Adão Cruz Inadmissível atentado ao Pingo Doce na esquina do Bonjardim
(pormenor da Ribeira Negra de Júlio Resende)
A pobre mulher tinha lágrimas nos olhos.
Pudera!
Encostada à carrinha da polícia, aguardava a elaboração do auto, que o agente escrevia, com ar de gozo.
A pobre mulher tinha, na soleira de uma porta, à esquina da rua do Bonjardim com Fernandes Tomás, uma pequena caixa de esferovite com duas marmotas, que procurava vender.
Esta situação também me arrancou das entranhas algumas lágrimas de raiva e revolta, ainda mais pelo facto de este local distar uma centena de metros do Pingo Doce, que, como sabemos, se lembrou de festejar o Primeiro de Maio da forma mais vergonhosa e escandalosa que se possa imaginar, pela falta de ética, moral, ética social, negocial, comercial. Para não falar no monte de ilegalidades e irregularidades que, eventualmente, estarão por detrás de acto tão feio. Numa situação caótica como aquela valerá tudo, porventura, até escoamento do que está fora de prazo.
Mas a carrinha da polícia não esteve lá, pelo menos a ver se as marmotas eram frescas, pois até eu já comprei no Pingo Doce um polvo podre. A carrinha da polícia só vai ao Bonjardim, multar quem se atreve a vender duas marmotas que deveriam estar, por exemplo, na banca de peixe do Pingo Doce e não ali na soleira de uma porta.
Notícias de hoje dizem o seguinte:
“A investigação da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) à campanha promocional dos supermercados Pingo Doce no 1.º de Maio vai estar concluída no início da próxima semana, informou o inspetor-geral.”
“A rádio Antena 1 afirmou que a ASAE detetou a prática de “dumping” em três produtos (arroz, óleo e uísque) vendidos na promoção do Pingo Doce no 1.º Maio, notícia que António Nunes não confirmou nem desmentiu à Lusa.”
“Grandes superfícies lucram mais de 50% em alguns alimentos
O lucro das grandes superfícies supera os 50 por cento na venda de alguns tipos de alimentos, revelou o Observatório dos Mercados Agrícolas.”
Mas o Pingo Doce está a rir-se à tripa-forra, com o papo cheio e com a alma elevada aos céus destas ignominiosas catedrais de consumo.
Está a rir-se da humilhação a que submeteu os trabalhadores de um povo inteiro, está a rir-se da ASAE, cuja rede é demasiado pequena para tão grande peixe, está-se marimbando para a legalidade e para a ética.
Só a pobre mulher da esquina do Bonjardim não tem vontade de rir. É um peixe demasiado pequeno para tão grande rede.
Um Café na Internet
(Conclusão)
Daquela sua falta de fé religiosa, Filipe insistira, ainda antes de sair de Portugal, junto das pessoas que o convidaram, se desse conhecimento ao chefe da comunidade católica para onde iria trabalhar.
Informação que chegou ao conhecimento do bispo, mas que naturalmente não fora transmitida às gentes que passavam frente ao edifício onde ele se acomodava nem, o que já não era aceitável, aos sacerdotes e demais religiosos que com ele partilhavam as instalações da diocese.
Desconhecimento que no dia-a-dia criava, por vezes, situações embaraçosas.
Tal foi o que aconteceu quando pela primeira vez, chegado o momento da refeição, os comensais se reuniam à volta da mesa e em pé, frente ao seu lugar, rezaram em coro uma ave-maria. Face ao imprevisto do lance, Filipe optou por se manter em silêncio, de pé, junto à cadeira que lhe destinaram, enquanto durou a oração. Atitude que julgou de acordo com as circunstâncias e que por isso manteve no decurso dos sucessivos repastos servidos na diocese.
Noutra ocasião, a freira encarregada de tal função, entregou a Filipe uma ficha em triplicado, onde além de se pedir os habituais elementos de identificação, se solicitava como dado de resposta obrigatória, a designação da congregação religiosa a que se pertencia.
Para superar a dificuldade Filipe decidiu-se pelo não preenchimento dos ditos impressos e por evitar cruzar-se com a referida irmã religiosa. Opção vã. Passados alguns dias viu alguém ao longe acenar-lhe. Era a zelosa freira a pedir-lhe a devolução das fichas devidamente preenchidas. Não lhe ocorrendo melhor argumento, para ultrapassar o embaraço, disse que havia perdido os papéis que lhe entregara, esperando assim que o caso caísse no esquecimento.
Alguns dias depois, ao entrar no quarto, viu no chão um envelope. Ao abri-lo encontrou nele novas fichas idênticas às anteriores não preenchidas.
Filipe resolveu arrumar a questão de vez. Procurou o bispo a quem contou o sucedido. A partir de então encontrou-se várias vezes com a mencionada freira que não mais lhe voltou a falar no assunto.
A par destas minudências, Filipe tinha outras dificuldades: a ausência dos amigos e da família, a prolongada abstinência sexual, a péssima alimentação que lhe era facultada, as longas caminhadas a pé entre o edifício em que se alojara e o lugar de trabalho. Contrariedades largamente compensadas pela visão esplendorosa do pôr-do-sol, ao som melodioso de cânticos religiosos interpretados por crianças negras, que tinha o privilégio de fruir aos fins de tarde, junto à pequena igreja da aldeia onde se localizava o seu lugar de trabalho.
Contudo procurava ser útil à comunidade escolar e não frustrar aqueles que nele haviam confiado.
Desse modo, esforçava-se por cumprir as funções que dele se esperavam. Ajudava os professores na elaboração de testes destinados a aferir os conhecimentos adquiridos pelos alunos, em especial na disciplina de português onde as dificuldades eram mais acentuadas. Reunia-se com os professores das escolas espalhadas pelo extenso território do distrito, sugerindo-lhe formas mais dinâmicas de transmissão de conhecimento aos alunos. Aconselhava-lhe a consulta da bibliografia mais adequada a cada uma das áreas de ensino da sua especialidade e lembrava-lhe a importância que o seu trabalho tinha para a valorização da juventude e para o desenvolvimento da região e do jovem país.
Não obstante ter encurtado a sua colaboração e regressar a Portugal mais cedo do que contava, Filipe sentiu que a sua presença naquele território africano, pelo que conseguiu fazer e pelo que pôde observar, fora útil tanto para aqueles a quem se dirigira como para ele próprio.
Um Café na Internet
(Continuação)
Além daquele havia no bispado mais dois outros cónegos.
Um, de etnia negra, natural do país, com extensa família a seu cargo, já ultrapassara os cinquenta anos de idade. Corpulento, dispunha de grande vigor físico. Possuidor de grande apetite, ingeria enormes pratadas de alimentos com assinalável rapidez e ruído.
Era o principal responsável pela Matriz, a paróquia mais populosa da cidade, quer pelos actos litúrgicos realizados na igreja, quer pelas cerimónias de baptismos, casamentos e óbitos e pela escrituração dos registos nos respectivos livros.
