Não queremos transformar o Diário de bordo num almanaque de efemérides. No entanto, como se diz agora, há datas incontornáveis - a de hoje é uma delas.
Ao fim da tarde do dia 8 de Maio de 1945, os sinos repicaram por todo o País. Na rádio disseram que a guerra terminara. Na manhã de 9 de Maio o locutor da Rádio do Reich confirmava, lendo um breve comunicado Era o final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Respirava-se de alívio. Lisboa e Porto foram palco de grandes manifestações - os antifascistas tinham a esperança de que a derrota da Alemanha e da Itália implicasse a queda do regime em Portugal. Foi quando Salazar fez um passe de mágica, declarando que vivíamos numa democracia... orgânica! E os Aliados fingiram acreditar, pois temiam que o poder fosse tomado pelos comunistas. E mais valia uma falsa democracia do que um verdadeiro regime de esquerdas. Numa Europa em ruínas, começava o jogo da «Guerra Fria».
A guerra fora desencadeada em 1 de Setembro de 1939 com a invasão da Polónia pela Alemanha. Morreram setenta milhões de pessoas, civis na sua maioria. O drama central desenrolou-se, pois, nesses cinco anos e meio, entre Setembro de 1939 e Maio de 1945 (embora o Japão só se tenha rendido em 2 de Setembro do mesmo ano). Mais de 100 milhões de soldados de 70 países, tinham-se envolvido no conflito, opondo os Aliados às potências do Eixo - Alemanha, Itália e Japão. Foi a maior e mais sangrenta conflagração que a história da Humanidade regista.
Pesadelo que terminou em 8 de Maio de 1945, depois de Hitler e os seus principais apoiantes se terem suicidado. Cercados, os alemães tiveram de se render. Reza assim o documento que Keitel, Friedeburg, Stumpf, e outros, assinaram: “Nós, os abaixo-assinados, negociando em nome do Alto Comando alemão, declaramos a capitulação incondicional perante o Alto Comando do Exército Vermelho e também perante o Alto Comando das Forças Aliadas, de todas as nossas Forças Armadas na terra, no mar e no ar, assim como de todas as demais que no momento estão sob ordens alemãs. Assinado em 8 de Maio de 1945, em Berlim. »
A potência derrotada impõe agora leis na Europa. Uma Alemanha reconstruída economicamente graças à boa-vontade dos povos a que a loucura, a insana convicção da «superioridade germânica», provocara milhões de mortos e indizíveis sofrimentos, esquecida da generosidade de que beneficiou, faz tábua rasa do passado e, como todos os bons agiotas, tem o coração blindado, nele não deixando entrar sentimentos piegas. - Solidariedade? Está, bem está! Paguem mas é o que devem - quem não tem dinheiro, não tem vícios.
Em 1870, ainda antes da unificação, a Prússia invadiu a França, em 1914 em 1939, a Alemanha desencadeou guerras de grande amplitude. Agora, em vez de mandar as divisões Panzer da Wehrmacht, os aviões da Deutsche Luftwaffe, mandou os camiões TIR carregados com os seus produtos e depois pôs os europeus a fabricá-los nos seus países - Daimler, Volkswagen, BMW, Audi, Bosch, BASF, Siemens, AEG, Adidas,Schering, ThyssenKrupp, Metro, Puma, Henkel, Bayer, Nivea. E também a Lufthansa, a Allianz... Perdeu a guerra de 1914-18, perdeu a de 1939-45. A terceira parece ter ganho.
Mas nem as vitórias militares, nem as económicas garantem para sempre o domínio dos derrotados. Ao pôr o pé sobre uma Europa que a sua gula de prestamista empobreceu, obtém uma vitória pírrica - onde vai vender agora os seus produtos?
Talvez na China...
*Membro do Colectivo Roosevelt 2012
Traduzido e enviado por Júlio Marques Mota
"Os sistemas mantêm-se frequentemente muito mais tempo do que o que nós somos levados a pensar, mas acabam por se afundar muito mais rapidamente do que também nós o imaginávamos." Em poucas palavras, o antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Kenneth Rogoff, resume bem a situação da economia mundial. Quanto ao governador do Banco da Inglaterra, diz que "a próxima crise pode ser bem mais grave do que a de 1930"...
A zona euro não vai bem, mas os Estados Unidos e a China, muitas vezes apresentados como sendo os dois motores da economia mundial, na verdade não vão melhor, são duas verdadeiras bombas de explosão retardada: a dívida total dos Estados Unidos atinge358% do produto interno bruto (PIB); a bolha imobiliária chinesa, que representa quase três vezes mais o valor da que aconteceu nos Estados Unidos antes da crise dita de sub-prime, começa agora a explodir.
Tendo em conta o contexto internacional, como pode o PS ou a UMP continuar a apostar tudo por tudo sobre oretorno do crescimento? Há uma possibilidade em mil do sonho se tornar realidade. "Isto vai ser terrível, disse-me recentemente um dirigente socialista. Não há nenhuma margem de manobra. A partir do mês de Junho começar-se-ão a congelar as despesas. Em poucos meses, o país vai estar paralisado por manifestações monstruosas e, em 2014, teremos um resultado histórico nas eleições."
A austeridade, será a única solução? A esquerda no poder estará condenada a desiludir? Não. A história mostra que é possível escapar à "espiral da morte" na qual os nossos países estão em vias de se deixarem cercar.
EM 1933
Em 1933, quando Roosevelt chegou ao poder, os Estados Unidos tinham 14 milhões de desempregados, a produção industrial tinha diminuído cercade 45% em três anos.
Roosevelt agiu com uma determinação e uma rapidez que rapidamente reanimou a confiança: certas leis são apresentadas, discutidas, votadas e promulgadas no mesmo dia.
O seuobjectivo não é de modo nenhum o de"acalmar os mercados financeiros", mas sim o de os domar.
O seu objectivo não é o de"dar sentido à austeridade", mas sim o de reconstruir a justiça social. Os accionistas estão furiosos e opõem-se com todas as suas forças àlei de separação entre bancos comerciais e bancos de investimento,opõem-se aos impostos sobre os rendimentos mais elevados e também se opõem à criação de um imposto federal sobre os lucros.
Mas Roosevelt mantém-se firme e faz aprovar quinze reformas fundamentais em três meses.As catástrofes anunciadas pelos financeiros não se concretizaram. Antes pelo contrário! A economia dos EUA viveu muito bem com essas regras durante meio século.
O que fez Roosevelt em matéria económica não foi claramente suficiente (sem a economia de guerra, os E.U. teriam caído em recessão), mas as reformas que ele impôs no sector bancário e sobre as questões fiscais atingiram plenamente os seus objectivos.
Até à chegada de Ronald Reagan em 1981, a economia americana funcionou sem ter necessidade nem de dívida privada nem de dívida pública.
Enquanto que, durante cerca de trinta anos, as regras do fordismo asseguraram uma repartição equitativa do valor acrescentado entre os trabalhadores e os accionistas, a política de desregulamentação em 30 anos fez passar a parte dos salários de67% para57% do PIB nos países membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), o que levou a aumentar quer a dívida pública - porque os impostos sobre os salários e sobre o consumo são o primeiro recurso dos Estados – quera dívida privada porque os trabalhadores tiveram que se endividar para manterem o seu nível de consumo.
É por causa do desemprego e da pobreza que a parte dos salários decaiu tão fortemente em todos os nossos países: o desemprego não é apenas uma consequência da crise que nós vivemos desde hácinco anos, é também uma das suas causas fundamentais. Não será possível sair da crise sem atacar frontalmente o desemprego e a precariedade.
Por muito que desagrade aos neoliberais, não estamos a enfrentar uma crise do Estado-Providência, mas estamos sim emface deuma crise do capitalismo cuja extremagravidade torna insuficientes as respostas clássicasdo Estado-Providência. A justiça social não é um luxo ao qual devemos renunciar por causa da crise; a reconstrução da justiça social é a única maneira de sair da crise!
Duas estratégias são possíveis para o próximo Presidente da República:
quer pense que a crise estará terminada em breve e que simplesmente bastará uma boa gestão das finanças públicas para passar uns poucos meses difíceis que nos separam da boa retoma, querpense que nãonos resta mais que um tempo limitado antes de um possível colapso do sistema, o que ele deve então fazer é agir rapidamente,é "fazer as coisas à moda de Roosevelt": organizar um novo BrettonWoodsa partir de Julho de 2012, pôr um fim aos privilégios incríveis dos bancos privados no financiamento da dívida pública, combater frontalmente os paraísos fiscais e lutar sem tréguas contra o desemprego e a pobreza, lançando desde o mês de Maio uma iniciativa como osEstados Gerais do emprego: três meses de trabalho com todos os parceiros em causa para construir um novo contrato social, comoofizeram em 1982 os holandeses ao assinarem o acordo de Wassenaar.
Qual é o papel histórico da esquerda europeia? Geriro colapso do modelo neoliberal, prontoaté mesmo a morrer nos seus escombros ou,pelo contrário, dar origem a uma nova sociedade, antes que a crise, como na década de 1930,venha a desencadear abarbárie?
Para forçar o próximo Presidente à audácia, nós criámos o ColectivoRoosevelt 2012: com StéphaneHessel, Edgar Morin, Susan George, Michel Rocard, René Passet, Dominique Méda, Lilian Thuram, Robert Castel, Bruno Gaccio, Roland Gori, Gaël Giraud, a Fundação Abbé-Pierre, a Fundação Danielle Mitterrand,aLiga do Ensino, a Geração Precária e muitos outros e o nosso objectivo é bem simples: provocar o sobressalto!
Se partilha a nossa necessidade, junte-se ao colectivo assinando o seu manifesto e as quinze propostas de reformas em: www.roosevelt2012.fr.
