Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - VI
(continuação)
Emprego no sector dos não negociáveis
Os grandes sectores dentro do agrupamento dos não negociáveis são o governo, a saúde, as vendas a retalho, os serviços de alojamento/alimentação (i.e., hotéis, restaurantes e hotelaria) e a construção (ver Figura 6). Em 2008, estas actividades representavam cerca de 73,5 milhões de empregos, cerca de 64% do emprego total que se verificava no sector dos bens e serviços não comercializáveis e aproximadamente cerca de 50 por cento de toda a economia. Em conjunto, os 5 principais sectores dos não comercializáveis contribuíram com 65 por cento da variação total de postos de trabalho a partir de 1990 para 2008.
O Governo, em todos os níveis, é o maior empregador do sector dos não comercializáveis e representa um pouco mais de 22,5 milhões de empregos em 2008. Os cuidados de saúde é claramente o segundo sector mais importante do grupo dos não negociáveis tendo no fim do período atingido um total de 16,3 milhões. Em termos de acréscimos, o crescimento do emprego nos cuidados de saúde foi de 6,3 milhões de empregos e está portanto no topo da lista quanto ao volume de emprego adicional criado, enquanto que o total criado pelo lugar governo o situa em segundo pois o seu acréscimo em volume de empregos foi de 4,1 milhões. Estes dois acréscimos juntos valem quase 40% do emprego total líquido criado adicionalmente na economia desde 1990. Para uma discussão posterior, notemos que o emprego criado a nível governamental não é principalmente impulsionado pelas forças de mercado, e os cuidados de saúde é algo de relativamente híbrido. As forças de mercado trabalham na área da saúde, mas com grandes assimetrias ao nível da informação e com uma substancial participação pública no lado da procura e na regulação. Tanto no governo como no sector dos cuidados de saúde, há pelo menos algumas questões a colocar sobre a sua capacidade futura em ser o principal impulsionador do crescimento do emprego.
As Figuras 6 e Figura 7 mostram as tendências no sector dos bens e serviços não comercializáveis. Elas incluem componentes não comercializáveis de sectores como as finanças e os seguros, mesmo que a maioria destas indústrias sejam negociáveis. Para garantir que os dados são vistos no seu contexto, as indústrias que não são predominantemente ou não são totalmente comercializáveis incluem um asterisco. Não temos até este momento forma de isolar o crescimento do emprego ou o seu declínio em subcomponentes negociáveis e não negociáveis de um sector ou indústria que é uma mistura dos dois grandes agregados em que estamos agora a analisar a economia.
Podemos, portanto, simplesmente ligar o aumento ou diminuição do emprego (ou depois, o do valor acrescentado) ao grande agregado dos bens e serviços negociáveis ou não negociáveis com base na proporção da indústria que é estimada estar em cada um dos dois agregados.6 Isto é improvável ser preciso, pelo menos para as situações de declínio ; os declínios são mais prováveis de ocorrer no subcomponente dos negociáveis. As reduções na parte dos não comercializáveis, portanto, não devem ser tomadas muito a sério. Felizmente, elas são relativamente pequenas e não afectam substancialmente o quadro geral.
Para facilitar a visualização destas tendências, as indústrias mais pequenas do agrupamento dos bens e serviços não comercializáveis têm uma escala diferente e estão incluídas na Figura 7. Mais uma vez, o leitor poderá notar que certas categorias — como Industria Transformadora III que na sua maior parte são mercadorias negociadas internacionalmente e são mercadorias intensivas em capital tais como a maquinaria pesada — incluem também um componente não negociável .
Figure 7. Nontradable Industry Jobs, 1990–2008 (Minors)8
Source: Authors’
(continua)
Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - V
(Continuação)
A estrutura da economia americana está em evolução.
A estrutura da economia americana está a evoluir. A tecnologia é uma das forças motrizes, tanto no mercado interno como na integração da economia americana com a economia mundial. Uma economia, não funciona no vácuo. Numa economia global relativamente aberta, as mudanças estruturais nas economias emergentes podem levar a que estas forcem também a mudanças estruturais nos países avançados. Quando um certo tipo de actividade fica numa situação de declínio na nossa economia, normalmente esta actividade não desaparece pura e simplesmente da economia global, mas em vez disso pode significar, normalmente é assim, que se está a deslocalizar para outro país. Estas poderosas forças de mercado operam directamente sobre o sector de bens e serviços negociáveis internacionalmente e, indirectamente, na produção de bens e serviços não negociados internacionalmente através dos salários e dos seus efeitos nos preços e da deslocação de oportunidades de emprego no mercado de trabalho.
Com o objectivo de dividir a economia em dois grandes agregados, em duas partes, em actividades de produção de bens e serviços negociados e em não negociados internacionalmente nós utilizámos a metodologia desenvolvida por Bradford Jensen e Lori Kletzer. A metodologia destes dois autores determina que neste caso a colocação de uma indústria, de um ramo, de um sector numa ou noutra parte é feita com base na sua concentração geográfica — quanto mais concentrada é a indústria, maior é a sua possibilidade de comercialização (e vice-versa). Por exemplo, tomemos o comércio a retalho: a sua presença geográfica omnipresente implica que se trata de uma actividade largamente não comercializável internacionalmente. O mesmo poderia ser dito para a limpeza a seco, para a construção e para a maioria dos cuidados de saúde. Por outro lado, o sector mineiro tende a ser geograficamente concentrado, o que aponta para a possibilidade de comercialização internacional.
A classificação de Jensen e de Kletzer reflecte com mais precisão o facto dos bens negociáveis internamente do que o facto de serem negociáveis internacionalmente. Por exemplo, quanto aos serviços jurídicos, a possibilidade de comercialização no mercado interno e a possibilidade de comercialização internacional divergem. Nós adaptámos e ajustámos as suas classificações por principalmente olharmos para a estimativa de possibilidade de comercialização de cada sector e de usarmos simultaneamente o senso comum e os dados das exportações e importações para ver se as suas proporções reflectem a comercialização internacional das indústrias. Geralmente, as divisões parecem correctas, certamente com algumas indústrias a estarem bastante próximas da imagem dada pela evolução estrutural geral, sinal que não seria enganosa. Muitas indústrias são totalmente negociáveis ou não negociáveis internacionalmente, embora na maioria dos sectores exista um conjunto crescente de serviços fornecidos que são em princípio serviços negociáveis internacionalmente.
Selecção de Júlio Marques Mota
14. Cura de adelgazamiento
Joaquin Arriola*
Universidade de Bilbao
I de algo no se puede acusar al Gobierno del PP es de estar inactivo. Aprovechando por ejemplo la dedicación y empeno de alumnos destacados de la Asociación Católica de Propagandistas (San Pablo-CEU), el Opus Dei (Universidad de Navarra) y la Companía de Jesús (ESADE), a los que han colocado al frente de las responsabilidades de gestión de las dependencias ministeriales, en tres meses han cambiado el modelo energético, reforzando a las grandes empresas eléctricas y el peso de las energías consumidoras de materias primas no renovables; han establecido un marco de reformas del sector financiero, con dinero público para reforzar la concentración empresarial privada y obligando a destinar parte de los beneficios bancarios al saneamiento de sus balances; han apretado las tuercas del fisco a directivos y profesionales asalariados con los salarios más elevados. Para la primavera y el verano se anuncia el desmantelamiento del sector público autonómico y la privatización de servicios, asunto que se verá reforzado, al parecer, cuando se presenten los presupuestos de 2012. Luego, por Navidad o ano nuevo, seguramente, un aumento del IVA para reforzar ingresos fiscales.
Pero ahora la medida estrella es el cambio de modelo laboral, mal llamada reforma. El Gobierno ha decidido jubilar el modelo del diálogo social y la fijación concertada mediante convenios de los precios de referencia en el mercado de trabajo, para establecer un modelo individualizado de relaciones laborales que refuerza el poder del comprador frente al vendedor en los contratos de alquiler de trabajo, reduciendo el peso de las garantías judiciales y económicas que tenían estos ante decisiones arbitrarias de los compradores a la hora de cancelar los contratos, ampliando el periodo de prueba sin indemnización en empresas de menos de 50 trabajadores de tres meses para obreros y de seis meses para técnicos a un ano para todos, y dilatando la gama de actividades y compromisos que los vendedores están obligados a aceptar en los contratos, como la movilidad geográfica o la ampliación del abanico de tareas a ejecutar.
Con estas nuevas reglas de juego, el papel de la patronal queda puesto en cuestión, y los sindicatos reducen considerablemente su cometido en la negociación de condiciones generales de los contratos, para pasar a ejercer funciones de intermediación en caso de desacuerdo entre comprador y vendedor o vendedores, asumiendo tareas que antes eran judiciales, pero sin capacidad ejecutiva ni resolutoria. En todo caso, patronales y sindicatos están obligados a pasar por un periodo de reconversión profunda, que incluye un cambio en las formas organizativas y un cambio de cultura, para llegar a ser capaces de ofrecer servicios personalizados a su clientela.
Ideología... y deuda
El decreto ley pretende modificar la tendencia a la extinción de los contratos laborales y cierre de empresas como procedimiento habitual para afrontar crisis de cierto calado, como la de 1993 o la actual, y substituirla por una práctica más generalizada de suspensión temporal de los contratos, aunque sus objetivos inmediatos son, por un lado, facilitar los despidos en el sector público y, por otro, aumentar la parte de los beneficios en el valor anadido. Al margen de que ambos objetivos inmediatos puedan tener un contenido ideológico (es decir, responden a afirmaciones implícitas en muchos discursos, de que "lo público es malo, lo privado bueno"; "los salarios siempre son, por definición, demasiado altos" y cosas así), o de poder social en torno a la distribución del producto, a corto plazo están vinculados con la gestión de la deuda.
Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - IV
(Continuação)
Para ilustrar o que é uma cadeia de valor acrescentado ou como é que esta pode ser pensada, imagine-se que estamos a planear lançar um novo produto electrónico. Do projecto inicial até à venda a retalho há uma infinidade de etapas que devem ser tomadas e em que cada um delas pode ser dividida em outras pequenas etapas e processos (ver figura 3). Em suma, estas etapas, estes processos, formam a cadeia de valor acrescentado. O valor acrescentado para o produto final seria então o preço de venda no retalhista (o total, com as suas margens de lucros) menos todos os custos que se tiveram de suportar para obter o referido produto e para o levar até às mãos dos consumidores, com exclusão, de novo, dos custos em capital e trabalho.
Figura 3. Cadeia de valor acrescentado para um produto electrónico imaginário
Os detalhes e número de etapas variam entre as diferentes indústrias, entre os diferentes sectores. Quando as coisas são vistas desta forma, como sendo a transformação, no sentido da produção de uma dada mercadoria, não se trata de uma só indústria. Há um subconjunto de etapas ou passos na cadeia de valor acrescentado, e frequentemente, para produtos complexos como automóveis, há sempre mais do que uma etapa, mais do que um passo.
As cadeias de valor acrescentado complexas normalmente utilizam tanto bens e serviços transaccionáveis como os bens e serviços não transaccionáveis na qualidade de serem os seus inputs, os bens e serviços necessários para a produção do produto final Assim como os dados de uma qualquer dada indústria não capturam essas complexidades, adicionalmente os dados comerciais também têm muitas falhas. Um iPad enviado da Foxconn na China tem de valor acrescentado as componentes nele instaladas com origem os Estados Unidos e de vários países da Ásia. Sem uma grande quantidade de informações suplementares, é impossível fazer o registo, partindo do país consumidor até á origem de criação do produto e encontrar os locais de criação de valor acrescentado para um qualquer dado produto. Além disso, as cadeias de valor acrescentado para os produtos finais podem- se sobrepor. Algumas partes da cadeia são específicas para um particular produto em análise (montagem, por exemplo), enquanto que outras podem ser partilhadas (componentes ou logística ou funções de contabilidade e controle de custos). A economia global não se divide de forma nítida em diferentes cadeias de valor acrescentado totalmente separadas com uma para cada sector ou classe de produtos finais.
Parte do sector de bens e serviços transaccionáveis é um conjunto de funções que envolvem o processamento de informações e serviços que lhes estão relacionados. Estes sectores têm sido objecto de numerosos estudos e de muita atenção. As inovações tecnológicas importantes têm permitido importantes economias de trabalho no processamento de informações e na automatizações das transacções. Além disso, algumas destas funções foram externalizadas. Parece tornar-se então evidente que os dados parecem estar mais conformes com a conclusão que grande parte da redução do emprego que actualmente se tem verificado terá sido mais o resultado da aplicação de tecnologias labour-saving, tecnologias economizadoras do factor trabalho, do que da atitude de se andar a externalizar. No entanto, alguns analistas confundem estes sectores, com o sector dos bens e serviços negociáveis internacionalmente como um todo e concluem que a globalização tem tido impactos relativamente pequenos até agora. A premissa está errada e a conclusão falsa. O processamento de informações e os serviços relacionados representam uma pequena parte do crescimento do comércio internacional. Mas isto é interessante e relativamente novo, e os estudos feitos são pois úteis. Mas não se podem tirar conclusões gerais acerca do impacto da integração dos mercados globais a partir de análises feitas na base de uma relativamente pequena parte. Como veremos rapidamente, o emprego está em declínio na indústria transformadora e está a aumentar no sector financeiro. Ambos os grupos têm estado a externalizar o seu sector de serviços de informação. Mas concluir que o declínio do emprego industrial pode ser atribuído a um impacto extraordinariamente grande sobre estes sectores devido à externalização dos processos de tratamento das informações destes mesmos sectores ou pelo facto de que a automação das transacções seja labour-saving é simplesmente uma conclusão incorrecta.
Em forma de resumo, a melhor maneira para poder pensar sobre os sectores de bens e serviços da economia em termos de serem negociáveis ou não negociáveis internacionalmente é definir o primeiro subconjunto de actividades, de bens e serviços, como o subconjunto de actividades, de bens e serviços, que podem fazer parte de cadeias globais de produção . A este nível, temos os dados sobre os sectores. Então, como uma primeira aproximação, a classificação em bens e serviços (ou seja, por sectores) será pois feita em função da proporção como transaccionáveis e não transaccionáveis que depende aproximadamente da proporção dos bens e serviços transaccionáveis na cadeia de valor acrescentado (usando o valor acrescentado como medida).
(continua)
Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - III
(Continuação)
Depois de trinta anos com uma muito forte taxa de crescimento, a estrutura da economia da China está em clara transformação e deslocação, como anteriormente o estiveram antes dela a Coreia do Sul e o Japão.
FIGURA 1
Reafectação das exportações em produtos manufacturados da China entre os maiores sectores com a agregação feita a dois dígitos
A China, com um rendimento per capita de cerca de 3.800 dólares está agora a entrar no que são chamados países de rendimento médio em transição. Esta fase de desenvolvimento é muitas vezes chamada de armadilha. É uma das transições mais complexas e arriscadas que já ocorreram na longa jornada, uma jornada de várias décadas, de países de baixos níveis de rendimento para os níveis de países avanaçados. A experiência que nós temos da realidade e da história do pós-guerra sugere-nos que a maioria dos países que entram para o grupo de rendimentos médios em transição reduziu-se depois significativamente ou ficaram até em situações em que estabilizaram.
No conjunto dos casos de alto crescimento sustentado no período do pós-guerra (primeiro 13 países, depois 15, com a entrada para este grupo da Índia e Vietname), apenas cinco mantiveram as suas altas no quadro da transição dos países de rendimentos médios e continuaram no sentido dos países de elevados rendimentos de 20.000 USD per capita ou mesmo superior (ver figura 2). Essas transições extremamente rápidas ocorreram no Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura.
Figura 2. PIB real per capita e a Transição na zona de rendimento médios
Para a China e para outros países de rendimento médio, então, a manutenção do crescimento rápido não é automática.
Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - II
(Continuação)
Introdução
No ambiente pós-crise, as questões de sustentabilidade na trajectória da economia americana começaram a ser levantadas. Entre os problemas que eram sublinhados estava um grande défice na conta corrente, estava a escassez de poupança interna, estava o excesso de alavancagem e de endividamento no sectores financeiros e nas famílias, e estava igualmente a estagnação dos rendimentos ao nível da classe média. No entanto, o que nessa análise estava claramente a faltar era uma análise detalhada quanto às mudanças estruturais na economia sobre o longo prazo e era uma análise sobre a maneira pela qual o crescimento económico das economias emergentes está a afectar a estrutura de emprego na indústria e a do valor acrescentado por trabalhador na economia americana. O presente trabalho tenta preencher essa lacuna, oferecendo um novo olhar sobre a evolução da estrutura económica dos EUA ao longo dos últimos vinte anos e tenta explorar as implicações de tais mudanças.
A economia americana não existe num sistema de vacuum; a evolução de algumas das suas mais marcantes características está ligada à evolução das características de longo prazo dos países em desenvolvimento e sobretudo está ligada à evolução das economias emergentes em especial às mais importantes delas.
A primeira secção do presente trabalho descreve a evolução da estrutura da economia global e oferece uma perspectiva de como as economias emergentes aumentaram a sua influência sobre a economia americana desde os anos 50.
A próxima secção descreve as características da economia vista esta em dois grandes agregados da sua estrutura produtiva, um agregado, uma parte, a do conjunto dos bens e serviços negociáveis internacionalmente e como segunda parte, como segundo agregado, o conjunto dos bens e serviços não negociáveis internacionalmente. A partir desta divisão pretende-se olhar para as tendências do emprego, do valor acrescentado, do valor acrescentado por trabalhador nas indústrias de cada um destes dois grandes agregados em que se dividiu a economia... O artigo conclui com uma análise dos desafios estruturais e sobre as questões sobre o emprego e tenta de forma diria preliminar fazer uma exploração sobre possíveis respostas políticas.
O corpo principal do trabalho é a análise detalhada e que se quer intensiva a partir dos dados da economia americana sobre as mudanças no emprego e no valor acrescentado das diferentes indústrias dos EUA. Os leitores interessados basicamente sobre as principais tendências e sobre as suas conclusões poderão ler o sumário executivo e a evolução da estrutura da economia global, e em seguida as últimas quatro secções, a partir da página XXXXX, onde se discute as respostas politicas que podem ajudar a mudar a actual trajectória
Na mudança da estrutura da economia global
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, com a economia global tem-se vindo, por lado, a aumentar o peso do comércio externo face à sua produção interna, o PIB, e por outro lado, a aumentar a sua abertura financeira, o que foi possibilitado em parte pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial e pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), este último transformado agora em Organização Mundial do Comércio (OMC). Em paralelo, o colonialismo, com os seus inerentes constrangimentos sobre o desenvolvimento económico e as suas assimetrias internas, falhou. Apesar de duzentos anos atrás dos países desenvolvidos, cuja aceleração em termos de crescimento se iniciou no século dezoito com a revolução industrial inglesa, os países em desenvolvimento em todo o mundo iniciaram um processo secular de modernização. Hoje estamos já percorremos um pouco mais de metade do caminho, ao longo deste século.
Como as barreiras formais ao comércio e aos fluxos de capital diminuíram, houve uma série de outras tendências a acelerarem o crescimento assim como as mudanças estruturais nas economias em desenvolvimento. Nisto incluíam-se as inovações tecnológicas nos transportes e nas comunicações, a inovação na gestão em empresas multinacionais, os processos de aprendizagem sobre como fazer negócios em vários e diversificados ambientes, e a integração de cadeias produtivas multinacionais.
