Terça-feira, 15 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - VI

 

(continuação)

 

Emprego no sector dos não negociáveis


Os grandes sectores dentro do agrupamento dos não negociáveis são o governo, a saúde, as vendas a retalho, os serviços de alojamento/alimentação (i.e., hotéis, restaurantes e hotelaria) e a construção (ver Figura 6). Em 2008, estas actividades representavam cerca de 73,5 milhões de empregos, cerca de 64% do emprego total que se verificava  no sector dos bens e serviços não comercializáveis e aproximadamente cerca de 50 por cento de toda a economia. Em conjunto, os 5 principais sectores dos não  comercializáveis contribuíram com 65 por cento da variação  total de postos de trabalho a partir de 1990 para 2008.


O Governo, em todos os níveis, é o maior empregador do sector dos não comercializáveis e representa um pouco mais de 22,5 milhões de empregos em 2008. Os cuidados de saúde é claramente o segundo sector mais importante do grupo dos não negociáveis tendo no fim do período atingido um  total de 16,3 milhões. Em termos de acréscimos, o crescimento do emprego nos  cuidados de saúde foi  de 6,3 milhões de empregos e está portanto no  topo da lista quanto ao volume de emprego adicional criado,  enquanto que o total criado pelo  lugar governo o situa em segundo pois o seu acréscimo em volume de empregos foi  de 4,1 milhões. Estes dois acréscimos juntos valem quase 40% do emprego total líquido criado adicionalmente na economia desde 1990. Para uma discussão posterior, notemos que o emprego criado a nível governamental não é principalmente impulsionado pelas forças de mercado, e os cuidados de saúde é algo de relativamente híbrido. As forças de mercado trabalham na área da saúde, mas com grandes assimetrias ao nível da informação e com uma  substancial participação pública no lado da procura e na regulação. Tanto no governo como no sector dos cuidados de saúde, há pelo menos algumas questões a colocar sobre a sua capacidade futura em ser o principal impulsionador do crescimento do emprego.

 

As Figuras 6 e Figura 7 mostram as tendências no sector dos bens e serviços não comercializáveis. Elas incluem componentes não comercializáveis de sectores como as finanças e  os seguros, mesmo que a maioria destas indústrias sejam  negociáveis. Para garantir que os dados são vistos no seu contexto, as indústrias que não são predominantemente ou não são totalmente comercializáveis incluem  um asterisco. Não temos até este momento forma de isolar o crescimento do emprego ou o seu declínio em subcomponentes negociáveis e não negociáveis de um sector ou indústria que é uma mistura dos dois grandes agregados em que estamos agora a analisar a economia.

 

Podemos, portanto, simplesmente ligar o aumento ou diminuição do emprego (ou depois, o do  valor acrescentado) ao grande agregado dos  bens e serviços negociáveis ou  não negociáveis com base na proporção da  indústria que é estimada estar em cada um dos dois agregados.6 Isto é improvável ser  preciso, pelo menos para as situações de declínio ; os declínios são mais prováveis de ocorrer no subcomponente dos negociáveis. As reduções na parte dos não comercializáveis, portanto, não devem ser tomadas muito a sério. Felizmente, elas são relativamente pequenas e não afectam substancialmente o quadro geral.

 

 

 

 

 

Para facilitar a visualização destas tendências, as indústrias mais pequenas do agrupamento dos bens e serviços não comercializáveis têm uma escala diferente e estão incluídas na Figura 7. Mais uma vez, o leitor poderá notar que certas categorias — como Industria Transformadora III que na sua maior parte são mercadorias negociadas internacionalmente e são mercadorias intensivas em  capital tais como a maquinaria pesada — incluem também  um componente não negociável .

 

 

Figure 7. Nontradable Industry Jobs, 1990–2008 (Minors)8

Source: Authors’

 

 

(continua)



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Sábado, 12 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - V

 

(Continuação)

 

 

A estrutura da economia americana está em evolução.

 

A estrutura da economia americana está a evoluir. A tecnologia é uma das forças motrizes, tanto no mercado interno como  na integração da economia americana com a economia mundial. Uma economia, não funciona no  vácuo. Numa economia global relativamente aberta, as mudanças estruturais nas economias emergentes podem levar a que estas forcem também a  mudanças estruturais  nos países avançados. Quando um certo tipo de actividade fica numa situação de declínio na  nossa economia, normalmente esta actividade  não desaparece pura e simplesmente  da economia global, mas em vez disso pode significar, normalmente é assim, que se está a deslocalizar para outro país. Estas poderosas forças de mercado operam directamente sobre o sector de bens e serviços negociáveis internacionalmente e, indirectamente, na produção de bens e serviços não negociados internacionalmente através dos salários e dos seus efeitos nos preços e da deslocação de oportunidades de emprego no mercado de trabalho.

 

Com o objectivo de dividir a economia em dois grandes agregados, em duas partes,  em actividades de produção de bens e serviços negociados e em  não negociados internacionalmente nós utilizámos  a metodologia desenvolvida por Bradford Jensen e Lori Kletzer. A metodologia destes dois autores determina que neste caso a colocação de uma indústria, de um ramo, de um sector numa ou noutra parte  é feita com base na sua concentração geográfica — quanto mais concentrada é a indústria, maior é a sua possibilidade de comercialização (e vice-versa). Por exemplo, tomemos o comércio a retalho: a sua presença geográfica omnipresente implica que se trata de uma actividade largamente não comercializável internacionalmente. O mesmo poderia ser dito para a limpeza a seco, para a construção e para a maioria dos cuidados de saúde. Por outro lado, o sector mineiro tende a ser geograficamente concentrado, o que aponta para a possibilidade de comercialização internacional.

 

A classificação de Jensen e de Kletzer reflecte com mais precisão o facto dos  bens negociáveis internamente do que o facto de serem negociáveis internacionalmente. Por exemplo, quanto aos serviços jurídicos, a possibilidade de comercialização no mercado interno e a possibilidade de comercialização internacional divergem. Nós adaptámos e ajustámos as suas classificações por principalmente olharmos para a estimativa de possibilidade de comercialização de cada sector e de  usarmos  simultaneamente  o senso comum e os dados das  exportações e importações para ver se as suas proporções reflectem a comercialização internacional das indústrias. Geralmente, as divisões parecem correctas, certamente com algumas indústrias a estarem bastante próximas da  imagem dada   pela evolução estrutural  geral,  sinal que não seria enganosa. Muitas indústrias são totalmente negociáveis ou não negociáveis internacionalmente, embora na maioria dos sectores exista um conjunto crescente de serviços fornecidos que são em princípio serviços negociáveis internacionalmente.


 

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - IV

 

(Continuação)

 

 

Para ilustrar o que é uma cadeia de valor acrescentado ou como é que esta pode ser pensada, imagine-se  que estamos a planear lançar um novo produto electrónico. Do projecto inicial até à venda a retalho há uma infinidade de etapas que devem ser tomadas e em que cada um delas pode ser dividida em outras pequenas etapas e processos (ver figura 3). Em suma, estas etapas, estes processos, formam a cadeia de valor acrescentado. O valor acrescentado para o produto final seria então o preço de venda no retalhista (o total, com as suas margens de lucros) menos todos os custos que se tiveram de suportar para obter o referido produto e   para o levar até às mãos dos consumidores, com exclusão, de novo, dos custos em capital e trabalho.

 

Figura 3. Cadeia de valor acrescentado para um produto electrónico imaginário

 

 

Os detalhes e número de etapas variam entre as diferentes indústrias, entre os diferentes sectores. Quando as coisas são vistas desta forma, como sendo a transformação, no sentido da produção de uma dada mercadoria, não se trata de uma só  indústria. Há um subconjunto de etapas ou passos na cadeia de  valor acrescentado, e frequentemente,  para produtos complexos como automóveis, há sempre mais do que uma etapa, mais do que um passo. 

   

As cadeias de valor acrescentado complexas normalmente utilizam tanto bens e serviços transaccionáveis ​​como os bens e serviços não  transaccionáveis na qualidade de serem  os seus inputs, os bens e serviços necessários para a produção do produto final  ​​ Assim como os dados de uma qualquer dada  indústria não capturam   essas complexidades, adicionalmente  os  dados comerciais também têm muitas falhas.  Um iPad enviado da Foxconn na China tem  de valor acrescentado as componentes  nele  instaladas com origem os Estados Unidos e de vários países da Ásia. Sem uma grande quantidade de informações suplementares, é impossível fazer o registo, partindo do país consumidor até  á origem de criação do produto  e  encontrar os locais de criação de valor acrescentado para um qualquer dado produto. Além disso, as cadeias de valor acrescentado para os produtos finais podem- se sobrepor. Algumas partes da cadeia são específicas para um particular  produto em análise (montagem, por exemplo), enquanto que outras podem  ser partilhadas  (componentes ou logística ou funções de contabilidade e controle de custos). A economia global não se divide de forma nítida  em diferentes cadeias  de valor acrescentado totalmente separadas com uma  para cada sector ou classe de produtos finais.

 

Parte do sector de bens e serviços  transaccionáveis  é um conjunto de funções que envolvem o processamento de informações e serviços que lhes estão  relacionados. Estes sectores têm sido objecto de numerosos estudos e de muita atenção. As inovações tecnológicas importantes têm permitido importantes economias de trabalho no processamento de informações e na automatizações  das transacções. Além disso, algumas destas funções foram externalizadas. Parece tornar-se então evidente que os dados  parecem estar mais conformes com a conclusão que grande parte da redução do emprego que actualmente se tem verificado  terá  sido mais o resultado da aplicação de tecnologias labour-saving, tecnologias economizadoras do factor trabalho,  do que da atitude de se andar a externalizar. No entanto, alguns analistas confundem  estes sectores, com o sector dos bens e serviços negociáveis internacionalmente como um todo  e concluem  que a globalização tem tido impactos relativamente pequenos até agora. A premissa está errada e a conclusão falsa. O processamento de informações e os serviços relacionados representam uma pequena parte do crescimento do comércio internacional. Mas isto é interessante e relativamente novo, e os estudos feitos são pois úteis. Mas não se podem tirar conclusões gerais acerca do impacto da integração dos mercados globais a partir de análises feitas na base de uma relativamente pequena parte. Como veremos rapidamente, o emprego está em declínio na indústria transformadora  e está a aumentar no sector financeiro. Ambos os grupos têm estado a externalizar o seu sector de serviços de  informação. Mas  concluir que o declínio do emprego industrial pode ser atribuído a um impacto extraordinariamente grande sobre estes sectores devido à externalização dos processos de tratamento das informações destes  mesmos sectores ou pelo facto de que a automação das  transacções   seja labour-saving  é simplesmente uma conclusão  incorrecta.

 

 

Em forma de resumo, a melhor maneira para poder  pensar sobre os sectores de bens e serviços da economia em termos de serem negociáveis ou não negociáveis internacionalmente é definir o primeiro subconjunto de actividades, de bens e serviços,  como o subconjunto de  actividades, de  bens e serviços, que podem  fazer parte de cadeias globais de produção . A este nível, temos os dados sobre os sectores. Então, como uma primeira aproximação, a classificação em bens e serviços (ou seja, por sectores) ​​será pois feita em função da proporção como transaccionáveis ​​e não transaccionáveis que depende aproximadamente da proporção dos bens e serviços  transaccionáveis ​​na cadeia de valor acrescentado (usando o valor acrescentado como medida).

