O escritor Eduardo Galeano recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Cuyo, na Argentina, e dedicou o mesmo aos militantes da água “que em Mendoza e muitas outras comunidades do mundo lutam contra as mineradoras que a contaminam, as empresas florestais que a secam e contra todos os que traem a natureza, transformando a água num negócio e não num direito de todos”. “A água é e quer ontinuar sendo um direito de todos”, disse Galeano. Este texto foi transcrito do blogue «Carta Maior», ao qual muito agradecemos.
O acto ocorreu no Salão de Actos da Universidade, cuja transmissão teve que ser exibida em outras duas salas pela grande quantidade de assistentes, a grande maioria deles estudantes, que não economizaram aplausos para celebrar a presença e as palavras do novo doutor.
Na sua exposição, Galeano fez uma referência aos bicentenários que diferentes países da América Latina celebram nestes anos. “A independência continua a ser uma tarefa inconclusa e é necessário memória para a completar”. Falando sobre a memória, Galeano exaltou o “primeiro país independente e livre da América, o Haiti”. Ainda que os Estados Unidos tenham proclamado sua independência em 1776, “os 645 mil escravos continuaram a ser escravos”. Em troca, em 1804, no Haiti foi proclamada a independência e libertaram-se os escravos. Esse facto “resultou imperdoável” para os antigos dominadores que “exigiram ao Haiti o pagamento, durante um século e meio, da dívida francesa e condenaram o país, até hoje, à solidão, ao desprezo e à miséria”.
Citou o Paraguai como outro exemplo. “Esse país desobediente e sem dívida foi destruído em nome da liberdade de comércio”, em cujo “prontuário” figura “a imposição do ópio na China e a destruição de ateliers na Índia por parte da rainha Vitória, da Inglaterra”. Enquadrado pelo rio da Prata, evocou as figuras de Mariano Moreno e Juan José Castelli, membros da Primeira Junta, qualificados como “muito perversos” por aqueles que “sequestraram a Revolução” e defenestrados do processo.
Galeano também fez uma menção especial ao educador venezuelano Simón Rodríguez “El Loco”, a quem definiu como “o mais audaz e adorável dos pensadores latino-americanos”, apesar de ser “um perdedor” devido às perseguições que sofreu, mas nem por isso menos importante, porque “na memória dos perdedores, ali está a verdade”. Leembrou algumas das iniciativas “proibidíssimas” do professor de Simón Bolívar – no contexto da década de 1820 – como seu princípio de que “sem educação popular não haverá verdadeira sociedade”, ou sua audácia de “mesclar rapazes e moças na escola e o ensino de artes manuais com as tarefas intelectuais”.
Recordou a famosa frase de Rodríguez: “Imitadores! Copiem dos Estados Unidos e da Europa sua originalidade” – e se perguntou: “Por acaso não está vivo esse “Loco” nas ânsias e ações de independência de nossos povos”.
O escritor finalizou a sua exposição com a evocação do uruguaio José Artigas, “a voz mais profunda destas terras” e “ oprimeiro a realizar uma reforma agrária na América”. Recordou com ironia que os chefes da última ditadura militar do Uruguai, ao erigir um mausoléu em honra a Artigas, buscaram em vão alguma citação dele para colocar no monumento. “Não conseguiram, porque todas as suas frases eram subversivas, Então só registaram datas de batalhas. “Artigas também é um perdedor profundamente activo”, finalizou.
Fonte: http://www.uncu.edu.ar/novedad/item/edua
Eduardo Galeano - Estamos informados de tudo, mas não sabemos de nada
No século XVI, alguns teólogos da igreja católica legitimavam a conquista da América em nome do direito da comunicação. Jus communicationis: os conquistadores falavam, os índios escutavam. A guerra era inevitável justamente quando os índios se faziam de surdos. O seu direito de comunicação consistia no direito de obedecer.
No fim do século XX, aquela violação da América ainda se chama encontro de culturas, enquanto se continua a chamar comunicação ao monólogo do poder.
Em redor da Terra gira um anel de satélites cheios de milhões e milhões de palavras e imagens, que da terra vêm e à terra voltam. Prodigiosas engenhocas do tamanho de uma unha recebem, processam e emitem, à velocidade da luz, mensagens que há meio século exigiriam trinta toneladas de maquinaria. Milagres da tecnociência nestes tecnotempos: os mais afortunados membros da sociedade mediática podem gozar as férias atendendo o telemóvel, recebendo e-mails, respondendo ao bipe, lendo faxes, transferindo as chamadas do receptor automático, fazendo compras por computador e preenchendo o ócio com os videogames e televisão portátil.
Voo e vertigem da tecnologia da comunicação, que parece bruxaria: à meia-noite, um computador beija a testa de Bill Gates, que de manhã desperta transformado no homem mais rico do mundo. Já está no mercado o primeiro microfone incorporado no computador, para que se converse com ele. No ciberespaço, Cidade celestial, celebra-se o matrimónio do computador com o telefone e a televisão, convidando-se a humanidade para o baptismo dos seus filhos assombrosos.
A cibercomunidade nascente encontra refúgio na realidade virtual, enquanto as cidades se transformam em imensos desertos cheios de gente, onde cada qual olha por si e está metido em sua própria bolha. Há quarenta anos, segundo as pesquisas, seis de cada dez norte-americanos confiavam na maioria das pessoas. Hoje a confiança murchou: só quatro de cada dez confiam nos demais. Este modelo de desenvolvimento desenvolve a desvinculação. Quanto mais se sataniza a relação com as pessoas, que te podem te pegar a Sida, ttirar-te o emprego ou depenar-te a casa, mais se sacraliza a relação com as máquinas. A indústria da comunicação, a mais dinâmica da economia mundial, vende as abracadabras que dão acesso à Nova Era da história da humanidade. Mas este mundo comunicadíssimo está a parecer demasiado um reino de sozinhos e de mudos.
Os meios dominantes de comunicação estão em poucas mãos, que são cada vez menos mãos e em regra actuam a serviço de um sistema que reduz as relações humanas ao mútuo uso e ao mútuo medo. Nos últimos tempos, a galáxia Internet abriu imprevistas e valiosas oportunidades de expressão alternativa. Pela Internet estão irradiando as suas mensagens numerosas vozes que não são ecos do poder. Mas o acesso a essa nova auto-estrada da informação é ainda um privilégio dos países desenvolvidos, onde residem noventa e cinco por cento dos utilizadores. E já a publicidade comercial está tentando transformar a Internet em Businessnet: esse novo espaço para a liberdade de comunicação é também um novo espaço para a liberdade de comércio. No planeta virtual não se corre o risco de encontrar alfândegas, nem governos com delírios de independência. Em meados de 1997, quando o espaço comercial da rede já ultrapassava com sobras o espaço educativo, o presidente dos EUA recomendou que todos os países do mundo mantivessem livres de impostos a venda de bens e serviços através da Internet, e desde então este é um dos assuntos que mais preocupam os representantes norte-americanos nos organismos internacionais.