Graças às tecnologia da informação, muitos dos serviços que anteriormente não eram negociáveis internacionalmente como por exemplo as actividades que vão desde os serviços de radiologia até às contabilidades e à manutenção das tecnologias da informação passaram a serem actividades cujas produções se tornaram agora bens e serviços negociáveis internacionalmente.
As grandes economias emergentes, com diferentes pontos de partida (e muitas falsas partidas), têm mantido altas taxas de crescimento, muitas vezes superior a 7 por cento ao ano. Depois de várias décadas de crescimento em alta velocidade, essas economias tornaram-se mais ricas e economicamente maiores. Um ingrediente essencial é que neste crescimento haja mudanças estruturais. Com o aumento da sua dimensão, as transformações das estruturas dos mercados emergentes tenham cada vez mais e maiores impactos sobre as estruturas das economias dos países avançados. Uma economia emergente em crescimento desloca-se na sua cadeia produtiva para produtos de mais elevado valor acrescentado nas cadeias internacionais de produção, tal como o capital físico, o capital humano e o capital institucional aprofunda as economias emergentes levando-as a competir com as economias desenvolvidas.
No inicio do período pós-guerra, com as sucessivas rondas de negociações do GATT removeram-se restrições às exportações da produtos manufacturados , os países em desenvolvimento, cujas exportações consistiam até principalmente de recursos naturais e produtos agrícolas, desenvolveram uma base industrial em produtos da indústria transformadora intensivos em mão-de-obra e de baixo valor acrescentado . Nesta sua base industrial a indústrias têxtil e a do vestuário eram dominantes. Outras indústrias foram sendo sucessivamente acrescentadas à medida que se progredia no tempo. A lista é quase que interminável: malas de viagem, louças, coudelarias, brinquedos, produtos pessoais, e assim sucessivamente.
Mas não eram apenas produtos acabados que estavam a ser adicionados às carteiras de activos das economias emergentes. As partes das cadeias internacionais de produção fortemente utilizadoras em trabalho não especializado também se estavam a deslocar para as economias emergentes tanto quanto as empresas multinacionais aprenderam a integrar de forma eficiente operações de produção geograficamente dispersas. No sector de produtos electroeletrónicos, o processo de montagem fortemente intensivo em trabalho não especializado é, diríamos, um produto quase que naturalmente adaptado aos países de baixos rendimentos. Semicondutores, placas de circuitos impressos e outros componentes são projectados e fabricados em lugares diferentes, ou seja, em países de médio e altos rendimentos tais como a Coreia do Sul e Japão. A concepção e elaboração dos produtos das grandes marcas, o marketing, e investigação tendem a ser feitas nos países ricos. Cada componente da cadeia internacional produtiva tem sempre a sua mais eficiente localização de modo a reduzir ao máximo o custo do produto final.
A forma que assume a cadeia global de produção está constantemente em mudança. Países entram e integram-se na economia global em momentos do tempo diferentes e expandem-se também a taxas diferentes. As economias que anteriormente apresentavam altas taxas de crescimento, as economias do Japão, da Coreia do Sul e Taiwan - inicialmente eram países exportadores de produtos intensivos em trabalho e foram-se gradualmente movendo e subindo na cadeia de produção global e então foram-se deslocando para produtos mais intensivos em capital como automóveis e motocicletas e depois para actividades intensivas em capital humano, como o design e o desenvolvimento tecnológico. As actividades intensivas em trabalho, foram as actividades que estes primeiros mercados de alto crescimento deixaram partir quando os seus custos do trabalho aumentaram e estas indústrias deslocalizaram-se então para os países mais recentemente chegados à economia global e estes são predominantemente os países asiáticos, como a China e o Vietname...
A transformação da estrutura global não é estática, nem cíclica, nem auto reversível. Esta é bem melhor descrita como sendo um dia que só pode ser vivido nesse mesmo dia.. Os países que chegaram tardiamente à industrialização tendem a seguir a mesma trajectória que aqueles que os antecederam.
(Continua)
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - I
Apresentação
Este trabalho examina a evolução da estrutura da economia americana, especificamente, as tendências em termos de valores de emprego, de valor acrescentado por sector e de valor acrescentado per capita de 1990 a 2008. Estas tendências estão estreitamente ligadas com as tendências complementares em dimensão e em estrutura da economia global, particularmente das principais economias emergentes.
Empregando séries temporais de dados da base de dados do Bureau of Labor Statistics e Bureau of Economic Analysis, a economia americana e os seus sectores é dividida em duas partes, uma parte, em que se colocam os sectores ou ramos ou indústrias norte-americanas que produzem os bens e serviços negociáveis internacionalmente e uma outra parte em que se colocam os sectores, ramos ou indústrias que estão a produzir bens e serviços não negociáveis internacionalmente. Procura-se que sejam analisadas as tendências, em termos de emprego e em termos de valor acrescentado, quer ao nível dos ramos quer a nível mais agregado ainda. O valor acrescentado em toda a economia cresceu, mas quase todo o acréscimo de emprego, que no total foi de 27,3 milhões de empregos, deu-se no sector de bens e serviços não negociáveis internacionalmente. Neste caso, nesta parte da economia, o sector governamental e o sector de cuidados de saúde são os maiores empregadores e foram neles que se verificaram os maiores acréscimos, (um adicional de 10,4 milhões de postos de trabalho) ao longo das duas últimas décadas. Há perguntas óbvias sobre se estas tendências se podem manter desta forma ou não, pois sem uma rápida criação de empregos no sector de bens não comercializáveis, os Estados Unidos teriam já enfrentado um enormíssimo desafio em termos de emprego.
As tendências em termos de valor acrescentado por trabalhador são consistentes com os movimentos adversos na distribuição de rendimentos dos EUA nos últimos vinte anos, em particular o fraco crescimento do rendimento na faixa média de rendimentos. A parte da economia caracterizada pelos sectores dos bens transaccionáveis está a deslocar a sua cadeia de valor acrescentado com os seus elos de valor acrescentado na média ou inferior a serem deslocalizados para o exterior, especialmente para os mercados emergentes em rápido crescimento. Estes últimos países estão eles mesmos, e rapidamente, a subirem nas cadeias de valor acrescentado pelo que os empregos de remunerações mais elevadas podem deixar também os Estados Unidos, seguindo o padrão de migração dos empregos de salários mais baixos. A evolução da economia americana permite considerar que se trata da existência de um grande desafio quanto às suas estruturas de emprego de longo prazo relativamente à quantidade e à qualidade das oportunidades de emprego nos Estados Unidos. Um conjunto inter-relacionado de problemas está ligado às questões da repartição do rendimento; quase todos os acréscimos de emprego ocorreram no sector de bens não transaccionáveis, em que o crescimento do valor acrescentado por trabalhador tem sido muito mais baixo. Uma vez que este valor está fortemente correlacionado com o rendimento, haverá um longo caminho para explicar a estagnação dos salários entre largos segmentos da força de trabalho americana.
Síntese
1. O crescimento do emprego na economia dos EUA entre 1990 e 2008 foi substancial, na ordem dos 27.3 milhões de empregos quando em 1990 havia 121.9 milhões de trabalhadores.
2. Virtualmente todos os acréscimos de emprego (97,7 por cento) resultam da criação de postos de trabalho na parte da economia dos bens e serviços não comercializáveis. Isso ocorreu apesar da dramática utilização das tecnologia economizadores em trabalho, labour-saving, no processamento da informação transversal a todos os sectores da economia.
O mundo do trabalho no capitalismo moderno, na economia financeirizada
Hoje, dia 1 de Maio, o Pingo-Doce, a que não deixará de estar ligado António Barreto, tenta comprar a consciência de quem vive em dificuldade oferecendo cinquenta por cento de desconto imediato nas compras se feitas neste dia, hoje, no dia do Trabalhador!
Para este dia,umas nota simples.Um trabalhador suicidou-se, imolou-se em França.
Drama profundo, é certo, mas que a imprensa podia colocar ou tratar como um fait-divers, como o faz muitas vezes. Mas este suicídio segue-se a outros 17 suicídios mais, em 2010, e estes sucedem-se também a outros 35 mais, nos anos anteriores, e na mesma empresa, a France Télécom, o quarto operador a mundial no mundo das telecomunicações. Em paralelo e mudando de ramo mas dentro do mesmo tema, leio os jornais sobre a Renault e encontro a mesma realidade e agora no centro de excelência desta empresa, no seu polo Technocentre de Guyancourt. Por detrás de tudo isto, estava um engenheiro, e depois outros, de alto gabarito, A. de B. seu nome, estava o facto de se ter investido pessoalmente com grande intensidade no projecto de um carro derivado do Logan, num programa de formação que deveria ser feito no Brasil, a que ele consagrava parte dos seus próprios fins-de-semana e dos serões de família, por detrás de tudo isto estava o ritmo de trabalho muito intenso exigido de forma continuada nesta empresa, sem direito quase a fins-de-semana verdadeiramente livres e em que factor agravante o "Contrato Renault 2009", tinha imposto em toda a empresa objectivos elevados em matéria de vendas e de rentabilidade. Factos comprovados e confirmados em tribunal (Maio de 2011) foi considerado um acidente em trabalho.
Ontem acedi, como faço normalmente, ao site do New York Times e deparo-me com um artigo brutal sobre as montagens financeiras da Apple, a primeira empresa mundial no seu sector. A partir deste artigo pode-se afirmar: “O New York Times cita um estudo realizado por Martin A. Salivam, antigo economista-chefe do Departamento do Tesouro, que estima que o valor dos impostos federais pagos pela Apple poderia ter sido mais elevado e no montante adicional de 2,4 mil milhões de dólares só no ano passado.
