Um Café na Internet
(continuação)
E uma tarde perfeita amadureceu lentamente, lentamente se foi apagando, lentamente fecharam-se as suas pétalas.
― Nunca um garden-party foi tão delicioso… ―, ― O maior acontecimento…―, ― Foi mesmo o máximo…
Laura ajudou a mãe nas despedidas. Ficaram lado a lado no alpendre até tudo ter acabado.
― Acabou tudo, finalmente, graças a Deus, ―disse a Senhora Sheridan. ― Junta os outros e vamos tomar um café acabado de fazer. Estou exausta. Pois, correu tudo muito bem. Mas estas festas, estas festas! Porque é que, miúdas, insistem em dar festas! ― E foram todos sentar-se debaixo do toldo deserto.
― Querido papá, come uma sanduíche. Fui eu que fiz o letreiro.
― Obrigado. ― O Senhor Sheridan deu uma dentada e a sanduíche foi-se. Pegou noutra. ― Suponho que não ouviram falar de um acidente brutal que aconteceu hoje? ― perguntou.
― Meu querido, ― disse a Senhora Sheridan, levantando a mão, ― ouvimos. Quase estragou a festa. A Laura insistia em que a suspendêssemos.
― Oh, mãe! ― Laura não queria que a arreliassem com o assunto.
― Foi um acontecimento horrível de qualquer modo, ― disse o Senhor Sheridan. ― O fulano ainda por cima era casado. Morava mesmo aqui em baixo na travessa, e deixa viúva e meia dúzia de garotos, ao que contam.
Caiu um silêncio pesado. A Senhora Sheridan abanicava a chávena. Realmente, era cá uma falta de tacto do pai…
De súbito, olhou em frente. Sobre a mesa restavam por comer sanduíches de todos os tipos, bolos, bombas. Iam ser deitados fora. Teve uma das suas ideias brilhantes.
― Já sei. ― disse. ― Vamos arranjar um cesto. Vamos enviar àquela pobre criatura alguma desta comida em perfeito estado. Seja como for, será o melhor regalo para as crianças. Não acham? E com certeza que ela tem lá vizinhos a visitá-la, fora o resto. Que bom ter coisas já prontas para comer. Laura! ― Levantou-se com um pulo. ― Vai buscar o cesto grande ao armário da escada.
― Mas, mãe, acha que é boa ideia? perguntou Laura.
Como era curioso que, mais uma vez, ela se sentisse diferente de todos os outros. Levar migalhas da festa. Será que a pobre mulher iria gostar?
― Claro que sim! Que se passa contigo hoje? Há uma hora ou duas insistias em que devíamos ser simpáticos, mas agora….
Está bem! Laura foi a correr buscar o cesto. A mãe encheu-o até cima.
(continua)
Hélia Correia Sul
(Adão Cruz)
Aquele não era o som da peste, pensou Joan. Não tinha, como têm os lamentos, uma direcção certa; não buscava um efeito contra as portas cerradas do céu e do inferno. Havia um brado, a rouquidão de um esforço. E um emaranhado de rumores que lhe seria fácil ordenar, pegando-lhes nas pontas um a um, isolando as camadas de modo a poder dar-lhes um nome e um motivo. Nada, porém, gerado pela terra costumava merecer-lhe uma atenção.
No seu terraço, olhava para as estrelas. E estava ali faziam tantos anos que nem mesmo o mais velho dos vizinhos se lembrava de o ter visto chegar. Visitavam-no às vezes mancebos de liteira e velhos que tremiam nos seus gibões escarlates. Mas também os peixeiros e mesmo os que viviam nos cantos das ruelas na esperança de um frete ou de um bom roubo trepavam pela escada em caracol que os conduzia até Joan de Sória para que ele decifrasse na vontade dos astros que fortuna aguardava os seus recém-nascidos. Era uma espécie de revolução o facto de um plebeu e até um vadio poderem consultar para os seus filhos os livros de uma ciência que passara de credo a credo e de regime para regime porque a todos servira sem um estremecimento.
O povo amava e alimentava Micer Joan, mas uma coisa e outra às escondidas. Quando, ao raiar do sol, ele se encostava sobre o grande baú que era o seu leito, via poisada no tijolo da braseira uma escudela cheia com as papas de milho e às vezes a cabeça de um peixe a fumegar. Entre as mulheres que o assistiam e as fadas. Joan não encontrava substancial diferença. Mesmo no fim das noites de maior lucidez em que a doce tontura do cansaço era o mais desejado dos prazeres ele encharcava a cara e bocejava, sentava-se a comer com ruidosas exclamações de apreço para as não ofender nos seus desvelos.
Pelo contrário, os nobres queriam-lhe um certo mal pois os desastres de que os avisara haviam quase todos sucedido. E não sabiam se Micer Joan lhes dera a conhecer os seus destinos traçados muito antes de eles nascerem, no início das eras do universo, pela mão que aprecia e distribui a dor — ou se, com nomeá-los, ele é que os inscrevia numa folha que Deus deixara limpa mas não suficientemente resguardada. A curiosidade e o medo eram, no entanto, mais fortes que essa dúvida e os fidalgos, já que Joan de Sória recusava sair ainda que fosse o rei a convocá-lo, vinham vê-lo na plena luz do dia. sem o menor disfarce, levando à frente os moços que se davam os braços para não escorregarem nas podridões da rua e recolhendo as capas que corriam o risco de lhes ficarem presas nos varandins de tábua, mais baixos do que os ombros de qualquer cavaleiro. Não queriam revelar a repugnância com que se sujeitavam a buscá-lo.
Micer Joan gostava daqueles bairros. E, do seu torreão de adobe e pedra, pairava sobre o peso, a sujidade, as tarefas despóticas dos homens. Mentia um pouco, o menos que podia, somente o necessário para os aliviar quando estavam a ponto de lançar fogo às casas num grande desespero.
Um Café na Internet
(continuação)
O almoço acabou lá para a uma e meia. Às duas e meia estava tudo preparado para a batalha. Tinha chegado a orquestra, com os músicos de casaco verde, e instalaram-na num canto do campo de ténis.
― Minha querida! ― trinou Kitty Maitland, ― não achas que são tal e qual rãs? Devias tê-los posto à roda do lago, com o maestro ao meio sobre uma folha.
Laurie chegou e cumprimentou-as a caminho de se ir vestir. Ao vê-lo Laura lembrou-se novamente do acidente. Queria contar-lhe. Se Laurie fosse da mesma opinião que os outros, então é que estava mesmo tudo bem. E entrou no átrio atrás dele.
― Laurie!
― Olá! ― Ele ia a meio das escadas, mas virou-se e quando viu Laura encheu as bochechas e arregalou os olhos para ela. ― Acredita, Laura! Estás mesmo estonteante. ― disse. ― Que categoria de chapéu!
Laura respondeu com voz fraca ―Achas? ―, sorriu para o irmão e acabou por não lhe contar nada.
A seguir as pessoas começaram a chegar aos magotes. A orquestra começou a tocar; os criados contratados despachavam-se entre a casa e o toldo. Por todo o lado viam-se casais deambulando, inclinando-se para ver as flores, cumprimentando, passeando sobre o relvado. Eram como passarinhos coloridos que tivessem poisado no jardim dos Sheridan naquela tarde, na sua viagem para – onde? Ah, que agradável é estar com pessoas que estão felizes, apertar mãos, acariciar faces, sorrir uns nos olhos dos outros.
― Querida Laura, que bem que estás
― Como te fica bem esse chapéu!
― Laura, pareces mesmo uma espanhola. Nunca te vi tão encantadora.
E Laura, animadíssima, respondia suavemente, ― Já tomaram chá? Não querem um gelado? Os gelados de maracujá são qualquer coisa de especial. ― Foi a correr ter com o pai e pediu-lhe ― Paizinho querido, pode-se servir qualquer coisa para beber á orquestra?
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
― E pensa no que vai custar à pobre mulher estar a ouvir a orquestra, ― disse Laura.
― Oh, Laura! ― Jose estava a começar a ficar seriamente preocupada. ― Se proibires uma orquestra de tocar sempre que alguém tem um desastre, vais ter uma vida muito agitada. Tenho tanta pena do que aconteceu quanto tu. Também sinto muita pena. ― Os olhos dela endureceram. Olhou para a irmã da mesma maneira como quando eram pequenas e andavam à zaragata. ―Não consegues fazer ressuscitar um trabalhador bêbedo com sentimentalismos, ― disse suavemente.
― Bêbedo! Quem foi que disse que ele estava bêbedo? ― Laura olhou furiosa para Jose. Disse, tal como costumavam em ocasiões assim, ― Vou já dizer à mãe.
― Vai, querida,― provocou Jose.
― Mãe, posso entrar no seu quarto? ― Laura fez girar o puxador de vidro da porta.