O controlo do ciberespaço depende das linhas telefónicas e nada é mais casual quer a onda de privatizações dos últimos anos, no mundo inteiro, tenha arrancado os telefones das mãos públicas para os entregar aos grandes conglomerados da comunicação. Os investimentos norte-americanos em telefonia estrangeira se multiplicam muito mais do que os demais investimentos, enquanto avança a galope a concentração de capitais: até meados de 1998, oito mega-empresas dominavam o negócio telefónico nos EUA, e numa só semana se reduziram a cinco.
A televisão aberta e por cabo, a indústria cinematográfica, a imprensa de tiragem massiça, as grandes editoras de livros e de discos e as emissoras de rádio de maior alcance também avançam, com botas de sete léguas, para o monopólio. Os mass media de difusão universal puseram nas nuvens o preço da liberdade de expressão: cada vez são mais numerosos os opinados, os que têm o direito de ouvir, e cada vez são menos numerosos os opinadores, os que têm o direito de se fazer ouvir. Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, ainda tinham ampla ressonância os meios independentes de informação e opinião e as aventuras criadoras que revelavam e alimentavam a diversidade cultural. Em 1980, a absorção de muitas empresas médias e pequenas já deixara maior parte do mercado planetário na posse de cinqüenta empresas. Desde então a independência e a diversidade tornaram-se mais raras do que um cão verde.
Segundo o produtor Jerry Isenberg, o extermínio da criação independente na televisão norte-americana foi fulminante nos últimos vinte anos: as empresas independentes proporcionavam entre trinta e cinquenta por cento do que se via no ecrã e agora chegam a apenas dez por cento.
Também são reveladores os números da publicidade no mundo: actualmente, metade de todo o dinheiro que o planeta gasta em publicidade vai parar ao bolso de apenas dez conglomerados, que açambarcaram produção e a distribuição de tudo o que se relaciona com imagem, palavra e música.
Nos últimos cinco anos, duplicaram o seu mercado internacional as principais empresas norteamericanas de comunicação: General Electric, Disney/ABC, Time Warner/CNN, Viacom, Tele-Communications INC. (TCI) e a recém chegada Microsoft, a empresa de Bil Gates, que reina no mercado equivalente e televisual. Estes gigantes exercem um poder oligopólico, que em escala planetária é compartilhado pelo império Murdoch, pela empresa japonesa Sony, pela alemã Berteslmann e mais uma ou outra. Juntas, teceram uma teia universal. Seus interesses se entrecruzam, atadas que estão por numerosos fios. Ainda que esses mastodontes da comunicação simulem competir e às vezes até se enfrentam e se insultem para satisfazer a plateia, na hora da verdade o espectáculo cessa e, tranquilamente, eles repartem o planeta.
Por obra e graça da boa sorte cibernética, Bill Gates amealhou uma rápida fortuna equivalente a todo o orçamento anual do estado argentino. Em meados de 1998, o governo dos EUA entrou com uma acção contra a Microsoft, acusada de impor seus produtos através de métodos monopolistas que esmagavam seus competidos. Tempos antes, o governo federal entrara com um processo similar contra a IBM: ao cabo de treze anos de marchas e contramarchas, o assunto deu em nada. Pouco podem as leis jurídicas contra as leis económicas: a economia capitalista gera concentração de poder tal como o<iinverno gera o frio. Não é provável que as leis anti-trust, que outrora ameaçavam os reis do petróleo, possam pôr em perigo a trama planetária que está a possibilitar o mais perigoso dos despotismos: o que actua sobre o coração e a consciência da humanidade inteira.
A diversidade tecnológica quer significar diversidade democrática. A tecnologia põe a imagem, a palavra e a música ao alcance de todos, como nunca antes ocorrera na história humana, mas essa maravilha pode transformar-se num logro para incautos se o monopólio privado acabar por impor a ditadura da imagem única, da palavra única e da música única. Ressalvadas as excepções, que felizmente existem e não são poucas, essa pluralidade tende, em regra, a oferecer-nos milhares de possibilidades de escolher entre o mesmo e o mesmo. Como diz o jornalista argentino Ezequiel Fernández-Moore, a propósito da informação: "Estamos informados de tudo, mas não sabemos de nada".
(In "De pernas pro ar" )
Como está a questão da água no mundo?
No dia em que a Frente Ampla ganhou as eleições no Uruguai, final de Outubro de 2004, foi realizado o Plebiscito das Águas. Foi o primeiro e último na história universal. Primeira e única vez - não foi contagioso, infelizmente - que o povo foi consultado para ver o que fazer com a água, pois agora temos que recuperar aquela concepção islâmica de que a água é sagrada. Toda a gente diz, e é verdade, que a água será o petróleo de amanhã. Então, os países que têm água são obrigados a defender a água que têm e também a democratizá-la no uso que se faz dela. Então fez-se esse plebiscito para saber se a água seria um direito de todos ou se seria um privilégio de empresas privadas. Cerca de 65% votaram pela água como propriedade pública, colectiva. O Uruguai foi o único país que fez um plebiscito. E a Bolívia tinha conseguido o milagre da desprivatização da água, com uma série de insurreições colectivas. Lá a privatização chegou a níveis surrealistas. Não se pode acreditar. Em Cochabanba fora privatizada a chuva. As águas da chuva não podiam ser armazenadas. Os camponeses não podiam recolher as águas da chuva sem pagar às empresas concessionárias. É a empresa preferida de Bush no Iraque, que depois foi recompensada no Iraque, como é o nome ?
Bechtel.
Bechtel. E depois, em La Paz, houve um processo parecido: a empresa Suez-Lyonnaise, que é francesa, não conseguia explicar por que motivo a parte mais alta da cidade, que é a parte mais pobre, tinha que pagar a maior factura, que era cinco ou seis vezes maior do que quando a água era nacional. Subitamente o preço da água disparou e chamaram os especialistas franceses junto com o governo boliviano para estudar o assunto, para saber qual a explicação para este fenómeno sobrenatural: o pessoal não paga. Resposta francesa: "os bolivianos não têm hábitos de higiene". Logo os franceses que descobriram o duche há quinze minutos. Não se pode acreditar nisso seriamente. O Uruguai dá uma reposta diferente, tentamos dar. Recolher assinaturas da população para chamar o plebiscito e a opção pela noção pública da água triunfa. Mas não teve a menor repercussão mundial. Você fez uma pergunta ligada à media, eu queria falar disso depois esqueci-me. É um caso típico, pois é uma questão fundamental, que acontece num país que não é fundamental, que é um país marginal, pequeno, de quem ninguém nunca fala, não tem a menor repercussão, não existe. Eu fui lewinkisado. Tomava café da manhã com Monica Lewinsky, almoçava com Monica Lewinsky, jantava com Monica Lewinsky. Aquela linguista da Casa Branca transformou-se numa estrela mundia dos medial. E o Plebiscito da Água, que é uma coisa fundamental na vida de todo mundo, ninguém sabe que isso aconteceu. Isso é um bom retrato da comunicação social. Não houve nenhuma possibilidade de contágio porque não houve nenhuma repercussão. Não se trata de alguma mente malvada que escolhe o que vai divulgar, mas o facto é que a informação privilegiada é a que vem dos países dominantes, e as que dizem respeito aos países dominantes também. E o que acontece nas áreas marginais, no Uruguai por exemplo, é que não existem, somos invisíveis.