 

(continua)



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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - III

 

(Continuação)

 

 

 

Depois de trinta anos com uma muito forte taxa de crescimento, a estrutura da economia da China está em clara transformação e deslocação, como anteriormente o estiveram antes dela a Coreia do Sul e o Japão.  

 

FIGURA 1

 

Reafectação  das exportações  em produtos manufacturados da China entre os maiores sectores com a agregação feita a dois dígitos 

 

 

A China, com um rendimento per capita de cerca de 3.800 dólares está agora a entrar no que são chamados países de rendimento médio em transição. Esta fase de desenvolvimento é muitas vezes chamada de armadilha. É uma das transições mais complexas e arriscadas que já ocorreram na longa jornada, uma jornada de várias décadas,  de  países de baixos níveis de rendimento para os níveis  de países  avanaçados.  A experiência que nós temos da realidade e da história do pós-guerra sugere-nos  que a maioria dos países que entram para o grupo de rendimentos médios em transição  reduziu-se  depois significativamente ou ficaram  até em situações em que estabilizaram.

 

No conjunto dos casos de alto crescimento sustentado no período do pós-guerra (primeiro 13 países, depois 15, com a entrada para este grupo da Índia e Vietname), apenas cinco mantiveram as suas altas no quadro da transição dos  países  de  rendimentos médios  e continuaram no sentido dos países de elevados rendimentos  de 20.000 USD per capita ou  mesmo superior (ver figura 2). Essas transições extremamente rápidas ocorreram no Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura.

 

Figura 2. PIB real per capita e a Transição na zona de rendimento médios

 

Para a China e para outros países de rendimento médio, então, a manutenção do crescimento rápido não é automática.

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - II

 

(Continuação)

 

Introdução

 

No ambiente pós-crise, as questões de sustentabilidade na trajectória da economia americana começaram a ser levantadas. Entre os problemas que eram sublinhados estava um grande défice na conta corrente, estava a escassez de poupança interna, estava o excesso de alavancagem e de endividamento no sectores financeiros e nas famílias, e estava igualmente a estagnação dos rendimentos ao nível da classe média. No entanto, o que nessa análise estava claramente a faltar era uma análise detalhada quanto às mudanças estruturais na economia sobre o longo prazo e era uma análise sobre a maneira pela qual o crescimento económico das economias emergentes está a afectar a estrutura de emprego na indústria e a do valor acrescentado por trabalhador na economia americana. O presente trabalho tenta preencher essa lacuna, oferecendo um novo olhar sobre a evolução da estrutura económica dos EUA ao longo dos últimos vinte anos e tenta explorar as implicações de tais mudanças.


A economia americana não existe num sistema de vacuum; a evolução de algumas das suas  mais marcantes características está  ligada à evolução das características de longo prazo dos países em desenvolvimento  e sobretudo está ligada à evolução das economias emergentes em especial às  mais importantes delas.

 

A primeira secção do presente trabalho descreve a evolução  da estrutura da economia global e oferece uma perspectiva de  como as economias emergentes aumentaram a sua influência sobre a economia americana desde os anos 50.

 

A próxima secção descreve as características da economia vista esta em dois grandes agregados da sua estrutura produtiva, um agregado, uma parte, a do conjunto   dos  bens e serviços  negociáveis internacionalmente  ​ e como segunda parte,  como segundo agregado, o conjunto  dos bens e serviços não negociáveis internacionalmente. ​ A partir desta divisão pretende-se olhar  para as tendências do emprego, do valor acrescentado, do valor acrescentado  por trabalhador  nas indústrias de cada um destes dois grandes agregados  em que se dividiu a economia... O artigo conclui com uma análise dos desafios estruturais e sobre as questões sobre o emprego e tenta de forma diria preliminar fazer uma exploração sobre possíveis respostas políticas.

 

O corpo principal do trabalho é a análise detalhada e que se quer intensiva a partir dos dados da economia americana sobre as mudanças no emprego e no valor acrescentado das diferentes indústrias dos EUA. Os leitores interessados ​​basicamente sobre as principais tendências e sobre as suas conclusões poderão ler o sumário executivo e a evolução da estrutura da economia global, e em seguida as últimas quatro secções, a partir da página XXXXX, onde se discute as respostas politicas que podem ajudar a mudar a actual trajectória

 

Na mudança da estrutura da economia global

 

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, com a economia global tem-se vindo, por lado,  a aumentar o peso do comércio externo face à sua produção interna, o PIB, e por outro lado, a aumentar a sua abertura financeira, o que foi  possibilitado em parte pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo  Banco Mundial e pelo Acordo Geral de  Tarifas e Comércio (GATT), este último transformado agora em  Organização Mundial do Comércio (OMC). Em paralelo, o colonialismo, com os seus inerentes constrangimentos sobre o desenvolvimento económico e as suas assimetrias internas, falhou. Apesar de duzentos anos atrás dos países desenvolvidos, cuja aceleração em termos de crescimento se iniciou no século dezoito com a revolução industrial inglesa, os países em desenvolvimento em todo o mundo iniciaram um processo secular de modernização. Hoje estamos já percorremos um pouco mais de metade do caminho, ao longo deste século.


Como as barreiras formais ao comércio e aos fluxos de capital diminuíram, houve uma série de outras tendências a acelerarem o crescimento assim como as mudanças estruturais nas economias em desenvolvimento. Nisto incluíam-se as inovações tecnológicas nos transportes e nas comunicações, a inovação na gestão em empresas multinacionais, os processos de aprendizagem sobre como fazer negócios em vários e diversificados ambientes, e a integração de cadeias produtivas multinacionais.


Graças às tecnologia da informação, muitos dos serviços que anteriormente não eram negociáveis internacionalmente como por exemplo as actividades que vão desde os serviços de radiologia até às contabilidades e à manutenção das tecnologias da informação passaram a serem actividades cujas produções se tornaram agora bens e serviços negociáveis internacionalmente.

 

As grandes economias emergentes, com diferentes pontos de partida (e muitas falsas partidas), têm mantido altas taxas de crescimento, muitas vezes superior a 7 por cento ao ano. Depois de várias décadas de crescimento em alta velocidade, essas economias tornaram-se mais ricas e economicamente maiores. Um ingrediente essencial é que neste crescimento haja mudanças estruturais. Com o aumento da sua dimensão, as transformações das estruturas dos mercados emergentes tenham cada vez mais e maiores impactos sobre as estruturas das economias dos países avançados. Uma economia emergente em crescimento desloca-se na sua cadeia produtiva para produtos de mais elevado valor acrescentado nas cadeias internacionais de produção, tal como o capital físico, o capital humano e o capital institucional aprofunda as economias emergentes levando-as a competir com as economias desenvolvidas.

  

No  inicio  do período pós-guerra, com as sucessivas rondas de negociações  do GATT removeram-se  restrições às exportações da produtos manufacturados , os países em desenvolvimento, cujas exportações consistiam até principalmente de recursos naturais e produtos agrícolas, desenvolveram uma base industrial em produtos da indústria transformadora  intensivos em mão-de-obra e de baixo valor acrescentado . Nesta sua base industrial a indústrias têxtil e a do vestuário eram dominantes. Outras indústrias foram sendo sucessivamente acrescentadas à medida que se progredia no tempo. A lista é quase que interminável: malas de viagem, louças, coudelarias, brinquedos, produtos pessoais, e assim sucessivamente.


Mas não eram apenas produtos acabados que estavam a ser  adicionados às carteiras de activos das economias emergentes. As partes das cadeias internacionais de produção fortemente utilizadoras em trabalho não especializado também se estavam a  deslocar  para as economias emergentes tanto quanto as  empresas multinacionais aprenderam a integrar de forma eficiente operações de produção geograficamente dispersas. No sector de produtos electroeletrónicos, o processo de montagem fortemente intensivo em trabalho não especializado é,  diríamos,  um produto  quase que naturalmente adaptado aos  países de baixos rendimentos. Semicondutores, placas de circuitos impressos e outros componentes são projectados e fabricados em lugares diferentes, ou seja, em países de médio e altos rendimentos tais como a  Coreia do Sul e Japão. A concepção e elaboração dos produtos das grandes marcas, o marketing, e investigação tendem a ser feitas nos países ricos. Cada componente da cadeia internacional produtiva tem sempre a sua mais eficiente localização de modo a reduzir ao máximo o custo do produto final.


A forma que assume a cadeia global de produção está  constantemente em  mudança. Países entram e integram-se  na economia global em momentos do tempo diferentes e expandem-se também a taxas diferentes. As economias que anteriormente apresentavam altas taxas de crescimento, as economias do Japão, da Coreia do Sul e Taiwan - inicialmente eram países exportadores de produtos intensivos em trabalho e foram-se gradualmente movendo e subindo na cadeia de produção global e então foram-se deslocando para produtos mais intensivos em capital como automóveis e motocicletas e depois para actividades intensivas em capital humano, como o design e o desenvolvimento tecnológico. As actividades intensivas em trabalho, foram as actividades que estes primeiros mercados de alto crescimento deixaram partir quando os seus custos do  trabalho aumentaram e estas indústrias deslocalizaram-se então para os países mais recentemente chegados  à economia global   e estes são predominantemente  os países asiáticos, como a China e o Vietname...


A transformação da estrutura global não é estática, nem cíclica, nem auto reversível. Esta é bem melhor descrita como sendo um dia que só pode ser vivido nesse mesmo  dia.. Os países que chegaram tardiamente à industrialização tendem a seguir a mesma trajectória que aqueles que os antecederam. 

 

(Continua)



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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - I

 

Apresentação

 

Este trabalho examina a evolução da estrutura da economia americana, especificamente, as tendências em termos de valores de  emprego, de valor acrescentado por sector   e de valor acrescentado per capita  de 1990 a 2008. Estas tendências estão estreitamente ligadas com as tendências complementares em dimensão e em estrutura  da economia global, particularmente das principais economias emergentes.


Empregando séries temporais de dados da base de dados  do Bureau of Labor Statistics e Bureau of Economic Analysis, a economia americana e os seus sectores é dividida em duas partes, uma parte, em que se colocam os sectores ou ramos ou  indústrias norte-americanas que  produzem os  bens e serviços negociáveis internacionalmente e uma outra parte em que se colocam os sectores, ramos ou indústrias que estão a produzir bens e serviços não negociáveis internacionalmente. Procura-se que sejam analisadas as tendências, em termos de emprego e em termos de valor acrescentado, quer ao nível dos ramos quer a nível mais agregado ainda. O valor acrescentado em toda a economia cresceu, mas quase todo o acréscimo de emprego, que no total foi de 27,3 milhões de empregos, deu-se no sector de bens e serviços não negociáveis internacionalmente. Neste caso, nesta parte da economia, o sector governamental e o sector de cuidados de  saúde são os maiores empregadores e foram neles que se verificaram os maiores acréscimos, (um adicional de 10,4 milhões de postos de trabalho) ao longo das  duas últimas  décadas. Há perguntas óbvias sobre se estas tendências se podem manter  desta forma ou não, pois  sem uma rápida criação de empregos no sector de bens não comercializáveis, os Estados Unidos teriam já enfrentado  um enormíssimo  desafio em termos de emprego.


