Terça-feira, 8 de Maio de 2012
A Antropóloga. Quinta-feira, 10 de Maio, em Lisboa

 

 

 

Amigos, solicito que transmitem o convite, em anexo, para colegas, instituições e empresários do setor audiovisual que estejam em Lisboa no dia 10 de maio.

 

Eu (Zeca Pires), Maria Emília de Azevedo (produtora-executiva) e o ator Eduardo Bolina estaremos presentes na sessão.

 

Obrigado

 

zeca pires 

"Ao longo de um século eu cresci com o cinema e hoje eu sei que foi o cinema que me fez crescer. Viva o cinema!",  Manoel de Oliveira

 

 “Das lutas que eu fiz, a maioria eu perdi (dos índios, da educação no Brasil), mas nunca, em nenhum minuto da minha vida, eu queria estar do lado daqueles que ganharam.”   Darcy Ribeiro

 

http://www.aantropologa.com.br

 

http://www.aantropologa.com.br
http://twitter.com/aantropologa
http://www.youtube.com/user/antropologao...
http://picasaweb.google.com.br/antropolo...
http://www.flickr.com/photos/antropologa...
http://antropologaofilme.wordpress.com



publicado por João Machado às 09:45
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 20 de Março de 2012
CARTA DE VENEZA -“Vespúcio – sucessor de Colombo, precursor de Cabral“ - por Sílvio Castro

Vespúcio desde a sua juventude em Florença fizera-se um estudioso de cosmografia, na então escola citadina da disciplina – conforme ele mesmo declara numa de suas cartas a Lorenzo di Pierfrancesco de’ Medici, seu amigo e colega na dita escola -, desenvolvendo tais estudos depois de sua chegada a Sevilha, para onde fora mandado pela poderosa família dos Medici com encargos de operador bancário.

 

A curiosidade cultural do provisório agente financeiro florentino o leva sempre e mais a desenvolver seus interesses pelos estudos cosmográficos e de navegação. Vivendo proximamente às gestas das viagens de Colombo, desde a primeira, de 1492, quando o navegador genovês atingindo terras novas crê de haver percorrido e descoberto o sempre sonhado caminho das Índias, Vespúcio se enche de admiração pelas revolucionárias descobertas. Assim, desde logo associa a sua personalidade de cosmógrafo em constante evolução àquela de navegador. A partir de 1497 a 1505 ele cumpre um percurso de viagens e revelações que revolucionam o conhecimento do mundo de sua época, revolução essa que encontra seu ponto máximo na sua carta Mundus Novus, publicada em Paris, no início de 1504, desde logo transformada em grande best-seller, com novas edições da versão latina inicial e com dezenas de traduções nas principais línguas da época. Com ela, e em outras obras, Vespúcio ultrapassa as mais importantes fontes das tradições geográficas, como a Bíblia, bem como o faz em relação às lições de Ptolomeu.

 

Sem qualquer pretensão de substituir Colombo na admiração dos Reis Católicos, Vespúcio contribui para um mais perfeito e lógico conhecimento das terras novas descobertas, em particular porque nega que essas fossem partes da Àsia, como sonhava Colombo. Tais convicções o cosmógrafo e navegador florentino amplia sempre com suas viagens feitas sob a proteção da raínha Isabel, tornando-se desta maneira um lógico sucessor de Colombo.

 

Desde a assinatura do Tratado de Tordesilhas, a ciência náutica portuguesa sabia da existência de terras desconhecidas na parte sul do hemisfério, o que conduz a mesma diplomacia à escolha dos meridianos convencionais que Portugal tomava para si e que conformavam parte do futuro Brasil.

 

As contribuições vespucianas não passaram despecebidas pela política diplomática de Portugal e de seu rei, D. Manuel I, principalmente quanto às notícias da viagem que Vespúcio iniciara em maio de 1499, na qual o florentino se faz o primeiro explorador a tocar a foz do rio Amazonas, no futuro espaço brasileiro. A fama de Américo Vespúcio chega, assim, até Lisboa, o que leva D. Manuel a convidar o florentino ao seu serviço para viagens já programadas. A primeira das viagens documentadas de Vespúcio a serviço de Portugal se faz em 1501, a dita viagem de exploração da grande costa das terras novas reveladas a 22 de abril de 1500 pela expedição capitaneada pelo almirante Pedro Álvares Cabral. A sua viagem de exploração da costa das terras apenas descoberta, Vespúcio a repete em 1503 quando possivelmente chegou até o Rio da Plata. Memórias dessas viagens ao Brasil de Vespúcio se encontram em muitos pontos da terra brasileira, como em Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro, e em Florianópolis, capital de Santa Catarina.

 

Com as suas viagens reveladoras de novos conhecimentos, Vespúcio cria toda uma mitologia cultural que tem como centro o Atlântico e que justificam a escolha feita, em 1507, por Martin Waldseemüller de dar ao novo continente o nome “América”, em homenagem ao sábio que com espírito revolucionário afirmara ser aquele um continente novo, até então completamente desconhecido e capaz de hospedar populações de milhões de homens, sendo assim revelação da realidade que a vida ali – até então um espaço imaginário aonde não era possível sinais de vida, segundo a ciência antiga e medieval, por encontrar-se nos extremos do mundo – contrariamente tal vida era possível e real.

 

Amerigo Vespucci, em 1506, recebe por concessão do rei da Aragona o título e os encargos de Piloto mayor, inspetor e cartógrafo da flota real. Em tais funções vem a falecer a 22 de fevereito de 1512.



publicado por Carlos Loures às 21:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
Os ricos também beneficiam quando os pobres deixam de o ser. - por Néstor Chumbo Chaves (tradução de Octopus)

Posted: 28 Dec 2011 08:30 AM PST .

 

 

 

 

Lula da Silva, o ex-presidente do Brasil contou, durante a sua visita à Colômbia, pormenores da sua política social que hoje são exemplos em todo o mundo. Recomendou que a Colômbia não deixe nas mãos de intermediários a administração dos recursos públicos.

 

Luiz Inácio Lula da Silva, não se esquece do que fez no primeiro dia da sua gestão como presidente do Brasil, que foi reunir todos os seus ministros, fazê-los embarcar num avião e leva-los às regiões mais pobres do país.

 

Ele queria que o presidente do Banco Central ou o ministro das finanças "vissem esse país que não se queixa, que não se manifesta, mas que está ali, que é real e verdadeiro Talvez vocês possam ajudar a mudar as coisas ".

 

Lula conhecia muito bem esses sectores. Ele vinha de uma dessas regiões em que é comum as crianças irem para a cama sem comer ou passar um domingo sem almoço. "Eu conheci o pão para a primeira vez com 7 anos de idade. Até essa idade, o café que eu tomava de manhã era acompanhado com farinha de mandioca. Sei o que é o desespero de uma mãe em frente de um fogão sem gás e sem os bens mais elementares para fazer uma refeição para os seus filhos" .

 

Durante sua visita ao país, o ex-presidente do Brasil não só partilhou a sua história de vida, mas também os resultados da sua política social que tirou 28 milhões de brasileiros da pobreza e reduziu drasticamente os níveis de desnutrição e de desescolarização das crianças e jovens do seu país.

 

O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, mas para Lula isto pouco serve se não houver democracia, nem políticas de distribuição do crescimento para impedir que o dinheiro caia nas mãos de alguns e o que o povo permaneça pobre e desnutrido.

 

"Quando iniciei o meu governo, 10% das pessoas mais ricas tinham metade do dinheiro do país e deixavam para os mais pobres apenas 10 %", recordou Lula, que conseguiu de alterar estes números aumentando o salário mínimo em 62 % em cinco anos, mesmo com que existência de vozes contra que o avisavam que isso iria provocar um aumento da inflação. "E a inflação não aumentou", diz agora com satisfação. Só com esta decisão, resgatou milhões de brasileiros da pobreza.

 

Além disso, assegura que foi esta medida que aquando da crise de 2008, permitiu que o Brasil seguisse em frente, graças a essa população. "O consumo cresceu sete vezes mais , especialmente nos sectores populares. Os pobres começaram a ser tratadas como cidadãos"

 

Para Luiz Inácio Lula da Silva , foram várias as estratégias fundamentais para alcançar os resultados. Uma foi o acesso aos bancos por parte da população mais pobre: 45 milhões de brasileiros, no espaço de um só ano, tinham contas bancárias activas, e isto contribuiu para tornar viável a segunda estratégia: não deixar nas mãos de intermediários, a administração ou a entrega destes recursos públicos. x

 

"Acho que não deve existir a figura do intermediário, porque este fica com metade do dinheiro. No Brasil, as pessoas que recebem benefícios do governo não têm qualquer contacto com os intermediários . Recebem um cartão magnético com o qual podem ir ao banco e levantar o dinheiro. Isso é sagrado", destacou o ex-presidente.

 

E uma terceira estratégia que assegura o êxito é ter registos de qualidade e dar seguimento aos programas e os beneficiários. Equipas dos membros do governo viajaram para locais remotos onde encontraram pessoas que nem sequer tinham registo de nascimento; eles eram cidadãos que não existiam. Eles beneficiam hoje do programa de bolsa de família, as mulheres de cada agregado familiar recebem um cartão para levantar o dinheiro para alimentação e educação de suas famílias.

 

"Há 13 milhões de cartões. As pessoas vão ao banco e não ficam assim a dever favores aos presidentes de junta, governadores ou ao presidente".

 

"Diziam-me que estava a desperdiçar dinheiro, que estava a criar vagabundos que não trabalhavam. Havia pessoas que criticavam o facto dos pobres comprarem lápis ou calçado para as crianças em vez de comida. Isso é fácil de dizer a alguém que os tem, mas não a pessoas que nunca os tiveram. Quem nunca passou fome ou necessidades não sabe o que representam 80 dólares nas mãos de uma mãe".

 

A luta contra a fome foi uma prioridade do governo de Lula da Silva, a ponto de criar um ministério dedicada exclusivamente a esta tarefa. Em seis anos, a desnutrição no Brasil foi reduzida em 73% e a mortalidade infantil em 45% .

 

Esta política é um exemplo para o mundo. Este compromisso inclui restaurantes populares, programas de alimentação de leite materno, promoção da agricultura familiar, distribuição de alimentos para os mais pobres, entrega do microcréditos e promoção da economia local através da compra aos pequenos produtores dos produtos para abastecer os programas alimentares do governo.

 

"A garantia de uma boa alimentação da população deveria ser a prioridade de todos os homens públicos e os cidadãos de boa-vontade . Não é normal, disse, que um governante mundial não coloque a luta contra a fome como a prioridade do seu orçamento, bem como das suas políticas".

 

A criação de milhões de empregos para pais de família teve como objectivo a redução do trabalho infantil e assim levar essas crianças e jovens a frequentar as 214 novas escolas de ensino básico, bem como a 14 universidades federais construídas durante esse período. Hoje, crianças de pedreiros estudam medicina nas universidades.

 

Estes resultados, disse, demonstram que "não há nada mais barato do que investir nos pobres" e deixa para trás a teoria de que temos que esperar pelo desenvolvimento para eles serem incluídos. No caso do Brasil , a inclusão levou ao desenvolvimento. "Os ricos também beneficiam quando os pobres, deixam de o ser", disse. "Até pagamos a dívida ao Fundo Monetário Internacional. Depois de dois anos de governo, devolvemos os 16.000 milhões de dólares que devíamos. Hoje, é o FMI que nos deve 14.000 milhões de dólares que lhes emprestamos para ajudar a crise dos países ricos".

 

Tradução de Octopus de um artigo de Néstor Chumbo Chaves, publicado no semanário "Acción Informativa" do Uruguai, de 16 a 22 de dezembro de 2011, com o qual octopedia colabora:

 

http://semanarioaccioninformativa.blogspot.com/



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 21– por Sílvio Castro

(Conclusão)

 

Esses são pensamentos dolorosos que me acometem enquanto contemplo o rápido que, mais do que nunca, parece querer colocar-me diante do amigo abandonado.

                  

A minha viagem está para chegar à conclusão. Agora não sei como confrontar-me com Pasqualini, o que dizer-lhe, como mostrar-me aos seus olhos. Mas desejo que tudo isso aconteça logo, como está para acontecer. Faltam finalmente poucas horas. Já estou perto de Santa Maria. Marcelino Ramos, Erechim, já passaram. Estamos próximos de Passo Fundo. Depois será a última corrida; passando Júlio de Castilho, Cruz Alta, chegarei finalmenteem Santa Maria.

 

 

 

              

O viajante está sentado sozinho na sua poltrona da 1ª. classe. Os assentos são confortáveis largos longos, cada um com dois lugares. Adiante e atrás estão muitos outros e entre eles o espaço aéreo é amplo. O viajante pode ver a poltrona que lhe está ao lado e muitas outras adiante.

 

O viajante sente a viagem como alguém que está só consigo mesmo. Para ele a paisagem é alguma coisa de completo, porque recebe toda sua atenção. Mesmo quando o viajante se deixa levar vagamente por pensamentos sem destino, a paisagem permanece nos seus olhos.

                  

Assim o viajante está sentado sozinho na sua poltrona do trem que corre e mantém sempre a velocidade nas linhas retas da planura.

 

O trem entra numa cidade. Tudo se faz um só coisa: casas ruas paisagem. O trem diminui de volocidade, como se caminhasse pela ruas. Nos olhos do viajante a paisagem não mais corre e diminui. Até que o trem entra na estação, desliza entre plataformas, pára. Cessam viagem e paisagem.

 

 

Estou entrando com o meu tremem Santa Maria. A estação, já a vejo a menos de quinhentos metros. A locomotiva se aproxima lentamente da estação, toma a plataforma número 1 e pára.

 

Devagar, como se já agora não mais quizesse ter chegado, pego nas minhas coisas e me preparo para deixar o vagão já vazio. Todos os passageiros já desceram. Desço eu também. Com os olhos quase velados por uma emoção indefinida, fixo a plataforma, toda a estação ainda feita como se o seu tempo fosse um outro, diverso daquele de hoje; vejo os carregadores de malas, homens e mulheres que caminham, outros que estão sentados em bancos de ferro, ao lado de colunas também de ferro que sustentam o teto que protege a plataforma nº 1 da chuva e do sol. Tudo me aparece como se eu estivesser numa estação irreal.

 

Caminho lentamente na direção do gabinete do chefe da estação. Ele agora está diante de mim e escuta a minha pergunta. Sim, senhor, o Senador está aqui.

