“Novas Cartas Portuguesas” Lisboa, Abril de 1972.
Três escritoras portuguesa, com obra já feita - Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, escrevem um livro em conjunto, a que chamaram “Novas Cartas Portuguesas”. Nelas aparecem figuras femininas marcadas por condicionalismos de vária ordem, maltratadas, enclausuradas, dependentes, vítimas de amor ou paixão, casadas à força, enganadas, exploradas… e pacientes
Procuram um editor. A Dom Quixote - dirigida por outra mulher, Snu Abecassis, que já ousara enfrentar a censura com a publicação da obra de uma das autoras, e tivera como consequência a ameaça de fechar a editora, por parte de Moreira Baptista, Secretário de Estado da Informação e Turismo – mostra-se indisponível. Será outra mulher, Natália Correia, directora literária de “Estúdios Cor”, quem ousa enfrentar a censura que reagiu ferozmente: as autoras são acusadas de pornografia e ultraje à moral pública !
O livro foi retirado do mercado e seguiu-se um processo judicial a que só a pressão dos movimentos feministas internacionais e a Revolução de 25 de Abril de 1974 permitiram pôr termo. Dentro do país, devido à censura nos jornais pouco se soube. No estrangeiro, movimentos feministas faziam manifestações, marchas, acontecendo mesmo a ocupação da embaixada portuguesa na Holanda pelas feministas holandesas.
Quarenta anos se passaram. Mudou muita coisa? Mudou pouca?
Recentemente foi reeditado, numa edição anotada por Ana Luisa Amaral.
Resulta de um projecto - "Novas Cartas Portuguesas: Três Décadas Depois", fruto de uma investigação do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto, e é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Para a Professora Ana Luísa Amaral, interessava mostrar que se esta obra podia ser lida à luz dos estudos feministas, também deveria ser analisada à luz de teorias que questionam a própria noção de identidades estáveis.
O texto foi deixado intacto mas junto a ele há 200 anotações, um índice, uma bibliografia contendo os textos usados pelas autoras e o pré-prefácio que Maria de Lourdes Pintassilgo escreveu em 1980.
Programa-se uma tradução em inglês e outra em italiano e envolverá 15 países, 13 equipas e 26 investigadores. O objectivo é estabelecer e estudar o impacto das NCP "quer a nível histórico-social, quer a nível democrático". Estão envolvidas investigadoras de seis países e cabe aos coordenadores em cada país formar "equipas voluntárias de jovens investigadores que farão a recolha de tudo o que foi escrito sobre as “Novas Cartas Portuguesas” em cada país". Daqui resultarão dois livros: um em português, "NCP entre Portugal e o mundo", que será lançado em 2012, com colóquio em Évora; outro em inglês, em 2013, "New Portuguese Letters to the World, International Reception".
Nota: Com pequenas alterações, este artigo resulta de um outro publicado no Estrolabio.
Com realização de Edgar Feldeman, vi na RTP2 o filme “Éramos barracas” que nos dá a conhecer o Bairro da Curraleira, em Lisboa, pela voz de alguns dos seus habitantes, das suas vivências, das suas memórias e das suas expetativas para o futuro.
Depois de uma realidade de casas sem água, sem luz, sem canalização nem casas de banho, depois do 25 de Abril de 1974 os seus moradores organizaram-se e formaram uma cooperativa. Hoje moram num bairro social. E nem todos acham que tudo melhorou.
“Antes podíamos ter confiança, dormíamos de porta aberta”… “Havia mais união, agora é cada um por si, de nariz empinado!”
“Passei muita fome, não tinha dinheiro para comprar sapatos, levava porrada do meu marido”. “ Ia pedia a casas de senhoras: “Ó menina, dê-me um bocadinho de pão duro” - e eu fazia uma sopinha”. Uma mulher idosa dizia: “ Gostava mais da minha terra que era a Curraleira, a minha mãe morou ali 82 anos”, mostrando fotos dos seus antepassados que serviram o rei.
“Mas hoje eu posso falar, dizer o que penso e graças a deus não passo fome!”. Podemos ouvir uma mulher contar, orgulhosa, como sabia bem lavar a roupa dos tanques colectivos e era elogiada por o fazer muito bem, sentindo-se nostalgia na sua voz.
As filmagens apanharam dias de grande calor. As crianças andam de tronco nu, uma menina de bikini a dançar com outra, uma velhota a dar conselhos a um pai que passeia um bebé nos braços… Vamos vendo os prédios de
paredes pintadas de vermelho, mas já todas estragadas, o cafezinho de bairro, um grupo de homens a comerem caracóis e a beber cervejas numa mesa montada na rua. E crianças a brincarem na rua, a empurrarem carrinhos de bebé sem bebés lá dentro, rua abaixo, rua acima....
E os animais, ah! os animais que descansam ao sol – cavalos, cabras, ovelhas, e outra vez cavalos, cães, muitos cães lânguidos. Vemos os animais e sentimos que o tempo não passa, as horas não avançam, tudo fica na mesma. Como se estivéssemos numa aldeia dentro da cidade.
A interligação com pessoas de etnia cigana é também abordada: “Eles têm que se integrar na comunidade”; “Agora há condições, mas depende do que nós façamos … se escolhermos mal…”
Este é também o meu país. Este é um filme que pode servir de base de estudo a muitos técnicos que andam no terreno, sem saberem quem são as pessoas que têm pela frente, e a quem tentam impor os seus próprios valores, sem respeitarem os sentimentos e as histórias das comunidades. É por isso que tantas vezes tudo corre mal, os projectos pretensamente inovadores vão por água a baixo e não se aproveitam as sinergias já existentes.
Obrigada ao Edgar e a quem com ele trabalhou.
Não encontrei nenhum vídeo sobre o filme. Fica o Sérgio Godinho a falar destas coisas, há uns bons anitos atrás.
02h00 - No RI 14, em Viseu, começou a preparação da companhia que seguiria para a Figueira da Foz, onde se juntaria a outras unidades em acção (RI 10, CICA 2, RAP 3) com vista a constituir o agrupamento «November». - A companhia de intervenção a três bigrupos comandada pelo capitão Rui Rodrigues abandonou a EPI, em Mafra, para seguir por Malveira, Loures, Frielas e Camarate até ao Aeroporto da Portela, que deveria ocupar e defender.- No BC 5 o major Cardoso Fontão mandou distribuir armas, munições e aparelhos de rádio e formar as companhias.- Do CTSC sairam duas viaturas pesadas e um jipe, com um total de 47 homens, e dirigiram-se para o seu objectivo.
