LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 71 - por José Brandão
Pedimos a vossa atenção para a nova obra que irá preencher este espaço horário das 16 horas:
EM COMBATE - História dos Batalhões e Companhias da Guerra Colonial, de José Brandão
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E com estes dez livros chegamos ao fim deste levantamento de obras censuradas ou apreendidas pela polícia política - quem quiser constituir uma boa biblioteca com obras dos anos 50 a 70, encontra aqui um excelente guia - os livros de que o Estado Novo não gostava eram, com algumas excepções, aqueles que veiculavam ideias novas e recusavam o mundo bafiento que Salazar e os seus apaniguados consideravam ser o ideal.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 70 - por José Brandão
Mais um quadro que provoca embaraço na escolha. O livro de Pasolini, o "Vagão J", do período neo-realista de Vergílio Ferreira, a colectânea de Casimiro de Brito ou o Vietname - Segunda Resistência, do famoso jornalista australiano Wilfred Burchett. Escolhemos a poesia de Egito Gonçalves, o autor de Notícias do Bloqueio, um poema que vamos escutar, superiormente dito por Mário Viegas:
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 69 - por José Brandão
Estamos a chegar ao fim deste levantamento de obras que a Comissão de Censura e a polícia política retiraram de circulação. Até à chegada de Marcelo Caetano ao poder, funcionava o sistema de censura prévia; depois, no pacote de medidas cosméticas que Caetano introduziu, veio a extinção da censura prévia e o advento de um sistema perverso em que editores e directores de órgãos de comunicação social passaram a exercer essa função. Quando publicavam textos que fugiam às "regras do jogo" do Estado Novo, a polícia (que se passara a chamar DGS, pois a sigla PIDE estava desgastada), intervinha e recolhia os livros e, às vezes, recolhia também autores, editores e impressores. Destacando um livro desta série de obras, referimos hoje um trabalho do excelente e rigoroso Oliveira Marques - «Unidade da Oposição à Ditadura». A obra refere o período posterior a 1926, quando da instauração da Ditadura Militar; anterior, pois, ao referendo de 1933, o qual institucionalizou o Estado Corporativo e deu suporte jurídico á ditadura implantada manu militari.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 68 - por José Brandão
Livros interessantes, como quase sempre têm sido os quas setecentos que até agora aqui trouxemos. Destacamos os livros de autores italianos - dois de Vasco Pratolini, os de Ercole Patti e Ignazio Silone. Naqueles anos sessenta e setenta, mas principalmente na primeira destas décadas, a cultura italiana provocava nos sectores mais vastos do público português um interesse que hoje está longe de despertar. Os livros de Pratolini, Elio Vittorini, Italo Calvino, Alberto Moravia, os filmes de Dino Risi e os dos génios Visconti, Fellini, Rossellini, Antonioni..., as canções do Festival de Sanremo, eram referências pelas quais se acertava o passo. Nos serões culturais, toda esta bagagem era indispensável a quem quisesse ser levado a sério. O mesmo se passara nos anos cinquenta com os produtos culturais franceses. Depois, chegou o cilindro aculturador dos Estados Unidos e até passámos a comer cereais ao pequeno-almoço.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 67 - por José Brandão
A ordem alfabética que articula este levantamento de livros que a polícia política de Salazar e Caetano entendeu vedar ao conhecimento dos portugueses, traz-nos Trotsky, Estaline e Lenine, a figura tutelar de ambos. Traz-nos uma peça de Urbano Tavares Rodrigues e uma novela de Vicente Campinas, o autor da letra de «Cantar Alentejano», autoria geral e erradamente atribuída ao Zeca (que compôs a belíssima melodia). Com ela abrimos o nosso quadro - homenagem a Vicente Campinas, um escritor que nunca esteve sob os focos mediáticos e que, no entanto, nos deixou uma obra merecedora da nossa atenção. E ao grande e imortal José Afonso.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 66 - por José Brandão