― Claro, filha. O que se passa? Porque estás tão corada? ― E a Senhora Sheridan levantou-se da mesa de vestir. Tinha estado a experimentar um chapéu novo.
― Mãe, morreu um homem, ― começou Laura.
― Aqui no nosso jardim? ― interrompeu a mãe.
― Não, não!
― Que susto me pregaste! ― A Senhora Sheridan suspirou de alívio, tirou o chapéu grande e poisou-o nos joelhos.
― Mas oiça, mãe, ―disse Laura. Ofegante, meio engasgada, contou a história terrível. ― Claro que não podemos dar a nossa festa, pois não? ― implorou ela. ― Com a orquestra e toda a gente a virem por aí. Vão ouvir-nos, mãe; são praticamente nossos vizinhos!
Para espanto de Laura a mãe reagiu tal qual Jose; era ainda mais difícil de suportar com o ar divertido dela. Recusou levar Laura a sério.
― Mas, minha querida filha, sê razoável. Só soubemos disso por acaso. Se alguém tivesse morrido naturalmente – e não consigo perceber como conseguem viver naqueles buraquinhos tão acanhados ― nós teríamos a nossa festa à mesma, não é verdade?
Laura teve de responder que sim àquele raciocínio, mas sentia que estava tudo errado. Sentou-se no sofá da mãe e beliscou o folho da almofada.
― Mãe, é uma grande falta de sentimentos da nossa parte, não é? ― perguntou.
― Querida! ― A Senhora Sheridan levantou-se e veio até ela, com o chapéu na mão. Antes que Laura a pudesse deter, colocou-lho na cabeça. ― Minha filha! ― disse a mãe, ― o chapéu é teu. É como se tivesse sido feito de propósito para ti. É demasiado juvenil para mim. Nunca te tinha visto a parecer tal e qual um quadro. Vê-te ao espelho! ― E passou-lhe um espelho para a mão.
― Mas, mãe, ―Laura ia a começar outra vez. Não conseguia ver-se ao espelho; voltou-se.
Desta vez a Senhora Sheridan perdeu a paciência, tal como Jose anteriormente.
― Estás a portar-te de uma forma completamente absurda, Laura, ― disse friamente. ― Pessoas como aquelas não esperam sacrifícios da nossa parte. E não é muito simpático estragar a boa disposição dos outros como agora estás a fazer.
― Não compreendo, ― disse Laura, e saiu imediatamente do quarto da mãe e foi refugiar-se no seu. Aí, por acaso, a primeira coisa que viu foi uma rapariga encantadora ao espelho, com um chapéu preto ataviado com margaridas douradas, e uma longa fita de veludo preto. Ela nunca tinha pensado que podia ter aquele aspecto. Será que a mãe tem razão? pensou ela. E agora desejava que a mãe tivesse razão. Estarei a ser extravagante? Talvez fosse extravagante. Veio-lhe um vislumbre instantâneo da pobre mulher e das crianças pequenas, e do corpo a ser transportado para casa. Mas tudo lhe aparecia nublado, irreal, como uma fotografia no jornal. Vou pensar nisto quando a festa acabar, decidiu. E de algum modo pareceu-lhe ser o melhor a fazer…
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
― Tac, tac, tac, ― a cozinheira parecia cacarejar como uma galinha agitada. A Sadie tinha a mão a agarrar a cara como se estivesse com dor de dentes. O rosto de Hans contorcia-se com o esforço para compreender. Só o homem da Godber parecia estar contente; era ele quem contava a história.
― Que se passa? Que aconteceu?
― Houve um acidente terrível. ― disse a cozinheira. ―Morreu um homem.
― Morreu um homem! Onde? Como? Quando?
Mas o homem da Godber não ia deixar que alguém contasse a história por ele.
― Estão a ver aquelas casinhas ali em baixo, meninas? ― Se as conheciam? Claro que as conheciam. ― Pois, vivia ali um rapaz chamado Scott, que trabalhava como carroceiro. O cavalo dele, na curva da rua Hawke, assustou-se com um tractor, e ele foi projectado e bateu no chão com a parte de trás da cabeça. Morreu,
― Morreu! Laura olhava para o homem da Godber.
― Estava morto quando o levantaram, ―disse o homem da Godber com ar prazenteiro. ― Iam a levar o corpo para casa quando eu vinha para aqui. ― E disse para a cozinheira, ― Deixa mulher e cinco filhos.
― Anda cá, Jose. ― Laura puxou a manga da irmã e levou-a através da cozinha até passarem a porta forrada a baeta verde. Parou e encostou-se ali. ― Jose! ― disse, horrorizada, ― como é que vamos suspender tudo?
― Suspender tudo, Laura! ― exclamou Jose espantada. ― Que queres dizer?
― Suspender o garden-party, claro. ― Porque é que a Jose fingia não perceber?
Mas Jose estava cada vez mais espantada. ―Suspender o garden-party? Minha querida Laura, não sejas absurda. Claro que não podemos fazer nada disso. Ninguém espera que o façamos. Não sejas tão extravagante.
― Mas nós não podemos de modo nenhum dar um garden-party com um homem morto mesmo do lado de fora do nosso portão da frente.
Era realmente extravagante, pois as casinhas ficavam numa travessa só delas, mesmo ao fundo de uma ladeira que conduzia à casa. Havia uma estrada larga de permeio. Era verdade que não deveriam estar ali tão perto. Constituíam uma ofensa para a vista, e não tinham qualquer direito de estar ali ao pé. Eram moradias muito humildes pintadas a castanho chocolate. Nas nesgas ajardinadas só se viam caules de couve, galinhas doentes e latas de tomate. Até o fumo que saía das chaminés tinha um ar de pobreza. Aos bocadinhos e a retalhos, tão diferente das grandes plumas prateadas que se desenrolavam da chaminé dos Sheridan. Viviam na travessa lavadeiras, varredores e um sapateiro, além de um homem cuja casa tinha a frente toda coberta com gaiolas de aves minúsculas. As crianças enxameavam. Quando os Sheridan ainda eram pequenos estavam proibidos de pôr ali os pés por causa da linguagem grosseira e das doenças que poderiam apanhar. Mas quando cresceram, a Laura e o Laurie passeavam às vezes por ali. Era repugnante e sórdido. Voltavam de lá sobressaltados. Mas era preciso ir a todo o lado; devia ver-se tudo. Por isso lá iam eles.
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
Lá conseguiram encontrar o envelope atrás do relógio da sala de jantar, embora a Senhora Sheridan não tivesse a menor ideia sobre como teria ido lá parar.
― Uma de vocês surripiou-mo da minha mala, porque eu lembro-me muito bem … queijo creme e requeijão. Escreveste?
― Sim.
― Ovo e… ― a Senhora Sheridan tirou-lhe o envelope. ― Parece ratazanas. Não pode ser ratazanas, pois não?
― Azeitonas, mãezinha, ― disse Laura, por cima do ombro dela.
― Azeitonas, pois claro. Que mistura horrível. Ovo e azeitonas.
Lá conseguiram acabar, e Laura levou foi levar tudo à cozinha. Encontrou Jose a acalmar a cozinheira, que não parecia querer aterrorizar ninguém.
― Nunca tinha visto sanduíches com um aspecto tão requintado, ― dizia Jose com uma voz entusiástica. De quantas qualidades é que disse que há, cozinheira? Quinze?
― Quinze, Miss Jose.
― Bem, cozinheira, os meus parabéns.
A cozinheira varreu umas migalhas com a faca de cortar pão, e mostrou um grande sorriso.
― Chegaram da Godber, ―avisou Sadie, a sair da copa. Tinha visto o homem a passar em frente á janela.
Portanto as bombas tinham chegado. A Casa Godber era famosa pelas suas bombas. Ninguém pensava sequer em fazê-las em casa.
― Trá-las e põe-nas na mesa, menina, ― ordenou a cozinheira.
A Sadie trouxe-as para dentro e voltou à porta. Claro que a Laura e a Jose eram demasiado crescidas para ligarem muito aquelas coisas. De qualquer modo, não podiam deixar de concordar que as bombas tinham um aspecto muito atraente. Muito. A cozinheira começou a arranjá-las, limpando o açúcar gelado a mais.
― Não achas que nos fazem recordar todas aquelas festas em que já estivemos?
― Acho que sim, ― disse a prática Jose, que não gostava de recordar o passado. ― Parecem muito leves, como penas.
― Tirem um cada uma, queridas, ― disse a cozinheira com voz tranquila. ― A vossa mãe não dá por isso.
Oh, não podia ser. Imaginem, bombas logo a seguir ao pequeno almoço. Só pensar nisso causava sobressaltos. De qualquer maneira, dois minutos depois Jose e Laura lambiam os dedos com aquele ar pensativo que só o chantilly consegue causar.
― Vamos ao jardim, pelo caminho de trás, ― propôs Laura. ― Quero ver como é que os homens se estão a haver com o toldo. São tremendamente simpáticos.