Um dia ao almoço, Filipe aproveitou para o informar, na presença do bispo, que estivera no cartório da Matriz a consultar os livros de registos paroquiais e que tinha ficado admirado com a boas condições de saúde da população da cidade, tendo em conta os trinta a quarenta mortos anuais lançados nos livros, no decurso dos últimos quatro ou cinco anos.
O bispo, que assistia à conversa, ao ouvir tais números, virou-se admirado para o cónego, que embaraçado lá foi dizendo que se esquecia com alguma frequência, de efectuar o assento dos óbitos no livro para tal destinado.
Falta que provocou o desagrado do chefe da diocese, perturbando o ambiente de alegre confraternização que habitualmente se desfrutava à volta da mesa durante as refeições e que Filipe inadvertidamente prejudicara.
O outro cónego era um italiano quase nonagenário, de face vermelha e baixa estatura. Vivia há décadas na área de influência do bispado, cuja história estudara através de entrevistas gravadas aos membros mais velhos das diferentes comunidades da região. Homem divertido repetia as mesmas anedotas até à exaustão.
Entre as freiras mais novas, algumas das quais pareciam mais vocacionadas para a vida laica, encontravam-se as que se ocupavam da prestação de cuidados de saúde à população, uma das áreas mais carenciadas de ajuda no território.
Havia também uma irmã religiosa, já cinquentona, destacada para o apoio à juventude, que tentava encher bolas de futebol com uma bomba de bicicleta e oferecia rebuçados aos futebolistas nos intervalos dos jogos de futebol. Jogos no decurso dos quais não era raro ver macacos vindos das matas circundantes, calmamente sentados sobre as balizas assistindo ao desenrolar do encontro.
Um irmão franciscano, vindo das Filipinas, natural de um país da América Latina, era outro dos elementos que assessorava o bispo. De corpo esquálido, rosto encovado e pálido, longas e raras barbas grisalhas, lembrava as figuras místicas da pintura religiosa espanhola.
Era o responsável pela contabilidade financeira da diocese. Homem de cerca de cinquenta anos de idade, possuía hábitos de vida bem pouco singulares. Alimentava-se mal, quantitativa e qualitativamente, calçava sandálias e vestia calças e camisas já puídas pelo uso e, por regra, dormia de dia e trabalhava de noite.
Contudo, parece que nem sempre o labor nocturno que efectuava no interior do seu quarto se relacionava com o deve e o haver das finanças diocesanas. Muitas das noites passava-as fechado nas suas dependências, acompanhado da cozinheira, mulher negra já não muito jovem, que não o podia ajudar na escrituração da contabilidade, uma vez não sabia ler nem escrever.
Existia também um leigo que se ocupava da construção de novos edifícios necessários às diversas actividades da igreja, residente há vários anos na sede da diocese. Individuo ainda na casa dos quarenta anos de idade, natural do norte Portugal, que já então reunia elevado pecúlio. Pedófilo assumido que, a pretexto de se preservar da Sida, escolhia como parceiras para as suas relações sexuais, meninas entre 10 e 12 anos de idade. A sua presença tornava-se mais repelente quando, certas noites, se demorava com as meninas mais que o que contava, chegando à sala de jantar quando já todos se encontravam a meio da refeição. Silencioso sentava-se à mesa de mãos entrelaçadas e em aparente recolhimento rezava fervorosamente.
No vértice da direcção da comunidade católica encontrava-se, como era óbvio, o bispo. Indivíduo já septuagenário mas pleno de energia. A sua capacidade e disponibilidade para efectuar trabalhos que em princípio não lhe competiam eram mais que evidente. Por receio que a distribuição dos alimentos entre os habitantes das aldeias da periferia da cidade, em especial milho, se atrasasse ou fosse desviado dos verdadeiros destinatários – as populações mais carenciadas – ele mesmo carregava à força dos braços os sacos de cereal para a viatura de caixa aberta que, na ausência do motorista, ele próprio conduzia.
Filipe vira-o mais que uma vez chegar só, ao edifício da diocese, guiando a carrinha, de batina branca suja do pó vermelho da picada e com o rosto coberto de suor. Recordava-se de em certa ocasião, ao fim da tarde de um dia de trabalho, o ouvir afirmar, já cansado mas satisfeito com a sua forma de actuar, que “tinha tanto que fazer que mal tinha tempo para rezar”.
Aquele alto representante da igreja católica era, na opinião de Filipe, pela a disponibilidade em descer lá do alto do seu pedestal e intervir directamente junto das populações na tentativa de lhe mitigar a fome, um bom exemplo daquilo que a igreja católica muito pregava e pouco praticava.
Filipe, o novo inquilino da residência dos religiosos católicos era por aqueles dias considerado sacerdote pela generalidade das pessoas que com ele se cruzavam na rua.
A insólita situação divertia-o de sobremaneira, em especial quando pensava como tal havia de fazer rir os seus familiares e amigos em Portugal, caso a pudessem presenciar.
Acontecia que o novo colaborador da diocese não era clérigo, nem membro de qualquer ordem ou congregação católica, nem crente de qualquer outra religião. Filipe era professor aposentado que aceitara deslocar-se para aquela região de África com a finalidade de colaborar, a título gracioso, no apoio aos professores do ensino secundário das escolas sob responsabilidade do bispado.
(Continua)
Um Café na Internet
“Bom dia senhor padre, boa tarde senhor padre”, era assim que de manhã enquanto esperava transporte para o local de trabalho, ou ao regressar ao fim da tarde se demorava à entrada do edifício-sede do bispado, Filipe era saudado pelos transeuntes daquela cidade africana, desde que ali chegara vindo de Portugal.
Nas mencionadas instalações alojavam-se, além do bispo, três ou quatro sacerdotes todos já no último terço da vida e número pouco mais elevado de freiras e frades de diferentes fachas etárias, bem como um ou outro leigo e algum sacerdote ou irmão religioso em transito para a sua paróquia. Tudo gente que se vestia à semelhança dos habitantes de uma qualquer vila ou cidade europeia, à excepção das freiras que usavam, por regra, um lenço a cobrir a cabeça.
Entre os membros da comunidade católica religiosos ao serviço do bispado alguns apresentavam características dignas de registo.
O cónego encarregado do economato, septuagenário, com muitos anos de África, macilento das múltiplas febres tropicais, sempre preocupado com a administração do reduzido orçamento à sua disposição, em grande parte absorvido com os gastos da alimentação do pessoal residente, era homem tranquilo e simpático.
Logo nos primeiros dias após a chegada de Filipe, alguém furtou do escritório do bispado o fax de serviço. Logo na pequena capela do edifício se passaram a ouvir orações pedindo o retorno rápido do aparelho, tão necessário ás comunicações com o mundo exterior. Porém o ecónomo, homem com longa experiência de África, fez circular a notícia que a dita máquina dispunha de um mecanismo que denunciava o local onde se encontrava.
