Verão. Não tarda o Inverno. Meu amor ainda mora noutro lugar.
Em 1616 caracteres, o Repórter Galatix adevrte-nos para "A importância da leitura atenta dos folhetos turísticos":
Virilóide Setezerozero, agente pacificador galáctico de primeira classe, macho de nobre origem terráquea, fornicador universal, um metro e noventa de ágeis e rijos músculos, produto de suprema qualidade do mais rigoroso e duro treino, sobrevivente de parsecs de múltiplas experiências e perigosas missões, abundâncias de testosterona mal contidas em recipiente de soberba e bronzeada escultura, analisava com consuetudinária frieza a criatura poderosamente armada que o enfrentava, erradamente confiante em decénios de impune acção criminosa, a reclamar a neutralização urgente que lhe fora confiada.
Um ligeiro sorriso desenhou-se-lhe nos bem modelados lábios, no instante em que braços e pernas executaram, com irrepreensível elegância e inexcedível eficácia, o infalível Terceiro Golpe do insuperável Mestre Ashô Qsim.
Por detrás da inútil armadura, agora derrubada, mero exosqueleto do ser que jazia imóvel a seus pés e em que poucos reconheceriam o, há escassos segundos, tão temido “capo gang” – que os vulgares bófias já removiam para a merecida e inóspita clausura –, abria-se a porta do último reduto, o famoso HARÉM, razão fulcral da sua candidatura a esta (para outros) tão problemática incumbência: fileiras de ávidas fêmeas, prontas a acolher as desmedidas ânsias do móvel boião de viris hormonas.
Foi só depois de fechar, atrás de si, os sólidos portões, que se foram reunindo coerentemente, de vaga a cada vez mais precisa reminiscência, as letras das últimas linhas do folheto turístico que, com a pressa, mal lera: “no planeta Femix24 predominam as sociedades matriarcais e poligâmicas, em que as fêmeas mais poderosas mantêm haréns providos de numerosos e, fatalmente, insatisfeitos machos, que com frequência põem à disposição das turistas – uma tentadora oferta para as nossas clientes mais desinibidas…”
Rui Além descreve-nos em "Taxi driver" um diálogo com um taxista - usou 3353 caracteres:
O taxista estava falador, como sempre são os que me calham.
Começou certamente pelo seu tópico preferido: “Já viu esta pouca vergonha? Malandragem! Um Salazar não chega. São precisos dez!” – gesticulava, e ao mesmo tempo que manifestamente se exibia, exalava também aquela ânsia pedinte de aprovação que quase somos forçados a conceder, por pena.
Era porém demais. Contrariei-o: “Mas o senhor viveu no tempo de Salazar?” Encolheu os ombros. Era novo demais para isso.
Fui então mais incisivo: “Sabe decerto o que era a PIDE, a censura, a guerra colonial, a pobreza nesse tempo?” – também não podia ir muito além do normalmente mais consensual.
“Ora, meu caro eng.º” – volveu com voz cava e um ar de quem sabia um segredo a mim insondável – “isso são patranhas dos comunistas... o Sr. sabe que na Rússia...”.
Já não ouvi o resto. Concentrei-me no som das fortes rajadas de chuva na vidraça do carro. Deixei-o perorar.
Adiantará discutir com quem é dono das certezas? Esbocei só uma abordagem pessoal: “Sabe que eu tive parentes presos? Outros morreram na guerra...”
Começou a convencer-se que eu era um perigoso subversivo. Pela minha idade, via-me já bombista, desertor, bolchevique.
O dia era chuvoso. Pesava sobre nós cinzento engarrafamento. Eu condenado a aturá-lo. Tenho pouca paciência para polémicas. Salvou-me um calafrio, seguido de canoro espirro.
Remédio santo. Mudou a agulha:
“O eng.º está constipado? Olhe – advertiu, solene - , é preciso cuidado com isso...”
E começou a desfiar o rosário das doenças. Menos mal. Os Portugueses têm permanente concurso nacional de doenças: cada um quer sempre estar mais doente que seu vizinho.
