Entre missas e mísseis teus irmãos
Entre medos e mitos teus amigos
Entretanto entre portas tu contigo
entretido a sonhar como eles vão
Entre que muros moram suas mãos
Entre que murtas montam seus abrigos
Entre quem possa ver deste postigo
entre que morros morrem de aflição
Entre murros enfrentam-se os mais tristes
Entre jogos ou danças proibidas
entre Deus e a droga os menos fortes
Entre todos e tu vê o que existe
Entreacto em comum somente a vida
Entre tímidas aspas já a morte
Escolhi este soneto entre a vasta obra de David Mourão-Ferreira, não exactamente ao acaso mas, precisamente porque gosto. Também não foi eleito com o sentido de fazer uma análise do poema e muito menos da sua obra.
Não o saberia fazer. Não será fácil falar de obra tão avultada e de tanto mérito.
Incluí neste texto um soneto de David Mourão-Ferreira para ilustrar as minhas palavras de mais um MESTRE. Meu e de tantos.
David Mourão-Ferreira licenciou-se em Filologia Românica em 1951.
Foi professor do ensino técnico e do ensino liceal e depois iniciou a sua carreira de professor universitário na Faculdade de Letras de Lisboa.
Afastado desta actividade entre 1963 e 1970, por motivos políticos. Foi professor catedrático convidado da mesma instituição a partir de 1990. Simultaneamente manteve nos anos 1960 programas culturais de rádio e televisão.
Foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores e, mais tarde, presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
Após o 25 de Abril de 1974 foi Secretário de Estado da Cultura em vários governos entre 1976 e 1978. A partir de 1981 é Responsável pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, e dirigiu a revista Colóquio/Letras, da mesma instituição
A sua carreira literária teve início em 1945, com a publicação de alguns poemas na revista Seara Nova, e em 1950, publicou o seu primeiro volume de poesia Secreta Viagem.
Colaborou nas revistas Graal e Vértice e foi um dos co-fundadores da revista literária Távola Redonda. Igualmente colaborou com vários jornais, como o Diário Popular e O Primeiro de Janeiro, e foi também director-adjunto do jornal O Dia e director do jornal A Capital.
Na sua poesia é assinalada as presenças constantes da figura da mulher e do amor, sendo considerado como um dos poetas do erotismo na literatura portuguesa.
A vivência do tempo e da memória são também constantes na sua obra, assinalada por uma procura rigorosa de equilíbrio, de força lírica, de grande riqueza rítmica e melódica que fazem dele um clássico da modernidade
Para além de quase duas dezenas de títulos publicados em poesia, como ensaísta teve também diversas obras notáveis, e igualmente na ficção narrativa estreando-se em 1959 com Gaivotas em Terra.
Alguns textos seus foram adaptados à televisão e ao cinema, e foi ainda autor de poemas para fados, muitos deles celebrizados por Amália Rodrigues, tal como, Maria Lisboa, Nome de Rua, Fado Peniche, Barco Negro, Madrugada de Alfama entre outros.
Recebeu vários prémios pelas suas obras como o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores e foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada.
Poeta, ficcionista, ensaísta, professor, crítico, divulgador, tradutor e dramaturgo, são os aspectos que caracterizam o trajecto de um homem que deixou marca por onde passou e nas pessoas que conheceu.
Eu conheci o David Mourão-Ferreira em Caracas, já muito tempo depois de conhecer a sua obra.
Em 1990, foi a vez de ele ter sido convidado pelo Instituto Português de Cultura de Caracas para as manifestações do Dia de Portugal. Como era habitual para com os convidados, foi constante a minha companhia.
Ficámos amigos.
Até que, na cama do hospital me prometeu escrever um texto para um catálogo de uma exposição minha. Já não lhe foi possível escrever.
Em 1989 o Instituto Português de Cultura de Caracas convidou o José Cardoso Pires para as manifestações do Dia de Portugal. Como era habitual com outros convidados, acompanhei-o em todos os actos em que ele participava. Foi excelente para nós a sua estadia na capital da Venezuela. Mais agradável ainda porque ele se fez acompanhar da Edite, sua mulher, a quem ele carinhosamente chamava «esquilo».
Disse antes «excelente, para nós», porque para ele não foi tanto assim. Creio que não se deu bem a falar para o público, talvez para aquele público, ou porque ele gostava muito mais de falar em grupos pequenos e… bem acompanhado… Para o Cardoso Pires e para a Edite também não foi muito agradável porque num dos momentos, livres de actos, em que passeávamos pela cidade, acompanhados também pela minha mulher, assaltaram a Edite roubando-lhe um fio (supostamente de ouro para o assaltante) acabado de comprar.
Já nessa altura, e não só agora, era habitual os assaltos.
Não foi o valor do roubo que apoquentou, mas a situação em si, e a forte marca deixada no pescoço da Edite pela força do puxão.
O não total agrado do Cardoso Pires pela sua passagem por Caracas está patente num autógrafo que ele fez num livro seu.
Foi nessa sua estadia em Caracas que conheci pessoalmente o José Cardoso Pires. Ficámos amigos. Depois encontrámo-nos várias vezes. Mas já há muito que o conhecia pelos seus livros.
Talvez depois de ter lido O DELFIM, que é geralmente considerado a sua obra-prima, ou O RENDER DOS HERÓIS, ou JOGOS DE AZAR, ou BALADA DA PRAIA DOS CÂES. Estes e mais alguns.