Numa manhã de um dos dias imediatos, ao aguardar no interior das instalações da diocese a hora de se deslocar para o local de trabalho, Filipe ouviu bater à porta de serviço que de, pronto, se prontificou a abrir. Do lado de fora estava alguém que declarou querer falar com o ecónomo, que logo surgiu.
O nativo recém-chegado, retirou de imediato o fax de um saco que trazia ao ombro e dirigindo-se ao prelado disse tê-lo encontrado horas antes, no chão do caminho que conduzia à sua aldeia. E como ouvira dizer que um aparelho semelhante desaparecera das instalações do bispado resolvera vir entregá-lo.
Receoso que o aparelho furtado o pudesse denunciar, o larápio havia decidido devolvê-lo quanto antes.
Assim, sem qualquer dificuldade, o engenho e a imaginação do cónego haviam conseguido o que as orações, de certo, não iriam conseguir.
(Continua)
António Lobo Antunes Nação valente e imortal
(publicado na revista VISÃO Nº. 996, 5 a 11 de Abril de 2012)
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
Um Café na Internet
Num Jardim da China: um olhar anacrónico
É o ziguezague deste muro através das dez folhas que estrutura o jardim numa sucessão de pátios, multiplicando as possibilidades de circulação e fechamento, consoante o estatuto de cada um, através de portas com telheiro simples ou duplo. A entrada na propriedade dá acesso a um local onde circulam homens e cavalos, a segunda e terceira portas, com duplo telheiro, conduzem ao adro do Senhor e, a quarta, com telheiro simples, ao espaço feminino, controlado pela Primeira Esposa. A seguir não há um quarto pátio mas um lago, à volta do qual se dispõem edifícios, terraços e uma ponte. Mas não vemos tudo... O pintor mostra apenas os pontos de articulação na hierarquia do poder e o enquadramento da imagem deixa assim de fora uma diversidade de outros pátios e edifícios, sugerindo todavia uma propriedade muito vasta. Por exemplo, entre o pátio da Primeira Esposa e o espetador, há o duplo telheiro da porta, uma árvore e um rochedo: fica a imagem de um prolongamento. Também no extremo esquerdo da propriedade vemos um terraço e, aquém dele, uma porta circular que abre para este lado.
O muro não serve apenas de proteção (do mundo exterior) e de contenção (do mundo feminino), concilia a robustez com o luxo, metamorfoseando-se em elemento decorativo através da base de pedra cor-de-rosa e da parede pintada com duas cores principais, para além de outras nos pormenores: a moldura rosada e a parte central azul, por exemplo. No prolongamento dos telheiros por cima das portas, este muro é rematado com duas águas de telhas azuis vidradas as quais, para além do incontestável efeito estético, contribuem para dificultar a escalada...
Das portas, janelas, colunas, paredes, corrimãos até aos telhados, toda a superfície visível dos edifícios, pátios e beira do lago é profusamente pintada, colorida, esculpida; os objetos porém são raros. No pátio de entrada há uma bandeira, pedras, arbustos e a escultura de um leão. Ao lado do Senhor aparecem, em cima de uma mesa de laca, uma caixa dourada e uma jarra com flores. Por detrás de um miúdo, no interior de um edifício, vemos um banco de laca. Mais adiante surgem dois vasos com pedras e plantas. Uma criada traz uma taça, outras transportam oferendas. Duas grandes pinturas murais servem de cenário aos donos da casa, o fragmento de uma terceira aparece no interior de um edifício, junto dos rapazes que brincam com o caranguejo. Tudo isto compõe um espaço refinado e luxuoso.
A elipse e a sinédoque são figuras recorrentes na arte chinesa. O enquadramento do pintor não privilegia a representação das plantas, vemos contudo quatro grandes árvores, entre as quais um elegante pinheiro, diversos conjuntos de flores ou arbustos com pedras esculturais, sugerindo outros, tal como o complemento que são os insetos e os pássaros. No lago flutuam folhas de lótus, nadam patos visíveis e invisíveis peixes; carpas, talvez.
O conceito de jardim varia consoante as épocas e as culturas. Habituados à profusão ocidental no nosso tempo, parecer-nos-á que faltam aqui flores; o jardim chinês desta época não assentava na quantidade mas em cores, valores e funções codificados.
O mais singular nesta propriedade é uma arquitetura paradoxal que permite o fechamento das mulheres num espaço aberto ao ar, ao luar e ao canto dos rouxinóis; e, tal como os pássaros que poisam nas mãos dos rapazes, elas foram educadas para não fugirem deste jardim dourado. Mesmo lembrando que no século XVII as mulheres na Europa não beneficiavam de estatutos invejáveis, a visão de tantas portas e muralhas não deixa de produzir algum mal-estar no espetador. Somos ocidentais, somos europeus, somos do século XXI. O artista – anónimo – desta crónica de uma família ideal num espaço perfeito decorou um objecto de mobiliário exprimindo a ideologia da sociedade chinesa da época, à qual não nos sentimos na obrigação de aderir, não obstante a virtuosidade técnica a isso nos convidar...
Adão Cruz Ressurreição
Na sequência de algumas crónicas sobre as minhas vivências na guerra colonial da Guiné, publicadas no Aventar e no Estrolabio, recebi um mail de um amigo que não vejo há quarenta e cinco anos. Por mero acaso, este amigo, o alferes Ruca, leu os meus textos e enviou-me esse mail dizendo: você é que é o médico da minha companhia, o Adão Cruz?! Vou mandar-lhe uma foto em que estamos os dois à porta de uma Dornier. Com efeito lá estávamos, a entrar ou a sair, não me lembro bem, da avioneta.
O Ruca era um alferes da Companhia que veio substituir a nossa, a 1547. Por artes que já expliquei noutros artigos, obrigaram-me a ficar mais algum tempo no mato, e, portanto nesta nova Companhia onde conheci o Ruca e outros. Não tenho qualquer dificuldade em fazer amigos, amigos a sério, seja em que situação for.
Soube, através de um nativo que costumava escrever-me, o Abibe Tal, alguns anos depois de regressar, que o alferes Ruca tinha perdido uma perna. Quando recebi o mail, respondi-lhe com um caloroso abraço de nostalgia e saudade.
Um dia, ao abrir a minha caixa de correio electrónico, dei com uma afectuosa resposta ao comentário do Ruca, vinda do amigo Daniel Carvalho, o capitão Daniel Carvalho. Imediatamente o contactei através do seu e-mail:
Caro Daniel Carvalho
Lembro-me muito bem de si. Eu era o médico da 1547 do capitão Vasconcelos, que o meu amigo veio substituir. Depois da Companhia ir embora ainda fiquei cerca de dois meses na companhia do capitão Torre do Vale, que está nessa fotografia (a foto do artigo que eu havia publicado e que ele havia visto).