As tendências em termos de valor acrescentado por trabalhador são consistentes com os movimentos adversos na distribuição de rendimentos dos EUA nos últimos vinte anos, em particular o fraco crescimento do rendimento na faixa média de rendimentos. A parte da economia caracterizada pelos  sectores  dos bens transaccionáveis  está a deslocar a sua cadeia de valor acrescentado  com os seus elos de valor acrescentado na média ou inferior  a serem deslocalizados para o exterior,  especialmente para os mercados emergentes em rápido crescimento. Estes últimos países estão eles mesmos, e rapidamente, a subirem nas cadeias de valor acrescentado pelo que os empregos de remunerações mais elevadas podem deixar também os Estados Unidos, seguindo o padrão de migração dos empregos de salários mais baixos. A evolução da economia americana permite considerar que se trata da existência de um grande desafio quanto às suas estruturas de emprego de longo prazo relativamente à quantidade e à qualidade das oportunidades de emprego nos Estados Unidos. Um conjunto inter-relacionado de problemas está ligado às questões da repartição do rendimento; quase todos os acréscimos de emprego ocorreram no sector de bens não transaccionáveis, em que o crescimento do valor acrescentado por trabalhador tem sido muito mais baixo. Uma vez que este valor está fortemente correlacionado com o rendimento, haverá um longo caminho para explicar a estagnação dos salários entre largos  segmentos da força de trabalho americana.

 

 

Síntese

 

1. O crescimento do emprego na economia dos EUA entre 1990 e 2008 foi substancial, na ordem dos 27.3 milhões de empregos quando em 1990 havia 121.9 milhões de trabalhadores.

 

2. Virtualmente todos os acréscimos de emprego (97,7 por cento) resultam da criação de postos de trabalho na parte da economia dos bens e serviços não comercializáveis. Isso ocorreu apesar da dramática utilização das tecnologia economizadores em trabalho, labour-saving, no processamento da informação transversal a todos os sectores da economia.


 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

10. O sector foltovoltaico: a oferta é o dobro da procura

 

Entrevista a Paolo Frankl," da Agência Internacional da Energia

 

 

 

 

É de novo os ventos do desespero que se abatem  de novo sobre a indústria solar europeia: o fabricante alemão de células fotovoltaicas Q-Cells, líder no seu sector de na Alemanha, anunciou que apresentaria na terça-feira, 3 de Abril o seu pedido de declaração de falência. Esta falência é parte de uma série negra no mercado de energia fotovoltaica na Alemanha, mas também na Europa em geral. Na semana passada, foi o francês Evasol que estava à beira da falência na sequência de desgraças da emblemática jóia da coroa do sector a empresa antiga Photowatt.


Este marasmo no entanto não corresponde à imagem da indústria, tanto o crescimento se mostra forte na China. Um  último acto a prová-lo: a empresa chinesa Fire Energy, distribuidor de equipamentos fotovoltaicos, deve  adquirir  até ao final do mês uma base militar abandonada de Châteaudun (Eure-et-Loir) para  aí desenvolver um parque industrial, incluindo uma unidade  de montagem de painéis fotovoltaicos e uma fábrica  para a fabricação de LED, de acordo com Les Echos. Paolo Frankl, chefe da divisão de energias renováveis na Agência Internacional de Energia, analisa a  evolução recente do mercado solar.


Por que razão Europeia o solar europeu atravessa uma situação tão má?


R de Paolo Frankl: Esta derrocada europeia - com a situação de falência ou de dificuldade da empresa alemã Q-Cells, Solarhybrid, Solar Millennium, Sólon e dos franceses Evasol e Photowatt é explicada por duas razões que são: a forte concorrência de fabricantes chineses a preços muito mais baixos e a redução dos subsídios nos principais mercados-chave europeus.

 

A situação mudou totalmente em 2007 quando os chineses fizeram a aposta de investir fortemente nessa tecnologia. Ao produzirem em grandes quantidades, estes dramaticamente fizeram aumentar um mercado até então limitado, na medida em que a oferta é agora duas vezes superior à procura: a capacidade de produção atingiu 50 gigawatts (GW) em 2011 para uma capacidade de instalação estimada em 27 GW.. Consequência: este excesso de produção, a baixo custo pelo lado chinês, provocou uma queda dos preços, até 75% em três anos nalguns países. Actualmente, o módulo fotovoltaico [painel solar] vende-se à volta de 1 dólar por watt gerado e o sistema fotovoltaico [módulos, suporte, bateria, cabos, etc.] 2 dólares por watt, contra quase o dobro de há três anos atrás.


No entanto, enquanto que os preços dos equipamentos desciam  drasticamente, os preços de venda  de electricidade não diminuíram na mesma proporção. Houve um desfasamento, portanto: alguns produtores fizeram lucros demasiado onerosos para os consumidores. Com isto criou-se então  uma bolha, com um risco de colapso do mercado, especialmente em 2012 e 2013. Eis porque é que alguns países, como a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha ou a República Checa, reduziram as tarifas  garantidas de compra  aos  produtores de electricidade de origem fotovoltaica. Por exemplo, a Alemanha compra, desde o 1 de Abril a electricidade das  grandes instalações a 16.5 cêntimos  por quilowatt-hora e a 19,5 cêntimos a das  pequenas instalações contra respectivamente 18 e 24 cêntimos  no ano passado.


Como conseguiu a China levar os preços dos painéis fotovoltaicos a uma tão grande descida?


A China investiu maciçamente no sector fotovoltaico, à custa de dezenas de milhares de milhões de euros. Isso permitiu-lhe criar enormes economias de escala e, por conseguinte, reduzir os custos de fabricação. O custo do trabalho, muito baixo também, permitiu-lhe baixar o preço. Finalmente, as empresas chinesas desfrutam de um contexto muito favorável, os bancos do Estado permitem-lhes contrair empréstimos a taxas de juro interessantes, enquanto as autoridades locais vendem-lhes as suas terras a preços muito baixos. Alguns fabricantes europeus e americanos asseguram também que o mercado chinês beneficiou de subvenções estatais irregulares. Isso não está provado.


No final, a China tornou-se o primeiro produtor do mundo de painéis ao fabricar mais de metade dos módulos comercializados no planeta. E nos dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco deles são chineses. A estratégia de Pequim foi, portanto, em grande medida benéfica para as empresas chinesas mas também para os americanos, em menor medida, também. Só os europeus viram a sua pressão aumentar.


À escala planetária  o sector de energia fotovoltaica vai, portanto, bastante bem?

 

Em todos os sectores industriais, houve sempre uma fase de consolidação da indústria, o que significa que ela se torna mais madura. Esta é a situação actualmente da fileira fotovoltaica. Assim, se algumas empresas encontram dificuldades, não acontece oi mesmo para todo o sector. O mercado de facto aumentou exponencialmente nos últimos anos: a capacidade de instalar assim foi estimada em 17 GW em 2010 e 7 GW em 2009, contra 27 GW em 2011.


Além disso, se alguns governos reduziram as suas tarifas de compra de electricidade, nenhum deles diminuiu os seus objectivos em termos de quota das energias renováveis na produção de electricidade. A União Europeia deseja manter o seu objectivo de alcançar os 20% de energia renovável até 2020.


Como pode a Europa relançar o seu mercado?

 

O desafio para a indústria europeia é primeiramente encontrar novos mercados na América do Sul, no norte da África, no Oriente Médio, na Índia ou mesmo nos Estados Unidos e Japão, que têm principalmente uma ponta, um pico, de consumo de electricidade no decorrer do Verão devido os utilização de sistemas de ar condicionado. O recurso solar está agora por toda a parte no mundo: hoje, cinco mercados são maiores do que 1 GW e quinze mercados são superiores a 100 MW no planeta; em 2015, haverá pelo menos quarenta mercados superiores a 100 MW. Os produtores europeus terão de se renovar  e produzir num ambiente menos confortável, com menos subsídios dos respectivos governos.


O mercado europeu, em seguida, pode diferenciar-se através ao seu valor acrescentado, em termos de aplicação dos sistemas fotovoltaicos e de integração nos edifícios. Finalmente, hoje, Europa e os Estados Unidos mantêm uma vantagem sobre a produção de silício multi-cristalino de  que são compostos as  células.

 

Como poderia ser a evolução do sector fotovoltaico nos próximos anos?


É difícil estabelecer previsões na medida em que o mercado está a evoluir muito rapidamente, em função simultaneamente de decisões políticas e de progresso tecnológico. Mas é certo que em três anos, a situação será muito diferente da que vivemos actualmente. A China não deverá aumentar a sua oferta, já muito forte, mas a sua procura, com o desenvolvimento do mercado interno, tem um  enorme potencial.


Passando de  1,5 GW este ano para 10 ou 15 GW até 2015, ela reforçará  a sua  posição dominante de modo considerável  no mercado de energia solar – na condição de que a capacidade instalada seja  compatível com a capacidade eléctrica do país. Ao mesmo tempo, isso poderia permitir deixar de estar a pressionar os Estados Unidos e a Europa, especialmente nos  outros mercados.


Entrevista a Paolo Frankl, Photovoltaïque: "L'offre est aujourd'hui deux fois supérieure à la demande", conduzida por Audrey Garric, Le Monde, | 03.04.2012  


Paolo Frankl, responsável da Divisão Energias Renováveis na Agência Internacional da Energia 



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Sábado, 28 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

9. O fotovoltaico alemão em plena derrota    

 

Cécile Boutelet

 

 

 

É uma hecatombe que atinge a indústria  alemã  do fotovoltaico. A firma Q - cells, outrora  o primeiro fabricante de painéis solares no mundo, ira apresentar o seu pedido de declaração de falência  na  terça-feira, 3 de Abril. Desde há algumas  semanas, a empresa, que perdeu em 2011 quase 850 milhões de euros com um volume de negócios de mil milhões de euros, estava a  tentar  rectificar  as suas contas.


A falência de W-Cells acontece depois da  das empresas Solarhybrid, Solar Millennium, Solon, três outros pesos pesados alemães a indústria alemã do fotovoltaico. No entanto, a procura de  painéis solares nunca foi tão alta na Alemanha.


Mas os industriais estão encurralados entre duas grandes mudanças. Por um lado, a concorrência da China, que produz os painéis a um preço mais baixo e de qualidade equivalente, provocou  uma quebra brutal  dos preços nos últimos anos. Por outro lado, o Governo alemão, pela explosão de instalações, cortou duramente  nos subsídios para a electricidade de origem solar que absorvem, só para esta indústria, cerca de metade do envelope dado por Berlim para as  energia renováveis.


Os fabricantes não foram capazes de reestruturar os seus custos a tempo. "Os industriais  acreditavam que os consumidores estariam dispostos a pagar mais caro pelo “made in Germany”  pensa  Wolfgang Hummel, da Escola Técnica Superior de Berlim. "A indústria solar alemã conheceu  um crescimento extremo nos últimos anos, a bolha  está em vias de estourar," diz Claudia Kemfert, uma perita em energia especializada pelo  Instituto Económico de Berlim, "Penso que vai aí  haver  fusões e aquisições, devem-se esperar ainda mais falências ".


