Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
Diário de bordo de 16 de Maio de 2012

 

 

Tommaso Campanella na sua Civitas solis, ("A Cidade do Sol"), preconizava um ministério da Harmonia e do Amor, que regulamentava as relações entre as pessoas, incluindo a procriação. Nesta aberração institucional que dirige os destinos do país, parece haver um ministério da Verdade. Da Verdade perversa, diga-se – tão mentirosa como a de Sócrates e envenenada com a sinceridade brutal de quem despreza os destinatários da sua sinceridade. Uma verdade diariamente retocada com a emenda de lapsos; emenda que torna a verdade mais negra de dia para dia. Uma verdade inimiga do amor e da harmonia.

 

Com a determinação arrogante que a ignorância confere, as decisões são tomadas, fazendo tábua rasa da legalidade democrática, destruindo a coesão social mínima e a propria sustentabilidade (palavra de que eles tanto gostam) do regime democrático. As maiores enormidades, os maiores atentados a direitos de funcionários públicos e pensionistas são perpetrados como se de medidas normais se tratasse. Até quando se poderá manter a ficção de que vivemos em democracia? 

Numa entrevista, Ricardo Salgado, o home do BES (o tal que via a integração de Portugal no Reino de Espanha como coisa favorável) vem dizer que Portugal será ajudado pelos seus pares europeus, pois tem feito uma «caminhada impressionante». Impressionante, de facto, mas desconfiamos que não pelos mesmos motivos que Salgado valoriza.

 

Aconselhamos vivamente que vejam o documentário que apresentamos às 21 horas de hoje – “Catastroika”. Mostra-nos como irá ser o nosso futuro se continuarmos a aceitar passivamente o roubo de que estamos a ser vítimas.



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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 15 de Maio de 2012

 

É preciso ter bem claro o seguinte: o que se está a passar na Grécia vai ficar para a história. Para a história da Europa, porque vai deixar bem claro (é verdade que haverá sempre quem não quer ver) que a Europa, como conjunto de países em pé de igualdade é inviável. Mais: que é inviável que os países europeus com menos população e menor poder económico e político consigam desenvolver as políticas que mais lhes convêm. Aos que no passado manifestaram estas convicções, independentemente de expressões de patriotismo estreito, o menos que lhes chamaram foi de antieuropeu.


E o que se está a passar na Grécia vai ficar para a história do Mundo. Os efeitos da crise na Europa, a quase inevitável desagregação desta em blocos caso a Grécia seja forçada a sair do euro, o que implicará seguramente a sua saída da União Europeia, a agitação que reinará no país, tudo terá repercussões no resto do Mundo. Os EUA vão poder reforçar a sua influência no Mediterrâneo Oriental, a pretexto da segurança na área. Israel também descobrirá um pretexto para um reforço militar e, provavelmente, para um ataque à Síria ou ao Irão. A corrida aos armamentos acelerar-se-á. A NATO também tentará aumentar o seu papel. A China poderá fazer mais compras, e investir no seu poder militar. Por aí fora.


É evidente que o cenário acima descrito, que é desejado em sectores influentes do mundo financeiro e por muitos elementos dos governos e das oligarquias dominantes, poderia ser evitado. Era preciso para tal que as instituições políticas europeias fizessem marcha atrás nos seus diktats. Este segundo cenário é altamente improvável, tudo o indica. Inclusive por que já foram muito longe em ameaças e mensagens. As declarações de Jean-Claude Juncker à saída da reunião do Eurogrupo de ontem, num sentido apaziguador, de afrouxamento do rigor dos prazos de pagamento impostos à Grécia, e de respeito pelas votações feitas, esbarrarão sempre na intolerância alemã, e de outros países, com problemas com os bancos alemães.


Na Grécia hoje realiza-se mais uma reunião entre os líderes de vários partidos. O problema, segundo a maioria da comunicação social, é o Syriza. O seu líder, Alexis Tsipras, sorri muito, é lunático, etc.  O grande problema é que todo este foguetório é para esconder do público que a posição do Syriza, quando refere ser indispensável, no mínimo, rever o chamado acordo com a troika, é a única ideia sensata no meio de todo o concerto de asneiras e de mentiras que são propalados nos jornais, nas televisões pelos informadores e comentadores oficiais. E que também é do mais elementar senso comum fazer uma auditoria rigorosa à dívida pública grega, nomeadamente para ser do conhecimento do público em geral a maneira como ela se formou. Até para impedir que, por cima desta dívida, apareça outra ainda maior. E claro acabar com a especulação financeira, as compras de armamento (a Grécia comprou mais submarinos que Portugal, também à Ferrostaal, nos últimos anos. Para que guerra? Estariam em melhor estado?), os ordenados monstruosos a administradores, etc., que entalaram a situação. Na Grécia haverá muitas outras situações a rever. Por exemplo, 15 a 20% da marinha mercante mundial é controlada por armadores gregos, que pagam pouquíssimos impostos no país, e que inclusive têm aproveitado do abaixamento dos salários e da desvalorização do imobiliário e mercadorias. Não poderiam dar um contributo maior? De que deviam, pouca gente duvida.


É este o problema. Quando se ouve falar que os sacrifícios estão a ser divididos por todos por igual, se repara nos armadores gregos, de que a quebra de vendas de carros de luxo em Portugal é inferior à de das marcas mais modestas, ou nas excepções aos cortes salariais e outros, vê-se que o problema é antigo: é o tal 1 % que não quer ser apanhado pelos 99 %. Pôr os cidadãos a pagar uma dívida pública que o 1% contraiu é o golpe do século. Se os gregos elegerem quem não a quer pagar, têm que eleger outro ou outros, é do que nos querem convencer. A propósito, leiam o que escreveu Rui Tavares ontem na sua coluna do Público, e Wolfgang Münchau, no domingo, no Finantial Times (ver Eurointelligence, também ontem, aqui em A Viagem dos Argonautas).



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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
Diário de bordo de 14 de Maio de 2012

 


Na certidão de nascimento dizia que Ernesto Guevara de La Serna nasceu em 14 de Junho de 1928, em Rosario, Argentina, mas na verdade foi em 14 de Maio que o Che nasceu. A mãe engravidara antes do casamento e não era sensato que uma aristocrata desafiasse as regras da sociedade. Hoje Ernesto Che Guevara faria 84 anos – isto se fosse um homem mais sensato. Mas Che Guevara preferiu ser coerente, não trair as suas ideias, mandar a sensatez às urtigas. Médico, asmático, com uma boa posição no executivo cubano, abandonou tudo e  foi combater a tirania. Valle Grande, na Bolívia, foi onde em Outubro de 1967 o executaram. Culpado do grave crime de insensatez.

 

Os políticos não são insensatos por natureza – nós temos, neste momento, um primeiro-ministro sensato e um líder da oposição, ainda mais sensato, se possível. Combater a tirania é insensatez que não irão cometer. Passos Coelho e o seu executivo vão friamente, dia a dia, dizendo-nos que novas medidas nos vão ser aplicadas – não querendo mentir como Sócrates, vão alterando a verdade diariamente, pois a verdade de hoje é má, mas por lapso não estava correcta – e a verdade de amanhã, corrigido o lapso, será pior.

 

Os jornalistas falam das gaffes do primeiro-ministro. Mas não se trata de gaffes – ele está mesmo convicto de que a ruína do tecido social e económico pode ser o ponto de partida para a regeneração do modelo por que nos regemos – É a doutrina do choque defendida por Milton Friedman, o prémio Nobel, que ajudou Pinochet a «restaurar» a economia chilena afectada pelas medidas socialistas que Allende introduzira. Amanhã, apresentado por Paulo Ferreira da Cunha, editaremos um vídeo em que Naomi Klein, uma jornalista canadiana, nos expõe com clareza as bases dessa «doutrina». Vítor Mengele Gaspar, a quem não falta sequer o toque de loucura comum ao estereótipo do médico nazi, faz de nós cobaias e põe em prática as teorias do mestre. As experiências correm mal ou bem - para as cobaias correm sempre mal - mas permitem sempre tirar conclusões.