Usando uma linguagem depurada, e de um enorme rigor, José Cardoso Pires era um MESTRE, e já unanimemente considerado um dos maiores escritores portugueses do século xx. Depois, ALEXANDRA ALPHA e A REPÙBLICA DOS CORVOS que tinham saído há pouco. Depois…José Cardoso Pires sofre um acidente vascular-cerebral grave, que lhe causou a perda da memória. Deixa de saber quem era. O centro da fala e da escrita tinha sido também profundamente afectado. Mas algum tempo depois recupera para voltar a escrever DE PROFUNDIS, VALSA LENTA. Um livro que relata o seu acidente vascular cerebral e que é apresentado pelo Cardoso Pires como uma «viagem à desmemória», contando-nos esse momento único passado num túnel branco, entre a memória perdida e a memória recuperada, sendo a única narrativa da sua obra que se pode considerar autobiográfica. Desde OS CAMINHEIROS E OUTROS CONTOS de 1949 (o seu primeiro livro, que foi retirado do mercado pela Censura) até 1997, Cardoso Pires publicou dezoito livros, muitos deles traduzidos em várias línguas e que ficaram arquivadas junto ao melhor da literatura universal. Ganhou vários prémios literários entre eles o Prémio União Latina, Roma, 1991 e o Prémio Pessoa em 1997.
Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema como, BALADA DA PRAIA DOS CÃES realizado por José Fonseca e Costa e O DELFIM, realizado por Fernando Lopes. O RENDER DOS HERÓIS e outras obras suas foram levadas à cena. José Cardoso Pires é um autor português que, para quem teve a fortuna de o ler, e para quem ainda o irá ler, será para sempre um verdadeiro MESTRE.
Coloco aqui um pequeno texto (como um delicioso aperitivo) para relembrar e reler O DELFIM.
(...) Um lavrador de arrozais, João B. de L., ganadeiro e presidente de concursos hípicos, jura a pés juntos que jamais aceitou um recibo ao pessoal da casa, porque, com sessenta e oito anos feitos, ainda acredita na palavra alheia. Na noite de Natal, reúne a família e os criados à mesa, e, esteja onde estiver, logo que nasce um filho a um trabalhador da herdade, nunca se esquece de lhe mandar o dote; um cordão de ouro, se for rapariga, duas acções da Companhia Agrícola J. B. de L, Herdeiros, se for rapaz. «Faço o socialismo à minha maneira», costuma ele dizer. Há ainda o caso de um outro - esse muito antigo - que semeava bastardos entre a cria¬dagem e que a cada amante oferecia um lenço vermelho. Tem barbas, a história. Ouvia-a ao Padre Novo, que, por sua vez, a tinha ouvido a alguém dos seus tempos de liceu. Numa das versões, o homem morria crivado de tiros de zagalote; noutra, o fim era a loucura: acabava, velho e podre, a sonhar com procissões de lenços vermelhos. Prefiro a segunda.

09h00 - A fragata Almirante Gago Coutinho, comandada pelo capitão-de-fragata Seixas Louçã, toma posição no Tejo, em frente ao Terreiro do Paço, intimidando directamente as forças de Salgueiro Maia. Perante esta situação, a artilharia do Movimento, já estacionada no Cristo-Rei, recebe ordens do Posto de Comando para afundar a fragata no caso desta abrir fogo. O vaso de guerra terá recebido ordem do vice-chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Jaime Lopes, "para se preparar para abrir fogo". A ordem de disparar nunca chegou. - O major Cardoso Fontão detém, nas imediações do Q.G./R.M.L., o brigadeiro Serrano que, no 16 de Março, comandara o cerco ao RI 15.- Chega à residência de Spínola o médico Carlos Vieira da Rocha, amigo do general e proprietário do automóvel Peugeot que os haveria de transportar, no final da tarde, ao Quartel do Carmo.
09h15 - Uma força da EPC, com uma AML e uma ETT/Panhard, comandadas pelo alferes Sequeira Marcelino e pelo aspirante Pedro Ricciardi, vai reforçar a protecção do QG/RML, em São Sebastião da Pedreira.
09h35 - Chega ao Terreiro do Paço uma força comandada pelo brigadeiro Junqueira dos Reis, 2º comandante da RML, constituída por 4 CC/M47, uma companhia de atiradores do Regimento de Infantaria 1 e alguns pelotões da Polícia Militar. Dois dos carros de combate, comandados pelo major Pato Anselmo, tomam posições na Ribeira das Naus, enquanto os outros dois, sob o comando do coronel Romeiras Júnior, penetram na Rua do Arsenal.
09h40 - Protegidos pelos blindados do RC 7, os ministros da Defesa, Silva Cunha, do Interior, César Moreira Baptista, do Exército, Andrade e Silva, da Marinha, Pereira Crespo, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Joaquim Luz Cunha, o governador militar de Lisboa, Edmundo Luz Cunha, o subsecretário de estado do Exército, coronel Viana de Lemos e o almirante Henrique Tenreiro, fogem pelas traseiras do Ministério do Exército, abrindo um buraco na parede que comunica com a biblioteca do Ministério da Marinha. No parque de estacionamento interior tomam lugar numa carrinha que os transporta ao Regimento de Lanceiros 2, onde instalam o Posto de Comando das tropas leais ao Governo.
Vamos ler a opinião do argonauta Dorindo Carvalho. Acha que nestes 38 anos que decorreram desde a alvorada luminosa, passámos do Portuagal de Abril para o Portugal suicidado. E Dorindo Carvalho chama José Carlos Ary dos Santos a depor.
O 25 de Abril determinou um grande salto no desenvolvimento político-social do país. Todos sabemos.
Mas muitas das conquistas de então, foram eliminadas.
O agravamento da situação económica do nosso país é resultante dessas conquistas desfeitas pelos governos subsequentes a 1975.
É preciso salvar Abril
Temos que ser todos nós a criar um Portugal diferente, um Portugal de Abril, cada vez menos dependente das grandes poderes mundiais.
Há um Abril já feito, mas há muito Abril ainda por fazer.
As portas que Abril abriu não podem der fechadas.