Depois de desfiar basto currículo de maleitas, o taxista louvou os serviços de grupos médicos privados, em que se pagaria muito pouco, com direito a atendimento quase gratuito de dia e de noite; era a noite que o comovia.
Condoído com a pouca sorte dos jovens esculápios, obrigados a andar pela cidade numa roda viva, em feias tempestades e negrumes, narrou então a sua última boa acção:
“E então, eng.º, está a ver... O pobre rapaz receitou até umas coisas boas para a minha filha... Isso fiquei a saber depois... Na altura não sabia... Mas coitado do rapaz... Eram 3 horas... Da manhã, pois... E eu fui à carteira.... Não é que precisasse... E amarfanhei uma nota grande na mão... Que eu sei como se faz... Já fui porteiro... E ali lhe disse, como fazem os senhores, com nota amarfanhada e tudo: Tome, tome lá para uma cerveja!”...
Fiquei a meditar no que diria disto a minha boa avó Emília, que foi quem primeiro me ensinou a etiqueta e a liberdade que sei. Mudam-se os tempos...
Movido pela curiosidade, perguntei-lhe o que tinha dito ou feito o médico. Queria tanto que ele tivesse tido coragem de pregar um sermão de boas maneiras... mas bem sei que hoje todos se demitem de ensinar. Dá trabalho, e pode causar dissabores.
O homem respondeu prontamente, algo intrigado com pergunta tão tola:
“Agradeceu-me, pois então!“
Pobre médico. Pobre médico. E já não deve tardar que outros profissionais, digamos, liberais, venham a ser presenteados com cervejas igualmente amargas.
Sobre a minha secretária, este quadro a óleo da avó Emília lembra-me o seu charme... e a sua simplicidade de Mulher livre. Era uma simplicidade com regras. Equilíbrio raríssimo. Coisa que os Salazares nunca entenderão.
Quando gratifiquei o taxista, senti que estava a segui-las. A um taxista, mesmo meio fascista, pode-se, e até talvez mesmo se deva, gratificar. Não amarfanhei nota: disse só para guardar o troco. Resmungou um rouco obrigado.
E eu saí e respirei fundo, elevando o pensamento à memória da minha sábia avó, que conheceu as prisões do ditador. Como faz falta! Como fazem falta essas avós, que não deixaram sequer profissão, nem obra. Mas que se ouvem pelas salas em seus acordes ao piano, vivem nas arcas dos enxovais que bordaram, e sobretudo deixaram gravadas nos corações a ordem e a liberdade que semearam: entrelaçadas como nos seus lavores manuais.
Justina Carmen, em 899 caracteres, narra-nos esta "Véspera do Feriado do Corpo de Deus":
No quintal da minha casa a Tília já tem flor. Amarela, cheirosa abraça minha noite. Dengosa, espelha meu corpo na cama.
Sonhei que era menina perdida de amor. Pedi sem licença um beijo na boca. Explodi de saudade. Contei devagar o rosário numa novena sem fim. Chorei tão de mansinho que nem Deus escutou meu lamento.
Encosto o peito de meu pé direito ao joelho esquerdo, envolvo meu ventre em sinal de respeito - respiro.
Sentada, faço da vida memória do que não vivi.
Bem me quer, mal me quer - minha infância distante. Na noite de São João roubo uma faca limpa, penso no meu amado e espeto na babaneira que vive no quintal da Dona Maria. Vou contar sete dias para depois conferir se ele me ama.
Antes, vou ser a noiva da festa.
Um braço abraça meu corpo criança.
No sofá da minha sala um amigo adormece embriagado. No meu quarto encontro a cama ainda só minha.
- Boa noite amigo. A noite é quase manhã.
Sonhava ser cientista para compreender os segredos do mundo.
Armado da curiosidade e espírito analítico ocupava muito do seu tempo na observação do que se passava à sua volta – como certamente Leonardo tinha feito no seu tempo.
Como aquela libélula que pairava sobre o pequeno charco da sarjeta num bater de asas intenso que lhe permitia aquele esvoaçar imóvel – teria sido talvez em observação semelhante que ocorrera a Leonardo a ideia de helicóptero.
