Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
DIA DO BRASIL - Gal Costa canta o hino nacional do Brasil

E terminamos por este ano a comemoração do Dia Nacional do Brasil. Vamos ouvir o Hino da pátria brasileira, interpretado agora por Gal Costa.

 

 

 
 
Viva o Brasil!


publicado por Carlos Loures às 23:56
editado por Augusta Clara em 23/09/2011 às 18:17
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DIA DO BRASIL - Eu sei que vou te amar - Vinicius de Moraes y Maria Creuza, e a inesquecível interpretação de Elis Regina

 

Na verdade, há tantas e tão belas interpretações deste poema, que foi muito difícil escolher só estas duas

 

 
Elis Regina

 

 



publicado por Augusta Clara às 23:00
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DIA DO BRASIL - Atiraste Uma Pedra - Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Gal Costa


publicado por Augusta Clara às 22:30
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DIA DO BRASIL - Minsk - Graciliano Ramos

 

Quando tio Severino voltou da fazenda, trouxe para Luciana um periquito. Não era um cara-suja ordinário, de uma cor só, pequenino e mudo. Era um periquito grande, com manchas amarelas, andava torto, inchado, e fazia: - "Eh! eh!".

 
Luciana recebeu-o, abriu muito os olhos espantados, estranhou que aquela maravilha viesse dos dedos curtos e nodosos de tio Severino, deu um grito selvagem, mistura de admiração e triunfo. Esqueceu os agradeci­mentos, meteu-se no corredor, atravessou a sala de jantar, chegou à cozinha, expôs à cozinheira e a Maria Júlia as penas verdes e amarelas que enfeitavam uma vida trémula. A cozinheira não lhe prestou atenção, Maria Júlia franziu os beiços pálidos num sorriso desenxabido. Luciana. desorientou-se, bateu o pé, mas receou estragar o contentamento, desdenhou incompreensões, afastou-se com a ideia de baptizar o animalzinho. Acomodou-o no fura-bolo e entrou a passear pela casa, contemplando-o, ciciando beijos, combinando sílabas, tentando formar uma palavra sonora. Nada conseguindo, sentou-se à mesa de jantar, abriu um atlas. O periquito saltou-lhe da mão, escorregou na folha de papel, moveu-se desajeitado, percorreu lento vários países, transpôs rios e mares, deteve-se numa terra de cinco letras.

 

- Como se chama este lugar, Maria Júlia?

 

Maria Júlia veio da cozinha, soletrou e decidiu:

 

- Minsk.

 

- Esquisito. Minsk?

 

- É.

 

Não confiando na ciência da irmã, Luciana pegou o livro, avizinhou-se de mamãe, apontou o nome que negrejava na carta, junto aos pés do periquito:

 

- Diga isto aqui, mamãe.

 

- Minsk.

 

- Engraçado. Pois fica sendo Minsk, sim senhora. Caminhou muito e parou em Minsk. É Minsk.

 

Nomeado o periquito, Luciana dedicou-se inteira­mente a ele: mostrou-lhe os quartos, os móveis, as árvores do quintal, apresentou-o ao gato, recomendando-lhes que fossem amigos. Explicou miudamente que Minsk não era um rato e, portanto, não devia ser comido. Advertência desnecessária: o bichano, obeso, tinha degenerado, perdido o faro, e queria viver em paz com todas as criaturas. Aceitou a nova camaradagem e, dias depois, estirado numa faixa de sol, cerrava os olhos e aguentava paciente bicoradas na cabeça. Essa estranha associação lisonjeou Luciana, que supôs ter vencido o instinto carniceiro da pequena fera e a mimoseou com as sobras da afeição dispensada ao periquito.

 

O instinto de mamãe é que não se modificava: de quando em quando lá vinham arrelias, censuras, cocorotes e puxões de orelhas, porque Luciana era espevitada, fugia regularmente de casa, desprezava as bonecas da irmã e estimava a companhia de seu Adão carroceiro.

 

- Luciana!

 

Luciana estava no mundo da lua, monologando, imaginando casos romanescos, viagens para lá da esquina, com figuras misteriosas que às vezes se uniam, outras vezes se multiplicavam.

 

A chegada de Minsk alterou os hábitos da garota, mas isto no começo passou despercebido e mamãe continuou a fiscalizar o ferrolho alto da porta, a afastar as cadeiras da janela, excelente para fugas. Pouco a pouco cessaram as precauções - as amigas invisíveis de D. Henriqueta da Boa-Vista deixaram de visitá-la. D. Henriqueta da Boa-Vista era a personalidade que Luciana adoptava quando se erguia nas pontas dos pés, a boca pintada, as unhas pintadas, bancando moça. Perdeu o costume de andar assim, ganhar cinco centímetros apoiando os calcanhares nos tacões inexistentes de D. Henriqueta da Boa-Vista, esqueceu as escapada, as aventuras na carroça de seu Adão.

 

- Luciana!