Recentemente a Assembleia Geral da ONU votou contra o embargo económico a Cuba, mas o embargo continua.
Sim, porque a Assembleia Geral faz recomendações, não tem sentido prático. São apenas soluções simbólicas, porque não são resoluções, são recomendações ao poder exercido por um grupinho de países, que são, como se dizia antes, o grande escândalo do mundo. Agora as Nações Unidas estão a abençoar a guerra do Iraque, pois estão promovendo os processos eleitorais, e a nova Constituição, sob o patrocínio das Nações Unidas, quando toda a gente sabe que um país ocupado por potências estrangeiras não pode ter eleições livres. Para mim está claríssimo que o mundo hoje não é democrático, é dirigido por alguns organismos internacionais e são estes que decidem. Há um supergoverno que governa os governos. Por exemplo: o Banco Mundial decidiu que em 16 países a água deve ser propriedade privada de empresas. Esses 16 países foram obrigados a aceitar a privatização da água. O FMI decide o ritmo das chuvas, a intensidade do amor dos amantes. Quantos países dirigem o FMI? Cinco, e dentro destes, sobretudo um. O Banco Mundial é mais democrático: são oito países. Por isso o nome "Mundial". Quem decide as coisas dentro das Nações Unidas? Na Assembleia Geral estão todos, mas estes só formulam recomendações, quem toma decisões é o Conselho de Segurança onde cinco países têm direito a veto. Esses cinco países que prezam pela paz no mundo são os cinco principais produtores de armas. Ou seja: os que lucram com a tragédia humana são os anjos guardiões da paz mundial. Enquanto o mundo não for capaz de mudar essa estrutura de poder não será democrático. E tampouco haverá paz, pois se as guerras necessitam de armas, as armas também necessitam de guerras.
Da acusação que ASAE faz ao Pingo Doce de ter vendido produtos abaixo do preço de custo à ameaça de tornado, da entrada da Galp no mercado da venda de electricidade às eleições francesas, não faltam motivos para abordar neste Diário de bordo – nunca faltam. Porém, não falaremos hoje das coisas que se estão a passar – não temos de acompanhar a actualidade. Há, por essa blogosfera, muitos blogues informando, dando as últimas notícias.
Não deixará de haver informação sobre o dumping e sobre o resto. Hoje vamos falar de eufemismos, palavra de origem grega que, aparece registada em 1873 no dicionário de Domingos Vieira como sendo o « emprego de palavra favorável em vez de outra de mau agoiro».
Eduardo Galeano, o escritor e jornalista uruguaio do qual tantas vezes transcrevemos entrevistas ou artigos (como ontem e hoje, por exemplo) tem um livro a que deu o título - Patas arriba: la escuela del mundo al revés (1998) onde, descodifica alguns dos eufemismos mais utilizados. Por exemplo, é de mau gosto dizer “capitalismo” – quem não queira ser conotado com a esquerda, a expressão a usar deve ser “economia de mercado”; ao “imperialismo” deve chamar-se “globalização”; aos pobres deve chamar-se “carenciados”; a expulsão das crianças pobres do sistema educativo, deve designar-se por “insucesso escolar”. Em suma, um extenso dicionário do politicamente correcto. E conta mesmo o episódio ocorrido em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefactos que explodem”. Havemos de aqui publicar um artigo com mais equivalências que o livro de Galeano nos proporciona.
Detestamos eufemismos. Neste blogue não se chama lapso à mentira, nem social-democracia à estrutura oligárquica que, com conivências diversas, se robusteceu à sombra da democracia. O “politicamente correcto” não nos importa nem um bocadinho. Chamamos roubo ao enriquecimento ilícito, traição ao pragmatismo, oportunismo ao espírito de iniciativa, mentira aos lapsos. Mentira à mentira.
Porque, num grupo tão alargado como o nosso, existindo necessariamente diversas sensibilidades políticas, cada palavra tem de ter um significado preciso. Dentro da Argos cabem todos os ideais que se identifiquem com os valores da Liberdade, da Solidariedade e da Justiça – os eufemismos não entram. Se não pensamos todos da mesma maneira - não seria possível nem desejável - falemos todos a mesma língua - sem eufemismos.
Esta entrevista foi feita há sete anos pelo jornalista Marcelo Salles. Marcelo Salles é o criador do jornal "Fazendo Média" e coordenador da revista "Caros Amigos", do Rio de Janeiro. Salles é ele próprio uma figura cujas opiniões nos irão em edição futura merecer a devida atenção. É uma excelente entrevista - poderá estar desactualizada num ou noutro aspecto, mas, no essencial, as opiniões de Eduardo Galeano mantêm-se actuais e pertinentes. Procedemos a pequenas adaptações do texto ao português europeu.
Marcelo Salles - No seu livro "De pernas para o ar" dedica um capítulo inteiro aos meios de comunicação de massa. Queria ouvir a sua avaliação dos meios de comunicação de massa dentro do sistema de poder vigente e como contribuem para transmitir essa cultura de impotência.
Eduardo Galeano - Sim, a transmitir uma cultura da impotência que tem em uma de suas bases dessa cultura de perpetuação, dessa ideia de que você tem direito a existir enquanto aceitar que sua existência será uma obediência. Se pretende existir com um projecto, a situação fica mais difícil. Então, os meios de comunicação ao serviço dessa visão conformista da história, do mundo, da vida, estão agora mais concentrados do que nunca. Os espaços da imprensa independente, da expressão independente, têm se reduzido muito. Com uma excepção, que eu acho muito importante, que é a internet. A internet realmente abriu espaços de enorme difusão a vozes que agora encontram incríveis possibilidades de difusão. E isso é uma boa notícia que a realidade deu contra todos os prognósticos, pois a internet nasceu como uma operação militar do Pentágono para planificar as suas operações. Ou seja, foi uma coisa nascida da morte, do extermínio do outro, pois a guerra é isso. E depois tornou-se num espaço que contém um pouco de tudo, que não é uma coisa só, mas que inclui muitas expressões, da afirmação da boa energia da vida, da energia multiplicadora do melhor da vida, a liberdade, a vontade de justiça.
Acabou de falar da internet, inicialmente usada pelo Pentágono e depois subvertida. Recentemente em Paris as periferias se levantaram e usaram a gasolina para acender os cocktails molotov, ou seja, usando o próprio combustível do sistema. Queria saber se acredita que o sistema tem esse carácter autofágico e se isso poderia ser mais explorado.