O jornal diz que a Apple pagou globalmente 3,3 mil milhões em impostos sobre os 34,2 mil milhões de lucros no ano passado. Isso representa uma taxa de 9,8%.
Num comunicado de resposta, a Apple disse ao Times que cumpriu com todas as leis e regras contabilísticas, e diz que as suas operações nos EUA geraram aproximadamente 5 mil milhões em impostos federais e estaduais no primeiro semestre do ano fiscal de 2012.
Os analistas de Wall Street prevêem que a Apple pode ganhar cerca de 46,9 mil milhões no actual ano fiscal, de acordo com a FactSet.”
Mas a Apple reenvia-nos obrigatoriamente para um dos seus mais importantes fornecedores, em regime de subcontratação, a empresa Foxconn, uma das maiores empresas fabris mundiais, com globalmente mais de um milhão de trabalhadores, a trabalhar quase que exclusivamente para o Ocidente desindustrializado, e por isso mesmo, mas apenas com margens brutas de lucro na ordem apenas dos 4 a 5 por cento. E esse exemplo, era uma das fábricas Foxconn.
Neste caso lembro-me também das remunerações auferidas (será este o termo?) pelo seu actual Presidente. Tim Cook, que rondaram os 378 milhões de dólares no ano de 2011 (e não há engano nestes valores), lembro-me das acções da Apple a subirem 70 por cento deste Agosto último e face a todos estes números acima que alimentam também os nossos investidores, lembro-me do movimento inverso que faziam jovens chineses, trabalhadores da Foxconn a atirarem-se pelas janelas para baixo, suicidando-se.
Suicídios de um lado e do outro. Cremos mesmo que os suicídios de um lado e do outro correspondem às duas faces da mesma moeda, são o resultado da violência do capitalismo moderno onde todos os mecanismos de pressão e de exploração estão disponíveis e utilizáveis, onde a rentabilidade máxima e de curto prazo domina sobre todos os outros objectivos possíveis ou desejáveis, e em que a Ocidente se dispõe de técnicas ultra-refinadas de manipulação, como a gestão da crise o mostra à evidência, e a Oriente se dispõe da força brutal que a falta de democracia lhes pode conferir, sendo agora certo que quer a Ocidente e a Oriente, de um lado e de outro, surge ainda a precariedade como elemento comum a ambos, como arma quase absoluta de manipulação e, sobretudo, de contenção das lutas dos trabalhadores. Não é por acaso que se dão os suicídios em série na France Télécom, na Renault e noutras grandes empresas e não é por acaso que eles se dão igualmente na China.
Traduzido e enviado por Júlio Marques Mota
Alguns norte-americanos de altos rendimentos pagam muito em impostos, outros não. Se cada um de nós tem um jurista como conselheiro fiscal e se muito do nosso rendimento pode ser estruturado de alguma forma como "ganhos de capital", a taxa marginal - o que iremos pagar pelo último dólar do rendimento pessoal - pode ser muito baixa. A maior taxa de imposto marginal de rendimento é de 35 por cento enquanto os ganhos capital de longo prazo (a mais de um ano) são tributados a 15 por cento, no máximo.
A regra de Buffet é uma proposta com o objectivo de estabeleceruma taxa mínima para "milionários" - pessoas que ganham mais de 1 milhão de dólares por ano – eo Senado parece estar a defender uma versão desta regra estasemana . A quantidade exacta de rendimento que se deve tributar depende dos detalhes, mas não existe nenhuma dúvida de que é uma taxa pequena em relação às necessidades do país em controlar o orçamento federal.
(A TheJointCommitteeonTaxation estabeleceu uma versão desta proposta em que se torna possível obter cerca de 30 mil milhões em dez anos; O défice anual permanece acima de 1 milhão de milhões no curto prazo mesmo de acordo com as projecções mais optimistas.)
Os maiores pontos de atrito para qualquer estratégia razoável para controlar o orçamento federal dos EUA residem no facto de quepor um lado - os republicanos - se recusam a aumentar os impostos seja a quem for.
Existem três formas de seguir em frente. Ou os republicanos começam a empenharem se e concordam em aumentar os impostos como parteda redução do défice e da estratégia de controle da dívida exactamente como Ronald Reagan o fez . Há uma grande confusão sobre se Reagan aumentou os impostos depois de primeiramente os ter cortado ", veja-se o capítulo três de WhiteHouseBurning para obter os detalhes doque é que realmente aconteceu.
Ou os republicanos que assinaram o TaxpayerProtectionPledgeserão dominantes –não se aumentam os impostos de ninguém e, muito provavelmente, os impostos de algumas pessoas devem mesmo descer. Neste caso, o défice podecontinuar a crescer à vontade (que é a posição representada por Newt Gingrich) ou Medicare e quase tudo o mais o governo federal terá feito será assim destruído ( e esta é a posição representada por Paul Ryan). E o meu palpite, no quadro deste cenário, é que podemosdizer adeus aqualquer forma significativa de Segurança Social - boa sorte e que consigam ter boa saúde quando tiverem 85 (a menos que cada um de nós tenha ganhomais de um milhão de dólares por ano e durante muitos anos).
Ou será que os republicanos perdem em grande – e desta forma a consolidação fiscal pode ser feita sem a sua obstrução. Mas umaperda significativa dos republicanos parece-nos improvável – eles certamente irão ter mais de 40 lugares no Senado num futuro próximo .
Assim, a trajectória orçamental do país - e se a Segurança Social e Medicaresobreviverem - vai depender muito da hipótese de que os republicanos se empenhem nos impostos .
A regra de Buffett é um pequeno imposto, de pouca importância para as pessoas que pagam ou para o país como um todo. A ideia de que 30mil milhões de rendimento adicional possam levar as conta públicas à situação ao equilíbrio é simplesmente ridícula.
Mas isto é precisamente o que dá à regra de Buffet o seu verdadeiro simbolismo.
Grande parte do financiamento das contas públicas do governo central é complexo e difícil para as pessoas o poderem compreender –a desmistificação do défice e da dívidapública é um das principais razões para que tenhamos escrito o livro WhiteHouseBurning.. Algumas das reacções ao nosso livro são estimulantes, particularmente, partindo depessoas que estão dispostas a gastar algum tempo com os pormenores.
Mas o que está por detrás da regra de Buffett é cristalino e não requer que ninguém tenha que comprar um livro ou até mesmo que tenha de ler o jornal. Devem todos os americanos de altos rendimentos pagar uma taxa moderada nos seus impostos ?
Simon Johnson .The Buffett Rule Is A Good Idea, Abril 2012.
Seleccionado e traduzido por Júlio Marques Mota
* Universidade Paris-Dauphine
O capítulo “trader louco " da enciclopédia dos mercados financeiros acaba de ser enriquecido com uma nova entrada, a de Kweku Adoboli, que acabou de levar à perda de 1,7 mil milhões de euros ao banco suíço UBS.
Este estaria na origem de cerca de 7,33 milhares de milhões de euros de transacções não - autorizadas, que tinham escapado “à vigilância” da sua hierarquia.
PANTEÃO “DOS TRADERS LOUCOS "
No Panteão dos traders loucos, junta-se Jérôme Kerviel (Sociéeteé Génerale), Nick Leeson (Barings), Yasuo Hamanaka (Sumitomo) e alguns mais.
Apesar de que as somas perdidas são de tal forma enormes que nos fazem sonhar, isto não é um fenómeno novo.
O síndroma “de trader que fica apaixonado pela sua posição especulativa”, do trader que pensa ter razão contra todos, é uma constante na história dos mercados, em especial durante as fases de forte volatilidade e de bolhas.
Isto já custou a vida a muitas sociedades de negócio no mercado das matérias-primas. O desenvolvimento pelos bancos das suas operações sobre conta própria nada mais faz do amplificar o fenómeno colocando em evidência as lacunas dos seus controlos internos.
O que é mais inquietante, é que aqui, “o acidente” ocorreu sobre um novo tipo de produto financeiro, que tem tido um forte desenvolvimento: o Exchange Traded Funds (ETF) ou fundo de índices cotado.
1100 MIL MILHÕES de EUROS
Estes instrumentos financeiros reproduzem o comportamento de activos subjacentes: acções, índices, matérias-primas … Permitem a um investidor especular sobre um mercado sem ter directamente que investir numa acção ou um produto físico. Criados há uma vintena de anos, os ETF representam hoje em valor cerca de 1.100 mil milhões de euros.
Para além da sua complexidade, ilustrada pelos desaires de UBS, os ETF colocam um problema de fundo que não foi tratado tanto quanto eles puderam passar pelas malhas - bem largas e bem lassas- das agências de regulação.
Trata-se da natureza da relação entre o produto financeiro e o seu subjacente. Se tomarmos o caso dos ETF sobre as matérias primas, trata-se de posições sobre mercados a prazo ou então trata-se stocks físicos, ou até um pouco dos dois?
Sabe-se que os mais importantes ETFs no mercado de um ouro deteriam alguns milhares de toneladas de metal precioso. Recentemente, os ETF foram criados nos mercados de metais não ferrosos como o cobre, tendo tido como resultado congelarstocks suplementares sobre o de Londres, sobre o LME, cuja transparência não é a sua qualidade principal.
Os ETF são o exemplo típico de inovação financeira que, primeiro anódina, ou mesmo talvez útil porquetraz liquidez aos mercados - deixa aparecercom o seu uso possíveis derivas - eno caso presente, traz a esterilização de stocks de matérias primas, o que é grave.
O que não é um problema para o ouro, cuja vocação é a de ser armazenado, torna-se um problema para os outros metais e sê-lo-á mais ainda para os produtos agrícolas. Sem iraté à sua proibição parece-nos necessárioque estes sejam enquadrados e sejam levantadas barreirasdeontológicas - por exemplo, a proibição de deterstocks físicos - e o rigoroso o controlo das posições em “papel” de cada ETF.