Enquanto deixava correr o pensamento, num leve movimento esticou os elásticos e, zás, bem no alvo, a pedra largada da fisga esborrachou a libelinha contra o chão.
O ímpeto adolescente derrotara, uma vez mais, a ciência.
Como estaria a taxa de testosterona?
(2078 caracteres)
Laila nunca fora feliz. Nem muito nem pouco. A felicidade não engraçara com ela, talvez por ser feia. Feia não era. Até era muito bonita por fora, o que não acontecia por dentro. Tinha sempre a alma do avesso e os sentimentos fora do corpo. Nunca atravessava a rua pela passadeira, entrava nas portas sempre às arrecuas e não beijava o Senhor na visita do compasso. Assistia à missa de costas para o padre. Não rezava nem comungava. A bruxa já havia dito que algum mau-olhado caíra sobre ela quando era criança ou que o diabo lhe cravara as garras na gola do casaco.
Também as horas do dia foram sempre trocadas. Jantava à hora do almoço, e à hora do jantar fechava-se no quarto a dançar, em lágrimas, até cair exausta. De noite fazia que dormia, mas só dormia de manhã e com as mãos embrulhadas num pano de flanela. O psiquiatra não lhe via diagnóstico de jeito. Pensava que o mal de Laila era não ter sonhos, não os sonhos de dormir mas os sonhos do acordar. E achou por bem inventar-lhe um sonho. Um sonho que lhe pusesse a alma às direitas e os sentimentos dentro do corpo. Para isso tinha de voltar a ser criança. Começar tudo de novo.
Mas Laila não queria voltar a ser criança por nada deste mundo. Nem morta nem viva. Qualquer pessoa só é criança uma vez. Além disso, Laila só voltaria a ser criança se não houvesse um padre a meter-lhe a mão pela saia acima e a obrigá-la a mexer naquilo. Se não houvesse um padre que lhe dissesse que só assim a alma ficaria direita e os sentimentos bem dentro do corpo. Só se não houvesse um padre a ameaçá-la com os demónios do inferno se abrisse a boca. Só se nunca mais houvesse uma mãe, empregada de padre, a dizer-lhe que o Sr. Prior era o anjo do céu e o anjo do seu sustento.
Não havia sonho possível, concluiu o psiquiatra. Pensou, pensou e começou a entender e a encontrar as peças de um modesto diagnóstico. Um diagnóstico foleiro, de trazer por casa, um diagnóstico meio porco, mas de qualquer forma, um diagnóstico. Antes a alma do avesso e os sentimentos fora do corpo, antes o jantar pela hora do almoço, antes dormir acordada do que acordar a dormir, antes a dança em lágrimas do que a paralisia da mente, antes a feiura que viam nela do que a beleza dum tantum ergo. O psiquiatra não via forma de a moldar à feição dos outros. E começou a acreditar que a sua psiquiatria andava pelas ruas da amargura. Na verdade, a haver alguma imponderável cura, ela nunca estaria nos remédios ou nos sonhos, mas tão só no remoto acaso de os outros se moldarem à feição de Laila.
Horus Pereira apresenta-nos em 624 caracteres o seu blogoconto - Quando a noite chega:
Chego-me à noite e escrevo. Enrolo-me no manto do seu corpo e com palavras vou abrindo sulcos na viagem do meu tempo.
Encanto-me de mim.
Glorifico a dor, os desejos, o prazer e a fantasia! Glorifico a alma dos sentidos que domina a face oculta do meu ser! Arranco de mim os disfarces da existência!
Oh, formas pagãs, formas profanas, formas que sobrevivem às dores da soledade, desvendem-me os mistérios desta aventura onde vai desfalecendo a memória dos anos! Oh, ventos de vertigem onde me encontro eu, em que ponto de mim?!
Vai fria a noite, húmida e solitária. De mansinho aporto o barco do meu corpo ao cais do seu regaço e repousando os braços da remada aí planto a palvra e dela recolho o meu alento.
"Ocaso", um blogoconto com 1239 caracteres, é o contributo de Baltazar para o nosso concurso:
Todos os dias, Aurora procurava encontrar a razão que a impedia de voltar a escrever.