 

E se não fizermos nada ou se nos limitarmos a não votar no PSD, votando no PS (é igual a não fazer nada) merecemos mesmo ser sujeitos à terapia de choque que esta gente estúpida, mas sensata, nos está a aplicar. E vaiar o primeiro-ministro na Feira do Livro, como aconteceu ontem talvez não tenha sido sensato - mas foi profundamente justo.



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Domingo, 13 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 13 de Maio de 2012

 

Os tempo estão incertos. Os mares revoltos. A Argos está a ser fortemente açoitada por ventos e tempestades. Diário de Bordo tenta dar conta do que por aí vai. E tenta também perceber os acontecimentos. Mas temos de reconhecer que está cada vez mais complicado. Tanto ao nível nacional como ao nível internacional. Nacionalmente temos um governo que parece que vem doutra galáxia (de outro planeta é perto demais), onde estar desempregado não parece ser o mesmo que é cá em Portugal, uma desgraça. Esta complicação já é suficientemente grave, sem dúvida a mais grave que defrontamos, mas não vamos estar sempre a falar no mesmo. Há outras questões que é bom não perder de vista. E também envolvem o governo.


Portugal só tem fronteiras terrestres com Espanha. Dependemos muito do que ali se passa. E reparem nisto: na XXV cimeira luso-espanhola, realizada na semana passada no Porto, foram tratados muitos temas, mas podem-se destacar os relativos às ligações ferroviárias entre os dois países, afinal vitais para a economia de Portugal, cuja recuperação o actual governo diz que vai assentar nas exportações.  Assim parece que, embora sem data marcada, se vai retomar a questão da adaptação da bitola ferroviária à bitola europeia, e ressuscitar os projectos da adaptação das linhas férreas ao transporte de mercadorias para a Europa, a partir de Sines e de Aveiro. E valorizar a ligação ferroviária entre o Porto e a Galiza, assim como facilitar o problema do trânsito entre os dois países nas antigas SCUT.


Trata-se de assuntos que vão, sem dúvida, passar por muitas vicissitudes. Mas é de notar um aspecto: a viragem que houve no governo. Passou de uma fase em que pôs totalmente de parte o TGV, e de não investir no transporte ferroviário, por falta de dinheiro, para outra, em que encara várias ligações, incluindo melhoramentos e novas ligações. É verdade que se trata de uma questão complexa. Mas uma questão complexa que  tem de ser planeada a longo prazo, sem zigue-zagues,  com muita segurança. Terá sido por estarem a falar com os espanhóis que resolveram debruçar-se sobre o assunto? Os problemas de dependência do país vizinho são grandes, também é verdade. Mas para salvaguardarmos a nossa independência temos de os encarar de frente. Não vale falar deles só nas cimeiras e depois nada fazer. Senão, vai ser ainda pior que José Sócrates com o aeroporto da Ota.

 



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Sábado, 12 de Maio de 2012
Diário de bordo de 12 de Maio de 2012

 

Na tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, no Centro Cultural de Belém, Passos Coelho pediu aos portugueses que adoptem uma "cultura de risco" e expendeu uma pérola de sabedoria -  o desemprego não tem de ser encarado como negativo e pode ser "uma oportunidade para mudar de vida". Condenou a “aversão ao risco” que predomina entre os portugueses, que mesmo em jovens preferem "ser trabalhadores por conta de outrem do que empreendedores". Porém "essa cultura tem de ser alterada" e substituída por "um maior dinamismo e uma cultura de risco e de maior responsabilidade, seja nos jovens, seja na população em geral".  Referindo-se aos que estão sem emprego, disse: "Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade". E afirmou a necessidade de apostar em "modelos de desenvolvimento de valor acrescentado, de forte base tecnológica" para ganharem competitividade económica, e não nos preços baixos. "Essa não é a competitividade que nos interessa. No curto prazo, no meio da crise em que estamos, claro que é preferível ter trabalho, mesmo precário, do que não ter, claro que é preferível trabalhar mais do que não trabalhar, vender mais barato do que não vender", mas "o modelo para o futuro tem de ser o de acrescentar valor".

 

Como Jerónimo de Sousa disse hoje, a ideia do primeiro-ministro de que o desemprego pode ser uma oportunidade é uma "ofensa", acusando Pedro Passos Coelho de não conhecer "o que é a vida" nem as "dificuldades dos portugueses. Claro que tem razão. Não só é uma ofensa a quem está desempregado, como é um atentado à inteligência – como sempre acontece quando com uma estupidez  se pretende negar o que é óbvio. E, neste caso, é óbvio que estamos numa situação-limite, à beira de um colapso do pouco que resta da nossa estrutura social e que não serão frases ocas que nos salvarão.

 

Aliás, este senhor usa o expediente de culpar os portugueses em geral por erros cometidos por alguns – somos piegas, mandriões e tão estúpidos que não percebemos que estar desempregado é uma oportunidade para mudar de vida. Como se estar desempregado não fosse uma dramática mudança de vida…

 

Já estamos fartos de bater nesta tecla – o facto de Passos Coelho e a sua equipa terem chegado ao poder, enfrentando agora um António José Seguro, ou seja quando duas pessoas como eles ocupam o poder e a liderança da oposição, constitui uma prova do não funcionamento da democracia. Aos defeitos de que Passos Coelho nos acusa, juntamos o da credulidade – como podemos votar em gente como ele ou como o seu opositor. Groucho Marx dizia que nunca entraria num clube que o aceitasse como sócio. Passos Coelho parece desprezar quem o elegeu.

 

E nisso até tem razão.

  

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 11 de Maio de 2012

 

 

Nos últimos dias sucederam-se processos eleitorais em vários países, que permitem ver claramente o desejo de mudança que vai pela Europa, e não só. Alguns pensarão que na Europa será possível acontecerem algumas mudanças, mas muitos duvidam. No resto do mundo, as dúvidas são maiores ainda. Apenas na América do Sul parece haver alguma razão para esperança. E talvez nem ali.


Diário de Bordo hoje centra a sua atenção na Europa. Não é só porque Portugal fica na Europa. Numa ponta da Europa, com fronteiras apenas com a Espanha. É porque ainda há muita gente a pensar que a Europa é diferente. Na realidade está cada vez menos diferente. A vontade de mudar da população é amordaçada (Diário de Bordo tem a impressão que este termo já foi aplicado a Portugal noutra altura…)por considerandos disseminados maciçamente através da comunicação social, e por ameaças feitas de modo sub-reptício, ou mesmo às claras. Quem quiser ter um exemplo significativo, é olhar com atenção para o que se passa na Grécia, nomeadamente nos últimos dias. Desde suspensão dos empréstimos e expulsão do Euro, até vaticínios mirabolantes sobre o futuro do país, chovem as ameaças. Entretanto os bancos sobem os spreads bancários (vejam o Eurointelligence) e apertam a torneira (para não dizer o pescoço). É óbvia a mensagem aos gregos: vocês votaram mal, têm de votar outra vez, e desta vez portem-se com mais juízo. A televisão dá-nos mensagens de pessoas assustadas com a situação. É claro o que pretendem os chamados mercados. Samaras, o líder da Nova Democracia, nem perdeu tempo a tentar formar governo, apesar de ser o partido mais votado. Espera por outras eleições, e toca de fazer que lhe corram melhor. Ao Syriza de nada vale ser a favor da continuação da Grécia na União Europeia e na Zona Euro; está classificado como antieuropeu. Quem o mandou pedir a nacionalização dos bancos, a reposição da legislação laboral, etc. Não se pode entravar a concentração capitalista.