2 200 empregos ameaçados


Mas o investigador não prediz o fim do fotovoltaico alemão: "a procura global para painéis solares irá aumentar, é importante que as empresas sólidas alemãs fortes estejam posicionadas neste mercado." Assim, o grupo Bosch Solar Energy Group continua a investir numa actividade considerada promissora a longo prazo, apesar de uma perda de 500 milhões de euros em 2011. Em meados de Março, a Bosch abriu uma fábrica para a produção de painéis perto de Lyon e planeia abrir outra na Malásia.


Q-Cells espera com a apresentação do seu pedido de declaração de falência , melhorar a sua situação financeira  antes de negociar um acordo com os seus credores. " Q-Cells ainda tem um futuro," quer acreditar Sylke Teichfub, do sindicato IG A.C. A empresa fundada em 1999 foi durante muito n tempo a estrela de TecDAX, o índice alemão de valores tecnológicos. No final de 2007, o seu valor estimado em 8 mil milhões de euros, ela esperava entrar para o DAX, o índice  de referência de Frankfurt.

 

Q-Cells, 2 200 empregos estão ameaçados, mas é toda uma região que olha  com ansiedade a evolução da situação da empresa. Porque Q-Cells forma o núcleo do "Sollar Valley", o vale do sol, uma zona industrial criada numa região da Alemanha sinistrada pela reunificação, que tinha apostado no desenvolvimento do fotovoltaico alemão.


Cécile Boutelet,  Le photovoltaïque allemand en pleine déroute, LE MONDE,  03.04.2012 



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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

8. A fileira solar europeia na tormenta

 

Jean-Pierre Stroobants (Bruxelas)

 

 

A empresa alemã Q-Cells, outrora a n ° 1 mundial em células fotovoltaicas, apresentou o seu pedido de declaração de falência na terça-feira, 3 de Abril e é  agora todo o sector europeu da energia solar que se interroga sobre o seu próprio futuro, exactamente agora que espera vir a desempenhar  um papel-chave. Os planos dos 27 para as questões climáticas em que se  prevê  uma redução progressiva das emissões de gases com efeito de estufa e a renovação das fontes de energia, dependem  de facto e em  grande parte do sucesso da indústria do fotovoltaico, considerado  também contribuir para o crescimento e o emprego. A União Europeia tenciona produzir 20% de sua energia a partir de  fontes renováveis até 2020.


A indústria do  fotovoltaico europeu  também está a sofrer com as  medidas de redução dos subsídios governamentais e com as reduções de vantagens decididas um pouco por todo o espaço europeu, devido às políticas de austeridade seguidas. Um efeito directo da crise, mas também uma consequência do sucesso um pouco descontrolado dos  dispositivos de apoio muito generosos. Vários países, incluindo a Alemanha, reduziram significativamente o preço de compra garantido aos produtores de electricidade   de origem fotovoltaica.

 

Antes de  Q-Cells, outras empresas alemãs que operam num mercado estimado em cerca de 25 mil milhões de euros ficam viradas do avesso, vítimas da concorrência  desenfreada da China e de Taiwan  que levou os preços a descerem fortemente . "Alguns dirigentes de empresas apontam a dedo os seus concorrentes chineses, que beneficiaram de empréstimos dos bancos semi-públicos e de ajudas directas do Estado." "Até agora não recebemos qualquer queixa, mas se os industriais formalizarem uma  queixa nós poderemos iniciar uma investigação ", indicou, na terça-feira, 3 de Abril, um porta-voz da Comissão em Bruxelas.


Fragilidade

 

A França decidiu, de Dezembro de 2010, uma moratória sobre as ajudas públicas à  energia solar. O Ministro da Ecologia, Nathalie Kosciusko-Morizet sublinhou , na época, que 90% dos painéis instalados no país vinham da  China. Desde o início de 2012, ela estimava que os objectivos de potência instalada  foram alcançados, mas não os da criação de empregos  ou de reestruturação de um verdadeiro sector industrial. "Modificámos as ajudas públicas para as encaminhar para concursos muito tecnológicos  em apoio das diversas fileiras industriais  francesas," afirmou o ministro. É necessário que os apoios financeiros sirvam  para criar postos de trabalho em  França e não na China ". Por último, a aquisição da empresa  pioneira da energia fotovoltaica na França pela EDF em Fevereiro de 2012, a  Photowatt  de Bourgoin-Jallieu (Isère), colocada em liquidação judicial, terá especialmente demonstrado a grande fragilidade do sector.


Na Grã-Bretanha, o governo anunciou, no final de 2011, a baixa  de subvenções e a redução da tarifa de aquisição da electricidade de origem solar pela rede de distribuição nacional. O grupo de engenharia Carrion (4500 empregos) evocava  imediatamente um projecto de reestruturação. O conjunto da fileira britânica, composta  principalmente por pequenas e médias empresas, emprega cerca de 30000 pessoas.


Na República Checa, um generoso sistema de subvenções  também foi abandonado, como na Itália ou na Bélgica. Neste último país, a  empresa  Bekaert, líder mundial em fios de aço (usados em especial  nos painéis fotovoltaicos) está- se a preparar  para fechar as unidades de produção na Bélgica e na China: ela  já não consegue competir com as empresas chinesas no sector.


A necessidade de uma coordenação europeia

 

A Espanha já se via  líder mundial em energia solar. No entanto, em Janeiro de 2011, um decreto reduziu de cerca de 30% os subsídios para a indústria fotovoltaica e limitou o número de horas dando direito a um subsídio. O objectivo era economizar 2.2 mil milhões de euros em três anos. O novo governo conservador já anunciou a supressão dos subsídios para  novas instalações.


A Grécia também ela apostou na energia solar a partir de 2011, com a esperança de rentabilizar no máximo a sua taxa de exposição à  luz do sol, superior em 50% à dos países do Norte da Europa. Um gigantesco projecto exigindo um investimento de 20 mil milhões visa alcançar, a  prazo, os 10000 megawatts (MW) de potência instalada. Para atingir o seu objectivo - vender electricidade solar para a Alemanha-, o país terá no entanto necessidade de um apoio europeu e dos investidores assim como uma melhoria das redes de transporte previstas pela Comissão Europeia.


Esta  última recusa centrar-se nas dificuldades actuais, que julga transitórias. "Estamos convencidos que o sector fotovoltaico permanece como promissor e não é afectado no seu conjunto", diz Karolina Kottova, porta-voz da Comissão. De resto, disse um especialista, são os Estados-Membros que decidem a sua própria política e devem assumir os seus erros. A este respeito, o caso alemão é descrito como "exemplar": o sistema de subsídio para a instalação dos painéis tem sido  financiado por uma sobretaxa na factura dos consumidores e beneficiou sobretudo os painéis chineses. Daí, sem dúvida, a imperativa necessidade de uma efectiva coordenação europeia.


Jean-Pierre Stroobants (Bruxelles, Bureau européen),  La filière solaire européenne dans la tourmente, LE MONDE,  04.04.2012 



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Sábado, 21 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota. 

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

5. Daqui vejo Portugal, daqui vejo o destino de S. João da Madeira

 

 

J. M. Weston conseguiu que a China fechasse uma fábrica em Cantão que copiava os seus sapatos

 

 

  

É a vitória de um Pequeno Polegar  na luta contra a falsificação global. A empresa J.M. Weston, conhecida pelos  seus sapatos de alto luxo fabricados desde 1891 em Limoges, conseguiu  o encerramento de uma fábrica na China, que produzia as suas  cópias. Localizada em Cantão, produzia 300 pares de Weston falsos por semana. Em Dezembro de 2010, as autoridades chinesas tinham apreendido 3.700 pares de sapatos, representando um valor de cerca de  1,85 milhões de euros (!).

  

Estes sapatos estavam muito bem imitados porque os falsificadores tinham até um molde para gravar a marca de J.M. Weston no interior do sapato, como nos modelos verdadeiros, e exactamente da mesma maneira. Daí a poder colocar em dificuldade as vendas da empresa francesa, cuja produção anual é estimada em cerca de 100.000 pares de sapatos, vendidos em cerca de 15 países.

 

Mercados sob vigilância

 

"É muito raro conseguir obter o encerramento de um site na China, porque encontrar os locais de fabrico é muitas vezes impossível. Isso exige  investimentos  em tempo e em  dinheiro", comentou Jean-Luc Espla, encarregado da luta contra a falsificação no seio de EPI, a holding da família  Descours, proprietária de Weston. O grupo tem criado mecanismos de transmissão e de informação em  países  específicos, encarregados de monitorar os mercados. A empresa tinha recorrido, no ano passado, a informadores locais  para localizar a fábrica incriminada . Uma vez as provas acumuladas e alertados  em Novembro para o facto, EPI informou imediatamente as autoridades chinesas, que conduziram o inquérito e conseguiu obter o encerramento da fábrica.

 

Durante vários meses, os funcionários aduaneiros bloqueavam nas fronteiras, na França e na Alemanha, pacotes suspeitos, destinados especialmente para o mercado europeu. "Podemos ter parado uma fonte, é possível que outros continuem a existir"  disse  Jean-Luc Espla.

 

O testemunho de Jean-Luc Espla, quanto à falsificação dos sapatos Weston no Jornal "Le Populaire" de Limoges é eloquente sobre esta matéria: "É a criação que é pilhada, é o  trabalho dos empregados também, é a promoção que fazemos sobre os nossos sapatos, é as patentes que registamos em  França, na Europa e a nível internacional, são todos os procedimentos que são envolvidas… " Isto representa um custo fenomenal.”

 

 

 

 

Em primeiro lugar, 350 pessoas podiam ver os seus empregos ameaçados e a mais antiga fábrica de curtumes da França seria igualmente afectada por esta crise. Na verdade, sinal de seu forte envolvimento no tecido industrial local, a empresa tem a sua própria fábrica de curtumes em Limousin, a casa Bastin, a mais antiga fábrica francesa de peles para calçado.

 

 

Além disso, o saber-fazer artesanal do calçado em pele da França tem grande dificuldade em resistir a um fenómeno difícil de controlar. De acordo com a União Europeia, a contrafacção afectaria cerca de 10 mil empregos por ano.

 

 

A União dos Fabricantes (Unifab) recebeu esta informação como uma vitória. Este caso demonstra a vontade da China para cooperar na luta contra a falsificação e para por fim a este comércio ilegal. disse o seu Presidente Christian Peugeot. Este encerramento será seguido, depois, por um procedimento penal.

  

Para a União de Fabricantes, a  UNIFAB, «este acontecimento marca a tomada de consciência dos institucionais chineses em matéria de propriedade intelectual».

 

 

A China, que se tornou em 2011 a primeira potência industrial do  mundo afirma que está pronta  para respeitar as regras do jogo. Ela coloca-se, e fá-lo saber, a fazer  esforços a fim de provar que  está a  lutar contra a falsificação.

 

 

Os dois responsáveis da fábrica chinesa que fabricava os falsos sapatos Weston foram condenados a três anos de prisão efectiva. Foram igualmente multados em 30.000 e 22.000 euros. 