«As Portas que Abril abriu» de Ary dos Santos quase que se mantém actual.
(...) Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado. (...)
04h00 - Um pelotão do BC 5 desloca-se para a residência de António de Spínola, a fim de garantir a sua segurança. - O programa «A noite é nossa», do R.C.P., deixa de transmitir publicidade, passando a emitir apenas música.
04h15 - O general Eduardo Martins Soares, comandante da RMP, apela aos coronéis Rui Mendonça, comandante do RI 8, e Carneiro de Magalhães, comandante do RI 13, ambos de Braga, para avançarem sobre o Porto e libertarem o QG das mãos dos insurrectos. Nos dois casos, os oficiais das unidades recusam-se a cumprir tais ordens.
04h20 - A coluna da EPI, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, assume o controlo do Aeródromo Base nº 1 (Figo Maduro) e do Aeroporto de Lisboa. O capitão Costa Martins emite um comunicado NOTAM, interditando o espaço aéreo português e desviando o tráfego para os aeroportos de Las Palmas e Madrid. Nova Iorque encontra-se sob o controlo do Movimento.
04h22 - Em resposta a um telefonema de Silva Cunha, a mulher do Ministro do Exército informa-o que «O Alberto saiu agora de casa».
04h26 - O Rádio Clube Português transmite o 1º comunicado do Movimento das Forças Armadas, lido por Joaquim Furtado. Seguem-se o Hino Nacional e marchas militares, designadamente uma da autoria de John Philip de Sousa que se viria a transformar no hino do MFA. Os portugueses começam a tomar conhecimento de que algo de muito importante se está a desenrolar no País.
- No Grupo de Artilharia Contra Aeronaves 2 (GACA 2) de Torres Novas os capitães do Quadro Permanente, Pacheco, Dias Costa e Ferreira da Silva, conseguem a adesão dos tenentes milicianos comandantes de companhias mobilizadas para o Ultramar e que aguardam embarque.
04h30 - Rendição do QG/RML. O major Cardoso Fontão comunica ao posto de comando que Canadá fora ocupado sem incidentes.
- Forças do CICA 1 detêm, à saída da sua residência, o chefe do Estado-Maior do Q.G./R.M.N., coronel Ramos de Freitas.
04h45 - O 2º comunicado do MFA é emitido, apelando à desmobilização de eventuais acções contra o Movimento.
- O primeiro grupo do BC 5, comandado pelo major Fontão, penetra no interior do R.C.P.
- O alarme é dado no Quartel-General da Região Militar de Coimbra (QG/RMC). Rapidamente se apercebem de que a maior parte das unidades segue o Movimento.
- O governador da Região Militar de Lisboa reúne-se com o corpo do seu Estado-Maior na residência do respectivo subchefe.
A noite reinava ainda. O dia ainda não nascera. Mas esta madrugada nascera já muitas vezes dentro de nós, por dentro da nossa esperança. Foi nessa madrugada, nessa alvorada de Abril que a Eva Cruz colheu um cravo vermelho e o colocou na boca de uma espingarda. Foi isso que fizémos, nós todos o que esperávamos esta madrugada que tardou quase cinquenta anos a chegar - silenciámos as armas com flores e deixámos que os verdugos e a sua prole sobrevivessem. Aí os temos, disfarçados de democratas. Mas não nos antecipemos:
Pois naquela madrugada, sem cravo vermelho de Abril a vida não valia nada...
Colhi um cravo vermelho
Colhi um cravo vermelho
Quando Abril era criança
Reguei-o com água benta
E o sol da minha esperança.
Colhi um cravo vermelho
Tudo fiz p’ra que vivesse
Toda a vida lhe dei vida
P´ra que Abril não morresse.
Sempre viveu no meu peito
E no coração de muitos mil
Não murcha nos ventos de Outono
Não perde a cor em Novembro
E sempre renasce em Abril.
Ao mundo eu quero pedir
Que o não deixe secar.
Nesta vida estiolada
Sem cravo vermelho de Abril
A vida não vale nada.
Poema de Eva Cruz
Ilustração, quadro de Dorindo Carvalho - "O guardador de cravos"
Poderia ter conhecido o José Saramago em 1968. Estive uma vez em sua casa quando ele era casado com a Ilda Reis, mas ele não estava. A Ilda Reis, excelente gravadora pouco lembrada mas de obra reconhecida, participou comigo em algumas exposições colectivas de Artes Plásticas. Foi na altura de uma dessas exposições que fui a casa da Ilda acompanhado da Mariana Quito, outra excelente gravadora e pintora também pouco recordada. A Ilda estava só com a Violante, a filha do casal.
Pessoalmente só conheci o Saramago pela sua passagem fugaz na Diabril Editora, uma cooperativa editorial de curta existência, na qual eu fazia parte da direcção, e onde já no seu final o Saramago se juntou.
Até a essa altura o Saramago apenas tinha editado TERRA DO PECADO e três livros de poesia, OS POEMAS POSSÌVEIS, PROVÁLMENTE ALEGRIA e O ANO DE 1993, ligado que estava ao jornalismo, tendo passado por último pelo Diário de Notícias como Director-Adjunto.
Pela experiência vivida, Saramago toma a decisão de mudar o curso da sua escrita: substituir de vez a de jornalista por a de ficcionista.
Pouco tempo depois edita o MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA.
Depois de encerrada a Diabril tive poucos contactos com o Saramago, mas em contrapartida fui tendo os seus livros.
Em 1988, estava eu na Venezuela, a Comissão Fernando Pessoa, que em 1990 deu lugar ao Instituto Português de Cultura (IPC), convidou o Saramago para ir a Caracas para as comemorações do Dia de Portugal e do centenário do nascimento de Fernando Pessoa.