02h30 – Os capitães Dinis de Almeida e Fausto Almeida Pereira executaram vitoriosamente o plano de controlo do Regimento de Artilharia Pesada 3 (RAP 3), na Figueira da Foz, neutralizando os subalternos milicianos em serviço. Almeida Pereira abriu o portão da unidade aos oficiais da Escola Central de Sargentos (ECS) de Águeda. - Forças da EPI iniciaram a ocupação dos pontos chave de Mafra, assegurando o domínio da vila e dos respectivos acessos.
02h40 - Forças da Escola Prática de Engenharia (EPE) sairam de Tancos para se dirigirem à ponte da Golegã-Chamusca, e aí se juntarem às Companhias de Caçadores 4241/73 e 4246/73 oriundas de Santa Margarida.
02h50 - Uma coluna da EPAM, num total de cerca de cem homens, montados em duas viaturas ligeiras e três pesadas, comandada pelo capitão Teófilo Bento, iniciou a curta marcha em direcção ao objectivo - A RTP - com dois canais e a preto e branco, era um objectivo importante.
Sem objectivo estava a maioria dos jovens no país de Salazar - A Clara Castilho diz-nos como era -
OS JOVENS E A COMPREENSÃO DA VIDA ANTES
DO 25 DE ABRIL DE 1974
Como “contar” as vivências do 25 de Abril e o que era a vida antes dela, a pessoas mais jovens, nascidas muitos anos depois, numa sociedade que já beneficiou das vantagens sociais daí resultantes? Confronto-me muitas vezes com este problema. No outro dia, alguém falava do sabão que se atirava para os cascos dos cavalos que eram montados pelos polícias que nos perseguiam nas manifestações ocorridas antes de 1974. E uma jovem comentou: “coitadinhos dos cavalos!” Até saltei da cadeira, antes de me impor a calma e lhe perguntar o que é que sabia sobre as razões pelas quais as pessoas se reuniam para protestar, correndo o risco físico de serem agredidas e irem presas. Seguiu-se uma conversa, que tentei não ser “sermão”, nem “lição”, sobre o que era a vida social, económica e cultural daquela altura, altura em que seus próprios pais tinham pouco mais de dez anos.
É para os jovens difícil pensar numa vida onde:
- a televisão que havia era de um só canal e a preto e branco
- a maioria das crianças só ia à escola até ao 4º ano; muitas faziam-no percorrendo kms a pé e descalças
- não havia centros comerciais, nem grandes supermercados
- o telefone só existia em algumas casas, um só aparelho e fixo.
Poderá parecer ridículo começar a explicação com estes indicadores. Mas é assim que consigo pegar-lhes a atenção para depois ir avançando, para a visão de um mundo onde:
- os jovens rapazes iam engrossar os pelotões de guerra, numa luta em que se não sentiam empenhados
- as pessoas não podiam falar livremente, nem associar-se, nem escolher os seus representantes; quando o tentavam eram reprimidas, presas e torturadas
- as mulheres casadas não tinham o direito de adquirir bens
- as condições de trabalho, quer rural, quer industrial, eram deploráveis
- 71% das habitações não possuíam água corrente
- a taxa de mortalidade infantil era a maior da Europa
- 49 % da população consumia proteínas em dose inferior à recomendada como necessidade
- unicamente cerca de 10% das crianças frequentava equipamentos de primeira infância.
Estas conversas acabam sempre com os jovens a sentirem que são uns felizardos por terem nascido agora. Para depois se fixarem nas suas preocupações com o futuro emprego… E aí aproveito para perguntar se votaram nas últimas eleições. Adivinham a resposta? E lá se segue outra conversinha…

VAMOS AO CINEMA
NORMAN Mc LAREN - por Clara Castilho
Clara Castilho Encontrando o caminho
(Adão Cruz)
As pálpebras fechavam-se, o sono pesava. Horas matinais, bem mais cedo do habitual. O som do comboio nos carris embalava-a. Porque raio aceitara o convite para ir tão longe partilhar ideias? Agora, não havia volta a dar. E nem sabia do que ao certo falar…
Foi lembrando outras viagens em situações bem diferentes. Até Paris, há mais de trinta anos, comboios ainda com poucas comodidades. O fim nunca mais chegava, as pessoas enervavam-se, as crianças choravam… A não repetir. A Madrid, durante a noite, em que encontrara um exemplar de “O Perfume” em espanhol e voltara a ler a obra nessa língua. Outras pelo país, por destinos diversos e com objectivos diferentes.
Certa vez, de Portimão para Lisboa. Usavam-se umas socas de madeira e ela comprara uma cestinha de palha de que fizera carteira. Não sei qual a imagem que passava mas o certo é que um homem do banco da frente tentara meter conversa e perguntara se ela “ia servir”. O espanto fora grande mas conseguira ir na onda e dizer que sim.
Queria pensar no que iria falar, mas o pensamento fugia para as viagens, especificamente para umas a determinado destino e com determinado objectivo.
E as pálpebras fechavam-se, o sono pesava.
O local e as pessoas voltavam. Não eram lembranças agradáveis. Correspondiam a um período difícil da sua vida. Que não se repetiria. Pelas mudanças na sua vida, pelas mudanças sociais da vida do país.
Quanto a organizar as palavras que iria proferir, elas não chegavam. Voltavam sempre as mesmas viagens, as mesmas pessoas, os sentimentos ambivalentes, contraditórios, as raivas sentidas, a resignação.
Os viajantes iam saindo nas estações. Conseguira criar uma bolha só para ela, colocando tampões nos ouvidos. Detestava ouvir as conversas ao telemóvel, as mais disparatadas, nos tons mais incríveis, sem noção nenhuma da privacidade que careciam.
O comboio avançava comendo os quilómetros. O tempo passava.
Revivia situações, divagava sobre como poderia ter sido diferente, como a sua vida teria tomado outro rumo se, em determinada altura tivesse feito outra escolha.
E, de repente, percebeu porque tudo aquilo não lhe saia da cabeça. Desatou-se a rir. E já sabia do que iria falar, o que queria partilhar.