 

Agora Luciana se encolhia pelos cantos, vagarosa, Minsk empoleirado no ombro. Sentia-se novamente miúda, quase uma ave, e tagarelava, dizia as complicações que lhe fervilhavam no interior, coisas a que de ordinário ninguém ligava importância, repelidas com aspereza. Mamãe saía dos trilhos sem motivo. A criada negra, rabugenta, estúpida, grunhia: — "Hum! hum!" Maria Júlia era aquela preguiça, aquela carne bamba, dessorada, e comportava-se direito em cima de revistas e bruxas de pano, triste. Papai sumia-se de manhã, voltava à noite, lia o jornal. E tio Severino, idoso, considerado, sentava-se na cadeira de braços e falava difícil. Nenhum desses viventes percebia as conversas de Luciana. Seu Adão carroceiro é que procurava decifrá-las, em vão: arredondava os bugalhos brancos, estirava o beiço grosso, coçava o pixaim, desanimado. Por isso Luciana inventava interlocutores, fazia confidências às árvores do quintal e às paredes. Esse exercício, agradável durante minutos, acabava sempre fatigando-a. As sombras misturavam-se, esvaíam-se. Afinal desapareceram, substituídas pelo periquito, colorido e ruidoso, de espírito dócil e compreensivo.

 

-  Minsk!

 

Minsk arregalava o olho, engrossava o pescoço, crescia para receber a carícia:

 

-  Eh! eh!

 

Antes de amanhecer estalava na casa o grito agudo que aperreava mamãe. Uma ponta da coberta descia da cama da menina. O periquito se chegava banzeiro, arrastando os pés apalhetados, segurava-se ao pano com as unhas e com o bico, subia. Os braços magros de Luciana curvavam-se sobre o peito chato, formavam um ninho. E os dois cochilavam um ligeiro sonho doce.

 

Minsk era também um ser disposto às aventuras e à liberdade. Agitavam-no caprichos, confusas recordações do mato, e batia as asas, alcançava a copa da mangueira, voava daí, passava algumas horas vadiando pela vizinhança. Satisfeitos esses ímpetos de selvagem, regressava, pulava dos galhos, pisunhava no chão, doméstico e trôpego. Se se demorava na pândega, Luciana, inquieta, subia à janela da cozinha, sondava os arredores, bradava com desespero, até que ouvia duas notas estridentes, localizava o fugitivo, saía de casa como um redemoinho, empurrava as portas, estabanada:

 

- Quero o meu periquito.

 

Entrava sem cerimónia, dava buscas, voltava triunfante, com o vagabundo no ombro. Virava o rosto, enviava-lhe beijos. Minsk se equilibrava agarrando-se à alça da camisa dela, metia a cabeça no cabelo revolto, bicava delicadamente as orelhas e o couro cabeludo. Ora, Luciana, estouvada, nunca via os lugares onde pisava. Mexia-se aos repelões, deixava em pontas e arestas fragmentos da roupa e da pele. Tinha além disso o mau vezo de andar com os olhos fechados e de costas. Sabia que essa maneira de locomover-se irritava as pessoas conhecidas, indivíduos ranzinzas, exigentes. Mas a tentação era forte. E se conseguia, de olhos fechados e de costas, atravessar o corredor e a sala de jantar, descer os degraus de cimento, chegar ao banheiro, considerava-se atilada e rejeitava as opiniões comuns. Optimismo curto. Urna pisada em falso, um choque na mesa, um trambolhão, e o orgulho se desmanchava. Um calombo aparecia no quengo, engrossava, justificava as impertinências caseiras. Luciana baixava a crista, humilhada. Necessário recomeçar as experiências até acertar.

 

Um dia em que marchava assim pisou num objecto mole, ouviu um grito. Levantou o pé, sentindo pouco mais ou menos o que sentira ao ferir-se num caco de vidro. Virou-se, alarmada, sem perceber o que estava acontecendo. Havia uma desgraça, com certeza havia uma desgraça. Ficou um minuto perplexa, e quando a confusão se dissipou, sacudiu a cabeça, não querendo entender.

 

-  Minsk!

 

A aflição repercutiu na casa, ofendeu os ouvidos de mamãe, de Maria Júlia, da cozinheira, chegou ao quintal e à rua.

 

-  Minsk! gritou mais baixo.

 

Parecia que era ela que estava ali estendida no tijolo, verde e amarela, tingindo-se de vermelho. Era ela que se tinha pisado e morria, trouxa de penas ensanguentadas. Minsk. Devia ser um sonho ruim, com lobisomens e bichos perversos. Os lobisomens iam surgir. Porque não acordava logo, Deus do céu? Saltar a janela, andar em ruas distantes, entrar na carroça de seu Adão.

 

-  Minsk!

 

Ele ia exibir-se, fofo, importante, banzeiro, arrastando os pés, todo trocado: — "Eh! eh!"

 

-  Não morra, Minsk.

 

Pobrezinho. Como aquilo doía! Um bolo na garganta, um peso imenso por dentro, qualquer coisa a rasgar-se, a estalar.

 

-  Minsk!