Mas tropeça-se aqui sobre o vazio abissal das regulações europeias sobre a má vontade das autoridades britânicas que não querem matar a galinha dos ovos de ouro da City.
Kweku Adoboli está na prisão, mas a responsabilidade final é a das autoridades de mercado sobretudo em Londres, que confundem liberalismo e laxismo.
Caro Colega, Caro estudante, Caro Amigo
Uma proposta, a participação numa conferência na FEUC e numa discussão no semanário Expresso
Vai a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra promover dia 18 e 19 de Abril um Colóquio sobre a Europa em crise, sobre a Europa de ontem, sobre a Europa de hoje, e também a querer ser sobre a Europa possível e desejável de amanhã, colóquio que tem como tema A Zona Euro, de Maastricht a 2020, a crítica de um projecto e de um trajecto.
Uma leitura rápida do programa mostra-nos imediatamente que se mobilizaram enormes recursos humanos, tanto estrangeiros como nacionais, a partir de uma base de apoio mínima, dois docentes em plena ocupação de serviço e ambos com matéria novas a leccionar, e um outro que docente já foi, um pouco mais livre mas mais limitado pelo decorrer do tempo que já passou. Com efeito, contamos com a colaboração de Marcello de Cecco, Dominique Plihon, Marica Frangakis, Alberto Montero Soler, Peter Whal, João Ferreira do Amaral, José Almeida Serra, João Cravinho e a nível interno, com a presença de Joaquim Feio, Stuart Holland, Adelino Fortunato e João Sousa Andrade. A todos eles e antecipadamente os nossos agradecimentos pela disponibilidade.
O Expresso por seu lado interessou-se pelo tema, pela Iniciativa, e publicou já uma peça sobre a referida iniciativa publicada no passado sábado e redigida pelo colaborador do Expresso e editor Jorge Nascimento Rodrigues, autor do recente livro, Portugal na bancarrota.
Esta carta será, por razões de tempo e não só, a última informação e o último convite que vos apresento no quadro de uma iniciativa da FEUC, daí o cunho marcadamente pessoal que estas linhas mostram, e francamente espero que todos nós, como professores, como alunos, como cidadãos, estejamos disponíveis para este mesmo Colóquio sobre os maus tempos que nos assolam ou sobre aqueles ainda piores, talvez, que se adivinham. A Espanha aí está a mostrar isso mesmo. E sobretudo, que todos nós saibamos motivar os principais destinatários a quem este Colóquio se dirige, ou seja, os estudantes.
Antecipadamente, o nosso reconhecimento pessoal pela motivação de todos os que estiverem presentes e também por aqueles que estiverem ausente, certos de que estariam disponíveis para neste debate de dois dias poderem participar.
O jornal Expresso dado o interesse suscitado com a peça continuou interessado nesta iniciativa abriu on line um debate sobre os temas em análise. O site é:
http://expresso.sapo.pt/ficar-no-euro-mu
ou ainda:
pelo que assumo pessoalmente a liberdade de sugerir a todos os destinatários deste texto uma ampla participação no debate organizado neste site.
Certo da disponibilidade de todos apresento as nossas sinceras saudações académicas
Júlio Marques Mota
Programa
COLÓQUIO
A Zona Euro, de Maastricht a 2020, a crítica de um projecto e de um trajecto
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 18 e 19 de Abril de 2012
Sala Keynes
DIA 18 DE ABRIL
10 horas
DOMINIQUE PLIHON (Universidade Paris-Nord) - As raízes da crise europeia
ALBERTO SOLER (Universidade de Málaga) - Podem os países periféricos sobreviver no euro? O caso da Espanha
14 horas e 30 minutos
MARICA FRANGAKIS (EuroMemorandum Group, Atenas) - O puzzle da integração económica, será a Grécia a primeira a cair?
MARCELLO DE CECCO (Universidade LUISS, Roma) - A crise internacional, as políticas adoptadas, a Itália (vinda de Marcello de Cecco cancelada)
DIA 19 DE ABRIL
10 horas
PETER WAHL (investigador no WEED, Bona) - Mais Europa ou mais Alemanha? Problemas e raízes da posição alemã na crise da União Europeia
JOÃO FERREIRA DO AMARAL (Professor aposentado, ISEG) - Depois do euro: uma nova esperança para a Europa
15 horas
Debate em Painel Aberto com todos os intervenientes
Organização
Júlio Mota
Luís Lopes
Margarida Antunes
Um dos aspectos mais preocupantes da vida hoje em dia é o dos conceitos incutidas pelos mais diferentes meios, a começar pela comunicação social, e que influenciam profundamente o nosso dia a dia. São ideias muito gerais, que nos aparecem de um modo difuso, mas que têm uma influência enorme sobre os actos e a vida do comum das pessoas. São aceites de um modo passivo, na medida em que a maioria não lhes dedica uns minutos sequer, para as ponderar e pensar na sua origem e nos seus efeitos. Nunca houve, na história da humanidade, tanta informação, nem tanto conhecimento. Mas também nunca terão existido tantos conceitos, tão divulgados e com peso tão grande e, ao mesmo tempo, aceites de um modo tão pouco crítico por tanta gente.
Um dos mais divulgados e com mais influência, é sem dúvida o do comércio livre. Das supostas vantagens que o comércio livre, a livre circulação de bens e serviços, acarreta para a sociedade em geral. Entretanto, um número considerável de pessoas já constatou as enormes contradições que resultam na prática deste conceito. Desde as nações que o proclamam como um princípio, mas que na prática procuram apenas os seus benefícios, e defendem-se a todo o transe dos encargos dele resultantes, até às dificuldades reais que resultam do seu exercício, muitas vezes à mistura com erros graves de julgamento. O combate ao proteccionismo tem sido um princípio quase sagrado das políticas dos países ocidentais, que há muito que associam a ideia do comércio livre à democracia e à liberdade. É digno de estudo cuidadoso o que se passa com a União Europeia a este respeito.
Contudo, esta associação de ideias parece estar a ser posta em causa. Por um lado, os defensores do socialismo e a esquerda em geral têm levantado objecções. Entretanto, a queda da URSS deu aos defensores do comércio livre (com as ressalvas acima resumidas) um grande fôlego, reforçado pela adesão das correntes social-democratas à ideia da imprescindibilidade do capitalismo, com o advento da terceira via de Anthony Giddens. Mas a ascensão da China e de outros países asiáticos veio baralhar esta ideia.
Numerosas análises têm sido feitas a este respeito. Uma das mais interessantes é sem dúvida a de Paul Craig Roberts, antigo Secretário de Estado do Tesouro de Ronald Reagan e apontado como o pai das reaganeconomics. É verdade que posteriormente tem sido crítico da administração Bush, adversário de Israel (o que aliás lhe valeu a acusação de anti-semitismo, outro conceito muito divulgado, de modo pouco rigoroso, e com o objectivo de confundir e difamar) e contestou mesmo a versão oficial do 11 de Setembro. Mas é claríssimo que está longe, muito longe, de ideais comunistas, esquerdistas ou outros do género. A Viagem dos Argonautas já publicou vários escritos seus, pela mão do argonauta Júlio Marques Mota, o último dos quais já este mês, há três dias, sob o título Como a economia se perdeu, condenada pelos mitos da livre-troca. Neste texto expõe várias ideias, das quais algumas com certeza merecerão discordância de vários quadrantes, mas que no conjunto nos dão uma visão alargada e bastante dos problemas da política económica norte-americana e internacional. Diário de Bordo salienta as análises que Craig Roberts faz aos métodos seguidos na deslocalização de empresas, à titularização dos pagamentos dos juros das hipotecas (os produtos derivados) e aos resultados da manutenção do dólar como moeda reserva. Dá uma grande ajuda para, mesmo os que não se interessam por economia, conseguirem perceber o sarilho em que estamos metidos.
Selecção, tradução e apresentação por Júlio Marques Mota
(Conclusão)
Vejamos agora a questão das reservas a que nos referimos: o desemprego britânico foi muito mais alto na década de 1930 do que o que é hoje, porque a economia britânica estava já em recessão antes de iniciada a depressão - e isto por culpa de um errado regresso ao padrão-ouro. Por outro lado, a Grã-Bretanha sofreu uma moderada Depressão em comparação com a dos Estados Unidos.
Graficamente:
Quando mesmo assim, fazer melhor que o que se viveu em 1930 não deveria ser um desafio difícil de enfrentar.
Não aprendemos nós muito em termos de gestão económica nos últimos 80 anos? Assim é, na verdade, mas na Grã-Bretanha e como noutros países aliás, a elite governante decidiu lançar pela janela estes mesmos conhecimentos tão duramente adquiridos para se basear agora e em vez disso, na ideologia bem prática dos pensamentos piedosos. A Grã-Bretanha, em particular, era suposto ser a montra da "austeridade expansionista", esta noção que, para combater a recessão, se deve cortar nas despesas públicas em vez de as aumentar e que com isso seríamos pois levados à retoma económica mais rapidamente.
Aqueles que nos dizem que gerir os nossos défices e promover o crescimento são coisas contraditórias estão enganados," disse David Cameron, primeiro-ministro britânico. "Ele não é possível deixar de resolver a primeira, a questão dos défices, para procurar promover a segunda, a questão do crescimento económico."
Graficamente:
Como é que a economia se poderia desenvolver quando o desemprego era já tão elevado e que as medidas dos governos reduziam directamente ainda mais o emprego? A confiança! “É assim que eu penso, realmente", disse Jean-Claude Trichet, então Presidente do Banco Central Europeu e fervoroso defensor da doutrina da austeridade expansionista, "que nas actuais circunstâncias, as medidas que inspiram confiança irão gerar a recuperação económica, em vez de a impedirem porque a confiança é hoje o factor-chave.