No livro “Ò simpático, vai um tirinho ?” o autor (que assina só Carlos Pedro) é apresentado por Domingos Morais como o “verdadeiro e único Doutor da Mula Russa”, uma “criatura sem vergonha, arruaceiro, despudorado, desbocado e provocador empedernido…… com uma gargalhada que é a sua mais poderosa arma…. Um Doutor em causas que se afirma honoris praia ( de Santo Amaro) e (em que ) a Mula vem de outras vidas e a Russa (com ss, claro) não é o que pensam, se é que ainda pensam”.
Jorge Castro e Carlos Pedro, “Noite com poemas”, Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana, 21.05.2011 in BLOG sete mares
Pela leitura dos seus textos ficamos a saber que foi menino sem pais, passando por orfanatos sem afecto, menino de rua. Pela zona de Oeiras e Carcavelos soube impor-se, fazer amizades e participar na vida cultural. Partilhei com ele o convívio de uma matança de porco, numa vivenda da zona (ainda não havia ASAE…), onde comi que me fartei e um advogado célebre da nossa praça fazia na cozinha um distinto arroz de cabidela… Mas só o fiquei a conhecer melhor com a leitura deste livro, do qual partilho convosco dois poemas que me parecem bastante oportunos.
Adolfo Coelho (1883) afirmou”os contos e rimas infantis parecem ser como o leite materno, que nenhuma preparação, por mais adiantada que esteja a ciência, poderá igualar”(1). Este autor chamou a estas criações literárias “pedagogia de amas”. Mal imaginava ele como a ciência viria a dar-lhe razão!
E continua: “ Da fórmula constam, essencialmente, ritmo e melodia, determinadas pela regularidade métrica e pela sonoridade das palavras, com relevo para a alternância de acentos fortes e fracos, para a rima e para as repetições. Constam ainda, gestos e mímica ligados intimamente à linha prosódica e também processos de carácter poético ou lúdico que alimentam a criatividade, com particular relevo para o nonsense. O seu modo de transmissão – de viva voz – pressupõe a proximidade, o prazer do contacto físico dos interlocutores e a permanente adequação comunicativa”(2).
Já aqui abordámos este assunto – “Os bebés e o mundo sonoro” – mas foi com especial prazer que voltei a encontrar este autor e ver nele esta intuição do que é hoje confirmado.
As mais antigas referências a canções de embalar portuguesas são do século XVI. E a diferença de nomes é deliciosa – canções de acalentar (quando o bebé está ao colo) e canções de embalar (quando ele está no berço).
Estes assuntos têm sido estudados no IELT, Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa.
Hoje, no corre-corre das nossas vidas, podemos comprar discos com músicas de embalar. Mas falta o contacto físico, falta o olhar olhos nos olhos… E aos fins de semana pais e filhos podem – pagando e bem! – participar em sessões de música para bebés. Que tal perguntarmos às nossas avós como eram as canções de embalar?
"A Lua nasceu e cresceu no além
A noite chegou também
Vai dormir meu amor
Vai dormir e sonhar
Deixa a lua crescer lá no ar
A roca poisou e largou seu fiar
Os olhos vai já fechar
Nada pode impedir
Que o amor durma bem
Nem mau sonho há-de vir
Nem ninguém
Tu verás meu amor
Como é bom sonhos ter
Deus te dê o melhor que houver
Anjo meu faz ó ó
Que eu velo por ti
Só aos anjos a lua sorri."
(1) Elementos Tradicionais da educação, Lisboa, Livraria Universal
(2) Jogos e Rimas infantis, 1994, Porto, Asa
CARTAS DO MEU MAGREBE
O lançamento do livro “Cartas do Meu Magrebe”, no passado dia 28 de Setembro, de que aqui foi dada notícia, foi apresentado por Delfim Sardo (professor universitário doutorado pela Universidade Nova de Lisboa no Departamento de Comunicação e Linguagens, com dissertação sobre o conceito de espaço real e as conexões entre a exposição como dispositivo e o primado da tridimensionalidade na arte do século XX).
Falou sobre o livro realçando que a forma como Ernesto de Sousa observou o Magrebe é a de uma etnografia modernista. Partiu para ver a revolução e a independência na Argélia, da mesma forma que Sartre veia a Portugal “ver” a revolução de 1974. Considera que a sua escrita é a de um olhar crítico, com referências artísticas e com uma metodologia de olhar que vem da prática da crítica, analisando as relações humanas a partir da teatralidade. Definiu Ernesto de Sousa como uma “informação em ventoinha”, não hierarquizada.
O orador não conseguiu deixar de recordar o Ernesto de Sousa que realizou o filme “Dom Roberto”, filme protagonizado por Raul Solnado e Glicínia Quartim e que gerou grande polémica. Foi o apogeu do neo-realismo ou foi o início do”cinema novo”? Delfim Sardo considera este filme neo-realista por abordar questões de natureza social, caracterizando socialmente as suas personagens. Mas também considerou que a forma como elas são abordadas é já do “cinema novo”.
O tema central é a vida miserável de um vagabundo sonhador da cidade de Lisboa, João Barbelas, a quem os garotos deram a alcunha de "Dom Roberto" por o verem deambular com o seu teatro ambulante de fantoches pelas ruas da cidade.
O filme foi seleccionado para o Festival de Cannes, de 1963, onde recebeu a Menção Especial do Júri do Melhor Filme para a Juventude), mas Ernesto de Sousa foi impedido pela Pide de nele comparecer, tendo sido perseguido e preso. Foi estreado no cinema Império a 30 de Maio de 1962.
É um filme que se assume como “político” mas também um filme de vanguarda pela forma como a história é abordada e filmada, pelo tratamento cinematográfico a partir da improvisação. Sardo recordou que, certa vez, no Jornal de Letras e Artes, em 1962, perguntaram a Ernesto de Sousa se Dom Roberto era um filme populista, facto que o deixou furioso. Respondeu que não, e que, como qualquer filme tem tensões e contradições, mas não tinha qualquer tipo de paternalismo.