Um grande abraço
Adão cruz
Ontem, dia 31 de Março de 2012, recebo do amigo Daniel Carvalho o seguinte mail:
Caro doutor Adão
Muito obrigado pela sua simpática e pronta resposta, que me deu muita satisfação e agradavelmente me surpreendeu, na medida em que eu tinha encontrado na net o seguinte comentário numa das fotografias colocadas pelo "Zeca do Rock" (alferes José das Dores):
Navio Uige, 7-05-1966>Saída do Cais da Rocha do Conde Óbidos - Lisboa
Da dta: Alf José das Dores>Alf Sap Fernando Gaspar
Alf Médico Gomes Pedro, Assistente do Prof Dr Jácome Delfim
[Com boina] Alf Médico Adão Pinho da Cruz [falecido]
© Foto Alf José das Dores
Cruzes, canhoto... felizmente, contrariamente ao que aquele comentário me tinha levado a crer, o nosso doutor Adão continua vivo e oxalá que assim continue por longos e saudáveis anos.
Gostei muito de rever a foto do seu "homónimo" Adão Doutor que, em Bigene, eu cheguei a conhecer e que o meu amigo refere numa das suas interessantes crónicas divulgadas na Net. Era um lindo bébé. Voltou a ter notícias dele ao longo desses 45 (!) anos entretanto decorridos?
Um grande abraço
Daniel Andrade de Carvalho
(Falecido)!!!
Soube-me porreiramente esta ressurreição!
E para terminar, deixo-vos com a bela história do “Adão Doutor”, que o Daniel Carvalho agradavelmente recordou:
Adão doutor
Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupações que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes. Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.
Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos diferentes, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques, por imposição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil, e a desvirtuação constituía um perigo possível. Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. Com o tempo as janelas foram-se abrindo, e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.
As mulheres de Bigene e não só de Bigene pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato. Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam um cheiro nauseabundo. Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido eram graves e frequentes, soube eu mais tarde.
Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi actuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas, dentro da mesma escala de cultura. Estou disposto a comprová-lo através de exemplos sérios nascidos da minha experiência.
Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca, acerca de higiene e infecções, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que modesta e minúscula.
Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar, nesta altura, a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto. Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha, electricista de profissão, brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de fio a pavio a minha sebenta de obstetrícia, e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.
Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho, que apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.
Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, único possível, indispensável aos primeiros tempos de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de maneira tão eutrófica e perfeita.
Uma semana após o nascimento, vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente: “doutor, vou dar-lhe uma linda notícia, que a mim, pessoalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio…aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se? A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de “Adão Doutor”.
Um Café na Internet
Num Jardim da China: as mulheres
Diante do Senhor, embora no exterior do edifício e num tapete poisado no chão, dançam duas bailarinas ao som da música tocada por três mulheres. Estas artistas remuneradas, exteriores à vida familiar, servem de transição entre o espaço masculino e o feminino.
Quatro degraus acima delas, à esquerda do Senhor, provavelmente atrás dos homens da família, encontram-se algumas criadas e, do lado esquerdo, aproximam-se outras, transportando objetos rituais, bandejas com frutos, uma jarra com flores, pivetes de incenso... O movimento dos homens é da direita para a esquerda, pois penetram na casa, o das mulheres é da esquerda para a direita, pois saem do espaço feminino.
No pátio seguinte descobrimos outra figura importante: a Primeira Esposa. Senta-se numa alta cadeira dourada, à frente de uma pintura mural porém, para chegar junto dela, cumpre subir dois degraus apenas. No espaço do Senhor, o tapete assinala a natureza do poder: intocável, inacessível, inviolável. Nada vemos de equivalente no espaço da Primeira Esposa. Ao lado dela encontra-se uma adolescente – filha, talvez – e, pouco mais adiante, uma criada.
Neste pátio vemos duas mulheres sentadas. A Primeira Esposa recebe a visita de uma dama cujo estatuto é sublinhado, não apenas pelo vestuário e penteado, mas também por ter os pés atrofiados, uma mutilação com conotações sexuais, sociais e estéticas; é levada por um criado numa cadeira de rodas. Embora a visitante venha da direita e possa até chegar do exterior: não é um elemento ativo. De joelhos, com grandes movimentos de mangas, um rapaz faz-lhe uma vénia e, à direita, duas damas ricamente vestidas, talvez as outras esposas, preparam-se para lhe render homenagem, enquanto à esquerda mais duas senhoras, com estatuto menos importante, a julgar pelo trajo e posição, esperam a sua vez; quem possui legitimidade para primeiro saudar esta visitante é, mesmo dentro do espaço feminino: um homem.
A Primeira Esposa e a Grande Dama distinguem-se ambas pelos toucados de ouro e, enquanto a maioria das figuras (mais de quarenta) participa na encenação do poder masculino, centrada no corpo do Senhor, aqui o centro das atenções nem sequer é a Primeira Esposa... Esta cena não passa de um complemento feminino da cerimónia oficial – que é masculina.
Quatro mulheres assistem de uma varanda à chegada da Grande Dama, ainda que uma lhe vire costas, a segunda e a terceira não olhem e a quarta pareça apontar: atitudes de despeito por não participarem na cerimónia?
Para além deste pátio, isto é, mais à esquerda e, portanto, mais para o interior da casa, nas traseiras deste conjunto de edifícios, vemos terraços e um passadiço à volta de um lago. Por ali andam figuras femininas com estatutos diversos, umas criadas, outras familiares, concubinas do Dono da Casa; estas olham ou conversam.
Na parte visível da propriedade não se lava roupa, não se faz comida, não se varre o chão, não se pinta, nem lê, nem escreve... Para além das músicas e dançarinas, artistas com estatuto marginal, da Primeira Esposa e das senhoras que recebem uma visita, as mulheres da família nada fazem. E até as criadas parecem limitam-se a trajar roupa elegante e levar oblatas – do Senhor – aos deuses protetores. O fazer, base do poder, é masculino. As mulheres não têm estatuto por si mesmas: a beleza, as atitudes, o refinamento dos penteados, o comprimento das mangas de seda, os leques e varinhas com pompons, compõem um ambiente de luxo, contemplação e ociosidade que revela o poder do Dono da Casa num mundo ao qual elas não têm acesso: para além dos muros da propriedade.
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Num Jardim da China: as crianças
Dois rapazes brincam com pássaros, que lhes poisam nas mãos, enquanto o terceiro traz uma gaiola; mais adiante dois outros miúdos aproximam-se das flores – terão visto uma borboleta? Noutro grupo os pequenos divertem-se com um caranguejo enquanto o terceiro, mais crescido, observa a brincadeira. À beira do lago, abre-se uma porta, duas mulheres espreitam e, junto delas, um menino cuja mão esquerda está oculta no interior da longa manga.
Estes rapazes usam roupas coloridas, calças largas e compridas, casacos que lembram roupões, sapatos que parecem de pano preto ou vermelho. O mais estranho é o penteado: a cabeça encontra-se totalmente rapada mas deixaram-lhes uma mecha de cabelo comprido no cimo da testa, enrolado numa espécie de carrapito preso por uma fita.