Quadro dominado pelas obras de ficção - desde o grande escritor sueco Par Lagerkvist, a Jorge Amado, a Mikhail Cholokhov, aos português Antunes da Silva e ao angolano Castro Soromenho. Estamos na recta final deste levantamento de obras proibidas pela polícia política e pela Censura do Estado Novo. Embora houvesse circuitos alternativos de edição, distribuição e comercialização, eles apenas serviam uma minoria de leitores esclarecidos. Muito do défice que existe nos hábitos de leitura, foi criado por essa política de castração intelectual a que o povo português esteve submetido durante quase cinquenta anos.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 65 - por José Brandão
De uma maneira ou de outra, estes dez livros que hoje referimos enquadram-se no tipo de obras que a polícia apreendia. O mais desenquadrado é uma peça de teatro de Eugéne Ionesco - A Cantora Careca. Este texto só pode ser considerado subversivo porque quem determinou a sua apreensão não o compreendeu. A primeira representação em Portugal desta obra do chamado "teatro do absurdo", deve-se a Luís de Lima, um actor e encenador português que, vivendo no Brasil, veio a Lisboa com uma companhia brasileira (em 1960). Foi um êxito. Porém, o censor que proibiu o livro de circular, duas uma: ou era ignorante e não tendo percebido, pelo sim pelo não, proibiu; ou era muito arguto e percebeu que aquele tipo de texto era subversivo.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 64 - por José Brandão
A palavra socialismo no título era fatal para os livros - percebe-se porquê. Salazar e Caetano não sabiam que, afinal, o "socialismo" não é incompatível com a exploração dos trabalhadores. Reaparece aqui a recorrente guerrilha de Vilhena num título sugestivo - "Sorte Malvada ou a Rapsódia Portuguesa". O maais curioso desta lista é a proibição de Spartacus, o romance de Howard Fast que narra a odisseia do escravo que se rebela contra Roma - extraordinária era a sensibilidade do regime do Estado Novo, sentindo-se atacado quando se atacava a Inquisição, o NKVD ou o império romano...
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 63 - por José Brandão
Todos os livros têm títulos começados por "Sobre". É uma preposição muita utilizada, mas segundo José Pedro Machado, os puristas da língua não a apreciam, preferindo expressões como «Acerca de...». Sobre ou Acerca de, pensamos que vem a dar no mesmo - e não foi pela preposição que os agentes da polícia política recolheram todos estes livros. As preocupações deles não eram de natureza linguística... De salientar os estudos de Sérgio Ribeiro e o de Sottomaior Cardia. Os outros, quase todos, são clássicos da literatura da sociologia política.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 62 - por José Brandão
O luxo do costume - dez livros que os zelosos guardiães da paz social e da moralidade quiseram impedir que poluíssem as mentes dos súbditos do home que quis transformar o País numa imensa Santa Comba Dão - Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Henry Miller e outros malfeitores. Fazemos uma referência ao livro de um português de família goesa e nascido em Moçambique - as tais malhas que o império tecia... Orlando da Costa, um escritor dos que nunca desistiram de escrever. Militante do PCP, apoiou a candidatura de Norton de Matos e foi preso três vezes pela Pide (1950-1953). Da última vez, permaneceu no cárcere em Caxias por cinco meses e uma semana (acusado de um crime grave: militar em defesa da paz). Aí escreveu a sua tese de licenciatura.