Mas a porta de trás estava impedida pela cozinheira, por Sadie, pelo homem da Godber e por Hans.
Tinha acontecido alguma coisa.
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
Na sala de visitas a Meg, a Jose e o pequenino Hans finalmente tinham conseguido mudar o piano.
― E agora, que acham se encostássemos o sofá à parede e levássemos tudo o resto, menos as cadeiras, lá
para fora?
― Muito bem.
― Hans, empurra estas mesas para a sala de fumo, e traz uma vassoura para tirarmos estas marcas no tapete - espera um instante, Hans ―Jose adorava dar ordens aos criados, e eles adoravam obedecer-lhe. Era como se ela os fizesse sentir que estavam num teatro. ― Digam á mãe e à menina Laura para virem já aqui.
― Muito bem, menina Jose.
Ela disse a Meg. ―Quero ver como está o piano, para o caso de quererem que eu cante esta tarde. Vamos experimentar A vida é Enfadonha.
Pom! Ta-ta-ta Ti-ta! O piano explodiu tão apaixonadamente que o rosto de Jose se alterou. Apertou as mãos. Deitou um olhar pesaroso e enigmático à mãe e à Laura quando entraram na sala.
Esta Vida é Enfado…nha
Uma Lágrima…um Suspiro.
Um Amor de No…vo,
Esta Vida é Enfado..nha,
Uma Lágrima…Um Suspiro.
Um Amor de No…vo,
E então…Adeus!
Mas com a palavra Adeus, e embora o piano soasse mais desesperadamente do que nunca, a face dela brilhou com um sorriso brilhante, chocantemente antipático.
― Estou a usar bem a voz, não estou, mãezinha? perguntou a sorri.
Esta Via é Enfado…nha,
A Esperança vem para Acabar.
Um Sonho A…corda.
Foi então que a Sadie as interrompeu. ― O que é, Sadie?
― Por favor, minha senhora, a cozinheira está a perguntar se arranjou os letreiros para as sanduíches?
― Os letreiros para as sanduíches? repetiu a Senhora Sheridan com ar pensativo. As crianças perceberam pelo ar dela que não os tinha prontos. ― Deixa ver. ― Disse firmemente a Sadie, ― Vai dizer à cozinheira que os tenho prontos daqui a dez minutos.
― E agora, Laura, ― disse a mãe rapidamente, ― vem comigo á sala de fumo. Tenho os nomes escritos num envelope que não sei onde está. Vai ter de os escrever por mim. Meg, vai já lá cima e tira essa coisa molhada da cabeça. Jose, vai acabar de te vestir imediatamente. Estão-me a ouvir ou tenho de dizer ao vosso pai quando ele chegar a casa á noite? E… e, Jose, se fores à cozinha acalma a cozinheira, está bem? Estou com muito medo dela, esta manhã.
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
Laura poisou o auscultador, levantou os braços acima da cabeça, respirou fundo, esticou-os e deixou-os cair. ― Uuuh!― suspirou, e levantou-se rapidamente. Parou, a ouvir. Todas as portas da casa pareciam abertas. A casa estava viva com o som de passos rápidos e suaves e vozes activas. A porta forrada a baeta verde que dava para os lados da cozinha abria e fechava com um som abafado. Ouvia-se um som longo, absurdo, como um cacarejo. Era o piano tão pesado a ser arrastado sobre as rodinhas rijas. Mas o ar! Parando a observar, seria que o ar era sempre assim? Ligeiras correntes de ar brincavam a apanhar por todo o lado, no cimo das escadas, ou às portas. E apareciam dois pequenos reflexos de sol, um no tinteiro, outro numa moldura de prata de fotografia, também a brincar. Que lindos reflexos. Sobretudo o na tampa do tinteiro. Estava mesmo quente. Uma pequena estrela quente de prata. Gostava de a ter beijado.
A campainha da porta da frente tocou, e ouviu-se o roçagar da saia estampada de Sadie a descer a escada. Uma voz de homem disse qualquer coisa; Sadie respondeu despreocupadamente, ― Não sei nada. Um momento. Vou perguntar à Senhora Sheridan.
― O que é, Sadie? Laura entrou no átrio.
― É o florista, menina Laura.
Era mesmo. Mesmo ao entrar da porta, estava uma bandeja larga e rasa carregada com vasos de lírios rosados. Nenhuma outra flor. Apenas lírios – de cana, grandes flores rosadas, bem abertas, radiantes, quase assustadoramente vivas sobre hastes carmesins brilhantes.
― O-oh, Sadie! ― disse Laura, e a voz parecia um gemido. Curvou-se como se quisesse aquecer-se ao brilho dos lírios; sentiu-os nos dedos, nos lábios, a crescer no seio.
― Há algum engano, disse com voz fraca. ― Ninguém ia mandar vir tantos. Sadie, vá ver se encontra a mãe.
Mesmo nesse instante a Senhora Sheridan chegou ao pé delas.
― Está tudo bem, disse calmamente. ― Eu encomendei-as. Não são lindas? ― Pegou no braço de Laura. ― Ontem ia a passar pela loja, e vi-as na montra. E veio-me à cabeça a ideia de, ao menos uma vez na vida, ter todos os lírios de cana que eu quisesse. O garden-party é uma boa desculpa para isso.
― Mas pareceu-me ouvi-la dizer que não queria interferir em nada, ― disse Laura. A Sadie já não estava ao pé delas. O homem do florista ainda estava na rua, ao pé da carroça. Laura passou o braço à volta do pescoço da mãe e, suavemente, muito suavemente, mordeu a orelha da mãe.
― Minha filha querida, não me diga que preferia ter uma mãe toda racional, se calhar? Não queira uma coisa dessas. Aqui está o homem.
Ele trouxe mais lírios, mais uma bandeja deles.
― Ponha-os aí do lado de dentro, ao pé da porta, nos dois lados do alpendre, ― disse a Senhora Sheridan. ― Laura, achas bem assim?
― Claro, mãe.
(continua)
Ethel Feldman Augusto
(Adão Cruz)
Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado levou a mão à boca numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência. Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?
Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.
Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.
Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã. Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.
Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.
Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado. O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.
O que é ler? (II)
Um Café na Internet
(Continuação)
Tinha que ser. Os homens já tinham posto ao ombro as aduelas e encaminhavam-se para o lugar em questão. Apenas o fulano alto ficava para trás. Baixou-se, apanhou um rebento de alfazema, levou o polegar e o indicador ao nariz e aspirou o cheiro. Ao ver este gesto Laura esqueceu tudo a respeito das karakas, estupefacta por ele dar atenção a coisas como o cheiro da alfazema. Quantos homens conhecia ela que fariam uma coisa assim? Pensou que os trabalhadores eram muito simpáticos. Porque não poderia ela ter trabalhadores como amigos em vez dos rapazes parvos com quem dançava e que vinham cear ao domingo? Dar-se-ia muito melhor com homens como estes.
Isto é tudo, concluiu ela, enquanto o fulano alto desenhava nas costas de um envelope uma coisa que tinha de ser envolvida ou pendurada, por causa destas absurdas distinções de classe. Bem, por parte dela, não as levava em conta. Nem um bocadinho, nem um átomo… E agora começava o pam – pam dos martelos de madeira. Alguém assobiou, outro gritou ― Estás aí, rapaz? ― . ― Rapaz! ― O afecto com que era dito … Para provar como estava contente, para mostrar ao fulano alto como se sentia á vontade, e como desprezava convenções estúpidas, a Laura deu uma grande dentada no seu pão com manteiga enquanto olhava para o pequeno desenho. Sentia-se uma trabalhadora.
― Laura, oh Laura, por onde andas? Vem ao telefone, Laura!
― Lá vou! Deslizou pela relva fora, até ao caminho, subiu os degraus, atravessou a varanda e entrou em casa. No átrio o pai e Laurie escovavam os chapéus para irem para o escritório.
― Ouve, Laura ― disse Laurie rapidamente, ―podias dar uma vista de olhos ao meu fato antes de logo à tarde? Para ver se precisa de ser passado a ferro.
― Eu vejo ― respondeu ela. De repente, não se conseguiu conter. Correu atrás de Laurie e agarrou-lhe o braço.
― Gosto muito de parties, e tu? ― sussurrou.
― Bastante ― disse Laurie com a sua voz quente e juvenil, e agarrou também no braço da irmã, empurrando-a suavemente. ― Olha o telefone, miúda.
Claro, o telefone. ― Sim, sim. Olá. É a Kitty? Bom dia, querida. Vens almoçar? Vens, pois. Fico muito contente, é verdade. Vai ser tudo improvisado, uns restos de sanduíches e de merengue, tudo sobras. Olha que linda manhã que está! Vens com o branco? Era o que eu faria também. Espera só um momento, não desligues. A mãe está a chamar. ― e a Laura chegou-se para trás e endireitou-se ― O que é, mãe? Não oiço.