Tais alegações sobre a Fada da Confiança nunca foram plausíveis; os investigadores no Fundo Monetário Internacional e em outros lugares desacreditaram rapidamente as chamadas provas mostrando em que é suposto provar que a redução dos gastos públicos cria postos de trabalho. No entanto, algumas pessoas influentes de ambos os lados do Atlântico têm elevado até às nuvens os elogios aos profetas de austeridade, incluindo nestes Cameron, uma vez que a doutrina da austeridade expansionista era consistente com as suas próprias necessidades ideológicas.
E é por isso que em Outubro de 2010 David Broder, que encarnava a sabedoria popular fez uma homenagem à coragem de Cameron, em particular para ter "ignorado as advertências dos economistas sobre estas medidas súbitas e severas que iriam curto-circuitar a retoma britânica e iriam assim lançar o país numa recessão". Ele tinha em seguida apelado ao presidente Barack Obama para " actuar como Cameron" e, assim, prosseguir "uma radical e imediata revisão do Estado-Providência".
No entanto, é surpreendente que todos esses avisos dos economistas eram de facto relevantes. E nós somos uns afortunados por termos a sorte de que Obama não tenha finalmente decidido "actuar como Cameron".
Isso não significa que tudo está bem na política americana. É verdade que o Governo Federal tem evitado a austeridade total. Mas os Governos locais e estaduais que devem ter as contas equilibradas, cortaram nas despesas públicas e no emprego à medida que a ajuda federal está em declínio - e isto tem pesado muito sobre a economia como um todo. Sem estes cortes na despesa, já poderíamos estar no caminho para a recuperação económica; no estado actual das coisas, esta retoma ainda não está estabelecida.
E bem poderíamos ter caminhado na direcção errada como se faz também na Europa continental, onde as medidas de austeridade tem o mesmo efeito que na Grã-Bretanha, com um grande número de sinais que indicam uma recessão este ano.
O que é irritante nesta tragédia, é que esta era completamente desnecessária. Desde há meio século atrás, qualquer economista - ou mesmo todo qualquer estudante que tenha lido o manual universitário "Economia" de Paul Samuelson – nos teria dito que a austeridade em tempos de depressão é sempre uma ideia muito má. No entanto, os políticos, os peritos e, lamento dizê-lo, um grande número de economistas decidiram, em grande medida para fins políticos, esquecer tudo o que sabiam. E milhões de trabalhadores agora pagam o preço da sua amnésia intencional.
Paul Krugman
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 18 e 19 de Abril de 2012
Sala Keynes
DIA 18 DE ABRIL
10 horas
DOMINIQUE PLIHON (Universidade Paris-Nord) - As raízes da crise europeia
ALBERTO SOLER (Universidade de Málaga) - Podem os países periféricos sobreviver no euro? O caso da Espanha
14 horas e 30 minutos
MARICA FRANGAKIS (EuroMemorandum Group, Atenas) - O puzzle da integração económica, será a Grécia a primeira a cair?
MARCELLO DE CECCO (Universidade LUISS, Roma) - A crise internacional, as políticas adoptadas, a Itália
DIA 19 DE ABRIL
10 horas
PETER WAHL (investigador no WEED, Bona) - Mais Europa ou mais Alemanha? Problemas e raízes da posição alemã na crise da União Europeia
JOÃO FERREIRA DO AMARAL (Professor aposentado, ISEG) - Depois do euro: uma nova esperança para a Europa
15 horas
Debate em Painel Aberto com todos os intervenientes
Organização
Júlio Mota
Luís Lopes
Margarida Antunes
dois textos para reflexão seleccionados e traduzidos por Júlio Marques Mota, que nos diz:
Caros Argonautas
Muita coisa vai de pobre no reino da Dinamarca:
Desde um Catroga que negoceia com a Troika,
desde um Catroga que “acompanha o governo” na transferência de uma empresa pública de um governo para outro governo, desde a Troika e um Governo que chamam a isto privatizar,
desde um Catroga que se autoproclama grande gestor público, para esquecer as SAPEC deste país, e vai receber uma fortuna de remunerações para estar á frente de uma das empresas de que terá negociado a referida transferência a que no reino das mentiras que agora dá pelo nome de Portugal se chama “privatização “
desde um Governo que começa a pisar o chão perigoso dos mortos que vão tombando como preço da sua política de austeridade assassina e realizada a coberto do aval de Bruxelas,
desde um governo que convida a juventude a sair do país para irem deambular por essa Europa e sofrer num mercado de trabalho cada vez mais desregulado, e por aí jazer e morrer, quem sabe, longe daqueles que os viram nascer e crescer,
desde um Governo que vê um país a tombar exangue pela inactividade a que é forçado por falta de investimento público, porque o capital privado esse fugiu à espera que o euro rebente, e a tombar exangue também como resultado do saque orquestrado diariamente pelo próprio executivo ao povo português mas em que este continua a proclamar alto e bom som que será assim custe o que custar, porque o importante é satisfazer os mercados,
desde um governo que pretende empobrecer violentamente um país para assim o enriquecer, como o muito bem o analisa um artigo da Bloomberg,
até uma situação que é mais de um outro mundo do que do nosso e só pensável numa imaginação delirante como é aquela bem evidenciada pelos milhões “por engano” oferecidos à Lusoponte,
eis que, depois de todos estes absurdos, os ventos da racionalidade nos começam a soar e a soprar fortes mas pelo lado de onde menos se esperava, pelo lado dos próprios mercados de capitais.
Dois textos vos apresentamos aqui, sem comentários da nossa parte, o primeiro, a informação do despedimento de um alto funcionário dos mercados financeiros, um executivo do Goldman Sachs, a esclarecer o que estes mercados são, sendo certo que é a estes que a Comissão Europeia e o governo de Passos Coelho quer vender a alma do nosso país, e o segundo texto, o texto de um gestor de um dos mais importantes fundos americanos, Jeremy Grantham, Presidente de GMO, que se interroga se por este caminho não será então Marx a ter razão, e não estarão então Bruxelas, o Banco Central Europeu e o FMI, a estenderem a corda para nos enforcarmos a todos nesta economia global, no contexto de uma enormíssima força destruidora criada pela actual globalização, face a estarmos perante uma Juggernaut globalizada.
Textos de reflexão, é o que aqui vos deixo.
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.
No início foi a crise financeira (2007-2008) com as consequências reais que se fizeram sentir, como sempre em tais casos, através de um colapso na procura global de actividade e do emprego.
A comunidade internacional mobilizada pelas reuniões do G-20, com razão, reage, usando todos os meios para apoiar a procura: a política monetária expansiva e não convencional, os estímulos orçamentais, também. Esta reacção evita ao mundo que se afunde numa depressão. A equação é simples a posteriori. Os mercados financeiros durante anos supervalorizaram o valor dos activos incitando os agregados familiares e empresas a endividarem-se.
Quando este preço voltou à terra, o sector privado terá tomado consciência brutalmente que estava endividado, pois enquanto o valor da sua dívida estava inalterado, em seguida, o valor das suas contrapartes (acções, imóveis, etc.) entrou em colapso. Não havia outra escolha que seria desendividar-se: reduzir o consumo para os agregados familiares, reduzir os investimentos e o emprego para as empresas. O ajustamento em cada uma destas duas categorias de actores é retroactiva de uma categoria para outra, o que obriga a reduzir ainda mais as suas despesas . As empresas deverão adicionar à sua adaptação inicial, a adaptação induzida pelo declínio das suas actividades, pelas saídas nos mercados. Enquanto o agravamento do desemprego incentiva as famílias, por precaução ou constrangimento, ainda a mais parcimónia.
Era necessário, portanto, romper com este frente a frente depressivo por intervenções públicas maciças que apenas conseguiram por um fim ao ajustamento no sentido da baixa . Isso foi feito e por todo o lado o acréscimo de poupança privada foi compensado pela despesa pública adicional (défice orçamental). Mas o processo do desendividamento do sector privado é longo e penoso. Os governos devem manter os nervos fortes face à ascensão da dívida pública, para não cederem eles próprios à tentação de um desendividamento muito precoce.
Ainda assim é necessário que tenham a liberdade. Não é o caso na zona euro, onde as dívidas são soberanas e a moeda não tem soberano. A fragmentação da dívida europeia em tantas dívidas nacionais não protegidas por um Banco Central, abre uma grande e ampla porta à arbitragem dos mercados prontos a discriminar entre eles de acordo com a sua própria avaliação dos riscos que atribuem a cada país.
Daí a importância que assumem na Europa as agências de rating que contudo seriam dificilmente audíveis num outro contexto (Estados Unidos, Japão, Reino Unido). Assim, a crise dita de endividamento, acresce-se na Europa uma outra crise, a crise da dívida soberana que incentiva os Estados-Membros a praticarem mais austeridade.
Por falta de acordo em "reparar" a Constituição Europeia - tornando o Banco Central (BCE) um Banco Central de plenas funções; mutualizar a dívida para tornar impossível a arbitragem dos mercados, tal como a moeda única (a mutualização das moedas ) tinha acabado por colocar um fim à especulação sobre as taxas de câmbio intra-europeias- os Estados europeus também são obrigados, no quadro dos actuais tratados, a desendividarem-se. Os temores de uma recessão Europeia encontram aqui a sua origem. É necessário fazer de um mal um bem e procurar naquilo que nos constrange os meios para fazer algo de útil: as reformas a custo zero, aptas para muscular as economias nacionais para acrescer a sua competitividade.