O Parlamento Europeu aprovou no dia 27 de Outubro uma directiva que prevê sanções penais mais severas contra as pessoas que abusam sexualmente de crianças ou que acedem a pornografia infantil na Internet. Corresponde à Proposta de directiva</Procedure> <ReferenceNo>(COM(2010)0094 – C7-0088/2010 – 2010/0064(COD)), apresentadas pela <Committee>Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos e decorrente do relatório de Roberta Angelelli. A resolução legislativa foi aprovada no Parlamento Europeu por 541 votos a favor, 2 contra e 31 abstenções. Os Estados-Membros terão dois anos para transpor a directiva para a legislação nacional.
Estudos revelam que entre 10% a 20% das crianças na Europa sofrem alguma forma de abuso sexual. Prevêem-se sanções penais para cerca de 20 crimes, um número bastante elevado em relação ao que é habitual na legislação europeia. As sanções serão mais severas quando o crime for cometido por um membro da família, por uma pessoa que coabita com a criança ou que “abusou de uma posição manifesta de tutela ou da sua autoridade” (como professores, educadores de infância, etc). As sanções serão também mais pesadas se o crime for cometido contra uma criança numa situação particularmente vulnerável, nomeadamente devido a deficiência mental ou física ou a um estado de incapacidade, como o causado pela influência de drogas ou álcool. Praticar actos sexuais com uma criança recorrendo à força ou coagi-la a prostituir-se será punível com uma pena de prisão de, pelo menos, dez anos.
O número de sítios Web de pornografia infantil está a crescer, sendo colocadas todos os dias em circulação 200 novas imagens de pornografia infantil. As vítimas que aparecem nos sítios de pornografia infantil são cada vez mais jovens, enquanto as imagens se estão a tornar cada mais explícitas e violentas.
As novas regras obrigam também os Estados-Membros a remover os sítios Web que contenham pornografia infantil ou, se isso não for possível, permite-lhes bloquear o acesso a essas páginas. A produção de pornografia infantil será punível com uma pena de, pelo menos, três anos. As pessoas que acedam intencionalmente a um sítio Web que contenha pornografia infantil poderão ser punidas com um ano de prisão. A directiva criminaliza também o aliciamento de crianças através da Internet para fins sexuais (on-line grooming) e o turismo sexual infantil, tanto nos casos em que crime seja cometido no território de um Estado-Membro ou por um cidadão europeu fora da UE.
Tendo em conta que cerca de 20% dos autores de crimes sexuais reincidem após uma condenação, a directiva prevê que uma pessoa condenada possa ser “impedida, temporária ou permanentemente, de exercer actividades pelo menos profissionais que impliquem contactos directos e regulares com crianças”.
Mais informações podem ser obtidas em : http://www.europarl.europa.eu/pt/headlin
Na relação pais/filhos o poder paternal é constituído por um complexo de poderes/deveres, poderes funcionais atribuídos legalmente aos progenitores para a prossecução dos interesses pessoas e patrimoniais de que o filho menor, não emancipado, é titular. Os “menores” não são já vistos como “sujeitos” protegidos pelo Direito, mas são titulares de direitos fundamentais juridicamente reconhecidos. O conteúdo do poder paternal está definido no artª 1878º do Código Civil: “Compete aos pais, no interesse dos seus filhos, velar pela segurança e saúde destes, prover ao seus sustento, dirigir a sua educação, representá-los, e administrar os seus bens”.
Quando se chega ao divórcio e à hipótese de guarda partilhada já muita coisa correu mal na vida de uma criança.
Vejamos dois cenários: A) Um em que os pais se entendem minimamente e B) outro em que há conflito aberto. De qualquer das formas, quando se chega à separação já as crianças perceberam – mesmo que palavras não tenham sido ditas – que algo se alterou na relação dos pais, que a sua vida vai mudar. Em qualquer dos casos as crianças sofrem traumatismos, nomeadamente angústias de confusão e de abandono. Se continuarem a contar com a presença e diálogo entre os pais, o processo de maturação irá, umas vezes melhor , outras pior, “reparar” o sofrimento sentido.
Nos casos em que o ambiente é francamente conflituoso, a criança cresce na insegurança. E falta de segurança faz com que se verifique um atraso nos lobos pré-frontais e baixa se serotonina, propulsora do desejo de viver. Quando uma criança é sujeita a um stress permanente, fica uma “cicatriz” no seu sistema nervoso central, o seu processo maturativo emocional fica danificado, irá no futuro ter dificuldades em fazer escolhas e tomar decisões.
Uma criança pode ser vítima de maus tratos directos (físicos ou psicológicos) ou indirectos, em casos de violência doméstica. A isto se pode acrescentar uma angústia de culpabilidade. Os sentimentos de solidão e desânimo podem, na adolescência, vir a ser aliviados por actos desviantes e levar ao suicídio. No entanto, não estou a dizer que é este o destino de todas as crianças que passaram por este processo! Felizmente, a capacidade de plasticidade, a presença de outras pessoas nas suas vidas, irá compensar e reparar, intervindo como mediadores, funcionando tutores de resiliência que venham a proporcionar-lhes a segurança de que necessitam.
Comecei a debruçar-me sobre estes assuntos e, como a nossa memória é curta, já nem me lembrava que na década de 80 ainda havia filhos ilegítimos!
Foi só em 1989 que se deu início ao processo que viria a conduzir em 1991 à declaração de inconstitucionalidade, pelo Tribunal Constitucional, do Assento do Supremo Tribunal de Justiça, que discriminava os filhos nascidos fora do casamento, por iniciativa da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas. E foi esta mesma associação que, na década de 90 participou na redacção da proposta que viria a dar origem à Lei nº 84/95 de 31 de Agosto, que permitia a opção pela responsabilidade comum das responsabilidades parentais. No entanto, esta associação sempre se opôs à sua imposição, dado que muitas pesquisas denunciavam o efeito perverso destas metodologias, sobretudo em casos de violência doméstica ou de grande conflitualidade entre os pais.
Em casos de conflito há que averiguar a vida quotidiana da criança, qual o progenitor mais presente na sua vida, com quem a criança tem uma relação afectiva de maior proximidade, chegando-se à ideia de “pessoa de referência”. A guarda de uma criança não deve ser transferida sem razões muito ponderadas que o justifiquem, devendo a criança ser ouvida, pois este é um seu direito fundamental. Os juízes e magistrados têm que estar abertos a esta análise da vida das crianças e têm que confiar nos técnicos que conhecem as crianças.