A voz da senhora Sheridan ecoou na escada. ― Diz-lhe que traga aquele lindo chapéu que ela tinha domingo passado.
― A mãe diz para trazeres aquele lindo chapéu que tinhas no domingo passado. Está bem. À uma hora. Até logo.
(Continua)
Branquinho da Fonseca A Prova de Força
Branquinho da Fonseca (1905-1974)
Cursou Direito na Universidade de Coimbra e aí fez parte do grupo da revista Presença (com José Régio e João Gaspar Simões), da qual se desligou em 1930 para fundar (com Miguel Torga) uma outra publicação, Sinal. Entre 1936-38, colaborou no Manifesto, outra revista literária da época. Exerceu as profissões de conservador do Registo Civil, director do Museu e do serviço (por ele criado) de bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Os seus primeiros livros apareceram sob o pseudónimo de António Madeira.
Obras principais: Conto: Zonas (1931), Caminhos Magnéticos (1938) , Rio Turvo (1945), Bandeira Preta (1956); Romance e Novela: O Barão (1942), Porta de Minerva (1947), Mar Santo (1952).
- O senhor também gosta de ver os navios?...
Era um velho de cabelos brancos e olhos azuis, com as mãos enfiadas nos bolsos dum casaco de boa fazenda escocesa, onde uns traços mais escuros formavam grandes quadrados. Mas as calças desbotadas esfiampavam-se de velhas. Também o casaco.
Ao sorriso amargo da sua interrogação respondi com a contrariedade de quem vai ouvir um pedido de esmola justificado numa história vulgar.
- Trabalha-se a valer... — respondi, numa evasiva à pergunta, como se não quisesse confidenciar gostos a um desconhecido.
Meti a mão no bolso das calças, para tirar o porta-moedas, mas hesitei, reparando melhor naquele homem que me fitava com um olhar vago, como se já não estivesse a ver-me. Agora o seu sorriso era longínquo e irónico, talvez reflectido duma memória antiga, onde estava verdadeira essa expressão de superioridade. E acrescentei:
- Isto é interessante. Tem cor e movimento...
Achei-me ridículo ao dizer esta frase que não significava nada para aquele homem. Para mim também não eram só isso, aqueles navios e comboios, as docas, os guindastes, o formigar de gente, que se via daquele jardim como um terraço sobre o rio.
- Já andei naqueles barcos... Naqueles, não; noutros como aqueles... Fez bem em não falar de aventuras... (Esta expressão «Fez bem» colocou-o de repente numa posição de superioridade em relação a mim.) Em não falar de sonhos de países desconhecidos, dessas coisas que são mentiras... Vamos lá para ganhar dinheiro, roubar, jogar dobrado contra singelo, fugir às leis... E às vezes até parecemos uns homens fortes... No fim de contas é só o dinheiro e o amor.
Fez uma pausa. E eu olhei em volta, a procurar nas caras das pessoas que estavam por ali perto uma informação a respeito deste "filósofo" que falava comigo. Talvez estivessem a rir-se dele, ou de mim, que o ouvia com atenção. Era, com certeza, um maníaco já bem conhecido dos frequentadores daquele jardim público onde eu tinha parado por acaso, nessa tarde em que passeava sem destino. Mas os três ou quatro homens que estavam encostados às grades, olhavam também lá para baixo, para os navios atracados às muralhas, ao longo do rio, ou amontoados nas docas. Vinha um martelar estridente e compassado, dum velho cargueiro onde faziam reparações e pinturas; ao lado de um outro, de porões abertos, dois guindastes descarregavam lingadas de sacos. Ao longe, pequenos barcos pintados de branco atravessavam o rio cinzento. E as gaivotas, em voos serenos, pairavam, atentas, sobre os lugares onde descarregavam peixe ou desaguavam os canos de esgoto. Nos topos dos mastros, bandeiras de várias cores caíam sem vento. E um grande paquete estrangeiro dormia encostado ao cais, abandonado.
Um grupo de rapazes invadiu o jardim e numa das ruas brancas de saibro começou a jogar a bola.
Eu não me tinha esquecido do velho, mas julgava que ele não tivesse mais nada para me dizer. E seguia as primeiras fases da luta desportiva, quando lhe ouvi a voz, que continuava:
- ...Ou tudo ou nada: de cada coisa que temos na mão. Ou tudo ou nada. Puxar de um lado, não. Os outros têm de largar. Por exemplo: as mulheres...
Olhei-o com desconfiança. Era um louco. Não porque falar de mulheres seja uma loucura. Mas é uma fraqueza ou uma vaidade... E um velho não tem essas fraquezas nem essas vaidades. Ou então era um poeta.
Compreendi que para o seu monólogo íntimo precisava de ter na frente outra pessoa. Por isso falava diante de mim, que lhe tinha calhado na hora própria. E percebi na sua voz serena um tom de fina ironia para consigo mesmo.
- As mulheres não são como uma maçã que se pode comer toda. As mulheres pensam... E o pensamento foge. É preciso descobrir-lhe a direcção e fazê-lo esbarrar. E a nossa prova de força... Filósofo, filósofo, diz bem...
Com um sorriso de condescendência deixei-o imaginar o que eu não dizia nem pensava. De repente mudou de tom e perguntou-me com uma voz tranquila de indiferença:
- O senhor é casado?
- Não.
- Eu sou. - Tinha tirado o cachimbo e carregava-o devagar, com o dedo curto e largo como uma barbatana, lentamente, como se praticasse um acto de ritual que deve demorar certo tempo. - Sou...legalmente. Quer dizer: separei-me. Era escriturário na Alfândega e conheci-a no Jardim Zoológico, num domingo no Verão, quando estávamos a ver um hipopotamozinho que tinha lá nascido. Não gosto dos hipopótamos. Têm um ar estúpido. Compare com os ursos: esses, sim, são inteligentes e têm graça. Eu vou ao Jardim Zoológico só pelos ursos. E pelos pássaros... Também tenho pássaros. Andam pela casa toda. Sempre é uma gaiola maior. Pus redes nas janelas.
- Sujam tudo.
Olhou-me com desconfiança.
- O senhor também tem a mania das limpezas?
- A mania, não. Mas há coisas que têm de estar limpas.
- Sim. Há coisas que têm de estar limpas. E estão. É fácil. Bem vê, é como se vivesse na gaiola dos pássaros. - E riu-se com bom humor. - Tenho as minhas coisas guardadas nuns armários. E o resto é todos os dias limpo como uma boa gaiola. Das coisas que gostamos de fazer porque não havemos de fazer, ao menos, as que podemos? Eu não defendo os exageros de liberdade. Só para certas pessoas, para haver progresso...Mas o hipopotamozinho era feio. E eu disse em voz alta: «Irra, que é feio!» Como uma opinião pode modificar a nossa vida! Ela olhou para mim e vi que era bonita. Casámos e as minhas teorias começaram a bater certas: domínio e mitologia. Na Grécia os deuses estavam no Olimpo. Quando desciam, eram homens. Nas outras religiões são invisíveis. A distância engrandece tudo, porque deixa o espaço para a imaginação. O espaço e o tempo. Eu era escriturário da Alfândega: não dá prestígio para muito tempo: um conto e duzentos. E tudo sempre mais caro... De tal maneira que um dia começou a falar de navios e das fardas dos oficiais. Quando uma mulher começa a falar de navios, não tenha dúvidas, está tudo perdido. Então todos os nossos passeios passaram a ser aqui pelas docas, pelos cais, visitávamos os navios, grandes e pequenos, tudo... Era infalível. Pó de carvão, berros, obscenidades. Desiludiu-se. E eu deixei a Alfândega e arranjei um lugar de convés, no «Zoavo», um petroleiro que andava na carreira da Venezuela. Tinha uma farda e fiz os meus negócios... Atirei-a para o luxo. Evitar as distâncias... Bem sabia o perigo, bem sabia... E contava-lhe histórias. Histórias com moral...
Eu observava-o com atenção, com a curiosidade que pode despertar uma figura estranha, que nos vem contar uma história extravagante. Puxou-me pelo braço e indicou, ao longe, um ponto no meio do rio:
- O passeio de barco. Era um simples passeio por causa do calor. Agradável... «Aqui sou eu o "capitão!"», berrei. E pus-me em pé no barco. Deu um grande balanço e ela começou a gritar. É negra, a água do rio... Se eu não tivesse caído de costas no meio do barco, talvez não tivesse acontecido mais nada. Mas levantei-me, furioso. Quer dizer, fiquei de joelhos, a bater no peito com o punho fechado e a gritar «O "capitão" sou eu! Aqui sou eu!»...