Durante a sua estadia em Caracas, nas palestras que deu, como por exemplo no Centro de Estudos Latinoamericanos Rómulo Gallegos (Celarg), em conferências de imprensa e encontros com a Comunidade Portuguesa na Venezuela, como membro da direcção da Comissão Fernando Pessoa, sempre o acompanhei.
Na altura foi publicado nos jornais da Venezuela um desenho/caricatura que fiz alusivo às teses iberistas da fusão de Portugal e Espanha num único Estado que Saramago defende na JANGADA DE PEDRA:
Para mim foi uma excelente oportunidade de estar com ele, de conversar-mos muito, e de sentir mais de perto, não só escritor que entretanto já tinha conquistado o respeito internacional com os seus livros LEVANTADO DO CHÃO; MEMORIAL DO CONVENTO e O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, mas o José Saramago como cidadão interventivo, cívico e político.
Depois encontramo-nos uma vez por outra, sempre em encontros casuais e rápidos, mas os seus livros seguiram sempre fazendo-me sentir a sua companhia, O ENVAGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, A CAVERNA e todos os outros largamente conhecidos.
Escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta, vencedor do Prémio Camões em 1995 e galardoado com o Nobel de Literatura de 1998, criador de um estilo único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Um verdadeiro MESTRE.
POEMAS SOBRE O ALENTEJO
Manuel da Fonseca
Sol de Mendigo
Olhai o vagabundo que nada teme
leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira de um valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e
grita:
-Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
-Que grande bebedeira!
E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...
(in Poemas Completos)
Quadro de Dorindo Carvalho
Amanhã - José Régio

Este quadro de Dorindo Carvalho
levou Josep Anton Vidal
a escrever este poema
PARiS, RECORDAÇÃO EM VERMELHO VIVO
(A Dorindo Carvalho)
Este Miró que da tua obra me olha,
Dorindo,amigo,
rasga-me caminhos perdidos na memória...
Miró, París. Mês de Março de mil
novecentos e sessenta e nove... Uma cassete
girava como o mundo… “D'un roig encès...”
Nas paredes
do París descoberto na minha nostalgia
gritavam Liberdade!*os oprimidos
e Abaixo a ditadura!*... E era o grito
sous les toits de París... “D’un roig encès
volia la vida”. E o mundo rodava
com um zumbido de fundo, mecânico, surdo.
Era um lamento apagado, repetido,
eterno …“D’un roig encès tots els amors...”
Les jours s'en vont... ! Eu apaixonado por tudo.
Sous le pont Mirabeau coule la Seine.
Nas paredes... “D’un roig encès...”
Estrela. Lua.Pássaro... E o azul e o negro.
Miró mirado.
Noite. Água. Mulher... E branco e vermelho vivo...
O ar e o mar. O Espaço. A terra. O Sol...
E as cores impossíveis do que não tem cor.
Miró sentido.
Sonho. Terra.Revolta. Liberdade
Miró linguagem.
Explosão de luz. Cor. Forma. Volume.
Força.Memória. História. Pátria. Mundo.
(Et comme l’Espérance est violente...!
“D’un roig encès voldria el món...”
se'n vont... Et nos amours.)
Sentido do sentimento. Música tacto.
Miró mistério.
Pesadelo. Máscara.Véu. Grito. Monstro informe.
Ubú Miró, Miró de Mori-el-Merma.
Miró lavrador,
que pisa a terra e a trabalha.
Mosaico.Argila. Tecido. Pedra. Metal.
Miró artífice.
Fazedor de milagres. Taumaturgo.
Gerador de símbolos e metáforas.
Miró espelho.
Poeta.
Demiúrgo.
Miró recordação, e tempo. Miró memória.
Pelo túnel negro que o vermelho circunda
deslizam as recordações, todos os amores,
como silencioso desliza o Sena sob as pontes
até ao esquecimento...
Que faço, amigo, deste
Miró memória?
Abandono-o ao esquecimento ou proclamo-o?
E tu, dize-me – o que fazes com este Miró
que ergues a partir do tempo sobre o túnel
negro que engole os volumes, as cores
e as formas...? ¿Ou será que talvez os devolva
para que com eles construamos novas linguagens…? Redimidas.
Renascidas... Les jours s'en vont je demeure...
E roda o mundo com o zumbido de sempre.
“D’un roig encès voldria les cançons.”
Neste buraco negro - útero sepulcro -
Enterro as minhas recordações. A vida continua.
Nem le temps passé
Nem les amours reviennent.
Agora, e aqui – talvez como tu, não sei,
Dorindo, amigo – entre o ontem e o hoje,
neste buraco negro sem fundo,
doente de tempo, perdido na memória,
ao mesmo tempo reverente e iconoclasta,
teimo,
perdedor,
em construir uma linguagam
com o pó persistente de eternos monólogos
e os silenciosos entulhos de antigos diálogos.
De um vermelho vivo... o mundo.
Les jours s’en vont...
*- Em português no original.
(Versão portuguesa de Carlos Loures)
E recordamos o original do poema
París, record d'un roig encès...
(a Dorindo Carvalho)
Aquest Miró que em mira en la teva obra,
Dorindo, amic,
m’obre camins perduts en la memòria...
Miró, París. El mes de març del mil
nou-cents seixanta-nou... Una cassette
girava com el món... “D’un roig encès...”
A les parets
del París descobert en la meva nostàlgia
cridaven Liberdade! els oprimits
i Abaixo a ditadura!... I era el crit
del meu crit
sous les toits de París... “D’un roig encès
volia la vida”. I el món girava
amb un zumzeig de fons, mecànic, sord.
Era un lament somort, que es repetia
etern... “D’un roig encès tots els amors...”
Les jours se’n vont... Jo enamorat de tot!
Sous le pont Mirabeau coule la Seine.
