Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Capitulo III. Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização
11. 7º céu está baixo em em Bitterfeld-Wolfen
O céu está baixo, em Bitterfeld-Wolfen, nesta quinta-feira de Abril. Os milhares de painéis fotovoltaicos estão instalados num antigo local industrial a algumas centenas de metros da estação, e continuam desesperadamente baços.
No vale da indústria solar, "Valley of the Sun", o primeiro polo de competências alemão dedicado à indústria fotovoltaica, no coração da antiga Alemanha Oriental, muitos se interrogam sobre se o verão irá voltar algum um dia.
Q - cells, um dos pioneiros do sector neste sítio está, desde o início de Abril, em liquidação judicial. Na Alemanha e no mundo, toda a indústria solar está em crise.
Em Bitterfeld-Wolfen, a falência da Q-Cells é fortemente significativa. Nesta cidade de longa tradição industrial, devastada pela reunificação e pelo desemprego, a chegada da energia fotovoltaica, limpa e moderna, tinha representado uma verdadeira redenção.
Porque o nome "Bitterfeld" se pronunciava desde há muito na Alemanha com tristeza ou ironia: este campo "amargo" era considerado como o sítio mais poluído da Europa, depois de que, durante anos, aqui dezenas e dezenas de toneladas de resíduos químicos foram atirados para o meio ambiente pelo grande complexo industrial da química alemã.
CONCORRÊNCIA CHINESA
"Quando eu era criança, chovia aqui muita cinza, a neve era cinzenta, não se tinha o direito de a comer", conta o taxista durante os 20 quilómetros que separa a estação de comboio do vale da indústria solar.
150 Hectares de área estão fechados por uma grade de segurança, como para marcar a diferença entre a antiga e a nova indústria. No seu interior, os edifícios são ultramodernos, entradas em vidro, parques de estacionamento impecável.
A indústria solar criou, em dez anos, 4 000 postos de trabalho em Bitterfeld. Esta indústria encheu os laboratórios com cientistas, não só na região, no estado da Saxônia-Anhalt, mas também em Thuringia e Saxônia, em todos os Länder da Alemanha de Leste, que têm os seus "Solar Valley".
Depois de dez anos de euforia, a crise solar surpreendeu a indústria como um duche de água bem fria. Quatro empresas alemãs do sector apresentaram o pedido de declaração de falência nos últimos meses e a americana First Solar acaba de anunciar que vai em breve encerrar a sua fábrica de Frankfurt-Oder, na fronteira polaca.
Em Bitterfeld, a ansiedade é bem palpável. "No ano passado, tivemos uma queda nos preços na 50% a 60% no mercado interno, toda a gente está a vender com prejuízo, até mesmo os chineses," diz-nos com tristeza um industrial. "Todos aqui têm medo de perder o seu emprego, o seu posto de trabalho", diz um membro do sindicato IGBCE.
O solar está condenado, vítima da concorrência chinesa e das reduções de subsídios? "A indústria solar alemã vai evoluir, vai-se reestruturar mas não vai desaparecer," estima Jutta Günther, investigador do Instituto económico de Halle. "A Alemanha tem muitos laboratórios especializados, o seu avanço tecnológico está ai."
Reiner Beutel, Presidente executivo de Sovello, antiga filial da Q-Cells e que é agora uma empresa independentes, também localizada em Bitterfeld-Wolfen, aposta na inovação. A sua empresa desenvolveu um sistema de painéis solares que permitem poupar 50% de silício e 50% de electricidade.
Nas salas de produção da empresa, automatizadas, apenas alguns funcionários controlam os movimentos de robôs. “Aqui, até ao final do ano, nós iremos alcançar os chineses em termos de custos de produção, queremos aumentar a nossa capacidade de produção em cerca de metade até 2013", explica. Os seus efectivos são de (1 250 pessoas) e estas permanecerão estáveis.
INFATIGÁVEIS OPTIMISTAS
Por muito dura que seja a crise, Bitterfeld-Wolfen, que renovou o seu site industrial químico, já viu outras crises. A cidade tem seus incansáveis optimistas. Manfred Kressin é um deles. Este eleito local é o "pai" do Vale do Sol, o inventor do nome. Infatigável, este eleito conta-nos como é que foi capaz de convencer Q-Cells, em 1999, a estabelecer-se no seu círculo eleitoral, em vez de ser em Berlim. Explica-nos também como desenvolveu clubes de futebol para as crianças para assim manter os trabalhadores qualificados no seu município.
"O Vale do Sol irá sem dúvida irá sofrer, acredita ele." Mas aqueles que foram embora são trabalhadores qualificados, os 800 trabalhadores que tiveram que deixar Q-Cells encontraram todos eles emprego, no ano passado. "Eles estão na Porsche, na BMW, em Leipzig ou na Bayer em Bitterfeld."
Cécile Boutelet
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Capitulo III. Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização
10. O sector foltovoltaico: a oferta é o dobro da procura
Entrevista a Paolo Frankl," da Agência Internacional da Energia
É de novo os ventos do desespero que se abatem de novo sobre a indústria solar europeia: o fabricante alemão de células fotovoltaicas Q-Cells, líder no seu sector de na Alemanha, anunciou que apresentaria na terça-feira, 3 de Abril o seu pedido de declaração de falência. Esta falência é parte de uma série negra no mercado de energia fotovoltaica na Alemanha, mas também na Europa em geral. Na semana passada, foi o francês Evasol que estava à beira da falência na sequência de desgraças da emblemática jóia da coroa do sector a empresa antiga Photowatt.
Este marasmo no entanto não corresponde à imagem da indústria, tanto o crescimento se mostra forte na China. Um último acto a prová-lo: a empresa chinesa Fire Energy, distribuidor de equipamentos fotovoltaicos, deve adquirir até ao final do mês uma base militar abandonada de Châteaudun (Eure-et-Loir) para aí desenvolver um parque industrial, incluindo uma unidade de montagem de painéis fotovoltaicos e uma fábrica para a fabricação de LED, de acordo com Les Echos. Paolo Frankl, chefe da divisão de energias renováveis na Agência Internacional de Energia, analisa a evolução recente do mercado solar.
Por que razão Europeia o solar europeu atravessa uma situação tão má?
R de Paolo Frankl: Esta derrocada europeia - com a situação de falência ou de dificuldade da empresa alemã Q-Cells, Solarhybrid, Solar Millennium, Sólon e dos franceses Evasol e Photowatt é explicada por duas razões que são: a forte concorrência de fabricantes chineses a preços muito mais baixos e a redução dos subsídios nos principais mercados-chave europeus.
A situação mudou totalmente em 2007 quando os chineses fizeram a aposta de investir fortemente nessa tecnologia. Ao produzirem em grandes quantidades, estes dramaticamente fizeram aumentar um mercado até então limitado, na medida em que a oferta é agora duas vezes superior à procura: a capacidade de produção atingiu 50 gigawatts (GW) em 2011 para uma capacidade de instalação estimada em 27 GW.. Consequência: este excesso de produção, a baixo custo pelo lado chinês, provocou uma queda dos preços, até 75% em três anos nalguns países. Actualmente, o módulo fotovoltaico [painel solar] vende-se à volta de 1 dólar por watt gerado e o sistema fotovoltaico [módulos, suporte, bateria, cabos, etc.] 2 dólares por watt, contra quase o dobro de há três anos atrás.
No entanto, enquanto que os preços dos equipamentos desciam drasticamente, os preços de venda de electricidade não diminuíram na mesma proporção. Houve um desfasamento, portanto: alguns produtores fizeram lucros demasiado onerosos para os consumidores. Com isto criou-se então uma bolha, com um risco de colapso do mercado, especialmente em 2012 e 2013. Eis porque é que alguns países, como a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha ou a República Checa, reduziram as tarifas garantidas de compra aos produtores de electricidade de origem fotovoltaica. Por exemplo, a Alemanha compra, desde o 1 de Abril a electricidade das grandes instalações a 16.5 cêntimos por quilowatt-hora e a 19,5 cêntimos a das pequenas instalações contra respectivamente 18 e 24 cêntimos no ano passado.
Como conseguiu a China levar os preços dos painéis fotovoltaicos a uma tão grande descida?
A China investiu maciçamente no sector fotovoltaico, à custa de dezenas de milhares de milhões de euros. Isso permitiu-lhe criar enormes economias de escala e, por conseguinte, reduzir os custos de fabricação. O custo do trabalho, muito baixo também, permitiu-lhe baixar o preço. Finalmente, as empresas chinesas desfrutam de um contexto muito favorável, os bancos do Estado permitem-lhes contrair empréstimos a taxas de juro interessantes, enquanto as autoridades locais vendem-lhes as suas terras a preços muito baixos. Alguns fabricantes europeus e americanos asseguram também que o mercado chinês beneficiou de subvenções estatais irregulares. Isso não está provado.
No final, a China tornou-se o primeiro produtor do mundo de painéis ao fabricar mais de metade dos módulos comercializados no planeta. E nos dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco deles são chineses. A estratégia de Pequim foi, portanto, em grande medida benéfica para as empresas chinesas mas também para os americanos, em menor medida, também. Só os europeus viram a sua pressão aumentar.
À escala planetária o sector de energia fotovoltaica vai, portanto, bastante bem?
Em todos os sectores industriais, houve sempre uma fase de consolidação da indústria, o que significa que ela se torna mais madura. Esta é a situação actualmente da fileira fotovoltaica. Assim, se algumas empresas encontram dificuldades, não acontece oi mesmo para todo o sector. O mercado de facto aumentou exponencialmente nos últimos anos: a capacidade de instalar assim foi estimada em 17 GW em 2010 e 7 GW em 2009, contra 27 GW em 2011.
Além disso, se alguns governos reduziram as suas tarifas de compra de electricidade, nenhum deles diminuiu os seus objectivos em termos de quota das energias renováveis na produção de electricidade. A União Europeia deseja manter o seu objectivo de alcançar os 20% de energia renovável até 2020.
Como pode a Europa relançar o seu mercado?
O desafio para a indústria europeia é primeiramente encontrar novos mercados na América do Sul, no norte da África, no Oriente Médio, na Índia ou mesmo nos Estados Unidos e Japão, que têm principalmente uma ponta, um pico, de consumo de electricidade no decorrer do Verão devido os utilização de sistemas de ar condicionado. O recurso solar está agora por toda a parte no mundo: hoje, cinco mercados são maiores do que 1 GW e quinze mercados são superiores a 100 MW no planeta; em 2015, haverá pelo menos quarenta mercados superiores a 100 MW. Os produtores europeus terão de se renovar e produzir num ambiente menos confortável, com menos subsídios dos respectivos governos.
O mercado europeu, em seguida, pode diferenciar-se através ao seu valor acrescentado, em termos de aplicação dos sistemas fotovoltaicos e de integração nos edifícios. Finalmente, hoje, Europa e os Estados Unidos mantêm uma vantagem sobre a produção de silício multi-cristalino de que são compostos as células.
Como poderia ser a evolução do sector fotovoltaico nos próximos anos?
É difícil estabelecer previsões na medida em que o mercado está a evoluir muito rapidamente, em função simultaneamente de decisões políticas e de progresso tecnológico. Mas é certo que em três anos, a situação será muito diferente da que vivemos actualmente. A China não deverá aumentar a sua oferta, já muito forte, mas a sua procura, com o desenvolvimento do mercado interno, tem um enorme potencial.
Passando de 1,5 GW este ano para 10 ou 15 GW até 2015, ela reforçará a sua posição dominante de modo considerável no mercado de energia solar – na condição de que a capacidade instalada seja compatível com a capacidade eléctrica do país. Ao mesmo tempo, isso poderia permitir deixar de estar a pressionar os Estados Unidos e a Europa, especialmente nos outros mercados.
Entrevista a Paolo Frankl, Photovoltaïque: "L'offre est aujourd'hui deux fois supérieure à la demande", conduzida por Audrey Garric, Le Monde, | 03.04.2012
Paolo Frankl, responsável da Divisão Energias Renováveis na Agência Internacional da Energia
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Capitulo III. Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização
8. A fileira solar europeia na tormenta
Jean-Pierre Stroobants (Bruxelas)
A empresa alemã Q-Cells, outrora a n ° 1 mundial em células fotovoltaicas, apresentou o seu pedido de declaração de falência na terça-feira, 3 de Abril e é agora todo o sector europeu da energia solar que se interroga sobre o seu próprio futuro, exactamente agora que espera vir a desempenhar um papel-chave. Os planos dos 27 para as questões climáticas em que se prevê uma redução progressiva das emissões de gases com efeito de estufa e a renovação das fontes de energia, dependem de facto e em grande parte do sucesso da indústria do fotovoltaico, considerado também contribuir para o crescimento e o emprego. A União Europeia tenciona produzir 20% de sua energia a partir de fontes renováveis até 2020.
A indústria do fotovoltaico europeu também está a sofrer com as medidas de redução dos subsídios governamentais e com as reduções de vantagens decididas um pouco por todo o espaço europeu, devido às políticas de austeridade seguidas. Um efeito directo da crise, mas também uma consequência do sucesso um pouco descontrolado dos dispositivos de apoio muito generosos. Vários países, incluindo a Alemanha, reduziram significativamente o preço de compra garantido aos produtores de electricidade de origem fotovoltaica.
Antes de Q-Cells, outras empresas alemãs que operam num mercado estimado em cerca de 25 mil milhões de euros ficam viradas do avesso, vítimas da concorrência desenfreada da China e de Taiwan que levou os preços a descerem fortemente . "Alguns dirigentes de empresas apontam a dedo os seus concorrentes chineses, que beneficiaram de empréstimos dos bancos semi-públicos e de ajudas directas do Estado." "Até agora não recebemos qualquer queixa, mas se os industriais formalizarem uma queixa nós poderemos iniciar uma investigação ", indicou, na terça-feira, 3 de Abril, um porta-voz da Comissão em Bruxelas.
Fragilidade
A França decidiu, de Dezembro de 2010, uma moratória sobre as ajudas públicas à energia solar. O Ministro da Ecologia, Nathalie Kosciusko-Morizet sublinhou , na época, que 90% dos painéis instalados no país vinham da China. Desde o início de 2012, ela estimava que os objectivos de potência instalada foram alcançados, mas não os da criação de empregos ou de reestruturação de um verdadeiro sector industrial. "Modificámos as ajudas públicas para as encaminhar para concursos muito tecnológicos em apoio das diversas fileiras industriais francesas," afirmou o ministro. É necessário que os apoios financeiros sirvam para criar postos de trabalho em França e não na China ". Por último, a aquisição da empresa pioneira da energia fotovoltaica na França pela EDF em Fevereiro de 2012, a Photowatt de Bourgoin-Jallieu (Isère), colocada em liquidação judicial, terá especialmente demonstrado a grande fragilidade do sector.
Na Grã-Bretanha, o governo anunciou, no final de 2011, a baixa de subvenções e a redução da tarifa de aquisição da electricidade de origem solar pela rede de distribuição nacional. O grupo de engenharia Carrion (4500 empregos) evocava imediatamente um projecto de reestruturação. O conjunto da fileira britânica, composta principalmente por pequenas e médias empresas, emprega cerca de 30000 pessoas.
Na República Checa, um generoso sistema de subvenções também foi abandonado, como na Itália ou na Bélgica. Neste último país, a empresa Bekaert, líder mundial em fios de aço (usados em especial nos painéis fotovoltaicos) está- se a preparar para fechar as unidades de produção na Bélgica e na China: ela já não consegue competir com as empresas chinesas no sector.
A necessidade de uma coordenação europeia
A Espanha já se via líder mundial em energia solar. No entanto, em Janeiro de 2011, um decreto reduziu de cerca de 30% os subsídios para a indústria fotovoltaica e limitou o número de horas dando direito a um subsídio. O objectivo era economizar 2.2 mil milhões de euros em três anos. O novo governo conservador já anunciou a supressão dos subsídios para novas instalações.
A Grécia também ela apostou na energia solar a partir de 2011, com a esperança de rentabilizar no máximo a sua taxa de exposição à luz do sol, superior em 50% à dos países do Norte da Europa. Um gigantesco projecto exigindo um investimento de 20 mil milhões visa alcançar, a prazo, os 10000 megawatts (MW) de potência instalada. Para atingir o seu objectivo - vender electricidade solar para a Alemanha-, o país terá no entanto necessidade de um apoio europeu e dos investidores assim como uma melhoria das redes de transporte previstas pela Comissão Europeia.
Esta última recusa centrar-se nas dificuldades actuais, que julga transitórias. "Estamos convencidos que o sector fotovoltaico permanece como promissor e não é afectado no seu conjunto", diz Karolina Kottova, porta-voz da Comissão. De resto, disse um especialista, são os Estados-Membros que decidem a sua própria política e devem assumir os seus erros. A este respeito, o caso alemão é descrito como "exemplar": o sistema de subsídio para a instalação dos painéis tem sido financiado por uma sobretaxa na factura dos consumidores e beneficiou sobretudo os painéis chineses. Daí, sem dúvida, a imperativa necessidade de uma efectiva coordenação europeia.
Jean-Pierre Stroobants (Bruxelles, Bureau européen), La filière solaire européenne dans la tourmente, LE MONDE, 04.04.2012
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5. Daqui vejo Portugal, daqui vejo o destino de S. João da Madeira
J. M. Weston conseguiu que a China fechasse uma fábrica em Cantão que copiava os seus sapatos
É a vitória de um Pequeno Polegar na luta contra a falsificação global. A empresa J.M. Weston, conhecida pelos seus sapatos de alto luxo fabricados desde 1891 em Limoges, conseguiu o encerramento de uma fábrica na China, que produzia as suas cópias. Localizada em Cantão, produzia 300 pares de Weston falsos por semana. Em Dezembro de 2010, as autoridades chinesas tinham apreendido 3.700 pares de sapatos, representando um valor de cerca de 1,85 milhões de euros (!).
Estes sapatos estavam muito bem imitados porque os falsificadores tinham até um molde para gravar a marca de J.M. Weston no interior do sapato, como nos modelos verdadeiros, e exactamente da mesma maneira. Daí a poder colocar em dificuldade as vendas da empresa francesa, cuja produção anual é estimada em cerca de 100.000 pares de sapatos, vendidos em cerca de 15 países.
Mercados sob vigilância
"É muito raro conseguir obter o encerramento de um site na China, porque encontrar os locais de fabrico é muitas vezes impossível. Isso exige investimentos em tempo e em dinheiro", comentou Jean-Luc Espla, encarregado da luta contra a falsificação no seio de EPI, a holding da família Descours, proprietária de Weston. O grupo tem criado mecanismos de transmissão e de informação em países específicos, encarregados de monitorar os mercados. A empresa tinha recorrido, no ano passado, a informadores locais para localizar a fábrica incriminada . Uma vez as provas acumuladas e alertados em Novembro para o facto, EPI informou imediatamente as autoridades chinesas, que conduziram o inquérito e conseguiu obter o encerramento da fábrica.
Durante vários meses, os funcionários aduaneiros bloqueavam nas fronteiras, na França e na Alemanha, pacotes suspeitos, destinados especialmente para o mercado europeu. "Podemos ter parado uma fonte, é possível que outros continuem a existir" disse Jean-Luc Espla.