Pierre Larrouturou, Membro do ColectivoRoosevelt 2012
Posted: 24 Apr 2012 06:46 AM PDT
A actual classe dominante nunca será capaz de resolver a crise, porque ela é a crise! E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que controla os media, da financeira, etc. Não vão resolver a crise porque a sua mentalidade é extremamente limitada e controlada por uma única coisa: os seus interesses. Os políticos existem para servir os seus interesses, não o país. Na educação, a mesma coisa: quem controla as universidades está ali para favorecer empresas e o Estado. Se algo não é bom para a economia, porquê investir dinheiro?
No geral, os media já não são o espelho da sociedade nem informam de facto as pessoas do que se está a passar, existem sim para vender e vender e vender.
A identidade das pessoas não depende do que elas são, mas do que têm. Quando se torna tão importante ter coisas, serves um mundo comercial, porque pensas que a tua identidade está relacionada com isso. Estamos a criar seres humanos vazios que querem consumir e ter coisas e que acabam por se vestir e falar todos da mesma forma e pensar as mesmas coisas. E a classe dominante está muito mais interessada em que as pessoas liguem a isso do que ao que importa.
Se as pessoas fossem um bocadinho mais espertas, não iriam para universidades estúpidas, nem veriam programas estúpidos na TV. Existe uma elite comercial e política interessada em manter as pessoas estúpidas. E isso é vendido como democracia, porque as pessoas são livres de escolher e blá blá.
Se não fores crítico perante a sociedade mas também perante ti próprio, nunca serás livre, serás sempre escravo. Daí que o que estamos a viver não tenha nada a ver com democracia.
Percebemos que há coisas erradas no sistema de educação.
Porque não está interessado na pessoa que tu és, mas no tipo de profissões de que a economia precisa. Se o preço é falta de qualidade, se o preço é falta de dignidade humana, é haver tanta gente jovem sem instrumentos para lidar com a vida e para descobrir por si própria o sentido da vida ou que significado pode dar à sua vida, então criamos o “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.
O que temos de enfrentar é: se toda a gente vai à escola, se toda a gente sabe ler, se tanta gente tem educação superior, como é que continuam a acreditar nestas porcarias sem as questionar? E porque é que tanta gente continua a achar que quando X ou Y está na televisão é importante, ou quando X ou Y é uma estrela de cinema é importante, ou quando X ou Y é banqueiro e tem dinheiro é importante?
Se tirarmos as posições e o dinheiro a estas pessoas, o que resta? Pessoas tacanhas e mesquinhas, totalmente desinteressantes. Mas mesmo assim vivemos encantados com a ideia de que X ou Y é importante porque tem poder. É a mesma lengalenga de sempre: é pelo que têm e não pelo que são, porque eles são nada. E a educação também é sobre o que podes vir a ter e não sobre quem podes vir a ser.
O medo da elite comercial é que as pessoas comecem a pensar. Porque é que os regimes fascistas querem controlar o mundo da cultura ou livrar-se dele por completo? Porque o poeta é a pessoa mais perigosa que existe para eles. Provavelmente mais perigoso que o filósofo. Quando usam o argumento de que a cultura não é importante e de que a economia não precisa da cultura, é mentira! Isso são as tais políticas de ressentimento, um grande instrumento precisamente porque eles nos querem estúpidos.
(Excertos de uma entrevista de Rob Riemen, filósofo holandês, ao jornal "i").
http://www.ionline.pt/mundo/rob-riemen-c
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1. Porque é que a Espanha inquieta tanto a zona euro
Clément Lacombe e Sandrine Morel (em Madrid)
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.
Acalmado o psicodrama grego, a Itália tomada em mãos por Mario Monti, é agora a Espanha, que se tornou a preocupação número um da zona euro. Recessão, finanças públicas distorcidas, clima social hostil, o governo conservador de Mariano Rajoy atravessa uma situação difícil.
A prova aí está: hoje, ao contrário de há três meses atrás, Madrid pagou mais caro que Roma para contrair empréstimos na sua ida aos mercados. Apesar da pilha de dinheiro disponibilizada pelo Banco Central Europeu (BCE) para acalmar a zona euro, as taxas de juro para Espanha só desceram muito ligeiramente enquanto que as taxas de italianas, tiveram uma considerável descida.
Os decisores políticos europeus não escondem a sua muito grande preocupação. Tanto mais que o governo de Rajoy se prepara para enfrentar uma sequência delicada, com uma greve geral na quinta-feira, 29 de Março contra a austeridade e contra a reforma da legislação laboral e, em seguida, terá a apresentação do orçamento de 2012, na sexta-feira, dia 30 de Março.
Uma transparência na questão. A publicação do défice de 2011 muito mais elevado do que o esperado, após a chegada no final do mês de Dezembro ao poder de Rajoy, resfriou os investidores. Inicialmente previsto a 6% do produto interno bruto (PIB), este agora calculado em 8,51%. A culpa, em grande parte, deve-se às contas das 17 comunidades autónomas.
Esta análise levou alguns especialistas a questionar as contas do país. Calculada em 68,5% do PIB no final de 2011, a dívida pública espanhola quase que duplicou desde 2007, mas continua a ser um dos valores mais baixos na zona euro. De acordo com o economista independente Edward Hugh, a viver em Barcelona, "a dívida é realmente superior, mas a questão é a de saber em quanto?
Com base nos seus cálculos, o montante de facturas não pagas pelo Estado central, pelas regiões autónomas e pelos municípios - "que não são considerados como dívida até à sua liquidação" – aumentam a dívida pública em cerca de 7 pontos do PIB. Na zona euro, esta situação não é específica da Espanha mas, no entanto, avisa contudo Edward Hug, a esta acrescenta-se ainda a dívida das empresas públicas, que representa 5,2% do PIB de acordo com o Banco de Espanha, assim como se acrescentam também as obrigações detidas pelo Fundo de pensões do Estado. Face a estes valores em dívida Rajoy indicou, a 9 de Março, que seria posta em funcionamento uma linha de crédito de 35 mil milhões de euros - o equivalente a 3, 3% do PIB e que estaria à disposição das colectividades locais para pagamento às farmácias, aos fornecedores de energia eléctrica ou às empresas dos serviços de limpeza...
Trata-se de objectivos delicados. Em Bruxelas a situação é seguida com atenção: se a Espanha está a enfrentar o aumento da pressão dos mercados, ela só o deve apenas a si-própria e às suas reviravoltas nas suas previsões de défice para 2012, que colocam em questão a seriedade das suas posições, a sua credibilidade. Ainda mal o Pacto Europa estava aprovado e já Rajoy indicava, em 2 de Março, que procurava construir o seu orçamento com um défice de 5,8% do PIB, em vez dos esperados 4,4% para 2012. Depois de um braço de ferro com a Comissão, Madrid concordou em levar a previsão do défice a 5,3% do PIB em 2012 e a 3% em 2013.
Após uma primeira componente de 15 mil milhões de reduções anunciada no final de Dezembro, Rajoy vai anunciar, na sexta-feira novas medidas de rigor. De acordo com analistas de Crédit Suisse, alguns 2 mil milhões de euros de poupanças adicionais devem ser determinadas para alcançar o novo objectivo. E para alguns, como Thibault Mercier economista de BNP Paribas, será necessário bem mais do que a poupança de mais de 20 milhares de milhões para respeitar as previsões do défice, tendo em conta os efeitos recessivos da austeridade e das menores receitas esperados.
A conjuntura faz com que qualquer projecção seja delicada. Na terça-feira, o Banco de Espanha oficializou a entrada do país em recessão, de que teria saído há já dois anos atrás: o PIB contraiu-se no primeiro trimestre depois de uma queda de 0,3% nos últimos três meses de 2011. Madrid também prevê uma recessão de 1,7% para todo o ano. "Como nós só prevemos o retorno do crescimento em 2014, acreditamos que o défice não descerá abaixo dos 3% do PIB antes de 2014", observaram os analistas do Bank of America Merrill Lynch.
As comunidades comunidades autónomas estão exangues. Entre 2007 e 2011, a dívida das dezassete comunidades autónomas foi multiplicada por 2.3 e é agora de 13,1% do PIB. "As receitas fiscais das regiões dependem fortemente dos impostos imobiliários." Estas receitas diminuíram, portanto, muito fortemente com o colapso do mercado, nota Danielle Schweisguth, Observatoire français des Conjonctures Èconomiques (OFCE). Problema, estas receitas "em parte não perenes, têm geralmente por principais competências o campo da saúde, da educação, das transferências sociais, de competência do núcleo explica Jesus Castillo, economista no banco Natixis." "As despesas mantiveram-se estáveis ou até mesmo tiveram tendência a aumentar por causa do desemprego", que afecta 23 por cento da população activa, um recorde na zona do euro.
Está em curso uma reforma para limitar drasticamente os défices das comunidades autónomas. Há ainda a questão do apoio político ao nível local: se a maioria destas regiões é controlada pela direita, esta não conseguiu conquistar Andaluzia, a mais populosa delas, no domingo, 25 de Março.
O imobiliário e o sistema financeiro estão sob tensão. Em 2007, cerca de 750.000 casas foram começadas a construir em Espanha, um valor hoje dificilmente a atingir os 100 000... Os preços, eles, caíram cerca de 26%, de acordo com a agência especializada Tinsa, uma baixa ainda modesta em comparação com a queda de 50% verificada na Irlanda. "O ajustamento é feito principalmente sobre as quantidades, o número de começos de construção foi dividido por sete em quatro anos." "No entanto, calcula-se muitas vezes que cada construção gera dois a três empregos", observa. Castillo. E acrescenta: "Sabe-se que a economia espanhola não sairá para a retoma através da construção".
Além disso, a explosão da bolha enfraqueceu fortemente o sistema financeiro espanhol. Madrid claramente promoveu uma cascata de aproximações entre bancos e terá forçado essas instituições a tomarem mais provisões mas subsistem muitas incertezas. A taxa de créditos de cobrança duvidosa, principalmente de créditos imobiliários susceptíveis de não serem reembolsados, atingiu, assim, em Janeiro 7,91% do total das dívidas, ou seja, um montante de 140,03 mil milhões de euros, um recorde desde 1994...