Não sei. Acho que as contradições do sistema capitalista são reais e não produto de uma mente assim doente, febril, de nenhum terrorista conspirador, inimigo da humanidade. Essas contradições têm como consequência uma marginalização social crescente. E essa marginalização vai continuar a produzir acontecimentos, que às vezes são controláveis, outras nem tanto, e que podem gerar alternativa. Vamos ver o que acontece, pois ninguém sabe. Esses movimentos, como esses do banlieu, de Paris, que segundo um amigo meu, não sei se é verdade, ban vem de banir, que significa castigar, proibir, expulsar, jogar fora. E lieu significa lugar. Lugar de expulsão, lugar de castigo. A ideia é muito interessante, porque é exactamente isso o que está a acontecer. Mas por enquanto são explosões de puro desespero e não tem nenhuma perspectiva de futuro. Tanto é de desespero que muitos dos carros queimados são carros dos próprios queimadores. É o filho queimando o carro dos pai que é um operário pobre, que conseguiu comprar um carro pobre, que está sendo queimado pelos seus. É uma agressão contra um sistema segregacionista, humilhante, mas também tem muito de auto-destrutivo, suicida, como acontece nos movimentos que são de puro desespero. A esperança que a gente tem é que isso possa, depois, desembocar noutras coisas, como muitas vezes acontece na América Latina, que começa com uma raiva que explode cegamente e depois encontra caminhos para a converter em algo bastante melhor. Quer dizer, abrindo perspectivas. Se não fica só como uma testemunha de que essa é uma situação insuportável e que até agora o sistema vinha dissimulando a insuportabilidade da situação. E essa reacção tão expressiva, tão curiosa, foi uma reacção contra o desprezo quotidiano, multiplicada hoje porque as pessoas que têm alguma coisa a ver com o mundo árabe são os novos demónios, terroristas. E o mundo do bem necessita ter demónios para se justificar. Esse mundo gasta hoje 2 mil e 300 milhões de dólares por dia com a guerra! US$ 2.3 mil milhões por dia na fabricação da morte, na indústria da morte! É até difícil imaginar como é possível. Bom, para que isso seja possível, que é um escândalo, é precis ter demónios, é a luta contra o mal. Enquanto isso, há tantas criancinhas morrendo de fome, morrendo de doenças curáveis. É um escândalo! Este mundo é escandalosamente injusto! Daí a necessidade de demónios.
Por exemplo?
Hugo Chávez é um demónio. Porquê? Porque alfabetizou dois milhões de venezuelanos, que não sabiam ler e escrever, mas vivem num país que tem a riqueza natural mais importante do mundo que é o petróleo. Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que era. Chamam-lhe "A Venezuela Saudita" por causa do petróleo. Tinham dois milhões de crianças que não podiam ir às escolas porque não tinham documentos. Então chega um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer "As crianças devem ser aceites nas escolas com ou sem documentos". Cai o mundo - isso é a prova de que Chávez é um malvado -malvadíssimo. Já que tem essa riqueza, e graças à guerra do Iraque o petróleo tem cotações muito altas, ele quer aproveitar isso com fins solidários. Quer ajudar os outros países sul-americanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram outra fonte de escândalos. Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos pela presença desses intrusos trabalhando nesses bairros pobres. Na época em que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico. Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chávez está na Terra de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, quando se lê as notícias, tem que traduzir tudo. A demonização tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.
(Conclui amanhã)
Até um certo momento o Uruguai só era mencionado no Brasil por duas coisas: ricos iam se ali divorciar e/ou casar e passar a lua-de-mel em Punta del Este e pela derrota no fatídico dia 16 de Julho de 1950 com a seleção uruguaia no Maracanã, de virada, na Copa do Mundo feita para o Brasil ser campeão. Alguns tinham passado por Montevideu e diziam que ficava a meio caminho entre Porto Alegre e Buenos Aires.
“Nós, os uruguaios temos uma certa tendência para crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba”, diz Galeano. “Os grandes meios de comunicação, aqueles que têm influência universal, nunca mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.”
Um país de poucos milhões de habitantes que, como diz ele, tem população similar à de alguns bairros das grandes cidades do mundo, mas que provocaria algumas surpresas para quem se arriscasse a chegar por ali.
Um país que aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha. O Uruguai adotou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes de França. Teve lei do divórcio setenta anos antes de Espanha e voto feminino catorze anos antes de França.
O Uruguai teve proporcionalmente o maior exílio durante a ditadura militar, em comparação com sua população. Assim, tem cinco vezes mais terra do que a Holanda e cinco vezes menos habitantes. Tem mais terra cultivável do que o Japão e uma população quarenta vezes menor.
O país ficou reduzido a uma população escassa e envelhecida. Tristemente Galeano diz que “poucas crianças nascem, nas ruas vêem-se mais cadeiras de rodas do que carrinhos de bebés”.
Ainda assim, Galeano aponta bons motivos para gostar do seu país: “Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai nem um só intelectual importante, nem um só cientista relevante, nem um só artista representativo, que estivesse disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos que correm, já na democracia, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular: no plebiscito de fins de 92, 72% dos uruguaios decidiram que os serviços essenciais deviam continuar a ser públicos. A notícia não mereceu sequer uma linha na imprensa mundial, embora se constituísse numa insólita prova de senso comum.” Talvez por esses “maus exemplos” tentam desconhecer o Uruguai, apesar da insistência dos uruguaios em afirmar que seu país existe.
Por tudo isso, Galeano se orgulha do seu “paisito”, “este paradoxal país onde nasci e tornaria a nascer”.
(Enviado por Carlos Leça da Veiga e, com a devida vénia, transcrito de "Carta Maior", sendo a tradução revista para a norma portuguesa)
Texto de Eduardo Galeano, onde o grande escritor uruguaio nos dá, através de excertos, uma ideia de como será o seu livro Espelhos.
Todos os dias, ao ler os jornais diários, assisto a uma aula de história. Os diários ensinam-me pelo que dizem e pelo que não dizem. A história é um paradoxo andante. A contradição move-lhe as pernas. Talvez por isso os seus silêncios dizem mais do que as suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade.
Dentro em breve será publicado um livro meu chamado Espejos. É uma coisa assim como um história universal, e desculpem o atrevimento. "Posso resistir a tudo, menos à tentação", dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo do ponto de vista dos que não saíram na foto. Pode-se dizer que não se trata de fatos muito conhecidos. Aqui resumo alguns, apenas uns poucos.
Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para a África, não para Paris.
Algum tempo depois, quando seus filhos já se haviam lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.
Também a álgebra foi inventada no Iraque. Foi fundada por Mohamed al Jwarizmi, há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.
Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Partenon chamam-se "mármores de Elgin", mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.
As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, haviam sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.
Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias haviam criado o calendário mais exacto de todos os tempos.
Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, "para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica". Naquele tempo a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal. Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.
Tenochtitlán, o centro do império azteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam duzentas mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora Tenochtitlán chama-se México DF. Por onde corria a água, agora correm os automóveis.
O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagónia. A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charruas.
John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company, que comprava e vendia escravos.
No momento em que nascia o século XVIII, o primeiro dos Bourbons, Felipe V, estreou o seu trono assinando um contrato com o seu primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25 por cento dos lucros. Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.
Dois do Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou os seus actos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou seus escravos. Morris, redactor da Constituição, opôs-se à cláusula estabelecendo que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.
"O nascimento de uma nação", a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvor à Klu Klux Klan.
Algumas datas: Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.
No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados "ofícios vis", que até então implicavam a perda da fidalguia. Até o ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e palmatórias.
Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A militante revolucionária Olympia de Gouges propôe então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou-lhe a cabeça. Meio século depois, outros governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um, a favor.
A imperatriz cristã Teodora nunca disse ser uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há mil e quinhentos anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.