 

Ele estava sentindo também aquilo. Horrível semelhante enormidade arrumar-se no coração da gente. Porque não lhe tinham dito que o desastre ia suceder? Não tinham. Ameaças de pancadas, quedas, esfola-duras, coisas simples, sofrimentos ligeiros que logo se sumiam sob tiras de esparadrapo. O que agora havia se diferençava das outras dores.

 

Os movimentos de Minsk eram quase imperceptíveis; as penas amarelas, verdes, vermelhas, esmoreciam por detrás de um nevoeiro branco.

 

- Minsk!

 

A mancha pequena agitava-se de leve, tentava exprimir-se num beijo:

 

-Eh! eh!

 



publicado por Augusta Clara às 22:00
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DIA DO BRASIL - Mania de Você - Rita Lee e Milton Nascimento


publicado por Augusta Clara às 21:30
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DIA DO BRASIL - Cândido Rondon - por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

Explorador, geógrafo, pacificador: 1865 - 1958

 

 


MORRER, SE FOR PRECISO;
MATAR, NUNCA!

 

 

QUANDO TUDO
ACONTECEU...

 

 

 

1865: Nascimento de Cândido Mariano da Silva Rondon, em Mato Grosso, Brasil. - 1881: Ingressa na Escola Militar do Rio de Janeiro. - 1888: É promovido a alferes. - 1889, 15 de Novembro: participa na implantação da República. - 1890: Bacharel em Ciências Físicas e Naturais; promovido a tenente; professor de Astronomia, Mecânica Racional e Matemática Superior; abandona o ensino e passa a servir no sector do Exército dedicado à construção de linhas telegráficas pela vastidão do interior brasileiro. - 1892: Casa com Francisca Xavier. - 1898: Ingressa na Igreja da Religião da Humanidade (positivista). - 1901: Pacifica os índios Bororo. - 1906: Estabelece as ligações telegráficas de Corumbá e Cuiabá com o Paraguai e a Bolívia - 1907: Pacifica os índios Nambikuára. - 1910: É nomeado 1º director do Serviço de Protecção aos Índios. - 1911: Pacificação dos Botocudo, do Vale do Rio Doce (entre Minas Gerais e Espírito Santo). - 1912: Pacificação dos Kaingáng, de São Paulo. - 1913: Acompanha e orienta o ex-presidente americano Theodore Roosevelt na sua expedição ao Amazonas. - 1914: Pacificação dos Xokleng, de Sta. Catarina; recebe o Prémio Livingstone, concedido pela Sociedade de Geografia de Nova Iorque. - 1918: Pacificação dos Umotina, dos rios Sepotuba e Paraguai; começa a levantar a Carta de Mato Grosso. - 1919: É nomeado Director de Engenharia do Exército. - 1922: Pacificação dos Parintintim, do rio Madeira. - 1927/30: Inspecciona toda a fronteira brasileira desde as Guianas à Argentina - 1928: Pacificação dos Urubu, do vale do rio Gurupi, entre o Pará e o Maranhão. - 1930: Revolução no Brasil; Getúlio Vargas, o novo presidente, hostiliza Rondon que, para evitar perseguições ao Serviço de Protecção aos Índios, logo se demite da sua direcção. - 1938: Promove a paz entre a Colômbia e o Peru que disputavam o território de Letícia. - 1939: Reassume a direcção do Serviço de Protecção aos Índios. - 1946: Pacificação dos Xavante, do vale do rio das Mortes. - 1952: Propõe a fundação do Parque Indígena do Xingu. - 1953: Inaugura o Museu Nacional do Índio. - 1955: O Congresso Nacional brasileiro promove-o a Marechal e dá o nome de Rondónia ao território do Guaporé. - 1958: Morte de Cândido Rondon.

 

 

 

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publicado por Carlos Loures às 21:00
editado por Augusta Clara em 23/09/2011 às 17:45
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DIA DO BRASIL - A casinha pequenina - Francisco Ernani Braga, pelo Coral Pequenas Vozes

 

Regente: Miro Rodrigues
Tecladista: Miriã Cavalcante
Percussão: João
CEP em Artes Basileu França
e Escola de Arte Veiga Valle
Goiânia - Goiás

 

 



publicado por Augusta Clara às 20:30
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DIA DO BRASIL - O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro

O Real Gabinete Português de Leitura foi fundado em 1837 por iniciativa de um grupo de portugueses que, por questões políticas, se haviam refugiado no Rio de Janeiro.

 

O projecto foi do arquitecto Rafael da Silva Castro e foi realizado entre 1880 1887. Silva Castro, que trabalhara no projecto de remodelação do Mosteiro dos Jerónimos, concebeu o projecto em estilo neomanuelino, seguindo a corrente revivalista que então dominava a arquitectura portuguesa. De notar a grande semelhança entre a fachada do Real Gabinete e a da estação ferroviária do Rossio. A pedra da fachada, o tradicional lioz, foi levada de Lisboa.

 

O Imperador D. Pedro II colocou a primeira pedra e no dia 10 de Setembro de 1887 teve lugar a inauguração.