Como resultado, os bancos preferem mais limpar as suas contas do que conceder novos empréstimos às famílias e às empresas. Daí o ter-se começado a diminuir a enorme dívida do país, de 226% do PIB em 2010 para 217% em 2011. Mas isto é também menos apoio ao investimento e ao consumo, alimentando ainda mais o espectro de um crescimento duravelmente fraco.
Clément Lacombe e Sandrine Morel (em Madrid), Pourquoi l'Espagne inquiète tant la zone euro, Le Monde, 29 de Março de 2012.
Le Monde daté du 28 mars 2012
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Jovens empregados de pequenas lojas, de cafés ou empregados distribuidores de porta a porta, na capital da região da Campânia, milhares de crianças abandonaram a escola e trabalham ilegalmente para poderem satisfazer às suas necessidades básicas assim como as das suas famílias. E tudo isto perante uma indiferença quase geral.
São sete horas da manhã. Em San Lorenzo, no coração de Nápoles. Um miúdo parece vaguear no labirinto de ruas molhadas, com uma caixa de conservas nos braços. Vestido com roupa já desbotada, com um capuz na cabeça e com sapatilhas de ténis já rotas, o pequeno Gennaro começa o seu dia de trabalho. Ninguém fica surpreendido de o ver aparecer a uma hora ainda tão cedo para uma criança. Em Setembro de 2011, Gennaro foi contratado para trabalhar numa mercearia. Seis dias em cada sete, dez horas por dia, ele reabastece as prateleiras e as bancas, descarrega as caixas e vai fazer a entrega de compras ao bairro, porta a porta. Gennaro sonhava em se tornar um bom técnico em computadores, mas é um marçano numa pequena mercearia, a profissão mais comum entre os filhos de trabalhadores de Nápoles. Eles trabalham ilegalmente, e por menos de 1 euro por hora e ganha, na melhor das hipóteses, 50 euros por semana. Gennaro acaba de fazer 14 anos de idade.
Nunca Paola Rescigno, a mãe de Gennaro, teria acreditado ter que o privar da escola alguma vez na vida, nunca na vida seria capaz de pensar tal coisa. Desde há vinte anos, ela vivia com o seu marido, nuns 35 metros quadrados nas traseiras de um prédio no bairro de San Lorenzo, a zona mais obscura do centro da cidade. Depois, o pai morreu, levado por um cancro repentino e fulminante. Paola Rescigno agora vive de expedientes. Ela organizou um mini-empresa de trabalhos de limpeza e partilha o trabalho com os outros desempregados seus vizinhos. Ela ganha 45 cêntimos do euro por hora, 35 euros por semana, menos do que o salário do seu filho.
É ela que, todas as manhãs, pelo amanhecer, acorda Gennaro para que este chegue a horas à mercearia. A sua filha mais nova, tem 6 anos e, então ela teve que escolher: "Eu não tenho meios para pagar os livros aos dois." Seria a um ou ao outro. "Na mesa da cozinha," um pão de oito dias", uma bola de 3 kg, um pão de centeio, que se conserva durante muito tempo e custa apenas 5 euros." O produto de referência dos anos de fome do pós-guerra italiano.
Em Nápoles, milhares de crianças como Gennaro são assim levadas a trabalhar. São cerca de 54 000 em toda a Campânia, a região de Nápoles, a terem abandonado o sistema escolar entre 2005 e 2009, de acordo com um relatório alarmante publicado em Outubro de 2011 pela Câmara Municipal; 38% deles têm menos de 13 anos de idade. Empregados de pequenas lojas, empregados de café, distribuidores de lojas no porta-a-porta, aprendizes de cabeleireiro, pequenas mãos a trabalharem as peles nas unidades artesanais e nas unidades que trabalham para as grandes marcas, " homens de todo o serviço " para os mercados, eles são visíveis por toda a parte, a trabalharem em plena luz do dia, na indiferença quase geral.
"Claro, nós sempre fomos a região mais pobre da Itália." Mas isto, isto é um nunca visto desde o final da Segunda Guerra Mundial ", disse Sergio D'Angelo, vice-prefeito de Nápoles". Apenas com 10 Anos, essas crianças já estão a trabalhar doze horas por dia, uma verdadeira negação do seu direito a crescerem. "Os pais vivem na ilegalidade e serviços sociais podem em qualquer momento colocar os seus filhos numa família de acolhimento, num orfanato."
Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota
Nota de leitura
Aos meninos deste mundo, desta época, aos meninos que, como o jovem paquistanês Iqbal, são assassinados pela máquina de guerra que a União Europeia permitiu, que a União Europeia diariamente dinamiza, com os seus canhões de longo alcance disparados para quase sobre todos os povos desta Europa hoje tão sofrida. E essa máquina de guerra tem um nome, a política de austeridade, tem um corpo de directores-executivos, os mercados financeiros, tem um corpo de altos funcionários, as Instâncias Europeias, vulgo Bruxelas, tem um corpo de funcionários menores, por vezes, seus servos que a coluna vertebral perderam se é que alguma vez a tiveram, os governos nacionais, e tem já muitos milhões de vítimas, os milhões de trabalhadores em situação precária e os muitos milhões de desempregados jovens que nem trabalho precário encontram, muitos deles já irremediavelmente perdidos face a um emprego que nunca virão a ter.
A Itália ao nível do imediatamente pós-guerra, como se uma guerra tenha agora havido, a Itália do pão centeio que muitos de nós já comemos, a Itália a vender ao desbarato o seu futuro materializado nos seus filhos que agora deixa implacavelmente destruir, na rua e sem escola, na rua e com direito a viver do crime. No seculo XXI e sobre a Itália do século XXI, um pequeno texto aqui vos deixo.
Júlio Marques Mota
Quando Nápoles mata os seus filhos
Será que ainda se lembram dos filmes na Itália do pós-guerra? A fome, a pobreza, as crianças vendidas ou condenadas a roubar? Hoje – hoje mesmo! - Centenas de crianças devem de novo voltar abandonar a escola. A Itália está em crise. Na maioria das casas degradadas dos bairros populares, o pão de centeio voltou de novo a aparecer. Pão negro, pão de má qualidade, pão nada caro e que se conserva por muito tempo. Em Nápoles é chamado o "pão de oito dias". Aqui existem famílias sustentadas por pais desempregados, sem dinheiro para alimentar os seus familiares e até mesmo nem para pagar os livros escolares dos seus filhos...
Então as crianças trabalham, ilegalmente como é evidente, e como os adultos. 10 a 12 horas por dia, seis dias por semana, por 50 euros a semana. Estes são contratados desde as 7 da manhã, "são empregados de boutique ", são marçanos de supermercado, são empregados em salão de cabeleireiro como aprendizes, são vendedores nos mercados, mãos pequenas nas empresas de couro ou de belos artefactos de pele, produtos de luxo, destes sacos ou malas preciosas que se encontram nas montras de Paris ou noutros lugares.
Mais escola, mais futuro. Estes meninos nunca serão professores ou especialistas em computadores. Eles têm 8, 10, 12, 14 anos ou mais, têm traços já bem marcados pela vida e têm ombros dos adultos, bem à vista mas ninguém se parece ralar com isso. Fora, vivem pelas ruas, e as ruas de Nápoles são ferozes. Depois de um ou dois anos de trabalho, as crianças acabam por ficarem nesta vida e vão depois ganhar dez vezes mais como vigias para os traficantes e como revendedores de coke e assassinos, depois. Conhece-se bem a sequência.
Educador de rua, Giovanni já não aceita em seguir passivo os enterros das crianças do bairro. Ele é um homem irritado. Contra a máfia, contra a cidade e contra o Estado que se está a afundar. Agora trabalha, e desde há cerca de um ano e meio, sem receber. Como todos os educadores de Nápoles, ele teve que se endividar para continuar a sua actividade profissional. Giovanni criou uma associação "O tapete de Iqbal", o nome de um menino escravo paquistanês assassinado porque este se atreveu a revoltar-se.
Todos os dias, o educador percorre bairros como Barra, considerados pelos clãs da máfia napolitana como seu domínio e onde, agora, já mais nenhum funcionário municipal ousa sequer entrar. Aqui, vende-se drogas, rapta-se, mata-se. E é aqui que o educador procura recuperar as crianças para voltarem para a escola. Um desafio com ares de parecer ser mais um suicídio que outra coisa. Giovanni criou mesmo uma escola de circo, com a qual forma as crianças e organiza espectáculos nos fins de semana.
Nariz de palhaço, cuspidores de fogo, grandes pernas de pau, o público aplaude. E à noite, depois da representação, Carletto, Marco, Ciro, Carlo antigos marçanos ou jovens assassinos da máfia, repartem a receita do espectáculo. O suficiente para sair da rua, para pagar os livros e ainda para ajudar a família. O suficiente para escapar da maldição dos bairros de Nápoles. O director de uma escola ocupada por toxicodependentes ofereceu mesmo as instalações do estabelecimento, para criar uma escola de circo, desde que eles pudessem restaurar o local.
A história seria bonita se ela não corresse o risco de ficar sem sequência. A nova lei de finanças aprovada em 2009 arruinou os orçamentos dos municípios e Nápoles decidiu acabar com qualquer apoio às associações. Sem subsídios, sem mais dinheiro, não há mais actividades sociais. Giovanni tem apenas um mês para encontrar meios com que fazer viver o "tapete de Iqbal". Apenas um mês. Caso contrário, a associação terá de fechar as suas portas. E os filhos de Nápoles irão retomar o caminho da rua.
Jean-Paul Mari, Quand Naples tue ses enfants. Le Nouvel Observateur, 28 de Março de 2012.
2,840 signers. Let's reach 5,000
Why this is important
Ireland’s debt repayments on the now dead Anglo-Irish Bank and Irish Nationwide Building Society's debts will reach over €47 billion by 2031 and probably much more when borrowing costs are added. The next massive payment is due on 31st March, worth €3.1 billion. This could fund the running of Ireland's entire primary school system. Instead it is to be taken out of our society and will be disappeared by the Irish Central Bank.