O testemunho de Jean-Luc Espla, quanto à falsificação dos sapatos Weston no Jornal "Le Populaire" de Limoges é eloquente sobre esta matéria: "É a criação que é pilhada, é o trabalho dos empregados também, é a promoção que fazemos sobre os nossos sapatos, é as patentes que registamos em França, na Europa e a nível internacional, são todos os procedimentos que são envolvidas… " Isto representa um custo fenomenal.”
Em primeiro lugar, 350 pessoas podiam ver os seus empregos ameaçados e a mais antiga fábrica de curtumes da França seria igualmente afectada por esta crise. Na verdade, sinal de seu forte envolvimento no tecido industrial local, a empresa tem a sua própria fábrica de curtumes em Limousin, a casa Bastin, a mais antiga fábrica francesa de peles para calçado.
Além disso, o saber-fazer artesanal do calçado em pele da França tem grande dificuldade em resistir a um fenómeno difícil de controlar. De acordo com a União Europeia, a contrafacção afectaria cerca de 10 mil empregos por ano.
A União dos Fabricantes (Unifab) recebeu esta informação como uma vitória. Este caso demonstra a vontade da China para cooperar na luta contra a falsificação e para por fim a este comércio ilegal. disse o seu Presidente Christian Peugeot. Este encerramento será seguido, depois, por um procedimento penal.
Para a União de Fabricantes, a UNIFAB, «este acontecimento marca a tomada de consciência dos institucionais chineses em matéria de propriedade intelectual».
A China, que se tornou em 2011 a primeira potência industrial do mundo afirma que está pronta para respeitar as regras do jogo. Ela coloca-se, e fá-lo saber, a fazer esforços a fim de provar que está a lutar contra a falsificação.
Os dois responsáveis da fábrica chinesa que fabricava os falsos sapatos Weston foram condenados a três anos de prisão efectiva. Foram igualmente multados em 30.000 e 22.000 euros.
A condenação é altamente simbólica. Porque não se trata de um tribunal francês ou europeu mas de um Tribunal em Cantão que tomou esta decisão, fora do comum na China, sobretudo pouco interessados e muito condescendentes em matéria de contrafacção. "Esta decisão é importante e exemplar," disse Delphine Sarfati-Sobreira, directora de comunicação da União dos Fabricantes (UNIFAB), que luta contra as contrafacções e de que faz parte a marca de Limoges JM Weston.
"É raro apreender um número tão importante de produtos falsificados e especialmente em ter conseguido uma tão rápida condenação, continuou ela". A China é o primeiro país produtor de mercadorias produzidas em situação de contrafacção no mundo. Mais de 70% das apreensões nas alfândegas de França vêm da China. Hoje, há uma cooperação real das autoridades chinesas e uma verdadeira evolução das mentalidades. Agora, os chineses têm as suas próprias marcas e começam agora a ficar sensíveis aos princípios da propriedade intelectual e industrial. Desde há pouco tempo, querem também proteger as suas marcas e começam a compreender a importância destes princípios " afirmou ela.
Uma pergunta aqui vos deixo: que esconde a vontade da China em travar o comércio ilegal?
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.
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4. A concorrência nas energias renováveis, quando a China se apropria do Sol
PAR WILLY BODER BERNE
Os mercados americanos e europeus de painéis solares estão em crise. A China é acusada de ser a responsável. Os mercados americanos e europeu dos painéis solares estão em crise. A culpa é dos chineses? Os Estados Unidos estão a considerar a hipótese de aplicar medidas proteccionistas. A ideia de um certificado ecológico está lançada.
"Existe um enorme desequilíbrio entre a oferta e a procura de painéis fotovoltaicos". Os preços arrasados, reduzidos de metade no ano passado, favoreceram a indústria chinesa mais poderosa na produção em massa.» Matthias Fawer, autor de um estudo recente do banco Sarasin sobre a indústria solar, analisa a situação com frieza e considera inevitável a consolidação do sector.
“O desequilíbrio devido ao excesso de produção, num contexto de redução das subvenções na compra da energia de origem solar por causa das dificuldades orçamentais de vários países europeus, levou a um círculo vicioso para muitas empresas na Europa e nos Estados Unidos. "Apenas 30 a 50% das linhas de produção estão a ser usadas" diz-nos Matthias Fawer. Neste ambiente económico bem depressivo, apenas as empresas menos endividadas, ou as melhores subsidiadas pelo Estado, como a China é acusada de o estar a fazer, são susceptíveis de sobreviver.
Quem diz consolidação diz desaparecimento de dezenas de empresas dos EUA e da Europa assim como de milhares de postos de trabalho. A falência da Solyndra nos Estados Unidos e as graves dificuldades de tesouraria dos alemães Q-Cells representam apenas a ponta do iceberg. A Suíça, atingida pelo falhanço de Flexcell e pela brutal paragem da construção, no cantão de Berna, da maior fábrica de módulos fotovoltaicos do país, não é também ela poupada por essa inversão completa do mercado. A culpa? Muitas pessoas são aquelas que acusam China, que entretanto se tornou o país líder neste sector.
Inexistente nesta área há cinco anos, este país, que exporta 95% da sua produção de painéis solares, é agora omnipresente. Mais da metade das células fotovoltaicas instaladas na Europa são de origem chinesa. E se a primeira empresa neste campo, First Solar, é americana, ela está apertada por três empresas chinesas que por si só representam duas vezes e meia o seu volume de produção. De entre os dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco são chineses e dois estão instalados em Taiwan.”
Arvind Shah, especialista no ramo fotovoltaico, professor honorário do Instituto de Microtecnologia de Neuchâtel-EPFL, considera que há uma forte distorção da concorrência. "As autoridades chinesas estarão maciçamente a subsidiar o preço da electricidade. Construir painéis solares com um preço da corrente equivalente a apenas alguns cêntimos do euro é uma forma de concorrência desleal com os fabricantes europeus e americanos. Para não mencionar a maciça ajuda directa chinesa aos fabricantes." Este discurso verifica-se também a nível das autoridades americanas. Também está a começar a aparecer nalgumas regiões alemãs, irritadas de verem subsidiar indirectamente a instalação de painéis solares chineses enquanto as empresas locais, activas neste sector, vão à falência. Na semana passada, a administração americana do comércio internacional tem relatado que tem "fortes razões para crer que as empresas chinesas que exportam os módulos para nos Estados Unidos recebam subvenções maciças e verosimilmente ilegais da parte do governo chinês ".Esta conclusão poderia conduzir a uma guerra comercial entre os dois países e à aplicação a de direitos aduaneiro especiais pelos Estados Unidos. O patrão da Suntech, a empresa chinesa que emprega 22.000 pessoas e será sem dúvida o número um ainda este ano, nega uma política de auxílios estatais maciços. "Os créditos efectivamente recebidos do Estado são dez vezes menos do que os 7,3 milhões de que se fala ." "E as taxas de juro concedidas às vezes são superiores às taxas ocidentais", disse numa entrevista publicada no Le Figaro.
Nicolas Musy, chefe do Centro Suíço em Xangai, não nega os auxílios estatais às áreas consideradas como prioritárias, mas admite que o sucesso chinês no solar é explicado por outros factores. «A totalidade dos custos de produção é menor e há também uma massa crítica importante que faz baixar o custo por unidade produzida.» Arvind Shah agarra o problema de outra maneira. Ele lançou nos meios científicos o projecto de etiqueta ecológica para minimizar o impacto da fabricação de painéis solares altamente consumidores de massa cinzenta. Para conseguir essa etiqueta, comparável a uma norma de qualidade ISO, os fabricantes chineses tiveram por exemplo que renunciar à utilização de electricidade produzida em centrais a carvão e geralmente alinhar com as normas da produção "verde", respeitadas na Europa e nos Estados Unidos. A aquisição de corrente “verde” subvencionada pelos países europeus poderia então estar ligada à obtenção desta qualificação, desta etiqueta. "O meu medo, se nada for feito, é o medo de ver degradar-se a reputação da energia solar, nem sempre verde pelo modo de produção dos painéis," explica Arvind Shah.
"Esta etiqueta é uma ideia interessante", observa Matthias Fawer. Esta também não desagrada a Nicolas Musy, persuadido de "que a China poderia adaptar-se como o fez para a norma CE da União Europeia.
Jornal Le Temps, 2012
Capitulo III. Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização
3. A Alemanha, os Estados Unidos e a China na economia global
3.3 Na China, todas as compras ou quase todas da família Li são fabricadas localmente, mesmo o Audi em que sonha madame Li.
Harold Thibault, Le Monde, 26.03.2012
O senhor Li, que trabalha durante a semana num escritório em Shanghai, gosta de vestir roupa tipo casual no fim-de-semana. Mas na condição de vestir chinês! No entanto, ele veste um casaco do japonês Uniqlo, cujas muitas e enormes lojas se multiplicam nas principais cidades do leste da China. Mas, se os designers da marca estão em Tóquio, a etiqueta diz que se trata do tradicional têxtil "made in China", que constitui 30,7% das exportações mundiais do têxtil.
Por outro lado, o senhor Li é surpreendido com os seus ténis Adidas, comprados a 680 yuans (81,4 euros): são fabricadas no Vietname! O aumento dos salários na China leva, de facto, cada vez mais os industriais a olharem para o Sudeste asiático onde a mão-de-obra é ainda bem mais barata.
No que se refere à alimentação, não há nenhuma razão para inquietações, tudo é feito localmente. De qualquer forma, a família Li prefere comprar água da marca Fontes de Nongfu, a 3 Yuan a garrafa, em vez da garrafa de Evian importada dos Alpes a 21,9 Yuans. No que se refere à cerveja, eles preferem, obviamente, a cerveja Tsingtao, produzida em Qingdao, cidade costeira onde os alemães introduziram a produção em território chinês, em 1903.
O iPhone montado na China
Elemento base da culinária local, o arroz é da marca Shantou Golden Resources e vem das plantações chinesas. Mas o país deve agora importar parte do arroz que consome uma vez que a demografia é galopante. O óleo de sésamo é de uma marca sediada em Hong Kong, Lee Kum Kee, cuja principal fábrica está instalada em Guangdong.
No apartamento do casal Li, a mesa é em madeira. Se as plantações locais cobrem 65% a 70% do consumo, as necessidades são tais que países como o Canadá ou a Rússia exportam agora madeiras para a China. Quando eles vão ao Ikea, o nosso casal tinha atenção ao que dizem as etiquetas. Se há um grande número de móveis que são "made in China", outros também vêm do Vietname.
Quanto à compra de material de cozinha, o casal Li comprou recentemente um nova máquina de lavar roupa Haier, uma marca bem conhecida e reputada na China com sede em Qingdao e a produção localizada no sudeste industrial. Mas essa tecnologia tem um custo: 6 699 Yuans (802 euros), por aparelho o que é muito caro para a China.
Ligados permanentemente, o casal Li tem cada um deles um smartphone. Para ela: um iPhone da Apple, desenhado na Califórnia, mas montado na China, nas fábricas Foxconn, em Shenzhen. O seu marido teria preferido a marca chinêsa Huawei, cujo enorme centro de pesquisa está também instalado também em Shenzhen.
Quanto à compra de carro, a senhora Li, que trabalha longe do Centro, comprou este ano um Chery modelo QQ, um dos mais baratos do mercado, 30 900 Yuans sem opções, sem extras, qualquer coisa como 3 698 euros. Ele é montado em Wuhu, a oeste de Shanghai. Ela teria preferido, se ela tivesse os meios para pagar, comprar um Audi, que só tem de alemão o seu logotipo e a sua concepção: a marca foi forçada pela regulamentação chinesa a criar uma joint venture com um parceiro local, o grupo estatal FAW. Os Audi da China são, portanto, montados em Changchun, no nordeste do país.
O senhor Li usa o metro, mesmo se a linha 1 está equipada com as composições feitas pelo canadiano Bombardier e a linha 2 com as viaturas projectados pelo alemão Siemens e pelo francês Alstom. O seu gabinete no Shanghai World Financial Center, também é um pouco estranho: a Torre de 492 metros foi desenhada pelo gabinete japonês Mori e construída com vigas de ferro cujo minério foi importado da Austrália. Felizmente, o café que o Sr. Li toma todos os dias no Starbucks, que é uma marca americana, provém de Yunnan, no sudoeste da China. Ufa!
Harold Thibault
Por Júlio Marques Mota
(Conclusão)
2 . Industrialização da China ou a desindustrialização da União Europeia
A indústria das energia renováveis
Deparei-me com um artigo curioso que haveremos mais tarde de reproduzir e que tem como título Quando a China se apropria do Sol (Lorsque la Chine accapare le soleil) de Willy Boder Berne onde se pode ler:
“O desequilíbrio devido ao excesso de produção, num contexto de redução das subvenções na compra da energia de origem solar por causa das dificuldades orçamentais de vários países europeus, levou a um círculo vicioso para muitas empresas na Europa e nos Estados Unidos. "Apenas 30 a 50% das linhas de produção estão a ser usadas" nota Matthias Fawer. Neste ambiente económico bem depressivo, apenas as empresas menos endividadas, ou as melhores subsidiadas pelo Estado, como a China é acusada de o estar a fazer, são susceptíveis de sobreviver.
Quem diz consolidação diz desaparecimento de dezenas de empresas dos EUA e da Europa assim como de milhares de postos de trabalho. A falência da Solyndra nos Estados Unidos e as graves dificuldades de tesouraria dos alemães Q-Cells representam apenas a ponta do iceberg. A Suíça, atingida pelo falhanço de Flexcell e pela brutal paragem da construção, no Cantão de Berna, da maior fábrica de módulos fotovoltaicos do país, não é também ela poupada por essa inversão completa do mercado. A culpa? Muitas pessoas são aquelas que acusam China, que entretanto se tornou o país líder neste sector.
Inexistente nesta área há cinco anos, este país, que exporta 95% da sua produção de painéis solares, é agora omnipresente. Mais da metade das células fotovoltaicas instaladas na Europa são de origem chinesa. E se a primeira empresa neste campo, First Solar, é americana, ela está apertada por três empresas chinesas que por si só representam duas vezes e meia o seu volume de produção. De entre os dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco são chinês e dois estão instalados em Taiwan.”
Analisadas duas posições do referido postal deixemos aqui um pequeno artigo sobre a questão dos paraísos fiscais.
3. Os paraísos fiscais, a Europas, a Alemanha, a Suiça
Um jornal alemão ataca Sommaruga
O diário alemão BILD informa ter apresentado queixa contra a conselheira federal Simonetta Sommaruga como resposta ao mandato de prisão emitidos pela Suiça contra três agentes do fisco alemão.
Numa carta que o jornal reproduz, o diário "Bild" acusa o Ministro da Justiça de "tentativa de sequestro, de denúncia caluniosa e de cumplicidade".
Os mandatos de captura têm, de acordo com o "Bild", como único objectivo o querer impedir qualquer inquérito adicional do fisco alemão contra os alemães em fraude e clientes dos bancos suiços onde depositavam dinheiro não declarado...
A justiça suiça emitiu três mandatos de prisão contra os inspectores do fisco alemão, suspeitos de espionagem económica. Estes inspectores teriam desempenhado um papel activo na compra de um CD que continha dados roubados no início de 2010. O CD tinha informações sobre as contas dos clientes alemãs em situação de fraude e com contas no Credit Suisse .
Críticas da oposição social-democrata
O Governo alemão tinha reagido fracamente a essas informações, ao mesmo tempo que as justificava pelas diferenças do sistema jurídico entre os dois países. Isto valeu ao governo alemão as críticas da oposição social-democrata, que criticou o governo por não defender os três funcionários visados.
[NT. Wolfgang Schauble terá afirmado, a 31 de Março: “A Suiça tem o seu direito penal e não respeitar o sigilo bancário é passível de uma sanção”
Ainda no "Bild", o Vice-Presidente do SPD no Bundestag (câmara baixa do Parlamento), Florian Pronold, sugere que o embaixador da Suíça seja chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para se lhe ser exigido explicações.
Dupla tributação
A evasão fiscal é um tema que tem envenenado as relações germano-suíças desde há anos, causando violentos artigos na imprensa popular de ambos os países.
Um acordo de dupla tributação foi celebrado pelos dois governos, mas a sua ratificação enfrenta a oposição dos sociais-democratas do SPD e dos Verdes, com maioria na câmara alta do Parlamento, que consideram este acordo muito conciliador com os alemães clientes dos bancos suiços e em fraude.
Entretanto, Simonetta Sommaruga não se quer preocupar com o assunto neste momento. O "Bild" terá apenas apresentado uma queixa junto do Ministério Público de Berlim. Este último está agora encarregado de verificar a veracidade ou não das acusações formuladas por BILD . "Nós lemos o artigo de "Bild" e aguardamos o desenrolar dos acontecimentos ," disse, esta quarta-feira, Guido Balmer do Departamento Federal de Justiça e da Polícia.”
Retomaremos este assunto amanhã.
Júlio Marques Mota
CHARLES DUHIGG e DAVID BARBOZA, NEW YORK TIMES
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(Conclusão)
Ganhar a lotaria da Apple
Todos os anos, quando os rumores sobre a apresentação de novos produtos da Apple começam a circular, as publicações e os sites da Web começam a especular sobre quais os fornecedores que têm mais possibilidades de ganhar a lotaria de Apple. Obter um contrato da Apple pode fazer aumentar o valor da empresa à escala de milhões por causa da menção implícita de qualidade de fabricação. Mas poucas empresas se podem abertamente vangloriar sobre o trabalho: a Apple geralmente exige que os fornecedores assinem contratos com o compromisso de que nada desses contratos venha a ser divulgado, incluindo a própria parceria.
Esta falta de transparência dá à Apple uma vantagem em manter em segredo os seus planos. Mas também tem sido uma barreira à melhoria das condições de trabalho, de acordo com juristas e antigos executivos da Apple.
Este mês, depois de inúmeros pedidos pelos advogados e pelos media, incluindo o jornal The New York Times, a Apple publicou os nomes de 156 dos seus fornecedores. No relatório que acompanha essa lista, a Apple diz que estes "representam mais de 97% do que nós pagamos aos fornecedores para a fabricação dos nossos produtos."
No entanto, a empresa não revelou os nomes de centenas de outras empresas que não têm contrato directamente com a Apple, mas que fornecem os seus fornecedores. A lista publicada de fornecedores da empresa não indica onde estão as fábricas e muitas deles são difíceis de encontrar. E analistas de organizações independentes dizem que quando eles tentam inspeccionar os fornecedores da Apple, eles são impedidos de entrar — e sob as ordens da própria Apple, dizem-nos.
"Nós tivemos este tipo de conversa centenas de vezes," disse um antigo executivo no grupo de responsabilidade de fornecedores da Apple. "Há um verdadeiro compromisso da empresa em termos de código de conduta. Mas levando a questão ao nível seguinte se com isto se criam reais problemas de conflitos com os objectivos de sigilo e de negócios, e assim tem sido até agora, então deixamos andar.” Antigos funcionários da Apple dizem que geralmente estavam proibidos de se envolverem com a maioria dos grupos externos. Na verdade há uma verdadeira cultura do secretismo que influencia toda a gente, diz um antigo alto-funcionário.
“Há outras grandes empresas no sector que funcionam de forma diferente”.