A mesa encostada à parede? A janela longe do olhar? Os dias que eram cada vez mais estreitos?
De madrugada acordava suada, com falta de ar. O médico avisava:
- A senhora tem uma doença respiratória obstrutiva. Com apneia do sono, tem de dormir com o auxílio de uma máquina…
- Já durmo …
- É um CPAP ou um BiPAP?
- Não faço a menor ideia. Sei que deita tanto ar que me sufoca.
Antes, o medo de morrer era o incentivo para colocar a máscara, ligar o aparelho e ouvir a sua respiração.
Quando a morte deixou de ser assunto interno, passou a rezar para que o passado regressasse ao tempo em que respirar era fácil.
Quase um ano sem ter nada para dizer, senão tentar manter-se inteira entre paredes opostas.
Aurora tinha descoberto o infinito, onde as paralelas encontram-se, estreitando o intervalo da existência.
Escreveria todos os dias, se não ocupasse o tempo a refletir sobre quantas pessoas teriam sapatos. Quantos descalços no mundo?
Passava os dias à janela para descobrir quantas pessoas caminhavam com sapatos azuis. Em cada meia-hora, quantos foram aqueles que não passaram pelo seu olhar?
- Traga a máquina que a enfermeira Carla acerta a pressão…
Distraída, deixou que a cabeça sugerisse o sim. Deixou cair a carteira. Quatro sapatos brancos ocuparam a sua atenção.
- Dona Aurora, só tenho 15 minutos por consulta…
Neste lugar onde a poeira faz cama e rouba o ar, Aurora morreu devagar.
"Linda" é o trabalho apresentado por Génio de Andrade - escrito com 2933 caracteres:
Tinha um nome muito bonito que não vamos revelar. Contentemo-nos em chamar-lhe Linda, que também não é feio. Tinha um ar luminoso, os olhos cheios de sol. Os cabelos douravam como uma auréola o ar límpido do azul do céu à volta da sua cabeça. Abria-se em nós como romã sumarenta. Uma onda transparente de um qualquer mar de inesperado encanto embalava o olhar de quem dela não conseguia desviá-lo. Tinha quarenta anos e um provável cancro do colo do útero. Mas eu não sabia.
Soube-o mais tarde, quando beijei o seu rosto luminoso e bebi sofregamente o sol dos seus olhos. Quando a sua pele era a minha e eu sentia entrelaçados nos meus os dedos da felicidade. Quando o sangue borbulhou no peito e o coração estremeceu com medo de fraquejar. Quando aquela hora de uma tarde quente de Agosto se incendiou, e eu não pude imolar-me nas chamas que ardiam dentro de mim, impedido pelo suave cruzar de um dedo sobre os meus lábios. Foi nas Portas de Santo Antão.
Muito tempo antes, um denso nevoeiro cobrira-me a alma como sangue que corre das feridas do tempo. Do tempo e do medo, do medo da guerra, da dor de uma mãe e do choro convulso de um pai e da saudade arrancada à vida e à liberdade. Ela havia-me prometido este beijo no meu regresso, deixasse eu amadurecer a recordação, e não tivesse medo do tempo e do silêncio, pois o silêncio nada mais é do que a voz do tempo quando passa. Com estas palavras nos olhos vi-a desaparecer lentamente no cais à medida que o Uíge se enlaçava nos braços do Tejo.
Com o tempo as feridas foram cicatrizando e outras foram abrindo, pelas mãos dessa pátria lamacenta empenhada em profanar todos os meus sacrários. Como não havia qualquer deus a receber as honras dos homens, dei-me a mim mesmo a difícil tarefa de ser eu, o senhor e dono do meu invencível desígnio. E o tempo foi passando entre o sonho, o gemido e o silêncio, os vários sons que faz o tempo quando passa, até se perder, por momentos, nas águas fundas do Cacheu. E na voz do silêncio, Linda era ainda uma flor que crescia dentro de mim, regada com as pequenas lágrimas e alegrias do nascer do dia e do cair da noite.