Toda esta campanha assenta nalgumas ideias, que formam uma ideologia e se procuram impor por todos os meios. A primeira é precisamente a que a ideologia capitalista, ou neo-liberal, não existe. Já se ouviu esta mentira colossal na boca de uma série de comentadores da nossa comunicação social, e do próprio ministro Álvaro da economia. Ela existe, e pur si muove!, de que maneira. Por sua vez inclui princípios como O Estado é mau administrador, A gestão privada é mais eficiente que a pública, etc. que não resistem a nenhum exame sério, e que servem para justificar jogadas tremendas, como as privatizações (agora até o nome vai ter de ser mudado cá no nosso, já que os serviços públicos do nosso país estão a ser liquidados na sua maioria a favor de companhias estatais de outros países. Outra mentira pesada é a de que a liberdade de despedir vai contribuir para diminuir o desemprego.


A classe dominante não está interessada em criar emprego. Está sim interessada em ganhar dinheiro. A Alemanha não está interessada na construção europeia, pelo contrário. O pacto fiscal ou orçamental caiu às mil maravilhas, porque corta as perspectivas de crescimento dos outros países, e permite que a Alemanha conserve o seu avanço industrial. A Alemanha quer é países com menos competitividade (olha o palavrão!) para poder continuar a vender os seus produtos. Entretanto, nos EUA, Obama/Romney não perdem de vista estes aspectos. Há que procurar outras vias. Dentro e fora da Europa.



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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Diário de bordo de 10 de Maio de 2012

 

 

Hoje não vamos explorar as efemérides, embora em 10 de Maio tenham nascido Fred Astaire,  Artur Paredes, ambos em 1899,  Dom António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, em 1906, Ettore Scola, em 1931… Em 10 de Maio de 1871 foi assinado em Francoforte o pacto entre  a França e a Prússia que poria termo à guerra entre os dois países, mas que, consagrando a derrota de França nos campos de batalha, abria a estrada ao espírito de conquista dos prussianos, à formação da Alemanha, a Bismarck, a Hitler, a Merkel… Mas foi também o rastilho para o incêndio da Comuna de Paris. Pano para mangas, como se vê. Mas hoje não há regressos ao futuro com idas ao passado - vamos lá mergulhar no pântano das notícias.

 

Na Grécia, as coisas estão complicadas. Tirar a batata quente do lume, é coisa que não agrada nem à esquerda, nem à direita. Aliás, continuamos a pensar que, em Portugal, o PSD fez um grande favor ao PS assumindo o governo na altura em que o fez. Talvez um governo do PS não tivesse ido tão longe nas medidas de terrorismo social, mas, algumas restrições teria de pôr em prática e desgastado como estava, bastava-lhe ter cortado 10% aos 13º e 14º mês para provocar uma ira generalizada. Esta gente que ocupa São Bento, dá vontade de rir quando faz planos para 2018… Mas alguém acredita que em 2018 ainda lá estão?

 

Porém, as perspectivas de mudança não são boas – Seguro revela-se vazio de ideias, um cágado manhoso que deita a cabeça de fora por diversas vezes antes de avançar um centímetro. Escutou os conselhos de Soares e depois fez o que os patrões europeus querem que faça. Agora vai aconselhar-se com Cavaco. Diálogo no escuro.

 

O lado das boas notícias fica vazio - A não ser que consideremos que Soares dos Santos ter garantido que o Pingo Doce não fará outra campanha como a do 1º de Maio e de Obama ter dito que aprova os casamentos de homossexuais, se considerem boas notícias.

 

Se calhar devíamos ter falado do Fred Astaire. Ou do Bispo do Porto, que sacrificou a sua carreira e pôs em risco a sua segurança para tomar uma atitude digna. Falámos de gente que sacrifica a dignidade para não pôr em risco a segurança.



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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 9 de Maio de 2012

 

Sem dúvida que neste momento é na Grécia, mais do que na França ou em Itália, que se está a jogar o futuro da União Europeia e, não será exagerado dizer, o futuro da Europa e dos europeus. A Grécia é um país periférico, um pequeno país, dirão muitos para contrariar esta afirmação. Contudo, da resposta que derem as instituições europeias e, mais ainda, das respostas que a França e a Alemanha derem ao que ali se passa, vão depender muitas das opções que vão ser tomadas noutros países. O Reino Unido, que também pode ser considerado como potência regional, com o actual governo vai virar-se cada vez para os EUA, sendo justo o reparo que os trabalhistas, que parecem estar a recuperar, não fariam muito diferente.


Era previsível que as eleições de domingo iam trazer grandes mudanças nas opções de voto dos gregos. E apesar do antidemocrático bónus de 50 deputados (tivesse sido o Syriza o partido a beneficiar dele o que não se ouviria nos jornais e televisões bem pensantes…) os partidos da troika tiveram grandes perdas e não ficaram em posição de sozinhos formar governo. O mais correcto será dizer que não o querem formar. Foi óbvio que Samaras, o líder da chamada Nova Democracia nem o tentou fazer. A acção do Syriza vai ser boicotada com o patrocínio dos responsáveis da UE, da Alemanha e da finança. O Syriza defende a formação de uma comissão internacional para avaliar da validade da dívida grega, a renegociação do memorando da troika, que se ponha fim à desregulamentação da relações de trabalho, o controle bancário, entre outras medidas, representando o conjunto uma viragem ideológica considerável, obviamente indispensável para relançar a economia do país, pôr fim à chamada austeridade e assegurar uma vida minimamente decente aos gregos. Isso vai bulir com os interesses que estão detrás das presentes políticas de austeridade, defendidas na Grécia pela chamada Nova Democracia e pelo PASOK. Estes dois partidos, entre si poderiam totalizar 149 deputados (com o bónus acima referido). Os partidos à sua esquerda totalizam 97 deputados e os partidos à direita 54. Obviamente que os partidos pró-troika não tentam o governo minoritário para forçarem novas eleições, induzindo alterações no sentido de voto.


As novas eleições poderão aumentar os problemas na Grécia, ao contrário do que alguns afirmam. A taxa de abstenção, domingo passado, ficou perto dos 35 %. Aumentará certamente noutra eleição, com o sentimento de que se pretende forçar os gregos a votar não nos seus interesses, mas sim nos de outrem. Por outro lado, poderá aumentar a votação no Aurora Dourada, o partido nazi. E convém ter presente que o poderoso exército grego poderá querer ter uma palavra a dizer. A Grécia esteve em ditadura militar no período 1967-1974.


Os responsáveis da UE, a começar pelos alemães e pelos sediados em Bruxelas fariam bem em ponderar estas questões, e prepararem-se para rever as suas políticas. O povo português tem toda a vantagem em acompanhar de perto o que se passa na Grécia. A reunificação alemã trouxe um profundo desequilíbrio à Europa. Nos outros continentes, a começar pela América do Norte, não haveria grande descontentamento pela consumação do fracasso da UE. Pelo contrário. Os lamentos de circunstância que ocorreriam pouco significariam. Países como a Grécia e Portugal seriam arrastados para outra dependência sem terem tempo para se prepararem para outros caminhos. É por isso que é importante começar a  prepará-los hoje já, dentro e fora da Europa.

 



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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Diário de Bordo de 8 de Maio de 2012

 

Não queremos transformar o Diário de bordo num almanaque de efemérides. No entanto, como se diz agora, há datas incontornáveis -  a de hoje é uma delas.