Vi-lhe os olhos vidrados de lágrimas. E batia no peito, com murros que soavam a oco. De repente passou-lhe aquele ataque de fúria e, olhando para mim, com uma expressão de humildade, disse numa voz doce:
- Choro com facilidade... Não quer dizer nada... Porque é que fiquei ali de joelhos, diante dela, a chorar? Para lhe provar a minha autoridade e a minha força, meti-lhe medo e fiz-me ridículo... Nem tinha provas de que ela fosse amante do tal capitão... Mas nunca mais podia ser o mesmo homem que tinha sido até ali. E quando me pus em pé o barquito virou-se...
Com as duas mãos enclavinhadas na grade do jardim, olhava lá para baixo como se estivesse agarrado à borda do barco que se virava. Depois de um longo silêncio, apontou para o cais onde formigavam homens que deixavam o trabalho, camiões e bicicletas, e com o dedo, numa voz natural, como se eu dali pudesse distingui-lo:
- O Rola... Anda no «Guiné»...
E piscou-me o olho, como quem sabe coisas. Ainda tinha na mão o cachimbo apagado. Meteu-o entre os dentes e rosnou:
- Tem um fósforo?
Dei-lhe a caixa e enquanto, com a mão, protegia a chama e puxava as primeiras fumaças, ia resmungando:
- Então o senhor também gosta de navios... (Lá. vem o Rola... Já traz a «coca»...) Também gosta de navios... Faz bem à alma... faz bem...
(in Rio Turvo, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 1997, l.a ed. 1945.)
Um Café na Internet
(Continuação)
― É verdade, menina ― disse o homem mais alto, um fulano magro e sardento, e poisou a caixa de ferramentas que trazia, deu um piparote para trás no chapéu de palha e sorriu para ela ― É por isso mesmo.
Tinha um sorriso tão natural, tão simpático que Laura recuperou a calma. Que lindos olhos que ele tinha, pequenos, mas tão azuis! E quando olhou para outros, viu que também sorriam. ―Anima-te, que a gente não te morde ― pareciam dizer. Que trabalhadores tão simpáticos! E que manhã tão bonita! Não devia falar na manhã tão bonita, tinha de mostrar um ar grave. Claro, o toldo.
― Então, acham que pode ser no relvado dos lírios? Fica bem ali?
E apontou para o relvado dos lírios com a mão que não segurava o pão com manteiga. Os homens viraram-se para olharem para lá. Um baixinho forte mordeu o lábio inferior, e o alto franziu as sobrancelhas.
― Não me parece ― disse ele. ― Não dá suficientemente nas vistas. Está a ver, quando se tem um toldo ― virou-se para Laura com o seu jeito descontraído, ― procura-se metê-lo num sítio em que nos apareça tal como um estalo na cara, se me faço compreender.
A educação de Laura fez com que lhe viessem à cabeça dúvidas sobre se não seria uma falta de respeito um simples trabalhador falar com ela com termos como um estalo na cara. Mas procurou seguir a ideia dele.
― Um canto do campo de ténis ― sugeriu ela ― Mas a orquestra também tem de ficar num canto.
― Hum, vão ter orquestra? ― disse outro homem. Estava pálido. Tinha um ar ansioso enquanto os seus olhos negros percorriam o campo de ténis. No que estaria a pensar?
― Vai ser só uma orquestra muito pequena, ― disse Laura delicadamente. Talvez ele não se importasse tanto se a orquestra fosse realmente pequena. Mas o fulano interrompeu.
― Olhe, menina, ali há lugar. Ao pé daquelas árvores. Ali fica muito bem.
Ao pé das karakas. Assim, as árvores das karakas ficavam escondidas. Eram encantadoras, com as folhas largas e reluzentes, e os cachos de frutos amarelos. Eram como as árvores que imaginamos numa ilha deserta, altivas, solitárias, erguendo as folhas e os frutos ao sol num esplendor silencioso. Porque haveriam de ser escondidas por um toldo?
(Continua)
Um Café na Internet
E afinal o tempo estava magnífico. Nem por encomenda teriam arranjado um dia melhor para um garden-party. Sem vento, quente, e o céu sem uma nuvem. Havia apenas uma névoa de luz dourada a velar o céu, como às vezes acontece no princípio do Verão. Desde manhã cedo que o jardineiro andava a aparar e a varrer a relva, de modo que as ervas e os florões com margaridas até pareciam brilhar. Quanto às rosas, quase que se era levado a pensar que elas se sentiam como as únicas flores que as pessoas nos garden-parties apreciam; as únicas flores de que toda a gente tem a certeza de saber o nome. Numa só noite tinham desabrochado às centenas; os arbustos verdes abanavam como se tivessem recebido a visita de arcanjos.
Ainda não tinham acabado o pequeno almoço quando os homens chegaram para armar o toldo.
― Onde quer que se ponha o toldo, mãe?
― Filha querida, não me perguntes nada. Este ano, estou resolvida a deixar tudo ao vosso cuidado. Esqueçam que eu sou a vossa mãe. Tratem-me como uma convidada de honra.
Mas não era possível à Meg ir vigiar os homens. Tinha lavado o cabelo logo antes do pequeno almoço, e estava sentada a beber o café com um turbante verde na cabeça e um anel escuro do cabelo molhado em cada face. Jose, a borboleta, descia sempre em saiote de seda e com um casaco de quimono.
― Tens de ir tu, Laura, és a artista da família.
E lá foi a Laura a correr, com um pedaço de pão com manteiga ainda na mão. Era muito agradável ter um pretexto para comer ao ar livre, e além disso, ela adorava ter coisas para organizar; achava que nisso era melhor do que qualquer outra pessoa.
Quatro homens em mangas de camisa esperavam juntos no caminho do jardim. Carregavam aduelas com rolos de couro à volta, e traziam caixas grandes de ferramentas penduradas às costas. Eram impressionantes. Laura começou a achar que não devia ter o pão com manteiga na mão, mas não sabia onde o pôr, e sentia que não devia deitá-lo fora. Corou e tentou pôr um ar sério, e até um pouco míope, enquanto se aproximava deles.
― Bom dia ―, disse, imitando a voz da mãe. Mas soou de um modo tão afectado que ficou com vergonha, e gaguejou como uma miúda pequena. ― Oh, … ― ah…― vieram …― por causa do toldo?
(Continua)
Um Café na Internet
Katherine Mansfield nasceu a 14 de Outubro de 1888 na Nova Zelândia. Estudou em Londres, no Queen’s College, até aos dezoito anos. Embora não fosse uma estudante extraordinária, tornou-se uma violoncelista notável, e começou as suas tentativas na literatura. Regressou entretanto à Nova Zelândia, onde entrou em conflito com a família. Parece também que, embora o ambiente na sua terra, à época, fosse de franca abertura ao progresso em vários aspectos , que Katherine ficou muito impressionada com a situação dos Maori. Regressou entretanto a Londres, onde por algum tempo teve uma vida de algum desequilíbrio, mesmo afectivo. Apesar dos conflitos, continuou a relacionar-se com a família, tendo ficado profundamente chocada com a morte do irmão na I Grande Guerra. Na altura (1911) já tinha sido publicado o seu primeiro livro, Numa Pensão Alemã. Nele começou a revelar-se o seu génio. Mas entretanto o seu estado de saúde agravou-se e declarou-se-lhe a tuberculose, que havia de a levar.
Katherine Mansfield (o seu nome verdadeiro era Kathleen Beauchamp) faleceu aos 34 anos, prematuramente, acabando assim, logo no início, uma brilhantíssima carreira de escritora. João Gaspar Simões, na sua introdução ao volume Garden Party, publicado na colecção Os Contos Universais, da Portugália Editora, assinala o papel fulcral que a escritora desempenhou no reconhecimento do conto como forma maior da literatura. Neste capítulo só talvez Tchekov se lhe poderá equiparar. Katherine Mansfield, com certeza, foi influenciada por outros escritores, como Maupassant, Tchekov e Oscar Wilde, e, também, por Joyce. João Gaspar Simões assinala também que a escritora pertence à corrente realista, e refere a influência que sobre ela exerceu Elizabeth Gaskell (1810 – 1865), conhecida por Mrs. Gaskell, que descreveu de modo profundo e crítico os usos e costumes da época vitoriana.
Katherine Mansfield consegue a aproximação do conto à poesia, na medida em que utiliza uma psicologia muito fina para descrever ao leitor os personagens das suas histórias e os seus sentimentos. E deste modo dá-nos uma descrição muito transparente da realidade, do que é a sociedade e dos problemas das pessoas.
Na próxima segunda-feira, no nosso blogue, vamos iniciar a publicação do conto O Garden-Party.
Afonso Aguiar Doce e pura inocência
(Adão Cruz)
Doce e pura inocência refletia-se nos olhos jovens, durante aquele Verão.
Ah, saudades desses tempos misteriosos, em que um olhar significa tudo e um sorriso muda o mundo e se vislumbra um futuro, almejando-o, embora este pareça distante e utópico, como um sonho de criança grande, único e inatingível... Mas não é sonho, é real! De tal forma real que, quando damos conta, a luz já se apagou, o mistério já se perdeu e o futuro distante, desejável e ilusório transformou-se no presente e… Crescemos.