Linda era italiana e divorciada. Tinha um filho de oito anos que gostou de mim. Filha de um diplomata fascista que vivia em Madrid, nunca se abriu sobre assuntos políticos. Sei que era locutora. A mim pouco me importava o que fosse. Era muito terna e bondosa e isso chegava. Eu só queria o sol dos seus olhos. E foi com o sol dos seus olhos dentro da escuridão dos meus, que eu corri para o prometido beijo do meu regresso. Não foi um beijo, foram muitos beijos, tantos quantos pôde conter o tempo que vivemos abraçados, até o seu dedo cruzar os meus lábios.
Disse-me, um dia, que a morte viera visitá-la, mas fechara-lhe a porta na cara e sobreviveu. Com alguma luz à volta do seu lindo rosto, e ainda com algumas gotas de sol salpicando os olhos molhados, confessou-me que eu continuava a ser para ela uma boa recordação. Se fosse mais nova nunca mais cruzaria o dedo sobre os meus lábios.
Uma remota nuvem cobrindo a memória foi anunciando no tempo que o pássaro de fogo se fez ao caminho dos céus infindos onde o silêncio voa para não mais ser grito. Tinha um nome muito bonito e inconfundível. Terminava em Nevrly. Ao fim de trinta anos, a lista telefónica de um qualquer hotel teve a amabilidade ou a crueldade de mo oferecer de mão beijada. Do outro lado da linha, uma voz doce da idade, emoldurada de longes e ausências, após algum compreensível silêncio, fez-se ouvir em forma de sussurro: sim, é uma boa recordação
Com este conto de Miguel Moinhos, continuamos a publicação dos trabalhos concorrentes ao I Concurso de Blogocontos. "O Divã" tem 3379 caracteres:
Uma das colecções mais escondidas que cada um de nós guarda como um anti-tesouro é a dos vexames, desaires, gaffes e humilhações. Ou se entesouram no consciente, ou se escondem no baú do esquecido, varridas para debaixo da carpete do passado.
Como desde cedo sempre fiz questão de me exprimir com propriedade e acerto, e nunca tive muita coisa a esconder, acumulei um acervozinho de gaffes. Começava as frases todo lampeiro, sem pensar nas consequências, enrolando-me a meio quando descobria que iria dizer asneira, assim me fenecendo esmorecida frase. Já nada remediaria a inconveniência.
Tal é o tipo de sucessos que abominamos revelar : já que, como viu Pessoa, sempre somos grandes heróis no nosso filmezinho pessoal. Mas até por isso faço questão. Confessar é catarse que sem dúvida me revitalizará. Sei que deixarei no lixo da memória uma pele velha de cobra, ganhando assim asas de dragão.
De entre tabus inconfessáveis, recordo no sótão da memória sobretudo um. Aqui vo-lo dou, tranquilo, a coberto do duplo escudo da ficção e do pseudónimo.
Deveria ter uns cinco anos. Não associo a mim escola, mas baloiço e brinquedo, nenhum livro que não fora de imagens coloridas. Era eu na minha vernaculidade. Tempos idílicos.
Passávamos parte das férias na praia. Dois meses grandes, sempre de bóia na mão aventurando-me pelo Atlântico, de que me fizera professo nauta estival. A outra parte, de mais um mês, era bucólica e recolhida, quase outonal, em estância termal desse Norte verde e bovino, à Torga.
Tendo todas as propriedades rurais de todos os costados sido miticamente subtraídas por parentes sem escrúpulos em sinistras partilhas, ou desbaratadas pela liberalidade perdulária de tetravós meio tontos, seria apenas nessa segunda fase das férias que eu conheceria ao vivo o trigo e o milho (e o milho rei), e os animais de quinta. Impressionaram-me o roliço porco e o boi de olhos merencórios. Recordo-os como pessoas aprisionadas naqueles corpos estranhos, quase caricaturais. Não vi gatos, e isso me pareceu falta de liberdade.
A “aldeia” morava, para mim, nas traseiras de um hotelzinho de província. Ainda hoje não tenho do campo senão esta imagem infantil.