 

Ao fim da tarde do dia 8 de Maio de 1945, os sinos repicaram por todo o País. Na rádio disseram que a guerra terminara. Na manhã de 9 de Maio o locutor da Rádio do Reich confirmava, lendo um breve comunicado Era o final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Respirava-se de alívio. Lisboa e Porto foram palco de grandes manifestações - os antifascistas tinham a esperança de que a derrota da Alemanha e da Itália implicasse a queda do regime em Portugal. Foi quando Salazar fez um passe de mágica, declarando que vivíamos numa democracia... orgânica! E os Aliados fingiram acreditar, pois temiam que o poder fosse tomado pelos comunistas. E mais valia uma falsa democracia do que um verdadeiro regime de esquerdas. Numa Europa em ruínas, começava o jogo da «Guerra Fria».

 

A guerra fora desencadeada em 1 de Setembro de 1939 com a invasão da Polónia pela Alemanha. Morreram setenta milhões de pessoas, civis na sua maioria. O drama central desenrolou-se, pois, nesses cinco anos e meio, entre Setembro de 1939 e Maio de 1945 (embora o Japão só se tenha rendido em 2 de Setembro do mesmo ano).   Mais de 100 milhões de soldados de 70 países, tinham-se envolvido no conflito, opondo os Aliados às potências do Eixo - Alemanha, Itália e Japão. Foi a maior e mais sangrenta conflagração que a história da Humanidade regista.

 

Pesadelo que terminou em 8 de Maio de 1945, depois de Hitler e os seus principais apoiantes se terem suicidado. Cercados, os alemães tiveram de se render. Reza assim o documento que Keitel, Friedeburg, Stumpf, e outros, assinaram: “Nós, os abaixo-assinados, negociando em nome do Alto Comando alemão, declaramos a capitulação incondicional perante o Alto Comando do Exército Vermelho e também perante o Alto Comando das Forças Aliadas, de todas as nossas Forças Armadas na terra, no mar e no ar, assim como de todas as demais que no momento estão sob ordens alemãs. Assinado em 8 de Maio de 1945, em Berlim. »

 

A potência derrotada impõe agora leis na Europa. Uma Alemanha reconstruída economicamente graças à boa-vontade dos povos a que a loucura, a insana convicção da «superioridade germânica», provocara milhões de mortos e indizíveis sofrimentos, esquecida da generosidade de que beneficiou, faz tábua rasa do passado e, como todos os bons agiotas, tem o coração blindado, nele não deixando entrar sentimentos piegas. - Solidariedade? Está, bem está! Paguem mas é o que devem - quem não tem dinheiro, não tem vícios.

 

Em 1870, ainda antes da unificação, a Prússia invadiu a França, em 1914  em 1939, a Alemanha desencadeou guerras de grande amplitude. Agora, em vez de mandar as divisões Panzer da Wehrmacht, os aviões da Deutsche Luftwaffe, mandou os camiões TIR carregados com os seus produtos e depois pôs os europeus a fabricá-los nos seus países - Daimler, Volkswagen, BMW, Audi,  Bosch, BASF, Siemens, AEG, Adidas,Schering, ThyssenKrupp, Metro, Puma, Henkel, Bayer, Nivea. E também a Lufthansa, a Allianz...  Perdeu a guerra de 1914-18, perdeu a de 1939-45. A terceira parece ter ganho.

 

Mas nem as vitórias militares, nem as económicas garantem para sempre o domínio dos derrotados. Ao pôr o pé sobre uma Europa que a sua gula de prestamista empobreceu, obtém uma vitória pírrica - onde vai vender agora os seus produtos?

 

Talvez na China...

 

 

 



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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 7 de Maio de 2012

 

 

Ontem François Hollande venceu as eleições para Presidente da República em França. Na Grécia, os partidos considerados como do “arco do governo” (para usar uma expressão muito querida de vários comentadores portugueses, quando procuram instilar nos seus leitores, nos seus ouvintes, a ideia de que devem votar CDS/PS/PSD) sofreram grandes quebras nas votações, havendo um grande reforço à esquerda, e aparecendo a extrema direita pela primeira vez no parlamento. Noutros países também houve eleições.


Na Alemanha, nas eleições regionais em Schleswig-Holstein, a coligação da CDU de Angela Merkel com os liberais está com problemas. Os conservadores baixam ligeiramente, mas os liberais sofreram uma queda considerável. No Reino  Unido, há dias, houve eleições locais, os conservadores e o s liberais sofreram uma quebra, e os trabalhistas tiveram uma subida considerável, só falhando em recuperar Londres. Ontem e hoje decorreram eleições locais em Itália. Na Sérvia houve presidenciais, legislativas e locais.


Todo este movimento eleitoral se reveste, evidentemente, de muito interesse. Por todo o lado, de diversos modos, detecta-se que as pessoas têm um enorme desejo de mudança. O problema está em se o vão conseguir.  Por um lado, algumas destas eleições vão ser seguidas de outras que poderão pôr em causa os resultados e as expectativas agora alcançadas. É o caso de França, onde proximamente haverá eleições legislativas, e não é líquido que o Partido Socialista de François Hollande as vença. Por outro lado, é necessário que os resultados de uma eleição permitam arranjos, combinações políticas que concretizem a vontade do povo, admitindo que as votações ganhadoras foram em partidos que a compreendam (a vontade do povo) e realmente estejam dispostos a pô-la em prática. Diário de Bordo aqui não resiste a comentar que não tem sido frequente este último caso. Na Grécia, parece ter havido um grande aumento de votação nas forças políticas dispostas a exigir, pelo menos, alterações significativas no acordo com a troika. Os comentadores (muito pode esta gente!) já andam a preparar o terreno para novas ameaças de expulsão da Grécia da zona euro, da União Europeia, etc. O facto é que as autoridades europeias (chamemos assim ao Durão Barroso, ao Van Rompuy, etc., para não lhes chamarmos coisas mais feias) estão marimbando para a vontade do povo grego, do povo português, etc. Vão exigir respeitinho e pagamentos em dia, com muito dinheiro para a banca privada. E por aí a fora.


Algumas pessoas depositam esperanças no facto de François Hollande ter sido eleito, derrotando Sarkozy, o favorito da banca e da alta finança. Que ele vai ser capaz de travar os alemães, a finança, etc. De pôr a economia a crescer, criar empregos, etc. É muito duvidoso. Porquê? Porque era preciso que ele fosse ao assunto com toda a força. Começando por nacionalizar a banca, e não permitindo especulações, notas das parcas, perdão, das agências de notação, acabando com os cds (os credit default swap, não o do Paulo Portas) e mais uma série de poucas vergonhas que por aí andam. Será que o François Hollande vai fazer alguma coisa destas? Diário de Bordo tem muitas dúvidas. Até tem dúvidas de que ele queira.



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Domingo, 6 de Maio de 2012
Diário de bordo de 6 de Maio de 2012

 

 

Hoje, queríamos escrever um editorial optimista. Não é fácil, sobretudo se lermos as notícias sobre o País e o mundo e nelas nos inspiraramos. Em todo o caso, vamos tentar - Não se sabe ao certo, mas estima-se que  em cada segundo que passa, haja três nascimentos; 180 por minuto,  10800 por hora… Quase 260 mil por dia.