O último relatório da EU Kids Online, do mês de Setembro, pode ser consultado em http://www2.lse.ac.uk/media@lse/research/E
As sua recomendações dirigem-se a : governos, industria, crianças, pais, educadores, bem-estar das crianças e sociedade civil. No que diz respeito às crianças concluem:
- As crianças geralmente entender os códigos de ética de cortesia, consideração e cuidado das orientações da utilização social on line, mas têm ainda muito a aprender - ou para ser ensinado - sobre a importância de tais códigos on-line, para que se tornem habilitadas e responsáveis, sendo cada vez mais importante internet na sua vida diária. As crianças podem ter uma utilização mais criativa, experimental e imaginativa do que os adultos (pais, professores, outros). Ao contrário da crença popular, nas suas horas livres, as crianças não querem estar sempre online, mas muitas vezes faltam-lhes opções alternativas suficientes, como jogos, brincadeiras ao ar livre e de exploração, viagens horas, Assim, estas áreas também deverão ser-lhes proporcionadas.
- Portugal é classificado como um país de “baixo uso, algum risco” no acesso das crianças à Internet no Relatório da Comissão Europeia EU Kids Online. Em Portugal, este projecto de investigação - no ano de 2010 - é da responsabilidade do Programa Internet Segura da Comissão Europeia. Foram entrevistadas mais de 25 mil crianças (dos 9 aos 16 anos) e respectivos pais por toda a Europa, com o objectivo de perceber onde estão os riscos e as oportunidades na internet.
- Os países, quanto ao risco, foram agrupados em “baixo uso, baixo risco”, “baixo uso, algum risco”, “elevado uso, algum risco” e “elevado uso, elevado risco”. Portugal situa-se no grupo “baixo uso, algum risco”. Neste grupo também se incluem a Irlanda, Espanha e Turquia. Os países nórdicos e da Europa de Leste são os de maior risco.
- Não é de espantar que um dos problemas analisados seja o que se refere às imagens sexuais. E, vá lá, Portugal aparece quase na base da tabela com 13% das suas crianças a terem visto imagens em sites e 15% a terem visto ou recebido imagens sexuais. E, mais uma vez sem espanto, 40% dos pais ignoravam esse facto e entre as que já tinham recebido imagens sexuais 52% dos pais desconheciam. - E quanto à frequência do uso da internet, o que nos diz o relatório? Pois 60% dos jovens acedem à internet diariamente, contra 33% que só o faz semanalmente. Comparativamente, apenas 49% dos pais o fazem todos os dias, não utilizando mesmo este recurso 24% .
Em Portugal, os investigadores são Cristina Ponte; José Alberto Simões; Daniel Cardoso; Ana Jorge, da Universidade Nova de Lisboa.
Nos momentos felizes como nos de infortúnio ( de Redol), a sua alegria e a sua tristeza eram serenas e mesmo a sua indignação era reflectida. Dizia tudo naturalmente, simplesmente, como se nada do que se dissesse ou fizesse fosse extraordinário. O mais extraordinário nele era essa qualidade de ser simples no falar, no contar, no dizer (...) Para o António Redol, o observar tudo em detalhe não era morte, era vida (…) Absorvia o espectáculo da vida com uma atenção minuciosa e profunda, como se lhe fosse necessário ter a vida sempre presente para a guardar como reserva para a sua solidão e para a oferecer à solidão dos outros. Quando o vi a ultima vez no leito do hospital, falámos de tudo quanto nos interessava, nos escassos minutos permitidos pelo bom senso médico. Quando vi que falando comigo preferia ter os olhos fechados, pensei no que seria todo o seu tesouro de imagens, alguns raros compartilhados comigo.
(...) Como Narciso que se viu na sua melhor imagem, à luz de Apolo, também nós nos formamos e nos vimos à luz e á sombra dos amigos grandes, que nos mostram coisas simples na complexidade da via. Como as quadras simples do povo, que o António me recitava quando andava empenhado em Cancioneiro do Ribatejo.
António Redol, sintetizo-o para mim, ainda hoje, naquela resposta que recebeu e guardou como lição do saber-ver-as-coisas, de um ancião de Glória – Uma Aldeia do Ribatejo. Aprendiz da vida e jovem escritor o António perguntou ao ancião:
-“Aqui não há gente rica?” “Então o senhor não vê que o fumo das chaminés não alteia?”

Excertos do texto “O FUMO DAS CHAMINÉS NÃO ALTEIA” , do livro do psicanalista João dos Santos “Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2007, também publicado em Alves Redol: Testemunhos dos Seus Contemporâneos, Org. de Maria José Marinho e António Mota Redol, Caminho, Lisboa, 2001.
(...) Lá estávamos nós todos, os da delegação portuguesa, com o verniz de trinta anos atrás. Dentro de um avião, o António entre o Fernando Lopes-Graça e o Paul Éluard; no jardim da casa de Chopin, estávamos os dois com o Fernando; …Irene Curie, Jorge Amado, Henri Wallon e outros, cujos nomes se me varreram da memória.
(...) Apresentei o Alves Redol ao Wallon, em Wroclaw e o movimento de simpatia que se estabeleceu entre eles foi imediato. A partir de então, sempre que Wqllon me pedia notícias de Portugal, acrescentava: "E o seu amigo escritor?”(…) Foi através de Wallon que eu e a Hermínia fomos convidados para ir ao congresso que era organizado pela Universidade de Paris e Cracóvia. (…) Alves Redol, Lopes-Graça e Ferreira de Castro, que não aceitou, foram segundo creio, convidados pela União dos Universitários Franceses.
(...) Recordo-me do mais extraordinário convívio da minha vida e da vida que vivi com o António Redol e os outros bons companheiros e amigos portugueses…. Num envolvimento de cerca de trezentas pessoas das mais diversas culturas, continentes e países, vivemos num turbilhão de gentes que nos entrou no sentir e nos ficou na memória. …. Frequentámos também muito o grupo francês com Pablo Picasso sempre numa disposição de se escangalhar a rir com os ditos dos outros e com os seus; Paul Éluard a poesia em pessoa; Irene Joliot-Curie, a positiva cientista, amiga dos Valadares e com Henri Wallon.