 

Sinto uma forte emoção, mas o chefe da estação me olha com tristeza - hoje, quando o expresso-noturno de São Paulo chegou, depois que todos os passageiros já tinham partido e o trem estava completamente vazio, procuramos o Senador que devia estar na cabine prevista. Quando vi a porta da cabine ainda fechada, bati. Mas, ninguém respondeu. Então eu a abri. O Senador, vestido como para repartir logo, estava recostado no seu leito, como se dormisse. O Senador morreu tranquilo e todo preparado, como sempre gostava de apresentar-se à gente. Agora ele espera o trem que o levará de volta para a sua casa.

 

 

 

A viagem de ida é como o céu aberto numa estrada que corre sempre sempre na planura.

 

A viagem de volta é como o céu aberto numa estrada que corre sempre sempre na planura, mas que não se revela.

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 20– por Sílvio Castro

 

 (Continuação)

 

 Agora já não sinto mais a música. O trem retomou o ritmo rápido e corre sem cansaços. Pára somenteem Ponta Grossa, onde não se vêem as bicicletas de Castro, não se escutam as notas da banda; somente carros, ônibus, caminhões, tudo num movimento novo para os ouvidos que já se sentiam acostumados a um quase constante silêncio.

 

Deixamos Ponta Grossa e, ao longe, se percebiam os relevos da Serra Geral que confluem nos altos maiores da Serra do Mar. Estamos próximos de Santa Catarina. O trem entra devagar, como numa despedida, em União da Vitória. De frente, passando a ponte sobre o rio Timbó, está União da Vitória.

 

Quando o trem passa pela ponte de ferro na grande velocidade de suas estruturas de aço e do ímpeto da eletricidade que explode como impulso absoluto da máquina e que projeta os vagões como relâmpagos no espaço da paisagem serena, nesta festa de luta entre o tempo que corre e o espaço que o segue sem parar, o trem muda de sons. As vozes que nascem da corrida na ponte modulam tons que são metálicos, mas igualmente aquosos líquidos, vermelhos, mais que vermelhos escarlates, de uma cor que deixa imperceptível no ar e no viajante o odor acre e quente de enxofre. O viajante respira fundo e corre como inebriado de sonhos. Corre o trem; e os sons são metálicos, mas feitos igualmente de belas e doces ressonâncias, sibilos, faíscas, vibrações de decibéis; tudo feito música para os ouvidos do viajante que passa com o trem pela ponte na velocidade que manobra os fios suspensos como se fossem aço volteado por uma força certa e invisível.

Os fios suspensos na ponte se curvam e recurvam como um jogo de asas.

 

 

 

Se da minha janela envidraçada que corre sempre eu observo os acontecimentos na paisagem, esses não cessam de acontecer.

 

Agora estou vendo o desenrolar do verde na corrida do trem; mas, já agora não é mais o verde: a corrida me levou a uma estrada separada dos trilhos por um muro alto. Porém, eu o vejo mais baixo do que o meu olhar na janela do trem, e o muro é uma variação de verde verdes verdemusgo verdescuro verdeclaro verdeamarelo verdazul verde, com uma linha vermelha que corta e harmoniza as matizações do verde. Mas, onde estou? em Castro ou em Kiefstein?

 

Pasqualini me disse

 

meu jovem amigo, certamente estou chegando ao fim. É difícil para quem passou a vida entre a gente, lutando para que os indefesos e os injustiçados pudessem ressurgir numa nova condição de vida, contra todas as forças que se empenham em mantê-los na dolorosa condição de ricos somente da antiga miséria do país, é triste saber que nada poderá fazer contra a sua condenação ao ostracismo.

eu sei, Sílvio, que a minha carreira e a minha vida estão por acabar, e já nada posso fazer para impedí-lo. Mas, não aceitarei jamais de acabar em silêncio. Mesmo de longe, sem poder e forças, minha voz continuará a condenar as injustiças que oprimem os pobres e os miseráveis. Eu me vou incorpar definitivamente a eles e, enquanto puder, caminharei junto deles numa orda de maltaprilhos.

mais do que nunca vou procurar não temer o grito pela verdade, ainda que ela me leve ao exílio da minha terra e da minha gente.


 

 

A amargura expressa por Pasqualini nos últimos tempos antes das eleições me retornam à memória. Revejo o meu amigo oprimido pela iminente impotência derivada do insucesso eleitoral. Porém, nele nada nascia da vaidade pessoal. Pasqualini nunca cuidou da preservação de seus interesses. Ele sempre lutou para manter aquelas posições que lhe permitiam a continuação da luta pela gente. Porém, não sacrificou jamais nada de sua independência pessoal e do carater crítico de sua ação política. Ele sabia que até mesmo no nosso partido se tramava para emudecê-lo definitivamente. Mas, ao acentuar-se dos conluios, ele não procurou mesmo então apoios que o ajudassem e o liberassem definitivamente dos perigos. Mais do que nunca, então ele se servia da própria perseguição sofrida para denunciar os processos anti-democráticos de determinada vida partidária. Eu procurei estar sempre a seu lado, mas hoje sinto que não lutei como devia, não me empenhei como tinha de empenhar-me. A sua ausência que me move nesta ansiedade de reencontrá-lo é também a declaração de minha impotência diante da injustiça praticada contra o meu amigo.

 

(Continua)

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Domingo, 4 de Dezembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 19– por Sílvio Castro

 (Continuação)

 

O trem continua a correr por São Paulo. E eu com ele vou viajando em muitas dimensões, desde aquela que mostra os cafesais como esquadras verdes com botões vermelhos, numa organização que pacifica a vista, até os mais distintos pensamentos. Penso mais uma vez sobre a dimensão do território, vendo a paisagem, examinando a gente que desce e sobe na viagem, nas diferenças de comportamentos, de maneira de vestir-se, de falar, que recolho a cada instante. Então me lembro de outras lições de Pasqualini

 

o ambiente é essencial para a melhor prática política. A sua valorização não pode ser mais matéria de simples movimentos ambientalistas, mas deve ser parte importante dos programas de todos os partidos. A defesa do ambiente, na totalidade de suas implicações e naturezas, é um dos fatores da vida democrática e forma insuperável para a melhor distribuição de bens e direitos numa sociedade estruturalmente injusta para com a grande maioria dos cidadãos, como é a brasileira.

 

com a política do ambiente pode-se evitar abusos de todos os tipos e em toda a extensão do território. Principalmente naqueles espaços em que predomina o abuso do poder político, áreas em geral carentes de uma mais imediata ação da Justiça. A política do ambiente nos pode ensinar a transformar também muitos comportamentos nos territórios de fronteira. O poder político que nesses espaços ainda vive e se aplica com critérios de pura defesa militar do território, esse poder deve compreender que hoje os territórios de fronteira são principalmente espaços abertos à convivência comunitária, até mesmo com aquela multi-nacional.

quando a consciência do valor do ambiente será transformado em comportamento cultural não mais se queimarão árvores que levaram mais de 2 mil anos para atingir o máximo esplendor e que se consumam em menos de 6 horas. Queimar uma árvore assim, transformá-la num amontoado de carvão e cinza, é destruir um coração que sentiu bater a vida e hoje não existe mais.

 

a consciência do ambiente leva à reintegração do homem na natureza e a uma retomada do valor de tudo que representa a existência: plantas, animais, coisas, a gente toda.

                  

Lembrando-me de quanto dizia Pasqualini, eu me entrego ao maior significado de suas lições.

 

 

               

Um dia eu vou ter um gato. Ele se chama Mino. É um gato cinza-escuro, de olhos verdes. Sua barriga é rosa, de um rosa que se alarga pelo cinza. Mino, cinza e rosa, debaixo da cara de olhos verdes e densos bigodes, tem um colarinho branco que confina com o rosa da barriga. As patinhas não são cinzas, mas junto ao cinza das patas, as patinhas são brancas. Quando Mino se senta sobre as patas cinzentas, mantendo o corpo ereto nas patinhas dianteiras, o rabo cinza e rosa acomodado debaixo das patas, olhos verdes fixos nas muitas plantas de seu jardim mágico - gerânios, hortências, rododendro, azálea, camélias -, Mino se transformaem esfinge. Entãoseus olhos ganham um olhar infinito, como se Mino passasse pela intensidade roxa das flores do rododrendo, pelo vermelho amarelo azul das hortências, ou pelo multicolorido dos gerânios, e chegasse além dos vôos dos pássaros, das borboletas, além, muito além do murmúrio do bosque-jardim encantado. Mino ama repousar em meu colo, escutar a minha voz e corresponder ao diálogo proposto com o movimento do rabo, das costas, dos olhos, do corpo todo. Mas, ama ainda mais dormir 18 horas debruçado sobre aquele da mulher que enche com seus gestos a nossa casa.

 

 

                

Os pensamentos eram tantos que não percebi ter já passado a serra de Paranapiacaba e que São Paulo estava por ficar atrás da corrida deste trem que agora entra em Itararé e pára na estação antiga. Vendo a tranquilidade dessa terra, a beleza do lugar, difícil é acreditar que por aqui já se deu uma batalha, com tantos mortos. Olho com curiosidade as estradas, os caminhos, os montes, os declives derradeiros da serra, e nada vejo senão paz.

                  

Estou na última etapa da viagem como se fosse sob uma áurea de serenidade. Sei que dentro em pouco estaremos entrando no Paraná e que metade da caminhada que me distancia do meu amigo já foi superada. Como estará? o que deve estar fazendo neste momento no trem que o leva para Santa Maria?

                  

Vejo que já estou no Paraná quando o trem passa por uma pequena estação da qual me fica somente o nome de sonoridade incomum: Senges. O novo nome me acompanha enquanto se sucedem na corrida as mais variadas paisagens. É todo um verde cultivado, dividido não mais na predominância de grandes fazendas, mas em terrenos menores, sem perdas visíveis do espaço cultivável, ainda que aqui e ali surjam espectros de antigas fazendas onde o gado pasta indolente e sente a ausência da gente no trabalho.

                  

Corre o trem - Jaguarialva, Boa Vista, Piraí do Sul, Socavão.

                  

De repente a locomotiva reduz a marcha e entra no entardecer de uma cidade cheia de vida; o trem caminha lentamente dentro das ruas da cidade, como faziam os trens de antigamente; segue os passos de centenas de bicicletas que ao lado do rápido de São Paulo se encaminham para a estação. Logo todos nós chegamos na praça grande, com um belo jardim de canteiros de flores variadas, ao centro, um coreto branco, muito branco, junto ao qual estão sentados a falar e ver o trem que entra na cidade muitos homens e mulheres, jovens e velhos, crianças. Na estação está escrito o nome: Castro. O meu trem, tomado de desconhecida indolência, entraem Castro. Epára. Pára como se fosse um velho trem, do qual a locomotiva cansada procura o refornimento de água para uma sede sem fim.

 

                  

A paragem em Castro foi longa, como se esperasse que a banda euterpe acabasse a sua marcha pelas ruas de Castro, entrasse no jardim da praça, tomasse os lugares no coreto e começasse a retreta com as notas solenes e ao mesmo tempo nostálgicas da protofonia de «O Guarani».

 

(Continua) 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 3 de Dezembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 18– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

Pasqualini me disse

 

certamente, meu jovem amigo, o Brasil moderno não deve esquecer que o seu progresso e o bem-estar dos brasileiros dependem muito das relações que saberá criar e manter com a comunidade internacional; por isso mesmo, a criação e desenvolvimento do Mercosul é uma das maiores realizações da ação política brasileira dos nossos tempos. Isso, não somente pelos resultados econômicos e financeiros atingidos até aqui; não só pela definitiva tomada de consciência da importância do «mercado de fronteira» para o nosso desenvolvimento, mas igualmente pelo novo sistema de relacionamento cultural com a Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia. O Mercosul é o horizonte aberto à modernidade dos países que o compõem ou que lhe são solidários.

 

o reforçamento regional criado pelo Mercosul é, de certa maneira, a melhor forma de fixação da solidariedade entre as diversas regiões brasileiras.

 

para a política econômica e cultural do Brasil, o Mercosul passa a ser referência essencial. Através dele poderemos alargar a nossa capacidade de encontro e relacionamento com outras comunidades internacionais constituídas, em particular com a Comunidade Européia.

 

somente através de uma plena tomada de consciência da importância do Mercosul, poderemos levar adiante a certamente longa e difícil negociação para a criação de um mercado comum para as Américas.

 

para mim, Sílvio, esta utopia - que poderá sem dúvidas transformar-se em realidade num futuro certamente não próximo - se choca com grandes empecilhos. Esses empecilhos eu os vejo divididos em duas distintas categorias: numa coloco isolado os Estados Unidos; n'outra, a presença de «muitas» Américas Latinas. Desde já, para um nosso sistema de reflexões, o Mercosul é uma das muitas Américas Latinas, sendo de certa maneira a que mais diretamente nos interessa. Uma outra e diversa da dimensão do Mercosul é aquela constituída pelo México, América Central e Caraibes, forte e diretamente presa à economia americana. A terceira e última é constituída pelos países andinos não aderentes ao Mercosul, e infelizmente submetidos a formas de instabilidade econômica e precariedade na vida social, como consequência da política predominante. São os males centrais que traduzem os muitos problemas insolúveis do Perú, Equador, Colômbia e Venezuela. Diante dessas outras Américas, o Brasil e o Mercosul encontram imensas dificuldades em transferir para elas as próprias conquistas de modernidade comunitária a que se está chegando com estável certeza.

 

os Estados Unidos, entretanto, são problema ainda maior para a criação de um mercado das Américas. Isso porque os seus representantes mais abertos não podem responder sempre pela complexa estrutura do país. Quando falta constantemente ao Presidente americano o famoso «Fast Track», quando falta a «via livre» dos partidos, dos sindicatos, dos bancos, dos grupos econômicos, dificilmente os demais comparsas da utopia - convidados para a assinatura a favor da formação de acordo para um pacto de mercado americano comum - podem confiar que essa utopia se cumprirá. Ainda bem que se conservam todos na dúvida; trágico seria aceitar um acordo sem a certeza de igualdade de direitos entre os Estados Unidos e os demais 34 países da América, obviamente sem a exclusão de Cuba.

 

uma coisa, Sílvio, não devemos deixar jamais de proclamar: o Brasil não deve tomar como forma de poder a co-presidência, ao lado dos Estados Unidos, para a prevista organização dos trabalhos na última fase da preparação do «mercado das Américas». O Brasil antes de tudo deve ter a certeza da igualdade entre todos os membros do pacto. Se assim não fizer e, pelo contrário, chegar à última etapa desprovido dela, não se comportará senão como poder colonialista em relação aos outros países latino-americanos.