 

Ora muito bem – como já devem ter percebido, hoje sai mais um Diário de bordo atípico. É que, tal como Oscar Wilde, nós resistimos  a tudo menos às tentações e ao consultarmos as efemérides, entre dezenas de outros aniversários de famosos deparámos com oito irresistíveis personalidades – todas nascidas a 6 de Maio. Vamos passá-los em revista:

 

No dia 6 de Maio de1758, nasceu Maximilien de Robespierre, «o incorruptível» advogado e político francês que morreria guilhotinado em  1794, após ter mandado guilhotinar numerosos adversários.  Dando um salto de quase cem anos, em 1856, nasceu Sigmund Freud, psiquiatra austríaco, o pai da psicanálise. Morreria em 1939. Sempre neste dia, mas em 1861, foi a vez de abrir os olhos para o mundo Rabindranath  Tagore, escritor, poeta e músico indiano, vencedor do Prémio Nobel de Literatura em 1913. Morreu em 1941. No dia 6 de Maio de1895, nasceu  Rodolfo Valentino, actor norte-americano de origem italiana. Morreu em 1926 com apenas 31 anos, provocando numerosos suicídios entre as admiradoras.. Em 1897  chegou ao planeta Terra Árpád  Szénes, pintor, gravador, ilustrador, desenhador e professor húngaro, naturalizado francês em 1956, casado com a nossa Maria Helena Vieira da Silva. Morreu em 1985. Mudemos de século.

Em 6 de maio de 1915  nasceu um génio do cinema - Orson Welles, cineasta e actor norte-americano – o realizador e genial intérprete de Citizen Kane. Morreu em  1985. No mesmo dia, mas em 1953, nasceu  Tony Blair, um político britânico e em 1961 George Clooney, o famoso actor norte-americano. Estes dois, todos os conhecem.

Com tudo o que de horrível se passa no mundo, temos de procurar aspectos positivos. Sabermos que todos os dias nascem pessoas interessantes é confortante. Nascerá neste dia 6 de Maio de 2012 algum génio? Pensemos que sim. Sobretudo não pensemos nos que, tendo nascido ou nascendo hoje, vão daqui por umas décadas ensombrar a vida dos seus contemporâneos. 

 



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Sábado, 5 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 5 de Maio de 2012

 

No próximo domingo vai decorrer a segunda volta das eleições presidenciais francesas. Frente a frente estarão Nicolas Sarkozy e François Hollande. Parece que as sondagens dão vantagem ao segundo, mas o resultado final é muito duvidoso. Entretanto, há que referir que os poderes do presidente francês são mais alargados do que os poderes do presidente português (embora,  no caso de Cavaco Silva, este consiga  bastantes vezes dar azo a que se diga que está por aqui a mais). A questão que se põe é a de se há realmente vantagem na eleição de um ou de outro. Sobre Sarkozy já se sabe que é mau. É o preferido dos bancos e da finança; péssimo sinal. Promete ordem, realismo, por aí fora. É o caos garantido, e o desastre para os cidadãos franceses.


François Hollande tem por si realmente o facto de a banca e a finança em geral não gostarem dele; mas a partir daí? Realmente ter contra si os grandes responsáveis pela crise e insegurança generalizadas em que se vive em França quer dizer alguma coisa, mas será que Hollande poderá remar contra esses poderes? Será que realmente o pretende? Talvez, mas terá de pôr de parte aquelas convicções fantásticas de que é possível ter capitalismo e socialismo ao mesmo tempo, convicções que enterraram as populações da maior parte do mundo em crise muito sérias, de que as oligarquias se aproveitaram para nos porem na situação actual. Caso ganhe, terá de evitar os caminhos que seguiram Mitterand e Tony Blair, que deixaram muitos espíritos mergulhados na confusão, e contribuíram decisivamente para disseminar o sentimento de não haver alternativa às políticas de austeridade e empobrecimento, e para o actual avanço da extrema direita por toda a Europa.


O Le Monde, no seu editorial de ontem, afirmava que, para os franceses viverem uns com os outros, será indispensável, sem distinção de origem, de raça ou de religião, beneficiarem de um mínimo de prosperidade. E que ninguém, num país tão rico como a França, no princípio do século XXI, tenha dificuldade em aceder ao emprego, à educação, à habitação, aos cuidados de saúde, à reforma. É um apelo claro ao voto em Hollande. Nós já ouvimos isto, cá em Portugal. Os que ainda temos esperança de acabar com o jugo a que estamos sujeitos, sabemos que não basta ganhar eleições, é preciso mais: uma embalagem que nos dê acesso (e aos franceses, lá em França) a esse mínimo de condições, e que depois não dê margem a uma contra-reforma como a que estamos a sofrer.



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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
Diário de bordo de 4 de Maio de 2012

 

 

Da acusação que ASAE faz ao Pingo Doce de ter vendido produtos abaixo do preço de custo à ameaça de tornado, da entrada da Galp no mercado da venda de electricidade às eleições francesas, não faltam motivos para abordar neste Diário de bordo – nunca faltam. Porém, não falaremos hoje das coisas que se estão a passar – não temos de acompanhar a actualidade. Há, por essa blogosfera, muitos blogues informando, dando as últimas notícias.

 

Não deixará de haver informação sobre o dumping e sobre o resto. Hoje vamos falar de eufemismos, palavra de origem grega que, aparece registada em 1873 no dicionário de Domingos Vieira como sendo o « emprego de palavra favorável em vez de outra de mau agoiro».

 

Eduardo Galeano, o escritor e jornalista uruguaio do qual tantas vezes transcrevemos entrevistas ou artigos (como ontem e hoje, por exemplo) tem um livro a que deu o título - Patas arriba: la escuela del mundo al revés (1998) onde, descodifica alguns dos eufemismos mais utilizados. Por exemplo, é de mau gosto dizer “capitalismo” – quem não queira ser conotado com a esquerda, a expressão a usar deve ser “economia de mercado”; ao “imperialismo” deve chamar-se “globalização”; aos pobres deve chamar-se “carenciados”; a expulsão das crianças pobres do sistema educativo, deve designar-se por “insucesso escolar”. Em suma, um extenso dicionário do politicamente correcto. E conta mesmo o episódio ocorrido em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefactos que explodem”. Havemos de aqui publicar um artigo com mais equivalências que o livro de Galeano nos proporciona.

 

Detestamos eufemismos. Neste blogue não se chama lapso à mentira, nem social-democracia à estrutura oligárquica que, com conivências diversas, se robusteceu à sombra da democracia. O “politicamente correcto” não nos importa nem um bocadinho. Chamamos roubo ao enriquecimento ilícito, traição ao pragmatismo, oportunismo ao espírito de iniciativa, mentira aos lapsos. Mentira à mentira.

 

Porque, num grupo tão alargado como o nosso, existindo necessariamente diversas sensibilidades políticas, cada palavra tem de ter um significado preciso. Dentro da Argos cabem todos os ideais que se identifiquem com os valores da Liberdade, da Solidariedade e da Justiça – os eufemismos não entram. Se não pensamos todos da mesma maneira - não seria possível nem desejável - falemos todos a mesma língua - sem eufemismos.

 



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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 3 de Maio de 2012

 

Pela leitura dos textos de economia que temos publicado neste blogue, seleccionados e apresentados pelo argonauta Júlio Marques Mota, concluímos, sem sombra para dúvida que o objectivo principal das chamadas reformas estruturais (é claro que são na realidade contra-reformas, na medida que não constroem, mas sim destroem), para além de pôr fim ao estado social, é a precarização do vínculo laboral, que passa a ser a regra e não a excepção. A observação da realidade do nosso dia-a-dia confirma plenamente esta conclusão.