Produzir francês, grego, italiano, português, espanhol etc. na esperança de vender para outros países, ou confiar na procura interna duplamente limitada pela continuação do desendividamento privado, pelo aumento dos impostos e pela redução das despesas públicas e sociais necessárias ao desendividamento público, por outro lado. A competitividade é um conceito relativo e as políticas que procuram aumentá-la não podem todas elas ter simultaneamente sucesso.
A fragmentação das dívidas conduz, portanto, a outra fragmentação, a das políticas nacionais, para grande incómodo do interesse geral europeu. A generalização do rigor reduz os mercados de bens e serviços na Europa, que é uma muito má premissa para o aumento das exportações de cada país. Certamente o aumento da competitividade europeia poderia quotas de mercado noutras regiões do mundo, mas estes últimos têm uma arma para isso atenuar se não mesmo para cancelar os seus efeitos: a depreciação da taxa de câmbo. i...
O aumento da produção (da oferta) precisa de oportunidades de escoamento para se tornar efectiva. No entanto, nós tínhamos partido da constatação de que estávamos perante uma deficiência na procura.. Esta pescada de rabo na boca que são as actuais políticas europeias - combater uma insuficiência da procura através de uma política de austeridade com a finalidade de aumentar a oferta - é pelo menos enigmática. O PIB na área do euro é ainda hoje inferior em 1 ponto ao que era em 2008. E que nos reserva o futuro?
Pode-se argumentar que uma política de oferta pode, a longo prazo ser benéfica. Isso é indiscutível, mas na condição que é possível aumentar o capital das nações e a sua produtividade. Ora, a austeridade em tempos de crise destrói o capital humano. Que nós não saibamos medir um tal capital não impede, em nada, que ele seja um factor determinante da oferta produtiva presente e futura. É por isso que as políticas de oferta e de procura são tão difíceis de se desemaranharem.
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Se é necessário desendividar os Estados hoje, isto não pode ser feito em detrimento do potencial de crescimento futuro. Apenas as políticas de investimento porque elas alimentam a procura de hoje e aumentam a oferta de amanhã poderiam fazer com que a Europa saia do círculo recessivo em que se encontra. Porque como é que se pode aumentar a produção e a sua qualidade sem investir?
Em 1929, no rescaldo da crise, o Governo britânico publicou um livro branco, conhecido sob o nome de The Treasury View, para dizer que uma política de investimento público não teria nenhum efeito excepto o de degradar as finanças do Estado, enquanto que só o equilíbrio orçamental seria boa gestão. Oito décadas mais tarde, a Europa voltar a agarrar-se ao mesmo ponto de vista. Felizmente, desta vez, este ponto de vista não é partilhado por toda a gente!
Jean-Paul Fitoussi, directeur de recherche à l'Observatoire français des conjonctures économiques
Article paru dans l'édition du 16.02.12
Coordenado por Júlio Marques Mota
Jerez de la Frontera, na Andaluzia, é uma cidade de 212 000 habitantes, famosa pelos seus vinhedos e pelo seucircuito de fórmula 1, onde Ayrton Senna venceu um dia um Grande Prémio de Fórmula 1 por14 milissegundos de avanço. Jerez tem agora uma especialidade bem diferente: é uma cidade em processo de falência.
Nenhum dos 2.400 funcionários municipais ou do sector público local tem recebido o seu salário desde Dezembro.Os autocarros estão em greve e, por falta decombustível, os que servem as zonas rurais circunvizinhas só assegurammetade do serviço. As instalaçõesdesportivas da cidade já não abrem desde há um ano porque lhes cortaram aelectricidade. Um terço dos candeeiros da via pública já não se acende. O imóvel dos Assuntos Sociais, inauguradohá um ano atrás, também não tem electricidade; os funcionários trabalham com um gerador a gasolina e sem aquecimento. Todos os dias se vêemmuitas manifestações, ocupações dos locais públicos, reclamações: um dia, são os agentes de polícia municipais, outro dia são os funcionários do cemitério, no dia seguinte, as senhoras da associação dos cuidados prestados à pessoaincapazesde ospagar porque a Prefeitura não lhes pagou os subsídios.
Jerez começou o ano com zero euros nos seus cofres. Com um orçamento de 222 milhões, ela atingiu, no final de 2010, uma dívida global de 958 milhões. A corrida desenfreada ao endividamento parou aí."Estrangulada, Jerez agoniza", resumiu El Pais no domingo, 19 de Fevereiro. Em Espanha, as cidades arruinadas como Jerezcontam-se por dezenas.
O leitor do jornal espanhol sente-semenos só ao virar as páginas do jornal. Os seus vizinhosportugueses, fica ele a saber, conhecem"um inferno bem particular",o de “viverem (troikados)” e troikados ao quadrado diremos nós, por um lado pela Troika e, por outro lado, por um executivo, o de Passos Coelho, que quer correr mais rapidamente que a própria Troika .Troikados,neologismo que designa aqueles que vivem sob o regime da "Troika"- troikados ao quadrado aqueles que vivem no reino podre de Passos Coelho - e esta é missão composta por representantes do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e da Comissão Europeia - desde que a zona euro obrigou Portugal, como a Grécia,a colocar as suas finanças públicas em ordem.
Viver "troïkado", isto é um pouco como viverem Jerez, mas com um dado adicional, um prémio, terema visita de funcionários estrangeiros que vêm para dispensar os seus conhecimentos técnicos aogoverno. "Eles estão aqui, na foto do "Diário de Noticias", a atravessarema Praça doComércio, jovens,sorridentes, em fato e gravata, com os seus óculos de sole os seus computadores portáteisnos seus pequenossacos pretos, escreveu a jornalista doEl Pais. E esta imagem contrasta terrivelmente com um país que se está a desgastar, onde as ambulâncias permanecem guardadasnosparques deestacionamento, ondese fechamsalas de aula porqueo número de professores foi reduzidode 10%, onde as auto-estradasestãodesertas. Como resignadosface a"esta vida que recua dia a dia". Os portugueses, no entanto, são menos agitados do que oshabitantes de Jerez.
Isto não é, sabe-se,o caso dos gregos. Ninguémsegue mais as notícias da Gréciado que os espanhóis, com a curiosidade de quem também está sujeito a destino esgotante e com a ideia um pouco mais reconfortante que o mal de lá é mesmo assim bem pior que o mal de cá. EmAtenas, quando a noite cai, lê o leitor do El Pais, quando os turistas se retiraram, "os sem-abrigo começam a afluir pelos passeios, com uma espécie de telhado de cartão às costas e em forma de V invertido, refugiados em pequenas construções de papelão e coberturas." "Algumas praças tornam-se dormitórios e na ruaSofokleous Street, distribui-secomida".
Esta é a realidade de 2012, ao sul da zonaeuro. A Itália de Mario Monti está também elaposta em tempo de rigor, mas esta vê-o de formadiferente. A evasão fiscal tornou-se inimigo público número um, dando origem a um delito com um aspecto de género novo:mais vale ter a suadeclaração de rendimentos no porta-luvas do seu Maserati, os controlos são frequentes. É uma das razões pelas quaisas medidas de austeridade são melhor aceites em Itália, ou mesmo emEspanha, do quena Grécia: os dirigentes têm a preocupação de mostrar queo ónus não está sóa cair sobre os ombros das classes média e populares.
Mario Monti renunciou às suas remunerações dePresidente do Conselho e de ministro da economia e colocou a Igreja Católica a contribuir. Na Espanha, Mariano Rajoy, o chefe do governo, limitou o seu salário anual para 78 185 euros (porcomparação, por exemplo,como Presidente Sarkozy que ganha 240.000 euros). Os apresentadores de televisão pública, os directores de empresas públicas aceitaram uma redução nassuas remunerações de 25% a 30% menos.Os salários do conjunto de todos os funcionáriosespanhóis foram diminuídos de 5% em 2011,congeladosem 2012. Por outro lado, a Grécia, diz o economista Jean Pisany-Ferry, reduziuo salário mínimo mensal para483 euros mas ignora "o facto dessa evasão fiscal dos10%mais ricos que se traduz em uma perda de um quarto das receitas provenientes dosimpostos sobre o rendimento". Política e socialmente, essa desigualdadeface aosacrifício não é sustentável.
Outrora cortada em duas, entre o Oriente e o Ocidente, a Europa está sujeita agora a uma nova fractura, uma fractura Norte-Sul:a norte da zona euro é a Europa do triplo A, do crescimento mesmo que modesto, dos serviços públicos eficazes, das taxas de desemprego toleráveis. Esta Europa-lá é uma terra de acolhimento para imigrantes qualificados. Ao sul da zona euro encontra-se a Europa da ruína tripla, a da recessão e do desemprego, onde o endividamento levou às situações acima descritas. Os jovens e os investigadores fogem desta Europa "troïkada"para encontrar trabalho, no norte da Europa ou na América Latina ".
Esta desigualdade entre as duas áreas, é ela politicamente defensável? A questão é particularmente relevante para a França, que está tanto a norte como a Sul, mas que, em termos de disciplina orçamental e de dívida, está mais próxima do Sul que do Norte. Não é por acaso se, de acordo com uma sondagem IFOP, a metade dos franceses e 62% dos trabalhadores temem um cenário grego para o seu próprio país.
kauffmann@lemonde.frSylvie Kauffmann (L'air du monde)
Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
(continuação)
Muro da Dívida...
Uma questão fundamental é a capacidade dos soberanos europeus de serem capazes de cumprir os seus compromissos nas datas de vencimento de dívida e de conseguirem manter os custos de tomada de fundos a um nível sustentável.
Os soberanos europeus e os bancos precisam de encontrar no mercado financiamento na ordem de grandeza de 1.9 milhões de milhões para refinanciar a dívida com vencimento em 2012, equivalente a cerca de 7,5 mil milhões de euros cada dia útil.