 

 

Pasqualini me disse

 

a política monetária brasileira convive sempre com uma indispensável estabilidade política. Naturalmente o «real» atingiu aquela meta mínima que o faz um dos elementos substanciais para a manutenção dessa mesma estabilidade. Não se discute a validez do «real», já que se fez realidade estável da vida nacional; e isso somente pela capacidade da gente. Indispensável, porém, é manter vigilância constante sobre a política monetária em relação a todos os setores da sociedade brasileira. Ainda que se tenha transformado num bem de todos, o «real» não deve justificar ações políticas que toquem interessses gerais e direitos inalienáveis dos brasileiros.

 

não é porque a estabilidade nascida também da moeda tenha provocado a presença no Brasil de mais de 10% da totalidade do investimento internacional destinado aos países em via de desenvolvimento que se deva aceitar toda e qualquer ação oficial para fixar determinada política monetária que exclua possibilidade de contestações críticas. O fato que as multinacionais americanas, em determinado período, tenham tido um lucro percentual de 12,09 em relação ao capital investido no Brasil - enquanto, no mesmo período, a média mundial de lucro para os investimentos das mesmas multinacionais foi de 3,98% - isso deve ser motivo de satisfação mais para os investidores do que para os brasileiros.

 

meu caro e jovem amigo, a história nos ensina muito e sempre: já na primeira metade do séc. XVI, Duarte Coelho, capitão-geral daquela Nova Lusitânia, capitania hereditária que depois viria ser quase o Pernambuco atual, Duarte Coelho escrevia ao Rei de Portugal dizendo que a única forma para o enriquecimento da Coroa seria aplicar na Colônia os muitos lucros obtidos nela e não remetê-los sempre para Lisboa...

 

os interesses do Brasil poucas vezes coincidem com aqueles das multinacionais. Por isso, a política delas não deve condicionar a nossa. Não é para mantê-las em níveis de recordes de lucros que queremos recebê-las. Não é possível dirigir a política nacional para uma tal meta. Por tudo isso, não se pode pretender reformas da assistência pública que não seja o resultado da vontade da maioria dos brasileiros; não se pode realizar modificações no mercado do trabalho que não correspondam aos interesses diretos dos trabalhadores; não sempre toda e qualquer forma de privatização representa uma ação positiva.


 

 (Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 17– por Sílvio Castro

 

(Continuação) 

            

Soube tudo na Central de São Paulo.... o Senador saiu a noite passada no expresso-noturno que vai mudar depois de quarenta horas de viagem até a estação de Santa Maria no rápido São Paulo-Porto Alegre. Se o senhor pegar agora às sete e meia a saída desse rápido certamente encontrará o Senadorem Santa Maria.

 

                  

Agora viajo tranquilo, desde que deixei São Paulo neste rápido que corre pelo interior paulista na direção do Paraná. Mais do que nunca me parece uma corrida maravilhosa; o trem, o sinto mais confortável do que os muitos outros que me serviram nesses últimos dias. Sinto como se viajasse numa ferrovia imaginária, com as potentes locomotivas elétricas que devoram milhares de quilômetros e quilômetros. Fala-se tanto na implantação, em muitos percursos servidos pela Ferrovia Nacional, do sistema alemão da alta velocidade; mas já me parece de usufruir do sistema, pois este rápido corre tanto que os fios elétricos vistos da janela não fazem as habituais curvas e semi-curvas para os olhos que tudo admiram de dentro do trem. É tanta a sensação da velocidade que as andorinhas vôos teimosos paralelos ao trem voam voam, mas eu não posso ver mais que o lampejo de suas asas que se perdem fulmíneas, como que arremessadas para o alto pelo vôo maior da locomotiva silenciosa e dos vagões repletos de passageiros serenos.

                  

Vou pelo interior de São Paulo recoberto de plantações vastíssimas e de fazendas que carregam bois cavalos para um encontro com o trem.

 

 

     

             

Sei que vou reencontrar o meu amigo; e na tranquilidade dessa certeza retomo meus pensamentos que lhe estão sempre ligados. Posso pensar com uma nova perspectiva, até mesmo sobre a maneira como há mais de cinco anos vivo a minha carreira parlamentar. Nada me é fácil nesta escolha de vida, mas tudo dependerá também da minha natureza mais profunda. Tenho a tendência acentuada à solidão; mas amo igualmente o diálogo e a convivência. Sinto forte predisposição aos sentimentos fortes e duradouros, mas sinto igualmente a necessidade de tantas vezes sair do espaço mais imediato dos contatos com as pessoas amadas. Então me isolo e encontro grande satisfação em estar só, em outros espaços, nos quais encontro outras pessoas, com as quais estou bem, mas como se fosse num momento de passagem. Depois sinto necessidade de retornar à convivência dos verdadeiros sentimentos. E assim passo a minha vida que, já me parecendo certamente intensa, todavia a sinto projetada num indefinido futuro que não distingo.

                  

A política é para mim a síntese de comportamentos que me permitem conviver com as insatisfações sem cair na solidão completa. Porém, Pasqualini sempre me advertiu para que eu não transformasse jamais a minha atividade política em simples compensação das insatisfações sentidas.

 

Pasqualini me disse

 

a atividade política pode ser vista de várias maneiras e de várias perspectivas, todas elas honestas. Pode ser a estrada para a exaltação de nosso desejo de perfeição, enquanto pessoa, com o perigo de transformar um tal comportamento em centralização radical da elevação pessoal, com perda da referência principal que é a gente que nos delega o exercício do poder político.

pode ser também - e esta outra perspectiva tem muita correspondência com a primeira - pode ser também o empenho para a assunção do poder. Enquanto tal, não é precisamente um defeito. O poder político é principalmente a possibilidade de decisão positiva para o bem comum, sendo por isso mesmo, passível de justo empenho para a conquista e detenção. Mal é transformar tal empenho em conquista interessada somente ao pessoal e ao particular, ao grupo e a metas incivis.

 

a atividade política pode ser tudo isso e mais coisas. Mas, em verdade, deve ser principalmente prestação de serviços à gente, ao povo; um empenho absolutamente e sempre conduzido pela consciência de democracia. E por isso mesmo, deve confundir-se o mínimo com os problemas subjetivos de quem a exercita.

 

Pasqualini me disse

a comunidade internacional age muitas vezes em modo demasiadamente convencional, procurando esquecer determinadas realidades nacionais que não sempre podem adaptar-se a convenções aparentes. A razão de tais comportamentos convencionais está quase sempre relacionada com o desejo de hegemonização política. Pode-se até mesmo dizer que as razões econômicas participam relativamente em tais ações. Porém, muitas vezes, esses convencionalismos atuam em áreas explosivas, com grande perigo para a segurança mesma da humanidade. Como é o caso das atividades atômicas.

 

as cinco potências nucleares declaradas e ativas - Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China - se movimentam na reinvidicação da não-proliferação atômica sem, todavia, exprimir sempre com clareza a intenção política de chegar um dia ao desarmamento total. Ao querer impor a linha internacional da deposição atômica, essas potências muitas vezes ignoram legítimos e pacíficos interesses nacionais quanto a utilização da energia nuclear. Naturalmente para países, como o Brasil, que desde sempre aderiram e afirmaram a política do desarmamento atômico total e afirmaram a política do uso da energia nuclear somente para finalidades pacíficas, tal problema é relativo; isso, naturalmente, desde que a pesquisa brasileira não sofra coações absolutistas. Mais difícil é a posição de países que ainda não aderiram ao desarmamento total e que vivem em áreas de tensão. Esses países muitas vezes não podem responder às cinco potências atômicas sempre em correspondência com a vontade delas, pois a inércia no desarmamento que caracteriza os Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China, conduz de certa maneira os outros do grupo que não aderiram ao pacto internacional anti-atômico - Índia, Paquistão, Israel, Irã, Iraque, Coréia do Norte e Líbia - a posições mais ou menos conflituais. Aos verdadeiramente pacifistas, como o Brasil e Argentina, cabe viver no absurdo «clube dos 14» que, invés de festas e alegrias, exprime somente paradoxos e angústias. Para o qual a única certeza é a presença de um provocante «botão vermelho» em procura insone de dedos-detonadores indefiníveis.

 

(C

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 17– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

Quando o trem sobe a montanha e se esforça para superar as alturas, certo da planície que o espera, enquanto sobe se transforma num compasso ternário de continuada intermitência tam tam tamtarantam tam tanrantam tarantam tam tam

 

 

Cheguei ao Rio que era já noite. A Central, com todo o seu imponente arranha-céu vibrava como sempre com o movimento de milhares de passageiros. Fora, a cidade se preparava para mais uma noite de intensidades. O tráfico que vinha do centro para a zona norte passava diante da estação, rumando pela Avenida Getúlio Vargas em muitas direções; no sentido contrário, carros e ônibus ultrapassavam a praça da República para confluir no estreito que parte para a zona sul, na procura do Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon. Silêncio, mais pressentido que captado pelo olhar que se movimentava para o sul e para o norte, a metropolitana conduzia milhares de passageiros nas duas direções. Eu fixava todo esse movimento, escutava o estordoante rumor nos espaços imensos e os gritos dos vendedores diante da estação me davam a dimensão da minha cidade que eu via como se fosse pela primeira vez.

 

De repente retornei à minha ansiedade. Meus olhos se levantaram para o alto da torre da Central e o grande relógio multiplicado nos quatro lados retângulares da grande arquitetura me indicava que eram as dez e meia da noite. Agitado, corri para o interior da estação na procura do diretor-geral e do chefe da estação.... o Senador chegou aqui hoje pela manhã. Como sempre que o encontro conversamos cordialmente. Ele estava se preparando para pegar o rápido Rio-São Paulo das 13. Me disse que gostaria de chegar em tempoem São Paulopara pegar o expresso-noturno que vai para o Rio Grande do Sul. O senhor pode chegarem São Pauloe depois tomar um rápido para o Sul. Seria bom se pudesse partir daqui logo com o noturno, mas infelizmente ele está lotado completamente. Assim sendo, somente o expresso de amanhã de manhã. Não, não posso fazer nada, me desculpe. Eu gostaria de ajudá-lo, mas realmente não tenho nenhuma condição de encontrar-lhe uma cabine, e nem mesmo um lugar sentado.

 

Eu me angustiava em saber que, finalmente, meu amigo estava próximo e ao mesmo tempo podia afastar-se mais uma vez. Eu tinha de pegar o noturno para São Paulo e assim chegar pela manhã, ainda em tempo para correr como o rápido atrás do noturno que certamente conduz Pasqualini para o Sul.

 

O chefe da Central, diante de mim, repetia a sua impotência. Foi então que me lembrei de que o responsável pelas Relações Públicas da Ferrovia Nacional era o meu amigo Mauritônio Meira.... é verdade, ele costuma ficar até tarde no seu escritório. Vou telefonar para lá e dizer que o senhor está aqui.

                  

Encontrado o bilhete, saí correndo para pegar o noturno de São Paulo.

 

 

 

Pasqualini me disse

 

meu caro e jovem amigo, eu amo a tradição rural, a memória da cultura da terra, das formas de uma tradição que continua na base de nossos sentimentos e de nossa inteligência, mas amo igualmente a dimensão urbana. Pode parecer um paradoxo, mas não é assim, pois acredito que a cidade seja uma dimensão rica. Penso e repenso, de encontro aos embalos de minha memória, a esse quase enigma de um político que está para desaparecer enquanto ativista; mas não temo o enigma. Pelo contrário, me sinto tomado num embalo sedutor.

os centros urbanos vivem da multiplicidade de suas componentes que fazem da cidade moderna o centro das melhores e mais válidas mudanças. Porém, muitas são as componentes das cidades brasileiras, e não sempre são tomadas numa plena consciência. Para que essas cidades possam transformar-se em contínuo processo de modernidade, é preciso que as mudanças a que assistem se realizem no melhor equilíbrio das muitas, muitíssimas contribuições de suas componentes. É indispensável que a cidade seja democrática em todas as componentes estruturais.


 

 

                  

O viajar em trem é como ocupar sem mudar o espaço que te parece único, mesmo nas mudanças incessantes que a corrida estabelece.

                  

Quando estás num trem e a paisagem se modifica com o passar do tempo e com a constante velocidade, tudo permanece como em imutável espaço pessoal e o modificar-se continuado do espaço exterior é como e somente um reflexo do espaço viajante.

                  

Ao lado, no meu olhar, paralelo ao trem corre veloz o rio. Correndo, rio e trem se integram e eu vivo a integração com as águas sem me afogar.

 

                  

Para o viajante a corrida do trem é como se fosse um estar parado, pois nele nada muda e como ama a viagem repousa na alternância sem fim de paisagens que a marcha do trem lhe oferece.

                  

Agora nuvens cotonadas baixaram tanto que encobrem os montes morros colinas desta terra verde luminosa. Para o viajante é como subir para as nuvens e não lhe parece que essas sejam mais baixas do que costumam ser as nuvens. Mas ele também sabe que o trem continua na marcha de trilhos e estações. Apenas ele está nesses eventos de nuvens e trem.

 

                   

Reencontro o Paraíba seguindo na noite que me leva paa São Paulo. O rio continua correndo para sua foz distante, enquanto eu sei que a minha corrida é outra. Talvez não consguirei dormir esta noite porque acompanho o trem que entra e sai das luzes intermináveis que se acendem pela estrada numa ansiedade que me dá a sensação de estar fora da velocidade, sempre mais além dela, como querendo chegar logo e antes do trem que corre corre, cobrindo os nomes das estações, fugindo de possíveis passageiros novos, pleno, cheio, pronto somente a parar no lugar: São Paulo.

 

Corre o trem e passa por pontes, ladeia cidades adormecidas, supera carros que velocizam as marchas nas auto-estradas paralelas, corre corre. É noite somente noite. Passa Barra Mansa. Mais que ler o nome, alcanço a captação de sons fugidios... nsa. Depois Cruz..., Cruzeiro. cida... Apare...

 

Debruçado no meu leito oscilante sinto que esta etapa da viagem está para esclarecer tudo. Vou chegarem São Pauloe então saberei com certeza em que trem viaja o meu amigo e para onde ele está indo e como eu vou poder, finalmente, encontrá-lo. Taubaté. Já estouem Taubaté. Passamas horas e a noite. Tudo me parece possível. Esta é a viagem para o encontro, me diz o trem que corre sem parar, como se corresse para mim, somente para mim que sinto os olhos que se fecham, pesados, enquanto muitas luzes relâmpagos silenciosos compassam o correr do trem.