A les parets... “D’un roig encès...”
Miró.
Estrella. Lluna. Ocell... I el blau i el negre.
Miró mirat.
Nit. Aigua. Dona... I blanc i roig encès...
L’aire i el mar. L’espai. La terra. El Sol...
I els colors impossibles del que no té color.
Miró sentit.
Somni. Terra. Revolta. Llibertat.
Miró llenguatge.
Esclat de llum. Color. Forma. Volum.
Miró llegit.
Força. Memòria. Història. Pàtria. Món.
Et comme l’Espérance est violente...!
“D’un roig encès voldria el món..." Les jours
se’n vont... Et nos amours.
Miró mirada.
Sentit del sentiment. Música tacte.
Miró misteri.
Malson. Màscara. Vel. Crit. Monstre informe.
Ubú Miró, Miró de mori el Merma.
Miró pagès,
que trepitja la terra i la treballa.
Rajola. Fang. Teixit. Pedra. Metall.
Miró artesà.
Obrador de miracles. Taumaturg.
Generador de símbols i metàfores.
Miró mirall.
Poeta.
Demiürg.
Miró record, i temps. Miró memòria.
Pel túnel negre que el vermell emmarca
s’escolen els records, tots els amors,
Com s’escola silent el Sena sota els ponts
cap a l’oblit...
Què en faig, amic, d’aquest
Miró memòria?
L’abandono en l’oblit o en faig bandera?
I tu, digues, què en fas, d’aquest Miró
que aixeques des del temps damunt el túnel
negre que engoleix els volums, els colors
i les formes...? O és que potser els retorna
perquè en fem nous llenguatges...? Redimits.
Renascuts... Les jours s’en vont je demeure...
I gira el món amb el zumzeig de sempre.
“D’un roig encès voldria les cançons.”
En aquest forat negre –úter sepulcre–
enterro els meus records. Resta la vida.
Ni temps passé
ni les amours reviennent.
Ara, i aquí –potser com tu, no ho sé,
Dorindo, amic– entre l’ahir i l’avui,
en aquest forat negre sense fons,
malalt de temps, perdut en la memòria,
alhora reverent i iconoclasta,
m’obstino,
perdedor,
a construir un llenguatge
amb la pols persistent d’eterns monòlegs
i la runa silent s'antics diàlegs.
D'un roig encès... el món.
Coule la Seine
Les jours s'en vont...
(inédito,B., 27-3-2012)
Não sei se parece estranho de, nem na minha exposição Os Meus Mestres, nem nestes textos, tenha aparecido uma figura que tivesse sido meu professor no meu curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio.
O título que dei à exposição foi exactamente por considerar nunca ter tido um professor nas disciplinas de desenho ou de pintura que me influenciasse ou me tivesse deixado «marcas».
O que já não aconteceu noutra disciplina: Física e Química. Claro que não fui influenciado pela matéria ensinada, ou melhor aprendida, por isso não segui essa área de estudo.
O que me deixou impressionado no professor dessa disciplina foi o seu modo, a atitude, a inteligência e acima de tudo foi a sua referência moral e cívica. Homem de uma simplicidade contagiante, própria das pessoas sábias e com enorme vontade de aprender em tudo e com todos.
Era um professor jovem que se tinha licenciado há pouco tempo em Ciências Físico-Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Depois de terminado meu curso (1958) poucas vezes o encontrei e sempre casualmente. Não tive largas conversas com ele, nunca realizei uma capa para qualquer livro da vasta obra que publicou, mas a minha admiração por ele sempre se manteve e aumentou. Passados os anos essa afeição justificava-se. Não era eu só, por algo muito pessoal, que o considerava. Seguindo a sua carreira, fui-me inteirando que a consideração era geral. Um MESTRE. Este meu escrito não tem pretensões a ser uma homenagem. Ele teve várias e grandes e respeitadas homenagens, no entanto creio (e não sou só eu), não teve as homenagens e principalmente o reconhecimento que lhe é devido e merecido.
Fernando Bragança Gil, para além de ter concebido e promovido a criação do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, tendo sido o seu primeiro Director, teve uma vida profundamente preenchida e totalmente dedicada à cultura e à educação. Licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorou-se em Física pela Universidade de Paris e pela Universidade de Lisboa. Foi investigador e professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um dos fundadores do seu Centro de Física Nuclear. Publicou uma extensa obra, cobrindo as áreas da física, física aplicada, ensino superior, divulgação da ciência, história da ciência, museus e museologia.
Fernando Bragança Gil (1927-2009), era professor jubilado de Física da Universidade de Lisboa foi um cientista e um divulgador de renome internacional. Chefiou a missão portuguesa à II Conferência Internacional das Nações Unidas sobre a utilização pacífica da energia atómica e integrou a direcção do ECSITE, European Network of Science Centers and Museums. Introduziu em Portugal a espectroscopia nuclear após o seu regresso do Institut de Physique Nucléaire da Universidade de Paris, orientou e participou em inúmeros projectos de investigação aplicada, júris e teses de mestrado e doutoramento. Participou em múltiplas conferências e seminários em prole da literacia científica, muito particularmente entre a juventude e os professores. Foi co-fundador da Associação dos Museus e Centros de Ciência de Portugal.
Mas muito para além do Professor Fernando Bragança Gil ter sido um cientista de desmedido mérito, foi um Homem bom, dedicado e amigo de partilhar saberes. Um MESTRE.