Pretende-se estender a toda a sociedade, a toda a actividade económica, a começar pela relação de trabalho, aquilo que se chama o espírito empresarial. Toda a gente terá de correr riscos na sua actividade profissional, isto é viver na incerteza, e procurar maximizar o lucro. O que vai acontecer é que, não sendo a grande maioria dos indivíduos e das famílias proprietária de meios de produção, será obrigada a recorrer diariamente a expedientes para poder sobreviver. A ideologia subjacente, pois é de uma ideologia que se trata, está implícita nos manuais do neoliberalismo, e é diariamente divulgada através da comunicação social. É verdade que os seus mentores negam a sua existência, mas ela é cada vez mais evidente. Defendem a propriedade privada, embora a maioria da população, incluindo os pequenos e médios proprietários, que lutam com dificuldades cada vez maiores para sobreviver, tenha dificuldades cada vez maiores para obtê-la, ou para a defender. Defendem a libertação da sociedade em relação ao estado (a expressão e deles), mas simultaneamente preconizam o reforço da repressão e o fortalecimento do militarismo, através da profissionalização das forças armadas, da limitação dos direitos de manifestação, e de greve, da redução da privacidade e da proliferação de sistemas de vigilância de todos os tipos, inclusive através da utilização das redes sociais e do cruzamento de informações. É óbvio que o grande objectivo dessa ideologia é manter o poder e a riqueza nas mãos de quem já a tem, e afastar a grande maioria das pessoas. Esta é a crua realidade. A violência dos resultados já se começa a poder constatar.


Anteontem, dia 1 de Maio, decorreu em Portugal um episódio que se poderia classificar de interessante, se não fossem os aborrecimentos e mesmo os sofrimentos infligidos a um grande número de pessoas, o que obriga a classificá-lo como detestável. As cadeias de supermercados impuseram aos seus trabalhadores a abertura no Dia do Trabalhador, obviamente para tentarem fazer ver que seriam mais as pessoas a fazerem compras do que a marcarem presença nas manifestações. E, claro, também para ganharem mais algum dinheiro. Entretanto, uma delas resolveu fazer uma promoção com características inéditas, tanto quanto Diário de Bordo se lembra. O resultado foi que grande número de pessoas acorreram a procurar beneficiar das condições oferecidas, dentro do espírito que se procura consolidar, e, é justo reconhecer, muitas delas aguilhoadas pelas carências cada vez maiores que se vão verificando.  O autor da promoção terá querido, para além de lançar consumidores contra trabalhadores, ultrapassar a concorrência. E talvez armar um espectáculo divertido (para ele, claro). É de temer que episódios semelhantes se generalizem, com incidentes cada vez mais graves.

 



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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Diário de bordo de 2 de Maio de 2012



 

 

Ontem, perante milhares de pessoas, na Alameda Afonso Henriques, o secretário-geral da CGTP fez uma longa intervenção, responsabilizando os governos das últimas décadas pela situação económica, pelas políticas de destruição do aparelho produtivo e do agravamento das injustiças sociais: «assinaram o chamado Memorando de entendimento com o FMI-BCE-UE, que promove as injustiças e as desigualdades, que generaliza o empobrecimento da população, aumenta a exclusão social e põe em causa a democracia e a soberania nacional». Disse ainda que os portugueses se devem unir, exigindo «uma mudança de política e de uma política alternativa». E foi, quanto a nós, o mais importante do discurso –  a unidade nunca foi tão necessária. Ela só será possível se partidos e movimentos de esquerda não insistirem na tentativa de a guiar, orientar, controlar... Porque a alternativa teremos de ser nós em conjunto e democraticamente a definir. As que já estão feitas, não servem.

 

Por seu turno, o primeiro-ministro durante um encontro com os Trabalhadores Sociais-Democratas (TSD), avisou que "A partir de 2013 tenderemos a absorver uma parte do desemprego, uma parte ainda pequena, e a partir de 2014 absorveremos uma fatia mais importante. Ou seja, temos que estar preparados para viver durante pelo menos dois ou três anos com níveis de desemprego a que não estávamos habituados, ele não vai desaparecer de um dia para o outro", admitiu esta tarde o primeiro-ministro. Já anteontem Vítor Gaspar dissera que a normalidade só voltaria em 2018.

 

Quer dizer – esta gente, este bando de incompetentes e mentirosos que assaltou o poder, destronando o bando rival de mentirosos e incompetentes, acha que vai ficar até, pelo menos, 2018. Ou então, que as medidas tão sábias que assumiu serão mantidas pelos que vierem. E nesta última suposição é capaz de estar certo.

 

O dia 1 de Maio de 2012 oscilou entre estes dois pólos – os que querem mudar a situação caótica em que nos puseram e propõem uma acção unitária e os que estão do lado das acções dos assaltantes. Houve também quem fosse viver momentos de acção para uma loja do Pingo Doce…



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Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 30 de Abril de 2012.

 

 

O caso da Escola da Fontinha, no Porto, para muita gente, pode revelar várias coisas, se o observarem sem ideias pré-concebidas. A primeira é o estado de degradação a que chegaram muitos dos imóveis  e dos bens em geral, pertencentes aos serviços públicos do nosso país. Em vez de os manterem a funcionar, e de os colocarem ao serviço da população, deixam-nos ao abandono. No futuro, não são se sabe daqui a quanto tempo, no terreno que ocupam actualmente poderão servir a outros fins, como construir mais prédios de luxo, ou centros comerciais. E a população da zona onde estão implantados, e para cujo serviço deviam estar reservados, será encorajada a procurar noutro local a resposta às suas necessidades.


A segunda coisa que este caso revela é que a iniciativa das pessoas, sobretudo  a  iniciativa destinada a procurar soluções para problemas básicos da população, não é desejada pelos poderes públicos e privados. E encontramo-nos assim perante uma das grandes contradições do sistema político-administrativo a que estamos sujeitos. É o problema da iniciativa privada. Os propagandistas oficiais enchem-nos os ouvidos com teorias sobre ser preciso libertar a sociedade do estado, favorecer a iniciativa privada, que esta cria riqueza, que o estado é mau administrador, etc. Contudo, quando um grupo de cidadãos toma uma iniciativa que vai ao encontro das carências básicas da população, com pessoas dispostas a trabalhar voluntariamente para a comunidade, encontra todo o tipo de obstáculos. É verdade que há muito que se constatou que a iniciativa privada só recebe apoios significativos quando cumpre determinados critérios de “fiabilidade”, que passam invariavelmente pelos relacionamentos do(s) autor(es) da iniciativa e pelo seu estatuto económico-social. Na realidade, o exemplo vem do alto: porque é que o Banco Central Europeu só empresta dinheiro à banca e não aos estados? Não será também pela prioridade à iniciativa privada? Mas a iniciativa que obedece aos tais critérios de fiabilidade, pelo que se constata. Os estados poderiam ir gastar o dinheiro em escolas, estradas, hospitais, etc.


O porquê das dificuldades encontradas pelos promotores do Es.Col.A – espaço colectivo autogestionado da Fontinha (é o nome que está no blogue que movimentam) reside essencialmente neste segundo ponto. A iniciativa em Portugal é reservada só a um certo número de pessoas. Os restantes (que são a grande maioria da população portuguesa) têm grandes dificuldades em promover qualquer iniciativa. Por vezes, conseguem-no, é verdade, mas à custa de tremendos esforços, e, não raro, por acaso.


Outra coisa que se revela quando se analisa este caso é que os autores deste tipo de iniciativa correm riscos sérios. A razão alegada para o despejo da semana passada é que terá ocorrido um ataque informático aos serviços da Câmara Municipal do Porto, acompanhado de ameaças a Rui Rio, por causa da acção na Fontinha. Será grave realmente se tal ataque e tais ameaças ocorreram. O que se pergunta é isso é justificação para a acção de entaipamento (acompanhada, ao que parece, de inutilização da canalização) da escola. Será que se provou os ataques, as ameaças, provinham do grupo da Fontinha? Saberiam sequer os membros do grupo que tinham ocorrido? Para muita gente menos atenta, ficam com a fama, pelo menos.