 

A monumental biblioteca com cerca de 350 000 volumes, está aberta ao público desde 1900. Algumas edições obras raras fazem parte deste riquíssimo espólio por exemplo, o da edição "princeps" de Os Lusíadas (1572), as Ordenações de D. Manuel (1521), os Capitolos de Cortes e Leys que sobre alguns delles fizeram (1539), a Verdadeira informaçam das terras do Preste Joam, segundo vio e escreveo ho padre Francisco Alvarez (1540)… É a biblioteca com acervo mais valioso que existe no exterior de Portugal.

 

Possui ainda uma riquíssima colecção de pintura portuguesa e brasileira. A Academia Brasileira de Letras tem a sua história ligada à desta instituição, pois ali se realizaram as primeiras sessões solenes, sob a presidência de Machado de Assis.

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara em 23/09/2011 às 17:45
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DIA DO BRASIL - Toda Menina Baiana - Gilberto Gil


publicado por Augusta Clara às 19:30
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DIA DO BRASIL - A Arte Brasileira quadro a quadro

O crítico e historiador de arte Rafael Cardoso leva-nos numa visita guiada pelo Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

 

Um olhar sobre a arte brasileira do século XX. Vamos ver e escutar Rafael Cardoso:

 

 



publicado por Carlos Loures às 19:00
editado por Augusta Clara em 23/09/2011 às 18:08
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DIA DO BRASIL - Negue - Maria Bethânia


publicado por Augusta Clara às 18:30
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DIA DO BRASIL - Por Enquanto - Clarice Lispector

 

Como ele não tinha nada o que fazer, foi fazer pipi. E depois fi­cou a zero mesmo.

 

Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tu­do isso é por enquanto. Enquanto se vive.

 

Hoje me telefonou uma moça chorando, dizendo que seu pai morrera. É assim: sem mais nem menos.

 

Um dos meus filhos está fora do Brasil, o outro veio almoçar co­migo. A carne estava tão dura que mal se podia mastigar. Mas be­bemos um vinho rosé gelado. E conversámos. Eu tinha pedido pa­ra ele não sucumbir à imposição do comércio que explora o dia das mães. Ele fez o que pedi: não me deu nada. Ou melhor me deu tu­do: a sua presença.

 
Trabalhei o dia inteiro, são dez para as seis. O telefone não toca. Estou sozinha. Sozinha no mundo e no espaço. E quando telefono, o telefone chama e ninguém atende. Ou dizem: está dormindo.

 

A questão é saber aguentar. Pois a coisa é assim mesmo. Às ve­zes não se tem nada a fazer e então se faz pipi.

 

Mas se Deus nos fez assim, que assim sejamos. De mãos aba­nando. Sem assunto.

 

Sexta-feira de noite fui a uma festa, eu nem sabia que era o ani­versário do meu amigo, sua mulher não me dissera. Tinha muita gente. Notei que muitas pessoas se sentiam pouco à vontade.

 

Que faço? telefono a mim mesma? Vai dar um triste sinal de ocu­pado, eu sei, uma vez já liguei distraída para o meu próprio número. Como acordo quem está dormindo? como chamo quem eu que­ro chamar? o que fazer? Nada: porque é domingo e até Deus des­cansou. Mas eu trabalhei sozinha o dia inteiro.

 

Mas agora quem estava dormindo já acordou e vem me ver às oito horas. São seis e cinco.

 

Estamos no chamado «veranico de maio»; grande calor. Meus dedos doem de tanto eu bater à máquina. Com a ponta dos de­dos não se brinca. É pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos.

 

— Eu devia ter me oferecido para ir ao enterro do pai da moça? A morte seria hoje demais para mim. Já sei o que vou fazer: vou comer. Depois eu volto. Fui à cozinha, a cozinheira por acaso não está de folga e vai esquentar comida para mim. Minha cozinheira é enorme de gorda: pesa noventa quilos. Noventa quilos de insegu­rança, noventa quilos de medo. Tenho vontade de beijar seu rosto preto e liso mas ela não entenderia. Voltei à máquina enquanto ela esquentava a comida. Descobri que estou morrendo de fome. Mal posso esperar que ela me chame.

 

Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu co­mo, e depois volto à máquina. Até já.

 

Já comi. Estava óptimo. Tomei um pouco de rosé. Agora vou to­mar um café. E refrigerar a sala: no Brasil ar refrigerado não é um luxo, é uma necessidade. Sobretudo para pessoa que, como eu, so­fre demais com o calor. São seis e meia. Liguei meu rádio de pi­lha. Para a Ministério da Educação. Mas que música triste! não é preciso ser triste para ser bem-educado. Vou convidar Chico Buarque, Tom Jobim e Caetano Veloso e que cada um traga a sua vio­la. Quero alegria, a melancolia me mata aos poucos.

 

Quando a gente começa a se perguntar: para quê? então as coi­sas não vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas «por enquanto». São vinte para as sete. E para que é que são vinte para as sete?