Falamos com muita gente de fora "disse Gary Niekerk, director de relações de cidadania na Intel. "O mundo é complexo, e a não ser que nós entremos constantemente em diálogo com os grupos exteriores, nós perderemos muito."
Dado a proeminência da Apple e a sua liderança na cadeia da indústria transformadora global, se a empresa fosse mudar radicalmente as formas de ver e trabalhar, isto poderia mudar a forma como a actividade empresarial é conduzida. "Todas as empresas querem ser como a Apple," disse Sasha Lezhnev em Enough Project, um grupo centrado sobre a responsabilidade empresarial. "Se eles se empenhassem em fabricar um iPhone livre de conflitos, isto transformaria a própria tecnologia, transformaria a forma de actuar de todo um sector ."
Mas, em última análise, dizem antigos altos funcionários da Apple, existem já algumas pressões externas bem reais para a mudança. A Apple é uma das marcas mais admiradas. Num inquérito feito à escala nacional pelo The New York Times em Novembro, 56% dos entrevistados disseram que não conseguia pensar em nada negativo sobre a Apple. Dos inquiridos, 14% disseram as piores coisas sobre a empresa cujos produtos eram muito caros. Apenas 2 por cento mencionou as práticas de trabalho no exterior.
Pessoas como a senhora White de Harvard dizem que até que os consumidores venham a exigir melhores condições nas fábricas no exterior — como eles fizeram para empresas como a Nike e Gap que hoje têm reformulado as condições de trabalho para com os seus fornecedores — ou até que os reguladores actuem, haverá pouca vontade de uma qualquer mudança de fundo . Alguns dos funcionários da Apple concordam.
"Hoje pode-se ou produzir em fabricas em que se garantam um conjunto de condições de trabalho e de comodidade ou alternativamente pode-se então melhorar o produto ano a ano e torna-lo melhor, mais rápido e mais barato o que, por seu lado, exige que as fábricas pareçam violentas aos olhos dos padrões americanos ," disse um actual executivo da Apple .
"É exactamente o que acontece agora em que os clientes preocupam-se mais em ter um iPhone novo do que com as condições de trabalho na China."
Gu Huini contribuiu para a pesquisa.
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
(Continuação)
A explosão
Na tarde em que se deu a explosão da fábrica de iPad, Lai Xiaodong telefonou à sua namorada, como o tem feito todos os dias. Eles esperavam encontrarem-se naquela noite, mas o director de Lai disse que este tinha que fazer horas extras, foi o que este disse à sua namorada.
Lai tinha sido rapidamente promovido na Foxconn, e apenas depois de alguns meses de ter entrado foi promovido a encarregado de uma equipa de manutenção das caixas onde se encastravam os iPad . A área de polimento era de pé direito bem alto e tinha um ar pesado e nebuloso com alta densidade em poeira de alumínio. Os trabalhadores usavam máscaras e tampões nos ouvidos mas não importa as vezes que tomassem banho, eles eram reconhecíveis pelo brilho de poeira de alumínio nos seus cabelos e pelos cantos dos seus olhos.
Apenas duas semanas antes da explosão, um grupo de advogados de Hong Kong publicou um relatório chamando a atenção para a falta de segurança das condições de trabalho na fábrica de Chengdu, incluindo os problemas com a poeira de alumínio. O grupo, Students and Scholars Against Corporate Misbehavior, ou ainda chamado Sacom, tinha filmado os trabalhadores cobertos com minúsculas partículas de alumínio. "Os problemas de saúde e de segurança no trabalho em Chengdu são alarmantes," diz-nos o relatório. "Os trabalhadores também destacam o problema da má ventilação e da inadequação do equipamento individual de protecção no trabalho.
Uma cópia deste relatório foi enviada para a Apple. "Não houve nenhuma resposta," disse Debby Chan Sze Wan do grupo. "Alguns meses depois fui a Cupertino e entrei no hall da Apple, mas ninguém se quis encontrar comigo . Eu nunca ouvi ninguém que me falasse em nome da Apple fosse no que fosse."
Na manhã da explosão, Lai subiu para cima da sua bicicleta para ir trabalhar. O iPad tinha sido colocado à venda apenas algumas semanas antes e os trabalhadores falavam de milhares de caixas em alumínio que seria necessário polir diariamente. A fábrica tinha um ar frenético, disseram alguns empregados. As diversas filas de máquinas poliam as caixas enquanto os empregados equipados de máscaras carregavam sucessivamente em botões. Grandes condutas de ar grande pairado sobre cada estação de trabalho, mas eles não podiam manter-se a trabalhar sobre as três linhas de máquinas que estão a polir as caixas de alumínio dos iPads sem parara . O pó de alumínio estava por toda a parte.
O facto de que a poeira é um enorme risco para a segurança no trabalho é bem conhecido. Em 2003, uma explosão de pó de alumínio em Indiana destruiu uma fábrica de rodas de alumínio e matou um trabalhador. Em 2008, a poeira dentro de uma fábrica de açúcar na Geórgia causou uma explosão que matou 14 trabalhadores.
Duas horas depois de se ter iniciado o segundo turno , o turno de Lai, o edifício começou a tremer, como se estivesse a ocorrer um terremoto . Houve uma série de explosões, disseram os trabalhadores da fábrica.
Então os gritos começaram.
Quando os colegas de Lai correram para fora da fábrica os fortes fumos escuros foram-se misturando com uma chuva leve, de acordo com os vídeos dos telemóveis. O número de vítimas terá sido de quatro mortos e 18 feridos.
No hospital, a namorada de Lai viu que a sua pele estava quase toda ela queimada e descolada. "Eu reconheci-o pelas suas pernas, caso contrário como é que eu saberia que aquele corpo era o dele" disse ela.
Depois, a sua família chegou. Cerca de 90 por cento do seu corpo tinha sido queimado. "A minha mãe fugiu do quarto mal olhou para ele naquele estado . Eu chorei. Ninguém poderia aguentar," disse o seu irmão. Quando finalmente a sua mãe regressou, esta esforçou-se para evitar tocar no seu filho, com receio de que lhe provocasse dores.
“Se eu soubesse, disse ela, eu ter-lhe-ia pegado no braço, Poder-lhe-ia ter tocado.”
"Tudo isto foi muito difícil", disse ela, e foi assim durante dois dias
Depois da morte de Lai, os trabalhadores da Foxconn foram levar as suas cinzas numa caixa para a cidade natal de Lai . A empresa mais tarde enviou um cheque de 150.000 dólares.
A Foxconn, num comunicado, disse que a fábrica de Chengdu na altura da explosão estava em conformidade com todas as leis e regulamentos relevantes pertinentes, e que "depois de a Foxconn se ter assegurado que as famílias dos trabalhadores falecidos receberam o suporte de que precisaram, nós garantimos que a todos os funcionários feridos foram prestados os melhores cuidados de saúde, cuidados da mais alta qualidade clinicamente possível." Depois da explosão, acrescentou a Foxconn, esta imediatamente interrompeu o trabalho em todas as oficinas de polimento e, mais tarde, melhorou a ventilação e os mecanismos de eliminação das poeiras tendo recorrido à utilização de tecnologias para melhorar a segurança do trabalhador.
No seu mais recente relatório de responsabilidade de fornecedores, a Apple escreveu que após a explosão, a empresa contactou " os principais especialistas em segurança industrial " e reuniu uma equipe para investigar e fazer recomendações de modo a prevenir futuros acidentes.
Em Dezembro, no entanto, sete meses após a explosão que matou o trabalhador Lai, uma outra fábrica de iPad explodia, esta agora situada em Xangai. Mais uma vez, o pó de alumínio foi a causa, de acordo com entrevistas e e de acordo também com o relatório de responsabilidade do fornecedor mais recente da Apple. Essa explosão feriu 59 trabalhadores, com 23 dos quais foram hospitalizados.
"É uma brutal negligência que, depois de uma explosão, não se tenha feito e rapidamente uma inspecção a todas as fábricas e em condições " disse Nicholas Ashford, especialista em segurança no trabalho, que está agora no Massachusetts Institute of Technology. "Se fosse terrivelmente difícil lidar com o pó de alumínio, eu ainda poderia entender. Mas o pó, como toda a gente sabe, é fácil de controlar. É somente uma questão de ter uma boa ventilação. Nós já resolvemos este problema ao longo de um século atrás."
No seu mais recente relatório sob a responsabilidade do fornecedor, a Apple escreveu que, embora ambas as explosões tenham envolvido a combustão de pó de alumínio, as suas causas eram diferentes. A empresa recusou-se, no entanto, a fornecer detalhes. O relatório acrescentou que a Apple agora tinha auditados todos os fornecedores de produtos em alumínio polido e tinha colocado a questão de precauções mais fortes nos locais de trabalho. Todos os fornecedores tenham começado a responder a estas propostas da Apple dando início a contramedidas necessárias, excepto um, que continua a estar encerrado, dizia-se no mesmo relatório.
Para a família do trabalhador Lai, há questões que para eles permanecem em aberto. "Nós na verdade ainda não sabemos sequer as razões que o levaram à morte," disse a mãe de Lai, junto de um santuário que mandou construir perto de sua casa. "Nós não conseguimos compreender o que aconteceu."
(Continua)
Por CHARLES DUHIGG e DAVID BARBOZA, New York Times
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
(Continuação)
A via para Chengdu
No Outono de 2010, cerca de seis meses antes da explosão na fábrica onde se produziam os iPad, Lai Xiaodong cuidadosamente protegeu o seu diploma de faculdade colocando a sua roupa em torno dele de modo a que este não se amarrotasse na sua mala. Ele teria dito a amigos seus que não contassem mais com ele para os jogos de póquer semanais entre eles e disse adeus aos seus professores. Ele estava de partida, estava a ir para Chengdu, uma cidade de 12 milhões de habitantes que rapidamente se tornou num dos mais importantes centros de produção mundiais de produtos industriais.
Embora muitíssimo tímido, Lai tinha surpreendido toda a gente ao convencer uma muito bonita aluna de enfermagem para ser a sua namorada. Ela queria casar-se, disse ela, e assim o seu objectivo era ganhar o dinheiro suficiente para poderem comprar um apartamento.
As fábricas em Chengdu fabricam produtos para centenas de empresas. Mas Lai interessou-se muito pela Foxconn Technology, o maior exportador da China e um dos maiores empregadores do país, com 1,2 milhões de trabalhadores. A empresa tem fábricas em toda a China e produz cerca de 40% da electrónica de consumo do mundo, inclusive para clientes como Amazon, Dell, Hewlett-Packard, Nintendo, Nokia e Samsung.
Quanto à fábrica da Foxconn em Chengdu, Lai sabia que era uma fábrica bem especial. Dentro da fábrica, os trabalhadores estavam a construir o mais recente, potencialmente o maior produto da Apple: o iPad.
Quando Lai finalmente encontrou um emprego a reparar máquinas na fábrica, uma das primeiras coisas que ele notou eram as luzes que quase cegavam. Os turnos eram sobre as 24 horas por dia, e a fábrica estava sempre iluminada . Em qualquer momento, havia milhares de trabalhadores de pé nas linhas de montagem ou sentados em cadeiras sem encosto, agachadas junto às grandes máquinas ou a correr entre os cais. As pernas de alguns trabalhadores inchavam tanto que eles tinham dificuldade em andar. "É difícil ficar aqui todos os dias, de pé" disse Zhao Sheng, um trabalhador da fábrica.
Bandeirolas espalhadas pelas paredes, tinham um aviso feito aos 120 000 funcionários: «Trabalhe intensamente no seu emprego hoje, ou então trabalhe intensamente amanhã, à procura de emprego». O código de conduta do fornecedor da Apple determina que, excepto em circunstâncias anormais, os trabalhadores não devem trabalhar mais de 60 horas por semana. Mas, na Foxconn, alguns trabalharam bem mais, de acordo com entrevistas feitas a alguns dos trabalhadores, com os comprovativos de pagamento de salários e inquéritos de grupos externos. O trabalhador Lai chegava a passar 12 horas por dia dentro da fábrica Foxconn, seis dias por semana, de acordo com a sua folha de vencimentos. Os trabalhadores que chegavam atrasados eram, por vezes, obrigados a escrever cartas de confissão e obrigados também a copiar citações. Havia «turnos contínuos», quando os trabalhadores eram mandados fazer dois turnos seguidos, de acordo com entrevistas realizadas.
O diploma universitário de Lai permitiu-lhe ganhar um salário de cerca de 22 dólares por dia, incluindo as horas extraordinárias — mais do que muitos outros. Quando o fim do dia chegava ele ia para o seu pequeno quarto com uma dimensão que dava apenas para ter um colchão, o guarda-roupa e uma escrivaninha onde obsessivamente jogava um jogo online chamado Fight the Landlord, disse a sua namorada, Luo Xiaohong.
Estas suas instalações eram bem melhores do que muitos dos dormitórios da empresa, onde 70.000 trabalhadores da Foxconn viviam, às vezes com 20 pessoas dentro, num apartamento de 3 divisões, disseram-nos os trabalhadores. No ano passado, uma disputa sobre remunerações gerou um motim num dos dormitórios e os trabalhadores começaram a atirar garrafas, latas de lixo e papel a arder a partir das suas janelas, de acordo com testemunhas. Duzentos policias lutaram com os trabalhadores, prendendo oito deles. Mais tarde, as latas de lixo foram removidas e pilhas de lixo — e os ratos— tornaram-se um problema. O trabalhador Lai sentia-se um sortudo, ao ter instalações próprias.
A Foxconn, num comunicado, contesta os relatos dos trabalhadores quanto à existência de turnos contínuos, de longas horas extraordinárias, de condições de vida com apartamentos superlotados que foram as causas do motim. A empresa disse que os seus regulamentos, as suas normas de trabalho, as suas condições de trabalho e de vida, correspondem aos códigos de conduta dos seus clientes, aos padrões da indústria e à legislação nacional. "As condições na Foxconn são tudo menos duras", escreveu a companhia. A Foxconn também disse que nunca foi até agora citada por nenhum cliente nem por nenhum governo por ter utilizado trabalhadores abaixo da idade mínima permitida por lei, ou por ter trabalhadores sobrecarregados com horários muito longos ou ainda por serem expostos a riscos graves por utilização indevida de produtos tóxicos.
"A todos os trabalhadores nas linhas de montagem são oferecidas pausas regulares, incluindo as pausas para almoço de uma hora," escreveu a empresa, e apenas 5 por cento dos trabalhadores das linhas de montagem são obrigados a aí estar a desempenhar as suas funções. As estações de trabalho foram projectadas para satisfazer os padrões ergonómicos e os empregados têm oportunidades de rotação e promoção, dizia o mesmo comunicado.
"A Foxconn tem um registo de segurança muito bom", escreveu a companhia. "A Foxconn vem desde há muito tempo a desenvolver e a promover grandes esforços para levar a nossa indústria na China para áreas como as condições de trabalho e para as condições de saúde e o acompanhamento na doença dos nossos funcionários."
O código de conduta da Apple
Em 2005, alguns dos principais altos quadros da Apple reuniram-se na sua sede em Cupertino, Califórnia, para uma reunião especial. Outras empresas tinham já criado códigos de conduta para poder inspeccionar as condições de execução dos seus contratos pelos seus fornecedores. Chegou a hora, decidiu-se na Apple , de seguirem o exemplo. O código que Apple publicou naquele ano exige "que as condições de trabalho na cadeia de produção global da Apple sejam seguras, que os trabalhadores sejam tratados com respeito e dignidade, e que os processos de fabrico sejam do ponto de vista do ambiente processos responsáveis".
Mas no ano seguinte, um jornal britânico, The Mail on Sunday, visitou secretamente uma fábrica da Foxconn em Shenzhen, na China, onde iPods foram fabricados e publicou relatos sobre as longas horas de trabalho, sobre as flexões impostas como como punição em dormitórios superlotados. Os executivos em Cupertino ficaram chocados. "Apple é constituída por quadros que são realmente boas pessoas que não tinham nenhuma ideia que isso estava a acontecer", disse um ex-funcionário. "Queremos que isto mude e imediatamente".
A Apple auditou a fábrica, a primeira inspecção da empresa e ordenou que se realizassem melhorias. Os executivos também assumiram uma série de iniciativas que incluíam um relatório anual de auditoria e que foi publicado pela primeira vez em 2007. No ano passado, a Apple tinha inspeccionado 396 instalações— incluindo de fornecedores directos da Apple, bem como muitos dos fornecedores desses fornecedores — um dos maiores destes programas dentro da indústria de produtos electrónicos.
Essas auditorias têm confirmado a existência de claras violações do código de conduta da Apple, de acordo com notas de informação publicadas pela Apple. Em 2007, por exemplo, a Apple realizou auditorias em mais de três dúzias de empresas e em dois terços destas foi confirmado que os trabalhadores regularmente trabalharam mais de 60 horas por semana. Além disso, confirmaram seis "violações muito graves," entre as quais a utilização de trabalho de idade inferior ao mínimo legal, bem como a falsificação de registos.
Ao longo dos três anos seguintes, a Apple conduziu 312 auditorias e anualmente, cerca de metade delas ou mesmo mais confirmam a existência de um grande número de trabalhadores a trabalharem mais de seis dias por semana, bem como a trabalharem muitas horas extraordinárias por dia. Alguns trabalhadores receberam menos do que o salário mínimo ou mesmo ficaram com salários retidos como forma de punição. A Apple encontrou 70 violações muito graves ao longo desse período, incluindo os casos de trabalho involuntário, de trabalhadores menores, de falsificação de registos, de exposição inadequada aos resíduos perigosos e mais de cem trabalhadores com lesões devido à exposição a produtos químicos tóxicos.
No ano passado, a Apple realizou 229 auditorias aos seus fornecedores. Houve uma ligeira melhoria em algumas categorias e a taxa detectada de violações muito graves terá declinado. No entanto, dentro de 93 instalações fabris, em pelo menos, metade dos trabalhadores excedeu o limite de trabalho de 60 horas por semana. Num número similar, os trabalhadores estiveram a trabalhar mais de seis dias por semana. Houve incidentes de discriminação, falta de condições adequadas de segurança , falta de pagamento das horas de trabalho extraordinárias assim como houve outras violações. Naquele ano, quatro trabalhadores morreram e 77 ficaram feridos em explosões nos locais de trabalho.
"Se ao longo do tempo se continua a assistir ao mesmo tipo de problemas isto significa que a empresa tem ignorando o problema, em vez de o ter solucionado," disse um antigo alto quadro da Apple com conhecimento em primeira mão sobre a responsabilidade do grupo de fornecedores. " A não-conformidade é tolerada, tanto quanto os fornecedores prometem tentar e serem mais rigorosos na próxima vez . Se em tudo isto houvesse forte interesse, as violações graves rapidamente desapareceriam."
A Apple diz que, quando uma auditoria revela que há um uma violação, a empresa exige dos fornecedores a resolução do problema no prazo de 90 dias e que sejam feitas as alterações necessárias para evitar a sua repetição. "Se um fornecedor não está disposto a mudar, nós terminaremos o nosso contrato," diz a empresa no seu site na Web.
A seriedade desta ameaça não é, no entanto, clara. A Apple encontrou violações em centenas de auditorias, mas foram menos de 15 os seus fornecedores com quem terá terminado o seu contrato por estas transgressões desde 2007, de acordo com antigos altos quadros da Apple.