These debts are not the responsibility of people living in Ireland. They are the responsibility of those who lent recklessly to Anglo and those who acted recklessly within Anglo.
Unbelievably, people in Ireland are repaying these debts even though Anglo is currently under police investigation.
We, ordinary people living in Ireland, already suffering from an economic and democratic crisis we did nothing to create, have been saddled with repaying these unjust debts. A so-called ‘promissory note’ was created as a kind of “IOU”. This note does not have the democratic consent of the people. This money could and should be used to maintain and expand public services and provide a desperately needed stimulus to the depressed economy.
I call on you to support an immediate suspension of these repayments and to advocate that the Irish Government enter into negotiations with the relevant parties, including the European Central Bank, to ensure that this unjust debt is written down in full.
More information:
(Enviado por Júlio Marques Mota)
Este texto da nossa amiga Isabel do Carmo foi-nos enviado pelo António Gomes Marques. Já o publicámos há tempos atrás. Mas continua a ser pertinente. Voltamos a publicá-lo.
O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar "verdade", que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que... Não interessa.
Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os "remediados" só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia "mais tenrinho" para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse "a fénico". Não, não era a "alimentação mediterrânica", nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.
Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de "longa" duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos "balões" ("Olha, hoje houve um ' balão' na Cuf, coitados!"). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver "como é que elas iam vestidas".
Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a "obra das Mães" e fazia-se anualmente "o berço" nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).
Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos ("Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho"). As pessoas iam à "Caixa", que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo.
Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma "boa zurrapa". E todos por todo o lado pediam "um jeitinho", "um empenhozinho", "um padrinho", "depois dou-lhe qualquer coisinha", "olhe que no Natal não me esqueço de si" e procuravam "conhecer lá alguém".
Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.
Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e... supremo desígnio - Madame.
Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por "mangas-de-alpaca" porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal
Transcrevemos, com a devida vénia, da revista Visão de 16-02-2012
Todos os analistas inteligentes perceberam há muito que a nossa democracia sofreu uma pequena alteração nas últimas eleições. E eu começo a perceber agora: nas legislativas de 2011 os portugueses não elegeram um primeiro-ministro, elegeram um comandante do corpo de fuzileiros. O resultado foi este regime híbrido que combina a democracia com a ditadura militar. É uma democracia militar. Portugal fez um intervalo na sua existência como país e passou a ser uma caserna. Há dez milhões de recrutas que necessitam de formação e Pedro Passos Coelho berra-lhes aos ouvidos exactamente as mesmas palavras de incentivo que todos os soldados ouvem durante a recruta. A diferença é que o tratamento é mais bruto do que na tropa e as condições de vida são piores.
É difícil distinguir a linguagem político-militar da linguagem militar simples. Os recrutas, na tropa, ouvem que a boa vida que tinham antes acabou. Que quem acha que não aguenta deve sair. Que são preguiçosos. Que têm de fazer sacrifícios pela pátria. Que devem deixar de ser piegas. Os portugueses, na caserna, ouvem o mesmo: que viviam acima das suas possibilidades, e por isso a boa vida que tinham antes acabou. Que quem acha que não aguenta deve emigrar. Que são preguiçosos, e por isso têm de trabalhar mais, dispor de menos feriados, deixar de festejar o Carnaval e ter férias menores. Que têm de fazer sacrifícios pela pátria, empobrecendo. E que devem deixar de ser piegas. Passos Coelho está a fazer de nós homens. Na impossibilidade de nos aplicar, como castigo, séries de 20 flexões de braços, cobra impostos. Flectimos o braço na mesma, mas é para ir buscar a carteira ao bolso. É duro, mas tem de ser. Porque Passos Coelho sabe melhor do que ninguém o que acontece àqueles portugueses menos esforçados, cuja capacidade de trabalho lhes permite arranjar emprego apenas nas empresas dos amigos, e que por opção, e não por necessidade, deixam a conclusão da licenciatura lá para os 37 anos: podem chegar a primeiro-ministro. E esse é um destino trágico que ele não deseja aos seus compatriotas.
A meio da recruta, o soldado faz o juramento de bandeira. O contribuinte português fará, suponho, o juramento de pin. Jura-se pela bandeira na mesma, mas é aquela bandeirinha de plástico que enfeita a lapela do primeiro-ministro. Link permanente: x
" A Política não se faz pelo em leilão da Bolsa ", afirmou o General de Gaulle em 28 de Outubro de 1966, quando o mercado de acções se afundava depois de ter subido exageradamente em 1962. O economista, André Orléan, Director de investigação do CNRS, recordou esta fórmula para mostrar, numa entrevista ao Le Monde, que o poder político está agora sujeito às decisões dos mercados financeiros. Da mesma forma, ele considera "desproporcional" o pânico que se seguiu à degradação da nota pela França pela agência de rating Standard andPoor’s. André Orléan, acaba de receber o prestigioso Paul Ricoeur Award pelo seu livro L'Empire de la valeur. Refonderl'économie (Seuil, 2011). Neste livro, ele desenvolve uma crítica de fundo sobre os economistas "neoclássicos", que querem que acreditemos na "objectividade" dos valores financeiros, quando descreve um sistema subjectivo.
Para evitar falsas avaliações, as crises e as quedas cíclicas mas também as políticas de rigor impostas às populações, André Orléan afirma que é necessário repensar a noção de valor, compreender os seus limites, voltar a dar força ao poder político. É para enfrentar esta reflexão que André Orléan preside à Associação francesa de economia política (AFEP), que defende o pluralismo no ensino e na investigação em economia. É também um dos quatro signatários do manifesto dos economistas aterrados que põem em causa a política da União Europeia no tratamento da dívida soberana. O quarteto acaba também de publicar Changer d’économie! Nos propositionspour 2012 (éd.
Quem governa a Europa ?
Na zona euro, é o mercado. O poder político conforma-se com as prioridades que estes lhes estabelecem e temem também as suas avaliações. Viu-se ainda agora com a degradação da França por Standard andPoor’s. Ao mesmo tempo, o mercado financeiro é um soberano profundamente errático e incoerente. Ele nunca está satisfeito como pode ser visto com estas políticas rigorosas que são acompanhadas de baixo crescimento e esta baixa taxa de crescimento acarreta ela própria novas dificuldades nto, da própria fonte novas dificuldades. No final, temos a impressão de que, na zona euro, a confiança nunca mais voltará.
Historicamente, o primado do político, ou seja, da sua capacidade em enquadrar os interesses financeiros, teve como instrumento essencial o Banco Central. Não devemos perder de vista esta realidade: é através do poder monetário que foi possível prosseguir o interesse colectivo. Mas isso pressupõe que o Banco Central esteja colocado sob a autoridade do poder político. Isso é o que se verifica nas principais democracias. No entanto esta arquitectura, que já deu bem as suas provas, não foi adoptada pela zona euro. Um Banco Central Europeu (BCE) separado do político é uma coisa muito má. É, por si só, a expressão de uma crise muito profunda de democracia europeia, da sua impotência congénita. Com efeito, seria mais exacto dizer que a autonomia radical do Banco Central, mais do que ser o resultado de uma doutrina, é que a consequência do facto de que não existe nenhuma soberania europeia de facto. Porque a história mostra que um verdadeiro soberano sabe captar para seu benefício o Instituto emissor, independentemente do seu estatuto jurídico. Por outras palavras, o primeiro passo de um poder político real europeu seria colocar o Banco Central sob a sua autoridade.
Quando ouve falar de que os " mercados impõem os seus ponto de vista ", de que mercados é que se está falar?
Quando dizemos "mercados", não se está a falar da economia de mercado ou dos mercados de bens. Está-se a falar dos mercados financeiros. Fala-se deles como se eles resumissem toda a economia, e que eles eram racionais e estáveis. Se eles fossem aptos a produzir estimativas correctas dos valores e dos preços, o seu papel seria útil. O problema vem do facto de que não é nada assim. Eles são, deste ponto de vista, muito diferentes dos mercados de bens. Estes últimos tratam com bens reais, tendo uma utilidade que os consumidores podem julgar, enquanto os mercados financeiros assentam em apostas subjectivas, especulativas. Estes são então mercados de promessas. Eles vendem e compram antecipações. A sua lógica é de natureza mimética: cada investidor se posiciona neste mercado com base no que os outros fazem. Eles assemelham-se fortemente a este tipo de medias que procuram descobrir não as informações importantes, mas aquelas que são susceptíveis de serem apreciadas pelo público.
Por esta razão, um mercado financeiro é por definição móvel, instável, cheio de derrapagens descontroladas. Inevitavelmente aí ocorreram bolhas, que explodem quando o fosso face à realidade se torna demasiado grande para ser negado. Mas a teoria neoliberal quer-nos fazer crer que os mercados financeiros dão valores relevantes, preços objectivos e que no final é a auto-regulação que vai prevalecer. É assim que a financeira acção é vendida às populações.
Esta construção foi desmentida pelas crises que se sucedem desde 1987 ao tsunami financeiro de 2007 e à crise actual. Não nos podemos fiar nos preços financeiros, quer se trate das taxas de juros, quer seja da taxa de câmbio quer ainda do preço de uma acção.
Porque é que é sempre a sua estratégia que acaba por vencer?
Nem sempre foi assim. Nós estamos a viver hoje uma situação completamente original. Nos capitalismos que procederam a situação actual quer se fale do fordismo do modelo renano, do management ou outro, o controle das empresas estava ou nas mãos dos sues proprietários ou então, quando o capital estava muito diluído estava nas mãos das direcções da empresa. Daí se segue que havia uma grande diversidade de opiniões e de avaliações. Nestes capitalismos, apenas o "flutuante" era i deixado para o mercado, o resto era gerido por instituições específicas, quer sejam famílias, bancos, à maneira do capitalismo tipo renano, ou o Estado, como no caso francês.
Desde a década de 80, liquidaram-se gradualmente os blocos de controlo, julgados demasiado caros, e porque os jogos no mercado mostravam fortes oportunidades de lucro. Com esta evolução surgiu uma nova forma de capitalismo, financeirizado, onde a diversidade de pontos de vista é muito menos marcada porque o mercado aí constitui ele mesmo o centro das avaliações económicas...