O general Ulisses Grant , vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul escravocrata, foi a seguir presidente dos Estados Unidos. Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu:
– Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, também nós adoptaremos a liberdade de comércio.
Assim, pois, nos idos de 2075, o país mais protecionista do mundo adoptará a liberdade de comércio.
"Botinzito" foi o primeiro cão pequinês que chegou à Europa. Viajou para Londres em 1860. Os ingleses baptizaram-no assim porque era parte do botim extorquido à China no fim das longas guerras do ópio.
Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.
Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao cabo de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indemnização ao Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos, pelo trabalho que haviam tido ao assassiná-lo.
O Haiti também pagou uma enorme indemnização. Desde que, em 1804, conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para expiar o pecado da sua liberdade.
As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte de Justiça estendeu o direitos humanos às corporações privadas, e assim continua a ser. Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.
Mark Twain, dirigente da Liga Anti-imperialista, propôs então uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou:
– A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia.
Os campos de concentração nasceram em África. Os ingleses iniciaram a experiência, e os alemães desenvolveram-na. Depois disso Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu pai havia ensaiado, em 1904, na Namíbia. Os professores de Joseph Mengele haviam estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.
Em 1936, o Comité Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, o país natal do Führer. O Comitê Olímpico anulou a partida.
A Hitler não lhe faltaram amigos. A Rockefeller Foundation financiou pesquisas raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.
"O anjo exterminador" - quem não morre atropelado sofre de gastrite por causa dos engarrafamentos
Em 1992 houve um plebiscito em Amesterdão. Os habitantes desta cidade holandesa decidiram reduzir à metade o espaço, já de si bastante limitado, ocupado pelos automóveis. Três anos mais tarde, foi proibido o trânsito de carros particulares em todo o centro da cidade italiana de Florença, proibição essa que incluirá a cidade inteira à medida que se multipliquem os eléctricos, as linhas de metro, as vias pedonais e os autocarros. Além, é claro, das ciclovias: dentro de pouco tempo será possível atravessar toda a cidade sem riscos, pedalando num meio de transporte que custa pouco, não gasta nada, não invade o espaço humano nem envenena o ar.
Enquanto isso, um relatório oficial confirmava que os automóveis ocupam um espaço bem maior do que as pessoas na cidade norte-americana de Los Angeles, mas lá ninguém pensou em cometer o sacrilégio de expulsar os invasores.
A quem pertencem as cidades?
- Amsterdão e Florença são excepções à regra universal de usurpação. O mundo foi motorizado velozmente, à medida que as cidades e as distâncias cresceram, e os meios de transporte público abriram caminho para o automóvel particular. O presidente francês Georges Pompidou exaltou esse movimento dizendo que "é a cidade que precisa se adaptar aos automóveis e não o inverso". Mas as suas palavras ganharam um sentido trágico quando foi revelado que as mortes por poluição na cidade de Paris aumentaram brutalmente durante as greves do final do ano passado: a paralisação do metro multiplicou as viagens de automóvel e esgotou as reservas de máscaras antipoluentes.
Na Alemanha, em 1950, omboios,autocarros,metro e eléctricos transportavam três quartos da população; hoje, levam menos de um quinto. A média européia caiu para 25%, o que ainda é muito se comparado aos Estados Unidos, onde o transporte público atinge apenas 4% do total. Henry Ford e Harvey Firestone eram amigos íntimos, e ambos se davam extremamente bem com a família Rockefeller. Essa afeição recíproca desembocou numa aliança de influências que esteve directamente relacionada com o desmantelamento das linhas de comboios e com a criação de uma vasta rede de estradas, em todo o território norte-americano. Com o passar dos anos, nos Estados Unidos e no mundo inteiro, tornou-se cada vez mais esmagador o poder dos fabricantes de automóveis e de pneus,e dos industriais do petróleo. Das sessenta maiores empresas do mundo, metade pertence a esta santa aliança ou está de alguma forma ligada à ditadura das quatro rodas.
Dados para um prontuário
- Os direitos humanos terminam onde começam os direitos das máquinas. Os automóveis emitem impunemente um cocktail de substâncias assassinas. A intoxicação do ar é espectacularmente visível nas cidades latino-americanas, mas é bem menos notada em algumas cidades do Norte do mundo. A diferença é explicada, em grande parte, pelo uso obrigatório dos catalisadores e da gasolina sem chumbo. No entanto, a quantidade tende a anular a qualidade, e esses progressos tecnológicos vão perdendo seu impacto positivo diante da proliferação vertiginosa do parque automóvel, que se reproduz como se fosse formado por coelhos.
Visíveis ou dissimuladas, reduzidas ou não, as emissões venenosas formam uma extensa lista criminosa. Para dar apenas três exemplos, os técnicos do Greenpeace denunciaram que é dos automóveis que provém mais da metade do total do monóxido de carbono, do óxido de nitrogénio e dos hidrocarbonetos, que tão eficientemente contribuem para a destruição do planeta e da saúde humana. "A saúde não é negociável. Chega de meios-termos", declarou o responsável pelo sector de transportes de Florença, no início do ano. Mas em quase todo o mundo, parte-se do princípio de que é inevitável que o divino motor, em plena era urbana, seja o eixo da vida humana.
Copiamos o que há de pior
- O ruído dos motores não deixa ouvir as vozes que denunciam o artifício de uma civilização que te rouba a liberdade para depois vendê-la, e que te corta as pernas para te obrigar a comprar automóveis e aparelhos de ginástica. Impõe-se no mundo, como único modelo possível de vida, o pesadelo de cidades onde os carros mandam, devoram as zonas verdes e se apoderam do espaço humano. Respiramos o pouco de ar que eles nos deixam; e quem não morre atropelado sofre de gastrite por causa dos engarrafamentos.
As cidades latino-americanas não se querem parecer com Amesterdão ou Florença, mas sim com Los Angeles, e estão a conseguir transformar-se numa horrorosa caricatura daquela vertigem. Levamos cinco séculos de treinamento para copiar em vez de criar. Já que estamos condenados à copiandite, poderíarnos escolher os nossos modelos com um pouco mais de cuidado. Anestesiados pela televisão, publicidade e cultura de consumo,engolimos a história/estória da chamada modernização, como se essa brincadeira de mau gosto e humor negro fosse o abracadabra da felicidade.
Liturgia do divino motor", são os automóveis que conferem identidade às pessoas
Com o Deus de quatro rodas acontece aquilo que costuma acontecer com os deuses: nascem a serviço das pessoas, mágicos conjuros contra o medo e a solidão, e acabam pondo as pessoas a seu serviço. A religião do automóvel, que tem seu vaticano nos Estados Unidos da América, tem o mundo de joelhos a seus pés.
Seis, seis, seis - A imagem do Paraíso: todo norte-americano possui um carro e uma arma de fogo. Os Estados Unidos detém a maior concentração de automóveis e também o mais numeroso arsenal de armas num único país, os dois negócios básicos da economia nacional. Seis, seis, seis: de cada seis dólares gastos pelo cidadão médio, um é consagrado ao automóvel; de cada seis horas de vida, uma é dedicada a viajar de carro ou a trabalhar para pagá-lo; e de cada seis empregos, um está directa ou indirectamente ligado ao automóvel, e outro está directa ou indirectamente ligado à violência e às suas indústrias.