Exceto o mais pequeno, acompanhado por duas mulheres, os miúdos prosseguem os seus jogos enquanto a maioria dos adultos, amos e criados, participa numa cerimónia pomposa. Os rapazes parecem dispor de liberdade nos interstícios desta casa labiríntica e, por serem crianças, não respeitam a separação dos espaços masculino e feminino; alguns aparecem do lado esquerdo do biombo. As brincadeiras relacionam-se com o lugar onde vivem: o caranguejo talvez venha do lago, os pássaros, mesmo amestrados, são um complemento das árvores onde, sem dúvida, em dias de menos tumulto, outros pássaros cantam.
Distinta é a situação das raparigas: não vemos nenhuma a brincar. Aliás identificamos inequivocamente apenas uma; de pé, junto à Primeira Esposa, representa um papel neste evento social.
As esposas, as concubinas, as criadas são necessárias, quantas mais, melhor, realçam o estatuto de uma alta personagem, em contrapartida as filhas em nada contribuem para engrandecer o Senhor, pois terá que pagar um dote para as casar numa família que o dignifique. Podemos portanto concluir que a circunstância de haver aqui numerosos rapazes e poucas raparigas sublinha não só o poder do Dono da Casa mas até a proteção divina de que ele beneficia.
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Num Jardim da China: os homens
Um biombo chinês é como uma manga, lê-se da direita para a esquerda. Por isso aqui o elemento ativo, masculino, se situa do lado direito, sendo introduzido pela entrada de um cavaleiro numa propriedade, antecedido pelos peões e tambores que o anunciam, pelo palafreneiro conduzindo outro cavalo à rédea, acompanhado pelo seu séquito e por um peão porta-estandarte. Músicos tocam no coreto e criados ocupam-se de dois cavalos.
O centro dos acontecimentos situa-se no pátio seguinte, após uma porta realçada por duplo telheiro azul com esculturas nos ângulos. Por os chineses não engraçarem com a simetria, este centro não se situa no centro do biombo, mas um pouco deslocado para a direita, isto é, para a parte masculina do espaço, ocupando portanto a quinta e a sexta folhas.
Com armas e couraças, quatro guardas vigiam, encostados à parede. Num pórtico onde se penetra subindo quatro degraus, diante de um mural representando o combate de dragões, na zona delimitada por um tapete com barra vermelha, o Senhor mostra-se numa cadeira de aparato: acima dos que o rodeiam. Usa um chapéu honorífico e segura um ceptro. O seu corpo é uma forma oval, vermelha a cor do seu trajo com dragões. O sorriso do Senhor, a forma e a posição do corpo fazem lembrar algumas imagens de Buda. A cor estabelece uma continuidade entre as colunas, o friso do edifício e o corpo da personagem, por consequência os visitantes, subindo os quatro degraus, são admitidos no corpo simbólico do Senhor.
Todas as outras personagens se encontram de pé. Um homem fala em postura de grande respeito. Do lado direito vemos um grupo, personalidades oficiais ou poderosas, rica e coloridamente trajadas, ventres proeminentes, atitude orgulhosa, atenção variável; não olham todos na direção do Senhor. Do lado esquerdo aparecem homens que, pela posição, podem ser da família, com aparência refinada, ricamente vestidos, subtilmente coloridos, entre os quais três jovens e um pequeno adolescente – este com trajo vermelho.
Os homens têm acesso ao mundo exterior, ocupam cargos administrativos e, mesmo em posição subalterna, desempenham funções variadas (guarda, músico, palafreneiro, porta-estandarte...): o poder e o fazer são aqui masculinos. Continuando para a esquerda, entramos no espaço feminino.
(publicado no Jornal de Notícias em 2012-04-02)
Ainda não vi ninguém queixar-se (e, que diabo!, não acredito que seja só eu o eleito e o escolhido): fui atacado por um "hacker" anónimo ao serviço da Kultura e do dr. Malaca Casteleiro e, em silêncio, sem aviso, o meu Word adoptou o celerado Acordo Ortográfico. Mesmo agora acaba de sublinhar a vermelho a palavra "adoptou" (e voltou a fazê-lo!)
Não tenho conhecimentos de informática nem tempo para tentar desactivar (outra vez!) no corrector (de novo!) ortográfico o cavalo de Troia nele alojado não sei por que sinistro Torquemada linguístico, e irrita-me saber que alguém vigia o modo como escrevo pois, a seguir a isso, há-de vir também a vigilância sobre aquilo que escrevo. (O biltre sublinhou o "há-de" a vermelho; só falta notificar-me, como nas cartas de condução, de que já cometi x ou y infracções (outra vez!) ortográficas graves e de que ficarei impedido de escrever durante um mês ou, sabe-se lá, para sempre). Que fazer? A quem pedir satisfações? Ao Windows Update? Ao dr. Miguel Relvas? Ao SIS? À Loja Mozart?
Por que obscura porta se terá infiltrado a Coisa no meu computador? Poderá entrar igualmente pela minha consciência e pela minha vontade dentro, censurando a vermelho o que penso e o que quero como censura o que escrevo? Já pensei voltar a escrever à mão, mas temo que até esferográficas e lápis tenham já sido programados pelo dr. Casteleiro para não me deixarem escrever consoantes mudas.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’
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Num Jardim da China: crónica da vida familiar
O museu Calouste Gulbenkian expõe um biombo chinês de finais do século XVII com doze folhas. A primeira e a última, em madeira lacada, constituem de certo modo as capas deste livro de imagens; as folhas interiores possuem igualmente uma estrutura em laca que serve de base e moldura a dois painéis de papel, um grande e rectangular e, por cima deste, um pequeno círculo. Todas as partes são pintadas, as de laca com fundo preto, as de papel com fundo branco.
A parte preta narra episódios da gesta de personagens, históricas ou romanescas, sem dúvida identificáveis pelo público chinês em finais do século XVII, mas nós limitar-nos-emos a ver uma família poderosa numa propriedade rodeada por altos muros. Observaremos mais em pormenor:
1. Os homens
2. As crianças
3. As mulheres
4. O jardim
A ordem dos três primeiros elementos não é arbitrária, revela a maneira como os chineses hierarquizavam a humanidade: o Senhor dominava o microcosmos familiar e considerava as crianças, isto é, os filhos de sexo masculino, mais importantes do que as esposas.
(Lembremos que os inventores da democracia, isto é, os gregos da Antiguidade, não consideravam as mulheres como cidadãs. E em Portugal só após a revolução de 25 de abril de 1974 elas ganharam estatuto legal equivalente ao dos homens e mesmo hoje, na prática, nas imagens, não é assim sempre... embora para lá nos encaminhemos.)
Adão Cruz Guiné - Irkutsk
(Adão Cruz)
Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.
O capitão foi buscar um copo de água e entornou-a lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.
Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…
Desconfiado, levou o copo à boca…
Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!
O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.
Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
Júnior Nascimento A beleza e a simplicidade
(pormenor dum jardim)
texto enviado por Adão Cruz
Tudo o que é belo tende a ser simples. Afirmação generalizante? Não sei. O que sei é que a beleza anda de braços dados com a simplicidade.Basta observar a lógica silenciosa que prevalece nos jardins. Vida que se ocupa de ser só o que é. Não há conflito nas bromélias,não há angústia nas rosas, nem ansiedades nos jasmins. Cumprem o destino de florirem ao seu tempo e de se despedirem do viço quando é chegada a hora. São simples. Não querem outra coisa, senão a necessidade de cada instante. Não há desperdício de forças, nem dispersão de energias. Tudo concorre para a realização do instante. Acolhem a chuva que chega e dela extraem o essencial. Recebem o sol e o vento, e morrem ao seu tempo.
Simplicidade é um conceito que nos remete ao estado mais puro da realidade. A semente é simples, porque não se perde na tentativa de ser outra coisa. É o que é. Não desperdiça seu tempo querendo ser flor antes da hora. Cumpre o ritual de existir, compreendendo-se em cada etapa. Já dizia o poeta: "Simplicidade é querer uma coisa só." O muito querer nos deixa complexos. Queremos muito ao mesmo tempo e nos perdemos no emaranhado dos desejos. Há o risco de que não fiquemos com nada, de que percamos tudo. Quem muito quer corre o risco de nada ter: empenho e cuidado é que fazem a realidade permanecer. O simples anda leve. Carrega menos bagagem e reserva energias para apreciar a paisagem. O que viaja pesado corre o risco de gastá-las no transporte das malas. Preso, não pode andar pelo aeroporto, fica privado de atravessar a rua e se transforma num constante vigilante do que trouxe.
Simplicidade é forma de leveza que faz a diferença nas relações humanas. O que a cultiva tem a facilidade de tornar leve o ambiente em que vive. Não cria confusão por pouca coisa; não coloca sua atenção no acidental e prende os olhos no que vale a pena, verdadeiramente. Pessoas simples são as que se encantam com as coisas menores. Sabem sorrir ante presentes simbólicos e sem muito valor material. Percebem que nem tudo precisa ser útil. E por isso é fácil presentear o simples. Dar presentes aos complicados é um desafio. Não sabemos o que gostam, só na simplicidade é possível conhecer alguém. Se as máscaras caem e os papéis são abandonados a gente pode descobrir o outro na sua verdade.
Gostaria de me livrar de meus pesos, ser mais leve, mais simples. Querer uma coisa só de cada vez. Abandonar os inúmeros projectos futuros que me cegam para a necessidade do momento e que valem a pena se forem simples, concretos e aplicáveis. Não gostaria que a morte me surpreendesse sem que eu tivesse alcançado a simplicidade. Até para morrer os simples têm mais facilidade. Sentem que chegou a hora, se entregam ao último suspiro e se vão. Tenho uma intuição de que quando eu simplificar a minha vida, a felicidade chegará em minha casa, quando eu menos esperar.
Júnior Nascimento São Pauto * Brasil
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Num Jardim da China (continuação)
O eremita era uma figura canónica da cultura chinesa. Cansado de viver na Corte, isolara-se na província, enriquecia-se com sensações: a música do vento, o canto do rouxinol, os perfumes da brisa, a queda de uma pétala, o som da chuva nas folhas da bananeira, os reflexos da lua na água de um lago... Jacques Pimpaneau cita vários poemas de Xie Lingyun que falam do retorno à liberdade. Tomemos como exemplo este, que traduzo da versão francesa de Claude Roy esperando que algum parentesco guarde com o original chinês do século V:
Jovem, eu não prezava a agitação
crescera amando as montanhas
entrei por engano na vida mundana
perdi treze anos da minha vida.
Na gaiola o pássaro sonha com os bosques
no tanque o peixe sonha com a ribeira
por isso voltei para o Sul.
Cavo a minha horta, cultivo os meus campos
pouco terreno possuo, dez escassos mus.
A casa é pequena
um olmo e um salgueiro fazem-me sombra
há em frente pessegueiros e damasqueiros.
Avisto ao longe casas de camponeses
fumegam as chaminés no céu calmo.
Um cão ladra
um galo canta na amoreira.
O silêncio habita comigo.
Tenho espaço, tenho tempo.
Vivi demasiado numa gaiola
eis-me agora a mim devolvido.
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Num Jardim da China
Há livros que nos transformam. Não somos os mesmos após a leitura, crescemos, tornámo-nos mais justos, mais inteligentes, percebemos que, até ali, não percebíamos... Li recentemente um destes livros. “Dans un jardin de Chine” (“Num jardim da China”) foi publicado em França pelas edições Picquier no ano 2000 e faz a síntese de um saber que Jacques Pimpaneau construiu ao longo de décadas no estudo dos textos clássicos.
Até aqui eu arrumava os objectos chineses da colecção Calouste Gulbenkian numa banalidade da qual a passagem por Macau, Hong Kong e China me saturara, de que as lojas me haviam definitivamente afastado ao ponto de, quando visitava o Museu, atravessar a sala com paragens apenas nas vitrinas de objetos japoneses, vendo no resto a única falta de gosto cometida pelo esteta arménio. No Museu Guimet de Paris, perante muito maior diversidade, eu seleccionava o verde céladon, as figuras funerárias, enfim, tudo o que, para mim, escapava aos estereótipos...E não atentava no resto.
Havia contudo lido alguns textos clássicos, visitara os jardins de Suhzu e Hangzhu, vira as proeminências rochosas de Guilin e Yangshuo, sem que tudo isto se aglomerasse na evidência: para além de constante nas artes decorativas, o jardim é um pináculo na arte de viver. Este jardim pode aliás, numa sinédoque, reduzir-se a um vaso, a uma pedra mas, quando pertencia a magistrados, aristocratas, grandes proprietários, tornava-se um espaço rodeado por altos muros dentro do qual se concentrava a Natureza ideal, constituída por lagos, rochedos, flores e plantas com valor simbólico, árvores anãs ou de tamanho natural, todas podadas com formas e proporções rigorosas... Pequenos edifícios com terraços, varandas, vestíbulos, amplas aberturas, ligados por pátios, pontes, portas, permitiam a fruição simultânea do ar livre e de todo o conforto. O jardim era o espaço da vida familiar, era o referente da poesia e da pintura, era ponto de encontro entre estetas que ouviam o jardim, olhavam o jardim, partilhavam poemas ou pinturas sobre o jardim... Era o espaço da perfeição.
Jorge Silva Melo Isso é um livro?
(Adão Cruz)
"O Nariz de Gógol", solicitei. A rapariga era uma virago: "um livro?" O extravagante diálogo decorreu numa tarde de Abril numa livraria que já teve as suas horas, nesta cidade mesmo de Lisboa. "Não vinha aqui procurar sapatos."
A empregada, furibunda, avançou para o computador, gritando para uma colega: "Já ouviste falar de um livro chamado O Nariz?" A outra aconselhou a busca no computador. Lá fomos, e ainda ouvimos a voz desta segunda, perguntando: "Isso é recente?" "Sim, saiu uma edição há uns dois anos."