Quem conseguisse mergulhar naqueles olhares entenderia que os dois viviam cada momento como se fosse o último, como se aquele instante fosse a coisa mais importante do mundo e foi naquele acaso que lhes pareceu destinado que os seus olhares se atraíram e os sorrisos brotaram!
Enquanto a viveram, a noite soube a eternidade, porém quando acabou e as palavras não se soltaram, o eterno e extasiante momento tornou-se curto e frustrante. No dia seguinte reencontraram-se ao largo da piscina. Não demorou muito até que “acidentalmente" esbarrassem um no outro e, finalmente, falassem. Nunca lhes custara tanto proferir uma palavra. Seguiu-se uma inmesurável sensação de alívio pelo simples facto de a fala se soltar. E foi sem surpresa que o mais difícil, o muro da ingenuidade, fora transposto.
Nessa tarde, os sentimentos já mais do que definidos antes sequer de se falarem, tornaram-se demasiado percetíveis para os poderem negar.
“Então era aquilo o tal amor? Aquela sensação fresca e ao mesmo tempo quente que subia da barriga ao coração, reconfortante quando pensavam um no outro e inquietante quando estavam lado a lado... aquela força que os obrigava constantemente a olhar um para o outro, aquele êxtase que sentiam por um sorriso que não era o seu... Então era aquilo o tal amor!”
Os momentos de contentamento indizível foram enchendo de vida o dia a dia de cada um e, como tudo o que se vive intensamente passa a grande velocidade… o fim das férias estava à porta!
Ao reconhecer a iminência da separação, numa noite, antes dos pais a chamarem, ele puxou-a e sentaram-se ao fundo das escadas. O tempo abrandou, o silêncio fez-se ouvir e, por momentos, os corações adiaram-se até se fazer ouvir a palavra que lhes estava presa na garganta. Os seus lábios uniram-se uma e outra vez, as línguas tocaram-se e, de repente, o mundo deu uma volta completa - tudo fez sentido - as suas mãos moveram-se sem saberem muito bem o que fazer. Depois afastaram-se. Ele levantou-se e distanciou-se apressadamente, enquanto um sorriso lhe rasgava a boca ainda anestesiada pela outra. Ela encolheu-se sobre si própria, aprisionando aquele momento no aconchego do seu peito e reviveu-o repetidamente.
O último dia passou-se num ápice e a despedida impôs-se. Com as lágrimas marejando-lhes os olhos e os corações ameaçando sucumbir abraçaram-se e beijaram-se pela última vez. Embora ainda jovens e sonhadores, empenhados em manterem o contacto, lá no fundo sabiam que só passados muitos anos voltariam a encontrar-se e, por isso, tinham de aproveitar aquele momento e desfrutá-lo por inteiro.
As primeiras semanas foram cruéis. Viviam no limiar da tristeza, num vazio emocional, náufragos num meio de incompreensão. Tinham os amigos, mas não era o mesmo, pois estes viviam felizes e inocentes, sem compreenderem aquele sofrimento, sem perceberem o que era perder um amor daqueles.
Com o passar do tempo, a mágoa e a tristeza esbateram-se transformando aquelas férias em meras recordações.
Os anos voaram e o futuro distante, desejável e ilusório tornou-se o presente que eles ambicionavam. Haviam crescido!
Passados muitos anos, num daqueles domingos de passeio em família, os olhares reencontraram-se, os corações aceleraram, os rostos coraram, o mundo tornou-se excitante e deu a mesma volta de há anos. Sentiram algo fresco e ao mesmo tempo quente a subir da barriga para o coração e as gargantas secaram mal lhes permitindo falar. Com um enorme esforço sorriram um ao outro e retiveram o olhar. Depois, tudo voltou ao normal e seguiram em frente.
Os caminhos haviam-se separado e os sentimentos haviam mudado, mas para sempre veriam um no outro,
A sua doce e pura INOCÊNCIA!
Um Café na Internet
Como ave agoirenta, paira por cima da cabeça delas todas. Sobe e desce as escadas, abre e fecha as portas, resmunga com todas a Marias, suas irmãs, e com todas as outras, filhas de outros pais e outras mães.
Começa bem cedo, liga o esquentador, vê quem sai e quem entra, e quem barra o pão com mais doce do que devia, quem come mais um paposseco, quem entorna o café do termo, tudo disfarçado de um “Buom dia, méninass”.
De voz nasalada, vai inquirindo quem vai e quem fica, com um falso sorriso, na cara cor de cera.
E quando quase todas tiverem saído, dará ordens às irmãs, contará quem ficou, e quem há-de chegar, e estará atenta à porta da entrada, e ao sobe e desce do elevador. Desligará o esquentador. Fará uma ronda proibida, escondida, pelos quartos, e desligará das tomadas os carregadores, os despertadores, os rádios e aparelhagens, os computadores, “por causa das sobre-potências”.
Abanará a cabeça perante camas por fazer, e olhará com nojo, chamemos assim à inveja, para os soutiens rendados sobre as costas das cadeiras dos quartos sobrelotados. Encarnação, sossega...
Confiscará pacotes de bolachas, que possam atrair formigas, comerá a última fatia do bolo, mas nada dirá a ninguém.
Espreitará, de dentro da capela, e nada lhe passará ao lado.
Reclamará ainda com outra Maria qualquer, sua irmã, com nome de orografia ou que rime com o seu, e esperará pela hora do almoço, entre contas e missais.
Depois do almoço reclamará porque alguma menina vê televisão, ou está agarrada ao telefone.
E quando, ao fim do dia, for abrir o armário do esquentador, que se encontra fechado a cadeado, para que, por fim, se possam tomar banhos de água quente, fará a advertência do costume sobre os gastos da água. E como vingança de quem tem um ralos cabelos cinzentos, sucumbirá à tentação de fechar umas quantas torneiras de segurança, por achar que há fartas cabeleiras, cabelos longos, castanhos, pretos, dourados, lisos ou encaracolados, que estão a demorar tempo de mais a enxaguar a espuma do champô.
À hora de jantar, voltar a contar quem está, quem fica, quem veio, quem foi, e montará de novo guarda à porta e ao elevador. Não admitirá qualquer queixa sobre o esparguete com sardinha frita. Poderá ainda dizer “Ménina, que comes tanto...”, ou soltar um valente “Shiuu, que fazem tanto barulho.”
Terá ainda tempo de perguntar a uma ou outra, se vai sair assim, com tanto frio, reprovando saias e pernas frescas, enquanto arde de calores.
Mais tarde, enquanto não acabar a excitação do fim do dia, voltará a agoirar, reprimindo, reclamando, aconselhando o que ninguém quer ouvir, vigilante, não vá faltar uma ovelha, ou encontrar algum lobo no meio do rebanho, ou um galo novo na capoeira.
E enquanto não estiverem todas na cama, e todas as luzes apagada, e não tiver contado e voltado a contar, quem está, quem fica, quem foi e quem veio, continuará a subir e descer escadas, controlando a porta, a entrada, o elevador e as outras Marias e as outras meninas.
Não vá suceder o extravio de uma delas, perdida nos braços de alguém, esquecida das horas, noutra cama qualquer, ou quem sabe, um baile silencioso, de pantufas, no último piso, que faça estremecer os cinco andares de mulheres.
Desligará, por fim, e encerrará à chave, o esquentador.
Ilustração: quadro de Dorindo Carvalho
Dias de Melo Não é a terra do Pico que me há-de roer os ossos
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José Dias de Melo (1925-2008), escritor açoreano, nasceu na Calheta do Nesquim, Ilha do Pico. Professor primário de carreira, foi colaborador assíduo da imprensa regional e nacional e um profundo conhecedor da temática baleeira e da emigração. De entre os seus livros destacamos "Pedras Negras" (1964) a que pertence o texto que apresentamos hoje aqui, "Mar Pela Proa" (1976) e "Inverno Sem Primavera" (1996).
Começava a sentir-se homem, Francisco Marroco. E numa noite, na quadra das vindimas...
Velhos, novos, crianças - toda a gente andava por vinhas e adegas, na apanha e pisa das uvas. Escorria o mosto dos lagares e à noite bailava-se pelos caminhos. Havia lua - uma lua enorme.
O pai de Francisco Marroco enchia a noite com os harpejos da sua viola, a mulher sentava-se ao lado, encolhida no seu xaile, rapazes e raparigas cantavam, os pares rodopiavam nas voltas da chamarrita.