Quanto mais gente os automóveis e as armas assassinarem, e quanto mais natureza eles destruírem, mais crescerá o Produto Interno Bruto. Como bem diz o pesquisador alemão Winfried Wolf, no nosso tempo, as forças produtivas transformaram-se em forças destrutivas. Talismãs contra o desamparo ou convites ao crime? A venda de carros é simétrica à venda de armas, e bem se poderia dizer que faz parte dela: os acidentes de trânsito matam e ferem, a cada ano, mais norte-americanos do que todos os norte-americanos mortos e feridos ao longo da Guerra do Vietnã, e a carteira de motorista é o único documento necessário para qualquer um comprar uma metralhadora, e com ela cozinhar à bala toda a vizinhança.
A carta de condução não é apenas usada para estes fins; ela também é imprescindível para pagamentos com cheques ou para sacá-los, para fazer um trâmite burocrático ou para assinar um contrato. Nos Estados Unidos, a carta de condução serve como documento de identidade. Os automóveis conferem identidade às pessoas.
Os aliados da democracia - O país conta com a gasolina mais barata do mundo, graças aos presidentes corruptos, aos xeques de óculos escuros e aos reis de opereta que se dedicam a malvender petróleo, a violar direitos humanos e a comprar armas norte-americanas. A Arábia Saudita, por exemplo, que aparece nos primeiros lugares das estatísticas internacionais pela riqueza de seus ricos, pela mortalidade de suas crianças e pelas atrocidades de seus verdugos, é o principal cliente da indústria norte-americana de armas.
Sem a gasolina barata fornecida por estes aliados da democracia, o milagre não seria possível: nos Estados Unidos, qualquer um pode ter um carro e muitos podem trocá-lo freqüentemente. E se o dinheiro não for suficiente para o último modelo, já estão à venda aerosóis que dão aroma de nova àquela velharia comprada três ou quatro anos antes, àquele autossauro.
Dizes que carro tens e eu te direi quem és e quanto vales. Esta civilização que adora carros tem pânico da velhice: o automóvel, promessa de juventude eterna, é o único corpo que pode ser trocado.
A gaiola - A esse outro corpo, o de quatro rodas, é dedicada a maior parte da publicidade na televisão, a maior parte das horas de conversa e a maior parte do espaço das cidades. O automóvel dispõe de restaurantes para se alimentar de gasolina e óleo, e tem a seu serviço farmácias para comprar remédios, hospitais para ser examinado, diagnosticado e curado, dormitórios para dormir e cemitérios para morrer.
Ele promete liberdade às pessoas; por alguma razão as estradas são chamadas de freeways, caminhos livres, e no entanto atua como uma gaiola ambulante. O tempo de trabalho humano foi reduzido em pouco ou nada, e porém ano após ano aumenta o tempo necessário para ir e voltar ao trabalho, devido ao trânsito atolador, que nos obriga a avançar penosamente e às cotoveladas.
Vive-se dentro do automóvel e ele não nos larga. Drive by shooting sem sair do carro, à toda velocidade, pode-se apertar o gatilho e disparar a esmo, como está em voga nas noites de Los Angeles. Drive thru teller, drive by eating, drive in movies: sem sair do carro pode-se sacar dinheiro do banco, comer hambúrgueres e assistir a um filme. E sem sair do carro pode-se contrair matrimónio, drive in marriage: em Reno, Nevada, um casal passa com o seu automóvel por baixo de arcadas de flores de plástico; numa janelinha aparece a testemunha e na outra o pastor, que os declara marido e mulher, bíblia nas mãos e, na saída, uma funcionária ornamentada de asas e auréola entrega a certidão de casamento e recebe a gorjeta, chamada love donation.
O automóvel, corpo renovável, tem mais direitos que o corpo humano, condenado à decrepitude. Os Estados Unidos da América empreenderam, nestes últimos anos, a guerra santa contra o demónio do fumo. Nas revistas, a publicidade dos cigarros aparece atravessada por obrigatórias advertências à saúde pública. Os anúncios advertem, por exemplo: "O fumo do cigarro contém monóxido de carbono". Mas nenhum anúncio de automóveis adverte que muito mais monóxido de carbono contém os gazes dos automóveis. As pessoas não podem fumar. Os carros, sim.
Vamos apresentar três artigos de Eduardo Galeano sobre a tirania que o automóvel exerce sobre as pessoas. Sobre os que canalizam todos os seus parcos recursos para o esforço de o comprar e manter e sobre aqueles que não podendo sequer aspirar à posse de um automóvel. sofrem as consequências de viver em cidades saturadas de poluição provocada pelas emissões dos tubos de escape. É a «automóvelcracia».
O carro domina nossa razão e nossa emoção
Sequestro dos fins pelos meios: o supermercado compra-o, o televisor assiste, o automóvel guia-o. Os gigantes que fabricam automóveis e combustíveis, negócios quase tão rentáveis quanto armas e drogas, convenceram-nos de que o motor é o único prolongamento possível do corpo humano. Nas nossas cidades, submetidas à ditadura do automóvel, a grande maioria das pessoas não tem alternativa a pagar para viajar, como sardinhas em lata, num transporte público destrambelhado e insuficiente.
A sociedade de consumo, oitava maravilha do mundo, décima sinfonia de Beethoven, impõe-nos a sua simbologia de poder e a sua mitologia de ascensão social. "O carro é o seu melhor amigo", informa um anúncio. A vertigem sobre rodas fa-lo-á feliz: "Viva uma paixão!", oferece outro anúncio. A publicidade convida-o para entrar na classe dominante através da chavinha mágica que liga o motor: "Imponha-se!", ordena a voz que dita as ordens do mercado, e também: "Demonstre que tem personalidade!". E, se não me falha a memória da infância, se colocar um tigre no tanque, você será o mais rápido e o mais poderoso de todos, e passará por cima de quem atrapalhar o seu caminho em direção ao sucesso.
A linguagem fabrica a realidade ilusória de que a publicidade precisa para vender os seus produtos. Mas ocorre que, na realidade real, os instrumentos criados para multiplicar a liberdade contribuem para nos encarcerar. O carro, essa máquina de ganhar tempo, devora o tempo humano. Nascido para nos servir, coloca-nos ao seu serviço: obriga-nos a trabalhar mais e mais horas para poder alimentá-lo, rouba o nosso espaço e envenena o nosso ar.
Em nome da liberdade de empresa, da liberdade de circulação e da liberdade de consumo, o ar urbano tornou-se irrespirável. O carro não é o único culpado pela agressão quotidiana ao ar no mundo, mas é quem mais directamente ataca os habitantes das cidades. As ferozes descargas de chumbo que se enfiam no sangue, agredindo os nervos, o fígado e os ossos, têm efeitos devastadores principalmente no hemisfério sul, onde não são obrigatórios os catalizadores nem a gasolina purificada. Conforme denunciam os ecologistas, em Santiago do Chile, cada criança que nasce aspira o equivalente a sete cigarros diários e uma em cada quatro crianças sofre de alguma forma de bronquite.
O que é a ecologia? Um táxi pintado de verde?