 

 

A condenação é altamente simbólica. Porque não se trata de  um tribunal francês ou europeu  mas de um Tribunal em  Cantão que tomou esta decisão, fora do comum na China, sobretudo pouco interessados e muito condescendentes em matéria de contrafacção. "Esta decisão é importante e exemplar," disse Delphine Sarfati-Sobreira, directora de comunicação da União dos Fabricantes (UNIFAB), que luta  contra as contrafacções e de que faz parte a marca de Limoges JM Weston.

 

 

"É raro apreender um número tão importante de produtos falsificados e especialmente em ter conseguido uma tão rápida condenação, continuou ela". A China é o primeiro país produtor de mercadorias produzidas em situação de contrafacção no mundo. Mais de 70% das apreensões nas alfândegas de França vêm da China. Hoje, há uma cooperação real das autoridades chinesas e uma verdadeira evolução das mentalidades. Agora, os chineses têm as suas próprias marcas e começam agora a ficar sensíveis aos princípios da propriedade intelectual e industrial. Desde há pouco tempo, querem também proteger as suas marcas e começam a compreender a importância destes princípios " afirmou ela.

 

 

Uma pergunta aqui vos deixo: que esconde a vontade da China em travar o comércio ilegal? 




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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais   sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

3. A Alemanha, os Estados Unidos e a China na economia global

 

 

 

3.2 Nos Estados Unidos, os símbolos Levi’s, Converse...são frequentemente « made in algures”

 

Claire Gatinois, Le Monde,  26.03.2012

 

O senhor e a senhora McKenzie são bons cidadãos americanos. Moradores nos subúrbios de Nova Iorque, eles acreditam que comprar produtos locais é uma acção patriótica. O Buy American Act of 1933 não obrigava ele o Governo Federal a privilegiar o "made in EUA."? Isto cai bem, desde a toranja da Flórida ao petróleo do Texas, passando pelo algodão de Louisiana e pela alta tecnologia de Palo Alto, a primeira economia mundial está cheia de recursos.


No entanto, as marcas mais emblemáticos são muitas vezes "made in algures ". O boné dos Yankees do senhor McKenzie?  Fabricado na China. O casaco da Universidade de Nova York, vendido na sua loja oficial? Vindo da República Dominicana. Os jeans Levis? "Feitos no Paquistão". O par de sapatilhas Converse? Chegado directamente do Vietname...


É que, nos Estados Unidos é impossível fazer batota. As roupas são sujeitas ao Textile and Wool Acts: só aquelas "inteiramente ou quase inteiramente" feitas no país podem reivindicar o rótulo de "Estados Unidos". Se o produto é somente montado nos Estados Unidos, a partir de peças importadas, a marca deve especificar esse facto.


Mas as empresas assumem. Como Nike, que trabalha com 900 fabricantes na China, no Vietname ou na Indonésia. O que não impede que o grupo empregue 23.000 pessoas nos Estados Unidos para projectar a próxima "Nike air", que os filhos McKenzie  bem disputam. Além disso, 70% dos 135 milhões de "airbags" - acessórios de algumas solas de sapatos – continuam a ser fabricados além-Atlântico.


Em Nova Iorque o chique impõe muitas vezes comer de modo cosmopolita e beber vinho de Bordéus. No entanto, a Califórnia está cheia de vinhos muito elogiados pelos enólogos. Nada grave, McKenzie preferem mesmo assim comer no McDonald, onde os hambúrgueres são preparados com carne de Texas, do Nebrasca, Kansas ou do Colorado e as batatas para fritar vêm do  Maine. Com a condição de esquecer a dieta, eles também podem se oferecem um Donut Dunkin ' onde "a maioria dos ingredientes é de origem local".


O caso exemplar de General Motors


Para mobiliar interiores o seu primeiro impulso foi dirigirem-se ao Ikea de Brooklyn, onde a maioria dos móveis vêm da Ásia. Mas ocasionalmente eles navegam no site Americansworking.com, que lista os produtos americanos, como os móveis "Amish fourniture", feitos com madeira de Ohio ou de Indiana. O objectivo? "Preservar o emprego nos Estados Unidos", explica David Riley, fundador do site. O seu sucesso continua a ser modesto: 2,5 milhões de pessoas visitaram-no no final de 2011. Mas recebe 25-30% mais visitantes por ano, disse.


Para os electrodomésticos, os McKenzie no entanto não precisam de ajuda. Na Frigidaire, podem encontrar uma máquina de lavar roupa, um forno ou uma máquina de lavar louça orgulhosamente fabricada na América: o design e a concepção  são americanos.


Na electrónica, as coisas vão mal: o iPad último grito, que os McKenzie acabam de comprar na Apple Store da Fifth Avenue é fabricado pela empresa chinesa Foxconn com componentes frequentemente japoneses. Mudar de marca? O seu computador HP também é projectado nos Estados Unidos mas montado na Ásia.


O balanço é mais favorável para os carros: os McKenzie optaram por um  Silverato da General Motors (GM), saído das fábricas de  Fort Wayne (Indiana), Flint (Michigan) e Silao México, sendo 62% americano. E GM é, aos seus olhos, exemplar: o Chevrolet Sonic agora é fabricado nos Estados Unidos e não na Coreia. O que faz crescer a indústria americana, que representa 22,1% do PIB do país, segundo Natixis, contra 18,6% em França.

 

Claire Gatinois



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Terça-feira, 17 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais   sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

 

3. A Alemanha, os Estados Unidos e a China na economia global

 

3.1 Na Alemanha, as marcas Adidas, Hugo Boss, as marcas como Grundig ou Porsche deslocalizaram desde há muito tempo a sua produção.


Cécile Boutelet, Le Monde,  26.03.2012  

 

Para Gudrun e Jürgen Schmitt, o "made in Germany" afirma-se por si-mesmo e desde há muito tempo. Jürgen gosta de contar aos seus dois filhos como o seu pai lhe explicou que consumir alemão era a melhor maneira de reconstruir o país no pós-guerra. A única forma de patriotismo ainda aceitável após o trauma do período nazi. E, em seguida, os produtos alemães não são eles considerados no mundo como uma garantia de qualidade e de fiabilidade?


Contudo, Gudrun tem dúvidas. Há alguns meses atrás, aprendeu que o rótulo "made in Germany" não tinha nenhuma definição legal! O critério é atribuído a partir da " última etapa importante da transformação", o que quer dizer que um produto fabricado a 90% no estrangeiro pode reivindicar o rótulo made in Germany... Especialistas e as associações de consumidores regularmente denunciam esta falta de transparência. Cerca de 57% dos alemães consideram também que isso já não representa nenhuma garantia de origem nem de qualidade.


Em seguida, com a ajuda de alguns sites especializados, na Internet como, por exemplo,  Verbraucherportal Deutschland ou Ja zu Deutschland, que identificam os industriais que têm mantido pelo menos metade da sua produção na Alemanha, os Schmitt tentam então orientar-se por aí.


Em primeiro lugar, a roupa. A nossa família já exclui da sua lista de compras a Adidas, Puma e outros como Hugo Boss, que deslocalizaram a sua produção desde há muito tempo. Por sorte, eles ainda podem contar com um defensor de "100% Alemão ": a marca de têxteis Trigema. Algodão normal ou bio, fabrico alemão, empregos garantidos, com o custo de  39 Euros o pólo de senhora e 44 euros o par de Bermudas homem,  o casal pode comprar roupas em boa consciência nas lojas do grupo.


Quanto a sapatos, a família calçará Birkenstock (a partir de 39 euros) no Verão. No Inverno, optam pela marca Joseph Seibel ou outros pequenos produtores como Jomos. Mesmo se a esposa refila um pouco. São na verdade sapatos confortáveis, mas muitas vezes concebidos para pessoas com mais de 50 anos. Difícil de estar na moda e continuar a ser patriótico...


Ao nível da alimentação, o nosso casal teve que fazer bem as contas para se situar dentro do  seu orçamento. a carne alemã com grande desconto e a carne  bio local muito cara, é necessário saber combinar: no país de Aldi, há pouco espaço para o mercado de gama intermédia. Há é certo, Dr. Oetker, que produz as suas pizzas supercongeladas em Wittenburg, na Alemanha, mas isso não faz sonhar Gudrun.


Felizmente, para a casa, o casal Schmitt pode contar com a marca Miele, que lhes fornece aspirador, máquina de lavar e secar assim como os seus grandes aparelhos de cozinha. Apesar da forte concorrência, a marca resiste à deslocalização e ainda realiza a maioria de sua produção na Alemanha. Mas para o casal, a soma é incómoda: os aparelhos Miele custam o dobro da concorrência. "Mas os electrodomésticos Miele são concebidos para durar 20 anos, o investimento rentabiliza-se por si-mesmo ao longo do tempo," garante a marca, fundada em 1899.


Quanto a material electrónico, é difícil encontrar produtos destinados ao consumidor que sejam produtos "made in Germany". Para o registo as suas contas Gudrun utiliza dictafones de Grundig Business Systems, um ramo do grupo Grundig a fabricar ainda na Alemanha, em Bayreuth. Jürgen sonha ainda em comprar uma TV da marca Loewe, feita parcialmente em Kronach, na Baviera mas, a mais de 1 200 euros na entrada da gama baixa, terá que esperar um pouco.


Quanto a comprar carro, os Schmitt podem suspirar de alívio... Pelo menos é o que eles pensam. Porque o automóvel alemão é um complexo entrelaçado de peças fabricadas parcialmente no exterior. O famoso Porsche Cayenne, de que o motor é feito em Leipzig, é assim montado em grande parte em Bratislava, na Eslováquia! A fábrica também produz peças para a Volkswagen, cuja produção beneficia desde há muito tempo dos salários do leste europeu...


Cécile Boutelet




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Sábado, 14 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais   sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

 

2. A França perdeu 1,1 milhão de empregos industriais em dez anos

 

Um quarto a menos a menos em França, o emprego industrial caiu de 26% entre 1991 e 2010, o que representa uma perda de 1.1 a 1.2 milhões de empregos, de acordo com a empresa Roland Berger. A indústria representa agora apenas 12% do emprego total na França em 2010, contra 16% em 2000. Esta proporção é de 9% no Reino Unido (14% em 2000) e de 19% na Alemanha (contra 21% em 2000).


O terceiro lugar em 2010, a indústria não representa mais do que 13% do valor acrescentado total realizado em França, contra 18% em 2000. A indústria com um todo ainda representa 15% ao Reino Unido, contra 20% há dez anos e mantém-se estável na Alemanha, em 25%.


Degradação.

 

A desindustrialização, traduziu-se numa degradação da balança comercial francesa. O défice para os produtos industriais, que foi de 15 mil milhões de euros em 2000, atingiu os 92 mil milhões em 2011.


O declínio na Europa: A parte do valor acrescentado industrial da França na indústria transformadora do conjunto dos 27 países da Europa caiu de 12,9% em 2000, para  menos de 10,7% em 2011. 



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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização-4ª Série.

 

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização 

 

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

 

1. Será que se pode na verdade consumir produtos que sejam 100 % francês?

 

Dominique Gallois et Cédric Pietralunga, Le Monde  26.03.2012

 

De regresso de Londres, Virginia e Philippe – o nosso casal fictício que passou a viver numa pequena vivenda fora de Paris – tinham estabelecido uma prioridade, neste ano de eleições: comprar apenas produtos franceses, fazer activismo económico. Um desejo muito em voga, enquanto a crise e o desemprego fazem ganhar consciência dos danos causados por uma desindustrialização que começou na década de 1980 e que não deixa de continuar a aumentar.