(...) É estranho, mas emocionante, como ao evocar Redol encontrei Wallon e como ao descrever a faceta social mais atraente da personalidade de Wallon, encontrei de novo Redol. Mais meridional e portanto mais exuberante.; também mais artista e portanto menos sábio; menos tímido, Redol era, como Wallon, um extraordinário contador de histórias…. A verdade é que nos dois homens, como noutros escritores, encontrei o mesmo bom humor para aproveitar do quotidiano os pequenos acontecimentos adversos e para deles fazer uma divertida e significativa história….Em Henri, como em António, o riso era para trocar com os que se encontravam reunidos para saborear uma conversa de amigos, não para expandir para além do espaço íntimo…. As histórias que contavam não tinham a intenção de fazer humor ou de impressionar os auditores. Eram acidentes de percurso num diálogo vivo e muito directo.
Excertos do texto “O FUMO DAS CHAMINÉS NÃO ALTEIA” , do livro do psicanalista João dos Santos “Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2007, também publicado em Alves Redol: Testemunhos dos Seus Contemporâneos, Org. de Maria José Marinho e António Mota Redol, Caminho, Lisboa, 2001.
Na sua conferência apresentada na Fundação Gulbenkian, no dia 19.10, a que chamou “Recuperar a autoridade”, Daniel Sampaio foi à etimologia da palavra (“autoritas”) para se fixar na parte que diz respeito ao “poder do saber e da convicção”, afastando o poder da força.
Foi buscar o conceito do filósofo espanhol José Antonio Marina que diferencia a autoridade recebida (por mandato e que nem sempre é merecida) e a merecida – alcançada por mérito próprio, contrapondo a educação permissiva e indulgente que enfraqueceu o poder dos pais que recebem um mandato debilitado. Considera que lutar pela formação de um carácter forte e atento aos demais exige uma mistura bem doseada de firmeza e afecto, nem sempre conseguida pelos pais de hoje.
O autoritarismo do século passado é agora raro, até porque as crianças conhecem os seus direitos e depressa os denunciam. Mas em muitos lares, por contrapartida, instalou-se a permissividade, a uma falta de limites e regras que são prejudiciais ao desenvolvimento infantil saudável. A autoridade deve basear-se numa relação continuada de empatia, sentido do outro e confiança. Tudo o que põe em risco a segurança dos filhos não deve ser tolerado pelos pais.
Assim, esta crise de autoridade resulta de:
1 - crise das grandes narrativas explicativas; 2 - crise das instituições, da liderança; 3 - resposta ao autoritarismo pela permissividade; 4 - predomínio dos direitos com esquecimento dos deveres; 5 - predomínio do diálogo e negociação, quando há coisas que não são negociáveis; 6 - rejeição da estrutura com hierarquia com necessidade da procura da autoridade merecida; 7 - fragilização dos vínculos sociais.
Concluiu que a autoridade merecida se sedimenta na relação e na capacidade de transmitir um educação moral ou de carácter, um conjunto de orientações de princípios éticos que incluem o respeito mútuo, a hierarquia e a comunicação.
Lembrou o poeta António Maria Lisboa que dizia que a autoridade é a qualidade de ser autor. Se alguém for autor, então exerce uma autoridade.
Após concurso, em 2008, e durante três anos, foram implementados oito projectos de educação parental, nos distritos de Lisboa, Sintra e Setúbal, financiados pela Fundação Gulbenkian. Num deles tive o privilégio de poder participar.
No dia 19 de Outubro, os resultados finais foram apresentados numa Conferência, de entrada livre, que encheu várias salas da Fundação, com visionamento por vídeo-conferência e via internet.
A coordenação destes projectos coube a Daniel Sampaio que fez o resumo dos dados do conjunto dos oito projectos. Estiveram implicadas 8 organizações, foram abrangidas 899 famílias (correspondendo a 1063 cuidadores). Destes, 23% só tinham, em termos de instrução, o 1º ciclo e 57% encontravam-se não activos no mercado de trabalho, estando 23% a receber o Rendimento de Inserção Social, 26% com processos nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e 75% das famílias eram constituídas de 3 a 5 elementos.
Foi realçado o trabalho de dinamização em rede e de parcerias na comunidade, o propósito de continuação deste tipo de trabalho por parte de seis das organizações (a sustentabilidade das actividades era um dos critérios do Programa) e uma maior compreensão quanto à forma de trabalhar das CPCJ. Foram objectivos do Programa, que se consideraram atingidos:
1 -Valorização e respeito pelo papel dos pais, contrariando a ideia de que são “maus pais”, correspondendo a uma mudança de olhar sobre as famílias; 2 – Criação de espaços de confiança formais e informais; 3 – compreensão da parentalidade como um processo; 4 – contribuição para a responsabilização dos pais, luta contra ao estigma e aumento do “empowerment”; 5 – contribuição para a autonomia das famílias para além dos projectos; 6 – estudo da rede social das famílias, combate ao isolamento e articulação com a rede social de uma forma integrada; 7 – maior visibilidade dos trabalhos com as famílias e luta por maiores apoios.
Face aos objectivos iniciais, considera-se que se ficou a compreender de uma forma mais abrangente como é que se poderá melhorar o trabalho com pais, como os capacitar mais, como capacitar as equipas que com eles trabalham e quais as melhores técnicas para com eles trabalhar.
O livro, para além da exposição do trabalho desenvolvido pelas oito organizações, contém também excelentes capítulos de revisão teórica, de autoria de Hugo Cruz e Maria João Leote de Carvalho. Para quem trabalha nesta área, um livro que se recomenda.
No dia 27 de Setembro demos notícia do lançamento, no teatro “A Barraca”, de mais livros do poeta Carlos Mota de Oliveira, De um deles tirei três poemas que convosco quero partilhar. Precisamente estes três, exactamente neste momento que vivemos. Portugal, Outubro de 2011.
DEPUTADOS
Deputados ao ar livre
Deputados com mais enxofre e fósforo
do que flúor e hidrogénio
Deputados também tu
Deputados com um pé
onde as coisas não acontecem
Deputados que só falam de beringelas
e cebolas
Deputados até que enfim nas lonas
Deputados reprimidos
Deputados que se deixam montar
aos sábados no Alentejo
Deputados que levam a mão ao peito
Enfim, deputados com inflamações
nas partes genitais.
MINISTROS
Ministros sem nervo auditivo
Ministros feitos com sangue
fígado e banha de porco
Ministros que querem uma no saco
e outra no papo
Ministros cheios de mato
e carraças
Ministros sou um seu criado
Ministros que se curvam
até à veia cava interior
Ministros que tropeçam a cada passo
Ministros com enxames de abelhas
entre as pernas
Ministros até quando
Enfim, ministros sem lavagens nos intestinos.