E nas voltas da chamarrita andava a Maria do Roque nos braços do seu par. Francisco Marroco não despegava dela os olhos: dos seus cabelos pretos, do seu rosto moreno, dos seus olhos negros, do seu corpo airoso de busto bem feito, com os seios pequeninos recortados por dentro da blusa de chita. Todo a tremer e o sangue como lume a queimar-lhe as veias, encheu-se de coragem Francisco Marroco e atirou-lhe um arrifão. Ela ruborizou-se, enrijou o semblante. Porém, quando passava no cirandar da chamarrita, deitava-lhe um cantinho do olho, disfarçadamente, à laia de acaso. Afoitou-se mais Francisco Marroco - e, bailada a última chamarrita, aproximou-se e pediu a Maria que bailasse com ele a chamarrita a seguir.
A viola nas mãos do pai e as cantigas nas gargantas dos cantadores e das cantadeiras - eram sinfonia de emoção a ressoar pelas vinhas, pelos rochedos da costa, a perder-se distante nos longes do mar. Do céu, derramava a lua, sobre coisas, almas e pessoas - oceanos de ternura.
Assim Francisco Marroco ficou tendo a sua namorada.
Depois, na volta do trabalho, apartava-se dos companheiros, esgueirava-se cauteloso por veredas e canadas ao encontro de Maria. E diziam-se as mesmas palavras que homens e mulheres enamorados se têm dito desde que o Mundo é Mundo:
- Tu és a estrela da manhã que me ilumina a vida, Maria! - e Francisco Marroco apertava nas suas as mãos pequeninas do seu amor.
- Meu pai anda desconfiado. Se descobre!... - acautelava Maria.
- Hei-de falar com ele - prometia Francisco Marroco.
E Maria deixou de aparecer. Francisco Marroco, a angústia a oprimir-Ihe o coração, acobertava-se da noite, empinado à parede do caminho defronte do portão dela, a olhar a vidraça do quarto onde a sabia dormindo. Entrava em casa de madrugada, a tempo só de pegar no alvião para recomeçar um dia mais de trabalho.
E quando novamente se encontraram:
- Meu pai - soluçava Maria - não me alembro de o ver tanto zangado. Bateu-me, fechou-me em casa. Hoje, foi ao mato. Eu rebentava de saudades. Minha mãe deixou-me vir. Que, haja o que houver, eu hei-de ser tua! Toda tua - ou de mais ninguém! - E atirou-se aos braços de Francisco Marroco, e chorou, o corpo todo convulsionado e a cabeça encostada ao peito dele.
E Francisco Marroco beijou pela primeira vez aqueles cabelos, aqueles lábios, aqueles olhos que não sabiam mentir. E foi ao encontro do velho Roque.
- Tu - e injectavam-se os olhos do velho - que não tens onde cair morto, casar com a minha filha!? Antes vê-la enterrada no cemitério! Cheirava-te o que era meu! - E num esgar de escárnio: - Vá! Arreda da minha vista, ladrão!
... E naquele instante Francisco Marroco se decidiu.
Dias decorridos, encontrou João Peixe-Rei num caminho deserto.
- Homem! Andava inquieto pra te ver! - disse o amigo.
- Também eu!
E sentaram-se os dois à sombra da parede.
- Meu irmão escreveu. Desembarcou na América há dois meses. Não tarda aí o capitão Grilo...
- E tu?
- Não tenho mais que pensar.
- Pois...
- O meu rapaz vai-se fazendo. Daqui a dias é um homem e eu estarei prà'i um calhambeque velho sem lhe poder mais valer. Vou dar o salto, assim o capitão me queira levar.
- Quero d'ir contigo.
- Queres d'ir comigo!?
- Quero — respondeu com firmeza Francisco Marroco.
E, contada a história do seu amor:
- Mal arranje dinheiro que afogue a boca daquele cigano do Roque, venho casar com Maria - concluiu. - Mas é só casar e andar, que não quero mais saber disto. Tenho pensado muito; O Ano da Fome, secas, ciclones, fogo de vulcões, terramotos... Não! Não é a terra do Pico que me há-de roer os ossos!
(in Dias de Melo, Pedras Negras, Vega)
Nota: na rubrica "Terna é a noite" vamos hoje ouvir uma canção que faz referência ao autor.
Um Café na Internet
COMO SE FORA UM CONTO
Entrou na sala do bar como se ele lhe pertencesse. Olhar altivo e fixo no fundo da sala, porte solene, pisar calmo e senhora de si.
Os olhares dos presentes que estavam entretidos com um pouco de tudo, mudaram, rodaram e poisaram nela, correndo-a de alto a baixo e pararam nos sapatos bicudos e de bom corte e boa pele, subiram de novo, agora muito devagar, abrandando na zona dos joelhos que a saia travada deixava a descoberto, subiram até às coxas, onde voltaram a parar, e continuaram a caminhada, lenta e demoradamente.
Enquanto isso, na sala imperava um silêncio profundo e só se ouvia o toc toc toc compassado, provocado pelo bater firme dos tacões, no chão de mármore.
Os olhares lascivos e os de inveja, dos homens e das mulheres presentes não só lhe poisavam no corpo como lhe seguiam o percurso. As pernas, as ancas, a cintura, e o caminho para os seios altivos e fortes, disfarçados pela blusa branca, só estranhamente não sentiam o peso que lhes caía em cima. O colo, o pescoço alto, os cabelos compridos que emolduravam uma cara linda, e os olhos de um castanho profundo, também nada sentiam. Senhora de si, passou por entre todos e foi sentar-se num banco do fundo do balcão.
Mesmo encostada à parede, longe dos olhares dos basbaques, estava uma outra mulher, bela como a primeira, que a aguardava. Um beijo, outro, um olhar comprido e uma mão na outra.
À volta delas o pouco ruído da sala desapareceu por completo e por breves instantes. Os olhares por momentos atentos à passagem da desconhecida, desviaram a atenção para o que os entretinha antes e os sons normais da sala, regressaram.
Só o olhar de uma outra mulher, ainda muito nova, que se sentava sozinha numa mesa junto à janela, continuou presa ao par que agora estava junto, com uma lágrima a querer saltar dos seus olhos verdes, cor da água.
José Magalhães
(www.atributos-3.blogspot.com)
Um Café na Internet
COMO SE FORA UM CONTO
Sentia-a como a melhor pessoa que alguma vez lhe coubera. A cumplicidade nas diferenças que tinham era enorme. O amor que nutriam um pelo outro era ainda maior.
Reduzido a uma provisória e passageira condição de viúvo, com a cama desfeita de um só lado, com um vazio secreto de que só se dava conta a espaços na noite e na hora do acordar, João vivia os dias triste a cansado, mas só pela condição de ser assim, triste.
As insónias vivia-as sozinho, tal como ela que, no andar de cima nem cama tinha, antes um catre estreito e curto, onde dormia, ou tentava dormir. Ela que era grande, comprida, muito mais do que ele.
"que queres que te faça, ressonas!"
Ele bem que sabia disso, mas não controlava o barulho que desde há alguns anos fazia. Era um barulho com vida própria, senhor do seu nariz e totalmente independente da sua vontade.
"quando deixares de ressonar eu volto a dormir contigo"
O quanto lhe custava aquela viuvez nocturna mas bem compreendida e aceite, e a decisão dela de não estar a seu lado.
"amanhã tenho de trabalhar, não posso perder noites"
E lá iam, cada um para seu lado, ou melhor, cada um para o seu andar, que ela tinha uma espécie de apartamento no andar de cima transformado de uma sala que tinha uma vista de encher o olho e que por causa do calor e da luz, estava na maior parte das vezes na penumbra.
"eu queria ficar a teu lado, mas ressonas. queres que eu não durma?"
Maldito ressonar que desde há anos lhe atormentava a existência. Mais a dela, claro, que do ressonar ele se não dava conta, só das implicações. Já tinha tentado quase tudo, menos parar de respirar. Tinha ido a médicos, fizera testes e exames, mas de bons resultados, nada.
"vamos trocar meu amor, dormes tu na cama e eu lá em cima"
Que não, que ele é que precisava da cama. Ela bem que podia ficar lá por cima. Já se tinha habituado e quase já gostava que assim fosse.
"mas..."
O amor que cada um sentia fazia-os proceder assim. Um e outro, provisoriamente viúvos, pontualmente divorciados, separados durante horas em conjunto e comunhão de ideias e de vivências, cheios de amor um pelo outro.
João sofria aquela viuvez em silêncio, sem nada lhe dizer. Ela nem se apercebia que o sofrimento dele poderia ser porventura maior que ela supunha. Que falta lhe fazia o poder velar-lhe o sono, o poder cuidar dela durante a noite, medir-lhe a respiração, poder olhá-la no seu dormir calmo, poder sentir-lhe o corpo descontraído, poder tocar-lhe ...
Ele não queria ser viúvo nem por um minuto, e era-o todas as noites, durante a noite e as manhãs dos fim-de-semana.
"preciso de descansar. não me acordes"
Que ela precisava de descansar, pelo menos nessas alturas.
A vida nunca lhe fora fácil, e continuava a não o ser. Todos lhe cobravam favores, trabalhos, mimos. Todos viam nela nada mais que uma "Cinderela".