"Quando o contrato foi estabelecido e a Foxconn se tornou um fornecedor autorizado da Apple, esta última empresa deixou de dar qualquer atenção às condições de trabalho ou de qualquer outra coisa que seja irrelevante para os seus produtos," disse o senhor Li, o antigo director fabril da Foxconn. O senhor Li passou sete anos na Foxconn em Shenzhen e em Chengdu e foi forçado a sair em Abril, depois de se ter oposto a uma deslocalização para Chengdu, disse ele. A Foxconn contestou os seus comentários e disse que a "Foxconn e a Apple levam muito a sério o bem-estar dos nossos funcionários."
Os esforços da Apple têm estimulado algumas mudanças. As instalações fabris que foram de novo auditadas "mostraram melhorias contínuas de desempenho e melhores condições de trabalho," escreveu a Apple no seu relatório sobre o progresso da responsabilidade dos seus fornecedores em 2011. Além disso, o número de instalações auditadas tem crescido anualmente e alguns altos quadros da Apple dizem que a expansão destes esforços obscurece as melhorias detectadas anualmente.
A Apple também tem dado informações a mais de um milhão de trabalhadores sobre os seus direitos e sobre os métodos para a prevenção de lesões e de doenças. Alguns anos atrás, depois de os auditores insistirem em entrevistar empregados das fábricas intensivas em mão de obra pouco especializada eles descobriram que alguns destes trabalhadores tinham sido forçados a pagar onerosas "taxas de recrutamento" — que a Apple classifica como trabalho involuntário. Como no ano passado, a Apple tinha forçado alguns fornecedores a reembolsarem em mais de US $6,7 milhões de dólares em tais encargos.
"A Apple é uma empresa líder na prevenção da utilização de trabalho abaixo da idade permitida pela lei" disse Dionne Harrison de Impactt, uma empresa paga pela Apple para ajudar a prevenir e a resolver a questão do trabalho infantil entre os seus fornecedores. "Eles estão a fazê-lo tanto quanto possivelmente o podem fazer".
Outros consultores discordam. "Nós já andámos há anos a dizer que a Apple tem sérios problemas e recomendámos mudanças," disse-nos um consultor — também conhecido como Business for Social Responsibility — que foi duas vezes contratada pela Apple para prestar aconselhamento sobre questões laborais. "Eles não querem antecipar problemas, eles só querem evitar embaraços."
(Continua)
Por CHARLES DUHIGG e DAVID BARBOZA, New York Times
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A explosão dá-se a partir do edifício A5 numa noite de sexta-feira de Maio último, e uma erupção de chamas e de barulho que torceu os tubos metálicos como se fossem simples pedaços de palha.
Quando os trabalhadores que estavam no refeitório correram para fora das instalações viram sair fumo negro a sair pelos vidros partidos. Tudo isto tinha origem na área onde os trabalhadores poliam diariamente milhares de caixas de alumínio para nelas instalar os iPad.
Dois trabalhadores morreram imediatamente, e ficaram feridos mais de uma dúzia. Os atingidos pela explosão foram rapidamente colocados em ambulâncias e destes destacava-se particularmente um deles. As suas faces tinham sido manchadas pela violência da explosão e queimadas pelo calor com tal violência que a sua boca e o seu nariz mais pareciam terem sido substituídas por uma esteira vermelha.
Alguém perguntou "é o pai de Lai Xiaodong?" quando o telefone tocou na casa dos pais de Lai Xiaodong. Seis meses antes, este jovem de 22 anos de idade tinha mudado para Chengdu, no sudoeste da China, para se tornar um dos muitos milhões de pessoas transformados em peças de uma engrenagem humana que alimenta o maior, o mais rápido e o mais sofisticado sistema de produção existente no mundo. Esse sistema tornou possível que a Apple e centenas de outras empresas possam aqui construir aparelhos quase tão rapidamente quanto estes possam ser sonhados, pensados, concebidos...
"Ele está em grandes dificuldades," disseram pelo telefone ao pai de Lai. "Venha rapidamente ao hospital, o mais rápido que lhe for possível..."
Na última década, Apple tornou-se uma das empresas mais poderosas, mais ricas e de maior sucesso do mundo, em parte por dominar a cadeia de produção ao nível global. A Apple e os seus parceiros nas altas tecnologias — bem como dezenas de outras indústrias americanas — alcançaram um ritmo de inovação quase inigualável na história moderna.
No entanto, os trabalhadores de montagem dos iPhones, iPads e outros aparelhos trabalham frequentemente em condições fortemente adversas, de acordo com os funcionários que trabalham nessas fábricas, segundo os defensores dos trabalhadores e ainda segundo documentos publicados pelas próprias empresas. Os problemas são tão variados como ambientes de trabalho pesados e com muitos problemas graves de segurança no trabalho — às vezes são até mortais.
Os trabalhadores trabalham durante muitas horas extraordinárias, em forte excesso mesmo e nalguns casos trabalham até sete dias por semana e vivem em dormitórios superlotados. Alguns dizem que eles ficam tantas horas de pé que as suas pernas incham muitas vezes até ao ponto que quase não conseguem andar. Os jovens trabalhadores de menor idade, em situação de trabalho infantil, têm ajudado a fabricar produtos da Apple e as empresas fornecedoras para a Apple têm-se desembaraçado de forma perigosa de resíduos tóxicos e falsificado até os seus registos de existências, de acordo com relatórios das empresas e grupos de defesa do meio ambiente que, dentro da China, são muitas vezes considerados como fiáveis, como monitores independentes.
E mais preocupante ainda, dizem estes os grupos, é o desrespeito de alguns fornecedores pela saúde dos seus trabalhadores. Há dois anos, 137 trabalhadores de um dos fornecedores da Apple na China Oriental ficaram feridos depois de terem sido obrigados a utilizar um produto químico altamente venenoso para limpar os ecrãs dos iPhone. No espaço de sete meses deram-se, no ano passado, duas explosões em fábricas onde se fabricavam os iPad, mesmo em Chengdu, que mataram quatro pessoas e feriram 77. Antes destas explosões, a Apple tinha sido avisada sobre as condições perigosas dentro da fábrica de Chengdu, de acordo com um grupo chinês que publicou este mesmo aviso.
"Se a Apple foi avisada e não agiu, isto é condenável," disse Nicholas Ashford, antigo Presidente do National Advisory Committee on Occupational Safety and Health, um grupo que aconselha o Ministério do Trabalho nos Estados Unidos. "Mas o que é moralmente repugnante nisto é o facto de que um país tenha aceite este tipo de práticas empresarias aplicado noutro país enquanto as suas empresas tiram partido disso."
A Apple não é a única grande empresa de material electrónico que estabelece contratos de produção no quadro de um sistema de fornecimentos preocupante. As péssimas condições de trabalho têm sido documentadas nas fábricas que trabalham para a Dell, Hewlett-Packard, I.B.M., Lenovo, Motorola, Nokia, Sony, Toshiba e outras.
Actuais e antigos directores na Apple dizem que a empresa fez avanços significativos na melhoria das condições de trabalho nas fábricas ao longo destes últimos anos. A Apple tem um código de conduta dos fornecedores em que se detalha diversas normas sobre questões de trabalho, sobre protecções de segurança e outros temas. A empresa montou uma forte campanha em termos de auditoria, e quando são descobertos abusos, diz a Apple diz, são exigidas as respectivas correcções.
E de acordo com os relatórios anuais publicados pela Apple e sob a responsabilidade dos fornecedores, em muitos casos, é própria a Apple a primeira a denunciar os abusos de que tenha conhecimento. Este mês, pela primeira vez, a empresa divulgou uma lista identificando muitos dos seus fornecedores.
Mas subsistem importantes problemas. Mais da metade dos fornecedores auditados pela Apple violaram pelo menos um dos aspectos do código de conduta anualmente desde 2007, de acordo com relatórios da própria Apple e, em alguns casos, violaram mesmo a lei. Enquanto muitas violações envolvem condições de trabalho, mais do que riscos de segurança no trabalho, muitos problemas preocupantes persistem.
"A Apple nunca se preocupava com outra coisa que não fosse aumentar a qualidade dos produtos e diminuir o custo de produção," disse Li Mingqi, que até Abril trabalhou na gestão de Foxconn Technology, um dos mais importantes parceiros na produção da Apple. O senhor Li Mongqi moveu um processo à Foxconn depois da sua demissão, ajudou a gerir a fábrica de Chengdu onde ocorreu a explosão.
"O bem-estar dos trabalhadores não tem nada a ver com os seus interesses", disse ele.
Alguns antigos altos quadros na Apple dizem que há uma tensão não resolvida dentro da empresa: há altos quadros que querem melhorar as condições de trabalho dentro das fábricas, mas que o seu empenho vacila quando isto entra em conflito de relacionamento com os seus principais fornecedores ou com a entrega rápida de novos produtos. Na terça-feira, a Apple publicou um documento onde se se afirmava ter tido um dos trimestres mais lucrativos na história de qualquer empresa com 13.06 mil milhões de dólares de lucros sobre 46,3 mil milhões de dólares em vendas. As suas vendas poderiam ter sido ainda maiores, disseram os executivos se as fábricas contratadas no exterior tivessem sido capazes de produzir mais.
Os executivos de outras grandes empresas dão conta de pressões internas semelhantes. Este sistema pode não ser bom, argumentam eles , mas uma mudança radical retardaria a inovação. Os clientes desejam que sejam lançados anualmente novos atraentes e inovadores produtos electrónicos.
"Nós já conhecemos os abusos de trabalho em algumas fábricas desde há quatro anos, e estes ainda se continuam a fazer ," disse um antigo alto quadro da Apple que, como muitos outros, falou sobre a condição de anonimato por causa dos acordos de confidencialidade. "Porquê assim? Porque o sistema funciona a nosso favor. Os fornecedores mudariam tudo amanhã se Apple lhes dissesse que não teriam outra escolha, que não seja a de terem de mudar a forma de trabalhar."
"Se metade dos iPhones estivessem com defeito, será que a Apple iria deixá-lo ir com contratos de quatro anos?" Perguntou-se um alto funcionário.
A Apple, nos seus relatórios publicados, disse exigir que cada violação de trabalho descoberta tinha que ser corrigida e os seus fornecedores que se recusarem a cumprir veriam os seus contratos caducados . Em privado, no entanto, alguns antigos quadros dirigentes admitem que encontrar novos fornecedores não é nada fácil, é uma tarefa demorada e cara. As Foxconn é um dos poucos fabricantes no mundo que tem uma escala de produção capaz de produzir em quantidade suficiente os iPhones e iPads para a Apple. Assim, a Apple não está "para deixar a Foxconn e eles não vão deixar a China,", disse Heather White, um investigador na Universidade de Harvard e antigo membro do Comité Monitoring International Labor Standards committee at the National Academy of Sciences. "Há aqui muita racionalização ".
À Apple foram cedidas cópias de resumos extensivos deste artigo, mas a empresa recusou comentá-los. O relatório baseia-se em entrevistas com mais de três dezenas de empregados actuais ou antigos empregados e prestadores de serviços, incluindo uma meia-dúzia de altos quadros actuais ou antigos com profundos conhecimentos em primeira mão sobre o grupo de fornecedores da Apple, assim como de outros dentro das indústria ditas tecnológicas.
Em 2010, Steven Jobs discutiu as relações da Apple com os seus fornecedores numa conferência sobre a indústria.
"Hoje em dia penso que a Apple tem estado a obter um dos melhores resultados de todas as empresas no nosso sector e talvez em toda a indústria transformadora, pelo facto de ter bem compreendido as condições de trabalho na nossa cadeia global de produção" disse Steve Jobs, que era o executivo-chefe da Apple na época e que morreu em Outubro passado.
"Quero dizer, se vamos a esse lugar, isto é uma fábrica, mas, meu Deus, quer dizer, eles têm restaurantes, cinemas, hospitais e piscinas, e quero dizer, isto para uma fábrica, significa pois que é uma fábrica mesmo muito boa."
Outros, incluindo os trabalhadores a trabalharem em tais instalações, reconhecem os refeitórios e as instalações clínicas, mas insistem nas condições de trabalho penosas.
"Estamos a tentar na verdade a querer tornar fazer as coisas melhor, o que não é nada fácil," disse um ex-executivo da Apple. "Mas a maioria das pessoas ainda ficaria realmente muito preocupada se visse de onde vem o seu iPhone ."
(Continua)
Capitulo I. Retratos da Desindustrialização
1.11- Porque é que os Estados Unidos nunca, nunca jamais, irão construir o iPhone
Não é apenas porque os salários são baixos. A China tem operários mais qualificados e está no centro da cadeia de abastecimento global.
Neste fim de semana, o The New York Times publicou uma longa análise das muitas razões pelas quais a Apple escolheu a China para fabricar os seus iPhones. A peça é leitura indispensável para quem quer entender porque razão os Estados Unidos têm visto certos segmentos e produtos da indústria transformadora desaparecerem da sua produção local. Mas a lição central do artigo pode ser difícil de engolir: a Apple não só escolhe a China porque o trabalho é mais barato. A Apple também escolhe a China, porque as fábricas e os trabalhadores fazem um trabalho melhor.
Aqui estão quatro lições básicas que podemos aprender com a produção da Apple:
A mão-de-obra barata não é a questão
Não há dúvida de que os baixos salários da China fazem parte das vantagens que a China oferece, mesmo que estes tenham estado a crescer. De acordo com o NYT, a produção do iPhone nos Estados Unidos levaria a um custo adicional de 65 dólares por unidade. Para se ter uma melhor perspectiva do significado deste valor, isto significaria 10 por cento do preço no consumidor para o mais barato dos iPhones, o 4S. Dadas as enormes margens de lucro em produtos da Apple, a empresa poderia absorver esse custo extra e ainda sair com um lucro razoável. Mas é difícil imaginar razões para que façam este sacrifício.
O custo do trabalho, porém, é apenas uma pequena parte do que torna a China um lugar de eleição para produzir o iPhone. Depois de ter estado anos a produzir os seus computadores na Califórnia, a Apple começou a deslocalizar a sua produção depois do quase colapso da empresa na década de 90. Esta opção foi tomada por Tim Cook, agora CEO da empresa, e na altura o seu chefe de operações. De acordo com o NYT:
Para Cook, o interesse na Ásia " resultava de duas coisas", disse um antigo alto-funcionário da Apple. As fábricas na Ásia "podem aumentar ou reduzir a escala de produção muito mais rapidamente" e "as cadeias asiáticas de abastecimento ultrapassaram as americanas nos Estados Unidos “. O resultado é que "não podemos competir a este nível ", disse este director.
O que é que significa "scale up" mais rápido? Relativamente à Foxconn, a quem o monstro da indústria transformadora global que é a Apple paga para montar os seus produtos, é a capacidade de contratar milhares de novos trabalhadores num só dia. É ter a capacidade de acordar 8.000 empregados durante a noite, de os reunir tendo-os disponíveis em dormitórios e ordenar-lhes uma mudança de turno à meia noite para rapidamente irem instalar visores em vidro reforçado para ecrãs de telefones. Na China, os salários dos trabalhadores são baixos e os trabalhadores são abundantes, e - mais importante ainda – com uma mentalidade espantosamente dócil e em termos que a cultura da América e as suas leis de trabalho quando bem aplicadas simplesmente nunca permitiriam. Sim, o tratamento notoriamente duro de Foxconn para com os seus trabalhadores levou a uma bem conhecida vaga de suicídios. Mas quantos americanos no século 21 poderão ver disponíveis, seja sob que circunstâncias forem, para viverem num dormitório da General Motors?
A segunda metade da equação de Cook – as cadeias globais de abastecimento – pode ser ainda mais importante. Nós gostamos muito de falar sobre a forma como o mundo é plano, mas na realidade, ainda é necessário um mês para enviar bens dos EUA para a China. Porque a Ásia é o centro de fabricação das componentes electrónicas, as fábricas chinesas podem assumir partes cruciais do processo produtivo por ser mais rápido e mais barato, se estas componentes vêm de uma fábrica de semi-condutores perto dali ou mesmo se vêm de uma fábrica Samsung na Coreia do Sul. As fábricas locais chinesas também produzem pequenas peças em metal como por exemplo pequenos parafusos sem os quais não se pode construir um iPhone, uma pequena mas importante vantagem. Os Estados Unidos estão completamente desligados destas linhas de abastecimento. Logisticamente, faz mesmo menos sentido produzir aqui um gadget de alta tecnologia.
Melhorar o sector da Educação não é enviar mais gente para Harvard
A vantagem da China em termos de trabalho vai muito para além dos trabalhadores de baixa qualificação que fazem o trabalho indiferenciado de estar a colocar peças no iPhones. O país também se destaca nos níveis de educação e formação média ou intermédia como por exemplo os agentes técnicos ou formações superiores curtas na indústria. Estes não são alunos graduados por Stanford e não serão pois capazes de projectar a próxima geração do IPAD. Não, em vez disso, eles são parecidos com os alunos dos primeiros anos das universidades regionais que têm as competências técnicas para gerir a linha de produção de iPad. Como observa o Times:
Os directores de Apple tinham estimado que cerca de 8.700 engenheiros industriais seriam necessários para supervisionar e orientar a linha de montagem de 200 mil trabalhadores que possivelmente estariam envolvidos na fabricação dos iPhones. Os analistas da empresa havia estimado que seria necessário gastar até cerca de nove meses para encontrar esta quantidade de engenheiros qualificados nos Estados Unidos.
Na China foram necessários apenas 15 dias.
Estes tipos de estatísticas deve pôr em evidência, fria e claramente porque é que o sistema educacional da América tem numa tal desvantagem quando se trata de falar em indústria. O problema não é a falta de elites altamente qualificadas. Temo-las. É a nossa classe de trabalhadores não qualificados.
Tem sido amplamente divulgado que as escolas chinesas formam cerca de 600.000 engenheiros por ano, contra cerca de 70.000 nos Estados Unidos. Alguns têm tentado minimizar a gravidade dessa lacuna, apontando que cerca de metade dos engenheiros chineses têm o equivalente a um grau de 2 anos de curso superior. Isso pode ser verdade. Mas também é errar na questão. A China aprendeu a produzir graduados de nível médio com sólida formação técnica que são cruciais nos processos de fabrico modernos. Os Estados Unidos precisam de aprender a fazer o mesmo se quiserem continuar a ser uma força na indústria transformadora no futuro. O nosso objectivo imediato não deve ser a preparação de mais estudantes para Harvard, Penn State, ou University of Central Florida. O nosso primeiro objectivo deve ser o de encontrar uma maneira de garantirmos que mais de 25% dos alunos que se matriculam nas Faculdades regionais comunitárias se formem realmente no espaço de 3 anos
Questões relativas à política industrial
O NYT conta que quando a Apple andava a procurar uma nova fábrica para cortar o vidro de alta resistência para os seus ecrãs do iPhone, visitaram uma fábrica chinesa que já havia construído uma nova ala para o trabalho na expectativa de que poderia ganhar o contrato. Era capaz de suportar a dispendiosa aposta devido aos subsídios do governo chinês.