AUTARCAS
Autarcas amolgados
Autarcas de excessiva pequenez
Autarcas que se oferecem para ser
o arreburrinho de alguém
Autarcas chega-te aos bons
e não serás um deles
Autarcas com ardor na uretra
Autarcas buscando a presa
Autarcas que dizem glória ao pai
ao filho e à secretária
Autarcas entre leitão e cevado
Autarcas para pedir chuva
Enfim, autarcas que vão dormir
sobre o caso ou depois do acto.
Do livro acima indicado podemos retirar um texto que, de alguma forma, tem a ver com o que tenho vindo a publicar sobre música.
“ GASPAR CASSADÓ
Anos atrás, ele encheu uma sala bem trajada – a rigor, digamos – emocionando uns, aborrecendo outros, mas legítimo argumento para roupas preparadas com semanas de antecedência.
Enquanto ele tocava, olhei para a plateia no escuro e senti o choque com o palco iluminado. Pareceu-me ver uma veste branca, luminosa. Flutuando num covil de lobos.
O que me parecia ser a veste branca? O violoncelo, a música? Não. a veste era visível, resplandecia, mas não nascia das coisas concretas. Existia talvez porque era oposta a nós. Liberta de um lado, flutuando, enquanto nós, pelo contrário, estávamos amarrados no lado oposto – covil dos lobos – às cadeiras, aos hábitos, sem evasão possível.
E o seu sorriso, ainda o guardo comigo. Completamente inesperado, desproporcionado connosco, a plateia, ignorando o teatro velho, os camarins mal-cheirosos, o afectado e a ignorância da terra. Ele sorria como se todos nós fossemos iguais; com limpidez, a confiança e a bondade de quem partilhava connosco o seu mundo próprio. O seu sorriso não aceitava (porque não a compreendia) a nossa mesquinhez.
Esse sorriso, em mim, fez o milagre: levou-me para o seu lado, para a “veste branca”, fazendo com que eu fosse halo também, e flutuando. Escrevi depois:
Te fuiste, pero mis manos llenaste de rosas.
Rosas cujo perfume não acabou ainda…e hoje ponho na sua campa.”
Nota: Gaspar Cassadó (1897-1966) foi um violoncelista nascido em Barcelona. Aos 9 anos de idade Pablo Casals ouviu-o tocar e fez dele seu discípulo. Deu espectáculos em vários países e foi também compositor - os seus “Requiebros”e o Concerto em D Minor são das obras mais conhecidas e tocadas.
Desde sempre a música tem sido indicado como factor importante para despertar e estimular emoções. O uso da música como método terapêutico tem uma longa história. Encontram-se registos que apontam para isso nas obras de Aristóteles e de Platão. Consideravam eles que as pessoas a ela eram sensíveis. Aos guerreiros determinada escala deveria ser dada a ouvir para os tornar mais agressivos…
A música pode produzir reacções fisiológicas. O medo e a alegria podem ser acompanhados por transpiração, excitação com determinados andamentos rápidos. Tristeza ou serenidade pode ser provocada por andamentos mais calmos. Estas reacções ocorrem independentemente da “vontade” do ouvinte. Outros estudos mostraram que a música activa as mesmas zonas cerebrais que participam do processamento de emoções.xxx Vieillard, (2005), defende que “uma das hipóteses neurobiológicas postula a existência de uma via cerebral específica para o processamento de emoções musicais”.
Não há música sem silêncio. O som é produzido pela vibração de corpos. O som da voz, por exemplo, é produzido pela vibração das cordas vocais, que se propaga no ar sob a forma de onda. O ouvido, assim como os outros órgãos do sentido, a pele, e o sistema nervoso, são originados de um mesmo tecido embrionário a ectoderme. Existe, portanto, uma ligação íntima e primitiva entre o sistema nervoso e o ouvido. Por isso, o contacto com sonoro tem como repercussão, por exemplo, reacções emocionais.
As ondas sonoras são captadas não só pelo ouvido, mas também pelas células sensitivas do corpo todo. Talvez pelo fato de o ouvido ser o órgão mais sensível às ondas sonoras, a sensação corporal táctil da vibração do som tenha ficado em segundo plano para muitos. Os deficientes auditivos parecem estar mais atentos a esta propriedade vibratória do som.
Nos meios de tratamento de perturbações psiquiátricas, desde o séc. XIX que a música é utilizada, numa denominada musicoterapia. E tratava-se simplesmente de assistirem a concertos e coros compostos pelos doentes. Pensava-se que os doentes poderiam melhorar no que respeita a “normais morais” e “comportamento socialmente adaptável”.
Os resultados positivos não eram muito visíveis…e entretanto outros métodos surgiram, ultrapassando os electrochoques, pela introdução de medicamentos mais eficazes no objectivo a atingir – acalmar os doentes. É a partir dos anos 70 que se retomam sessões com música, agora podendo ser os próprios técnicos a manejá-la: com a reprodução em gravação.
A Musicoterapia surgiu oficialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando a música passou a ser utilizada cientificamente e com fins terapêuticos na reabilitação e recuperação dos soldados feridos. O primeiro plano de estudos acerca dos efeitos terapêuticos da música (como e porque eles eram alcançados) foi elaborado em 1944, em Michigam (EUA).
Benezon (1982) define a musicoterapia desta forma: "Do ponto de vista científico, musicoterapia é um ramo da ciência que lida com o estudo e a investigação do complexo som-homem, onde o som pode ser musical ou não, bem como dos métodos terapêuticos e dos elementos diagnósticos que lhe são inerentes. Do ponto de vista terapêutico, a musicoterapia é uma disciplina paramédica que utiliza o som, a música e o movimento para produzir efeitos regressivos e para abrir canais de comunicação que nos permitirão iniciar um processo de tratamento e recuperação do paciente para a sociedade”.
E os técnicos questionaram-se: qual a melhor forma: individual, em grupo? Quais as melhores músicas: calmas ou agitadas? Qual a melhor metodologia: só ouvirem ou praticarem, ou até construir instrumentos?