Este tipo de iniciativas tem obviamente de seguir regras. Mas a verdade é que o edifício da Escola se encontrava ao abandono, e que os ocupantes (o nome mais simpático que receberam, da parte dos representantes dos poderes instituídos foi o de okupas) o valorizaram. Assim como a todo o bairro. Os serviços da Câmara Municipal deveriam ter acompanhado de perto a acção, e os dirigentes da autarquia encorajado a iniciativa, depois de verificarem a sua validade. Inclusive, terá sido aprovada em reunião de Câmara uma decisão favorável a estabelecer um protocolo com os responsáveis da iniciativa. Não seria com certeza um protocolo como o que terá sido proposto pela Câmara, implicando o fim da iniciativa dentro de poucos meses. 



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Domingo, 29 de Abril de 2012
Diário de bordo de 29 de Abril de 2012

 

 

 

 

 

 

Jaime Cortesão nasceu em 29 de Abril de 1884.

 

 

Médico de formação, teve uma participação constante na vida política do País, durante a Primeira República e durante a ditadura salazarista. Mas para além dessa actividade, exerceu uma permanente acção cultural, como escritor, como investigador. Desde a revista Águia ao renovador movimento da «Renascença Portuguesa», ao papel desempenhado na direcção da Biblioteca Nacional e à criação da Seara Nova, Jaime Cortesão é um imorredoiro ícone do espírito de cidadania e de entrega aos valores da ética e do amor ao seu País.

 

Como nos fazem falta, no momento presente, homens como Jaime Cortesão e o seareiros!

 

O actual presidente do Parlamento Europeu,  o social democrata Martin Schulz, esteve anteontem em Espanha, mantendo reuniões com membros do Governo, e do Congresso de Deputados e representantes da Oposição. Quis também reunir com jovens espanhóis. No final, declarou aos jornalistas sentir-se deprimido, impressionado, com os efeitos que a crise está a provocar na juventude espanhola. Afirmou saber que existem diferenças claras entre as medidas tomadas por conservadores e socialistas para enfrentar e sair da crise. Expendeu a opinião de que se deve combinar a política de austeridade preconizado por Ângela Merkel com a política de crescimento económico e de estímulo à criação de emprego.

 

Ora, nós não temos uma oposição que apresente alternativas credíveis às medidas de austeridade extrema que esta gente está a aplicar. O secretário-geral do PS vai saindo ao caminho de Passos Coelho, numa tímida política de emboscadas verbais, sem apresentar uma alternativa em que as tais diferenças claras entre socialistas e neo-liberais surjam de forma inequívoca. Fica-nos a ideia de que, grosso modo, Seguro concorda no essencial e discorda no pormenor.

 

 

Quando pensamos que num País com elevados índices de analfabetismo, como era o Portugal da Primeira República, havia políticos como os do grupo da Seara Nova, por exemplo, Raul Proença, Jaime Cortesão, António Sérgio, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Câmara Reis… Este núcleo duro da revista definiu-a como sendo um projecto de doutrina e crítica. No editorial do nº 1, de 15 de Outubro de 1921, tinha objectivos pedagógicos e políticos – dir-se-á que, actualmente, com o analfabetismo erradicado ou reduzido a proporções residuais, esse tipo de pedagogia e de esforço doutrinário deixou de ser necessário. Sabe-se, no entanto, como a taxa de iliteracia é elevada – as pessoas sabem ler, juntam as sílabas, formam palavras, mas não lhes compreendem o sentido.

 

Esta iliteracia que afecta uma grande parte da população, está instalada nos partidos políticos do chamado bloco central. E para além do baixo nível de preparação cultural, há um preponderante espírito mercenário. Como nos fazem falta os seareiros. Homens como Jaime Cortesão. Por isso, tanto lamentamos o desaparecimento de Miguel Portas que, não estabelecendo comparações despropositadas, partilhava com Cortesão o conceito de que a política é dar e não apenas receber.

 



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Sábado, 28 de Abril de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 28 de Abril de 2012

 

 

A noite passada, no nosso blogue A Viagem dos Argonautas passou um filme, aliás um documentário, Os Donos de Portugal. Dá uma visão de como a vida económica do país tem sido dominada por um conjunto de famílias, com algumas entradas e saídas, praticamente de há cem anos a esta parte. E que esse domínio tem sido mantido graças aos laços íntimos que têm mantido com o estado, desde essa altura. Aborda-se ainda o problema de como este domínio constitui um travão para o crescimento e o desenvolvimento do país.


O documentário Os Donos de Portugal é a transposição para o cinema do livro do mesmo nome que foi publicado pelas Edições Afrontamento em 2010, de autoria de cinco elementos com responsabilidades no Bloco de Esquerda. O facto de a sua génese estar ligada a um partido político não afecta o seu interesse principal: abordar e explicar de um modo desassombrado um tema tão importante como a história económica portuguesa recente. Olhar para este assunto sem peias é indispensável para compreender a realidade portuguesa actual. O livro e o documentário são apenas uma etapa para um longo caminho a percorrer. Não é por acaso que o livro foi dedicado a João Martins Pereira (1932 – 2008), engenheiro químico de formação, que foi Secretário de Estado da Indústria no IV Governo Provisório, jornalista, ensaísta, grande estudioso da história da indústria em Portugal, colaborador da Seara Nova e de O Tempo e o Modo e autor de livros como Alguns Aspectos do III Plano de Fomento (1969), Pensar Portugal Hoje (1971), Indústria Ideologia e Quotidiano (1974), No Reino Dos Falsos Avestruzes (1983), Para a História da Indústria em Portugal (2005), e outros.


João Martins Pereira é pouco falado hoje em dia. Nunca fez o circuito dos colóquios e das televisões, como assinalou alguém, salvo erro, Francisco Louçã. Obviamente não era querido da nomenklatura que a oligarquia dominante mantém à frente da televisão e da comunicação social em geral. Em No Reino dos Falsos Avestruzes escreveu este trecho, sobre a iniciativa privada, na nota 14 do capítulo O Pântano Democrático:


… É certo que os detentores do capital, entre nós, sempre foram muito mais propensos à especulação (não apenas imobiliária) e à “multiplicação fácil do dinheiro” que ao investimento produtivo. O que sucede é que nos últimos anos, tem sido dado um sobre-estímulo a esta atitude: nunca a especulação, o contrabando, a exportação ilícita de capitais foram tão florescentes. Mesmo os menos ousados vêem no depósito a prazo ou nos títulos uma remuneração francamente mais cómoda do que o risco de um investimento. Aquelas exigências de apoio do Estado são, em grande parte, meros alibis.


Isto foi escrito em 1983. Podiam-se fazer outras citações. Basicamente os problemas continuam a ser os mesmos. Os avisos de João Martins Pereira não foram escutados.

 



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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Diário de bordo de 27 de Abril de 2012

 

Nas vésperas do Regicídio alguém terá dito que D. Carlos, estando à beira de um barril de pólvora, não se coibia de fumar e de deitar para onde calhasse a ponta ainda acesa do charuto . Até que acertou no barril… Era uma metáfora pouco subtil, mas referia-se à indiferença com que o rei avaliava a oposição, dizendo em entrevistas o que bem entendia, não evitando escândalos, ostentando um despesismo que fornecia à hábil propaganda republicana argumentos demolidores. Com uma taxa de analfabetismo que rondava os 80%, a demagogia andava à solta. O termo não tinha a carga pejorativa que hoje tem - «grande demagogo» significava «excelente orador». Não vaticinamos magnicídios nem comparamos a situação política actual com a de 1910, nem os actuais governantes aos de então  Cavaco não é comparável a D. Carlos, nem Passos Coelho a João Franco. Porém, este executivo, com a arrogância que só uma profunda ignorância permite, despreza todos os sinais que estão a ser dados e  insiste na agressão económica contra os mais desfavorecidos. E acompanha-a com declarações inconvenientes.