 

Nesse intervalo dei um telefonema e, para o meu gáudio, já são dez para as sete. Nunca na vida eu disse essa coisa de «para o meu gáudio». É muito esquisito. De vez em quando eu fico meio machadiana. Por falar em Machado de Assis, estou com saudade dele. Parece mentira mas não tenho nenhum livro dele em minha es­tante. José de Alencar, eu nem me lembro se li alguma vez.

 

Estou com saudade. Saudade de meus filhos, sim, carne de minha carne. Carne fraca e eu não li todos os livros. La chair est triste.

 

Mas a gente fuma e melhora logo. São cinco para as sete. Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha.

 

Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
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DIA DO BRASIL - Quem Sabe? - Carlos Gomes, cantado por Denise De Freitas


publicado por Augusta Clara às 17:30
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DIA DO BRASIL - Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia - por Clara Castilho

Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia, chegam-pela mão da nossa colaboradora Clara Castilho, filha de Maria-Cecília Correia. O texto que publicamos foi dedicado pela grande escritora brasileira à notável escritora portuguesa. Inserido numa carta, ignora-se se é ou não um inédito. É muito interessante, Eis duas breves notícias biográficas de ambas:

 

Maria Cecília Correia Borges Cabral Castilho (1919-1993) nasceu em Viseu e faleceu em Lisboa. Usando o nome literário de Maria-Cecília Correia, dedicou-se sobretudo à Literatura Infantil. Os seus  livros, inspirados sobretudo em acontecimentos do quotidiano, têm em geral como tema central o mágico mundo da criança.

 

Principais obras: Histórias da Minha Rua,  1957; Histórias de Pretos e Brancos e Histórias da Noite, 1960; Histórias do Ribeiro, 1974;  O Coelho Nicolau, 1974; Amor Perfeito,  1975; Histórias da Minha Casa, 1976; O Besouro Amarelo,  1977; Bom Dia,  1983; Manhã no Jardim, 1978; Pretérito Presente, 1976.

 

Cecília Meireles nasceu em 1901, no Rio de Janeiro e faleceu em 1964, também no Rio de Janeiro. Considerada uma das grandes vozes poéticas da língua portuguesa no século XX. No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil. Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940. Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).

 

Principais obras: Espectros, 1919 l Nunca mais... e Poema dos Poemas, 1923 ; Baladas para El-Rei, 1925; Criança, meu amor, 1927; Viagem, 1939; Vaga música, 1942; Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945;Retrato natural, 1949 Amor em Leonoreta, 1951; Dez noturnos de Holanda & O aeronauta, 1952 ; Romanceiro da Inconfidência, 1953; Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955; Canções, 1956; Romance de Santa Cecília, 1957; Obra poética, 1958; Metal Rosicler, 1960; Poemas escritos na Índia, 1961; Solombra, 1963; Ou isto ou aquilo, 1964; Crônica trovada da cidade de Sam Sebastian, 1965; Poemas italianos, 1968; Ou isto ou aquilo & Inéditos, 1969; Cânticos, 1981; Oratório de Santa Maria Egipcíaca, 1986 .

 

 

À direita: "Cecília Meireles em Lisboa". (Desenho de seu primeiro marido, Fernando Correia Dias).

 

 

 

 

 

 

 

O gato desce

a escada

 

Para Maria-Cecília Correia

 

 

 

 

Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrelas, nebulosas, cometas – no meio do universo.

 

O gato desce a escada. Solenemente. Como se soubesse tudo isso e muito mais.

 

O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.

 

Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’água da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai. Botânica, Zoologia,

Mineralogia, nada disso tem nome, para êle, nem conteúdo, nem separação.

 

O gato desce a escada.

 

Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sêde: é luzidio, nédio, grande e sereno.

 

Mas desce a escada.

 

Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos máus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.

 

Humanidade, Vida, Morte, Dôr, Alma, Deus, - êle caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.

 

Quando escurecer, seus olhos serão fosforecentes. Mas êle nunca viu seus olhos. Atrás dêle vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.

 

O gato desce a escada.

____________

 

E encerramos com «Modinha», poema de Cecília Meireles, musicado e interpretado por Carlos Walker:

 



publicado por Carlos Loures às 17:00
editado por Augusta Clara em 23/09/2011 às 18:11
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DIA DO BRASIL - Garota de Ipanema - Tom Jobim com Vinicius de Moraes


publicado por Augusta Clara às 16:30
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DIA DO BRASIL - Aquarela do Brasil (II) - por Carlos Loures

 

 

 (Continuação)

 

Se quisermos fixar o momento em que a galopada da direita começou, teríamos de recuar até 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao mandato no próprio ano em que foi empossado, O Vice-presidente, João Goulart assumiu a Presidência, de acordo com o quadro constitucional em vigor.

 

No momento da renúncia de Jânio Quadros, Goulart encontrava-se em visita de Estado à China, o que levou os adversários a impedir a sua nomeação automática como presidente da República, acusando-o de ser comunista. Se estava de visita a um estado comunista é porque era comunista. Não vos parece óbvio? Não? A mim também não. Mas para os adversários de Jango era-o. Conclusão muito conveniente, pois a Constituição brasileira, aprovada em 1946, impedia o acesso de comunistas ao cargo presidencial.