O capital financeiro acabará por globalizar e dominar todas as actividades?
Que seja o mercado das acções, que define a norma de rentabilidade exigida, o mercado de câmbio, que determina o valor do euro, ou o mercado da dívida, que impõe um rigor orçamental, a esfera financeira domina todas as escolhas. No entanto, ao contrário dos mercados de bens, a finança tem uma dimensão directamente colectiva. Ela compreende a economia na sua totalidade a partir de uma análise da sua macroeconomia, das suas instituições e da sua política. Por conseguinte, o primado do político no domínio da avaliação global é ultrapassado pela finança. Esta é uma situação sem precedentes, que põe em perigo a vida democrática.
Assim, a Standard &Poors justifica a sua degradação da notação atribuída à França estimando que o acordo europeu de 9 de Dezembro de 2011, sobre a "regra de ouro" orçamental não constitui um "progresso suficiente" para fazer sair a zona euro da crise. Não há que ficar ofuscado com um tal juízo, com uma tal opinião: a democracia pressupõe a liberdade de opinião, e Standard andPoor’s pode estimar que a política seguida põe em perigo a dívida pública.
O que levanta problema é o peso desproporcionado que é dado a esta opinião. Toda a gente já se esqueceu de que estas agências se enganaram várias vezes – aquando da crise no Sudeste Asiático em 1997, no caso Enron ou na avaliação de produtos titularizados na actual crise? Este peso desproporcionado é um reflexo da impotência das autoridades políticas para afirmar uma outra visão do mundo que não seja a dos interesses financeiros.
Se lhe pedissem para dar um exemplo do poder dos mercados, que exemplo daria?
No final de Dezembro de 2011, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu emprestar 489 mil milhões de euros para os bancos a preço muito baixo, 1%. Ao mesmo tempo, um país como a Itália devia ter contrair empréstimos junto dos bancos nesse momento à taxa de 5% ou 6%. Muitas pessoas ficam surpreendidas com esta diferença de tratamento a favor dos bancos. O BCE é na verdade o poder financeiro na Europa. Perto de 500 mil milhões de euros, é considerável, e concedidos como empréstimos à taxa de 1%, com maturidade de três anos, é coisa nunca vista! No entanto, os bancos já não se emprestam mais entre eles, uma vez que as suas notas têm sido degradadas, os seus balanços continuam ainda a serem opacos, a desconfiança reina. E, não viram chegar a crise de sub-primes, e nisso demonstraram uma incompetência altamente significativa e tiveram que ser salvos pelo dinheiro público... Estamos bem longe do dogma da auto-regulação dos mercados financeiros! Além disso, por uma parte significativa do financiamento atribuído aos bancos europeus não vai para a economia real, mas permanece nas contas dos mesmos bancos junto do BCE!...
Porque é que estes 489 mil milhões de euros do BCE vão para os bancos e não directamente para os Estados? O BCE tem os meios para intervir e para comprar dívida. Mas desde que se trata de apoiar os Estados ficam logo a protestar: "isto fará com que a inflação dispare, nós vamos fazer descer o valor dos activos do BCE ".
Quando se trata de bancos, não se fala mais de riscos inflacionistas ou de solvabilidade. Colocam-se os países em dificuldade com a sua dívida nas mãos dos mercados financeiros, que irão definir à sua vontade o preço de sua assistência a seu gosto: actualmente, a dez anos, 6,5% para a Itália e 5% para a Espanha. Os países da Europa do Sul estão condenados a consagrar uma parte considerável das suas receitas orçamentais para o reembolso de sua dívida, obrigando-os assim a uma redução drástica nas despesas públicas o que é dramático para a sua população.
O BCE não tem o direito de emprestar aos Estados. Devemos lamentá-lo?
Sim. É uma escolha discutível. Há um dogma da independência do BCE para com os Estados, o que, na verdade, é imposto pela Alemanha. No entanto, seria racional apoiar os países solventes com dificuldades por causa da instabilidade nos mercados. Na verdade, é assim que agem todos os principais países, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Japão, mas não a Europa. Resgatar a dívida não resolveria todos os problemas. Mas isso mudar profundamente o clima actual. A Alemanha impõe a independência do BCE porque ela receia a insolvabilidade dos países do Sul. Será que ela se engana? Confunde-se crise de solvabilidade e crise de liquidez. A Itália tem dívidas significativas, mas continua solvável. É estúpido e perigoso permitir que este país pague juros tão elevados Se o BCE comprasse a dívida pública, as taxas de juros imediatamente desceriam. Poder-se-ia então abordar as questões fundamentais, sociais, ecológicas, sem esquecer o crescimento. Mas nós estamos paralisados pela intransigência alemã. Estamos numa situação próxima da de entre as duas guerras, quando os países europeus aplicavam políticas deflacionistas o que levou ao desemprego em massa. É assim porque a Europa continua a estar muito marcada pela sua adesão ao capitalismo financeirizado.
Como é que se pode voltar a dar toda a sua força à governança politica?
Os historiadores dizem-nos que a democracia não se identifica a regras formais. Se o sufrágio universal é um elemento importante da vida democrática, não é suficiente convocar todos os anos o Parlamento Europeu para se ter uma verdadeira democracia. Esta ainda será puramente formal se não conseguir produzir uma verdadeira comunidade. No entanto, nada disto existe na Europa - é a justaposição de 27 órgãos políticos que nunca se misturam. A política europeia é reduzida a reuniões de peritos dominados por questões técnicas – veja-se a "regra de ouro" - sem que ninguém levante a questão do consentimento europeu. O único modelo verdadeiramente europeu é o que é proposto no debate é o modelo que propõem os mercados financeiros! Deve ser dito que a Europa está intoxicada pela financeirização, o que reflecte a omnipresença dos homens das finanças nos locais do poder. Hoje, a Goldman Sachs ultrapassou a ENA no que diz respeito à colocação de altos quadros na Administração Europeia.
O isolamento nacionalista será uma solução?
Eu penso que a crise europeia pode levar alguns a ter uma certa nostalgia do que existia "antes" e que até mesmo deseje aí regressar : "Deixemos o euro, seremos capazes de fazer mexer as taxas de câmbio, gerir a dívida, decidir uma política industrial nacional, etc.". Mas a indústria é agora global. As alavancas que teríamos ao voltar às comunidades nacionais também não estariam mais à altura dos problemas. Tenho medo de que não tenhamos outra alternativa que não seja a de fazer aparecer uma política europeia. Ao mesmo tempo, tudo mostra que se trata de um projecto problemático. Supondo mesmo que os governos nacionais abandonam o seu comportamento actual a favor de uma Europa financeirizada, será muito difícil garantir que a justaposição dos povos em destinos distintos seja capaz de produzir um projecto novo. É uma questão de história comum, não de gestão.
Esta ausência de solidariedade não será o resultado de uma profunda crise social que os povos estão a atravessar?
Há seguramente um grave mal-estar na Europa, a ideia de que o ascensor social deixou de funcionar, que as políticas já não protegem mais as populações e de que se deixam os serviços públicos a degradarem-se. A precariedade aumenta fortemente, a pauperização igualmente, e tem-se estado também a assistir a uma desintegração sindical e muitas pessoas têm já a impressão de que nada pode ser mudado. Um sentimento do irremediável estende-se assustadoramente pelas populações. E tudo isto actua na crise da representação política europeia, que aparece cada vez mais como estando desligada da realidade das populações.
Porquê, ter fundado, com outros, os Economistas aterrados e publicado o livro " Mudar de Economia- Changerd'économie !" ?
Apesar do impacto global da crise de subprimes, o diagnóstico dominante nunca questionou a validade do papel central atribuído aos mercados. Nos diferentes G-20, é verdade que se criticou a opacidade das operações financeiras, os bónus dos traders, os erros de agências de notação, os paraísos fiscais, mas a financeirização nunca foi colocada em questão. A palavra de ordem é a de uma finança tornada transparente porque só assim é eficaz. Nos Economistas Aterrados, não estamos nada de acordo. Pelo lado da transparência, as reformas avançam muito lentamente. Não se tem visto grande coisa, a não ser a obrigação dos bancos aumentarem o valor dos seus fundos próprios. O que se tem-se visto, isso sim, é principalmente os lombies bancários que resistem tanto quanto lhes é possível. O nosso diagnóstico é que a finança ganhou demasiado peso na macroeconomia. Para mudar a economia, eu quero aqui sublinhar a promulgação de uma nova lei Glass-Steagall. Esta reforma, que foi aprovada nos Estados Unidos em 1933 e, depois, abandonada em 1999, estabelece uma incompatibilidade radical entre a profissão de banco do depósito e de banco de investimento. Trata-se de dar a conhecer publicamente a perigosidade da especulação e de querer proteger o circuito dos créditos e dos depósitos. Em suma, trata-se também de querer proteger o sistema de crédito.
Uma das propostas dos economistas aterrados é a que os países da zona euro devem poder praticar políticas orçamentais autónomas - isto implicaria que o BCE garantiria as dívidas. Propomo-nos também reduzir os nichos fiscais e de tributar mais fortemente os rendimentos mais elevados. Gostaria de acrescentar que os bancos devem ser incentivados a fazerem o que é da sua profissão, a saberem investir na economia real, criadora de bens e de empregos. É também necessário reorganizar a actividade bancária, e afastá-los das actividades especulativas. E, cada vez que seja proposta ima a uma inovação financeira, questionar se esta é boa ou não para a economia real. Isto seria uma completa mudança de direcção.
André Orléan, “Dans la zone euro, c'est le marché qui gouverne" LE MONDE, CULTURE ET IDEES | 22.01.12
TENTATIVA DE ASSASSÍNIO DE MIKIS THEODORAKIS E DE MANOLIS GLEZOS
Acaba de nos chegar este apelo. Colocamo-lo imediatamente, mesmo sem o traduzir.