 

O coronel Vasco Lourenço pôs em causa a legitimidade de quem como presidente da República, é eleito por 25% do eleitorado; o mesmo ocorre com os deputados. A questão central, se queremos resolver o problema em democracia, situa-se na urgência de uma revisão constitucional. Este sistema, forçando o desinteresse dos cidadãos, falseia os resultados eleitorais e coloca o poder à disposição de gente que mais não faz do que servir os interesses dos grandes grupos económicos. Soa mal, parece linguagem panfletária, mas não há outra maneira de o dizer em poucas palavras. O filme do realizador Jorge Costa que apresentaremos em VAMOS AO CINEMA, “Os Donos de Portugal”, explica de forma eloquente como, desde há mais de um século, com todas as alterações políticas que ocorreram, o País é dominado pelas mesmas famílias. A luta entre os dois partidos do bloco central é apenas um reality show com um nível cultural semelhante aos da TVI – mas que pagamos muito caro, principalmente tendo em conta a má qualidade dos actores.

 

E esta gente que tomou o poder, beneficiando do mau desempenho do executivo anterior, passará sem que a história retenha os seus nomes, pelo que precisa urgentemente de protagonismo.  Há dez anos, Passos Coelho  participou no casting do musical My Fair Lady. Filipe La Feria não o aprovou e foi pena, pois deve ter sido esse fracasso teatral que o atirou para a política. A culpa do que estamos a passar é do La Feria. Mas Passos Coelho não devia ter desistido tão depressa – na TVI não teriam sido tão exigentes. Estaria bem melhor nos «Morangos com Açúcar»…

 

Sobretudo com mais protagonismo,

 



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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 26 de Abril de 2012

 

 

Morreu anteontem Miguel Portas. Quem o conhecia, sabia que era um político apaixonado, mas sabia também que as suas características pessoais eram o oposto das que normalmente se atribuem aos políticos: esperteza, egoísmo, frivolidade, memória curta no que respeita ao cumprimento de promessas, falta de carácter, desprezo pela cultura, comprazimento na tacanhez e na sabujice. As homenagens que lhe estão a prestar, vindas dos quadrantes mais diversos, demonstram bem o respeito que a maioria das pessoas lhe tinha. Respeito que a sua enorme honestidade e, se possível, ainda maior generosidade granjearam nos locais, nas horas e junto das pessoas mais diversas. Quem o conheceu, acompanhou a sua carreira, e vislumbrou, mesmo ao de leve, a grande quantidade de interesses que o Miguel prosseguia, sabia que entroncavam num grande objectivo, a defesa e o aprofundamento da liberdade e da democracia, e, concomitantemente, a promoção dos direitos dos oprimidos e dos desfavorecidos. Se ele tivesse querido seguir um caminho na vida mais cómodo, podia tê-lo feito com toda a facilidade. Não quis.


Fazer comparações com outros políticos, não é um exercício fácil, muito menos simpático. O respeito que se deve a todas as pessoas em geral recomenda contenção nesse exercício. Mas às vezes faz falta, pelo menos, comparar certas ideias ou opiniões. Nomeadamente quando são apresentadas a público.


Ontem, na Assembleia da República, na cerimónia de comemoração do 25 de Abril, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, referiu a necessidade dos portugueses darem no exterior uma boa opinião de si próprios. Dizendo que se escrevem lá fora coisas sobre o nosso país que não correspondem à realidade, afirmou que essa percepção negativa tem quem a veicule cá dentro. Afirmou ainda que todos os portugueses têm de contribuir para combater essa percepção negativa, para mostrar ao mundo qual é a verdadeira imagem de Portugal, e atrair o turismo e o investimento estrangeiro. Teceu também elogios ao recente acordo atingido na concertação social, que declarou ser essencial para a imagem no exterior, para mostrar haver coesão nacional. Pelo meio enumerou uma série de realizações alcançadas pelos portugueses nos vários sectores da ciência, da técnica e das artes (nas quais, curiosamente, não incluiu o Nobel de Saramago), dizendo ser necessário dá-las a conhecer lá fora, para além da tal imagem de coesão. Também procurou dar uma imagem positiva da adesão à União Europeia (então CEE). Até referiu como positivo haver um tratado europeu intitulado Tratado de Lisboa.


Evidentemente que o discurso de Cavaco Silva tem como objectivo apoiar o governo, calar a oposição e convencer os portugueses a não protestar contra as duras medidas que lhes estão a impor. Andam por aí uns estrangeiros a dizer mal de nós, e têm uns instigadores cá dentro, é a mensagem que quer fazer passar. Nós até somos bons, dobramos o Bojador, e vamos pagar o défice, mesmo que este seja mais fantasioso e difícil de encarar que o Adamastor. O que é preciso é portarmo-nos bem e fazer o que nos mandam.


Miguel Portas em Janeiro passado deu uma entrevista a António José Teixeira, que ontem foi passada novamente na SIC Notícias. Falaram de muitos assuntos, mas houve um aspecto que interessa referir, para confrontar com as ideias que Cavaco Silva nos quis fazer aceitar. Miguel Portas, a certa altura, referiu que uma das dificuldades que temos de enfrentar é a visão negativa que nos países do norte se tem dos países do sul. Lá dizem que enquanto eles trabalham, nós preguiçamos. Que se trata de uma autêntica ideologia, perfeitamente assimilada pelos governos daqueles países. Essa ideologia é invocada para justificar a severidade com que se trata o problema dos chamados défices. Não nos adianta mostrar que não tem qualquer fundamento concreto, que os trabalhadores portugueses são muito apreciados na França e na Alemanha (e em Portugal,  na Auto-Europa) e que a história portuguesa inclui muitos aspectos que mostram a capacidade de trabalho e de iniciativa dos portugueses.


Miguel Portas, generoso, altruísta, defensor de causas, europeísta não por oportunismo, mas por convicção, deixou-nos uma mensagem muito mais adequada que a de Cavaco Silva, político pragmático e primeiro-ministro quando Portugal aderiu à então CEE. Para nos endireitarmos é melhor não confiarmos nas elites europeias, que nos tratam de alto para baixo, e nos querem a pagar juros incomportáveis. É o que os move… Querem lá saber dos nossos feitos… Querem é o nosso dinheirinho. O Miguel, que era uma pessoa educada, não dizia bem assim, mas deixou bem claro o que Diário de Bordo se permite dizer desta maneira, para desabafar.


Até sempre, Miguel. Devia haver um Paraíso para os políticos como tu. Ele era ateu, nós também, mas compreenderão este desejo. 



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ARGONAUTAS

Adão Cruz

Afonso da Rocha Aguiar

Aleksandra Serbim

Álvaro José Ferreira

Amadeu Ferreira

Ana Afonso Guerreiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Mão de Ferro

António Marques

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Dorindo Carvalho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Pereira Marques

Francisca da Rocha Aguiar

François Morin

Hélder Costa

João Brito Sousa

João Machado

João Vasco de Castro

Joaquim Magalhães dos Santos

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Goulão

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Peres Lopes

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Margarida Antunes

Margarida Ruivaco

Maria Inês Aguiar

Mário Nuti

Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)

Moisés Cayetano Rosado

Octopus

Paulo Ferreira da Cunha

Paulo Rato

Paulo Serra

Pedro Godinho

Pedro de Pezarat Correia

Raúl Iturra

Roberto Vecchi

Rui de Oliveira

Rui Rosado Vieira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

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