Na Cidade do México, os táxis pintados de verde são chamados de táxis ecológicos e chama-se parques ecológicos as poucas árvores de cor doentia que sobrevivem ao assédio dos carros. Numa publicação oficial, as autoridades da capital mexicana difundiram alguns conselhos ecológicos que parecem ter sido inspirados pelos mais sombrios profetas do apocalipse.
A Comissão Metropolitana de Prevenção e Controle da Contaminação Ambiental recomenda textualmente aos habitantes da cidade que "permaneçam o menor tempo possível ao ar livre, mantenham fechadas portas e janelas e não pratiquem exercícios das 10 às 16 horas" nos dias muito poluídos, que são quase todos.
Segundo relatam os estudiosos de antiguidades gregas. a cidade nasceu como um lugar de encontro das pessoas. Há espaço para as pessoas nestas imensas garagens? Pouco antes da publicação desses conselhos ecológicos, saí caminhando pelas ruas da Cidade do México. Andei quatro horas entre motores que rugiam. Sobrevivi. Meus amigos deram-me boas-vindas emocionados, mas recomendaram-me um bom psiquiatra.
Os automóveis matam uma multidão, a cada ano, no mundo inteiro. Em muitos países, as estatísticas são duvidosas, ou inexistentes ou não estão actualizadas. As últimas estimativas globais disponíveis (do Worldwatch Institute, de Washington) indicam que mais de 250 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito em 1985. Nem a guerra do Vietname matou tanta gente em apenas um ano.
No mundo inteiro, o trânsito é a primeira causa de morte entre os jovens, acima de qualquer doença, droga ou crime. Uma enorme campanha internacional de propaganda, com nuances francamente terroristas, adverte diariamente os jovens sobre os riscos do sexo em tempos de SIDA. Por que não fazer uma campanha semelhante acerca dos perigos do automóvel? A carta de condução equivale à licença de porte de armas?
Andar de bicicleta pelas ruas das grandes cidades latino-americanas, que não têm ciclovias, é a forma mais prática de se suicidar. Nos países do sul do planeta, onde as normas existem para ser violadas, há muito menos carros do que nos países do norte, porém matam muito mais.
Porque os latino-americanos que não têm nem terão carro próprio - a imensa maioria não pode nem poderá comprá-lo - continuam condenados a aguardar nas esquinas, sem outro remédio a não ser esperar os escassos autocarros ? Por que não abrir, antes que se já tarde, ciclovias protegidas nas avenidas e ruas principais?
Os carros não votam, mas os políticos têm pânico de provocar-lhes o mínimo desgosto. Nenhum governo latino-americano atreveu-se a desafiar o poder motorizado. É verdade que recentemente Cuba se encheu de bicicletas, mas isso não aconteceu durante os trinta e tantos anos de revolução. A bicicleta aparece maciçamente em Cuba quando não há outro remédio, porque não sobra uma gota de petróleo: não como uma alegria desfrutável, mas como uma calamidade inevitável.
Nem sequer as revoluções, às quais ninguém poderia negar o desejo de mudança, se propuseram a pôr em prática esta singela maneira de diminuir a dependência das omnipotentes empresas que dominam o negócio do transporte e do petróleo no mundo. Não existe pior colonialismo do que aquele que nos conquista o coração e nos apaga a razão.
Israel é o país que nunca cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, e que viola as leis internacionais. Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel executa a matança de Gaza? Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da única super-potência mundial que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos? O artigo é do jornalista e humanista uruguaio Eduardo Galeano, cujos textos sobre este tema estamos a recuperar.
Este artigo é dedicado aos meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americanas que Israel assessorou.
Para se justificar, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.
Desde 1948, os palestinianos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.
São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelita usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.
Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa.
Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.
Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polónia para evitar que a Polónia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinianos à espreita.
Israel é o país que nunca cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que viola as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.
Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente o País Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?
O exército israelita, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.
E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinianos mortos, um israelita.
Gente perigosa, adverte outro bombardeamento, a cargo dos meios massiços de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelita vale tanto como cem vidas palestinianas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atómicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irão foi a que aniquilou Hiroxima e Nagasáqui.
A chamada “comunidade internacional”, existe?
É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adoptam quando fazem teatro?
Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.
Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.
A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada aos palestinianos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, anti-semitas. Estão a pagar, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.
Até quanto continuaremos a aceitar que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?
Até quando os horrores continuarão a ser chamados erros?
Esta carnificina de civis começou a partir do sequestro de um soldado. Até quando o sequestro de um soldado israelita poderá justificar o sequestro da soberania palestiniana?
Até quando o sequestro de dois soldados israelitas poderá justificar o sequestro de todo o Líbano?
A caça aos judeus foi, durante séculos, o desportopreferido dos europeus. Em Auschwitz desembocou um antigo rio de espantos, que havia atravessado toda a Europa. Até quando os palestinianos e outros árabes continuarão a pagar por crimes que não cometeram? O Hezbolá não existia quando Israel arrasou o Líbano nas suas invasões anteriores.
Até quando continuaremos a acreditar no conto do agressor agredido, que pratica o terrorismo porque tem direito de se defender do terrorismo? Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano… Até quando se poderá continuar a exterminar países impunemente?
As torturas de Abu Ghraib, que despertaram certo mal-estar universal, nada têm de novo para nós, os latino-americanos. Os nossos militares aprenderam essas técnicas de interrogatório na Escola das Américas, que agora perdeu o nome, mas não as manhas. Até quando continuaremos a aceitar que a tortura continue legitimando, como fez a Corte Suprema de Israel, em nome da legítima defesa da pátria?
Israel deixou de ouvir 46 recomendações da Assembleia Geral e de outros organismos das Nações Unidas. Até quando o governo israelita continuará a exercer o privilégio de ser surdo? As Nações Unidas recomendam, mas não decidem. Quando decidem, a Casa Branca impede que decidam porque tem direito de veto. A Casa Branca vetou, no Conselho de Segurança, 40 resoluções que condenavam Israel. Até quando as Nações Unidas continuarão a actuar como se fossem outro nome dos Estados Unidos? Desde que os palestinianos foram desalojados de suas casas e despojados das suas terras muito sangue correu. Até quando continuará correndo sangue para que a força justifique o que o direito nega?
A história repete-se, dia após dia, ano após ano, e um israelita morre para cada 10 árabes que morrem. Até quando a vida de cada israelita continuará valendo 10 vezes mais? Em proporção à população, os 50 mil civis, na sua maioria mulheres e crianças, mortos no Iraque equivalem a 800 mil americanos. Até quando continuaremos a aceitar, como se fosse costume, a matança de iraquianos, numa guerra cega que esqueceu os seus pretextos? Até quando continuará sendo normal que os vivos e os mortos sejam de primeira, segunda, terceira ou quarta categoria?
O Irão está desenvolvendo a energia nuclear. Até quando continuaremos a acreditar que isso basta para provar que um país é um perigo para a humanidade? A chamada comunidade internacional não se angustia em nada com o facto de Israel ter 250 bombas atômicas, embora seja um país que vive à beira de um ataque de nervos. Quem maneja o perigosímetro universal? Terá sido o Irão o país que lançou as bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui?