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 17– por Sílvio Castro

 

 (Continuação)

 

                   Quando o trem sobe a montanha e se esforça para superar as alturas, certo da planície que o espera, enquanto sobe se transforma num compasso ternário de continuada intermitência tam tam tamtarantam tam tanrantam tarantam tam tam

 

 

 

 

Cheguei ao Rio que era já noite. A Central, com todo o seu imponente arranha-céu vibrava como sempre com o movimento de milhares de passageiros. Fora, a cidade se preparava para mais uma noite de intensidades. O tráfico que vinha do centro para a zona norte passava diante da estação, rumando pela Avenida Getúlio Vargas em muitas direções; no sentido contrário, carros e ônibus ultrapassavam a praça da República para confluir no estreito que parte para a zona sul, na procura do Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon. Silêncio, mais pressentido que captado pelo olhar que se movimentava para o sul e para o norte, a metropolitana conduzia milhares de passageiros nas duas direções. Eu fixava todo esse movimento, escutava o estordoante rumor nos espaços imensos e os gritos dos vendedores diante da estação me davam a dimensão da minha cidade que eu via como se fosse pela primeira vez.

 

De repente retornei à minha ansiedade. Meus olhos se levantaram para o alto da torre da Central e o grande relógio multiplicado nos quatro lados retângulares da grande arquitetura me indicava que eram as dez e meia da noite. Agitado, corri para o interior da estação na procura do diretor-geral e do chefe da estação.... o Senador chegou aqui hoje pela manhã. Como sempre que o encontro conversamos cordialmente. Ele estava se preparando para pegar o rápido Rio-São Paulo das 13. Me disse que gostaria de chegar em tempoem São Paulopara pegar o expresso-noturno que vai para o Rio Grande do Sul. O senhor pode chegarem São Pauloe depois tomar um rápido para o Sul. Seria bom se pudesse partir daqui logo com o noturno, mas infelizmente ele está lotado completamente. Assim sendo, somente o expresso de amanhã de manhã. Não, não posso fazer nada, me desculpe. Eu gostaria de ajudá-lo, mas realmente não tenho nenhuma condição de encontrar-lhe uma cabine, e nem mesmo um lugar sentado.

 

Eu me angustiava em saber que, finalmente, meu amigo estava próximo e ao mesmo tempo podia afastar-se mais uma vez. Eu tinha de pegar o noturno para São Paulo e assim chegar pela manhã, ainda em tempo para correr como o rápido atrás do noturno que certamente conduz Pasqualini para o Sul.

 

 

 O chefe da Central, diante de mim, repetia a sua impotência. Foi então que me lembrei de que o responsável pelas Relações Públicas da Ferrovia Nacional era o meu amigo Mauritônio Meira.... é verdade, ele costuma ficar até tarde no seu escritório. Vou telefonar para lá e dizer que o senhor está aqui.

                   Encontrado o bilhete, saí correndo para pegar o noturno de São Paulo.

 

 

 

Pasqualini me disse

 

meu caro e jovem amigo, eu amo a tradição rural, a memória da cultura da terra, das formas de uma tradição que continua na base de nossos sentimentos e de nossa inteligência, mas amo igualmente a dimensão urbana. Pode parecer um paradoxo, mas não é assim, pois acredito que a cidade seja uma dimensão rica. Penso e repenso, de encontro aos embalos de minha memória, a esse quase enigma de um político que está para desaparecer enquanto ativista; mas não temo o enigma. Pelo contrário, me sinto tomado num embalo sedutor.

os centros urbanos vivem da multiplicidade de suas componentes que fazem da cidade moderna o centro das melhores e mais válidas mudanças. Porém, muitas são as componentes das cidades brasileiras, e não sempre são tomadas numa plena consciência. Para que essas cidades possam transformar-se em contínuo processo de modernidade, é preciso que as mudanças a que assistem se realizem no melhor equilíbrio das muitas, muitíssimas contribuições de suas componentes. É indispensável que a cidade seja democrática em todas as componentes estruturais.


 

 

                   O viajar em trem é como ocupar sem mudar o espaço que te parece único, mesmo nas mudanças incessantes que a corrida estabelece.

                   Quando estás num trem e a paisagem se modifica com o passar do tempo e com a constante velocidade, tudo permanece como em imutável espaço pessoal e o modificar-se continuado do espaço exterior é como e somente um reflexo do espaço viajante.

                   Ao lado, no meu olhar, paralelo ao trem corre veloz o rio. Correndo, rio e trem se integram e eu vivo a integração com as águas sem me afogar.

 

 

 

 

                   Para o viajante a corrida do trem é como se fosse um estar parado, pois nele nada muda e como ama a viagem repousa na alternância sem fim de paisagens que a marcha do trem lhe oferece.

                   Agora nuvens cotonadas baixaram tanto que encobrem os montes morros colinas desta terra verde luminosa. Para o viajante é como subir para as nuvens e não lhe parece que essas sejam mais baixas do que costumam ser as nuvens. Mas ele também sabe que o trem continua na marcha de trilhos e estações. Apenas ele está nesses eventos de nuvens e trem.

 

 

 

                   Reencontro o Paraíba seguindo na noite que me leva paa São Paulo. O rio continua correndo para sua foz distante, enquanto eu sei que a minha corrida é outra. Talvez não consguirei dormir esta noite porque acompanho o trem que entra e sai das luzes intermináveis que se acendem pela estrada numa ansiedade que me dá a sensação de estar fora da velocidade, sempre mais além dela, como querendo chegar logo e antes do trem que corre corre, cobrindo os nomes das estações, fugindo de possíveis passageiros novos, pleno, cheio, pronto somente a parar no lugar: São Paulo.

 

Corre o trem e passa por pontes, ladeia cidades adormecidas, supera carros que velocizam as marchas nas auto-estradas paralelas, corre corre. É noite somente noite. Passa Barra Mansa. Mais que ler o nome, alcanço a captação de sons fugidios... nsa. Depois Cruz..., Cruzeiro. cida... Apare...

 


Debruçado no meu leito oscilante sinto que esta etapa da viagem está para esclarecer tudo. Vou chegarem São Pauloe então saberei com certeza em que trem viaja o meu amigo e para onde ele está indo e como eu vou poder, finalmente, encontrá-lo. Taubaté. Já estouem Taubaté. Passamas horas e a noite. Tudo me parece possível. Esta é a viagem para o encontro, me diz o trem que corre sem parar, como se corresse para mim, somente para mim que sinto os olhos que se fecham, pesados, enquanto muitas luzes relâmpagos silenciosos compassam o correr do trem.

 

 

(Continua)

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 29/11/2011 às 22:26
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 16– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

O trem que entra no tunel, entra numa nova volocidade porque o tunel cego de quilômetros faz com que a corrida se desenvolva sem saber da paisagem. O trem corre corre corre cego errante bizzaro, inebriado pela liberdade de deixar-se todo aos trilhos e à corrida conformada pelo cubo inteiramente escuro, mas certo de seu espaço.

 

O viajante se integra com o trem no tunel e então nasce um sentimento de viagem indefinida. Se ele fecha os olhos a viagem se transforma em sons que passam docemente pela sua cabeça. É um sonho vivido no tunel e que se confunde com as vozes que sobem das rodas, dos trilhos, das trevas, tocam as paredes do tunel e dão à viagem a sensação de infinito.

 

Corre.

 

A corrida mostra ao viajante tantas maneiras de ver o mundo. Agora, na paisagem veloz aparece ao longe e se aproxima uma casaem ruínas. Quasenada mais resta da casa: paredes arruinadas, o teto quase todo desabado, mato que se alça invadindo tudo. Enquanto o trem corre e afasta dos olhos a casa, fica nos olhos do viajante que ainda colhem os últimos detalhes da casa em ruínas, fica a sensação de vidas passadas, mas visíveis.

 

 

Vou caminhando pelo Estado do Rio neste trem que agora me parece mais familiar.

 

                   Muitas vezes falei com Pasqualini dessa terra. Ele sempre teve grande estima pelas tradições fluminenses. Dizia mesmo que encontrava no fluminense muitos traços distintivos, mas que o fazem claramente brasileiro; em particular o intenso sentido da história, originado do predominante espírito ultra-regional, que ele sabe exprimir. É possível que, dizia ele, o sentido do litoral em confronto com o interior, tenha criado um modo local de comportamento, porém, sempre aberto e disponível ao contato com o diverso. Isto deve ter vindo principalmente do mar. Para o fluminense, o mar foi sempre o porto que acolhe o navio vindo de longe. Daí surgiu a predisposição à vida urbana. O fluminense, mesmo aquele das vilas ou das fazendas, não vive um extremo mundo regional. O Rio de Janeiro fez-se desde sempre a síntese dessa predisposição ao maior contato com todo o mundo.

 

Enquanto o meu expresso caminha, antes corre, acompanhando em sentido contrário as águas do Paraíba, pequeno grande rio, vou relembrando essas coisas e chegando e passando por São Fidelis, Cambuci, Santo Antônio de Pádua, Itaocara, Euclidelândia, Cantagalo.

 

No longo rememorar com os olhos que viajam por terras conhecidas, o Paraíba é presença constante, ora visível, ora somente pressentida; aqui largo e encachoeirado, ali estreito e sempre nervoso nas águas que correm para uma foz da qual me afasto continuamente.

 

 

 

O viajante viaja com muitos outros passageiros no vagão cheio e murmuroso. O murmurio da gente se percebe na corrida do trem como um perfume que se impõe num primeiro momento e lentamente se dilui no olfato que lhe corre atrás temeroso que a sensação perfumada se perca para sempre.

                   O viajante tem ao lado um companheiro de viagem. É um homem e por isso a percepção da paisagem se faz quase sem mudanças, a não ser aquela imperceptível perda que o viajante sente se o seu companheiro de poltrona é um homem. Se é uma mulher, a mudança na viagem é de outra intensidade. A paisagem se faz mais íntima, como se agora o homem a pudesse captar somente com os olhos e não mais com todos os seus sentidos.

 

O trem parou em Cordeiro. Estousentado numa poltrona que se confronta com uma outra, e todo o vagão é feito de poltronas que se confrontam em quatro lugares para quatro pessoas que podem fixar-se nos olhos, falar-se diretamente, até mesmo ver a paisagem em grupo e dizer alguma coisa dos campos que passam, das casas solitárias nos caminhos, contar das nuvens, do céu, dos pássaros que continuam a voar de encontro à corrida do trem, dos animais e das gentes.

 

 

 

Em Cordeiro tomaram o trem três mulheres e se sentaram ao meu lado e diante de mim.

 

Olho com vagar o movimento da gente que passa agitada na plataforma e daqueles que procuram lugar no expresso que vai para o Rio.

 

 

As três mulheres colocaram as malas e embrulhos nos lugares convenientes, acima das nossas cabeças, e sentaram-se. São três gerações de uma família, certamente: a do meio é uma senhora de quase cinquenta anos, magra, nervosa, ativa, dominadora, com aquelas evidentes características de mulher-guia de família, visíveis na agitação das mãos e dos braços, e mais ainda do olhar que tudo controla; a mais velha é a avó, terá mais de setenta anos, cabelos branquíssimos e olhos de um azul que teima em aparecer, e seu rosto sereno deixa fazer tudo à filha, com uma voz suave, ainda que tocada de longe por um cansaço vindo dos anos; a jovem pouco se parece com a mãe e recorda a avó quando esta era uma moça do interior num tempo vivido que certamente era um outro, e seus olhos eram azuis claros e a voz não tocada pelo cansaço. A jovem também ela tem os olhos claros, azuis, mas o seu olhar não é aquele que deve ter tido a avó. São jovens e límpidos, mas tendem a não ver, a olhar somente para dentro. O olhar da jovem que está sentada ao lado de sua mãe e diante de mim, invés de procurar o espaço aberto da janela, fixa sempre o corredor, as outras poltronas, o vagão que se abre numa porta na direção da saída já ao aberto na velocidade do trem.

 

A mãe, logo depois de ter predisposto tudo, conversado sem atenção com a avó e procurado demover a filha a sair da ausência constante, falou comigo, procurando integrar-se também com a minha viagem. A filha teve um sobressalto de inquietude vendo a mãe que procurava conduzir-me para aquele espaço familiar claramente turbado que se preparava para subir a serra, até chegar já noite no Rio de Janeiro.

 

 Eu acolhi o convite da mãe, levado principalmente pela expressão inquieta da filha. Inquietude que aumentou quando me foi oferecido um pedaço do bolo trazido de casa e um copo de laranjada mantida fresca pela garrafa térmica que a mãe agitava na sua distribuição metódica. Mais fazia a mãe, mais a filha mostrava o nervosismo que lhe estava dentro. Não aceitou as ofertas, mas recolheu-se no olhar que perambulava pelo vagão sem nada ver.

 

Escutando o contar sem fim da mãe e o assentir silencioso, mas presente, da avó, eu participava sem sair de mim e sem dizer nada mais do que não fosse uma participação atenta que se compassava com a subida do trem para Friburgo.

 

O ar se fizera mais frio com a serra e os vidros das janelas foram fechados completamente. A mãe colocou um xale amarelo nos ombros da filha que o recebeu a mal. O xale amarelo combinou com seus cabelos louros, não muito longos, e com a brancura látea de seu rosto redondo.

 

Eram já passadas várias horas desde a partida de Cordeiro, e o trem, superada a beleza de Friburgo, mudara de ritmo na subida verde fria da serra, em busca do alto de Itaboraí.

 

Depois de muito contar, a mãe e a avó agora repousavam quase adormecidas. A filha, pouco a pouco, passou o seu olhar do corredor para a visão da janela. Vendo as árvores que corriam, e o verde e as flores que se banhavam no frio do bosque sem fim, como se jamais tivesse existido um silêncio entre nós, nos falamos.

 

 (Continua)

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | adicionar aos favoritos

Domingo, 27 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 14– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

Pasqualini me disse

 

quero conversar com você, meu caro Sílvio, sobre os Estados Unidos. Você é jovem, está apenas começando uma carreira política que irá alargar-se nos anos de um novo século; eu sou velho, venho de tempos burrascosos, de guerras e ditaduras, de violências constantes aos ideais da democracia e dos direitos humanos. Eu sou o tempo das esperanças, das muitas perdidas esperanças; você representa um tempo novo que poderá realizar-se também com possíveis certezas. Venho das utopias e, muitas delas, já as vi desmorar não sempre pela justiça das novas direções tomadas pelo homem. Você vive diretamente o tempo das certezas globalizantes, ainda que sinto que elas não tiveram ainda a força de dar aos seus pensamentos uma paz segura. Eu vivo de encontro à memória, partindo de longes passados e tradições antigas; você convive com um futuro que se obstina em invadir o seu presente. Os meus sentimentos são impregnados do odor da terra e das coisas vividas em contato com ela; você é forte da movimentação vital da cidade que cresce sempre, se projeta sempre para diante.

 

quero conversar com você soube os Estados Unidos, porque sei que, nas suas ânsias de justiça social para um Brasil que se deve fazer, ele está presente como sempre esteve nas minhas lutas por um outro Brasil que se fez quase só memória. Mas eu acredito que podemos falar uma mesma linguagem, porque os Estados Unidos não mudaram ou ainda não querem mudar.