Deixou-nos livros magníficos como A Estrada e a Voz, Os Olhos sem Fronteira e Sete Odes do Canto Comum. ,Podem chamar-me Eurídice, Os Netos de Norton, O Último Olhar de Manú Miranda... O Signo da Ira totalmente passado em Goa (Prémio Ricardo Malheiros, Academia das Ciências, 1961), vendeu dez mil exemplares, apesar de proibido de circular. Que o nosso esquecimento não faça aquilo que a PIDE não conseguiu - silenciá-lo.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 61 - por José Brandão
O sexo, a sexualidade, a preocuparem os guardiães da moralidade, um poemário de Orlando da Costa, e outros livros, todos eles recomendáveis. Destacamos hoje uma peça de teatro de Jean-Paul Sartre - O Sequestrados de Altona - sobre o rasto que as atrocidades cometidas durante a guerra deixaram na mente de um oficial das SS e sobre o percurso que o leva ao suicídio. O grande escritor existencialista mostra os seus dotes de dramaturgo numa obra cheia de significado no mundo de repressão e guerra suja em que vivíamos por aquela época - a PIDE sentia certas obras como uma acusação aos seus métodos - e nisso até tinha razão.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 60 - por José Brandão
Hoje vamos ter de falar de mais do que um livro, pois neste quadro se acumulam obras admiráveis. A Seara Vermelha é um romance de quando Jorge Amado não era ainda o grande escritor em que depois se tornou, mas tinha histórias importantes a contar. A outra Seara, a Seara de Vento, é a obra-prima de um grande escritor - Manuel da Fonseca tinha coisas importantes a contar e fazia-o de uma forma magnífica, numa prosa de elevada qualidade. E não podemos deixar de referir o livro de Romeu Correia, Sábado sem Sol. Romeu Correia, um escritor neo-realista de uma grande pujança formal - agora que já não há proibição dos seus livros, aconselhamos vivamente a sua leitura.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 59 - por José Brandão
O R é uma letra maldita para as ditaduras - Revolta, Revolução, Resistência... E perante esta série de dez títulos de livros apreendidos pela polícia política do Estado Novo, a dificuldade é a escolha - Roger Vailland, Alberto Moravia, Lenine - o que fazer? Optamos por destacar o livro da jornalista Maria Antónia Palla, Revolução, Meu Amor, onde reuniu reportagens que fez sobre o Maio de 1968 em França, a revolta estudantil que tantas repercussões iria ter pelo mundo fora. Portugal não foi excepção. Aliás, o Maio de 68 proporcionou-nos outros livros muito interessantes - estamos a recordar Uma Vida em Cinco Dias, a crónica romanceada que o actor Costa Ferreira escreveu.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 58 - por José Brandão
Resistência, República, Revolta... três palavras que faziam a PIDE arrebitar as orelhas. Aqui estão elas em grande parte destes dez títulos. Optamos, por comentar os dois grossos volumes de A República Espanhola e a Guerra Civil, do norte-americano Gabriel Jackson (1921). Viveu perto de três décadas em Barcelona e o livro que comentamos é um autêntico guia das principais ocorrências do conflito. Pode não se concordar com muitas das conclusões a que chega, mas a sua obra faz parte da bibliografia básica sobre a guerra que, entre 1936 e 1939, abriu chagas insanáveis no corpo artificial que é o do estado espanhol.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 57 - por José Brandão
Como sempre, livros interessantíssimos. A biblioteca da PIDE poderia ser um luxo: Mas imaginamos que grande parte dos livros seriam destruídos. Ouvia-se dizer que os que eram retirados por «ofender a moral instituída», po ser considerados pornográficos, por exemplo, esses eram disputados pelos agentes. Neste grupo de dez não teriam livros que lhes interessassem. Nestes dez, comentamos o livro do historiador António Borges Coelho - Raízes da Expansão Portuguesa - analisando os motivos que levaram o nosso D. Afonso V a conquistar territórios do Norte de África - que tipo de interesses estava em jogo, que classes sociais se empenharam nessa aventura. As razões para a apreensão são evidentes - a visão de Borges Coelho desmentia as teses oficiais. A expansão da fé não seria o principal móbil para os desembarques no litoral marroquino...
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 56 - por José Brandão
Muitas "questões" importantes colocadas por Álvaro Cunhal, Kautsky, Engels, Lenine, Estaline e Pacheco Pereira... Salgado Zenha abordando a posição dos católicos perante os direitos humanos e Pierre Paraf dissertando sobre o fenómeno do racismo, se é que de fenómeno se pode falar ao explicar uma característica inerente à condição humana - há desvios comportamentais que mais não são do que vestígios da condição animal do homem. Pierre Paraf (1893-1989), escritor e editor francês, notabilizou-se pela sua luta contra o racismo, particularmente contra o antisemitismo t-ao difundido em França. O Racismo no Mundo, cuja edição original francesa é de 1964, foi proibido pela polícia política portuguesa - se os salazaristas verberavam o racismo nesta nação que ia do Minho a Timor, por que terá o livro sido proibido?