Nos Estados Unidos, é claro, a maioria das fábricas não poderia ter contado com o governo americano para o mesmo tipo de apoio. Aqui, os conservadores gostam de argumentar que o governo não deveria estar no processo de " selecção dos vencedores e dos perdedores." Mas é isso o que os nossos concorrentes têm estado a fazer desde há décadas e com grande sucesso. Tanto a Alemanha como o Japão são países que se levantaram das cinzas da Segunda Guerra Mundial e se reconstruíram como potências industriais em grande parte graças à cuidadosa gestão da política industrial do governo. A China tem feito o mesmo no século 21. No entanto, como o escândalo em torno de fabricante de painéis solares Solyndra nos mostrou, uma grande parte da população americana está ainda profundamente pouco à vontade com esta ideia de uma política industrial.
A parte irónica é que, embora os conservadores se oponham à ideia de uma política federal industrial activa, eles são muito confortáveis com ela ao nível estatal. Os Estados do sul como Alabama e Tennessee ganharam uma grande arte em atrair cadeias de montagem de automóveis de empresas estrangeiras com a promessa de milhões em incentivos fiscais e outras regalias. Em vez de colocar o forte e inigualável peso do governo federal a funcionar como grande suporte da nossa base industrial, temos apenas esforços dispersos por 50 estados.
Quando e para onde a Apple vai, os outros também vão
Os fabricantes têm o hábito de acompanhar quem está na liderança do processo industrial. Ou mais precisamente, seguem o cliente, especialmente quando o cliente é outra empresa industrial.
De novo, isto é o resultado natural da necessidade de estar perto da cadeia de abastecimento. O artigo do NYT centra-se em Corning, empresa situada a norte do estado de Nova York que produz o vidro de alta resistência utilizado nos ecrãs do iPhone e de outros smartphones que deslocaram grande parte da sua produção para o Japão e para Taiwan, a fim de estarem mais perto de seus compradores.
Os nossos clientes estão em Taiwan, Coreia, Japão e China ", disse James B. Falhas, presidente da Corning e vice-director financeiro." Nós poderíamos fazer o vidro de alta resistência aqui, e então enviá-lo de barco, mas isso leva 35 dias. Ou, poderíamos enviá-lo por via aérea, mas isso é 10 vezes mais caro. Então, vamos construir as nossas fábricas de vidro na porta ao lado para as fábricas de montagem e não no seu exterior.
Como mostra a história de Corning, as indústrias estão muitas vezes ligadas de maneiras inesperadas. Porque a fabricação de produtos electrónicos de consumo final se deslocalizou, os Estados Unidos estão agora a perder empregos na produção de vidro de alta resistência. Se uma empresa como a Apple se desloca para o exterior, as outras empresas acompanham-na.
Jordan Weissmann, Why the United States will never, ever build the iPhone, The Atlantic, 24 de Janeiro de 2012.
Capitulo I. Retratos da Desindustrialização
1.10- O problema do trabalho escravo chinês para a Apple e para a América
KARL DENNINGER
Se ainda não leu este artigo, deve fazê-lo. Ele é apresentado como uma explicação "porque é que a classe média é espremida" na América, com a premissa de que outrora já fomos suficientemente grandes para ser a força motriz da indústria transformadora do mundo, mas já não o somos e quanto a isso a culpa é nossa.
Errado.
Comecemos com este exemplo. Não há ainda muito tempo, que a Apple se vangloriava de que os seus produtos eram feitos na América. Hoje, poucos o são. Quase todos os 70 milhões de iPhones, 30 milhões de iPads e 59 milhões de outros produtos vendidos pela Apple no ano passado foram fabricados no exterior.
Porque não se traz estes empregos para os Estados Unidos, perguntou Obama.
A resposta de Jobs foi inequívoca. "Os empregos não vão voltar", respondeu ele, de acordo com outro convidado no jantar.
Ok, então porque não?
Será porque os chineses são mais inteligentes?
Será porque perdemos a nossa capacidade de termos bons resultados na indústria transformadora?
Será por causa da nossa estrutura fiscal?
Em suma, onde é que está a nossa culpa?
Numa palavra: não.
Isto, meus amigos, é porque:
Os executivos da Apple dizem que têm estado actualmente a ir produzir no estrangeiro , porque isso é a sua única opção. Um antigo director descreveu como como é que a Apple dependeu de uma fábrica chinesa para renovar a sua fabricação dos iPhone poucas semanas antes de o produto chegar para ser posto nas prateleiras das lojas para venda. A Apple tinha redesenhado o ecrã já na última hora, forçando a que uma cadeia de montagem fosse também ela e por essa razão renovada. Os novos ecrãs começaram a chegar à fábrica já perto da meia-noite.
Um encarregado da produção imediatamente acordou 8.000 trabalhadores dentro dos dormitórios da empresa, segundo este antigo director.. Cada empregado recebeu um biscoito e uma chávena de chá, foi enviado para um posto de trabalho, de montagem, e no espaço de meia hora começou um turno de 12 horas a colocar ecrãs de vidro em quadros chanfrados. No espaço de 96 horas, a fábrica estava a produzir mais de 10.000 iPhones por dia.
A velocidade e a flexibilidade é de tirar o fôlego ", disse este executivo. "Não há nenhuma fábrica norte-americana que possa fazer o mesmo".
É fácil ser "rápido" e "flexível" quando efectivamente se tratam os seus próprios "empregados" como escravos!
Quantos dos leitores perceberam bem o parágrafo anterior? À meia-noite, sem aviso, o encarregado da fábrica entrou nos dormitórios em que os trabalhadores estavam a dormir, despertou-os e efectivamente obrigou-os a trabalhar um turno de 12 horas, com nada mais do que um biscoito e uma chávena de chá.
Alguém conseguiu isso? Esses não são empregados, eles são escravos.
Afinal, eram estes empregados que estariam a trabalhar por salários grandes, certo? Uh, talvez não.
Estas instalações da (Foxconn) têm 230.000 empregados, muitos trabalham seis dias por semana, muitas vezes a trabalharem até 12 horas por dia na fábrica. Mais de um quarto da força de trabalho da Foxconn vive em regime de internato nas instalações da empresa e muitos trabalhadores ganham menos de US $ 17 por dia. Quando um executivo da Apple chegou durante uma mudança de turno, o seu carro ficou bloqueado por um rio de empregados a saírem em bicha contínua. . "A escala é inimaginável", disse ele.
A parte inimaginável disto tudo é que esses empregados são escravos. A nação comunista pode ir longe com esse tipo de coisas. Eles podem, e fazem-no, impedir a organização desses trabalhadores num bloco de negociação consolidada, prendendo ou simplesmente fazendo "desaparecer " quem o tenta. Uma greve coordenada é impossível, o que significa que não há equilíbrio de poderes entre o trabalho e o capital.
Este poder não vem de forças económicas naturais. Este vem, literalmente, do cano de uma arma.
Empresas como a Apple ", dizem que o grande problema em estabelecer fábricas nos Estados Unidos é que aqui não se encontra uma força de trabalho técnica capaz", disse Martin Schmidt, reitor associado do Massachusetts Institute of Technology. Em particular, as empresas dizem que precisam de engenheiros com mais do que ensino médio como formação de base , mas não necessariamente com um grau de licenciatura no MIT ou outras. Os americanos a este nível de formação são difíceis de encontrar, dizem os executivos destas empresas. "Há bons empregos, mas o país não tem em número suficiente os quadros técnicos capazes de alimentar a procura", disse Schmidt.
Está a estudar este país, a América? Como se podem ver e compatibilizar os custos da formação universitária a subir o dobro ou mesmo mais do que a taxa de inflação e níveis esmagadores da dívida com a premissa de uma força de trabalho tecnicamente treinada? É impossível.
Nas duas últimas décadas, algo de muito mais fundamental mudou, dizem os economistas. Os empregos de salários médios começaram a desaparecer. Especialmente entre os americanos sem formação universitária, os novos postos de trabalho de hoje são desproporcionalmente em ocupações no sector dos serviços - em restaurantes ou em call centers, ou como funcionários do hospital ou ainda trabalhadores temporários - que oferecem muito menos possibilidades de se ascender à classe média.
Os princípios do mercado livre são mesmo muito bons até que as pessoas começam a utilizar o trabalho escravo numa base efectiva, em paralelo com a degradação ambiental, como sendo o "progresso". E não vamos poupar as palavras: Isto foi o que na verdade aconteceu.
Dada a ausência de uma interferência intencional no nosso sistema monetário e económico de ambos os lados do Pacífico o que tem estado a acontecer não se pode manter, não pode ser sustentado. Os americanos não podem andar a comprar iPhones sem dinheiro para gastar com eles e também não podem ter esses fundos na ausência do "crédito livre" e sem esquemas de Ponzi ou sem bons empregos.
Por outras palavras, ausente a distorção intencional que é possibilitada através dos enormes défices orçamentais, Estado a Estado, a nível dos governos local e federal o que aconteceu não pode pois ser imediatamente auto-corrigido. Henry Ford percebeu isso - é por isso que ele pagou aos seus funcionários o suficiente para que pudessem comprar um dos seus carros! Ele não só levou á redução dos custos de produção de um carro, ele aumentou o salário dos operário modestamente qualificados para que eles pudessem comprar um. Henry Ford assumiu todas as vantagens que descobriu na automação e na indústria transformadora com beneficio também para os trabalhadores de modo que o excedente económico total seria redistribuído e destinado parte dele adicionalmente para a compra dos seus produtos, e de outros também.
Isso é o que significa a melhoria na produtividade, é o que dá força à deflação natural que é o estado normal de todas as economias ao longo do tempo, e traz consigo melhorias em comum quanto ao padrão de vida para a maioria das pessoas.
"Nós não devemos ser criticados por utilizar trabalhadores chineses", disse um executivo actual da Apple. "Os EUA deixaram de estar a criar pessoas com as competências de que nós precisamos."
O que a Apple (e outras empresas) querem são empregados que estão alojados em dormitórios, que podem ser acordados à meia-noite para trabalhar de seguida num turno de 12 horas na base de uma ordem e alimentados apenas com uma chávena de chá e dez cêntimos de biscoitos, pagando-lhes US $ 17 por dia.
Isto é o que a Apple e as outras empresas exigem.
É absolutamente verdade que a América não pode satisfazer esta exigência, uma vez que a um dólar por hora não se consegue colocar a comida na sua mesa para uma família de quatro pessoas, digamos, muito menos pagar renda, electricidade ou a gasolina para o carro, para ir trabalhar e voltar!
"Nós vendemos iPhones em mais de uma centena de países", disse um actual executivo da Apple. "Nós não temos a obrigação de resolver os problemas da América. A nossa única obrigação é fazer o melhor produto possível. "
Isso é absolutamente verdadeiro. Mas os Estados Unidos continuam a ser um mercado monstruosamente grande e a América não tem nenhuma obrigação em permitir a entrada de produtos para este país sem tarifas ou impostos enquanto ao mesmo tempo se está a explorar a existência de governos autoritários e a degradar o meio ambiente.
A tarifa de 100% sobre todos os produtos estrangeiros produzidos ou montados por Apple pode ser uma decisão fácil - isso tem a ver realmente com a disponibilidade de uma força de trabalho, caso que parece não interessar à Apple, ou isto tem a ver realmente com a exploração da escravatura patrocinada pelo Estado?
KARL DENNINGER, Apple (and America’s) Chinese Slave Labor Problem, 23 de Janeiro de 2012.
Source: Market Ticker
Capitulo I. Retratos da Desindustrialização
1.9 Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone - III
CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER
(Continuação)
Dias de pagamento para a Apple
Como as operações no exterior da Apple e as suas vendas se expandiram, os seus funcionários de topo têm prosperado. No último ano fiscal, os rendimentos da Apple ultrapassaram 108 mil milhões de dólares, uma soma maior do que o orçamento do Estado combinado de Michigan, Nova Jersey e Massachusetts. Desde 2005, quando as acções da Apple foram distribuídas o valor destas subiram de 45 dólares para mais de 427 dólares.
Alguma desta riqueza foi distribuída pelos accionistas. A Apple está entre as empresas com as acções mais valorizadas e a subida do valor das suas acções tem beneficiado milhões de investidores individuais, 401 (k) 's e planos de pensão de reforma. A recompensa também tem melhorado a posição dos trabalhadores da Apple. No último ano fiscal, para além dos seus salários, os empregados da Apple e os seus directores receberam acções no valor de 2 mil milhões de dólares e exercerem as suas stock options ou investiram em acções num valor adicional 1,4 mil milhões de dólares.
As maiores recompensas, no entanto, têm ido frequentemente para os altos funcionários da Apple. Cook, chefe da Apple, recebeu no ano passado como valor da oferta de acções - que investiu sobre um período de 10 anos –que ao preço de hoje valem 427 milhões de dólares e o seu salário foi elevado para 1,4 milhões. Em 2010,.o envelope das remunerações globais de Cook foi avaliado em 59 milhões, de acordo informações vindas da Apple.
Uma pessoa próxima da Apple argumentou que as remunerações recebidas pelos empregados da Apple foram justas, em parte porque a empresa tinha obtido muitíssima riqueza para a nação e para o mundo. Como a empresa tem crescido, esta tem aumentado o seu volume de emprego na América, incluindo empregos na indústria transformadora. No ano passado, a força de trabalho americana na Apple cresceu de 8.000 pessoas.
Enquanto outras empresas enviam os seus call centers para o exterior, a Apple manteve os seus centros nos Estados Unidos. Uma fonte estima que as vendas de produtos da Apple deve ter levado a que outras empresas tenham contratado dezenas de milhares de americanos. FedEx e a United Parcel Service, por exemplo, dizem ambas terem criado empregos nos Estados Unidos por causa do volume de produtos da Apple transportados, embora nenhuma delas tenha fornecido dados específicos sem a permissão da Apple, o que a empresa se recusou a permitir.
"Nós não devemos ser criticados por empregarmos trabalhadores chineses", disse um actual alto-quadro da Apple. "Os EUA deixaram de formar pessoas com as competências de que precisamos."
Além disso, fontes da Apple dizem que a empresa criou muitíssimos bons empregos aos americanos nas lojas de venda ao consumidor entre os empresários que venda aplicações para os iPhone e os iPad.
Depois de dois meses de testes sobre os iPads, Eric Saragoza saiu. O salário era tão baixo que ele estava melhor, assim o pensou, passando o tempo à procura de outros empregos. Numa noite de Outubro passado Saragoza sentou-se com o seu MacBook e submeteu mais uma rodada de currículos on-line, para quase meio mundo quando uma mulher chegou ao seu escritório. A trabalhadora, Lina Lin, é uma gestora de projecto em Shenzhen, China, em PCH International, que tem contratos com a Apple e com outras empresas de material electrónico para coordenar a produção de acessórios, como as capas que protegem os visores em vidro do iPad. Ela não é uma funcionária da Apple. Mas Lina Lin é parte integrante da capacidade da Apple para oferecer os seus produtos.
A senhora Lin ganha um pouco menos do que Eric Saragoza ganhava quando pago pela Apple. Ela fala fluentemente inglês, língua que aprendeu a ver televisão e numa universidade chinesa. Ela e o seu marido colocavam mensalmente um quarto dos seus salários numa conta bancária. Eles vivem num minúsculo apartamento que compartilham com os seus sogros e o filho.
Há muitos empregos ", disse Lin. "Especialmente em Shenzhen."
Perdedores da inovação
Já quase para o fim do jantar de Obama com Jobs e os outros executivos de Silicon Valley, no ano passado, quando toda a gente se levantou para sair, o Presidente foi rodeado por uma multidão de gente a querer tirar uma fotografia ao seu lado. Um grupo ligeiramente menor rodeou Steve Jobs. Os rumores tinham-se difundido de que a sua doença piorara, e alguns esperavam para ter uma fotografia com ele, talvez pela última vez.
.Eventualmente, tratava-se de órbitas de homens sobrepostos. "Não estou preocupado com o futuro do país a longo prazo", disse Obama a Steve Jobs, segundo um observador. "Este país é espantosamente grande. O que me preocupa é o facto de não falarmos o suficiente sobre as soluções. "
No jantar, por exemplo, os altos quadros das grandes empresas americanas sugeriram que o governo deveria reformar os programas de vistos de entrada para ajudar as empresas a contratar engenheiros estrangeiros. Alguns sugeriram mesmo ao presidente que desse às empresas um "feriado fiscal" para que elas pudessem regressar com os seus lucros do exterior, o que, segundo eles, poderia ser utilizado para criar postos de trabalho. Steve Jobs ainda sugeriu que ainda poderia vir a ser possível, algum dia, relocalizar alguns dos produtos da Apple tecnologicamente muito evoluídos nos Estados Unidos se o governo ajudasse a formar mais engenheiros americanos.
Os economistas debatem a utilidade destes e de outros esforços, e note-se que uma economia em dificuldades é, por vezes, transformada por desenvolvimentos inesperados. Os analistas na última vez torciam as mãos sobre o desemprego americano prolongado, o desemprego de longa duração, por exemplo, no início de 1980 quando a Internet praticamente não existia. Poucos na época teriam imaginado que uma licenciatura em design gráfico se tenha tornando rapidamente numa aposta inteligente, enquanto que aqueles que estudavam matérias sobre a reparação de telefones entravam para um beco sem saída.
O que permanece desconhecido, contudo, é se os Estados Unidos serão no futuro imediato capazes de alavancar inovações que gerem milhões de empregos.
Na última década, os grandes saltos tecnológicos na energia solar e eólica, na fabricação de semicondutores e nas tecnologias de imagem criaram milhares de empregos. Mas, enquanto muitas daquelas indústrias nasceram nos Estados Unidos, muito do emprego gerado ocorreu no exterior. As empresas têm fechado grandes instalações nos Estados Unidos para reabrirem na China. A título de exemplo, os dirigentes das grandes empresas dizem-nos que estão a concorrer com a Apple a favor dos accionistas. Se eles não podem competir em crescimento e em margens de lucro com a Apple então eles não irão sobreviver.
"Os empregos para a nova classe média estarão talvez a aparecer ", disse Lawrence Katz, um economista de Harvard. "Mas será que alguém na casa dos seus 40 anos tem a formação profissional que lhes seja adequada? Ou será que vai ser ultrapassado por um novo graduado e nunca irá reencontrar o seu caminho de regresso à classe média?
O ritmo da inovação, dizem os altos dirigentes de um largo leque de indústrias, tem sido acelerado por empresários como Steve Jobs. A empresa G.M. gastou perto de metade de uma década apenas para redesenhar os seus principais carros. A Apple, por comparação, lançou cinco iPhones em quatro anos e enquanto com isso dobrava a velocidade dos dispositivos de memória e fazia descer deixar cair o preço que alguns consumidores pagam.
Antes de Obama e Jobs se dizerem Até à próxima o executivo da Apple tirou do bolso um iPhone para mostrar uma nova aplicação - um jogo de condução - com gráficos incrivelmente detalhados. O dispositivo reflectia o brilho suave das luzes da sala. Os outros executivos, cujo valor combinado ultrapassava os 69 mil milhões de dólares, empurraram-se para conseguirem ver melhor e olhar por cima do ombro. O jogo, todos concordaram, era maravilhoso.
Não havia mesmo nenhum risco, por mínimo que fosse , no visor do iPhone.
David Barboza, Peter Lattman and Catherine Rampell contributed reporting. New York Times.