A musicoterapia pode ser usada em contextos de tratamento psiquiátrico ou em contextos educacionais. A utilização deste método pode ser feita individualmente ou em grupo. Pode envolver actividades musicais (escuta musical, canto, improvisação vocal e instrumental, expressão corporal e outras que envolvam som e movimento),. Pode ser num processo planificado e continuado no tempo, pode ser mais pontual.xxxNo que se refere à sua utilização a nível terapêutico, pode ser para pessoas com : hiperactividade, autismo, síndrome de Down, Rett e Turner, paralisia cerebral, lesões cerebrais, deficiências sensoriais, (visual e auditiva), dislexia, dificuldades de aprendizagem, depressão, ansiedade.
"Terapeuticamente, a música ultrapassa o seu papel de entretenimento, de enriquecimento cultural, (…), para servir de suporte a técnicas particulares de psicoterapia(…).A originalidade das técnicas comparadas com outros métodos de psicoterapia, consiste na participação do terapeuta e dos pacientes numa mesma experiência emocional, quer se trate de uma audição em comum ou da criação de uma obra musical que nasce da improvisação. A relação torna-se terapêutica na medida em que, como mostrou Winnicott, a melodia de jogo do paciente cruza-se com a do terapeuta." - Verdeau-Paillès, 1983.
Caravaggio, «Os Músicos», 1596
(Nordoff-Robbins Music Therapy Video Portrait)
Palácio de Queluz, Nov. 2010
CRAMOL O grupo coral feminino CRAMOL, nasceu há quase trinta anos na Biblioteca Operária Oeirense. Revivificam muitos dos cantares de mulheres recolhidos nas várias regiões de Portugal, numa viagem pela música tradicional cantada no feminino. Têm já uma história comprida, vários discos publicados, muitas idas ao estrangeiro a participar em festivais, várias colaborações em discos de cantores mais conhecidos (por exemplo nas “galinhas do mato” de Zeca Afonso) mas nada escrito para vos poder transmitir. Lembro-me de numa actuação, em que apresentaram o seu maestro (Eduardo Paes Mamede) e onde não vinham no cartaz os nomes das cantoras, lhes ter perguntado se não “mereciam” dar a cara… Palácio de Queluz, Nov. 2010 (S. Gonçalo de Amarante)
MESTRE MANUEL BENTO Manuel Bento, um exímio músico alentejano, é o ultimo intérprete da velha geração de tocadores de viola Campaniça. Antes dele, muitos outros foram protagonistas desta arte de fazer tocar o arame. Aceitou o desafio de voltar a tocar, para se divulgar e fazer renascer esta preciosidade já esquecida. Este ano, Manuel Bento foi homenageado em Ourique pela sua tenacidade e pela sua mestria.
TIAGO PEREIRA - Sinfonia Imaterial A Fundação INATEL encomendou a realização do documentário “Sinfonia Imaterial”, ao realizador Tiago Pereira com direcção de produção da QUIVIART. Este documentário pretendeu registar as actuais práticas musicais de tradição oral portuguesa, que estão vivas e que prevalecem nas várias regiões de Portugal continental e ilhas. Percorreu o país, as ilhas inclusive, registou a música dos bombos de Paul, na Covilhã, da mulher de 91 anos que toca guitarra portuguesa no Faial e aos violinos e cavaquinhos parentes do cajun e do blues em Porto Santo. Novos e velhos, gente muito séria e gente de sorriso matreiro, amadores que desafinam e instrumentistas de excepção. Tudo filmado em plano fixo e enquadrado na paisagem natural, em tascas ou em salas de estar de casas anónimas - e sem outra informação para além das legendas que identificam temas, instrumentos e lugares. Diz ele: “ando a filmar velhinhas”. Tiago Pereira integra um projecto - A MÚSICA PORTUGUESA A GOSTAR DELA PRÓPRIA com os seguintes objectivos: - Celebrar a maravilhosa variedade da música portuguesa; trazer a música para a rua; divulgar a música portuguesa e o autor português; GOSTAR da música portuguesa e aumentar-lhe o ego. http://amusicaportuguesa.blogspot.com/
5 de Outubro 2010, ESPECTÁCULO criado pelo GRUPO de TEATRO "O BANDO" de
JOÃO BRITES
Integrado no Programa Oficial das Comemorações do Centenário da
República
O bebé nasce e comunica com os que o rodeiam através do choro. Do ponto de vista auditivo, esta é a única forma até cerca de um ano de vida. Porque sabemos que há outras formas de comunicação…
Em Portugal, foi o pediatra João Gomes Pedro que, na sua tese de doutoramento, provou que o bebé responde com prontidão aos estímulos com movimentos de diversa amplitude e intensidade durante a vida pré-uterina.
Convém realçar que de uma audição em meio líquido o bebé passa para uma audição em meio aéreo.
Há autores que distinguem quatro tipos de choro dos bebes com duração de frequências, sequências temporais e espectografias características que despertam nas mães reacções específicas, verificando que estas utilizam essencialmente a voz para a extinção dos mesmos.
É interessante o facto de, às 5 semanas, o bebé não ser capaz de distinguir o seu rosto da mãe mas ser capaz de distinguir a sua voz entre outras vozes. E entre o 3º e o 6º mês já o começamos a ouvir a brincar com os sons que ele próprio produz.
Didier Anzieu, pedopsiquiatra francês, avançou com o conceito de envelope sonoro que corresponde a um estado muito precoce da formação do Eu, e que é como que um “um espelho sonoro ou uma pele audiofónica em que a sua função será zelar pelo aparato psíquico e pela aquisição da capacidade de dar significado e
de simbolizar”.
“A voz da mãe é a da música; a música, é da voz da mãe.”- Piérre Paul Lacas
Já sabemos que a mãe, ou o seu substituto tem uma importância primordial nos primeiros tempos de vida. Diz-nos um autor de referência inquestionável – Winnicott - “se a mãe não for capaz de se adaptar às necessidades do bebé, ele não vai perceber o facto de que o mundo já estava lá antes que ele tivesse concebido ou concebesse o mundo”. E a mãe vai dando sentido, através da palavra aos sentires que pensa que a criança vai tendo:
E é aqui que a música pode ter a função de consolidação da vinculação do bebé à mãe. As canções de embalar são universais …e a criança sente-se envolvida num banho melódico, unida a quem para ele canta, sente-se confortável, apaziguada e relaxada.
Zeca Afonso – canção de embalar:
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
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