E que bem que João a entendia. O amor que lhe tinha era muito maior que aquela sensação má da separação temporária e provisória. Bem que podia ser diariamente viúvo por umas horas. Afinal eram só umas horas de cada vez e na maior parte delas ele estava a dormir.
Um dia, sem que ele, viúvo temporário e pontualmente divorciado o decidisse, o ressonar parou, e o movimento inconsciente das pernas, e o não conseguir estar quieto mais que breves minutos, e as comichões,
e o respirar.
Sozinho, sem ninguém dar por isso.
"adeus meu amor, até já"
Estranhamente não lhe custou nada aquela ocorrência, não ficou triste ou desalentado, só um pouco conformado com a evidência ..., já estava habituado àquela viuvez.
E também lhe não custou porque não foi um adeus definitivo, antes um breve e longo adeus, uma vez que ninguém poderia alguma vez separar para sempre estes que de amor sempre se alimentaram.
José Magalhães
(www.atributos-3.blogspot.com)
Vladímir Nabókov Chuva de Páscoa
(tradução de Luísa Costa Gomes)
Vladímir Nabókov nasceu em S. Petersburgo em 1899, primeiro filho de uma família aristocrática, culta e liberal. O pai, Ministro do Czar, foi obrigado a evadir-se da Rússia depois da Revolução de 1917 e exilou-se primeiro em Londres e depois em Berlim, onde acabou por ser assassinado. Nabókov juntou-se à família em 1922, depois de acabar os estudos em Cambridge. Entre 1923 e 1940 publicou romances, contos, peças, poemas e traduções que o tornaram conhecido na comunidade russa de Berlim. Em 1940 mudou-se com a mulher e o filho para os Estados Unidos onde leccionou literatura russa em várias universidades. Morreu em Montreux, na Suíça, em 1977. Easter Rain (Chuva de Páscoa) data de 1925 e foi escrito em russo com o pseudónimo Sirin e publicado no n° 15 do semanário Ruskoje Echo, feito por emigrantes russos em Berlim. Este texto foi encontrado em 1990 e traduzido por Dieter Zimmer para Alemão. A Nouvelle Revue Française publicou em 1999 a primeira tradução francesa. A tradução inglesa utilizada na tradução apresentada neste número é a do filho do escritor, Dmítri Nabókov.
Naquele dia, uma velha solitária, suíça, de nome Joséphine, ou Josefina Lvovna, como lhe chamava a família russa com que vivera doze anos, comprou meia dúzia de ovos, um pincel e duas pastilhas de aguarela carmim. Naquele dia, as macieiras estavam em flor. Na esquina, o cartaz de um filme reflectia-se invertido na lisa superfície de uma poça e, de manhã, as montanhas do outro lado do Lago Léman velavam-se de uma névoa sedosa, como as folhas opacas do papel de arroz que cobrem as águas-fortes nos livros caros. O nevoeiro prometia um dia bom, mas o sol mal rompeu sobre os telhados das casinhas de pedra meias tortas, acima dos fios molhados de um eléctrico de brinquedo e logo se dissolveu na neblina. O dia acabou por ser calmo, com nuvens de Primavera, mas, para o fim da tarde, deslizou um vento pesado e gelado pela montanha abaixo e Joséphine, a caminho de casa, teve um ataque de tosse tal que, à porta, perdeu por um instante o equilíbrio e, quase roxa, se apoiou no chapéu de chuva bem enrolado, fino como uma bengala.
No quarto já estava escuro. Quando acendeu o candeeiro, iluminou-lhe as mãos — mãos magras, de pele esticada e brilhante com manchas escuras e pontos brancos nas unhas.
Joséphine pôs as compras na mesa, o casaco e o chapéu em cima da cama. Deitou água num copo e, pondo o pince-nez de aros pretos que lhe dava uma expressão severa aos olhos cinzentos escuros, por baixo das sobrancelhas que se juntavam acima da cana do nariz, espessas e lúgubres, começou a pintar os ovos. Mas por qualquer razão a aguarela carmim não pegava. Talvez devesse ter comprado uma tinta química, mas não sabia como havia de pedi-la, e tinha vergonha de explicar. Pensou em ir ter com um boticário que conhecia - e já agora, comprava também aspirina. Sentia-se sem forças e os olhos doíam-lhe da febre. Queria sentar-se calmamente, pensar calmamente. Hoje era a festa russa do Sábado de Aleluia.
Em tempos, nos vendedores ambulantes da Avenida Nevsky havia umas pinças especiais. As pinças eram muito práticas para tirar os ovos do líquido quente, azul escuro ou cor de laranja. E também havia colheres de pau: batiam ao de leve, densas, contra o vidro espesso dos frascos de que se exalava o vapor tóxico e pesado da tinta. Depois os ovos secavam-se em montinhos, os vermelhos com os vermelhos, os verdes com os verdes. E também os pintavam de outra maneira, embrulhando-os bem apertados em tiras de pano com decalcomanias, que pareciam amostras de papel de parede. Depois de fervidos, quando o criado trazia a panela imensa da cozinha, que divertido que era desenrolar o pano e tirar os ovos sarapintados e jaspeados do tecido quente e húmido, de que vinha um vapor suave, um cheirinho da nossa infância.
A mulher suíça sentiu-se estranha ao recordar que, quando vivera na Rússia, tivera saudades de casa e mandara longas cartas melancólicas e muito bem escritas aos amigos, dizendo que se sentia sempre mal aceite e incompreendida. Todas as manhãs depois do pequeno almoço dava uma volta no grande landó aberto com a discípula, Hélène. E ao lado do rabo gordo do cocheiro, que lembrava uma gigantesca abóbora azul, via as costas abauladas do velho criado, todo botões dourados e estadão. As únicas palavras que sabia em russo eram: "cocheiro", "chiu-chiu", "assim-assim" (Kutcher, Tish-tish, Nichevo) e pronunciava-as todas mal.
Partira de S. Petersburgo com uma obscura sensação de alívio, logo no princípio da guerra. Pensava que agora se iria deliciar infinitamente em serões de conversa com os amigos no conforto da sua cidade natal. Mas a realidade veio a ser exactamente o contrário. A sua vida real — ou seja, a parte da vida em que nos habituamos mais e mais profundamente às pessoas e às coisas - fora ali, na Rússia, que inconscientemente acabara por amar e compreender e onde só Deus sabia o que agora se passava... E amanhã era a Páscoa Ortodoxa.
Joséphine suspirou alto, levantou-se e foi fechar bem a janela. Olhou para o relógio, negro na corrente de níquel. Tinha de se fazer qualquer coisa àqueles ovos. Eram uma prenda para os Platonovs, um casal de velhos russos que viera há pouco viver para Lausanne, uma cidade simultaneamente nativa e estrangeira para ela, onde era difícil respirar, as casas empilhadas ao acaso, sem ordem, numa confusão ao longo das ruas íngremes e cheias de esquinas.
Ficou pensativa, a ouvir o zumbido nos ouvidos. Depois sacudiu-se para sair do torpor, deitou um frasquinho de tinta púrpura numa lata e mergulhou com cuidado um ovo lá dentro.
A porta abriu devagarinho. A vizinha, Mademoi-selle Finard entrou, silenciosa como um rato. Era uma mulher magra e pequenina, também ela ex-preceptora. O cabelo curto era todo prateado. Trazia um xaile preto, iridescente de vidrilhos.
Joséphine, ao ouvir os passinhos de rato, cobriu atabalhoadamente com um jornal a lata e os ovos que secavam no papel mata-borrão.
- O que é que quer? Não gosto que me entrem assim por aqui dentro.
Mademoiselle Finard olhou de viés para a cara ansiosa de Joséphine e não disse nada, mas ficou profundamente ofendida, e sem uma palavra, saiu do quarto no mesmo passo miúdo e afectado.
Por essa altura já os ovos estavam de um violeta venenoso. Num ovo que ainda não pintara, decidiu escrever as duas iniciais da Páscoa como sempre fora costume na Rússia. A primeira letra, X, saiu bem, mas da segunda não tinha bem a certeza e por fim, em vez de um B, desenhou um R, absurdo e torto. Quando a tinta secou completamente, embrulhou os ovos em papel higiénico macio e pô-los na carteira.
Que tormento de moleza... Queria deitar-se na cama, beber café quente e esticar as pernas... Tinha febre e as pálpebras picavam... Quando saiu, a tosse seca subiu-lhe de novo à garganta. As ruas estavam húmidas, mortas e desertas. Os Platonovs moravam ali perto. Estavam sentados, a tomar chá, e Platonov, careca, barba rala, camisa russa de sarja com botões de lado, enrolava mortalhas de tabaco louro quando Joséphine bateu com o punho do chapéu de chuva e entrou.
- Ah, boa noite, Mademoiselle.
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