Capitulo I. Retratos da Desindustrialização
1.9 Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone - II
CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER
(Continuação)
Na cidade Foxconn
A oito horas de carro desta fábrica de vidros está um complexo conhecido de modo informal como Foxconn City, onde o iPhone é montado. Para os executivos da Apple, Foxconn City é mais uma prova de que a China poderia disponibilizar trabalhadores – assim como outras vantagens - que ultrapassam as suas contrapartes americanas.
Digamos, não existe nada como a Foxconn City nos Estados Unidos.
A instalação fabril tem 230 mil empregados em que muitos deles trabalham seis dias por semana, muitas vezes estando até 12 horas por dia na fábrica. Mais de um quarto dos trabalhadores da Foxconn vive em instalações – dormitórios da empresa e muitos trabalhadores ganham menos de US $ 17 por dia. Quando um alto-quadro da Apple veio a Foxconn City durante uma mudança de turno, o seu carro ficou bloqueado num rio de gente em filas continuas e compactas de funcionários a saírem. "A escala aqui é para nós inimaginável", disse ele.
A Foxconn emprega cerca de 300 guardas que irão orientar o trânsito dos peões para que os trabalhadores não sejam esmagados em engarrafamentos junto às portas de entrada e de saída. As instalações da cozinha central permitem que se confeccione uma média de três toneladas de carne de porco e de 13 toneladas de arroz por dia. Enquanto as fábricas são impecáveis, o ar dentro das casas de chá próximas é nebuloso com o fumo e o cheiro de cigarros.
Foxconn Technology tem dezenas de instalações na Ásia e na Europa Oriental, assim como no México e no Brasil, e estima-se que faz a montagem de mais de 40 por cento dos produtos electrónicos de consumo final no mundo para clientes como a Amazon, Dell, Hewlett-Packard, Motorola, Nintendo, Nokia, Samsung e Sony.
"Eles poderiam empregar 3.000 pessoas durante a noite", disse Jennifer Rigoni, que era o gestor do aprovisionamento mundial da Apple até 2010, mas que se recusou a discutir detalhes específicos de seu trabalho. " Qual é a fábrica nos EUA que pode encontrar 3.000 pessoas para trabalhar durante a noite e convencê-los a viver em dormitórios?"
Em meados de 2007, depois de um mês de experiências, os engenheiros da Apple finalmente aperfeiçoaram um método para o corte de vidro reforçado e de alta resistência para que este pudesse ser usado nos ecrãs do iPhone. Os primeiros camiões com este vidro de alta resistência destinados ao corte chegaram à Foxconn City na calada da noite, de acordo com o ex-executivo da Apple. Foi então aí que os capatazes acordaram milhares de trabalhadores, que se arrastaram nos seus uniformes - camisas brancas e pretas para os homens, vermelho para as mulheres - e rapidamente se alinharam para montar, manualmente os telefones. No prazo de três meses, a Apple tinha já vendido um milhão de iPhones. Desde então, a Foxconn já montou mais 200 milhões de iPhone’s.
Foxconn, em declarações, recusa-se a falar sobre clientes específicos.
"Qualquer trabalhador recrutado pela nossa empresa é coberto por um contrato claro definindo os termos e as condições estabelecidas pelas leis do governo chinês, que protege os seus direitos", escreveu a empresa. A empresa Foxconn " leva muito a sério a responsabilidade assumida face aos nossos empregados e nós trabalhamos muito duro para poder dar aos nossos mais de um milhão de empregados um ambiente seguro e positivo."
A empresa contestou alguns detalhes que nos foram comunicados pelos antigos altos‑quadros da Apple e escreveu que um turno da meia-noite como o descrito, era impossível ", porque temos normas rígidas em relação à jornada de trabalho dos nossos empregados com base na especificação dos seus turnos e cada funcionário tem cartões de ponto informatizados que os impediriam de trabalhar em qualquer instalação num horário fora do turno que lhe foi atribuído. "A empresa disse que todos os turnos começam às 7 horas ou às 7h e 30 min e que os empregados recebem com uma antecedência mínima de 12 horas a informação sobre qualquer mudanças de horários.
Funcionários da Foxconn, em entrevistas, têm contestado estas afirmações.
Outra vantagem importante para a Apple era de que a China dispunha de engenheiros e numa escala que os Estados Unidos não poderiam igualar. Os directores de Apple tinham estimado que cerca de 8.700 engenheiros industriais seriam necessários para supervisionar e orientar a linha de montagem de 200 mil trabalhadores que possivelmente estariam envolvidos na fabricação dos iPhones. Os analistas da empresa havia estimado que seria necessário gastar até cerca de nove meses para encontrar esta quantidade de engenheiros qualificados nos Estados Unidos.
Na China, foram necessários 15 dias.
Empresas como a Apple dizem que o grande problema em instalar fábricas nos Estados Unidos está no facto que aqui não se encontra uma força de trabalho técnica capaz", disse Martin Schmidt, reitor associado do Massachusetts Institute of Technology. Em particular, as empresas dizem que precisam de engenheiros com mais do que ensino secundário como formação de base, mas não necessariamente com um grau de licenciatura- mas sim com boa formação técnica superior mas curta. Os americanos a este nível de formação são difíceis de encontrar, dizem os executivos destas empresas. "Há bons empregos, mas o país não tem em número suficiente os quadros técnicos capazes de alimentar a procura", disse Schmidt.
Alguns aspectos do iPhone são exclusivamente americanos. O software do iPhone, por exemplo, e as suas inovadoras campanhas de marketing foram em grande parte criadas nos Estados Unidos. A Apple recentemente construiu um centro de dados que lhe custou cerca de 500 milhões na Carolina do Norte. Os semicondutores fundamentais que estão dentro do iPhone 4 e 4S são fabricados numa fábrica de Austin, no Texas, pela Samsung, da Coreia do Sul.
Mas mesmo estas instalações não são enormes fontes de empregos. O centro da Apple na Carolina do Norte, por exemplo, tem apenas 100 funcionários em tempo integral. A fábrica Samsung tem cerca de 2.400 trabalhadores.
"Se se passa da produção e venda de um milhão de telefones para 30 milhões de telefones, não se precisa verdadeiramente de mais programadores", disse Jean-Louis Gassée, que supervisionou o desenvolvimento de produtos e marketing da Apple até que ele abandonou a Apple em 1990. "Todas essas novas empresas – Facebook, Google, Twitter- beneficiam disto. Eles crescem, mas na verdade não precisam de contratar mais gente. "
É difícil estimar quanto custaria a mais a produção dos iPhones se a sua fabricação fosse feita nos Estados Unidos. No entanto, vários académicos e analistas estimam que, uma vez que o trabalho é apenas uma pequena parte dos custos de fabricação dos produtos de alta tecnologia, o pagamento em salários americanos teria um custo adicional na ordem dos 65 dólares por cada iPhone. Dado que os lucros da Apple por iPhone são frequentemente de centenas de dólares a fabricação feita nos Estados Unidos, em teoria, poderia ainda continuar a dar um bom lucro à Apple.
Mas esses cálculos são, em muitos aspectos, sem sentido, porque a fabricação do iPhone nos Estados Unidos exigiria muito mais do que a contratação de norte-americanos - seria necessário transformar tanto a economia nacional como a economia global. Os directores de Apple acreditam que pura e simplesmente não há trabalhadores americanos qualificados em número suficiente para satisfazer as necessidades da empresa em termos de formação técnica que a empresa precisa nem fábricas com suficiente capacidade de resposta, em rapidez e em flexibilidade. Outras empresas que trabalham com a Apple, como a Corning, também dizem que deve ir produzir no estrangeiro.
A fabricação de vidro reforçado para o iPhone fez renascer uma fábrica da Corning em Kentucky, e hoje, grande parte do vidro utilizado em iPhones ainda aí é feita. Depois do iPhone se ter tornado um sucesso, Corning recebeu uma enxurrada de ordens de encomenda de outras empresas na esperança de conseguirem imitar o design da Apple. As suas vendas de vidro reforçado têm crescido para mais de US $ 700 milhões por ano, e tem empregado e continuam a empregar mais de 1.000 norte-americanos para apoiar o mercado emergente.
Mas como esse mercado se tem expandido muito, a produção adicional de vidro reforçado de alta resistência de fabrico Corning tem-se feito em fábricas no Japão e Taiwan.
"Os nossos clientes estão em Taiwan, na Coreia, Japão e China", disse James B. Flaws, vice-presidente da Corning e seu director financeiro. "Poderíamos fazer o vidro aqui, e enviá-lo por barco, mas isso leva cerca de 35 dias. Ou, poderíamos enviá-lo por via aérea, mas isso é 10 vezes mais caro. Assim, construímos as nossas próprias fábricas de vidro reforçado perto das fábricas de montagem e estas estão no exterior. "
A empresa Corning foi fundada na América há 161 anos e a sua sede está ainda em Nova York. Teoricamente, a empresa poderia fabricar todo o seu vidro reforçado no espaço americano. Mas isso "exigiria uma reformulação total na forma como está estruturado o sector," disse Flaws. "O sector de produtos electrónicos de consumo final tornou-se uma actividade da Ásia. Como americano, eu lamento que assim seja, mas não há nada que eu possa fazer para travar este movimento. A Ásia passou a ser o que os Estados Unidos foram nos últimos 40 anos."
A classe media desfeita
A primeira vez que Eric Saragoza entrou na fábrica da Apple em Elk Grove, Califórnia, ele sentiu-se como se estivesse a entrar num mundo maravilhoso dos produtos da engenharia.
Estávamos em 1995, e as instalações fabris de Sacramento empregavam mais de 1.500 trabalhadores. Era um caleidoscópio de braços de robôs, das correias transportadoras a movimentarem placas de circuito e, eventualmente, computadores multicores com o símbolo iMac em várias fases de montagem. Eric Saragoza, um engenheiro, rapidamente subiu na escala do pessoal de engenharia e juntou-se a uma equipe de elite em análise de qualidade. O seu salário subiu para cerca de US $ 50.000. Ele e sua esposa tiveram três filhos. Eles compraram uma casa com piscina.
"Parecia que, finalmente, a escola estava a ser compensadora ", disse ele. "Eu sabia que o mundo quer pessoas que saibam construir coisas".
Ao mesmo tempo, no entanto, a indústria electrónica estava a mudar e Apple - com produtos que estavam em declínio de popularidade - estava a lutar para se refazer, para se recompor. Uma das preocupações maiores era a necessidade de modificar as linhas de produção e montagem. Poucos anos depois de Eric Saragoza ter começado o seu trabalho, os seus superiores explicaram-lhe porque é que a fábrica da Califórnia empilhava produtos contra o que acontecia com as fábricas no exterior: o custo, excluindo os materiais, em construir um computador de 1.500 dólares em Elk Grove foi de 22 dólares por máquina enquanto que em Singapura, era de 6 dólares e em Taiwan, eram apenas de 4,85 dólares. Os salários não foram a principal razão para as disparidades. Pelo contrário, eram bem maiores os custos na armazenagem e a diferença de tempo gasto a cumprir cada tarefa, os ritmos de trabalho, digamos.
"Disseram-nos que teríamos que fazer 12 horas por dia, e que tínhamos que trabalhar também aos sábados" disse Eric Mr. Saragoza. "Eu tinha uma família. Eu queria ver os meus filhos jogar futebol.
A modernização sempre provocou que alguns tipos de empregos mudem ou desapareçam mesmo. Como a economia americana tinha transitado da agricultura para a indústria transformadora e, em seguida, para outras indústrias, os agricultores deram em metalúrgicos, em seguida, em vendedores e gerentes de nível médio. Estas mudanças trouxeram muitos benefícios económicos e, em geral, com cada progressão, mesmo os trabalhadores não qualificados recebiam salários melhores e tinham maiores possibilidades de mobilidade ascendente.
Mas nas últimas duas décadas, algo de mais fundamental mudou, dizem os economistas. Os empregos de salários médios começaram a desaparecer. Especialmente entre os americanos sem formação universitária, os novos postos de trabalho de hoje são de forma desproporcional em ocupações de serviços - em restaurantes ou call centers, ou ainda como funcionários do hospital ou de trabalhadores temporários - que oferecem menos oportunidades de mobilidade ascendente, menores possibilidades para se atingir a classe média.
Mesmo Eric Saragoza, com o seu diploma universitário, estava a ficar vulnerável a essas tendências. Em primeiro lugar, algumas das tarefas de rotina da fábrica de Elk Grove eram enviadas para o exterior. Mr. Saragoza não as questionava. Então a robótica que fez de Apple uma base futurista permitiu aos executivos substituírem trabalhadores com máquinas. Alguns engenheiros de diagnóstico foram para Singapura. Gestores de formação média que supervisionavam as existências da fábrica foram demitidos porque, de repente, algumas pessoas apenas e com ligações à Internet faziam tudo o que fosse necessário.
Eric Saragoza era muito caro para uma posição de não-qualificado, agora. Ele também foi insuficientemente credenciado pelos seus superiores. Ele foi chamado a um pequeno escritório em 2002 depois de um turno da noite, foi demitido e, em seguida, acompanhado até à saída da fábrica. Foi dar aulas no ensino secundário durante algum tempo, e depois tentou um regresso para as tecnologias. Mas a Apple, que tinha ajudado a “chupar” a região conhecida como " Silicon Valley North ", já tinha então convertido grande parte da fábrica de Elk Grove num call center AppleCare, onde muitos dos novos empregados ganhavam cerca de US $ 12 por hora.
.Havia perspectivas de emprego no Silicon Valley, mas nenhum destes empregos foi para ele visível. "O que eles realmente querem são pessoas com 30 anos de idade sem filhos", disse Saragoza, que hoje tem 48 anos e cuja família agora inclui cinco dos seus filhos.
Depois de alguns meses de andar à procura de trabalho, ele começou a sentir-se desesperado. Os empregos até no ensino tinham desaparecido. Então ele assinou um contrato com uma agência de empregos temporários para a electrónica em que ele tinha sido contratado pela Apple para verificar iPhones e iPads que vieram devolvidos e antes que fossem reenviados de volta aos seus clientes. Todos os dias, Eric Saragoza levaria para o edifício onde tinha trabalhado como engenheiro, e por US $ 10 por hora, sem benefícios sociais, milhares de ecrãs de vidro limpos e testado ligações de áudio ligando os auscultadores.
(Continua)
Capitulo I. Retratos da Desindustrialização
1.9 Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone - I
CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER
Quando Barack Obama se juntou às luminárias de topo para jantar em Silicon Valley na Califórnia em Fevereiro passado, foi solicitado a cada convidado que colocasse uma questão ao presidente.
Mas, quando Steven P. Jobs, da Apple falou, o presidente Obama interrompeu-o com uma pergunta pessoal: o que seria necessário fazer para que os iPhones fossem produzidos nos Estados Unidos?
Há não muito tempo atrás, a Apple vangloriava-se de que os seus produtos eram feitos nos Estados Unidos. Hoje, poucos são. Quase todos os 70 milhões de iPhones, 30 milhões de iPads e 59 milhões de outros produtos da Apple vendidos no ano passado foram fabricados no exterior.
Porque é que não se produzem nos Estados Unidos? Perguntou Obama.
A resposta de Jobs foi inequívoca. "Os empregos já não vão voltar", disse ele, de acordo com outro convidado do jantar.
A questão levantada pelo Presidente centrou-se sobre uma convicção central na Apple. Não é exactamente porque os trabalhadores são mais baratos no exterior. Em vez disso, os directores da Apple acreditam que a vasta escala de fábricas no exterior, bem como a sua flexibilidade e o maior empenho dos trabalhadores como também as capacidades profissionais dos trabalhadores estrangeiros tudo isto têm até ultrapassado as suas congéneres americanas de tal modo que o "Made in EUA" deixou já de ser uma opção viável para a maioria dos produtos Apple.
A Apple tornou-se uma das empresas mais conhecidas, mais admirados e mais imitadas no Mundo, em parte através de um domínio inflexível e inultrapassável sobre as operações realizadas a nível global. No ano passado, os seus lucros foram mais de $ 400.000 de lucro por empregado, mais que a Goldman Sachs, Exxon Mobil ou Google.
Entretanto, o que tem irritado o Presidente Obama assim como muitos economistas e decisores da política económica é o facto de que a Apple - e muitos dos seus pares nas indústrias e serviços da alta tecnologia – estão, quanto à criação de empregos nos Estados Unidos muito longe do empenho na criação de empregos que tiveram outras empresas famosas quando estavam no seu apogeu.
A Apple emprega 43.000 pessoas nos Estados Unidos e 20.000 no exterior, uma pequena fracção dos mais de 400.000 trabalhadores norte-americanos da General Motors na década de 1950, ou das centenas de milhares na General Electric em 1980. Muitas mais pessoas trabalham para a Apple: este valor deve estar próximo das 700 mil pessoas, como engenheiros, como trabalhadores, industriais fabris ou ainda como instalações de cadeias de montagem de iPads, iPhones e outros produtos da Apple. Mas quase nenhum deles funciona nos Estados Unidos. Em vez disso, trata-se de pessoal que trabalha para empresas estrangeiras na Ásia, Europa e noutros lugares, em fábricas de que quase todos os designers de material electrónico do Ocidente dependem para produzir construir os seus produtos.
"A Apple é um bom exemplo de como é tão difícil criar empregos para a classe média actualmente nos EUA ", disse Jared Bernstein, que até ao ano passado era um dos conselheiros económicos da Casa Branca.
Se isto é o auge do capitalismo, devemos então estar muito preocupados.
Os directores da Apple dizem que o facto de estarem a ir produzir no exterior é, neste momento, é sua única opção. Um antigo director descreveu como é que a empresa dependeu de uma fábrica chinesa para renovar a fabricação do iPhone poucas semanas antes de o produto estar à venda nas prateleiras das lojas. A Apple tinha redesenhado o ecrã do iPhone, já na última da hora, forçando mesmo uma revisão urgente na linha de montagem. Os novos ecrãs começaram a chegar à fábrica perto da meia-noite.
Um capataz imediatamente despertou 8.000 trabalhadores que dormiam nos dormitórios da empresa, segundo este mesmo executivo. Cada um destes trabalhadores recebeu um biscoito e uma chávena de café, foi mandado para um posto de trabalho na cadeia de montagem, para uma estação de trabalho, e dentro de meia hora começaram um turno de 12 horas seguidas na montagem dos ecrãs em quadros chanfrados. No espaço de 96 horas, a fábrica estava a produzir mais de 10.000 iPhones por dia.
“A rapidez e a flexibilidade são impressionantes”, diz o executivo. “Nenhuma fábrica na América consegue ou pode fazer isso".
Histórias similares poderiam ser contadas sobre quase qualquer outra empresa de produtos electrónicos - e a externalização também se tornou comum em centenas de outras indústrias, incluindo a contabilidade, os serviços jurídicos, os serviços bancários, a produção de automóveis e produtos farmacêuticos.
Mas enquanto a Apple está longe de estar sozinha, esta oferece uma janela para sublinhar e muito que o sucesso de algumas empresas proeminentes não se traduziu num grande número de empregos criados internamente, nos Estados Unidos. Além do mais, as decisões da empresa colocam questões mais amplas sobre a forma como a América das grandes empresas, das grandes corporações leva a que os americanos assim como as economias nacionais estejam todos a nível global cada vez mais interligados.