A França perdeu mais de um quarto dos seus empregos industriais desde 1991, de acordo com a empresa Roland Berger. De repente, o "made in France" está no centro dos debates das eleições presidenciais e será sem dúvida evocado no Salão da Indústria a realizar-se de  26 a 30 de Março no Parque de Exposições de Villepinte Paris.


Hoje, quase que dois em cada três franceses estão dispostos a pagar mais caro por produtos feitos em França, de acordo com o Centre de recherche pour l'étude et l'observation des conditions de vie (Crédoc),, contra menos de metade há cinco anos. Desde que o aumento não exceda 5%.


Mas para tal é ainda preciso saber identificar o que é "made in France"! Qualquer produto pode assim ser considerado se uma parte de seu processo de fabricação tiver sido realizada em França. "Hoje, o consumidor só pode andar a tactear." Não há nenhuma norma própria, com um caderno de encargos que seja claro, reconhece Edouard Barreiro, chefe de estudos em UFC – Que choisir. "Com exclusão dos vinhos AOC e dos queijos ninguém pode estar seguro de estar a comprar puramente francês."


Virginia deu-se conta desta realidade quando andou por diversas lojas de móveis. Em um sector em que dois terços dos equipamentos são importados, "os franceses estão na produção ou de produtos baixo de gama, com mobiliário proposto em kit pela grande distribuição, ou então estão no topo de gama", explica Christophe Gazel, director-geral do l'Institut de prospective et d'études de l'ameublement (IPEA).


No primeiro caso, o custo do trabalho é baixo, entre 4% e 10% do preço de fabricação dos painéis em aglomerado, é melhor produzir localmente, em vez de pagar custos significativos em termos de logística. No segundo caso, existe o saber-fazer francês... que não preço, é bem conhecido.


Os sofás Duvivier são assim fabricados em Poitou e os do grupo Roset (marcas Roset e Cinna) em Ain. Mas a concorrência também pode ser intensa na gama mais baixa. O francês Green Sofa Dunquerque foi agora colocado colocada sob administração judicial, depois da saída do seu principal cliente, a firma sueca Ikea.


 

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Terça-feira, 10 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Capitulo 2. Comércio e Concorrência Internacional: algumas questões.

2.8  Repensar a Teoria do Comércio Internacional, repensar a Política Comercial, por Thomas I. Palley - III

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

(Continuação)

 

 

Implicações políticas da Crítica de GBS


A questão central de análise de Samuelson está nas implicações económicas da convergência tecnológica noutros países. Para Gomory e Baumol está nas implicações da perda da base industrial e das transferências da indústria para outros países, sendo que ambos têm implicações dramáticas para a política comercial. Tradicionalmente, a política comercial tem sido pensada em termos de tarifas, quotas e subsídios à exportação. Agora, a política comercial precisa de ser re-conceptualizada em termos de forças motrizes do desenvolvimento industrial e tecnológico dentro dos países, e deve levar em conta a possibilidade das políticas estratégicas rivais entre os países.


A transferência e a convergência tecnológica são particularmente críticas para Samuelson, Além disso, há uma nova ênfase em que a vantagem comparada no mundo moderno é criada, não herdada. No século 18, o comércio foi impulsionado pela busca de especiarias exóticas e de matérias-primas. O clima e a dotação de recursos naturais significativamente determinaram a estrutura de vantagens comparadas e muito pouco poderia ser feito para alterar essa estrutura (5). Hoje, as vantagens comparadas são impulsionadas pelas tecnologias, que pode ser influenciadas pela acção humana e pela política. Isto tem implicações enormes para a distribuição dos ganhos do comércio internacional entre os países.

 

Uma estratégica política comercial é particularmente fundamental na história de Gomory e Baumol. A visão básica dentro do seu quadro estilizado é que o equilíbrio num mundo de IRTS é potencialmente muito frágil. Essa percepção abre o caminho para intervenções que alterem o equilíbrio e redistribuam os ganhos do comércio. Por exemplo, a política comercial pode conferir uma vantagem temporária aos produtores, levando-os a moverem-se para baixo na curva de custo médio para que eles adquiram uma vantagem na determinação dos custos. Este acto pode estabelecer uma estrutura de equilíbrio da produção mundial que persiste depois de a directiva ter sido removida.


Tais possibilidades significam que IRTS cria um amplo espaço para o conflito económico entre os países. Dado a existência de equilíbrio múltiplos em que a distribuição dos ganhos do comércio depende das particularidades do equilíbrio predominante, os países podem ter um incentivo para tentar mudar a posição de equilíbrio (6). Essa implicação política genérica de IRTS tem estado presente na nova teoria do comércio internacional (Krugman 1984; Brander e Spencer 1985), mas as simulações detalhadas de Gomory e Baumol mostram o quão potencialmente maleável é a estrutura dos pontos de equilíbrio do comércio internacional quando se está na presença de IRTS.


Especificamente, há uma série de cenários em que a estratégia das políticas é relevante. Por exemplo, considere uma situação em que a tecnologia é inicialmente distribuída de forma desigual entre os países. Neste caso, os países atrasados ​​terão um incentivo para usar a política para aquisição de tecnologia e estabelecer a produção dentro das suas fronteiras. Isso pode aumentar o rendimento global, mas pode diminuir o rendimento dos países que perdem indústrias, sobretudo se a economia global está na zona de conflito de Baumol e Gomory.


Outro exemplo é se algumas indústrias ganham elevadas margens de lucro. Neste caso, os países terão um forte incentivo para agarrarem  o controlo dessas indústrias, a fim de ganharem as margens de lucro mais elevadas. Além disso, mesmo os países estritamente com curvas de custo médios mais elevados podem ter um incentivo para tomarem o controlo, apesar do facto de que eles serem menos eficientes. Dada a presença de IRTS, um país de alto custo pode efectuar essa transferência, se o governo fornece temporariamente apoio que mova os produtores internos para baixo na  sua linha de custos e se estabeleça a vantagem da determinação dos custos (como se mostrou anteriormente na Figura 1). 


Finalmente, a política estratégica pode ser útil num mundo com desemprego devido à procura inadequada. Neste caso, os países que estimulam a sua própria procura interna e agregam a procura de outros países (através de medidas como subsídios) aumentam a produção nas suas indústrias e reduzem os custos médios. Consequentemente, estes países podem tornar-se os produtores a custo baixo decisão à custa dos outros.


O relativo declínio na produtividade e a perda de liderança tecnológica desempenham um papel importante na história de GBS. De forma mais imediata, isto levanta dúvidas acerca do conhecimento que se tem sobre a externalização internacional em indústrias onde os Estados Unidos têm uma vantagem comparada e historicamente têm sido exportadores. Tal externalização envolve transferências de tecnologias. Embora as empresas beneficiem da externalização com a captação de lucros no exterior, a externalização pode diminuir o rendimento nacional dos EUA se estas transferências de tecnologias aumentam a concorrência contra as exportações americanas.


 

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Domingo, 8 de Abril de 2012
Aos leitores de A viagem dos Argonautas a propósito de um postal a Durão Barroso - II

Por Júlio Marques Mota

 

(Conclusão)

 

 

2 . Industrialização da China  ou a desindustrialização  da União Europeia

 

 

A indústria das energia renováveis

 

Deparei-me com um artigo curioso que haveremos mais tarde de reproduzir e que tem como título Quando a China  se apropria do Sol (Lorsque la Chine accapare le soleil) de Willy Boder Berne onde se pode ler:

 

“O desequilíbrio devido ao excesso de produção, num contexto de redução das subvenções na compra da energia de origem solar por causa das dificuldades orçamentais de vários países europeus, levou a um círculo vicioso para muitas empresas na Europa e nos Estados Unidos. "Apenas 30 a 50% das linhas de produção estão a ser usadas" nota Matthias Fawer. Neste ambiente económico bem depressivo, apenas as empresas menos endividadas, ou as melhores subsidiadas pelo Estado, como a China é acusada de o estar a fazer, são susceptíveis de sobreviver.


Quem diz consolidação diz desaparecimento de dezenas de empresas dos EUA e da Europa assim como de milhares de postos de trabalho. A falência da Solyndra nos Estados Unidos e as graves dificuldades de tesouraria dos alemães Q-Cells representam apenas a ponta do iceberg. A Suíça, atingida pelo falhanço de Flexcell e pela brutal paragem da construção, no Cantão de Berna, da maior fábrica de módulos fotovoltaicos do país, não é também ela poupada por essa inversão completa do mercado. A culpa? Muitas pessoas são aquelas que acusam China, que entretanto se tornou o país líder neste sector.

 

Inexistente nesta área há cinco anos, este país, que exporta 95% da sua produção de painéis solares, é agora omnipresente. Mais da metade das células fotovoltaicas instaladas na Europa são de origem chinesa. E se a primeira empresa neste campo, First Solar, é americana, ela está apertada por três empresas chinesas que por si só representam duas vezes e meia o seu volume de produção. De entre os dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco são chinês e dois estão instalados em Taiwan.”


Analisadas duas posições do referido postal deixemos aqui um pequeno artigo sobre a questão dos paraísos fiscais.

 

3. Os paraísos fiscais, a Europas, a Alemanha, a Suiça

 

Um jornal alemão ataca Sommaruga

 

O diário alemão BILD  informa ter apresentado queixa   contra a conselheira federal Simonetta Sommaruga  como resposta ao mandato de prisão emitidos pela Suiça contra três agentes do fisco alemão.

 

Numa carta que o jornal reproduz, o diário  "Bild" acusa o Ministro da Justiça de "tentativa de sequestro, de denúncia caluniosa e de cumplicidade".


Os mandatos de captura têm, de acordo com o "Bild", como  único objectivo o querer  impedir  qualquer inquérito adicional do fisco alemão contra os alemães em fraude e clientes dos bancos suiços onde depositavam dinheiro não declarado...


A justiça suiça emitiu três mandatos de prisão contra os inspectores do fisco alemão, suspeitos de espionagem  económica. Estes inspectores teriam  desempenhado um papel activo na compra  de  um CD  que continha dados roubados no início de 2010. O CD tinha informações sobre as contas dos clientes  alemãs em situação de fraude e com contas  no  Credit Suisse .

 

Críticas da oposição social-democrata

 

O Governo alemão tinha reagido fracamente a essas informações, ao mesmo tempo que as justificava pelas  diferenças do sistema jurídico entre os dois países. Isto valeu ao governo alemão as críticas da oposição social-democrata, que criticou o governo por não  defender os três funcionários visados.


[NT. Wolfgang Schauble  terá afirmado, a 31 de Março: “A Suiça tem o seu direito penal e não respeitar o sigilo bancário é passível de uma sanção”


Ainda no "Bild", o Vice-Presidente do SPD no Bundestag (câmara baixa do Parlamento), Florian Pronold, sugere que o embaixador da Suíça seja chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para se lhe ser exigido explicações.

 

Dupla tributação

 

 

A evasão fiscal é um tema  que tem envenenado as  relações germano-suíças desde  há anos, causando violentos artigos  na imprensa popular de ambos os países.