Velho livrariófilo (não é bibliófilo, é viciado em livrarias e estantes), desconfio destas livrarias onde os vendedores se precipitam para as máquinas à procura de stocks, não sabem o que está nas estante, nem a cor do livro, nem me aconselham outra edição, ou mesmo outra outra ainda. Embora já o tenha, teria comprado as Almas Mortas tivesse a rapariga dito um "este saiu há menos tempo e é uma tradução do russo". E teria comprado Kafka, se me tivesse dito "são parecidos" e então se tivesse apontado o que de Gógol há em Rodrigues Miguéis cá trazia eu para casa mais uma Gente da Terceira Classe.
Depois da lenta consulta — e eu a querer fumar —, lá disse a acertiva jovem (também há jovens imbecis): "Isso não existe." A outra, mais simpática, trouxe-me até à porta e sussurrou: "Vá àquela ali, é melhor, nós não percebemos nada disto." Lamentei, cá para mim, as misérias da vida que obrigam uma moça alegremente ignorante a trabalhar numa livraria e não numa lojinha de bugigangas, e segui o conselho.
Pois não é que a empregada desta outra livraria, a "melhor", empregada mais antiga que fazia crochet, interrompe o passatempo e me olha, aterradora: "Isso é um livro?" pergunta. "É. E saiu há uns dois anos." "Ó Não-Sei-Quantas chega aqui, conheces uma editora que se chama O Nariz?" grita para o fundo. "Não é uma editora, é uma novela, a edição é da Assírio e Alvim." "Dessa, temos umas coisas" disse, pousando o crochet e deixando-me com ténue esperança. "Não sei bem o quê, mas temos." E lá atacou o amaldiçoado computador. "Olhe, temos o Fernando Pessoa, esse temos, não quer?"
"Não, queria o Gógol" repeti, e já passara meia hora desde que me dera aquele desejo maldito de comprar uma da mais belas novelas de sempre e jamais. "Isso é um livro?" repetiu a livreira, e foi a terceira vez que, numa livraria, me fizeram esta pergunta. Lá disse que supunha que, nas livrarias, se vendem livros (embora, para dizer a verdade, durante esta já quase hora, não tenha eu visto nem um cliente nem uma venda).
Talvez pudesse ter ido a uma "grande superfície", aí não me perguntam "Isso é um livro?", vêm o código de barras e fazem plim, mas não fui, meti-me num supermercado a comprar iogurtes, voltei para casa, tristonho, sem o meu cobiçado Nariz (salvo seja).
E, ao subir a rua, fim da tarde desta terça-feira, lembrei-me de Londres, de uma daquelas livrarias Stockwell cheia de turistas e best-sellers, bem no centro de Charing Cross. Vi um livro semi-autobiográfico, acabadinho de sair, de Paula Fox, ignota autora de quem gosto muito (adaptei o seu Coitado do Jorge}, e, embora ainda de capa dura, decidi comprar. E a rapariga da caixa, no meio dos clientes que lhe compravam a Queda de Berlim e até a Bridget Jones, olhou e disse: "Esse livro é fantástico, saiu há uma semana, li-o ontem e sabe uma coisa?, eu sou dos States (notava-se) e fui vizinha da Autora, vivíamos no mesmo quarteirão, é o melhor livro dela, tão comovente!" É verdade: chama-se Borrowed Finery — a memoir e, se me viessem agora com aquela "Que livro gostaria de ver traduzido?", desta vez não fazia a lista que começa na Ilíada.
Bem sei, Londres é Londres e foi um acaso encontrar numa livraria uma rapariga que durante meia hora me falou (e bem) de Paula Fox. E Lisboa é Lisboa, que pena.
Mas, não é por causa disto tudo mesmo, desta porcaria, graças a esta miséria, esta ignorância, esta arrogância pequenina e burguesota, neste cretino Rossio, que eu até consigo entender melhor o sublime Gógol?
Público, Mil Folhas, 26 de Abril de 2003
(in Jorge Silva Melo, Século Passado, Cotovia)
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Um Café na Internet
Gosto de escrever.
Escrevo muito, a mais das vezes só na folha guardada no mais profundo do meu pensamento. Invento histórias, diálogos, cenas e cenários, escrevo poemas de amor, de escárnio e de mal dizer, comento situações, acções, coisas do dia-a-dia e palavras ouvidas aqui e ali, e a grande maioria nunca passa pela caneta nem fica imprimida num papel.
Escrevo em mim e dialogo comigo constantemente, pensando que ao menos posso escrever, mas para o passar a letra de forma falta ainda uma eternidade, mesmo tendo tempo de sobra.
Alarmo-me com a perspectiva de que mais cedo ou mais tarde esta minha capacidade se esgotará, e o meu stock de ideias desaparecerá sem que tenha tido a oportunidade de o dar a conhecer. Um dia morro e depois de morto já não escreverei.
Estes pensamentos angustiam-me. A morte angustia-me. Se estivesse a sonhar, quereria acordar, melhor, acordava-me para não me sentir assim. Será que depois de morrer poderei continuar a escrever, a inventar histórias, diálogos, cenas, cenários, e a poder fotografar a vida tal e qual ela seja naquele momento? É que eu também gosto de fotografar, de perpetuar momentos e de capturar instantes. Como seria bom poder continuar a escrever e a fotografar.
Quando morrer irei para o Céu? Por certo que sim, que tenho trabalhado para isso. Quer dizer, tenho trabalhado mais ou menos. Se calhar mais menos do que mais. Se calhar não vou, mas gostaria muito de ir.
Como será a vida lá em cima? Encontrarei antigos amigos e familiares? Antigos amores? Ouvirei choros e risos? Haverá televisão? E música? A música faz-me muita falta. Gosto muito de quase todos os géneros. Nem sou esquisito nem nada. Estou certo que haverá música!
Estranhos estes pensamentos. Chego a ter receio deles. Já na semana passada andei com eles a bater na minha cabeça. Foi logo a seguir a ter sido assaltado e se calhar por causa disso. Roubaram-me as máquinas fotográficas de dentro do automóvel. Malditos automóveis que nos simulam a ideia de segurança. Malditos ladrões que não respeitam seja quem for. Fiquei cheio de raiva e de pensamentos obscuros. E se eu tivesse apanhado o ladrão em flagrante? E se me tivesse envolvido com ele? E se ele me tivesse espetado com uma faca ou dado um tiro. E se eu morresse? E por aí a fora o pensamento fluiu.
Poderiam ter-me levado os pensamentos, a minha escrita mental, as minhas capacidades, os meus poemas ou as minhas ideias. Mas não foi assim, o meliante só me levou as máquinas fotográficas e o GPS. O GPS não me faz falta, já que sei o caminho de casa. Sempre o soube, mesmo quando me perdia. Nunca me perdi de facto, foi sempre de amor ou de paixão. As máquinas, essas sim, fazem-me falta para caçar o tempo, para o parar e levar comigo ou para perpetuar momentos. Agora, tal como o que mentalmente escrevo, só os posso guardar nas gavetas fechadas à chave da minha memória, chaves que muitas vezes perco, e que quando as perco fico perdido, sem saber por onde ando. Tal e qual como se também me tivessem roubado os pensamentos.