"As empresas antes sentiam a obrigação de apoiar os trabalhadores americanos, mesmo quando não isso não era a melhor opção financeira", disse Betsey Stevenson, o economista-chefe do Departamento do Trabalho, até Setembro do ano passado. "Essa forma de sentir e agir desapareceu. A maximização dos lucros e a ideia de eficiência deram cabo da generosidade. "
As empresas e outros economistas dizem que essa noção é ingénua. Embora os americanos estejam entre os trabalhadores com mais formação a nível mundial, o país deixou de formar suficientemente as pessoas ao nível da formação intermédia que as fábricas precisam, dizem os directores destas grandes empresas.
Para prosperarem, para se desenvolverem, as empresas argumentam que precisam de deslocalizar a produção onde esta possa gerar lucros suficientes para continuar a poder manter os custos da inovação. Fazer o contrário seria correr o risco de perder ainda mais empregos para os trabalhadores americanos ao longo do tempo, como é evidenciado pelas legiões de fabricantes nacionais outrora orgulhosos - incluindo a GM e outros - que têm diminuído com o aparecimento de concorrentes muito ágeis.
À Apple foram fornecidas diversos excertos da reportagem organizada pelo New York Times para este artigo, mas a empresa, que tem uma reputação de secretismo, não quis sequer comentar.
Este artigo é baseado em entrevistas com mais de três dezenas de funcionários da Apple actuais e antigos, entre outros, com empresas subcontratadas - muitos dos quais pediram o anonimato para proteger os seus empregos - assim como economistas, especialistas em produção industrial, especialistas em comércio internacional, analistas de tecnologias, investigadores universitários, funcionários de fornecedores da Apple, concorrentes e dirigentes de grandes empresas, e autoridades governamentais.
Em privado, os directores da Apple dizem que o mundo é agora um lugar de muita mudança e que é um equívoco medir a contribuição de uma empresa simplesmente pelo registo do número dos seus funcionários - embora estes observem que a Apple emprega agora mais trabalhadores nos Estados Unidos do que antes.
Estes dizem ainda que o sucesso da Apple tem beneficiado a economia como um todo, dando mais capacidade de acção aos empresários e criando postos de trabalho em empresas como nas operadoras de telemóveis e nas empresas de transporte de produtos Apple. E, finalmente, dizem ainda que resolver o problema do desemprego não é a sua função, não é o seu objectivo.
"Nós vendemos iPhones em mais de uma centena de países", disse um actual director da Apple. "Nós não temos a obrigação de resolver os problemas da América. A nossa única obrigação é fazer o melhor produto possível. "
'Eu quero um ecrã de vidro'.
Em 2007, um pouco mais de um mês antes de se ter programado a data de colocação do iPhone nas lojas, Jobs chamou um punhado de lugares-tenentes ao seu gabinete. Durante semanas, ele tinha andado com um protótipo do iPhone no bolso.
Jobs irritado ergueu o iPhone, dobrando-o para que todos pudessem ver as dezenas de pequenos riscos a estragarem o seu ecrã de plástico, de acordo com alguém que participou da reunião. Steve Jobs tirou então o molhe de chaves das suas calças de jeans.
As pessoas irão andar com este telefone no bolso, disse. As pessoas também andam com as chaves no bolso. "Eu não vou vender um produto que fica cheio de riscos", disse ele, muito tenso. A única solução seria em vez disso a utilização de ecrã de vidro que não se risque desta forma. "Eu quero um ecrã em vidro, e quero-o perfeito. Têm seis semanas para isso."
Depois de um executivo ter deixado a reunião, Steve reservou um voo para Shenzhen, na China. Se Jobs queria o ecrã perfeito, não teria então nenhum lugar para onde ir, teria de ficar.
Durante mais de dois anos, a empresa tinha estado a trabalhar num um projecto – cujo nome de código era Purple 2 - que apresentava sempre as mesmas questões em cada fase do projecto: como é que re-imagina de modo completamente o telemóvel? E como é que pode projectá-lo para que venha a ter a mais alta qualidade possível - com um ecrã que não se risque, por exemplo – enquanto garante simultaneamente que milhões deles podem ser fabricados de forma rápida e suficientemente barata para obter um lucro significativo?
As respostas, quase sempre, foram encontradas fora dos Estados Unidos. Embora as componentes difiram entre as diferentes versões, todos os iPhones contêm centenas de peças, em que cerca de 90 por cento são fabricadas no exterior. Os semicondutores tecnologicamente de ponta vieram da Alemanha e de Taiwan, as memórias da Coreia e do Japão, os painéis e os circuitos vieram da Coreia e de Taiwan, enquanto os chips vieram da Europa e os metais raros vieram da África e da Ásia. E tudo isso foi montado na China.
Nos seus primeiros dias, a Apple normalmente não olhava para além do seu próprio quintal quanto á procura de soluções na área de fabrico. Poucos anos depois da Apple ter começado a construir o Macintosh em 1983, por exemplo, Steve Jobs vangloriava-se de que se tratava de "uma máquina que era feita na América." Em 1990, enquanto Jobs estava a fazer correr NeXT, que acabou por ser comprada pela Apple, ele terá dito a um repórter "eu estou tão orgulhoso da fábrica como estou do computador." Mais tarde, no final de 2002, os principais executivos da Apple, ocasionalmente, gastavam duas horas para noroeste de sua sede para visitar a fábrica iMac da empresa em Elk Grove, Califórnia.
Mas em 2004, a Apple já se tinha em grande parte reorientado para a fabricação no exterior da América. Na base desta nova orientação estava Timothy D. Cook, que era um perito das operações da Apple, que veio a substituir Steve Jobs como Presidente executivo em Agosto passado, seis semanas antes da morte de Jobs. A maioria das outras empresas americanas de produtos electrónicos já tinham deslocalizado a produção para o estrangeiro e a Apple, que na época estava a lutar com dificuldades, sentiu que tinha que agarrar todas as oportunidades.
Em parte, a Ásia era atraente, porque os trabalhadores semiqualificados tinham salários bem mais baixos. Mas não era bem isso que motivava Apple. Para as empresas de alta tecnologia, o custo do trabalho é mínimo em comparação com a despesa feita em compra de peças e de gestão da cadeia de abastecimento que reúnem componentes e serviços de centenas de empresas.
Para Cook, o interesse na Ásia " resultava de duas coisas", disse um antigo alto-funcionário da Apple. As fábricas na Ásia "podem aumentar ou reduzir a escala de produção muito mais rapidamente" e "as cadeias asiáticas de abastecimento ultrapassaram as americanas nos Estados Unidos “. O resultado é que "não podemos competir a este nível ", disse este director.
O impacto de tais vantagens tornou-se evidente logo que Jobs exigiu ecrãs de vidro em 2007.
Durante anos, os fabricantes de telemóveis tinham evitado o uso de vidro porque exigia uma grande precisão no corte e no polimento, o que era extremamente difícil de se conseguir. A Apple já tinha seleccionado uma empresa americana, Corning Inc., para a fabricação de grandes painéis de vidro reforçado, de vidro de alta resistência. Mas descobrir como cortar os painéis em milhões de pequenos ecrãs iPhone exigia que se encontrasse uma fábrica que estivesse disponível para o corte com centenas de peças de vidro para serem utilizadas experimentalmente e um exército de engenheiros de nível médio. Isto, só por si, custaria uma fortuna simplesmente a preparar.
Então chegou uma proposta de uma fábrica situada na China.
Quando uma equipa de técnicos da Apple visitaram a fábrica, os seus proprietários já estavam a construir uma nova área de fabrico.. "Isto é para ser utilizado no caso de nos darem o contrato ", disse o director, de acordo com um ex-executivo da Apple. O governo chinês concordou em subscrever os custos para numerosas indústrias e estes subsídios também deram para a fábrica de corte do vidro. Tinham um armazém cheio de amostras de vidro disponíveis para a Apple, gratuitamente. Os proprietários também disponibilizaram engenheiros quase sem nenhum custo. Os proprietários da fábrica tinham construído dormitórios no próprio local para que os empregados estivessem disponíveis 24 horas por dia.
A fábrica chinesa foi contratada.
"A cadeia total de fornecimento está agora na China ", disse um outro antigo alto-quadro da Apple. "Por exemplo, precisa-se de umas mil juntas de borracha? Isto faz-se já aqui, na fábrica ao lado desta, já ao sair da porta. Por exemplo, precisa-se de um milhão de parafusos? Na fábrica do quarteirão seguinte, arranja-se É preciso um parafuso um pouco diferente? No máximo, leva três horas. "
(Continua)
De tantas vezes se pronunciar e escrever a palavra “crise” é muito natural que exista a tendência para nos distanciarmos do seu significado global devido a circunstâncias que a tornam refém de ocorrências do momento, acontecimentos localizados e até manipulações da sua essência desviando-nos para factores marginais ou mesmo falsos. Neste momento, sobretudo nos países que, por comodidade de escrita, se dizem desenvolvidos e determinam as linhas de rumo económicas, militares e políticas da globalização, a crise não é um fenómeno transitório, transformou-se em regime político. Em vez de ser aquilo que, por tradição, o próprio capitalismo assume como sendo um ciclo negativo, a crise é um conjunto de factores que se foram consolidando ao longo de décadas e que, segundo as tendências dominantes, por conveniência dos mercados financeiros, têm que ser extirpados dure a cirurgia o tempo que durar, para que o fim da crise seja declarado. E, como todos já compreendemos, nem amanhã nem depois de amanhã serão a véspera do dia dessa declaração.
Não vale a pena gastarmos espaço com a enumeração exaustiva dos factores essenciais da crise. Basta recordar as dívidas soberanas, os défices orçamentais, as descapitalizações da banca, a estagnação e recessão económicas, o suposto gigantismo dos Estados e dos seus sectores empresariais, o peso dos direitos e benefícios sociais e por aí adiante.X Os ideólogos do combate à crise que fazem doutrina e tiraram da cartola as soluções que aplicam na Grécia e outros países com os resultados que todos conhecemos – o aprofundamento da crise – têm uma palavra mágica para as suas teses: competitividade.
É preciso aumentar a competitividade, exigem. Ora aí está a armadilha que perpetua a crise como regime político. Este regime não é mais do que o processo de restauração de uma nova/velha relação entre capital e trabalho para que este recue a tempos que podemos situar, provavelmente com alguma boa vontade, nas cinco primeiras décadas do século passado.
Um dos segredos dos períodos de fulgurante crescimento económico do sistema neoliberal imposto a partir dos anos oitenta foi a chamada “deslocalização”. Isto é, os grandes impérios económicos mundiais transferiram as suas principais unidades de produção para lugares de exploração intensiva de mão de obra, sem preocupações de idade, horários, salários e direitos sociais, para exponenciar lucros e fugir à estrutura laboral dos países onde, à custa de sangue, vidas, sacrifícios e muita luta, os trabalhadores conquistaram direitos bastante mais próximos das sua condição de cidadãos nascidos livres e iguais.
Surgiram então os chamados “tigres” e “dragões” asiáticos, as “zonas especiais” de capitalismo selvagem numa China que continua a dizer-se socialista, os paraísos neoliberais dos novos regimes da Europa de Leste, com crescimentos económicos vertiginosos enquanto as margens de lucros dos impérios multinacionais serviam para alimentar a roleta do jogo financeiro, tornando a componente produtiva cada vez mais subsidiária da componente especulativa na formação de valor.
A ganância teve o seu lado perverso. A “deslocalização” criou economias “emergentes”, ou mesmo novas potências económicas, situação que forçou as multinacionais a rever estratégias e a encarar o regresso às origens. Decidiram então que as economias dos países de onde se tinham “deslocalizado” são obrigadas a tornar-se competitivas com as emergentes, mas o obstáculo continuava a ser o mesmo, o “elevado custo do trabalho”, apesar da progressão geométrica das taxas de desemprego.
Chegou então a crise e a consequente estratégia para a derrotar: tornar os mercados laborais competitivos, isto é, nivelá-los com aqueles onde continuam a não existir direitos, contratos, salários dignos e horários. Ou seja, a crise será declarada resolvida quando o mercado laboral dos países desenvolvidos, em especial os redutos do Estado social na União Europeia, for “competitivo” com os mercados laborais a funcionar como há um século. Isto é, quando for “liberalizado”.
Comparem as medidas de austeridade para combater as dívidas soberanas com a realidade dos países preferidos da “deslocalização” e percebe-se a fixação pelo culto da competitividade como solução para a crise. O que está verdadeiramente em causa no regime político de crise é um trágico passo atrás na democracia e nos direitos dos trabalhadores, isto é, nos direitos humanos.
O senhor Liu, a senhora Yu, o senhor Gao sorriem. E isso não é suficiente. O senhor .Liu, a senhora Yu, o senhor Gaosorriem, novamente. E isso explica nada, não nos diz nada. Eles sorriem sempre. E isto acaba por inquietar. . Porque estas pessoas foram seleccionados para ilustrar o tema "quando os chineses compram a França", difundido pela cadeia de televisão France 2 na quinta-feira, dia 9 de Fevereiro. Eles são suspeitos. Culpados mesmode alegadas deslocalizações, do défice da balança comercial, de concorrência desleal... Na sua apresentação, BenoîtDuquesnenemsempre utilizou pinças (baguetes?) . Se o deputado pelo (PS) , Arnaud Montebourg, denuncia as empresas utilizando "escravos", "pilhando as nossas marcas" e aproveitando-se de um "sistema sem lei", o senador (UMP) Jean-Pierre Raffarin descreve "um povo muito emocional, muito romântico, como nós", com quem "nós até nos conseguimos entender com as mãos".
X Vejamos então. É verdade, a senhora Yu, veio para comprar florestas no Nièvre por conta de uma Agência governamental chinesa, faz grandes gestos que parecem já estar a arrumar bocados de madeira. Romântico? Isso está por verificar. Os Chineses têm dinheiro, querem-no gastar sem estar a fazerem contas, explica-nosela." "Por exemplo, na GaleriesLafayette, nós compramos quase como se tudo fosse gratuito." A vigiar, esta senhoraYu. Antes que na suapróxima passagem por Paris venha ela disposta a querer comprar as próprias Galerias Lafayete.
... O senhor Liu é o novo patrão da antiga fábrica McCormick de Saint-Dizier (Haute-Marne). Todas as manhãs, ele aperta as mãos aos 190 trabalhadores que o fabricante chinês de tractores Yto salvou o emprego. Os repórteres da France 2 fizeram a viagem de ida e volta entrea fábrica francesa tornada muito grande pelos sucessivos planos sociais anteriores e sua nova casa mãe chinesa, um gigantesco site monitorado por uma estátua gigante de Mao. Na China, o chefe do grupo prevê as suasfuturas conquistas sobre o planisfério a partir do seu escritório-"isto não significa que se tome ou se roube " - enquanto que em Saint –Dizier o senhor . Liu enfrenta diversas reivindicações salariais assim como prometenovas contratações. No bar PMU, Raymond, o delegado daCFDT, eos seus colegas acotovelam-se para nos dizerem : "nós estamos felizes por tê-los aqui, os chineses", enquanto os seus colegas longínquos, cinco vezes menos bem pagos a 8.000 quilómetros de distância, jogam às cadeiras musicais na cantina...
Em Saint-Dizier, os implantes parecem estar atomar forma : ao seu patrão que vai regressar dentro de alguns dias para festejar o Novo Ano Chinês, Raymond promete que o ano do Dragão « vai cuspir fogo » .
Resta o caso do senhor Gao. Será que ele teve mesmo mão leve sobre o nosso foiegras nacional? É o que ele pensa. O foiegrasque sai das imundas gaiolas de patos, e das prisões de gansos monitorados por guardas em farda militar pode fazer mal nos palácios de Xangai, mas não faz mal nenhum às papilas Made in France. O senhor. Gao? Sem moral.
Isabelle Talès ,Les Chinois et nous et nous et nous, Le Monde, Le Monde, 12 de Fevereiro de 2012
E em nota para recomeçar a próxima série, uma pergunta: poderemos estar impressionados pela China mas quem de entre nós deseja para aí ir viver ou sonha em querer esse modo devida se venha a implantar-se aqui ? Umaperguntaassim vos deixo. (JMM)
Texto nº 4
Trabalhadores migrantes chineses
(Conclusão)
Reacções estatais
Um factor importante para acabar com a luta é a reacção do Estado ou do empregador, no caso de ser privado. Muitas vezes a polícia, os guardas de segurança ou os capangas contratados atacam os trabalhadores se estes não chegam a um acordo ou se o empregador tem fortes ligações à Administração local ou se as formas de luta são inaceitáveis para o Estado. Os polícias e os capangas destacam habitualmente os considerados "líderes". Se a administração local se quer livrar dos activistas, podem ser enviados para os campos de "reeducação", um simples acto burocrático sem processo legal e podem levar prisão e trabalhos forçados por um período que pode ir até três anos. As "ofensas" mais graves levam a julgamento em tribunal e a penas de prisão nos cárceres do Estado. As poucas tentativas de organizar de modo independente, os sindicatos mingong estes foram esmagados por esta forma e os organizadores foram presos ou enviados para os campos de trabalho.
As lutas dos mingong e as dos trabalhadores urbanos nas fábricas estatais (gongren) e as dos desempregados (xiagang) partilham algumas similitudes, como as referências às leis, a fragmentação dos trabalhadores e do activismo localizado, a sua organização nas suas comunidades de vida e nos dormitórios, a repressão, no caso de a luta escapar aos limites da empresa e a detenção dos activistas. As organizações ilegais são brutalmente reprimidas, mas se as exigências de lutas isoladas são cumpridas - pelo menos formalmente, mas se todas as promessas de melhorias forem efectivamente cumpridos torna-se numa questão diferente.
O mais impressionante, em ambos os casos — dos mingong e dos trabalhadores do Estado — é que podemos testemunhar que a intervenção do Estado local e do Estado Central, contraditórias à primeira vista, são na verdade complementares. A descentralização do Estado de Planeamento socialista como resultado das reformas, a promoção das administrações locais para gerir os centros de decisão e de lucro na nova economia socialista de mercado e o reforço dos directores, dos gestores e dos proprietários das fábricas, quase todos com ligações próximas com os dirigentes partidários locais e com os dirigentes da Administração, levaram à formação de uma classe de quadros e de capitalistas que não só orquestram o processo de acumulação, como também o processo de apropriação de uma grande parte da nova riqueza que o mingong produz com o seu trabalho. Isso cria uma enorme perturbação social e provoca o espectro das revoltas de massas contra o novo regime de exploração, particularmente na China, onde, historicamente, este acontecimento não seria novo. O Partido Comunista e os estrategas políticos do governo central geram conceitos — alguns dizem que são apenas ilusões — sobre o Estado de Direito, a legislação social, o controlo democrático a nível local e muito mais. Alguns desses conceitos já foram moldados na nova legislação, celebrada pela propaganda do Estado como sendo parte de sua "sociedade harmoniosa".