Um acordo de dupla tributação foi celebrado pelos dois governos, mas a sua ratificação enfrenta a oposição dos  sociais-democratas do SPD e dos Verdes, com maioria na câmara alta do Parlamento, que consideram este acordo  muito conciliador  com os  alemães clientes dos bancos suiços e em fraude.


Entretanto, Simonetta Sommaruga não se quer preocupar com o assunto  neste momento. O "Bild" terá apenas apresentado uma queixa junto do  Ministério Público de Berlim. Este último está  agora encarregado de verificar a veracidade ou não das  acusações formuladas por BILD . "Nós lemos o artigo de "Bild" e aguardamos o desenrolar  dos acontecimentos ," disse, esta  quarta-feira,  Guido Balmer do Departamento Federal de Justiça e da Polícia.”

 

Retomaremos este assunto amanhã.

 

Júlio Marques Mota



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Sábado, 7 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Capitulo 2. Comércio e Concorrência Internacional: algumas questões.

2.8  Repensar a Teoria do Comércio Internacional, repensar a Política Comercial, por Thomas I. Palley - II

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

 

(Continuação)

 

As ineficiências pioram se os países têm diferentes curvas de custo. As diferenças de custos podem existir devido à existência de diferenças na tecnologia ou nas economias de escala externas decorrentes dos efeitos de aglomeração. Os efeitos positivos da aglomeração surgem quando a eficiência de empresas individuais é desenvolvida, é aumentada, e os custos  descem  quando toda a indústria se expande. Neste caso, não só pode haver uma má distribuição global de produção (Gomory-Baumol ineficiência), mas a produção também pode ser mal distribuída pelos países com tecnologia inferior e mais elevados custos. Uma má afectação pode acontecer se um país de alto custo, ineficiente, é o primeiro a mover-se para baixo na sua curva de custo médio, tornando-se o produtor de baixo custo global e adquirindo uma vantagem de "decisão" de custos. Mesmo que outros países sejam potencialmente mais eficientes, eles são bloqueados quando um país ganhou uma vantagem por se ter iniciado primeiro a mover-se para baixo na sua curva de custo médio curve (2).

 

 

 

 

Esta situação é ilustrada na Figura 1, que mostra as curvas de custo médio para a indústria k nos países em 1 e 2. O custo médio para a indústria k no país 1 encontra-se acima da curva de custo do país 2.

 

 

No entanto, um país 1 pode tornar-se o produtor global se este obtém uma vantagem à partida e se é o primeiro a descer na sua curva de custo médio, ganhando assim uma vantagem competitiva e bloqueando o novo operador (país 2).

 

 

Em suma, quando as curvas de custos diferem entre países, a produção mundial pode ser reduzida por duas razões: (1) o país com o menor custo de produção tecnológico não pode produzir, e (2) a produção pode ser mal distribuída globalmente (alguns países produzem muitos tipos de bens enquanto outros produzem muito poucos), daí podendo resultar uma exploração ineficiente das economias de escala.

 

 

Além de darem origem a estruturas de produção globais potencialmente mais ineficientes, Gomory e Baumol mostram que os rendimentos de escala crescentes (IRTS) podem dar origem a conflitos comerciais pois os rendimentos dos dois países estão a convergir. Este argumento é ilustrado pela Figura 2.

 

 

 

Assumindo-se que os dois países economicamente idênticos têm tecnologias e procuras idênticas, o rendimento global é maximizado quando os dois países têm o mesmo número de indústrias e em que cada país produz metade da produção mundial. No entanto, o rendimento de cada país é maximizado quando o país tem mais da metade das indústrias. Isto significa que uma zona de conflito existe quando o reafectar da produção entre países aumenta o rendimento global, mas um país beneficia à custa do outro.

 

 

A lógica económica para este tipo de situações  é a seguinte. Considere um equilíbrio inicial, onde a maioria das indústrias estão localizadas num só país. Neste caso, a escala de produção é muito baixa no país onde a maioria das indústrias estão localizados e muito alta em outros países onde existem poucas indústrias. A realocação de indústrias entre os países pode aumentar o rendimento mundial, aumentando a escala de produção. A produção aumenta nas indústrias que permanecem nos vários países porque os recursos são transferidos para elas e também aumenta a produção nas indústrias transferidas, que tiveram acesso limitado a recursos antes de realocação, mas agora têm expandido o acesso a recursos noutros países. Todos os países beneficiam do efeito de escala. Além disso, no entanto, existem os efeitos ditos de termos de troca, uma vez que os preços caiem na produção dos bens produzidos pelas indústrias em expansão. Isto significa que os ganhos marginais para o país que recebeu as novas indústrias excedem os ganhos para o país que está a perder indústrias. À medida que os rendimentos dos dois países convergem, os rendimentos de escala derivados de maiores realocações decrescem e o efeito dos termos de troca sobre o comércio pode superá-los (3). Nesta fase, mais transferências de indústrias baixam o rendimento do país que está a perder indústrias, embora as transferências aumentem o rendimento mundial e o rendimento dos outros países (4).

 

 

A moral da história é então a dois níveis. Primeiro, os países não beneficiam da situação de autarcia (auto-suficiência), porque eles perdem o benefício das economias de escala. Segundo, os países ainda querem manter uma parte mais que proporcional da indústria mas este objectivo restringe a produção global, leva ao aumento dos preços de bens . Uma vez que o país também exporta estes bens, este objectivo confere um benefício pela melhoria dos termos de troca que acresce o rendimento. A implicação é que a perda de muita da sua base industrial é má para a economia de um país, embora possa ser boa para a economia global. Do mesmo modo, um país que tenha desproporcionalmente poucas indústrias tem interesse em se envolver em política estratégica para atrair mais indústrias, ganhando assim rendimentos de escala e melhoria dos termos de troca.

 

 

(Continua na próxima terça-feira)

 

 

 



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Sexta-feira, 6 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Capitulo 2. Comércio e Concorrência Internacional: algumas questões.

2.8  Repensar a Teoria do Comércio Internacional, repensar a Política Comercial, por Thomas I. Palley - I

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Ralph Gomory e William Baumol (2000) e Paul Samuelson (2004), levantaram recentemente algumas sérias questões e preocupações sobre o impacto futuro do comércio internacional sobre a economia dos EUA e sobre a evolução do rendimento nacional. Termos Gomory, Baumol e Samuelson, a quem me refiro como GBS, a falarem sobre o comércio internacional, isto é um acontecimento altamente importante e significativo. Gomory é presidente da Fundação Alfred P. Sloan. Baumol é um renomado teórico da microeconomia e ex-presidente da American Economic Association, enquanto Samuelson é um dos criadores da moderna teoria das vantagens comparadas, que foi amplamente utilizada para explicar e justificar o comércio internacional (Samuelson 1948, 1949).


Estas questões levam-nos de imediato assinalar dois pontos importantes:


Ponto 1- o questionamento destes autores, GBS, sobre a evolução do comércio actual não tem nada a ver com o proteccionismo. Estes autores, GBS, são fortes defensores da livre-troca, acreditando todos eles que com o comércio internacional há ganhos para serem distribuídos por todos. O que fica em aberto é saber a dimensão desses ganhos e como é que a sua distribuição entre os países podem mudar ao longo do tempo. Isso levanta questões políticas fundamentais sobre o que pode ser feito para maximizar a participação dos EUA nos ganhos resultantes do comércio e como é que este país os pode manter. Esta questão é a sua maior preocupação.


Ponto2- estes autores são teóricos quer da microeconomia quer do comércio internacional. Estes utilizam a teoria pura do comércio internacional, a que justifica a política comercial actual, para questionarem algumas crenças bastante comuns. Estudos empíricos que se centram sobre o emprego e sobre o défice da balança comercial não são suficientes para fazerem mudar a política comercial. As críticas também devem ser acompanhadas por argumentos teóricos, e é isto que GBS nos têm proporcionado.


A Contribuição GBS para o Debate sobre o Comércio


Antes de nos envolvermos com a substância da análise GBS, vale a pena distinguir a base da sua argumentação sobre algumas das existentes críticas que no plano teórico são feitas à teoria do comércio internacional. Primeiro, a sua argumentação não é sobre os impactos adversos de distribuição da distribuição do rendimento derivada do comércio internacional. Estes efeitos são amplamente compreendidos, e Samuelson também fez contribuições pioneiras para esta área da teoria do comércio internacional no seu trabalho com Wolfgang Stolper (1941). De acordo com o teorema de Stolper-Samuelson, o factor que é relativamente escasso no equilíbrio pré-trade perde quando um país se abre ao comércio internacional. No caso dos Estados Unidos, isto significa que os trabalhadores americanos perdem, já que implicitamente eles se tornam parte de um mercado de trabalho global. O efeito de redistribuição de rendimento continua em vigor, mas é distinto das novas preocupações levantadas pelo GBS.


Em segundo lugar, a argumentação de GBS não é sobre os salários e deslocalização do emprego causada pelo rearranjo de padrões de produção dos países rearranjos estes feitos de acordo com o princípio das vantagens comparadas. Tais perdas salariais têm sido bem analisadas pelo Institute of International Economics (Kletzer and Rosen 2005), que propuseram mesmo um seguro-salário como forma de compensar aqueles que são economicamente atingidos pela globalização. Os custos das deslocalizações de trabalho induzidas pelo comércio internacional e no caso de seguro para o salario permanecem reais e presentes, mas eles também são distintos, e complementares, relativamente às novas preocupações de GBS.


 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Capitulo 2. Comércio e Concorrência Internacional: algumas questões.
2.4  Crónica: O espantalho do proteccionismo - III

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

(Conclusão)

 

O nivelamento ideológico

 

Os modelos de Hekscher-Ohlin-Samuelson reflectem melhor a realidade de comércio contemporâneo. Mas estão longe de nos fazer aderir à livre-troca e eles também fornecem argumentos a favor da protecção comercial! Eles permitem, de facto, mostrar que, agora, a mobilidade do capital (e a da tecnologia), conduzem à igualização dos salários [17] que pode condenar ao desemprego os trabalhadores dos ramos menos "produtivos". É o que se observa hoje: os nossos salários indirectamente estão a ser ditados pelos salários dos trabalhadores chineses [18], os quais condenam ao desemprego uma parte dos trabalhadores dos nossos países que garantem uma melhor protecção social (e, portanto, "um custo do trabalho demasiado elevado").


Os ganhos resultantes das trocas beneficiam apenas uma fracção da população dos países abertos ao comércio internacional (os quadros ligados aos telemóveis sofisticados e habituados aos halls dos aeroportos. O cenário de uma especialização de todos os assalariados ocidentais para actividades de alto valor acrescentado é uma pura ficção [19]. Nos Estados Unidos, a balança comercial em produtos de alta tecnologia foi positiva até há uma década atrás; Hoje é negativa. O que é patenteado além-Atlântico pode agora muito bem ser produzido na Índia! E, por fim, o teorema de  Rybczynski [20] mostra que a especialização de um país na produção dos bens em que os seus factores são relativamente mais produtivos implica, com a acumulação, o desaparecimento progressivo, em termos absolutos, dos outros sectores produtivos: a Ocidente é a desindustrialização, enquanto que os países do Sul produzem em maioria as mercadorias destinadas aos países do Norte, à custa, por vezes, do abandono das suas próprias indústrias e da agricultura destinada ao consumo local. É esta realidade que se testemunha de maneira exemplar sobre o delta do Níger desde a implantação de empresas petrolíferas estrangeiras sobre o seu próprio solo ...