Bonjour mes chers Professeurs, Collègues, Amis, Il y a deux jours, on a vendu notre pays! on a vendu nos rêves! on a vendu notre avenir!X La manifestation du dimanche 12.2.2012, était cruelle! Une attentative d'assassinat de Mikis Theodorakis et de Manolis Glezos (deux résistants emblématiques grecs), était organisée. J'étais là; juste derrière mon Maître, Mikis. Incapable de l'aider! car...noyée, moi aussi, par les gaz toxiques que la police nous a jetté presque face à face! Mikis et Manolis voulaient juste manifester auprès du peuple, avec le peuple, et lui parler! Mais tout était organisé d'avance! Heureusement, les deux vont bien maintenant... Puis, pendant plusieurs heures les manifestants étaient attaqués par la police alors qu'ils n'étaient pas du tout agressifs! Tout était plannifié d'avance! Il y avait un ordre donné d'avance, pour que la police repousse, en utilisant tous les moyens, les manifestants de la place du Parlement d'Athènes. Ils étaient partout, cachés à tous les coins des petites rues autour du Parlement et ils nous attaquaient dès que nous faisions deux pas en avant...
Si vous trouvez, des videos de cette journée sur youtube, faites les tourner! Il faut que tout le monde soit au courant de ce qui se passe en Grèce!!! Nous ne sommes plus certains, si ce qui se passait en Grèce pendant la dictature militaire des années 70, était plus cruel que ce qui se passe aujourd'hui!
Des appels à la solidarité au peuple grec sont organisés dans plusieurs villes de France; soyez nombreux! nous avons besoin de vous!
Vous pouvez aussi signer la pétition qui suit!
http://www.1millionsignatures.eu/?a=form
Soutenez-nous! Cette crise n'est pas que grecque! Elle était enregistrée depuis plusieurs années par les forces économiques; simplement ils ont attaqué le maillon le plus faible pour tester sa résistance! Mais...ils n'ont pas tenu en compte la FIERTE et la SOLIDITE du peuple grec qui continuera à RESISTER longtemps, longtemps, longtemps... Je vous remercie d'avance de votre soutien!
Kalliopi (membre de A'Spitha Kendrou Athinas : Mouvement de Citoyens Indépendants inauguré par Théodorakis le 1.12.2010)
Os meus fantasmas sobre a China não são as cidades fantasmas, os meus fantasmas, como iremos mostrar na nossa série e como já o mostrámos na terceira série sobre Globalização e Desindustrialização passam por aqui. Simplesmente por coisas destas!
Meu caro Carlos Loures
Ontem referia-me ao comportamento cínico dos europeus, e não só, de poderem estar à espera que os Chineses caiam por si e antes de nós, para podermos reaver mais barato o que lhes temos estado a vender, o que em saldo lhes temos estado a dar para assim se nacionalizar. E dissemos que isto representa e mais uma vez a falência total do sistema europeu, sistema que é necessário manter, custe o que custar, diz-nos Passo Coelho.
Curiosamente num texto que publicaremos na quarta série sobre Globalização e Desindustrialização, um antigo secretário de Estado da Administração Reagan diz-nos:
“Dada a incompetência que reina em Washington e em Wall Street, a nossa maior esperança é a de que o resto do mundo seja ainda menos competente e esteja até em dificuldades muito mais profundas que as nossas. Neste caso, o dólar dos EUA pode sobreviver como moeda a moeda que tem mais valor de entre as moedas que não têm valor pertencente ao conjunto mundial de moedas sem valor num mundo de moedas sem valor intrínseco que circulam apenas por garantia dos governos, não sendo também garantidas por reservas.
E tem razão, a incompetência na Europa é bem pior e assim, ainda assim, os Estados Unidos vão andando enquanto nós, os Europeus, nos vamos afundando.
Mas para minha surpresa, o Le Monde trazia uma informação curiosa, a propósito dos problemas da China, trazia a posição de Joe Biden, actual vice-Presidente dos EUA:
"A cause de cette politique atroce de l'enfant unique, ce qui se passe maintenant, c'est qu'au cours des vingt prochaines années, ils vont subir une telle inversion de la proportion du nombre d'actifs par rapport au nombre de retraités qu'en aucun cas ils ne peuvent maintenir cette croissance".
La Chine ne pourra pas maintenir son rythme actuel de croissance économique en raison de la politique de l'enfant unique, a déclaré lundi le vice-président américain, Joe Biden. Selon sa version de ses entretiens avec des responsables chinois à Pékin en août, il a assuré à ses hôtes que les Etats-Unis étaient confrontés à des problèmes budgétaires bien moindres que ceux qui se profilent pour les autorités chinoises. "Nous avons un problème avec nos programmes de prestations sociales, nous allons être capables d'y faire face, mais grâce à Dieu, nous n'avons pas vos problèmes", a dit le vice-président américain, rappelant les propos tenus lors de ce déplacement en Chine, peu après les âpres négociations sur le relèvement du plafond de la dette américaine et la dégradation de la note de la dette des Etats-Unis par Standard and Poor's.
Sobre a China estamos falados, quanto aos Aeroportos, mão amiga mandou-nos ontem depois de ter lido a nossa peça sobre as cidades fantasma, sobre os aeroportos fantasmas um excerto do El País:
La noticia de que Huesca fue el aeropuerto español con menos pasajeros durante 2009 (6.228) no amilanó a los más recalcitrantes que señalaban que, a pesar de todo, había incrementado su volumen de actividad en un 56,4% respecto al año anterior. Puestos a defender lo indefendible, los gestores pusieron el foco en otro dato estadístico: Huesca ascendía a la posición número 21 entre los 48 aeropuertos de AENA por número de operaciones. Es decir, hubo más operaciones (21.441) que pasajeros. ¿Acaso los aviones volaban vacíos? No, el truco estaba servido: eran los chinos quienes volaban, 140 pilotos en prácticas que ocuparon unas instalaciones anexas durante un año, contratadas por la empresa Top Fly, encargada de su formación. Durante un año, los aprendices chinos despegaban y aterrizaban a diario y eso le dio vida al aeropuerto. Vida y más de un susto porque se perdían en el espacio aéreo con cierta frecuencia, hasta el punto de que algunos terminaban inexorablemente aterrizando en Zaragoza entre el pánico de los controladores.
http://www.elpais.com/articulo/reportaje
E relembro aqui que os verdadeiros fantasmas são o oposto da peça do filme de ontem, são a expressão do Ocidente estar a ser vítima da sua terrível miopia e cinismo e a deixar-se levar na onda de um neoliberalismo puro e duro imposto pela globalização, mas agora bem mais duro, porque passa a ser imposto principalmente pela China. E com isso é a Democracia que se vai eliminando. E é disso que falaremos na quarta série sobre Globalização e Desindustrialização.
Júlio Marques Mota
Hoje, 6 de Fevereiro, podíamos festejar vários aniversários, como por exemplo o do Padre António Vieira, que nasceu neste dia em 1608 ou de Camilo Cienfuegos, também nascido a 6 de Fevereiro de 1932. Mas há questões mais preocupantes e que justificam a atenção de todos. Hoje 6 de Fevereiro de 2012, não cessam de acumular-se sinais de que a situação internacional é grave – não dizemos que estamos a caminhar para um conflito armado de grandes proporções – sabemos que, na história recente do mundo, foi sempre assim que as potências e os poderes resolveram os problemas económicos e sociais.
Conflitos que destroem milhões de vidas e deixam o mundo em ruínas. Na perspectiva de quem manipula o teatro do mundo, ficam resolvidos diversos problemas – excesso de mão de obra, por um lado e, por outro, infra-estruturas a reconstruir, o que reabilita a economia. Só vantagens. A China e os Estados Unidos, a Rússia, são gigantes com pé de barro – a grandeza destes impérios assenta em pressupostos errados, em contradições de toda a natureza – ambos vivem à beira de um abismo. Nem é preciso haver um acordo formal, basta um acordo tácito – pretextos não faltam – a Síria, o Irão, o colapso económico na Europa…
Sempre temos dito que não se pode analisar o presente e tentar prever o futuro olhando para o passado, pois seria como conduzir um automóvel olhando para o retrovisor em vez de olhar a estrada em frente. Mas, o Padre António Vieira, um dos aniversariantes de hoje disse:"Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro."
A nossa leitura desta frase do grande humanista é a de que passado, presente e futuro estão indissoluvelmente ligados por um nexo contínuo – o egoísmo do ser humano e o atávico costume de os fortes se alimentarem dos fracos – o canibalismo que se terá praticado no dealbar da espécie não se extinguiu – sofisticou-se.
Ele aí está, mostrando os dentes.
Enviado por Carlos Leça da Veiga
Intervención ante la Comisión Social de la Asamblea Parlamentaria del Consejo de Europa de Estrasburgo en torno a "Medidas de austeridad: Un peligro para la democracia y los derechos sociales".]
Cuando se van a cumplir dos años de la terapia de choque impuesta a Grecia por el Banco Central Europeo, la Comisión Europea y el Fondo Monetario Internacional, el balance es catastrófico, indignante e inhumano.De entrada, hay que señalar que incluso los impulsores de estas políticas reconocen su fracaso. Más aún, reconocen que sus planteamientos fueron erróneos, irrealistas, ineficaces e, incluso, contraproducentes. Tomemos como ejemplo un tema que concierne no a un problema secundario, sino al meollo del problema: el de la deuda pública griega.Según los responsables del desastre griego, si sus políticas de austeridad draconiana hubieran resultado eficaces al 100%, lo que no deja de ser una ilusión, la deuda pública griega se situaría en el 120% del PIB en el 2020; es decir… ¡al mismo nivel que en 2009, cuando empezaron con este juego macabro!Así pues, ahora reconocen que han diezmado una sociedad entera… ¡absolutamente para nada!Y como si lo hecho hasta aquí no fuera suficiente, continúan imponiendo a los griegos y griegas –y en realidad a todo el mundo– las mismas políticas que consideran fracasadas.