 

Seguiu-se uma demorada ronda de negociações, em que Leonel Brizola (cunhado de Jango) teve um papel preponderante. Essas diligências possibilitaram que Goulart acabasse por ser aceite como presidente.

Em 1963, um plebiscito determinou o regresso ao regime presidencialista e, mercê dessa nova moldura jurídico-institucional, Jango pôde enfim assumir o cargo com amplos poderes. Tudo parecia estar resolvido.

 

Porém, as coisas voltaram a complicaram-se quando militares de baixa patente, sobretudo da Marinha e da Aeronáutica, manifestaram publicamente o seu apoio ao Presidente. A direita logo  considerou que esse apoio era feito devido ao resvalamento de João Goulart para posições e medidas esquerdistas ou esquerdizantes.

 

Dizia-se mesmo que estaria prestes a desencadear um golpe antidemocrático para impor um governo radical de esquerda; outros falavam na perspectiva de uma ditadura inspirada no justicialismo ou peronismo da Argentina, levando a que as classes possidentes e os políticos mais conservadores se sentissem ameaçados.


 

Com estes fantasmas agitados ante os sectores conservadores, a Igreja Católica e os militares de alta patente criaram um cenário perfeito e o clima propício para aquilo que a Direita, pondo as tropas nas ruas, considerou não um golpe, mas o impedimento de um golpe. Um daqueles malabarismos semânticos, tão disparatados  e risíveis que só a força das armas consegue sustentar. O governo militar autodesignou-se «Revolução de 31 de Março de 1964», com o objectivo «revolucionário» de acabar com a subversão e a corrupção «marxistas», mantendo, a princípio as eleições presidenciais marcadas para 3 de Outubro de 1965, porém sem a presença de candidatos da extrema esquerda.

 

 

Assim, no dia 2 de Abril de 1964, o presidente do Congresso Nacional, declarou vagos os cargos de Presidente e de Vice-presidente. João Goulart, ante as movimentações militares de 31 de Março, apoiadas por governadores estaduais, refugiara-se no Uruguai. O general Mourão Filho, líder do golpe militar, afirmou que João Goulart fora afastado por abuso do poder. Os militares iriam defender a Constituição, disse. E, a princípio, mantiveram os 13 partidos políticos existentes, bem como o Congresso Nacional em funcionamento. Cassaram os direitos políticos dos políticos de esquerda, mas tentaram encostar-se aos partidos políticos sobreviventes para garantir apoio no Congresso e manter pelo menos a aparência de um Estado de Direito. O general Costa e Silva, que aderira à última hora ao golpe, assumiu o ministério da Guerra. A sua influência foi aumentando até se tornar o rosto da linha dura do Exército. Foi o segundo presidente da República do regime, seguindo-se a João Baptista Figueiredo.

 

As diferentes oposições organizadas movimentaram-se.

Estou a escrever estas palavras em 25 de Agosto de 2010, e faz hoje precisamente 44 anos que, em 25 de Agosto de 1966, foi criada a Frente Ampla, plataforma política onde se reuniam homens como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, cobrindo um leque que ia da direita conservadora de Lacerda, ideologicamente próximo dos golpistas, até um João Goulart, mais esquerdista. Todos contra o Regime Militar.

 

O moderado Juscelino Kubitschek estava exilado em Lisboa e foi Renato Archer, deputado do Movimento Democrático Brasileiro (que não fora posto fora da lei pelos militares) quem mediou as conversações entre o ex-presidente e os outro dois elementos da Frente.

 

No dia 19 de Novembro de 1966, Lacerda e Juscelino emitiram a Declaração de Lisboa, onde afirmavam a intenção de trabalhar juntos numa frente ampla de oposição. A nota mais saliente desta declaração era o apelo aos cidadãos brasileiros no sentido de apoiarem a formção de um grande partido de base popular.Carlos Lacerda procurou em seguida chegar a um acordo com Jango e com as franjas mais esquerdistas do MDB, a chamada "corrente ideológica". Tentou mesmo contactos com o Partido Comunista Brasileiro, na clandestinidade. Os militantes comunistas dividiram-se. Uns aprovavam o acordo outros recusavam-no liminarmente. A leitura que faziam era lógica - com Juscelino e Jango exilados,  Lacerda seria o único a ganhar com o acordo. Em 1967, Carlos Lacerda foi fortemente pressionado a abandonar a Frente e a colaborar com o Regime Militar. No entanto, Lacerda recusou essas propostas, revelando uma insuspeitada coerência democrática.

 

 

E, como jornalista e tribuno, prosseguiu com as suas aceradas críticas ao governo,. Assim, em Agosto de 1967, o então ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva proibiu a sua ida à televisão.

 

Em 1 de Setembro desse mesmo ano, foi determinado que a Frente Ampla seria dirigida apenas por parlamentares e por gente com ligações à Igreja Católica. Decidiu-se também  que seriam enviados emissários para mobilizar a opinião pública em torno dos ideais frentistas. No dia 2, porém, um golpe de teatro - 120 dos 133 parlamentares oposicionistas,  recusaram-se a participar. Tal como acontecera com os comunistas, estes políticos suspeitavam que  Carlos Laceda pretendia servir-se da Frente  como alavanca pessoal - teria a intenção de se candidatar à presidência da República.