OS DIAS DO AVESSO, de DOMINGOS LOBO
(In Voos de Pássaro Cego)
3.
esta noite é de silêncio
esta noite é de pensar-te entre os escombros
restos da casa
traves
alicerces de bolor
odores breves na poalha
esta noite abandono-me e percorro-te por dentro os limos
mais secretos
um sinuoso itinerário de presságios
entrego-te como sei
a palavra o poema um fôlego
ainda adolescente
esta noite é o escuro e são os medos
as mesmas cicatrizes
que o tempo deixou expostas
à voragem dos dias às aves de rapina
dou por mim como sou: ágil e breve
rumor das águas de novembro
esta noite entro em ti
sou um destroço
o esqueleto do outro
a sombra na soleira
não te ofereço nada não te deixo nada
não me sobra nada dos tempos da alegria
estou contigo esta noite
preparo a morte no gume de um orgasmo
Um Café na Internet
Dulcinea vive assustada com o fim do mundo que conhece.
Preocupada com os dias que poderão vir, ou nem chegar. Acorda aflita e pensa que é hoje que virá o terramoto, o tufão, o maremoto, os dias de pernas para o ar. Sem água canalizada, sem electricidade, nem em pó, nem nas tomadas, sem pilhas, nem baterias. Sem dinheiro na mão.
Por isso importa saber que o chá e um jornal velho podem fazer caracóis, e que ervas podem fazer chá. E que outras coisas se podem cultivar.
É útil saber o que fazer ao algodão e ao linho, que poderá fazer crescer num quintal que não tem, onde encontrar as sementes, e pelo sim, pelo não, guarda em papel uma cópia de projecto de um tear.
Procura nas feiras, nas velharias, um moinho de cereais que funcione a manivela, e faz experiências com pedras, para tentar transformar trigo e milho em farinha que possa comer em pão. E sabe como preparar fermento e isco, a partir de uma maçã.
Pesquisa em livros e vai ensaiando, fazendo compotas, fazendo conservas, enchidos, fumados, pensando no modo de guardar batatas e fazer durar a carne fora da arca congeladora, que não será mais do que um armário.
Numa caixa grande, guarda agulhas, tesouras, linhas e botões, e num estojo que fez, repousam ferramentas para todas as manualidades que lhe ocorram fazer no apocalipse.
Fica frustrada, por ainda não alcançar os mistérios da transformação da terra em ferro, e do ferro em pá, em faca, em serra, e utensílios de vasta e extensa utilização.
Recorta receitas, anota conselhos, pede informações, recolhe saberes dispersos nas velhas, e arruma, ordenado, na sua cabeça e no seu coração.
Mentalmente, repete rotinas, pesquisa em livros e na internet, que pó azul pode pintar a casa, como fazer o tijolo e a cal.
Do fundo do coração, venera todos os homens e mulheres que, sem nada ter, sem nada saber, inventaram tudo o que é preciso.
Um dia, se o avião onde não viaja, cair no fim do mundo, não a apanharão desprevenida.
Um dia, se o carro avariar nos recônditos da terra, aonde não vai, a vida não parará por ali.
Um dia, se a vida a levar aos mais pobres dos pobres, recrutará um batalhão deles e lhes dará o desenvolvimento e a prosperidade pelo saber fazer.
No meio da tragédia, nunca passará mal. No reino dos cegos, terá dois olhos.
Inveja a liberdade das mulheres do antigamente, que não ficavam presas a estes pensamentos, de pouco saber fazer, se nem tudo lhes for dado pronto.
Por isso, e pelo seu mau perder, não está disposta a entregar o jogo ao futuro incerto: continua na descoberta do como se faz.
(Desenho de Dorindo Carvalho)

Este quadro de Dorindo Carvalho
levou Josep Anton Vidal a escrever este poema
París, record d'un roig encès...
(a Dorindo Carvalho)
Aquest Miró que em mira en la teva obra,
Dorindo, amic,
m’obre camins perduts en la memòria...
Miró, París. El mes de març del mil
nou-cents seixanta-nou... Una cassette
girava com el món... “D’un roig encès...”
A les parets
del París descobert en la meva nostàlgia
cridaven Liberdade! els oprimits
i Abaixo a ditadura!... I era el crit
sous les toits de París... “D’un roig encès
volia la vida”. I el món girava
amb un zumzeig de fons, mecànic, sord.
Era un lament somort, que es repetia
etern... “D’un roig encès tots els amors...”
Les jours se’n vont... Jo enamorat de tot!
Sous le pont Mirabeau coule la Seine.
A les parets... “D’un roig encès...”
Estrella. Lluna. Ocell... I el blau i el negre.
Miró mirat.
Nit. Aigua. Dona... I blanc i roig encès...
L’aire i el mar. L’espai. La terra. El Sol...
I els colors impossibles del que no té color.
Miró sentit.
Somni. Terra. Revolta. Llibertat.
Miró llenguatge.
Esclat de llum. Color. Forma. Volum.
Força. Memòria. Història. Pàtria. Món.
Et comme l’Espérance est violente...!
“D’un roig encès voldria el món..." Les jours
se’n vont... Et nos amours.
Sentit del sentiment. Música tacte.
Miró misteri.
Malson. Màscara. Vel. Crit. Monstre informe.
Ubú Miró, Miró de mori el Merma.
Miró pagès,
que trepitja la terra i la treballa.
Rajola. Fang. Teixit. Pedra. Metall.
Miró artesà.
Obrador de miracles. Taumaturg.
Generador de símbols i metàfores.
Miró mirall.
Poeta.
Miró record, i temps. Miró memòria.
Pel túnel negre que el vermell emmarca
s’escolen els records, tots els amors,
com s’escola silent el Sena sota els ponts
cap a l’oblit...
Què en faig, amic, d’aquest
Miró memòria?
L’abandono en l’oblit o en faig bandera?
I tu, digues, què en fas, d’aquest Miró
que aixeques des del temps damunt el túnel
negre que engoleix els volums, els colors
i les formes...? O és que potser els retorna
perquè en fem nous llenguatges...? Redimits.
Renascuts... Les jours s’en vont je demeure...