Es lo que está ocurriendo con el séptimo "Memorándum" de austeridad y destrucción de servicios públicos después que los seis precedentes hayan dado muestra de una ineficacia total. Al igual que en Portugal, España, Irlanda, Italia… y en toda Europa, donde la aplicación de estos planes de austeridad draconianos conducen al mismo resultado: hundimiento de las economías y de la población en una recesión y un marasmo cada vez más grande.De hecho, expresiones como "austeridad draconiana" resultan totalmente insuficientes para describir lo que está ocurriendo en Grecia.
No sólo se trata de que los salarios y las pensiones del sector público hayan sido reducidas entre el 50 y el 70%, y un poco menos en el sector privado. La malnutrición hace estragos entre los niños de la escuela primaria y el hambre empieza a manifestarse en las grandes ciudades del país, cuyos puntos neurálgicos se encuentran ocupados por decenas de miles de personas sin techo, hambrientas y en harapos. Se trata de que el paro alcanza al 20% de la población y al 45% de la juventud (49,5% para las mujeres jóvenes).Los servicios públicos han sido liquidados o privatizados y esta decisión gubernamental ha traído consigo la reducción del 40% de las camas hospitalarias, que haya que pagar muy mucho dinero para parir y que en los hospitales públicos no haya vendas o medicamentos básicos como la aspirina.
En enero de 2012, el Estado griego aún no ha logrado entregar a los alumnos de las escuelas los libros que debían estar distribuido en setiembre de 2011.Decenas de miles de ciudadanos inválidos, enfermos o con enfermedades raras se ven condenados a una muerte segura y a corto plazo debido a la supresión de los subsidios a los medicamentos.Las tentativas de suicidio (logradas o no) crecen a una velocidad impresionante, al igual que la gente seropositiva y toxicómana, abandonadas a su suerte por las autoridades.Actualmente, debido a la supresión o privatización de los servicios públicos, millones de mujeres griegas han de cargar con tareas que anteriormente estaban cubiertas por dichos servicios.
Una situación que se ha convertido en un verdadero calvario para las mujeres: son las primeras en ser despedidas y están obligadas a realizar de forma gratuita tareas que corresponden a los servicios públicos; además, son víctimas del incremento de la opresión patriarcal que sirve como coartada ideológica para hacer volver a las mujeres al hogar familiar.Podríamos continuar con la descripción de este horror hasta el infinito; pero lo que acabamos de describir es más que suficiente para constatar que nos encontramos ante una situación social que se corresponde perfectamente con la definición de estado de necesidad o de riesgo, reconocido desde hace tiempo por el derecho internacional.
Un derecho que permite e incluso obliga expresamente a los Estados a priorizar la satisfacción de las necesidades básicas de la población frente al reembolso de la deuda.Como indica la Comisión del Derecho Internacional de Naciones Unidas a propósito del estado de necesidad: "No es admisible que un Estado cierre las escuelas, las universidades ni los tribunales, que desmantele los servicios públicos hasta el punto de abandonar la población al caos y a la anarquía, por la simple razón de disponer de fondos para reembolsas a los acreedores extranjeros o nacionales. El Estado, al igual que los individuos, no puede sobrepasar determinados límites."
Por ello, nuestra posición, compartida por millones de griegos, es clara y neta y está recogida en el derecho internacional: el pueblo griego no tiene que pagar una deuda que, además, no es suya. Por diversas razones.La primera, que la ONU y las convenciones internacionales firmadas por Grecia y, también, por los países acreedores, dejan claro que el Estado griego debe atender prioritariamente las necesidades de su población (nacionales y extranjeros bajo su jurisdicción) antes que a los acreedores.La segunda, que esta deuda o, al menos, una parte muy importante de ella parece reunir todos los atributos de una deuda odiosa (en todo caso ilegítima) que el derecho internacional da por sentado que no hay que reembolsar. Esta es una razón de más para que el estado griego facilite, en lugar de impedir, el desarrollo de la Campaña por la Auditoría Ciudadana de esta deuda a fin de identificar su parte ilegítima, de anularla y no pagarla. Nuestra conclusión es clara: la tragedia griega no es ni fatal ni irresoluble. Existe una solución: el repudio, la anulación y el no pago de la deuda constituyen el primer paso en la buena dirección, hacia la salvación de un pueblo europeo amenazado por una catástrofe humanitaria en tiempos de paz.
Traducción: VIENTO SUR
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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Paris lembra que Standard and Poor’s tinha decidido, em Outubro, a manutenção da sua classificação AAA, "destacando a seriedade e o desempenho da gestão das finanças municipais que permanecem fundamentalmente sólidas".
Agora, a provável perda do AAA por parte da França é já é uma realidade nos mercados financeiros. As condições de financiamento da França, cuja diferença nas taxas de juro com a Alemanha é já superior a 1 ponto percentual, para os empréstimos a dez anos (3,2%),, mostram isso mesmo.
Além disso, se se faz "rodar", o modelo de classificação da agência norte-americana Standard & Poors, à maneira dos economistas, assente num feixe de dados económicos (défice público, o crescimento potencial, o comércio externo, etc.), o resultado é inevitável: a França obtém hoje ' hoje... um duplo A.
Mas, para além da observação sobre a qual todos os economistas concordam, ter-se-á tido em conta os efeitos directos e indirectos que teria tal degradação da notação da França sobre a sua economia? Tão depressa este Césamo perdido, uma das primeiras consequências seria ver a França excluída das políticas de investimento dos grandes fundos internacionais, que seleccionam para os seus clientes, as dívidas mais seguras, notadas de AAA . Por exemplo, este é o caso dos fundos geridos por bancos privados suíços, alérgicos ao risco.
Da mesma forma, se a perda dos AAA deve encarecer o custo do "CDS" (Credit Default Swap) da França - esses seguros que subscrevem os credores de um Estado ou de uma empresa, para proteger contra o risco de incumprimento - certos bancos centrais fora da zona euro poderiam ser tentados a reduzir os seus investimentos em obrigações francesas...
Sobretudo, a retirada dos AAA provocaria a degradação de notações em cascata para todos os organismos públicos chamados de "sub-soberanos" : as autoridades locais, empresas com capital de Estado e empresas que beneficiam da garantia implícita do Estado. "Os AAA protegem a economia francesa. Não se deve minimizar o impacto da sua eventual perda", disse o economista Christian Saint-Etienne.
Em França, os grandes emitentes de dívida, que são a Caixa de Amortização da Dívida Social (CADES), Unedic ou a rede ferroviária da França (RFF), todos notados AAA verão, sem dúvida, como todas as agências públicas garantidas pelo Estado , então a sua notação de crédito degradada. Este facto encareceria o custo do seu financiamento em detrimento portanto da sua situação financeira.
Também seria o caso dos Correios ou da Caisse des Dépôts et Consignations (CDC), um poderoso apoio financeiro das políticas públicas (habitação, renovação urbana, etc.) e, no contexto de crise, é uma peça central nas operações de resgate de instituições em dificuldades.
A perda do AAA da CDC é, pelo menos atribuída, num momento bem inconveniente para a França porque esta é uma instituição que deve organizar o desmantelamento de Dexia – o principal banco no financiamento local, salvo da falência pela Bélgica e pela França - e, ao mesmo tempo, resgatar a seguradora mutualista Groupama, ajudando a liquidar os seus investimentos imobiliários! As empresas cotadas em Bolsa, de que o Estado é directamente accionista, serão também prejudicadas pela perda dos AAA : EDF, Aeroportos de Paris, GDF Suez, Safran, Thales, Air France KLM, EADS, France Telecom, Renault, CNP. As suas notações poderão baixar e o custo dos seus CDS, pode assim disparar.
Por seu lado, as colectividades territoriais, de que o Estado é o fiador, in fine, que para algumas se poderem financiar nos mercados (como a região de Ile-de-France), também irão ser atingidas com esta perda dos AAA. E que dizer dos bancos, de quem os investidores consideram, desde a crise financeira de 2008 e da falência do banco de negócios americano Lehman Brothers, que os bancos beneficiam do apoio de um Estado "credor em última instância".
No plano internacional, são de prever outros efeitos para os organismos de que a França constitui um grande apoio. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) também perderia o seu AAA, como o deixa sugerir Standard and Poors, na segunda-feira, 5 de Dezembro, ao anunciar colocar sob perspectiva negativa o seu AAA. Mas talvez também o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) e o Banco Europeu de Investimento, cujas emissões são garantidas pelos Estados possam ser igualmente atingidos.
Não ceder ao pânico
Falta medir os efeitos reais destas baixas de notação sobre as condições em que se financiam todas estas entidades. "É muito difícil de medir, diz-nos o economista Patrick Artus, pois todas as empresas relacionadas com o Estado vão ser atingidas." A economia será toda ela afectada. "Mas a forma como os mercados vêem as empresas conta tanto como as notações". "A questão, diz Artus, é se a perda dos AAA já foi tomada em conta pelos mercados". Uma análise caso a caso é pois o que se impõe.
Para Nicolas Véron, do centro Bruegel, não se deve ceder ao pânico. " A perda dos AAA da França não quer dizer que não haverá mais AAA em França , diz-nos ele. Os efeitos induzidos não mecânicos. Nos Estados Unidos, cuja notação foi degradada por Standard & Poor's em Agosto [de AAA para AA+], as empresas que dispõem de rendimentos internacionais robustos, continuam a serem notadas com os AAA." "É verdade, reafirma Laurence Boone dirigente do Bank of America Merrill Lynch, o impacto nos Estados Unidos foi bem menos forte do que o que se esperava, mas a inquietação permanece "Se o FEEF fosse degradado diversos grandes países da zona euro seriam degradados e o sistema d e gestão da crise não valeria praticamente nada, afirma.
Anne Michel
Hoje, "Um mundo desigual".
Tudo leva a pensar que a política económica do governo actual não se manterá até Maio: esta será arrastada pelo rápido agravamento da crise económica.
Eis-nos pois no centro do ciclone e numa conjunção de duas crises:
-uma crise estrutural de desemprego, devido, desde há anos, ao encerramentos de fábricas e de deslocalizações saídas da invasão de produtos asiáticos nos nossos mercados, crise não tratada pelo G-20.