 

Apesar das suspeições, Lacerda prosseguiu com as suas diligências e, em 24 de Setembro, foi a Montevideu ao encontro de Jango. No dia seguinte foi emitido um comunicado conjunto em que a Frente Ampla era defendida. Leonel Brizola, também exilado no Uruguai, condenou com violência a aceitação do acordo por parte de Jango. Por seu lado, Lacerda também teve problemas, pois o comunicado  anunciando o seu acordo com Goulart foi a gota de água que fez transbordar a taça da paciência dos militares da chamada  "linha dura". Os militares retiraram o apoio  que até então tinham concedido a Lacerda.

 

A Frente, apesar deste parto tão difícil, ganhou pontos ao conseguir implantação entre os estudantes e também entre o operariado. Organizou numerosos comícios e sessões de esclarecimento. Num deles, realizado em Santo André, em Dezembro de 1967 reuniu muitos milhares de manifestantes e em Abril do ano seguinte, em Maringá, concentrou mais de cento e cinquenta mil oposicionistas, sobretudo operários e estudantes. As coisas pareciam correr bem. Mas...Em face destes desenvolvimentos, através de uma portaria do Ministério da Justiça, Costa e Silva proibiu todas equaisquer actividades da Frente Ampla A  Polícia Federal recebeu ordens para prender todos os que, de algum modo, desrespeitassem esta determinação.  A Frente Ampla estava fora da lei.

 

Vamos parar por hoje. Continuamos um destes dias.

 

 



publicado por Carlos Loures às 16:00
editado por Augusta Clara em 23/09/2011 às 17:53
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DIA DO BRASIL - Suíte do pescador - Dorival Caymmi, por Gal Costa e Dori Caymmi


publicado por Augusta Clara às 15:30
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DIA DO BRASIL - Poema da Curva e Meu Sósia e Eu - Oscar Niemeyer

 

O Poema da Curva

 

Não é o ângulo recto que me atrai

Nem a linha recta, dura, inflexível,

criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual,

a curva que encontro nas montanhas

do meu país,

no curso sinuoso dos seus rios,

nas ondas do mar,

no corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo.

O universo curvo de Einstein.

 

 

 

 

Meu Sósia e Eu

 

Meu sósia vem de longe, de outros continentes, de tempos tão distantes que deles só os livros podem lembrar. Mas vem também de áreas mais próximas, vem de Maricá onde nasceram meus avós Ribeiro de Almeida.

 

Traz consigo velhas lembranças, entre elas a correcção do meu avô; as rabugices de minha avó; as maluquices de meus tios, Nhonhô e Ziza; a simplicidade descontraída de meu querido pai; a meiguice de minha mãe Finota. Mas o acompanham também velhos preconceitos, angústias e alegrias que tenta superar. É bom amigo, e com ele vou vivendo pela vida afora muito bem.

 

Agora, a genética procura descobri-los, ele e seus irmãos espalhados em todos nós, e para eles transfere parte de nossas qualidades e defeitos.

 

Nada tenho a me queixar deste intruso que dentro de mim existe e há anos me cerca com seus conselhos.

 

Mais puro do que eu — desconhece todos os preconceitos da sociedade — ele me sugere coisas impossíveis. Mas é honesto, despreza bens materiais, é leal e generoso, o que facilita essa conversa diária que mantemos.

 

Gosta da beleza. A mulher o fascina e a natureza o emociona. Muita coisa nos identifica.

 

Se começo a desenhar um projecto ele me pega pelo braço, levando-me em êxtase para as formas novas, curvas e imprevisíveis que preferimos.

 

Lembranças do nosso país, das suas montanhas, das curvas sensuais da mulher bonita.

 

Mas é lúbrico. Se uma mulher se aproxima, ei-lo a me insinuar coisas proibidas.

 

Não é difícil levá-lo para os problemas sociais. Seu feitio fraternal facilita. E assim vamos nós, de mãos dadas, sonhando melhorar o mundo.

 

Quando encontro uma pessoa, lembro logo que dentro dela esse pequeno sósia também existe e a vejo com mais tolerância pois dele decorrem, e muito, suas qualidades e defeitos.

 

Lembro-me dela como de uma casa que pode ser modificada, ter o telhado, portas e janelas consertados, mas que será sempre deficiente se seu projecto inicial foi mal concebido. E nela a influência genética também foi definitiva.

 

Curioso, meu sósia quer ocupar-se de coisas em demasia. Desenhar, fazer esculturas e literatura. Procuro contê-lo, fazendo autocrítica, ouvindo os amigos, lendo muito.

 

Mas ele insiste. Diz que a arquitectura deve estar ligada a todos os assuntos da cultura e lembra como afirmativas de Heidegger e Malraux me foram úteis na defesa dos meus projectos.