Ora, nessa idade do ouro, eu não conhecia nenhum dos pecados originais. Nem o da sabedoria (Deo gratias), nem o outro. E por isso, saltava de colo em colo de meninas e senhoras hospedadas no hotel, dando e recebendo beijos - castíssimos embora - mas não pouco doces.
Esse borboletear não estranhava aparentemente a ninguém e a mim muito me agradava.
Um dia, decerto por escândalo dos céus ou artes de Belzebu, tudo acabou.
Durante uma ou duas semanas, que naturalmente me pareceram de edénico tempo suspenso, eu cortejara uma senhora muito jovem, mas casada, sem qualquer culpa ou pecado. Procurava-a a toda a hora, beijava-a em cada centímetro das faces, afagava-lhe os doirados cabelos, contemplava-lhe, embevecido e sem mal, o azul angélico dos seus olhos. Ela correspondia-me como boa namorada, com sorrisos, com afagos, com beijos, com abraços, e não menos com chocolates e palavras doces que sabiam a rebuçado.
Uma manhã fria desse pré-Outono, descendo ao terraço, onde a buscava com sorriso meigo, vejo-a acompanhada de cavalheiro entradote, respeitavelmente calvo, bigodudo, ligeiramente obeso e sem dúvida atarracado, e para mais portador de um sorriso tímido. Era o marido. Sim, um marido assoberbado pelos negócios, que só vinha visitar a esposa, em cura termal, pelos vistos de quinze em quinze dias.
Esbanjador...
Com a candura das fidelidades institucionais, a jovem loira não deixou de me apresentar o seu legítimo esposo.
Entre traído e espantado, só pude enrolar na língua, excessiva, sobrante, uma tirada de mau pagador :
“ – Ah, seu marido... É que é... » – e na reticência engatilhei uma rajada de inspiração:
“– É que tem um sobretudo muito folclórico”.
Todos riram (sem revelar porquês) da gracinha do menino.
Eis o meu trauma de infância. Espero ter ficado curado. Só não sei bem de quê.
3476 caracteres, foi quantos Gato Escaldado gastou para escrever este conto que vamos ler:
Quando eles se encontraram caiu o Carmo e a Trindade.
Na verdade não foi bem assim. Isso só aconteceu mais tarde quando a Inveja acordou. Estavam fartos de aconselhar a Felicidade a não ser tão exuberante. Tinha que andar de mansinho, não fosse despertar a Inveja com o seu mau acordar. Mau acordar! Bastava-lhe abrir um olho para perturbar o ambiente à sua volta. Sabia era dissimular muito bem e durante muito tempo fingir-se ausente.
Lembrava-se lá a Felicidade de tal coisa! E, mesmo lembrando-se, que se importava ela. Quando atingia o auge, ignorava completamente a Inveja. Adorava exibir-se, mostrar que existia. Ria bem alto, cantava, esquecia os bons costumes e contava as coisas que fazia, deixando toda a gente escandalizada. Eu conheci-a. Sei como ela era.
Quando eles se encontraram, num dia escuro e trovejante de inverno, um raio surpreendeu-os e passou-lhes pelo meio, resvés a terem esbarrado um com o outro tão distraídos e divagando seguiam nos seus caminhos opostos. Ela deu um pequeno grito, Ele riu-se. Nem um nem outro percebeu, de imediato, a origem do fenómeno que entre os dois acontecera.
Daí ao que sucede a todos os afortunados foi um ai. Descobriram muitas coisas em comum: gostavam do cinema italiano e da mesma música, tinham livros espalhados pela casa, adoravam viajar à descoberta, longe dos magotes amestrados dos turistas de voos charters e de visitas guiadas. E gostavam, sobretudo, de estar juntos e da cumplicidade sem necessidade de excesso de palavras que a fortuna só atribui ao favoritos. Afinal por que haveria o raio da vida em boa hora de ter-se atravessado no seu caminho? Arranjaram casa e tinham a Felicidade por vizinha.
A Inveja morava lá para o fundo da rua e nem a conheciam.