Neste contexto, o discurso "produzir francês" ou "comprar francês" não é mais do que puro encantamento.
-uma crise conjuntural da dívida soberana que poderia ter sido resolvida no início do alerta grega, o que não foi e que, portanto, se transformou numa segunda crise estrutural, financeira. Esta propagou-se para a economia real pela redução do apoio orçamental, pelo aumento das taxas de juro, pelo credito crunch ("redução drástica do crédito") sobre as pequenas e médias empresas.
A nível mundial, acabamos de entrar no círculo vicioso fatal: as exportações chinesas estão a cair, embora eles continuem a aumentar a sua quota de mercado, porque este mercado global diminuiu: perdemos nossos empregos e os chineses perdem os seus clientes. Estamos na situação perfeita de "perdedor-perdedor".
A França, encontra-se assim, neste final do ano, numa espiral muito perigosa: enquanto o desemprego aumentou, enfraqueceu o poder de compra, o consumo e o crescimento tendo como pano de fundo o défice externo agravado, o crescimento zero ou mesmo negativo que daí resulta aumenta o défice do orçamento ao mesmo tempo em que nós iremos pedir emprestado a taxas mais elevadas mostrando que, de facto, perdemos a nossa classificação AAA.
A economia francesa não sobreviverá a este círculo vicioso sem reformas drásticas no primeiro trimestre de 2012. "Não há nenhum terceiro plano de rigor", disse o governo? É claro. Redução e maquilhagem não podem continuar a ser as tetas da França. É necessário, como hoje se diz, "mudar de software".
François Fillon tem eminentes qualidades pessoais, mas não tem a menor margem de manobra política, a quatro meses das eleições presidenciais, para fazer face aos problemas reais: as despesas do Estado, as 35 horas, o imposto sobre a riqueza e todos os nichos de impostos, a partilha de despesas de saúde entre as famílias e o Estado, o controle de despesas das comunidades territoriais, o IVA, a redução do nosso défice externo, para citar apenas as áreas onde dezenas de milhares de milhões de euros estão em jogo.
Ele também não tem a autonomia do Presidente da República, que não se soube rodear, como Barack Obama, de um Conselho de conselheiros económicos (Agência de consultores económicos) em vez dos inspectores das finanças tendo como único horizonte um AAA que nem sequer souberam defender.
Daí uma G20 falhada (quem pode citar uma só decisão que seja?), e não apenas por causa do referendo de Georges Papandreou que semeou a bagunça. Nestas condições, não serve de nada "jogar a contra- relógio", pensando que tudo isto se irá bem realizar até Maio. Não, isto não poderá ser, é necessário agir ou reagir, antes.
Então eu penso que o Presidente será bem inspirado - ou mesmo forçado – a uma mudança de governo no início do ano e, enquanto ele irá centrar na sua campanha presidencial, a deixar um novo primeiro-ministro "fazer a limpeza e colocar em ordem" a economia francesa. Isto implica que deve ser alguém de grande competência económica e de credibilidade internacional reconhecida e alguém que não tenha que se preocupar com datas e cadernos eleitorais e seja capaz de pôr ordem na desordem que está o país.
Esta foi a escolha feita na Itália e na Grécia, não, como já foi dito, sob a pressão dos mercados, mas sim sob a pressão dos parceiros da União Europeia e dos países da zona do euro. Nós não pode imaginar a Chanceler Angela Merkel, a aceitar que a França não mantenha os seus compromissos em reduzir o défice orçamental de 2011 ou do primeiro semestre de 2012.
Naturalmente, é muito frustrante constatar a necessidade de recorrer a "técnicos", e que a democracia é incapaz de segregar e de apoiar os dirigentes políticos que têm a coragem de tomar decisões impopulares, mas necessárias. Se a direita e a esquerda tivessem adormecido menos os nossos concidadãos com os seus discursos calmantes, não estaríamos agora nesta situação a descobrir que a necessidade faz a lei.
Este retrato de dirigente corajoso, competente e independente, era o de Raymond Barre, mas este já cá não está.
Isso pode ser o retrato actual de personalidades que, em França ou em funções internacionais, demonstraram a sua capacidade de decisão: Michel Camdessus, Jean-Claude Trichet, Pascal Lamy, Claude Bébéar, entre outros, têm esse perfil. Colocar um deles à barra, não é uma imagem de navegador, é uma referência de estilo à "Barre".
Lionel Stoléru
Economista, antigo secretário de Estado.
Há poucos dias, comparavam-se aqui as situações de Myriam Zaluar, filha de um exilado anti-fascista, docente, doutoranda e investigadora (não efectiva) da Universidade do Minho, com notáveis habilitações académicas e profissionais, dois filhos e um rendimento anual de 4000 €, a propósito de uma sua carta ao PM, e de Assunção Esteves, militante do PSD e actual Presidente da AR, jurista com uma carreira exclusivamente política (foi “juíza” do Tribunal Constitucional por designação do seu partido), cujo rendimento é 36 vezes superior.
Comentários para quê? A Dra. Assunção e seus correligionários são "artistas portugueses" e usam... não a Pasta Medicinal Couto do velhinho anúncio, com cadeira nos dentes, mas de todos os expedientes em que possam ferrar o dente (como o artista da cadeira...) p’ra fazerem p'la vidinha, qu’é p'ra isso qu’eles estão neste Mundo (mesmo os que que fingem que acreditam noutro, missa dominical e tal…) e se dedicaram à actividade política, da boa, da neo-liberal genuína, com marca na ourela. Como é o caso da Dra. Esteves, tão considerada, tão incensada, tão sábia e boazinha e competentezinha — um… ixpanto! — tão, tão, ai! mas tão... que deve estar, coitadinha, como todos os colegas das bancadas do lado direito da AR e o Sr. PM mai-los seus ministros e secretários d'Estado e assessores e secretárias e chefes-de-gabinete, tão dedicados à "causa" (qual, é que eu não sei...), a fazer enormes sacrifícios, todas estas criaturas devem estar a sacrificar-se imenso (já pensei em levar-lhes um cabazinho com vitualhas p'ra eles e a família comerem, coitadinhos, o PM vê-se mesmo que passa fome, o Gaspar, então, nem se fala, nem forças tem p’ra falar, nem p’ra tratar da doença pulmonar crónica de que deve sofrer, o Álvaro das economias parece mais cheiinho, mas o qu'ele está é inchado, d'alguma doença má, qu’esconde p'ra poder continuar ao serviço de todos nós e da "taralhóika", pobrezinho, qu'inda falece praí, para nossa satisfaç... p'ra nosso prefundo desgosto, quer dizer! Aquilo, neste governo, é pior que no antigo Casal Ventoso, onde, diz-se, se passava munta fominha, qu'aquela gente era munto carenciada, só se safavam os que traficavam drog... bem, mas isto não vem nada a propósito dos senhores ministros, nem dos seus tráficos, que acho que são duma droga chamada "influências", muito boa prá tuberculose.
Essa irresponsável da carta é uma peste, uuh!, primeiro porque quis ser professora e investigadora — duas actividades muito suspeitas — e, depois porque nem deve ter tido a esperteza de s'inscrever num dos partidos do "centrão"!
Pois! As pessoas não têm cuidado — estudam, em vez de se treinarem no conto-do-vigário, querem ensinar coisas a criancinhas e jovens que não servem de nada aos ditos cujos, pois não incluem disciplinas de assalto por escalamento e outras matérias úteis, se calhar nem lhes explicam cuqué fundamental prá carreira é o cartão dum partido civilizado, bem comportado, obediente e submisso às "taralhóikas" e directivas da UE, paridas com tanto esforço e suor, em actividades nocturnas, pela firma franco-alemã "Sarkel" — e é por estas e por outras que os últimos governos se atiraram aos professores que nem gato a bofe, funcionários públicos ‘inda por cima, puhhh! E, agora, ainda tem que vir o PM sugerir-lhes que emigrem, pois no ano passado só emigraram 120 mil lusos e assim não pode ser! Cum’é que se vai governar tanta gente qu’inda cá está e que resmunga e faz greve (ui!) só porque lhe tiram metade do subsídio (o que val’é que, pró ano, é todo!), lhe carregam com mais uns impostozitos, mais umas taxas moderadoras qu’amarinham pró dobro p’ra não terem a mania qu’estão doentes, aliás é preciso “tirar as gorduras” (= médicos+enfermeiros+auxiliares+…) do rai’ dos hospitais e mais umas coisinhas assim — ó Relvas e num t’esqueças de privatizar o canal, que sempre são menos uns p’ra reportar coisas feias e gente descontente — que nunca ‘tão sast’feitos, porr…!
É que s’isto continua e ainda sobra gente p’ra se manifestar e levar porrada duns polícias à paisana, p’ra ver se s’entusiasmam a emigrar mais depressa, se o PM inté tem de viajar em turística p’ra fingir que poupa e o da vespa já nem pode ter um carro de luxo, ond´é qu’isto vai parar?! É que os marqueteiros já nem sabem o qu’inventar p’ra levar o pessoal ao engano!
E se essa professora-investigadora (ele há gentinha que desperdiça os neurónios com cada coisa, que nem dá dinheiro!) pensa qu’incomoda o PM e seu acólitos, desengane-se: a vergonha, a honradez ou a dignidade são desconhecidas lá no sítio – e s’alguém suspeita de que existem, é expulso!
Quanto ao que eu penso da actual situação político-social e da catástrofe em que, fatalmente, irá desembocar, se esta cambada (nacional, uniónicó-europeia, efeémica e taralhóika não tiver um ataque de inteligência e perceber que, quando isto chegar ao nível da miséria e descontrolo total, também os seus baços membros serão rucidados, só faltando saber por que tipo de monstro…), já o disse e repeti. A única diferença é que já vai havendo uns senhores importantes, dos que vão à televisão e escrevem para os jornais, que também se vão apercebendo disto e lançando uns avisos.
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