Para os proletários e camponeses desagradados, as leis e conceitos sociais do Estado Central são um importante ponto de referência, enquanto o Estado local é o alvo mais importante. O Estado central pretende manter este acordo por algum tempo, já que pode manter a sua própria legitimação, sem ter que completamente satisfazer as pretensões das populações quanto a uma melhoria das suas condições de vida. O Estado central pretende acrescer o seu controle aos movimentos migratórios e para atenuar a tensa situação dos mingong nas cidades.
Podemos ver tentativas para melhorar a integração dos trabalhadores migrantes, por exemplo, permitindo que os sindicatos nacionais ou as ONG cuidem deles. Eles ganham a atenção e o apoio nos media oficiais, através de grupos activistas sobre os direitos dos trabalhadores, trabalhadores activistas (principalmente a partir de Hong Kong) e até de organismos oficiais. As altas taxas fiscais do governo local que eram aplicadas aos mingong foram abolidas pelo governo central em 2001. Em Janeiro de 2003 também se eliminou a exclusão de mingong de certos empregos urbanos, criticaram-se os salários em atraso e as reduções salariais ilegais e exigiu-se um melhor acesso dos filhos dos mingong às escolas urbanas, sem se utilizarem taxas de inscrição discriminatórias. Também em 2003,mudou a lei sobre vadiagem e as detenções ilegais foram proibidos. Antes disso, a polícia acusava frequentemente os trabalhadores migrantes de vadiagem e enviava-os para os campos de trabalho. Em Xangai e Shenzhen, foram emitidos cartões com novos chips contendo dados pessoais e de estatuto de residência. Os cartões podem ser usados nos organismos locais de apoio social, de planeamento familiar, educação, etc., segundo a linguagem do Estado que lhes chama de "controlo populacional" (Shenzhen Daily, 9 de Fevereiro de 2007; China Daily, 27 de Dezembro de 2006). O objectivo é controlar os movimentos dos migrantes e os seus direitos de utilização de serviços públicos locais. Algumas restrições e condicionantes foram afrouxadas para os trabalhadores migrantes, a fim de eliminar ou reduzir novas tensões sociais decorrentes da pobreza, da perda ou da ausência de tratamento médico e do acesso caro aos espaços educacionais.
Algumas cidades, como, por exemplo, Pequim, discutiram mesmo a extinção do hukou. De acordo com o South China Morning Post, a Secretaria de Segurança Pública está a trabalhar num plano de eliminação progressiva da concessão de licenças de residência temporária, a fim de parar a "discriminação" contra os imigrantes (SCMP, 21 de Janeiro de 2007). Na província de Yunnan, foi já anunciada a abolição do antigo sistema hukou. Mas isso não significa que a discriminação seja eliminada: o mingong ainda recebe tratamento pior, tem que pagar taxas mais elevadas e passa a sentir ainda mais a arrogância, a falta de escrúpulos e a corrupção da administração local.
O que virá a seguir?
Em primeiro lugar, tudo depende e ainda mais do regime de gestão de crises. A fim de garantir a sua própria legitimação e sobrevivência o regime tem de "controlar" a corrupção e aumentar a eficiência do governo. Relações trabalho mais formalizadas e institucionalizadas e maior eficácia ao nível dos tribunais e regulações legais poderiam levar os conflitos sociais para uma via burocrática. Mas será que isso funciona?
Os mingong continuarão a desempenhar um maior papel nas cidades. Eles são a parte mais móvel e dinâmica da sociedade chinesa. Nalgumas cidades, constituem um quarto ou mais da população local. Em Xangai, cerca de dezassete milhões de pessoas têm um hukou local, mais quatro a cinco milhões de trabalhadores migrantes (China Daily, 13 de Janeiro 2007). Em Shenzhen, aos três milhões de habitantes "permanentes" juntam-se eis milhões de habitantes mingong (Shenzhen Daily, 9 de Fevereiro de 2007)[1]. Não está claro quanto tempo é que eles podem continuar a andar para trás e para frente, entre cidade e campo, ou se podem estabelecer-se na cidade de forma permanente e obter ganhos quanto ao direito de poderem usufruir das regalias de permanentes.
Os capitalistas chineses e estrangeiros já se queixam da falta de trabalhadores e do aumento dos salários. Um cientista da Academia de Ciências Sociais, na província de Guangdong, escreve que os salários e as condições de trabalho dos trabalhadores migrantes têm melhorado significativamente nesta zona. O salário mensal para o trabalho não qualificado aumentou de 750 yuan (2004) para 890 yuan (2005), enquanto para o trabalho qualificado este terá passado de 1 600 yuan para 2 000 yuan. O padrão dos dormitórios da empresa também melhorou, por exemplo, com quartos com ar condicionado e quartos para os casais casados. Os empregadores que não podem ou não querem pagar por essas melhorias têm de se deslocar para outras áreas "menos desenvolvidas". O salário mínimo — em Guangdongé de 780 yuan na capital Guangzhou e desce até 450 yuan nas regiões rurais — aumentou, também[2].
No futuro, poderemos ver uma escalada, assim como uma contenção das lutas dos mingong. Por um lado, as apreensões ilegais de terra são o fechamento da válvula de segurança quanto à subsistência rural e destrói o interior, o retiro mingong em tempos de dificuldade, de exaustão e ou de desemprego. Isto poderia aumentar o potencial explosivo das lutas nas cidades. Em 2004, quarenta milhões de camponeses já tinham perdido "a sua terra" e os "cercados" — movimento de que conduziu à desapropriação de três por cento das terras agrícolas, para "as novas zonas de desenvolvimento", para os "parques de alta tecnologia"e para as "cidades universitárias" (Lee, 2007: 259). Entretanto, o número de conflitos em torno dos despejos de apartamentos nas áreas centrais das cidades continua a crescer, enquanto a "bolha" do imobiliário aumenta e os quadros ganham fortunas com negócios par aparques empresariais e centros comerciais. Esta situação afecta os (antigos) trabalhadores do Estado, atingidos pelo desemprego e pela precariedade do emprego, roubando-lhes o único meio de protecção social que lhes foi deixado, após a reestruturação: a empresa arrasa (o que compraram barato agora ou estão ainda a alugar barato). Mas isso afecta muitos mingong se bem que estes sejam empurrados para fora dos bairros do centro da cidade, para os bairros de lata, a maior parte deles na periferia. Será que isto pode ser o começo de uma nova aliança?
A velha classe operária, uma minoria na China socialista, já estava em decomposição. Embora até agora a maioria da população esteja proletarizada, ou pelo menos, semi-proletarizada, este facto não levou à formação de uma mas de muitas classes trabalhadoras. Essas classes separadas têm que enfrentar a aliança dos quadros, dos burocratas e dos capitalistas que foi forjada na década de 80 e de 90. Como é que as lutas de cada uma dessas classes de trabalhadores se irão desenvolver? Será que vão ficar juntos? Qual o nível de poder social explosivo que eles têm que alcançar? É muito cedo para o poder dizer.
Bibliografia
Lee Ching Kwan (2007): Against the Law. Labor Protests in China’s Rustbelt and Sunbelt. Berkeley/London
Lee Ching Kwan (1998): Gender and the South China Miracle. Two Worlds of Factory Women. Berkeley/London
Pun Ngai (2005): Made in China. Women factory workers in a global workplace.Durham,NC
Pun Ngai/Li Wanwei (2006): Shiyu de husheng. Zhongguodagongmeikoushu. Beijing (German: dagongmei– Arbeiterinnenaus Chinas Weltmarktfabrikenerzählen.Berlin, 2008)
Pun Ngai/Smith, Chris (2007): Putting transnational labour in its place: the dormitory labour regime in postsocialist China. In: Work, Employment and Society, Volume 21(1): 27-45, 2007
Reeve, Charles/Xi Xuanwu (2008): China Blues. Voyage au pays de ‘harmonie précaire. Editions Verticales, Paris, 2008
"China's Migrant Workers", in: From the "Unrest in China", Wildcat, Suplemento, n.º 80, Inverno de 2007/8. Disponível em http://www.prol-position.net/nl/2008/10/c
Texto nº 4
Trabalhadores migrantes chineses
(Continuação)
Entre a cidade e a aldeia
Apesar dos muitos problemas, os trabalhadores migrantes continuam a ir para as cidades, porque para muitos deles ficar nas aldeias já não é uma alternativa. A aldeia é e permanece a sua casa, o seu lugar emocional de identificação, mas lá não se pode ganhar dinheiro suficiente e não há perspectivas de futuro. Como consequência os trabalhadores migrantes oscilam entre o sentimento nostálgico e o seu desejo de fugir, entre o conhecimento de uma vida calma e ordenada na aldeia e as aventuras de um estilo de vida moderno das cidades. Essa tensão leva muitos jovens imigrantes a "comutar", alternando períodos de emprego na cidade e de regresso à aldeia, quando não têm trabalho (ou simplesmente quando estão cansados da cidade), ficando lá até que comecem a sentir a vida, como enfadonha, e deixando-a então uma vez mais. Este dagong, trabalho assalariado para um patrão na cidade, não constitui actualmente, na verdade, um movimento final, mas uma dupla existência entre o mundo rural e o mundo urbano.
Três coisas desempenham um papel importante nos pensamentos e ideias mingong (como também em muitos camponeses): 1) a pobreza no passado (nos anos 70 e início dos anos 80); 2) as condições adversas de hoje, apesar de sua situação material ter melhorado; e 3) o sonho de montar um negócio ou de fazer compras na aldeia para escapar tanto ao trabalho agrícola como ao trabalho fabril (Lee, 2007: 221). Apenas alguns atingem este último objectivo[1]. Dada a sua memória dos períodos de pobreza e dos seus problemas materiais correntes, para um mingonga posse do seu próprio pedaço de terra, terra que qualquer pessoa com um hukou rural tem direito, é particularmente importante.
Para muitos mingong este pedaço de terra ainda garante a subsistência. A aldeia é o seu local de reprodução social da força de trabalho. É aqui que celebram os casamentos, que as crianças nascem e crescem e é para aqui que o mingong volta para recuperar e ganhar um rendimento de subsistência em tempos de desemprego. A terra é uma espécie de seguro social informal, outra razão pela qual eles não querem desistir e mudar para a cidade de forma permanente (Pun/Li: 42). Outros voltam para cuidar dos seus filhos ou dos pais.
Os níveis de rendimento no campo variam, particularmente quando se comparam as regiões costeiras, a região central da China e a o Ocidental. O dinheiro do mingong pode ser necessário para uma casa, para uma escola melhor ou para a alimentação, e na maioria dos casos, os seus salários atingem até dois terços do rendimento do agregado familiar (Lee, 2007: 210). Os camponeses têm de obter novos postos de trabalho e trabalho sazonal para ganhar algum dinheiro sempre que possível, e ainda, para muitas famílias rurais dagong é uma pura necessidade para conseguir atender a todas as despesas da vida.
Os maiores custos são: 1) educação dos filhos, para que a próxima geração tenha melhores possibilidades em termos de situação social; 2) cuidar de familiares doentes e 3) construção de uma casa. Educação e saúde pertencem ao conjunto de bens e serviços que foram mercantilizados; para muitas pessoas, especialmente no campo, estes tornaram-se extremamente caros. Há várias razões para a construção de uma casa. As casas antigas são apertadas, inóspitas e facilmente abrem rachas, de modo que as pessoas querem as novas casas feitas de tijolos e de betão. Mas a nova casa também é um importante símbolo da melhoria da situação económica da família e uma condição prévia para o filho do sexo masculino encontrar uma esposa. E é também o lugar onde o mingong quer viver quando chegar a velho.
O que quase todos os trabalhadores migrantes têm em comum é que todos eles têm a possibilidade de voltarem para a aldeia. Eles estão apenas meio proletarizados, e sua identidade como camponeses e trabalhadores está misturada (Pun: 20). Eles não se vêem a si próprios como parte da classe operária ou como operários (gongren), pois este termo descreve a antiga classe trabalhadora urbana e tem um carácter de exclusão. Concebem-se como camponeses (nongmin), como trabalhadores camponeses (nongmingong) ou como trabalhadores a chegarem (wailaigong). Muitos camponeses e trabalhadores migrantes consideram-se eles próprios como ainda "atrasados" e "supersticiosos", como um obstáculo à construção de uma nação socialista, porque eles ainda têm internalizada esta imagem de inferioridade camponesa.
Ainda assim, em contraste com os trabalhadores urbanos, que tem saqueado as indústrias estatais, os mingong não estão desesperados ou em luta contra o seu destino de um mundo passado. Eles vêem o progresso e acreditam num futuro melhor — apesar das amargas experiências diárias, da exploração nas fábricas, do esvaziamento das aldeias e da corrupção dos quadros e da repressão. Essas situações concretas irritam-nos e eles querem lutar contra a discriminação.
Migrando e trabalhando em diferentes regiões, sectores e profissões têm criado vários sujeitos, como os trabalhadores da construção civil, do trabalho doméstico e os trabalhadores fabris ou dagongmei. Os trabalhadores migrantes estão ainda longe de ser uma nova classe unificada de trabalhadores, mas isso pode mudar rapidamente através de lutas sociais.
A coesão social e as reivindicações
O mingong organiza a sua vida diária e a do trabalho, através de ligações informais e de pequenas associações, com pessoas da sua aldeia natal e, mais tarde, com os amigos recém-encontrados nas fábricas, nos locais de construção ou no dormitório. Eles usam essas redes para obter ajuda financeira, apoio emocional e informações sobre o mercado de trabalho e para comunicarem com suas famílias em casa, às vezes também para organizarem actividades culturais como grupos musicais ou para encontrarem escolas particulares para os seus filhos. Nos locais de trabalho, estas ligações desempenham um papel nos conflitos diários, nas lutas pelas pausas ou de redução de ritmo de trabalho, na resistência contra o despotismo nas fábricas e da utilização também das chamadas "armas dos fracos".
Quando o mingong trabalha em estaleiros de obras, muitas vezes, toda a equipa é da mesma aldeia. Os angariadores, os capatazes ou mesmo os sub-empreiteiros são, também, frequentemente mingong. Nas fábricas, a composição é mais fluida, as conexões são mais livres, mais vastas e rapidamente formadas e também rapidamente desfeitas, em parte devido à frequente promessa de trabalho ping (Lee, 2007: 196).
Para organizar as lutas dessas estruturas sociais em função do local de origem - seja com base numa mesma família, província, de aldeia, ou como um agrupamento mafioso — muitas vezes não são suficientes para resistir aos patrões no concreto da vida na fábrica. Os trabalhadores migrantes, vindos de diferentes províncias chinesas, têm necessidade de superar os ressentimentos e os racismos entre si que se baseiam em diferentes origens, línguas, cores de pele, classe social e cultura[2].
Os trabalhadores mingong conduzem muitas lutas. Em 2005, havia 10 000 greves só na província de Guangdong (New York Times, 19 de Dezembro de 2006). Lee tem analisado as lutas em Shenzhen, Guangdong, que tem levado a protestos, mediações e a procedimentos legais. A maioria envolveu quatro temas: 1) salários em atraso; reduções salariais ilegais, e rendimentos abaixo do salário mínimo; juntos, estas queixas constituem cerca de dois terços de todos os casos que acabaram na administração ou na mesa de negociação: 2) medidas disciplinares (ou excessos) e ofensas contra a dignidade dos trabalhadores. 3) despedimentos (Lee, 2007: 164).
Os protestos surgem principalmente ao nível da empresa, raramente a nível local. Às vezes, os trabalhadores começam uma luta, porque são incentivados por greves noutras empresas. As informações sobre as lutas propagam-se através dos turnos dos trabalhadores, através contactos pessoais com os empregados de outras empresas (por exemplo, pessoas da mesma aldeia), ou serem causados por trabalhadores e activistas se conhecerem uns aos outros quando vão fazer queixas ao sindicato ou no trabalho. Os dormitórios não só permitem o controlo sobre os trabalhadores, mas são também o terreno onde os trabalhadores formam pequenos grupos organizados e redes de intercâmbio de informações acerca dos patrões, para discutir mudanças nas leis do trabalho, para discutirem os próximos passos a seguir e mesmo para discutir formas mais efectivas de protesto. Outros lugares são as cantinas e as enfermarias de acidentes de trabalho na indústria.
Os conflitos jurídicos e administrativos ao nível dos Tribunais ou de outros organismos desempenham um papel ambivalente entre pacificar e ou radicalizar o conflito. Alguns trabalhadores remetem em primeiro lugar para o direito, porque as normas jurídicas são muitas vezes significativamente melhores do que as condições de trabalho reais. As leis chinesas sobre o trabalho, cumprem mais ou menos as normas aplicadas na Europa Central mas são sistematicamente ignoradas. Assim, quando os trabalhadores conhecem os seus direitos sobre a situação jurídica, o seu próprio destino não é visto como "uma miséria habitual" ou como uma "má sorte", mas mais como um delito jurídico em aberto. Isso pode mobilizar as pessoas para protestar (Lee, 2007: 174).
Os protestos são conduzidos menos em termos da ilegalidade "formal" da situação mas mais como a necessidade de melhorar as condições. Quando os trabalhadores mais tarde aprendem que as administrações locais, os tribunais e as comissões de arbitragem apenas são discriminatórios contra eles, intimidando-os ou fazendo deles tolos, quando sentem que os funcionários públicos os tomam como inúteis, quando sentem a intervenção dos patrões e da corrupção, tudo isto os pode levar a uma maior escalada de contestação com ocupação dos locais de trabalho e greves.
Muitas vezes não se chega tão longe. Muitas lutas terminam a meio do processo reivindicativo por várias razões. Por um lado, o mingong não pode aguentar batalhas prolongadas. Não tendo qualquer reserva financeira precisa de encontrar um novo emprego. No caso de conseguir um novo emprego, não têm oportunidade para continuar a luta colectiva pelo cumprimento das suas exigências com o antigo empregador, devido às longas horas de trabalho e à possível interpelação no dormitório. Se não conseguir um novo emprego, voltam para as suas aldeias — muitas vezes a várias centenas ou milhares de quilómetros de distância — onde contam com o apoio da família, e não podem mais participar na luta.
Além disso, as ligações duradouras ou as organizações das estruturas institucionais que poderiam protegê-los de um conflito mais longo só muito raramente se desenvolvem nas lutas. No momento do protesto há uma uniformização e solidariedade que termina com o fim da luta (ou com o encerramento de uma empresa), e depois cada um segue, separadamente, a sua via pessoal. O que resta são as ligações do campo que os ajudam a encontrar um novo emprego ou a organizar o regresso a casa. Muitos activistas que de outro modo teriam continuado a luta, desistem. Visivelmente, as lutas dos trabalhadores do Estado das cinturas industriais contra a reestruturação e contra os despedimentos duram mais muitas vezes porque estes trabalhadores não são tão móveis e têm um lugar de residência permanente, mesmo depois de serem demitidos.
(Continuação)
[1] Isto também é conhecido na Europa: os trabalhadores rurais migrantes que se movem para as áreas industriais pensam que podem ganhar suficiente dinheiro em poucos anos, de modo que eles podem, por exemplo, construir uma casa na sua terra ou ainda abrir um negócio. Poucos são os que conseguem realizar estes sonhos.
[2] Isto respeita menos às minorias étnicas que constituem 10 por cento da população da China. Muitos deles vivem na China Ocidental, no Sul e no Norte. Entre os mingong a divisão entre diferentes grupos de dialectos e linguagens é mais importantes.
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