I gira el món amb el zumzeig de sempre.
“D’un roig encès voldria les cançons.”
En aquest forat negre –úter sepulcre–
enterro els meus records. Resta la vida.
Ni temps passé
ni les amours reviennent.
Ara, i aquí –potser com tu, no ho sé,
Dorindo, amic– entre l’ahir i l’avui,
en aquest forat negre sense fons,
malalt de temps, perdut en la memòria,
alhora reverent i iconoclasta,
m’obstino,
perdedor,
a construir un llenguatge
amb la pols persistent d’eterns monòlegs
i la runa silent s'antics diàlegs.
D'un roig encès... el món.
Coule la Seine
Les jours s'en vont...

Este quadro de Dorindo Carvalho
inspirou a João Machado este poema
Malhoa, pintor consagrado
Tuas história, vida, arte,
Vão caber num quadrado
E ser vistas em toda a parte.
Dorindo, mestre, amigo
Traços e cores de maneira
Com a tua mão certeira
Malhoa revive contigo.
Fado, varinas, Lisboa
Meninos, velhos, novos,
A memória dos povos
Vossa pintura ecoa.
(inédito)

Este quadro de Dorindo Carvalho
levou Pedro Godinho a criar o poema
À Senhora de Leonardo
Olhai a Senhora à janela.
Que linda ela está,
Em seu sorriso semiótico.
Olha um pássaro da janela
Ou o pássaro, terra, ar e fogo, a olha a ela?
Corpo feito rosto,
Feito tríptico:
Olhos – nariz – lábios.
Nem sabes que fazes de mim!
Perco-me em Vós
Minha Senhora, Senhora de Leonardo,
Ressaltais do negro pagão,
Em mar carmim
E centelhas douradas.
Minha Senhora, Senhora de Leonardo,
Guardai-me do mal
Mas deixai-me cair em vossa tentação,
Senhora do sorriso, e riso
- Minha Senhora,Senhora de Leonardo.
(inédito)

Este quadro de Dorindo Carvalho
inspirou a José de Brito Guerreiro o poema
DORANDT
Dorindo, sentindo, à beleza exorta.
Rembrandt, gigante, abriu a porta.
Dorindo, sorrindo, viaja na tela.
Rembrandt, estelante, descerrou a janela.
Dorindo, infindo, sobre algodão ou linho.
Rembrandt, incessante, indicou o caminho.
O que começou abaixo do nível do mar, suponho,
perpetua-se, etéreo, acima do nível do sonho.
(inédito)
A vida e a obra de Urbano Tavares Rodrigues, bem conhecida e reconhecida, é uma das referências marcantes do século XX , e também já neste século, devido não só à sua obra literária, mas também à sua postura assinalada por uma generosidade e uma solidariedade invulgar.
Urbano Tavares Rodrigues é muito mais do que o grande escritor do Alentejo.
É autor de rica e vastíssima obra literária e ensaística traduzida em inúmeros idiomas, sendo constante a sua intervenção cívica e política. Foi jornalista, professor universitário e catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Membro da Academia das Ciências, obteve diversos prémios, entre eles o de Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. Um Mestre.
Conheci o Urbano na desaparecida Prelo Editora onde organizei graficamente e realizei a capa para um livro editado em 1972, Esta Estranha Lisboa, com textos seus e fotografias de Eduardo Gageiro.
Já antes de nos conhecermos, em 1967, o Urbano fez um apontamento crítico no jornal «O Século» sobre uma exposição minha realizada na Galeria Diário de Notícias. A primeira que fiz em Lisboa, depois de já ter exposto em Luanda. Bastanteagradável essa nota que terminava assim: (…) Há múltiplas perspectivas nesta exposição que augura descoberta e aventura – a sina de um verdadeiro pintor.
Em 1977, realizei a capa e duas ilustrações para o livro do Urbano Tavares Rodrigues Elegia À Esperança, editado pela Diabril, editora também desaparecida e de curta existência.
Na minha permanência na Venezuela, o Instituto Português de Cultura de Caracas, de que eu fazia parte da direcção, convidou o Urbano Tavares Rodrigues para participar em 1991 nas comemorações do dia de Portugal. Acompanhei-o durante toda a sua estadia e nas várias acções em que interveio no programa das comemorações.
Em 1998, realizei uma exposição de pintura em Reguengos de Monsaraz, Olhares Além Tejo. Uma exposição sobre tema alentejano quem poderia fazer um melhor texto para o catálogo senão o Urbano Tavares Rodrigues.
Igualmente o Urbano escreveu um texto de apresentação para um livro editado em 2002 sobre o meu trabalho, «O Homem é a Medida de Todas as Coisas… Dorindo / pintura / desenho gráfico», acompanhando textos de Cruzeiro Seixas e José Fernando Tavares.
Nesse texto quero ressaltar um pequeno parágrafo em que o Urbano diz:
(…) Mas Dorindo é um experimentador, que não se fixa numa aventura estética, num processo, numa maneira. Como se se procurasse sempre e, encontrando-se em estilhaços de escolas, passasse por uma decomposição das formas próximo da abstracção para regressar a uma plena figuração lírica, de cores quase estridentes e grandes superfícies lisas. (…)
Há quem me critique por essas mudanças de estilo, mas ele não.
Talvez porque o Urbano diz de si próprio, (O meu estilo é a mistura do estilo de Teixeira Gomes, um estilo que tem a ver com o decadentismo e o simbolismo, e do Camilo Pessanha que me marcou profundamente e cujo onirismo marcou muito a minha escrita.)
Sobre estilo, eu penso no que perguntava Picasso, (… Mas afinal o que é o estilo? Por acaso Deus tem estilo?).
Que é hoje a classe operária?