 

falemos: antes de tudo temos uma obrigação, a de ser anti-americanistas. Por nós e pelos americanos.

 

quero partir de um dado de crônica para chegar a deduções mais amplas: não podemos aceitar uma maneira de compreender a vida de uma sociedade que assiste indiferente a um intenso movimento de solidariedade internacional pela vida de um condenado a morte, como aconteceu com a execução de Karla Tucker. Não podemos conviver com a idéia de que um governador de um estado, seja ele o Texas, ou outro qualquer, possa representar a voz de um país que se coloca ao lado de um espetáculo de negação dos direitos humanos reconhecidos por uma comunhão de sentimentos de gentes as mais diversas e nos mais diversos pontos do mundo. Não ao lado dessa América oficial devemos nos colocar, mas daquela do homem comum que passa a noite de falsas esperanças na justiça exibindo cartazes que proclamam «a execução não é a solução».

 

mas, além dos episódios de grandes comoções diretas, outros nos levam a proclamar a necessidade de um anti-americanismo: não podemos suportar que um país, o mais brilhante que seja por cultura, ciência, arte ou poder de criação, se isole num processo de narcisismo coletivo ao acreditar que a sua realidade corresponda á perfeição da convivência humana. E que a partir de tal convicção se veja no direito de impor diretamente o próprio modelo a territórios diversos que não observem as regras americanas em relação à existência. Por isso, inadimissível é a doutrina - demasiadamente usada - que alarga as fronteiras físicas dos Estados Unidos às terras mais distantes, criticáveis pela prática de modelos diversos daqueles americanos. A teoria do perigo para a paz interna americana não pode ser aceita como norma para intervenções no exterior. Da mesma maneira, não é defendível a doutrina da hegemonia e do direito de emprego de força quando a realidade política americana se confronta com realidades opostas aos seus pontos de vista. Somente os organismos internacionais oficiais, como a ONU, podem receber e aplicar propostas de intervenções contra possíveis perigos para a paz internacional. Os americanos democráticos certamente defendem essa posição.

 

o americano, enquanto considera o seu viver nacional como modelo absoluto, deve ser criticado. A sua segurança interna não deve ser medida pelo comportamento cultural de outros povos. Revelar-lhe um tal conceito é lutar diretamente pela sua integração na comunidade internacional mais claramente democrática.

 

mais além dos fatos objetivos facilmente reconhecíveis de um modelo americano não desejável, pode-se chegar a denúncias mais profundas do sistema: tal denúncia se realiza principalmente contra a tendência da cultura oficial americana de usar seus potentes meios de comunicação no plano universal, mas incapaz de um controle dos mesmos. Correspondendo à certeza de uma economia predominante, a cultura americana tende a esquecer a sua natureza específica e a identificar-se com a própria hegemonia economica, teccnológica e militar no plano internacional. Desta maneira, os verdadeiros produtos culturais estadunidenses - e eles são muitos e valiosos - se confundem com uma produção maciça de subprodutos. A opinião cultural interna absorve predominantemente a mensagem dessa produção de massa, enquanto o mercado antisocial interno assim gerado impõe ao mercado mundial o falso produto cultural. Devemos lutar para que uma tal cultura não se propague no Brasil, numa contaminação fácil dada a frequente instabilidade da economia e do mercado brasileiros. Os nossos meios de comunicação devem ser criticados de quanto propagam sem qualquer processo de auto-crítica. Defendendo o patrimônio e a liberdade cultural do brasileiro, defendemos igualmente o americano que não compactua com tal operação.

 

porém, o nosso obrigatório anti-americanismo se realiza principalmente no momento em que conseguimos individuar a violência do modelo cultural americano empenhado, no presente, em vender o futuro. E mais que isso: em impedir aos outros sistemas nacionais de conviverem com o próprio presente.

 

A tal cultura corresponde uma política que não interessa aos ideiais da justiça e e livre democracia da comunidade internacional. A política americana, muitas vezes cega aos direitos internacionais legítimos, não pode senão gerar reações anômalas, entre as quais as muitas formas de terrorismo. Se pensarmos, como todos os verdadeiros democratas devem realmente pensar, a uma resposta ao terrorismo, antes de tudo é indispensável considerar que o terrorismo é muitas vezes a resposta patológica a problemas reais.

 

tudo isso devemos sempre afirmar. Porém, no momento em que por ventura os Estados Unidos, em consequência de uma inovadora política interna ou simplesmente de mudanças provocadas por uma crise econômico-financeira, comecem a querer demonstrar ao mundo o desejo de uma nova linha não só de política internacional, mas igualmente do modo de ser da política interna, aí então deveremos estar pronto para solidarizar com uma tal revolução.

 


(Continua) 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 26 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 13– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

A fundamentação cultural da ação saxônica na América é a mesma dos outros Conquistadores, a consciência de uma irredutível superioridade em relação a outros povos não pertencentes ao sistema europeu. Este senso de superioridade é expresso pelos ingleses Conquistadores em maneira ainda mais radical mesmo em relação aos castelhanos, que não hesitaram em praticar o imediato extermínio físico de inteiras populações no México e no Perú. Esta diferença se revela com evidência se consideramos a Conquista - ainda que sempre ligada à posse de bens materiais - do ponto de vista religioso: desta angulação a Conquista saxone-reformista se distingue efetivamente daquela ibérico-católica.

 

                  

O espírito da Conquista reformista encontra em Octavio Paz uma síntese iluminante: «Para o reformador uma terra desabitada ou populada por pagãos é uma terra selvagem; em tal modo ele equipara mundo natural e paganismo; se alguns cristãos se encontram em uma terra selvagem, o seu dever não consiste em converter os pagãos, mas no elevar as próprias autoridades religiosas. Os índios americanos eram parte da natureza e, como todas as coisas da terra, eram contaminados pelo pecado e pela morte».

                  

 

Para o Conquistador reformista o índio não é um elemento espiritual que deve ser salvado em seio ao cristianismo, mas, em verdade, um adversário que deve ser submetido e governado. Se por acaso esse domínio se revela impossível, então o índio deve ser exterminado. Neste sentido a invasão inglesa dos territórios indígenas é radical, ainda quando comparada às violências de um Cortés ou de um Pizarro.

                  

A virulência da Conquista inglesa na América se encontra principalmente na coerência de como vem atuada em todo o percurso histórico da invasão.

 

                  

Ao contrário dos ibéricos, em coerência com o espírito da Reforma, o Conquistador saxônico não quer salvar a alma do índio, porque segundo a lição protestante o homem pode salvar-se somente pela ação da graça divina. Assim, este Conquistador não prevê a evangelização, ao contrário daqueles ibéricos e católicos. Estes últimos - e particularmente a partir da atividade jesuítica controreformista - têm como meta principal a integração dos índios na religião verdadeira, isto é, o catolicismo. A sutil, mas evidente diferença entre os sistemas éticos reformistas e católico controreformista pode ser considerada como predominante elemento de diferenciação entre a América anglo-saxônica e a latina.

 

 

 

O sol castiga os olhos do viajante e quer tomar para si a paisagem toda cegando os olhos que não param de descobrir a paisagem na corrida do trem de alta velocidade. O sol não muda com a velocidade do trem. Só a paisagem pode mandar embora o sol. Não importa que o viajante abaixe a cortina de sua janela; a paisagem está sempre lá atrás da cortina e pronta a retirar o sol dos olhos do viajante. Entre sol e paisagem cresce a luta para deslumbrar os olhos que contemplam quase cegos por detrás da janela coberta a paisagem amarela de sol.

 

 

 

                  

A chuva bate forte no teto do trem como uma dansa variada que se exalta com a música das rodas nos trilhos e da chuva que esbate e rebate sem cessar.

                  

O trem banhado muda de voz, confundindo a sua com a da chuva. Depois de algum tempo, a voz que se escuta não se sabe se é aquela do trem ou a da chuva.

                  

Vista da janela banhada a paisagem modula novas mudanças: agora é uma paisagem aquática na qual o verde árvores nuvens céus rios todas as coisas se transformam em imagens serenas, como se brotassem novas a cada passagem do trem que corre na chuva. As cidades e suas casas aparecem na corrida como se estivessem á distância, ainda que o viajante possa entrever num momento fugaz da corrida a mulher que prepara a mesa por detrás de sua janela.

                  

O viajante vê coisas que não existem quando o trem corre sem chuvas. Também recorda coisas como o suave rumor da chuva no telhado da casa da infância, essa mesma em que agora ele se encontra ainda que pense de estar dentro do trem que corre na chuva batente.

 

(Continua) 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
História do Brasil Nação: 1808-2010 - por Sílvio Castro

 

 

 

Uma das questões com que se confronta frequentemente a historiografia brasileira é aquela de situar o momento em que o Brasil se fez uma nação. Naturalmente este é um problema que existe para todos os países jovens, isto é, para aqueles que resultaram diretamente de um fenômeno colonial predominante. Em modo especial para com aquelas nações do Novo Mundo de origens colombianas.

 

De recente, abordando tal questão, foi criada pela editora Objetiva, do Rio de Janeiro, em coordenação com a Fundación Mapfre, espanhola, uma coleção que recebeu o título de História do Brasil Nação: 1808-2010, dirigida por Lilia Moritz Schwarcz, programada para sair em cinco volumes. Este projeto faz parte daquele outro idealizado pela Fundação espanhola referente  à “América Latina na História contemporânea” e terá seus previstos cinco volumes publicados a partir de 2011. Justamente em agosto de 2011 foi editado o primeiro volume da Coleção, Crise colonial e independência: 1808-1830, sob a coordenação de Alberto da Costa e Silva, e dividido em  cinco partes: 1 – “População e sociedade”, do mesmo Alberto da Costa e Silva; 2 – “A vida política”, Lúcia Bastos Pereira das Neves; 3 – “O Brasil no mundo”, de Rubens Ricupero; 4 – “O processo econômico”, de Jorge Caldeira; 5 – “Cultura”, Lilia Moritz Schwarcz.

 

O primeiro volume da obra dirigida por Lilia Moritz Schwarcz não afronta de imediato a questão cronológica central, isto é, aquela relacionada com o momento crucial de nascimento do Brasil enquanto nação. Em verdade, como em toda obra histórica de acurada organização metodológica, a presente não afirma um determinado momento para o evento, mas aborda analiticamente o fértil período que vai desde a chegada de D. João, acompanhado da Corte portuguesa, no Brasil de 1808, até a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831; e, como é natural, passando pelo histórico evento do 7 de setembro de 1822. Desta forma, além daqueles rigidamente apegados às datas marcantes, como acontece com os defensores do dia oficial da Independência, o do “Grito do Ipiranga”, igualmente aqueles outros que já encontram em1808 adata real de tal resultado, ou os demais que consideram o dia da abdicação do primeiro Imperador brasileiro como a data de nascimento da nova Nação, todos podem continuar afirmando a própria tese. Aliás, a diretora da Coleção já estabelece na apresentação que publica no primeiro volume da obra o seu pensamento sobre a dutilidade mesma da história defronte a uma análise fortemente baseada em claro processo metodológico:

                        “A História de um país é, de certa maneira, sua carta de identidadeem processo. Setoda nação constrói sua memória de maneira a garantir diferenças e resgatar singularidades, também não deixa de anotar sua trajetória pátria vinculando-a a um concerto mais universal.”

            O primeiro volume da obra, programada em boa hora pela editora Objetiva, se revela imbuído da clara metodologia com que a mesma aborda o seu tema geral, isto é, o de nação. Para isso concorre a competência muito especial de seu coordenador, Alberto da Costa e Silva. Na introdução ao volume Crise colonial e independência. 1808-1830, introdução intitulada “As marcas do período“, o coordenador enuncia os princípios que guiaram o seu trabalho, princípios culminados naquele que diz, referindo-se aos 14 anos joaninos que precederam o 7 de setembro de 1822,  e aqueles outros 9 do reinado de D. Pedro I, um largo tempo de eventos importantes para o Brasil, mas que não tocou e não soube considerar uma anomalia crucial para a identidade da nova nação:

 

“ (…  …) Esse processo modernizador encontrou resistências e foi mais do que tímido em muitas áreas. Mesmo nas cidades maiores, velhos hábitos resistiram à pressão das novidades. O mais desapontador de tudo: não se tocou no sistema escravista. (… …) Muito mudara para alguns, e nada ou pouco para a maioria.“

 

A partir desses termos positivamente axiomáticos, Alberto da Costa e Silva realiza a Parte 1 do volume por ele coordenado. Capítulo que aborda um tema de ampla importância: “População e Sociedade“.

 

A questão relacionada com a população constituiu sempre um problema de grande importância para o desenvolvimento brasileiro, desde o dia da sua descoberta e revelação ao mundo. Desde logo a sua imensidade territorial criou um enigma de difícil solução: a necessidade indispensável de alargar a atenção do espaço fundador do litoral, para aquele outro do interior. A história da cultura brasileira é muito condicionada por este problema sempre presente na vida brasileira até o século XX e  mesmo depois da construção de Brasília. Somente agora, com o grande desenvolvimento tecnológico, o país enfrenta com serenidade a questão.

 

Alberto da Costa e Silva focaliza com maestria a dita questão no período inicial da formação do país como nação. Servindo-se dos poucos dados concretos preservados sobre a estatística populacional quanto ao número e característica da população do Brasil do primeiro terço do século XIX, o estudioso elabora um precioso sistema de raciocínios sobre a população, suas componentes e os resultados referentes à organização da sociedade nacional. O Brasil moderno parte de uma exígua presença populacional, mas assim mesmo consegue progredir sempre na procura da melhor equação quanto à sua densidade demográfica. Os primeiros elementos estatísticos já existem em 1805 graças a um quase empírico recenseamento realizado pela igreja católica. A organização eclesiática em paróquias permitiam um tal recenseamento:

 

 “Em1805 aigreja católica contou no Brasil 3,1 milhões de habitantes. Havia quem estimasse mais: cerca de 3,9 milhões. Doze anos mais tarde, calculava-se a população em 3.817.000 indivíduos, dos quais 259.000 seriam ameríndios aculturados, 1.043.000 brancos, 526.000 mulatos e negros libertos ou nascidos livres e 1.930.000 negros escravos“.

 

Tais números começam a alterar-se mais significativamente com o início da imigração européia, permitida pelo decreto-régio de 25 de novembro de 1808 e desenvolvida por todo o século XIX e parte do XX. A abertura dos portos em 1808 não era somente para as mercadorias.