Foi quando Ela descobriu que Ele não sabia conjugar o verbo haver e isso Ela nunca conseguira tolerar a ninguém. Era o seu fetiche: verbo haver mal conjugado, relação esmorecida. Sabia de experiência vivida: “haviam tantos dias em que eu pensava em ti” era como obrigarem-na a beber vinagre. Logo, por azar, Ele ausentava-se por longos períodos em trabalho. No regresso trazia sempre um “haviam” ou um “houveram” envolto em fita de seda para lhe oferecer com todo o carinho da sua paixão.
Quem sabe quando um amor começa a terminar? Provavelmente ninguém, algum dia, conseguirá detectar com exactidão esse ponto sem retorno. Continuamos a fingir que tudo está bem mas já a angústia nos invadiu, já perdemos a inocência, já nos afastámos dessa ingénua sensação de crer absoluto na bem-aventurança futura que a paixão dá aos amantes.
Por onde passara o raio interpunha-se agora uma nuvem. Cada um recriminava o outro e a Felicidade andava mais parada, menos exibicionista. Distraia-se de tanto os ouvir discutir.
A Inveja, essa, mal se dera conta da existência deles e da sua ligação à Felicidade, fora começando a andar rasteira, insinuando, naquela voz sedutora e convincente de todos os amigos – tinha muitos amigos a Inveja -, que aqueles dois não estavam bem um para o outro.
E, então, sim, deu-se o tal terramoto e a promessa de futuro chegou ao fim para Ele e para Ela. Gorou-se a esperança que o relâmpago lhes tinha prometido. Deixaram a casa e cada um foi para seu lado.
Ninguém sabe agora deles. Se têm novos amores, se vivem sozinhos como antes de se conhecerem.
Sabe-se apenas que, na noite em que se separaram, a Inveja aperaltou-se e foi para a festa.
A Felicidade, essa, cansada, adormeceu no sofá.
Raimundo Pinto apresenta o seu blogoconto - "Tijolos". Tem 1436 caracteres:
Fui amigo pessoal do Vasco Cabral, negro e uma das principais figuras da Guiné-Bissau independente. Circunstância que levou a Federação das Cooperativas de Produção (Lisboa, Largo da Graça) a encarregar-me de viajar para Bissau para ali discutir possibilidades de intercâmbio económico com a nova nação africana. E eu fui. O avião aterra, abre-se a porta e quase me derreto com a súbita caloraça que vinha lá de fora. Havia gente à minha espera que me levou e instalou numa residencial.
Pouco depois, no Palácio do Governo, o grande abraço ao Vasco. Mas eu não quero discutir os entendimentos económicos, o meu objectivo é outro. A mulher do Vasco, portuguesa e branca, num carro oficial conduzido por um motorista negro, levou-me a visitar a cidade.
Parámos frente a uma fábrica que me disseram ser de tijolos, Saio do carro e de repente há lá por dentro uma grande algazarra e tijolos começam a voar tentando acertar-me. Esquivo-me, finto. Os meus acompanhantes descem, gritam e a algazarra pára. Lá de dentro sai um matulão que se aproxima de mim, que me examina e acaba por pedir desculpa dizendo que me confundira com um militar que fizera misérias em Bissau. Finjo acreditar, para não assanhar as mágoas do racismo...
Dois anos mais tarde, indo eu a caminho da fronteira de Espanha, paro em Borba para comer uma sandes e beber um copo. De repente, lá do fundo do tasco surge um grandalhão de braços abertos e a gritar:
- Ó Major, meu Major!
- Major não sou, não fiz a tropa...
- Não brinque comigo, meu Major. Já se esqueceu das coboiadas que fizemos em Bissau?
Concluo que há por aí um militar fascista com a minha tromba. Se um dia eu for assassinado à tijolada, já sabeis o motivo...
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
Vasco Lourenço
L'utilization des entités juridiques a des fins illicites (Relatório da OCDE sobre Paraísos Fiscais)
Arquivo
Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa
Histórias de suicidios famosos em Portugal
Livros Proibidos Nos Útimos Tempos da Ditadura
biografias
crónicas
livros
música
Património Imaterial da Humanidade
Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo
rubricas
Blogues
Amigos Maiores que o Pensamento
De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas)
Editoras