Na semana passada e também no princípio do ano, esta coisa me passara pela cabeça. Esta coisa de morrer e de não saber o que me esperaria lá em cima. Mas não ficaram por lá nem as passei a papel. Só hoje o decidi fazer, como se fosse uma catarse.
José Magalhães
(www.atributos-3.blogspot.com)
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Vácuo radiofónico
Em Lisboa começo o dia, geralmente às sete horas, com o “Programa da Manhã” apresentado por António Macedo: é uma sanduíche com boas rodelas de informação ou crónica, entremeadas com os obsessivos 3 T, Taças, Tempo e Trânsito. Quando o apresentador é António Macedo, um profissional com voz, humor, profissionalismo, o pão tem odor, gosto e consistência por isso, alternando com rodelas saborosas, os 3T acabam por passar... Quando António Macedo fica de férias, calha-nos um locutor jovem, talvez nem seja sempre o mesmo, o que pouco importa, pois todos saem da mesma fábrica; logo, com iguais ingredientes, menos o António Macedo, o “Programa da Manhã” esvazia-se, serve uma sanduíche com ar e glúten, a informação e as crónicas não tapam os 3T – não, obrigada. (Acompanho o pequeno almoço com programas de conserva no MP3.)
Às treze horas costumo ouvir “Portugal em Direto” porém, a partir das catorze, a Antena 1 torna-se um vazio que os 3T, uma ou outra crónica (por exemplo, “Janela Indiscreta”, sempre interessante) e a música de plástico não chegam a preencher, relevando-se dois debates, à quinta e à sexta, entre as dezanove e as vinte horas, quando não há futebol: “O esplendor de Portugal” e “Contraditório”. (Interrompidos às dezanove e trinta pelo “estado do trânsito”.)
Ao sábado, das oito às nove, oiço “A Ilha dos Tesouros”. Júlio Isidro evoca ambientes musicais dos anos sessenta com humor, elegância, música não anglo-saxónica e até, prodígio dos fenómenos: num português escorreito. O programa tem a estrutura que pedimos ao profissional e a subjectividade o que esperamos do criador. Uma boa hora de rádio. Das nove às dez surge “A Vida dos Sons” de Ana Aranha e Iolanda Ferreira que, através de arquivos sonoros, reconstitui os eventos de um ano; vai em 1958. Outra boa hora de rádio. Enquanto almoço, “Este sábado” analisa as informações da semana, transmite entrevistas e reportagens, mais tarde há o programa do provedor do ouvinte, Mário de Figueiredo; mas, dali a pouco, entra-se no vazio do fim de semana com os tais locutores que se limitam a abrir a torneira da play list.
Não nos falem de serviço público... Onde está o teatro radiofónico? (Nem que seja em redifusão ou mesmo através de audiolivros...) Quais são os programas literários? Quando transmitem as entrevistas – de uma hora – a personalidades da cultura portuguesa? Quem recolheu as memórias radiofónicas de Vasco Lourenço? Quem fala de Maria Lamas? E de Maria Ondina Braga? Depois de escrever ao (precedente) provedor e de ler a resposta dele, compreendi que venho de outro planeta, isto é, de uma rádio que não é feita para matar tempo: a rádio de que falo sublima o tempo. Não, não se desculpem com a crise, esta rádio não é mais cara, mas é muito mais exigente.
Eu agora já não me amofino: oiço programas franceses. Imagino que os outros auditores farão algo de equivalente. Não nos venham um destes dias pedir que choremos a morte da rádio pública em Portugal.
Eva Cruz Pena de Morte
(Adão Cruz)
Era uma tarde do começo de Primavera.
Sentada no banco do meu jardim num deleite bucólico, a contemplar as flores de pão e queijo amarelas, espreitando por entre os fetos de pé preto, vi uma melra com uma palhinha no bico, disparar de um galho meio despido e entrar que nem uma flecha num arbusto, rente à hera do velho muro. Reconheci a fêmea pelo bico e penas acastanhadas, salpicadas de cinzento. Ia ali nascer um ninho e dentro a Primavera.
Dias seguidos fui observando a melra a construir a sua casa, com palhas, pequeninos gravetos e penas levadas no bico. De vez em quando o melro, no seu fato preto de bico amarelo, ajudava, e percebi que a emancipação já tinha chegado às aves, ou então sempre assim fora e mostravam-se mais evoluídas do que os humanos.
Ninho feito, logo foram postos quatro ovinhos, claros, de manchas avermelhadas, não saindo a fêmea de cima deles, enamorada no seu choco, durante cerca de duas semanas. Quando a via sair, espreitava de longe pelo buraquinho, não fosse ela enjeitar, e não tardei em ver quatro cabecinhas nuas, de tenro bico espetado no ar. Em breve se haviam de vestir e voar pelos céus da Primavera.
Um gato malhado de branco e preto, pequenito ainda, o resto de uma ninhada da gata amarela, espreitava, num galho seco de uma vide morta, a pequenina presa, e de um salto acrobático enfiou-se no buraco, agarrando o ninho por entre os bigodes. Foi tal a minha fúria que aos gritos o espantei, e na fuga deixou cair o ninho com os passarinhos despidos e esfacelados. A pobre da mãe melra chegou e chorou com pios desgarrados a sua desgraça. O melro voltejava por ali descontrolado.
Na calçada, ouvi o barulho…do tractor que matou o gato com as rodas traseiras. Com fúria disse para comigo: bem feito, foi como esmola num pobre! A gata amarela chegou, cheirou o corpo do gatito inerte e em cima do muro chorou o seu cântico fúnebre. Apoderou-se de mim um sentimento de pena e quase esqueci os passaritos nus.
Recordei então um texto de Camus, Reflexões sobre a guilhotina.
Numa aldeia deu-se um crime hediondo. Um assassino tinha chacinado uma família de lavradores incluindo os filhos pequenitos. O caso revoltou a população que considerava a decapitação uma pena leve de mais para tal monstro. No dia da execução, um aldeão, na sua revolta, quis a todo o custo presenciar a morte do criminoso. Só assim poderia saciar a sua sede de vingança. Levantou-se de madrugada, pois tinha à frente um longo percurso a pé, uma vez que o lugar da execução era na cidade. Viu chegar o condenado que tremendo de medo, mal se erguia nas pernas. O rosto congestionado implorava pela vida.
O aldeão, depois de ver a cabeça rolar pelo chão, voltou para casa, recusou-se a falar do caso e vomitou. Dali em diante apagou-se nele a imagem do crime hediondo. Na sua mente ficara apenas e para sempre o rosto do condenado.
Quem dera que na próxima Primavera, a melra volte ao velho muro de hera para cantar um novo hino à vida.
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