           

Os dados demográficos começavam a alterar-se então na realidade brasileira, principalmente se retomamos as hipótese estatísticas mais difusas quanto à questão da população da nova colônia nos seus primeiros anos: para algumas centenas de portugueses, quase absolutamente predominante por sua parte masculina, deveriam existir no território - que se alargava sempre - mais ou menos 5.000.000 de indígenas, quase o dobro da então estimada população de todo o Portugal, 2.900.000 indíviduos.

           

A partir dos primeiros dados estatísticos, Alberto da Costa e Silva realiza então aquela sua análise mais preciosa: a composição social da população brasileira nos seus primeiros 30 anos como nação, com a presença dominante do elemento negro.

           

Grande especialista da África, possivelmente o mais importante estudioso brasileiro  do setor - como também o afirmou Wilson Martins, estudando os ensaios de Alberto da Costa e Silva sobre o continente africano e suas relações com o Brasil – o historiador elabora nesse seu atual trabalho uma convincente análise referida à importância do elemento negro na formação da população nacional, tudo isso a partir de uma elevada consciência do fenômeno histórico da escravidão dos negros. O que lhe permite reafirmar a linha marcante da antropologia nacional que encontra no fenômeno da mestiçagem a característica predominante do brasileiro. Esta mesma linha lhe permite elaborar os conceitos que mostram como frágeis eram as estruturas sociais da sociedade nacional nos seus primeiros trinta anos.

           

Na Parte 2 do volume, a historiadora Lúcia Bastos Pereira das Neves, professora do Departamento de História da UERJ-Universidade do Estado do Rio de Janeiro, estuda com acume “A vida política“ do período. Na sua análise podemos melhor compreender as modificações causadas pelo grande evento de 1808 nas estruturas político-administrativas do anltigo Vice-Reino, bem como aquelas que se fazem na fase do Reino-Unido de1816 a1822, para culminar naquelas ocorridas no Reino independente, de1822 a1831. Fica claro como o início da realidade nacional se mostra condicionada pela herança colonial e como essa se manifesta na incipiente vida nacional, mesmo quando surge os primeiros atos concretos de um liberalismo revolucionário.

           

Se esta é a visão da vida interna da nova realidade nacional, o estudo de Rubens Ricupero, historiador e diplomata de carreira como Alberto da Costa e Silva, estudo que forma a Parte 3 do volume, se volta para a situação do “Brasil no mundo“. Rubens Ricupero analisa com maestria a situação internacional do novo Brasil. O autor, depois de apoiar-se na importância que a revolução estadunidense de 1776 teve sobre os novos tempos brasileiros, os relaciona em forma privilegiada com a nova composição política da América latina. A solidariedade continental – mesmo diante das claras diferenças entre o fenômeno brasileiro e as demais nações latino-americanas - faz-se um dos fatores de afirmação da nova realidade nacional.

 

A Parte 4 do volume, aquela entregue à análise de Jorge Caldeira, sociólogo e politólogo, referente a “O processo econômico“, integra-se em maneira eficaz com as possíveis conclusões daquelas anteriores. Segundo o autor, a economia da nova nação se implanta em coincidência com a implantação mundial do capitalismo como modo de produção, sobre o qual pode ser construido o Estado nacional. Para aquele brasileiro, o modelo direto é vem principalmente da revolução econômica americana, tendente à afirmação do mercado interno. No Brasil, o fator que dificulta a melhor implantação deste modelo é sempre o regime da escravidão negra, com o correspondente negativo processo de trabalho. As primeiras manifestações do liberalismo, principalmente traduzidas na figura de José Bonifácio procuram superar tais limites, sempre disturbadas pelo absolutismo de D. Pedro I.

 

O volume se conclui com a sua Parte 5, dedicada à “Cultura”, numa clara e ampla exposição histórico-crítica da estudiosa paulista, antropólaga da Universidade de São Paulo-USP, Lilia Moritz Schwarcz. A sua análise parte da premissa que mostra o Brasil diferente da Europa, e portanto sem continuidade com a cultura portuguesa. Tal premissa permite à autora a elaboração do conceito de grande importância para a melhor compreensão da cultura brasileira como elemento tradutor de uma “nova civilização”. Para chegar a tal conclusão, Lilia Moritz Schwarcz estuda e analisa nos seus pormenores os eventos culturais marcantes presentes no período de 1808 a1831. Alarga tal estudo com esclarecedoras páginas sobre a evolução do gosto brasileiro, principalmente devida à contribuição artística francesa e a introdução dos princípios do neo-classicismo na produção criadora do brasileiro; bem como, exalta o aparecimento de um novo pensamento literário, passível de ser definida como pré-romantismo, para o qual fica coerentemente afirmado como precursor Ferdinand Denis. A cultura deste período de inauguração de uma nova realidade nacional se baseia principalmente na superação de todos os limites que Portugal por três séculos havia imposto à sua vasta colônia americana. Assim para a liberdade de estudos superiores, de imprensa, de criação e produção de livros. Cumpre recordar que, justamente em uma tal renovadora atmosfera político-cultural, sai no Rio de Janeiro em 1817, pela recém-criada Imprensa Imperial, a 1ª. ed. da Carta de de Pero de Caminha, realizada pelo  Pe. Aires do Casal na sua Corografia brasílica.           .

 

O estudo de Lília Moritz Schwarcz fecha o 1º. Vol. de uma obra de estudos históricos de alto nível que certamente nos mostrará uma iluminante visão do Brasil enquanto nação.

 

 



publicado por Carlos Loures às 21:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

VIAGEM COM PASQUALINI- 12– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

Ao contrário dos espanhóis, os portugueses não se confrontaram nos primeiros momentos da Conquista com populações que apresentavam uma organização sócio-cultural complexa, semelhante àquela dos aztecas, dos incas, dos maias etc. Também na área portuguesa se tratava de populações igualmente numerosas, mas as correspondentes estruturas culturais menos complexas permitiram, de certa forma, ao Conquistador um relacionamento aparentemente menos conflitual. Na verdade, não se pode comparar o sistema da primeira fase de intensa destruição militar dos indígenas por parte dos europeus no México e no Perú, com o que acontece quase contemporaneamente no Brasil. Uma violenta conflitualidade entre portugueses e indígenas se verifica somente em um segundo tempo, aquele específico da colonização definitivamente organizada. A conflitualidade é diretamente ligada à evolução do status econômico do colono português no Brasil. Quanto mais se desenvolve a atividade dos colonos, tanto mais se verifica o choque entre os interesses deles e a liberdade dos índios. Já antes da metade do Quinhentos este quadro se afirma. A invasão do sertão por parte dos colonos em procura de mão-de-obra escrava conduzirá os conflitos entre portugueses e as tribos indígenas ao máximo de intensidade. Exemplo de tal situação é a guerra entre os Aimorés e os colonos, em 1560, guerra que assola a costa, da Bahia ao Rio de Janeiro. Ao lado dessa violência mais distintamente física, deve-se colocar o processo de violência cultural derivada da evangelização, quase nunca respeitosa dos valores culturais indígenas e muitas vezes geradora do sistema de violência que caracteriza o sistema colonial em geral.

 

                  

O extermínio das tribos indígenas por doenças e epidemias contraídas pelo contacto com os europeus é, no espaço da Conquista portuguesa, como naquele da Conquista hispânica, tão vasto ao ponto de não permitir qualquer tipo de estatística quanto às proporções assumidas.

 

                  

O português se confronta com os indígenas do Brasil mais ou menos com as mesmas características dos castelhanos: a mesma avidez inicial pelo ouro, assim como para com todas as riquezas diretamente materiais; o mesmo radicalismo cultural de aplicação dos valores eurocêntricos. Porém, na sua longa história de navegações e descobertas, em geral Portugal não se preocupou de ser um agente ativo de evangelização. As viagens portuguesas, do séc. XIV ao XVI, revelam sobretudo o ânimo mercantilista que as guiava. Na história de Portugal a evangelização como elemento de colonização se apresenta somente a partir de 1549 com a catequese dos índios do Brasil por parte dos jesuítas. Esta mesma obra de Conquista espiritual dos indígenas brasileiro é um dos fatores fundamentais da diferenciação do Brasil em relação às outras Américas.

 

                  

A catequese jesuítica no Brasil, que implica uma declaração de vontade seja da parte da Igreja, seja também da Coroa portuguesa, se revela imediatamente como um projeto da Companhia de Jesus. Não é por outra razão, certamente, que o primeiro Provincial em terras brasileiras, o Pe. Manuel da Nóbrega, apenas chegado na América em 1549, comunica com grande entusiasmo em uma carta ao seu Superior em Portugal, falando da terra e da gente: «Esta é a nossa empresa». A partir de então, o Brasil e os índios são o grande projeto dos jesuítas empenhados na conquista espiritual, de Nóbrega, a Anchieta, a Vieira. Trata-se de um projeto tão vasto e de faces tão diversas que se ativa não somente em choques com os colonos e atos de diretas oposições a determinados interesses da Coroa portuguesa. [Neste sentido, de grande importância é o texto de Vieira, «Defeza dos Índios»], mas até na assunção e prática de formas de radicalismo integralista no plano religioso, integralismo gerador de formas de violência próprias do período colonial, transformadas em seguida numa herança de continuada presença nas estruturas sócio-políticas do Brasil.

 

                  

O homem brasileiro do séc. XX dificilmente pode fazer suas as razões que orientaram Octavio Paz na definição da atual consciência histórico-cultural do homem mexicano moderno. Os brasileiros não têm, habitualmente, uma visão determinada do mundo pré-cabralino, ou senão, quando a têm, esta se mostra neles como pura representação da natureza, na qual o verdadeiro personagem é quase unicamente a paisagem. Os Índios - se se apresentam figurados nessa visão - quase nunca <superam a dimensão de comparsa em meio a tantas outras comparsas.

 

                  

O brasileiro contemporâneo não convive habitualmente com nenhuma figura do índio. Somente quando sua atenção vem chamada em modo insistente pelo mass-media, ele incorpora ao seu imaginário essa figura. Normalmente, não se preocupa de uma possível relação entre a sua consciência de ser nacional e o passado colonial. Somente em alto nível cultural ele se mede com as raízes, seiscentistas ou setecentistas (o Quinhentos, geralmente, se apresenta como uma zona de sombras na alma brasileira) da sua personalidade histórica. Pode-se dizer, em síntese, que o homem brasileiro vive um tal intenso sentimento do presente a ponto de considerar o passado tão só a partir dos valores dos dias presentes.

 

                  

Por isso o Brasil é por si mesmo uma América. Com aquela (ou aquelas) hispânicas tem em comum certos elementos culturais e determinados valores religiosos originais herdados de um mesmo Catolicismo.

 

                  

Mas, também neste caso o sincretismo cultural da natureza americana do brasileiro se mostra muito diferente do sincretismo da América hispânica. A catolicidade brasileira moderna é o resultado de um sincretismo de várias componentes - inclusa fortemente aquela africana - que se aproxima mais diretamente à natureza e ao homem - ao sacro - que ao ritual. Trata-se de um difusa espiritualidade que valoriza, em certo sentido, uma maior aproximação com o universo americano de origem inglesa, reformista e capitalista. [Devo desde logo acentuar que uma tal conclusão surpreende o próprio autor, mas é tomada qual demonstração de como a evolução dos valores culturais no processo histórico possa conduzir a linhas paralelas determinadas estruturas nacionais partidas de pontos quase antitéticos.]

 

                  

Se a Conquista portuguesa e castelhana é de natureza católica e ligada à evangelização - em certo modo uma retomada do espírito das cruzadas, sendo igualmente invasão de terras habitadas e cultivadas por povos organizados -, a Conquista inglesa protestante da parte mais setentrional do continente é mais especificamente uma invasão. Jennings, já citado, diz: «O continente americano mais que virgem permaneceu viúvo de seu povo. Não é verdade que os Europeus encontraram um deserto; pelo contrário, é verdade que, talvez involuntariamente, criaram um deserto. Jamestown, Plymouth, Salem, Boston, Providence, New Amsterdam, Filadelfia: todas estas cidades foram fundadas em localidades precedentemente ocupadas pelos Indianos. A mesma coisa vale para Quebec, Montreal, Detroit e Chicago. A dita colonização da América foi em verdade uma recolinazação; a segunda ocupação de uma terra desnudada pelas epidemias e pela desmoralização seguida à chegada dos novos colonos».

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI - 10 – por Sílvio Castro

 

 

O trem corre e faz com que as palavras do Senador ecoem em mim deslisando pelos trilhos noturnos na corrida insone. Agora compreendo porque minha atenção nesse viajar de expectativas e ânsias parou, numa serenidade momentânea, sobre este livrinho de capa vermelha, mas de um vermelho não incendiário, quase repousante, que contemplo e tenho seguro nas mãos e que vou lendo como se me encontrasse não somente dentro do trem veloz, mas também em um espaço sempre novo que ele revela. Leio e sinto o trem nos trilhos que sibilam, sibilam, silabam

 

 

 

 

 

 

 

SílVIO CASTRO

 

A GEOMETRIA ASSIMÉTRICA

 

- Brasil Europa Américas -

 

(ensaio de política e história cultural)

 

 

Edições do ANUÁRIO DA LITERATURA BRASILEIRA

 

                                                                                                       Rio de Janeiro

 

A descoberta da América - e consequente Conquista - é antes de tudo uma ação de natureza

 mercantilista, e por essa mesma razão colonos ingleses da segunda metade do séc. XVI podiam declarar com sereno espírito de clareza: «As metas desta viagem são as seguintes - primeira: trazer-lhes a religião cristã; segunda: comerciar; terceira: conquistar territórios. Se possível, todas as três». Mas, não é só isso; é também um complexo movimento de relações humanas que, mesmo estando ligadas por parte dos Conquistadores à idéia de lucro, se alarga na direção de incontrastável sincretismo nos planos cultura e espiritual.

 

Quando o Conquistador se estabiliza no espaço físico do Novo Mundo e se apossa da sua riqueza - fator que o levou a superar os limites do desconhecido - o princípio da superioridade religioso-cultural do eurocentrismo se reforça e tende mais do que nunca a assumir uma forma de radicalidade. O homem européu, que está por esquecer definitivamente o espaço geográfico originário em favor daquele novo, sente a necessidade de proteger a própria identidade diante de mudanças, apoiando-se à tradição que o conduziu à Conquista. O colonialismo nas Américas é a expressão sócio-política deste sistema de afirmação.

 

Porém, quanto mais o eurocentrismo colonialista assume a forma de um sistema fechado, mais se manifesta o processo de modificação das componentes culturais do Conquistador. Nessas condições, mais que sinal indiscutível de poder, a radicalidade é revelação da presença de um segundo sistema - aquele dos conquistados - nas estruturas do sistema de dominação. O colonizador se vê modificado pelo colonizado e, na trama sutil das relações coloniais, se acentua a vitalidade de uma ação subterrânea, mas clara, do sincretismo que confunde forças e fraquezas. Trata-se de uma ação, distinta somente na forma externa, que penetra nas estruturas culturais do Conquistador na mesma proporção com que esse havia penetrado na cultura e espiritualidade dos nativos conquistados.