Dois factos convergem nesta simples reflexão: o encerramento sucessivo de duas fábricas no Norte do País (a de Tecidos do Rio Ave, que lançou na miséria 700 operários, a União Metalúrgica da Fontaínha, que deixou no desemprego outros cem operários, entre homens e mulheres) e o aparecimento do importante ensaio de N. Gaouzner «A Classe Operária Irá Desaparecer?»
Não venho aqui exibir a mágua profunda, nem mesmo a indignação (que levaria tempo a esmiuçar: por detrás das insolvências estão as estruturas) em mim – e em tantos outros decerto – causadas pelo espectáculo dos milhares de pessoas marginalizadas e acossadas por estes tristes sucessos.
Pergunto-me, sim, aqui no centro do calor húmido deste dia de Lisboa, qual o destino das camadas sociais cada vez mais numerosas que representam a força do trabalho e não têm qualquer controle sobre os meios de produção. Refiro-me não só à gente dos armazéns e das fábricas, das oficinas e dos campos, mas aos empregados dos escritórios, dos bancos, das lojas, aos investigadores, aos técnicos, e, já que vem a pelo, porque não aos jornalistas?, em suma a todos os produtores assalariados sem contacto algum com, a transformação do seu esforço em rendimento.
Gaouzner, no seu oportuno estudo, regista o acelerado aumento dos efectivos da classe operária e a sensível alteração dos seus componentes. Não se trata só da degradação ou ruína dos pequenos proprietários agrícolas ou artesanais compelidos à proletarização. Põe-se o problema de um desenvolvimento qualitativo dois meios trabalhadores. Que é hoje a classe operária, perante a revolução tecnológica? Nos países capitalistas industrialmente avançados o salário real dos operários aumentou de20 a100% em vinte e cinco anos. Claro que isso não pôs termo ao desemprego, nem aos acidentes e doenças profissionais (os traumatismos físicos e psicológicos nas linhas de montagem são notórios). A «racionalização» do trabalho provoca por um lado maiores lucros, por outro lado uma fadiga extrema.
A automatização em marcha, se é certo que ocasiona despedimentos maciços, exige do operário uma qualificação, digamos uma cultura técnica que o aproxima das «classes» tidas como superiores na escala do prestígio ou do dinheiro. Será esse operário ainda um operário?, ou é já o intelectual assalariado um operário como ele? Sabemos perfeitamente que os sistemas fascistas dificultam a manifestação dos «talentos oriundos do povo», sabemos que o acesso geral à instrução não se verifica em largas zonas do mundo.
Mas a maioria dos técnicos, desenhadores, empregados de laboratório, repórteres, pouco mais (quando tal sucede) ganham do que os operários especializados. E mesmo os quadros superiores, dessas profissões, ainda quando têm nível de vida mais alto, jamais podem encarar o futuro sem inquietação ou angústia, a menos que tenham réditos de família, o que os situa logicamente noutro campo. O intelectual assalariado vive normalmente o pânico da velhice. O jornalista trabalha até poder e morre amiúde antes de alcançar a reforma, fixada aos 65 anos.
Tudo isto justifica amplamente a pergunta: que é hoje a classe operária?

Atira!
Atira cobarde
Atira!
Vem morte
aos meus braços
O sangue
generoso
Mais a
camisa alva
Fará o
estandarte do povo
Ele saltará
Violento e
rebelde sobre ti
Desenhará a
tua máscara
E as tuas
mãos
Criminosas e
amldiçoadas
Como lady
Macbeth
(inédito)
1984 d
Entre palmas, estalar de dedos
Chamas por mim, acordas-me.
Não ouço, não quero ouvir
recuso qualquer presença
deploro boas vontades
Não ouço, não quero ouvir
Não vejo, nem quero ver
finjo que não me chamas
renego mais este dia
não vejo, nem quero ver
Hoje, não estou para ninguém.
Sussurras-me , então, docemente
que o comboio do Amor partiu há muito
e não pára em todas a luas,
mas que vieste
para me carregares nos braços
até à porta da próxima estação,
a tempo de seguirmos viagem.
Juntos, outra vez.
Abres-me os olhos, e o coração.
Desperto, lentamente,
mas ainda a tempo de fazermos as malas.
(inédito)

Do corpo se fez vento que passa pelo tempo sem ter a noção da relatividade de ser corpo e menos ainda de ser tempo. E todavia vagueia entre o ponto de ser e de não ser, de estar e de morrer.
Do vento se fez nuvem a cobrir a cor do sol das manhãs em que uma melancolia fina chega com os frios do inverno.
Esconde-se a juventude e o envelhecer sob as pálpebras cuja leitura dos olhos penetra nos nossos corações. A beleza da fêmea desperta em toda a plenitude, mas da mulher, que passava pelo tempo na consciência do equilíbrio do nada que também possuí o seu equilíbrio, vibra em toda a serenidade.
A terra guarda a luxúria dos sentidos correndo como torrente de lava em cadinho de ouro para delírio da materialidade.
Já depois do esquecimento da beleza, o magnifico esplendor do corpo corrompe-se à fadiga dos anos. Obediência à solidão dos sentidos.
A floresta da imaginação cerrou-se não permitindo mais ver a cor do sol tornado prata no revestimento da moldura digital que guarda a nossa memória.
Obtida a paz das raízes de séculos, a agitação carnal tornou-se fonte inexpressiva pela flacidez da matéria.
Do que foi morrendo lentamente, tão lentamente que nem nos damos conta que o passado perde toda a sedução no presente.
Não obstante todos os corpos possuem mensagens escondidas pela natureza do tempo a conceder.
A ciência, que em si guarda a temperatura da sua própria idade, forma, afinal, um arco de solidão que o anjo acompanha qual pomba.
A paz de redimir a matéria pelo conteúdo dos nossos sonhos.
(inédito)
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
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