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 55 - por José Brandão
Como quase sempre acontece, o «bom gosto» dos censores permite reunir, como é o caso deste quadro de hoje, dez livros todos eles de grande interesse - Quatro semanas em Outubro, de Alberto ferreira, o famosíssimo Que fazer?, de Lenine, O que é a Propriedade, de Proudhon, O que é a ReformaAgrária, do engenheiro agrícola Hugo Blasco Fernandes, do qual falámos há dias atrás. Mas escolhemos dois livros relacionados entre si - o de Aquilino Ribeiro e o de Adolfo Casais Monteiro. Em 1958 Aquilino Ribeiro publica o romance Quando Os Lobos Uivam. O livro é proibido e em Março de 1959 é-lhe instaurado um processo pela sua publicação Evita a prisão mediante pagamento de caução. Neste mesmo ano, no Brasil é publicado Quando Os Lobos Julgam, a Justiça Uiva (texto integral da acusação e defesa no processo movido pelas autoridades salazaristas contra o seu romance, com prefácio de Adolfo Casais Monteiro).Claro, que também este livro é apreendido.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 54 - por José Brandão
Há aqui matéria para muitos comentários, trabalhos de Miller Guerra, de Vasco da Gama Fernandes, Salgado Zenha, de Aquilino Ribeiro... Os Princípios do Leninismo, de Estaline. Mas chama-nos a atenção o livro de Pierre Broué, um historiador francês (1926-2005), um trotsquista, um feroz crítico do estalinismo. Sabemos o que foram os processos de Moscovo, que ocorreram entre 1936 e 1938, durante a Grande Purga, processos que resultaram na execução de todos os membros do Comité Central do Partido Bolchevique (à excepção de Estaline). Zinoniev e Kamenev que, com Estaline, tinham constituído a troika que governou a URSS de 1923 a 1925, foram igualmente executados. Os "processos" caracterizaram-se pela forma como os interrogatórios foram conduzidos, com base na tortura, na coerção e na chantagem. O aspecto curioso desta proibição é que sendo uma crítica feroz a Estaline, podia agradar aos censores - mas não. Ao criticar-se os métodos do NKVD, criticava-se os métodos da PIDE.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 53 - por José Brandão
Livros muito bons entre os dez deste quadro - outros, de circunstância - caso dos relatórios da Comissão Nacional dos Presos Políticos ou os de Fernando Queiroga e Mário Mesquita; livros preparados para ser proibidos. O nosso comentário de hoje será dedicado ao livro de Manuel Alegre, A Praça da Canção. É um dos mais expressivos e impressivos poemários do autor - foi uma fonte de inspiração para cantores de intervenção. A Trova do Vento que Passa, com música e interpretação de Adriano Correia de Oliveira, é o melhor exemplo do papel que um poema pode assumir em determinadas circunstâncias.
LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA- 52 - por José Brandão
Livros susceptíveis de ser apreendidos. Sem razão, mas com as "razões" do Estado Novo - a mesma sem razão com "razões" que justificava a prisão sem culpa formada, a tortura e o assassínio. As "razões" que serviam para justificar a guerra colonial. As tais malhas que o Império tecia, parafraseando Fernando Pessoa, e que durante quase cinquenta anos mantiveram um sistema de gente obstinadamente estúpida. Por isso, com todo o respeito que nos merecem todos os autores, vamos hoje focar o livro de Blasco Hugo Fernandes - Portugal Através de Alguns Números - Tendo nascido em Goa (1930), Blasco Hugo Fernandes, morreu em 2002 em Portugal. Quem andava nas lides políticas antes de 1974, cruzava-se frequentementge com ele, talvez tivesse de entrar em rota de colisão com o que defendia. Quem escreve este comentário, muitas vezes se irritou com atitudes suas. Porém, há que reconhecer a sua perseverança e entrega na luta antifascista. Aqui se deixa uma pequena homenagem a este lutador.