 

Tudo que faço tem sua participação e com ele divido o que vocês acharem de bom ou ruim neste livro.

 

(Oscar Niemeyer, Meu sósia e eu, Campo das Letras)

 



publicado por Augusta Clara às 15:00
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DIA DO BRASIL - Sem Fantasia - Paula Santoro com Chico Buarque


publicado por Augusta Clara às 14:30
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DIA DO BRASIL - Memórias de Oscar Niemeyer

 

Com o tempo, sentia-me — como a maioria dos meus colegas - pouco informado nos assuntos fora da arquitectura e resolvi deles me ocupar.

 

Lembrava Rodrigo a me dizer: "Oscar, leia os gregos e os clássicos portugueses". E li. Li muito. Li como quem nada sabe e tudo quer aprender. Li com a devoção com que lera, anos antes, a obra de Le Corbusier.

 

E comecei pelos gregos, como meu amigo aconselhava, curioso diante dos discursos de Sócrates e Platão, da maneira inteligente com que faziam seus diálogos, astuciosos, de exemplar coerência. E passei, em seguida, aos clássicos portugueses, a Diogo do Couto, Fernão Lopes e outros, a contarem as pilhagens pelas costas da África e as "espingardadas" com que as resolviam. Era a linguagem simples, concisa, directa, que Rodrigo apreciava.

 

Interessado na literatura, segui em frente lendo, cuidadoso, devagar, os discursos de Vieira, os livros de Herculano, Eça de Queirós e Machado de Assis.

 

Herculano, com sua linguagem severa. Eça às vezes barroco, mas cheio de graça e espontaneidade. Como ainda hoje recorro aos Maias ou à Ilustre Casa de Ramires.

 

Machado de Assis a fazer ironias, a invadir a alma de seus personagens.

 

Não tinha pretensões literárias. Queria apenas poder explicar meus projectos de forma clara e simples. E prossegui, debruçado na literatura do Brasil e Portugal, a sentir em cada um dos que lia suas grandezas e qualidades. E li, de Machado aos novos escritores dos dois países, entusiasmado com a simplicidade de alguns, com a imaginação e espontaneidade de outros, com a preocupação política e social dos que trazem a miséria dentro do peito. E passei aos estrangeiros, surpreso com a unidade literária de Camus; a inteligência e cultura de André Malraux; a invasão do ser humano de Freud, Kafka e Graciliano; a pureza de Gide e Tchekhov; o realismo de Henry Miller; a agilidade e o talento cie Proust; a grandeza dos escritores russos como Tolstoí, Tchekhov, Dostoievski e Gorky.

 

Mas, sempre pela rama, sentia que a literatura não me bastava, que precisava conhecer melhor o mundo em que vivemos, o porquê da nossa presença neste velho planeta.

 

E os ensaios sobre a vida, a genética e o cosmos me atraíram. Muito aprendi ao ler Jacob e Monod, a obra de Sartre a nos induzir que toda a vida é um fracasso, a nos explicar seu existencialismo: "A precedência da existência da criatura sobre a essência".

 

Nas horas vagas, lia os livros didácticos de Celso Cunha e os grandes mestres da poesia - Baudelaire a falar de amor, Neruda a cantar a revolução.

 

Não me permitia criticar ninguém nem assumir posições radicais. Era apenas um curioso no assunto. Lia com igual respeito um livro de Garcia Mãrquez e Jorge Amado ou um romance de Anatole France; uma poesia de Apollinaire ou outra de Drummond ou Gullar. Em cada um deles apreciava coisas diferentes, como se estivesse defronte de uma pintura de Matisse e de um quadro cie Picasso. Até os livros policiais de Simenon me atraíam, o que, ao comentá-los, deixava irritados nossos "intelectuais", que um dia fuzilei contando que, nas suas Lettres au Castor, Sartre, satisfeito, disse: "Hoje li três livros de Simenon".

 

Quando um escritor mais importante me fascinava, procurava ler sua correspondência. Quantas coisas aprendi lendo cartas de Lenine a Gorki e Tchekhov, as memórias de Gide, Buriuel e tantos outros!

 

Pessoalmente, prefiro a linguagem simples, do quotidiano. "A literatura se engrandece quando se aproxima da linguagem oral", disse Moravia numa das suas entrevistas. 

 

Mas, se os livros de conteúdo social me entusiasmavam, outros, que nada disso oferecem, também me atraíam. Era a pureza literária a dispensar outros predicados, embora juntos pudessem, sem dúvida, se enriquecer ainda mais. Mas como a beleza se impõe! E lembro estes versos magníficos de Ricardo Jaime Freire, transcritos num livro de Jorge Luís Borges:

 

Peregrina Paloma imaginaria

Que enardeces los últimos amores,

Alma hecha de luz, de música y deflores,

Peregrina Paloma imaginaria.

 

E o comentário de Borges: "Esses versos não significam absolutamente nada. Mas para mim são inesquecíveis".

 

(Oscar Niemeyer, Nas Curvas do Tempo - Memórias, Campo das Letras)



publicado por Augusta Clara às 14:00
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