A Itália precisa de 113 mil milhões de euros, no primeiro trimestre e cerca de 300 mil milhões de euros durante o ano completo, equivalente a cerca de 1,5 mil milhões de euros por dia útil de negócios. A Itália, a Espanha, a França e a Alemanha juntos terão de emitir mais de 4,5 mil milhões de euros todos os dias úteis de 2012.
Os bancos europeus, cujos destinos estão entrelaçados com os dos países soberanos, devem 500 mil milhões de euros no primeiro semestre de 2012 e 275 mil milhões no segundo semestre. Eles precisam de levantar 230 mil milhões de euros por trimestre em 2012 em comparação com 132 mil milhões de euros por trimestre em 2011. Desde Junho de 2011, os bancos europeus foram apenas capazes de levantar cerca de 17 mil milhões de euros em comparação com 120 mil milhões para o mesmo período em 2010.
Dado que os bancos e os investidores têm vindo a reduzir suas exposições ao risco activos dos países europeus e dos seus bancos, a capacidade de financiar este muro da dívida é incerta. O fundo de resgate e o FMI, com cerca de Euro 200-250 mil milhões cada um deles não pode absorver essa emissão. A Europa vai ser forçado a recorrer a "Sarko-nomics solution" para se financiar a si-mesma, ou seja, os bancos europeus comprarem a dívida e depois, tomando-a como colateral, levantarem ilimitadamente fundos no BCE ou nos respectivos bancos centrais nacionais, o que perpetua o fluxo circular de fundos com os governos a apoiar os bancos que por sua vez é suposto resgatarem os governos nacionais.
O BCE reduziu as taxas de juro do Euro e alongou o prazo de financiamento de emergência dos bancos por três anos, com regras mais fáceis em aceitar títulos como garantia (um bilhete de loteria é agora aceitável como garantia para empréstimos). O Presidente francês sugeriu que os bancos devem comprar títulos do governo, que poderiam então ser colocados como garantia para conseguirem levantar fundos ilimitados junto do BCE ou junto dos bancos centrais nacionais.
Nicolas Sarkozy foi extraordinariamente directo: "cada Estado pode virar-se para os seus bancos, que terão liquidez à sua disposição." Sarkozy sublinhou que ganhar 6% sobre obrigações italianas que poderia então ser financiados a 1% pelos dos bancos centrais é simples de entender, nem é preciso pensar. Ao mesmo tempo, o presidente do BCE, Mario Draghi está a pressionar os bancos a reduzirem as carteiras de títulos soberanos e para utilizar os fundos fornecidos para responderem aos seus compromissos nas datas de vencimentos da dívida.
A Sarko-nomics perpetua o fluxo circular de fundos com os governos a apoiar os bancos que, por sua vez, devem apoiar o governo. Ele não aborda sequer o elevadíssimo e insustentável custo do levantamento dos fundos para países como a Itália. Se o custo da dívida fica em torno de taxas correntes de mercado, os custos de juros da Itália aumentará em cerca de 30 milhares de milhões de euros nos próximos dois anos, ou seja 4,2% do PIB actualmente até 5,1% do PIB no próximo ano e de 5,6% em 2013.
Em muitos países, Sarko-nomics poderá ser complementada pela "opressão financeira", com os governos a pressionarem os seus cidadãos e instituições para comprarem títulos soberanos. As mudanças na regulação exigirão uma parte da poupança individual para a reforma a ser investida em títulos do governo. Os bancos e as instituições financeiras serão obrigadas a ter em carteira quantidades crescentes de títulos do governo para satisfazer os requisitos de liquidez e outros. Pode haver restrições aos investimentos estrangeiros e às transferências de capital para fora do país.
A opressão financeira irá complementar as estratégias tradicionais de finanças públicas, tais como a redução directa das despesas governamentais, as reduções indirectas na forma de mudança de condições de elegibilidade, tais como o adiamento na idade da passagem à reforma, mais elevados impostos, incluindo a re-introdução dos impostos sobre a riqueza e sobre a propriedade bem como sobre os direitos de sucessão ou de doação .
A redução da dívida através de uma reestruturação permanece fora da agenda. A reacção adversa do mercado ao anúncio da redução de 50% na dívida grega forçou a UE a garantir aos investidores que o caso grego era uma excepção e não constituiria nunca, mas nunca mesmo, um precedente. Apesar disso, os investidores permanecem cépticos, limitando as compras de dívida soberana europeia.
Os países mais fracos da zona euro poderão tentar resolver as suas exigências de dívida através destas medidas, mas isto só iria prolongar o período de ajustamento. Isto também irá aumentar a dimensão do problema, enfiando a Europa num período de baixo crescimento e de aumento dos níveis da dívida.
Em confronto com a realidade
As perspectivas para a economia real na Europa são incertas. Os problemas de dívida europeia e a desaceleração do crescimento nos mercados emergentes, como China, Índia e Brasil podem levar a um crescimento baixo ou mesmo a nenhum crescimento.
Para as nações que receberam resgates, as medidas de austeridade impostas não funcionaram. O crescimento, os objectivos quanto ao défice orçamental e à dívida parecem ter sido perdidos. A Grécia tem em Março de 2012 um vencimento de uma parcela da sua dívida, neste caso de 14,4mil milhões de euros. O Primeiro-ministro Lucas Papademos deve cumprir os actuais objectivos e acordar o segundo resgate grego no valor de 130 mil milhões até ao final de Janeiro de 2012, antes das eleições agendadas, de modo a poder permitir que o financiamento oficial esteja disponível para re-financiar essa dívida.
Mesmo a Irlanda, a criança muito elogiada do poster de propaganda do resgate pela austeridade, tem tido problemas. No terceiro trimestre o PIB do país caiu 1,9% enquanto que o Produto nacional Bruto (PNB) desceu 2,2% (este último agregado é uma melhor medida de desempenho económico na Irlanda, devido à grande actividade de exportação do país ou de / actividades de transbordo). A Irlanda deve reduzir o seu défice orçamental de cerca de 32% do PIB em 2010 para cerca de 3% até 2015. Apesar de aumento nos cortes da despesa pública e do aumento dos impostos, a Irlanda está a gastar 57 mil milhões de euros, incluindo 10 mil milhões de euros para apoiar os seus cinco bancos nacionalizados, contra 34 mil milhões de euros em receitas fiscais.
A Espanha, que tem voluntariamente assumido a cura pela austeridade, está a não cumprir os seus objectivos económicos. O défice do orçamento da Espanha está acima da previsão e esta tem necessidade de apoiar o do sistema bancário espanhol o que pode prejudicar ainda mais as finanças públicas. A previsão económica para a Espanha é de a situação se degradar ainda mais.
De acordo com o primeiro-ministro Mario Monti, a Itália aprovou medidas legislativas e orçamentais para estabilizar a dívida. As acções concentram-se sobretudo no aumento dos impostos , especialmente o imposto sobre as taxas do IVA, ao invés de cortar nas despesas públicas. As reformas estruturais para promover o crescimento ainda estão a ser estudadas e quer em termos de conteúdo quer em termos de aplicação temporal nada se sabe ainda. Também não é claro se os planos serão totalmente implementadas ou mesmo se eles funcionam..
Se as coisas continuarem na mesma no resto da Europa, é improvável que a Itália seja capaz de estabilizar as suas finanças públicas. A queda acentuada na procura a partir de cortes na despesa pública e de impostos mais altos irá resultar numa desaceleração económica, o que resultará em défices contínuos e dívida crescente.
No terceiro trimestre de 2011, a economia da Itália contraiu-se em cerca de 0,2% do PIB. A previsão do governo é de uma maior contracção de 0,4% em 2012. As previsões do governo podem até ser muito optimistas. A Confindustria, a federação italiana da indústria prevê que a economia irá ser sujeita a uma contracção de 1,6% em 2012.
O consumo é especialmente fraco em muitas das economias com fortes problemas, com a Grécia a ter quedas de cerca de 30% e a Itália também já a sentir grandes quedas.
Os países mais fortes dentro da zona-euro também serão afectados. A falta de procura dentro da Europa e dos mercados emergentes para as exportações, combinadas com condições de crédito mais restritivas podem retardar o crescimento.
A produção industrial alemã e as encomendas de exportação estão a sofrer uma desaceleração , reflectindo o facto de que a UE continua a ser o seu maior mercado de exportação, maior do que a procura dos países emergentes. As exportações da Alemanha para a Itália e para a Espanha, são cerca de 9-10 por cento do total em 2010, taxa superior quer à das exportações para os EUA (6-7%) ou ainda China (4-5%).
Como o que acontece na Europa não tem apenas efeitos sobre a Europa, sendo transmitido através de canais do comércio internacional e do investimento, os efeitos de reacção negativos vêm complicar as perspectivas de evolução económica.
Uma complicação poderá ser o próprio euro. Seguindo os seus homólogos americanos, que insistem que eles favorecem um dólar forte, o ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble, de modo inconsistente com a realidade, declarou que: "O Euro é uma moeda estável". Na verdade, o euro caiu cerca de 12% em relação ao dólar.
Se a crise da dívida europeia causa a volatilidade do euro, como parece provável, os efeitos serão generalizados. Um elemento não público dos sucessivos apelos para que o BCE se envolva na flexibilização quantitativa, na quantitative easing, é para enfraquecer o euro, aumentando a competitividade das exportações dos países europeus mais fracos e assim estimular o crescimento económico. Tais acções correm o risco de desencadearem uma guerra de moedas e quer as nações desenvolvidas (EUA, Japão, Grã-Bretanha, Suíça) quer os países emergentes podem querer retaliar. O risco de controles de capital, das restrições comerciais e das intervenções cambiais são elevados.
(Continua)
Satyajit Das, The Road to Nowhere" – Europe’s Debt Crisis. 9 Janeiro de 2012.
Das é o autor de Extreme Money: The Masters of the Universe and the Cult of Risk (2011)
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
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