Quanto à terceira geração de modelos de economia internacional esta apresenta argumentos positivos… a favor das políticas de protecção comercial! Um dos mais recentes é que o aumento das barreiras comerciais alfandegárias diminui a desigualdade de rendimentos. No seio de cada país.


Como é que é possível que esta literatura académica, tão rica, não irrigue mais o debate público nos nossos países. O trabalho de “nivelamento” intelectual promovido pelas nossas elites através da imposição de uma vulgata defensora da livre-troca sem fundamento sólido é mesmo muito impressionante

 

Gaël Giraud,

 

Notes

 

 

1 O autor desenvolverá no próximo número de Projet uma proposição construtiva de proteccionismo europeu, social e verde.

 

 

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Terça-feira, 27 de Março de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Capitulo 2. Comércio e Concorrência Internacional: algumas questões.

2.4  Crónica: O espantalho do proteccionismo - II

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

(Continuação)

 

Comércio livre: onde é que tu estás?

 

A segunda razão pela qual é muito difícil apoiar a afirmação de que o mundo deve uma parte significativa da sua riqueza à livre-troca é que na verdade, o comércio internacional contemporâneo não é predominantemente regido pelas leis da livre-troca-  e isto, mesmo depois de três décadas de intenso activismo da OMC, do FMI e da Comissão Europeia. Metade do comércio mundial actual é comércio intra-empresa, intra-ramo, de bens e serviços trocados entre filiais do mesmo grupo ou entre uma filial e a casa mãe. Estes intercâmbios são à priori regidos pelo princípio da plena concorrência, tal como é adoptada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que pretende que tais preços de transferência intra-empresa sejam tão próximos quanto possível do preço a que o produto ou serviço equivalente é trocado no mercado. No entanto, muitas vezes, este preceito é de facto inaplicável: como avaliar, por exemplo, o preço ao qual se trocaria a marca BMW se esta pudesse ser vendida num mercado?

 

A maioria dos preços de transferência são fixados, não segundo uma oferta e uma procura num mercado, mas sim na base de critérios de optimização fiscal. A manipulação contabilística de preços de transferência permite assim fazer aparecer os lucros ou até mesmo o volume de vendas da empresa multinacional em algum paraíso fiscal [10]. O incentivo para aumentar o volume das transacções intra-empresas é tal que se pode mesmo duvidar, às vezes, da sua realidade económica. Porque é que, por exemplo, é necessário oito operações comerciais para se importarem bananas da América Central para a Europa [11]? Uma vez que isto tem a ver com cerca de metade das transacções comerciais internacionais, quem pode pretender que o mundo vive hoje num regime de livre-troca?


Mesmo que as próprias regras contabilísticas dos preços de transferência fossem revistas, nós estaríamos muito longe de um mundo transparente e  "plano", como sugere o conceito de level playing field (um espaço de trocas sem distorção de concorrência, com concorrência não falseada), defendido e promovido pela OCDE, pela Comissão Europeia e por diversos países na Europa . Como defender, na verdade, que não há nenhuma distorção da concorrência na Europa quando a Estónia e Macedónia fixam a zero os seus impostos sobre lucros reinvestidos em empresas aí instaladas? Como fazê-lo, como dizê-lo, quando o imposto sobre as sociedades na Irlanda é de 12,5% em vez dos 25-30% que se aplicam em quase todo o resto da Europa? Como afirmá-lo, quando na Roménia os trabalhadores da Renault-Dacia, são pagos a 300 euros por mês e mesmo assim são a elite das remunerações da região? Como declará-lo quando a Polónia recusa quaisquer regulamentos sobre o meio ambiente? Como admiti-lo quando o Reino Unido desvalorizou a libra em 30% para reduzir o custo das suas exportações? Como afirmar que o Japão e os quatro "dragões" praticam a livre-troca quando eles de facto proíbem qualquer venda dos seus concorrentes (em especial automóveis) no seu território tornando-lhes impossível a contratação de locais comerciais?


As condições de uma concorrência leal


As condições de concorrência sem distorções, concorrência não falseada, é um artifício de retórica na medida em que a falta de barreiras aduaneiras comercial não significa que as regras do jogo sejam idênticas entre os países: na sua tributação, na qualidade da sua regulamentação do trabalho, ao nível das suas prestações sociais, ao nível dos  custos que uma empresa aceita ou decide suportar para não sacrificar o meio ambiente, é pois todo um conjunto de factores que desempenham um papel fundamental na formação do custo de produção de um bem ou de um serviço. Uma concorrência realmente não falseada, não "distorcida" , exige exactamente o oposto do que geralmente se entende por esta expressão: a implementação concertada, a nível internacional, de barreiras aduaneiras para compensar, entre os países, as principais diferenças entre eles do ponto de vista da fiscalidade, da protecção social e do meio ambiente. Só assim se pode falar em concorrência não falseada, mas este é um discurso oposto à pratica das Instituições Internacionais e regionais como a União Europeia.

 

É aqui que se choca contra o argumento defendido a favor da abertura dos mercados dos países do Norte para os produtos do Sul, (possivelmente dissimétrica) não mais pelos defensores do laissez faire, laissez passer, mas por alguns defensores dos interesses dos países pobres. Assim, as subvenções discriminatórias concedidas pela Administração dos Estados Unidos aos produtores de algodão americanos são, e com toda a razão, denunciadas porque eles penalizam os produtores do Brasil e do Chade. É uma denúncia que confirma a ideia segundo a qual pensar que o comércio internacional seria regido pela livre-troca  é em grande parte um belo conto de fadas.

 

No entanto, a "boa" resposta ao "escândalo de algodão", será exigir o abandono das barreiras disfarçadas à livre-troca com que os Estados Unidos protegem os seus produtores? Ou seria antes incentivar os produtores latino-americanos e africanos a produzirem mercadorias destinadas aos seus mercados nacionais (em vez de se alienarem a produzir os bens para os mercados do Norte)?


A supressão dos subsídios aos produtores de algodão aumentaria o preço do algodão e, portanto, o nível de vida dos produtores do Sul? Nada é menos certo. Esta supressão provocaria certamente o desaparecimento dos produtores norte-americanos, mas não mudaria grande coisa ao facto de que o algodão latino-americano e africano é comprado essencialmente pelos operadores chineses e indonésios que transformam o algodão em produtos para o Norte. Portanto, é o prémio acordado aos países com mais baixos custos de produção (e com condições de vida deploráveis) que exerce a pressão à descida sobre os preços do algodão. Eliminar a concorrência dos produtores norte-americanos iria libertar temporariamente a pressão aos preços mais baixos mas não ia resolver o problema: a redução não confessada dos países do Sul ao estado de economias pós-coloniais para fornecerem matérias-primas e energia de que precisam os países do Norte. 


Outro argumento frequentemente invocado, desta vez por aqueles que pretendem defender os interesses dos países do Norte: os preços baixos que tornam possível o dumping salarial dos países emergentes aumentariam o poder de compra da classe média dos países da OCDE sem passar pela revalorização dos salários e dos benefícios sociais. Mais uma vez, o argumento é errado porque ele assume que os salários são determinados independentemente dos preços no consumidor. Pelo contrário, é a fraqueza dos custos de produção no Sul que torna possível a chantagem à deslocalização e à deflação dos salários no Norte. O poder de compra das classes médias alemãs - aqueles que, na Europa, "melhor" terão praticado o jogo da livre concorrência - não diminuiu ele ao longo dos últimos 15 anos?


Ricardo, senão nada?


Resta-nos a armadura teórica construída desde há dois séculos por alguns economistas para justificarem a sua defesa a favor da livre-troca. A figura tutelar, a mais frequentemente invocada, é a de David Ricardo, um economista inglês do início do século XIX [14], cujo argumento é simples:  dois países que abrem as  suas fronteiras ir-se-ão especializar cada um deles no tipo de produção em que tem uma vantagem comparada.

 

Mesmo se Portugal é mais produtivo do que o Reino Unido, tanto no vinho como no tecido , ambos têm interesse em fazer transacções comerciais juntos, porque o Reino Unido especializa-se na produção de tecido em que que é relativamente menos ineficiente, enquanto que Portugal se especializaria na produção de vinho, onde é relativamente mais eficiente.  Formalizada e generalizada pelos suecos Eli Hekscher e Bertil Ohlin e pelo americano Paul Samuelson a demonstração tem sido amplamente questionada desde a década de 1950: como explicar que países muito semelhantes, como a Alemanha e a França na época, façam comércio entre eles ? Porque é que não se assiste à especialização das indústrias como indicado pela lógica de Ricardo? Porque é que a maioria das trocas internacionais é comércio intra-indústria, intra-ramo,  (como por exemplo, carros Volkswagen contra carros Renault)?


Assim, uma terceira geração de argumentos se impõe a partir da década de 70, a que são associados os trabalhos de Paul Krugman, Elhanan Helpman e Joseph Stiglitz [15]. Para estes, não seria já a dotação de factores nem as diferenças em tecnologia, que desempenhariam o papel crítico na evolução do comércio internacional, mas sim o interesse mútuo em se especializarem, tendo em vista os custos exorbitantes de investimento da maioria das indústrias abertas à exportação (aeronáutica, o petróleo…) e um gosto pela variedade de consumidores (ricos). O comércio internacional, teria então vocação para se tornar o terreno de jogo dos oligopólios multinacionais que beneficiam de importantes economias de escala e fornecem a variedade de produtos que ninguém país só por si teria a capacidade de fornecer. Conclusão: graças ao comércio internacional, nós temos uma infinidade de telefones portáteis, subtilmente diferentes uns dos outros.


Nenhuma destas três gerações de explicações fornecem uma justificação convincente para as políticas de livre-troca comércio. Os modelos neo-ricardianos baseiam-se no pressuposto de que as tecnologias de produção não se exportam, o que contradiz amplamente, hoje, o crescimento do investimento directo estrangeiro. Se a China é o líder na produção mundial de fornos de microondas, é através da criação de empresas ocidentais e do seu know-how, no seu próprio território. Mais geralmente, Ricardo vivia num mundo onde o transporte era ainda relativamente caro, e em que as deslocalizações, portanto, estavam ausentes [16]. Estas começaram após a Segunda Guerra Mundial, por iniciativa de empresas norte-americanas que queria localizar neste lado do Atlântico, por medo de serem  eliminadas no mercado europeu. Hoje, a abertura das fronteiras comerciais pode muito bem significar que uma empresa estrangeira vá investir num país para aí produzir bens destinados a serem comprados pelos  seus  próprios nacionais (e não para os habitantes do país de acolhimento) e redistribuir os seus lucros em proveito também dos seus residentes nacionais (os donos do capital). É, caricaturando um pouco o que é hoje o comércio internacional, de muitos países emergentes hoje. Nesse contexto, o argumento ricardiano das vantagem comparadas não tem sentido, desmorona.

 

(Continua)



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