 

Assim começa a viagem de volta de uma Conquista que não poderia jamais completar-se, porque feita como em um espelho: o Conquistador se bate para conquistar o Outro que, ao mesmo tempo, quer semelhante ao próprio Eu. Este é um paradoxo tão profundo na cultura do homem européu da Conquista que chega ao ponto de ajuntar seja os que se exprimem conforme o eurocentrismo mais radical - e por isto mesmo contrário à cultura dos indígenas americanos -, como igualmente aqueles que, abertos a estes últimos, se demonstram disponíveis a um universalismo cultural. Neste sentido não são tão distintos Oviedo, com a sua Historia general Y natural de las Indias, 1535, e J. de Acosta, Historia natural y moral de las Indias, de 1590, de Las Casas con la Brevísima relación de la destrucçión de las Indias, de 1552; ou senão, Gandavo, História da Província de Santa Cruz, 1576, e Thevet, Singularitez de la France Antartique, de 1558, ou Jean de Lèry, Histoire d'un voyage faixt en la terre du Brésil, 1578.

 

A história da Conquista da América vê empenhados muitos países da Europa. Entretanto, Espanha, Portugal e Inglaterra partecipam com um tal espírito de posse que as transforma em protagonistas do evento. [Isto, naturalmente, sem esquecer a ação de outros paises na Conquista americana, em particular aquelas francesa e holandesa. A França, além da significativa presença na parte meridional do continente, no território da Guiana e na América central, exerceu notável ação colonial no norte, particularmente no Canadá e em diversas regiões dos atuais Estados Unidos da América. Além disso, não devem ser esquecidas as empresas francesas no Brasil, entre as quais o utópico projeto da França Antártica na zona do Rio de Janeiro.] Destes protagonistas derivam as tantas Américas.

                  

Em linhas gerais, quando elaboramos conceitos sobre a pluralidade americana, podemos distinguir a componente latina, ibérica e católica da Espanha e Portugal, diversamente daquela inglesa e reformista; porém, é também necessário especificar os distintos espaços das Conquistas espanhola e portuguesa.

                  

A ação espanhola de Conquista é sem dúvidas mais intensa e ampla; mas se se toma em consideração a história das navegações e descobertas que levaram ao encontro com a América, a presença mais relevante nestes eventos históricos é a de Portugal. De fato, a exploração do Atlântico é principalmente uma operação portuguesa.

                  

Todo o séc. XV é uma história do empenho lusitano pela ampliação da área da Reconquista contra os Mouros bem além dos limites da península ibérica.

                  

Já em 1415 D. João I levava as lutas até Ceuta. A partir deste evento, Portugal, consciente da sua política de expansão e conquistas, incentiva também as pesquisas de meios mais correspondentes a uma navegação «não a vista». A nave ideal para as viagens mais longas das novas missões lusitanas, a caravela, é criada ao redor de 1420.

                  

Com as caravelas Portugal enfrenta o grande mar e disto logo derivam as descobertas do arquipélago das Canárias, de Madeira e dos Açores. Intensifica-se a política de expansão de D. Henrique, o Navegador. O cabo Bojador é superado em 1434. Os marinheiros portugueses de D. Henrique, em 1443, já se encontram na costa do Senegal. Deste ponto começa o período mais intenso do esplendor de Portugal com o ouro do Sudan e o uso de mão-de-obra escrava proveniente das terras africanas. No dia 21 de dezembro de 1471 supera-se a imaginária, mas difícil linha do equador.

                  

A política de D. Henrique encontra seu desenvolvimento ainda maior com D. João II, a partir de 1481: durante o reinado do Príncipe Perfeito, Portugal se faz definitivamente uma grande potência marítima.

                  

Em 1488 Bartolomeu Dias supera o fatídico Cabo das Tormentas, desde então dito de Boa Esperança. O caminho que Vasco da Gama deve percorrer é já então aberto: a viagem do herói lusíada se completa partindo de Lisboa no mês de julho de 1497, com a dupla volta pela África e o retorno ao Tejo no final de agosto de 1499.

                  

A navegação de Vasco da Gama estabelecia a rota que colegava a Europa com a Índia e com todas as regiões produtoras de especiarias. E abria igualmente a Portugal a via de várias descobertas, diversas daquelas da rota para o Oriente.

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 9 – por Sílvio Castro

(Continuação)

 

O noturno que parte de Belo Horizonte para Vitória gira e volta em curvas pelas colinas, e a cidade grande aparece sempre mais ao longe com milhares de luzes que tremem e brilham intermináveis neste mar luminoso que a cada volta das colinas diminui, diminui até confundir luzes e estrelas.

 

Esta etapa da viagem me leva para novos conhecimentos, já os pressintos, todos voltados para o encontro que procuro. Me levanto do meu pequeno dormitório vagante e procuro o vagão-restaurante. Quando me sento, um garçom essencial me mostra o cardápio. As propostas são variadas, todas ligadas à cozinha mineira, a mesma de meu avô paterno. Eu estou bastante acostumado a estes sabores que já sinto com a visão direta dos pratos: galinha ao molho pardo, feijão tropeiro, tutú costoleta de porco arroz e couve, carne seca com abóbora, carne de porco assada, torresmos e aipim, couve, quiabo, giló. Vejo e sinto o fascínio de todos os pratos, mas sinto igualmente que me estou entregando a delícias para o paladar que, entretanto, exigem um estômago vigoroso. Essas elaborações gustativas, de franca alegria, me distraem da minha tensão. Me sinto quase sereno neste vagão-restaurante tomado por gente que fala a voz baixa e come lentamente. A sobremesa de doce de laranja em calda modifica sem detruir de todo os sabores de torresmos e aipim frito que me mostraram uma outra maneira de viajar.

 

Retirados os pratos vazios e liberada a mesa, o garçom me oferece um cálice azul de licor de jenipapo. No licor sinto o sabor agro-doce da fruta agreste e, a cada trago sempre curto e prolongado, me sinto conduzir para campos abertos cheios de jenipapeiros, jenipapins, jenipapeiros-do-campo que se alastram em centenas milhares, sempre a muitos metros uns dos outros. Assim a minha corrida passa docemente entre todas essas árvores que estão no espaço, mas não o fecham.

 

De repente o meu trem sai do bosque encantado, já em Ouro Preto. Então, tudo muda. É muito estranho chegarem Ouro Pretode noite. As luzes dos lampiões quase coloniais luzem de longe, como muitos pirilampos, chego a pensar, e as casas as igrejas se emolduram nas sombras esclarecidas pelas luzes que vêm das estrelas mais do que dos lampiões. Entre montes e colinas, mais que ver, pressinto o azul das casas e das igrejas, marcados pelo branco que, mais que branco, se mostra como matizações do azul.

 

Na pequena estação a locomotiva parou no silêncio de suas estruturas modernas. Mas, pouco a pouco, no silêncio elétrico sinto como que rumores de uma velha locomotiva a vapor que sopra nuvens aquosas das narinas, narinas que me parecem mais de um cavalo imenso pronto a disparar na corrida por colinas montes e planuras.

 

 

Meu sentimento de Ouro Preto é arcáico e com ele sinto de entrar em territórios infinitos de espaços homens fatos coisas iluminadas de certezas.

 

Assim vou imaginando, sem sair de meus pensamentos; e nem mesmo percebo que tudo já mudou. Não mais estouem Ouro Preto, mas viajo por Minas - Mariana São João del Rei Barbacena Ponte Nova - como se nunca dali tivesse partido.

 

 

Os bois na paisagem,

os bois na paisagem são manchas coloridas que percorrem com doce lentidão espaços verdes e sobem e descem sem ruminar o verdor sereno das colinas que aparecem e desaparecem na paisagem como memória de tempos passados, mas imutáveis nos olhos que fixam os bois na paisagem.

 

Os cavalos na paisagem,

os cavalos na paisagem são certezas do espaço que se mostra estático seguro, para logo abrir-se em novos espaços, para sempre estáticos nas linhas certas da paisagem que de repente corre dispara desaparece por detrás de um morro e renasce na curva, abrindo-a na corrida nervosa da planície aberta.

 

Os pássaros na paisagem,

os pássaros na paisagem são a corrida do trem que esvolaça volteia volteia esvolaça em trinados, pautas que se misturam com a luz, o movimento, as sombras que surgem sem cessar para os olhos do viajante.

 

 

 

 

Pasqualini me disse

 

devemos pensar ao Brasil - na perspectiva do novo milênio que de certa forma já estamos vivendo - sempre em termos de solidariedade internacional; porém, permanecendo fiéis com convicção ao modelo da nossa identidade político-cultural.

 

sabemos que essa identidade tem muitos resíduos anacronísticos e que grande parte da história nacional deve ser não somente denunciada, mas superada com veemência crítica. Ainda assim, é das suas estruturas que o Brasil levará sempre adiante a sua modernidade, e esta tem de saber encontrar continuadamente os valores revolucionários a partir somente de si mesma, na mais profunda auto-contemplação: não a outros tempos e não a outros modelos nacionais. A modernidade brasileira deve confrontar-se com todos os limites e saber criar novas expressões de cultura e de liberdade política, até mesmo em modalidades aparentemente nascida fora da racionalidade.

 

por muitas razões, no plano da solidariedade internacional, privilegiamos o modelo americano. E o fazemos tantas vezes de maneira não correspondente àquela que deve ser a modernidade brasileira. O modelo americano vive numa intensa atividade futurível; mais que isso: produz futuro já no presente mais imediato, com claros riscos de crises, tudo em dimensões que não permitem ao homem identificar-se com o tempo em que vive. O modelo americano faz com que também nós, brasileiros, vivamos essa frenética corrida fora do tempo, num consumismo desolador porque atemporal.

 

o mundo moderno se distingue daquele do passado porque sabe abrir-se ao futuro; mas é por isso mesmo que o presente é aquele valor real que conhece o passado e sabe prever o futuro. Não deve ser um futuro, tão somente. E muito menos, não deve ser uma forma de consumo do futuro. E se num determinado momento presente explode a crise, necessita enfrentá-la frontalmente, tomando-a até mesmo como possível fator de imprevista, mas possível, forma de chegar a novos tempos feitos de progresso e de maiores justiças sociais.

 

((Continua)

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI - 8 - por Sílvio Castro

(Continuação) 

 

 

Pasqualini me disse

 

a questão burocrática está muito ligada ao problema dos impostos e declaração de rendas.

meu caro amigo, não acaba nunca a nossa batalha pela justiça social. A distribuição da riqueza brasileira entre os brasileiros será sempre uma questão de lutas. A pobreza em que a maioria dos nossos vive não nos permite de calar a voz de protesto. Mais se adianta num processo de incentivo do capital no Brasil, invés de um equilíbrio maior, constata-se a presença de maiores margens de injustiças. Existe o perigo que em determinado futuro a maioria de nós nos encontremos na impotência de conquistar os mais simples bens de subsistência. Isto quando, já hoje, é absolutamente antidemocrático que exista uma minoria, porém vasta, que sofre de tais carências.

 

o direito à saúde, à habitação, à alimentação e a todos os outros meios básicos de existência não pode ser atormentado e negado pela violência da riqueza mal distribuída. Para isso, essencial é a afirmação reiterada do direito ao trabalho livre e à justa remuneração. E, como consequência direta disso, e como lei do Estado, o princípio de que o salário não é renda, e portanto não deve ser taxado de forma alguma. Enquanto isso não acontecer, não poderemos nem mesmo reclamar pela melhor justiça fiscal para as empresas.

faz-se indispensável caminhar na direção da destaxação mais ampla para as pessoas físicas. Com essa meta conquistada crescerá o mercado, integrado num justo conceito de consumo humanizado e, com ele, igualmente será renovada a atividade do capital produtivo.


 Enquanto retomo meus pensamentos como se tivesse caído num poço fundo e das sombras emergesse o medo, o trem corria na velocidade crescente. Na corrida recupero pouco a pouco as lembranças e essas me surgem como se nascessem de fora, da paisagem de Minas que passa imutável pelos meus olhos. No começo de tudo a paisagem é como silenciosa, encoberta pelo rememorar; depois, as imagens visíveis dos campos, das árvores, dos bois, cavalos, pássaros, muitos pássaros, superam as lembranças, e essas se movem como se se recolhessem num ângulo deixado livre pela visão da paisagem na corrida do trem.

 

O trem pára em Uberlândia e depoisem Uberaba. Jáagora o grande movimento de gente, passageiros novos que entram nos vagões e ocupam os lugares antes livres, me distrai dos pensamentos e me conduz para o contato direto com o mudo que se agita na viagem.

 

Finalmente eu também retomo a consciência da viagem. Estou viajando há muitas horas na procura de meu amigo, Antônio Pasqualini, ex-senador, que eu não sei aonde esteja, mas que sei viajante de um outro trem semelhante a este; num trem que neste momento percorre uma parte, que não é esta, do território brasileiro. Quero chegar até ele. Procuro conhecer todo o território que vou encontrando para, assim, melhor poder chegar até onde está o meu amigo. Quero chegar até ele, alcançá-lo, falar com ele. Mas, muitos quilômetros nos separam e mais ainda a triste certeza que tenho neste momento que esta viagem possa transformar-se numa busca impossível. Longas são as estradas do Brasil e muitas. Qual devo tomar? qual a verdadeira?

 

 

 

 

O trem chegou em Sete Lagoas. Voupara Belo Horizonte. Ali, tenho a certeza saberei muitas mais coisas sobre a viagem que meu amigo possa estar fazendo nesse momento.Em Belo Horizontedevo encontrar a linha que me conduzirá ao meu amigo. Quero confrontar-me com as muitas linhas de Belo horizonte; fixar intensamente os trilhos que saem de suas plataformas e partem em tantas direções. Quero tomar do botão-alavanca dos computadores da sala de controle do movimento e dirigir meu trem na direção da bitola estreita que se entreabriu ao meu gesto de liberação.

 

 O Senador passou quarta-feira por aqui. Depois tomou o noturno para Vitória. Eu o acompanhei até a sua cabine. Ele se aloujou, colocou a pequena mala que traz sempre consigo, ageitou as suas coisas diante do espelho do lavatório e me agradeceu, como sempre faz. Ele deve ter chegado em Vitória e dali viajado para o Estado do Rio, poi me falou que há muito não via Campos e as montanhas de Friburgo.

 

O chefe da estação Central de Belo Horizonte me falava do senador como de uma pessoa muito sua conhecida, quase um amigo. Queria me contar mais sobre ele, de como vivia nos trens, de como era sempre gentil e amável com todo o pessoal da Ferrovia. Mas eu não podia mais escutá-lo, porque queria partir para Vitória. Hoje é terça-feira. Ele esteve aqui que já passou quase uma semana. De repente tenho a sensação de que nunca mais o encontrarei, porque quanto mais me aproximo dele, mais ele se afasta de mim num trem mágico que não pára nunca e nunca pode ser alcançado.

 

(Continua)

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Domingo, 20 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 7 – por Sílvio Castro

 

 

 

 

(Continua)

 

O trem depois de muita corrida pára em uma estação. A locomotiva cessa tranquilamente o correr que a impulsiona toda e com ela os vagões serenam em composição de espaços vivos cheios de gente, quase como casas que recolhem em momentos de intimidade a família pronta a estar para o jantar que inebria de odores a sala conhecida de todos. O viajante olha para fora através do vidro da janela e são movimentos distantes, mas distintos, as vozes que ressoam silenciosas nos movimentos vistos pelo viajante por detrás do vidro que o mantém fora da paisagem.

 

Pasqualini e eu militamos num mesmo partido. Naturalmente ele sempre representou para o nosso partido uma presença essencial, ainda que a direção nacional nunca tenha usado a sua experiência e cultura para a melhor realização da nossa política partidária. Pasqualini esteve sempre na oposição no partido que ele praticamente criou com a sua doutrina. Mas, como consequência de sua estatura moral, ele era o sábio a quem todos recorriam nos momentos definitivos.

 

Quando atravessamos os processo constituinte, pude aproximar-me mais diretamente ao meu amigo, logo tomado como mestre. Pasqualini me fazia sempre compreender como devíamos estar atentos à ação das lobies que condicionavam os trabalhos da Assembléia Constituinte. A mim me chamava sempre a atenção para que não caísse nas tentações dos grandes grupos e da dialética anti-democrática que geravam. O mesmo me recomendava quanto a pressões derivadas da área do Executivo. Me chamava sempre a atenção para que não caísse nas tentações dos grandes centros de poder e da dialética anti-democrática que esses produziam. Tudo para que o sistema legislativo não visse diminuida a sua natureza de poder criador de regras as mais democráticas e estáveis, tendo em vista principalmente os direitos da gente.

 

 

Eu procurava estar atento e vigilante, mas sentia muitas vezes que partia de uma idéia e depois me encontrava integrado em direções contrárias às mesmas. Quando isso acontecia internamente no meu partido, eu vivia as dúvidas da falta de um comportamente transparente ao qual pudesse apoiar-me qual melhor posição quando via que o meu inicial princípio moral se via negado pela posição oficial do partido. Saber distinguir entre consciência moral e linha partidária era uma luta que me conduzia a crises das quais, em geral, eu não sabia como sair. Então eu procurava apóio no meu amigo; e suas palavras tinham o poder de esclarecer a estrada que eu devia percorrer.

 

Mas eu não soube nunca quais os limites da disciplina de partido a ser observada em relação à imposição que determinada posição moral exigia dentro de mim de ser cumprida. Muitas vezes eu sofri a decepção de ver até mesmo no meu partido a vitória de uma falsa solução, tomada somente em razão de pura estratégia partidária. Toda vez que assim acontecia, eu me via como aquele que traira e usara de violência contra a gente indefesa. Pior ainda era votar em tais condições. Era como não somente assistir à violência, mas atuá-la.

 

Pasqualini me disse

 

muitos sãos os fatores que constringem a vida brasileira ao «deficit» de democracia que nos acompanha quase como uma fatalidade. A burocracia pesada e tendencialmente aristocrática que assiste ao poder político é um deles e não o menor.

 

a tradição brasileira de concentração de poderes nas mãos de poucos tem na nossa organização burocrática uma de suas estruturas fundamentais.

 

é indispensável a concreta atuação de uma vontade política empenhada na reforma total da patológica atividade burocrática que nos acompanha desde sempre, reforma que deve partir da simplificação dos procedimentos burocráticos. Para começá-la, é necessário, antes de tudo, destruir a resistência que as estruturas ministeriais e os grandes órgãos para-estatais opõem a toda e qualquer idéia de revolução da gestão burocrática.

 

a crise burocrática é global, pois a burocracia central - mais forte que qualquer partido político - vem sempre imitada pelas administrações estaduais. Juntas, essas forças de reação antisocial provocam perdas constantes tanto para os cidadãos, quanto para as empresas, grandes e pequenas. A lado da coerção à liberdade de ação do cidadão, essa burocracia provoca grandes perdas econômicas pelo muito daquela espécie particular de «impostos subterrâneos» que a mesma causa à indústria e ao comércio pela atuação de quantidade infinita de normas administrativas. Este fator de constrição da tentacular administração burocratizada vem sempre acompanhado pela lentidão dos correspondentes procedimentos e do tempo em que os mesmos se realizam.

 

faz-se indispensável a criação de melhores instrumentos legais de simplificação da atuação burocrática, acompanhada de instrumentos punitivos da sua negativa aplicação. A simplificação deve interessar a todo o âmbito da vida civil, desde a simples atestação - que na maior parte dos casos deve passar a auto-atestação - às mais complexas licenças de atividades empresariais.

 

para que tal revolução possa começar, devemos ter a coragem política de modificar o quadro dirigente da nossa burocracia. Deve-se fazer um reforma de 360%, de forma tal a mudar uma dirigência depositária de forças reacionárias a favor de uma nova, depositária de distinta e moderna consciência burocrática. Naturalmente, o Estado deve tomar a si a responsabilidade de definir e preparar a modernização cultural dos novos dirigentes. Ao lado disso, devem ser criados novos instrumentos de trabalho, começando pela informatização de toda a administração pública, porém a partir diretamente da informática brasileira.

 

para que se realize um plano profundo de revolução do sistema burocrático que se mantenha numa lógica continuidade, deverá existir e atuar com ampla liberdade uma comissão especial ligada à Presidência da República. O simples fato da existência desse órgão já representaria uma importante conquista democrática, pois seria a demonstração transparente da vontade do Executivo de atenuar o próprio poder de centralização e coação política. Para a desejável modernização do sistema Presidencialista, essa seria uma grande conquista na luta pela diminuição do «deficit» democrático em que nos debatemos desde sempre.  

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 19 de Novembro de 2011
VIAGEM COM PASQUALINI- 6 – por Sílvio Castro

 

(Continuação)

 

Pasqualini me disse

 

A justiça para com a mulher pode e deve ser equacionada a partir do seu direito pessoal, inalienável, quanto ao próprio corpo. Ela deve sempre defender sua cidadania plena a partir do uso que deseja para o corpo. Depois da lei sobre o aborto voluntário e assistido, faz-se indispensável chegar à afirmação do direito da “fecundação assistida”. para os casais estéreis ou com determinadas dificuldades clínicas. Isso com a determinação da mulher de poder usar o semen de terceiros, que não o do marido ou companheiro impedidos. E como consequência de tais conquistas inadiáveis, a concessão de direito e recursos à pesquisa científica quanto à produção e uso clínicos das células estaminais.

 

Pasqualini me disse

 

um dos problemas maiores dentre as minhas preocupações, Sílvio, é aquele da escola: temos uma escola que, geralmente, não se mostra pronta para a resposta que dela espera a sociedade nacional. Ouso pensar que, em verdade, não houve depois da década de 30 reformas escolares que soubessem acompanhar a contínua evolução da vida brasileira e de sua componente civil. E - procurarando respostas para essa escola esperada - nem mesmo se soube ainda trabalhar na distinção e definição de um novo espaço rural, resultado de um processo de contínuo abaixamento populacional e de modificações culturais, em relação àquele urbano que, ao contrário, se vê modificado, em modo incessante, pelo aumento da migração da gente ligada à tradição da terra e a intensificação de novas estranhas coordenadas culturais, geralmente absorvidas em modo caótico.

 

O governo federal e aqueles estaduais são responsáveis pela falta de modificações democráticas na escola. Em geral, não souberam até agora confrontar-se devidamente com a complexidade do problema. A política federal, através do Ministério da Educação, age mais como poder burocrático que como agente norteador da política educacional.

 

As Secretarias do setor nos diversos Estados não se comportam de maneira diversa, sem nem mesmo empenhar-se numa pesquisa de eficiência no pequeno espaço de suas competências. A escola pública que sofre de precariedades não somente de natureza técnica, com o pessoal geralmente abandonado à própria iniciativa, é carente também no plano arquitetônico mais simples e nos serviços indispensáveis. Os alunos dessas escolas vivem um sistema de precariedade constante, o que lhes dá uma formação caracterizada principalmente pelas frustrações. Aquela particular - seja a laica ou a religiosa, além de não oferecer um quadro melhor em relação aos problemas da pública, ainda se caracteriza por sistemas pedagógicos exaltadores mais dos interesses próprios das instituições do que da educação enquanto tal, contribuindo dessa maneira ao aumento do estado de conflitualidade em que vive a sociedade civil brasileira. qualquer ação política que pretenda a privatização da escola pública deve antes de tudo possuir a plena consciência de tais problemas e não apenas ignorá-los a favor de um movimento simplesmente apriorístico. a liberdade da escolha da escola não deve corresponder somente às diferenças financeiras das famílias, mas responder às exigências de estabilização da comunidade que vive numa realidade guiada pela justiça social.  

 

Pasqualini me disse

 

todos os brasileiros têm o direito de conquistar um título universitário; mas, não todos os brasileiros devem chegar necessariamente a esse mesmo título para poder possivelmente gozar da realidade de uma sociedade justa. A nossa sociedade deve viver numa realidade democrática que permita a todos o direito ao trabalho, começando pelos jovens. Um tal direito é inalienável e não pode servir de matéria de especulação política. Por isso mesmo, não deve ser o resultado de um processo casual, mas a conquista de um sistema racional. Os direitos e interesses do homem devem ser defendidos a partir do direito ao trabalho, com a justa remuneração. Toda forma de desemprego crônico ou sub-emprego deve ser denunciada para que o brasileiro possa viver da riqueza própria de seu ambiente. O governo não pode endereçar, dessa maneira, esse homem ao mercado, transformando-o numa força não de vida, mas de auto-destruição. Nenhum governo vem eleito para levar o homem a um sistema de mercado, mas para ajudar a criar a riqueza capaz de beneficiar o cidadão.

 

Num quadro democrático de empenho pelo trabalho para todos, não podem e não devem existir formas de privilégios. O título universitário é um instrumento de enriquecimento da democratização entre os homens no setor do trabalho, pois contribuirá sempre para exaltar aquele que o possui, sem humilhar aquele outro desprovido, numa composição de estável convivênvia civil. Por isso mesmo, a conquista do título universitário deve ser justo; não poderá jamais ser concedido ilegalmente ou injustamente. Na composição melhor de um quadro como este, indispensável à vida democrática, a universidade deve corresponder sempre ao interesse da comunidade e jamais àquele de grupos econômicos ou do mercado enquanto tal. penso, caro amigo, que para a justiça de uma afirmação do valor do título de estudo este não possa prescindir da derivação direta e vigilância continuada da autoridade do Estado. Neste sentido, acredito que a dimensão universitária, na complexidade de vários endereços de estudos, de várias faculdades numa mesma organização, não compita senão ao público. A iniciativa privada deve permanecer com o direito de exprimir-se na criação e ativação de faculdades e escolas singulares, nas quais encontrar a máxima expressão das próprias virtualidades.

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARGONAUTAS

Adão Cruz

Afonso da Rocha Aguiar

Aleksandra Serbim

Álvaro José Ferreira

Amadeu Ferreira

Ana Afonso Guerreiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Mão de Ferro

António Marques

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Dorindo Carvalho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Pereira Marques

Francisca da Rocha Aguiar

François Morin

Hélder Costa

João Brito Sousa

João Machado

João Vasco de Castro

Joaquim Magalhães dos Santos

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Goulão

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Peres Lopes

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Margarida Antunes

Margarida Ruivaco

Maria Inês Aguiar

Mário Nuti

Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)

Moisés Cayetano Rosado

Octopus

Paulo Ferreira da Cunha

Paulo Rato

Paulo Serra

Pedro Godinho

Pedro de Pezarat Correia

Raúl Iturra

Roberto Vecchi

Rui de Oliveira

Rui Rosado Vieira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Vasco Lourenço

pesquisar neste blog
 
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

A Antropóloga. Quinta-fei...

CARTA DE VENEZA -“Vesp...

Os ricos também beneficia...

VIAGEM COM PASQUALINI- 21...

VIAGEM COM PASQUALINI- 20...

VIAGEM COM PASQUALINI- 19...

VIAGEM COM PASQUALINI- 18...

VIAGEM COM PASQUALINI- 17...

VIAGEM COM PASQUALINI- 17...

VIAGEM COM PASQUALINI- 17...

VIAGEM COM PASQUALINI- 16...

VIAGEM COM PASQUALINI- 14...

VIAGEM COM PASQUALINI- 13...

História do Brasil Nação:...

VIAGEM COM PASQUALINI- 12...

VIAGEM COM PASQUALINI - 1...

VIAGEM COM PASQUALINI- 9 ...

VIAGEM COM PASQUALINI - 8...

VIAGEM COM PASQUALINI- 7 ...

VIAGEM COM PASQUALINI- 6 ...

últ. comentários
Óptimo texto do Álvaro José Ferreira sobre o Berna...
Amigo Josep,O teu português é excelente e a anos-l...
Na ex-Jugoslávia, nenhuma etnia está isenta de cul...
Quanto mais não fosse, ficar-lhe-ia para sempre gr...
Carlos Leça da Veiga pede que coloquemos este seu ...
Caro amigo, peço-lhe desculpas pelo meu português ...
Amigos Josep e Carlos,A teologia sempre foi uma ár...
Este Estuário ficou lindíssimo. Posso afirmá-lo po...
Ser mãe é ser pedra, muro, ser a mão que nos agarr...
Obrigada pela dica no facebook, Augusta, belíssimo...
Muito obrigada por publicar a notícia. Lá imos hoj...
É ver por que cartilhas andam os nossos dirigentes...
Estou inteiramente de acordo com o teor deste comu...
Baseado na experiência inglesa, Jean-Jacques Rouss...
I és clar que és una nota d'humor. I així l'he lle...
Pentacórdio (agenda cultural)
14 a 20 de Maio - Parte I

14 a 20 de Maio - Parte II

14 a 20 de Maio - Parte III

arquivos

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

todas as tags

participar

participe neste blog

Posts mais comentados
subscrever feeds
Economia
links