Na era da globalização, o direito de pressão pode mais do que o direito de expressão. Para justificar a ocupação ilegal de terras palestinianas, a guerra chama-se paz. Os israelitas são patriotas e os palestinianos são terroristas, e os terroristas semeiam o alarme universal.
Até quando os meios de comunicação continuarão a ser receios de comunicação?
Esta matança de agora, que não é a primeira nem será, receio, a última, ocorre em silêncio? O mundo está mudo? Até quando seguirão soando em sinos de madeira as vozes da indignação?
Estes bombardeamentos matam crianças: mais de um terço das vítimas, não menos da metade. Os que se atrevem a denunciar isto são acusados de anti-semitismo. Até quando continuarão sendo anti-semitas os críticos dos crimes do terrorismo de Estado? Até quando aceitaremos esta extorsão? São anti-semitas os judeus horrorizados pelo que se faz em seu nome? São anti-semitas os árabes, tão semitas como os judeus? Por acaso não há vozes árabes para defender a pátria palestiniana e repudiar o manicômio fundamentalista?
Os terroristas parecem-se entre si: os terroristas de Estado, respeitáveis homens de governo, e os terroristas privados, que são loucos soltos ou loucos organizados desde os tempos da Guerra Fria contra o “totalitarismo comunista”. E todos agem em nome de Deus, seja Deus, Alá ou Jeová. Até quando continuaremos a ignorar que todos os terrorismos desprezam a vida humana e que todos se alimentam mutuamente. Não é evidente que nesta guerra entre Israel e Hezbolá são civis, libaneses, palestinianos, israelitas, os que choram os mortos? Não é evidente que as guerras do Afeganistão e do Iraque e as invasões de Gaza e do Líbano são incubadoras do ódio, que fabricam fanáticos em série?
Somos a única espécie animal especializada no extermínio mútuo. Destinamos US$ 2,5 bilhões, a cada dia, para os gastos militares. A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, come os vivos e os mortos. Até quanto continuaremos a aceitar que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?
[in EcoDebate, 19/01/2009]
Se procura a verdade, beba a cerveja Heineken. Quer autenticidade? Fume cigarros Winston. Procura a rebeldia? Compre uma máquina Canon. Está inconformado com a situação do mundo? Coma um hambúrguer da Burger King. Deseja afirmar sua personalidade? Use um cartão Visa. Quer defender o meio ambiente? Reveja-se no exemplo da Shell. Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo.
“Procure a verdade”: a verdade está na cerveja Heineken.
“Você deve apreciar a autenticidade em todas suas formas”: a autenticidade fumega nos cigarros Winston.
Os ténis Converse são solidários e a nova câmara fotográfica da Canon chama-se Rebelde: “Para que você mostre do que é capaz”.
No novo universo da computação, a empresa Oracle proclama a revolução: “A revolução está no nosso destino”. A Microsoft convida ao heroísmo: “Podemos ser heróis”. A Apple propõe a liberdade: “Pense diferente”.
Comendo hambúrgueres Burger King, você pode manifestar o seu inconformismo: “Às vezes é preciso rasgar as regras”.
Contra a inibição, Kodak, que “fotografa sem limites”.
A resposta está nos cartões de crédito Diner’s: “A resposta correcta em qualquer idioma”. Os cartões Visa afirmam a personalidade: “Eu posso”.
Os automóveis Rover permitem que “você demonstre a sua potência”, e a empresa Ford gostaria que “a vida estivesse tão bem feita” quanto seu último modelo.
Não há melhor amiga da natureza do que a empresa petrolífera Shell: “A nossa prioridade é a protecção do meio ambiente”.
Os perfumes Givenchy dão eternidade; os perfumes dão eternidade; os perfumes Dior, evasão; os lenços Hermès, sonhos e lendas.
Quem não sabe que a chispa da vida se acende para quem bebe Coca-Cola?
Se você quer saber, fotocópias Xerox, “para compartilhar o conhecimento”.
Contra a dúvida, os desodorantes Gillette: “Para que se sinta seguro de si mesmo”.
Numa entrevista ao escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, durante a realização do Forum Mundial Social de 2005, em Porto Alegre, Brasil, encontramos reflexões muito interessantes. Transcrevemos excertos dessa entrevista conduzida pela Agência Carta Maior.
Agência Carta Maior - A carta assinada pelo senhor e por outros intelectuais ligados ao processo do Fórum Social Mundial, pode ser entendida como um novo chamado ao que se denominou “espírito de Porto Alegre”?
Eduardo Galeano - Uma retomada dos pontos essenciais que deram vida ao Fórum e que continuam alentando o trabalho das inúmeras organizações. Uma quantidade imensa de pessoas acompanha e está envolvida com o processo. Virou uma coisa tão imensa muito difícil de ser organizada. Organizar o caos sem romper a espontaneidade. Então, mais do que nunca, é necessário confirmar quais são os objectivos centrais da nossa tarefa aqui no Fórum. Sem que isso implique numa urgência louca, numa maluquice, sem achar que esses pontos todos serão resolvidos em 15 minutos.
Sobre essa questão de horizonte, lembro de uma frase de um amigo meu, o cineasta argentino Fernando Birri, dita quando estávamos uma vez em Cartagena das Índias, na universidade, conversando com estudantes. Um dos estudantes perguntou para o Fernando para que serve a utopia. Aí ele respondeu: “Eu me faço essa pergunta todos os dias. O que eu posso dizer é que, para mim, a utopia está no horizonte. Eu sei perfeitamente que nunca a alcançarei. Se eu caminho dois passos, ela se afasta dois passos. Se eu dez passos, ela fica dez passos mais distantes. Para que ela serve então? Para caminhar”. Eu sempre achei que essa é a melhor resposta possível para explicar por que ainda existe gente que capaz de viver além da infâmia, de não confundir o tempo presente com o destino. Gente capaz de manter a certeza viva de que amanhã o mundo pode ser diferente do que é hoje. (…)
CM - O que é necessário para transformarmos a utopia em ações concretas?
EG - Para mim, existe uma identidade indissolúvel entre os fins e os meios. O que é que a utopia? O fim, o objetivo final, aquilo que está além das visões. Os meios têm que ter uma identidade inconfundível com os objetivos que a gente se propõe conquistar. A maneira de chegar até esses objetivos, passo a passo, consciência a consciência, casa a casa, precisa manter a identidade daquilo que você faz com aquilo que você quer fazer. Porque às vezes em nome do realismo, o cinismo vira uma sorte de destino inaceitável. Eu sou condenado a aceitar a realidade porque não posso mudá-lo. Não é assim. Não vemos a realidade como um destino. Vemos a realidade como um desafio. Ela está nos desafiando. Agora, a definição de quais são os meios para enfrentá-la é um ponto mais complicado. Você pode cair na tentação de começar a trair demais os seus objectivos em nome de seus objectivos imediatos, perdendo de vista a sua própria imagem. Você procura você no espelho e não percebe que não esta lá.
CM - É possível uma aliança estratégica cultural e política na América Latina?
EG - Não sou alguém que tenha fórmulas mágicas ou dite sentenças sobre a realidade e o destino da esquerda. A esquerda é contraditória, diversa, depende muito das diferentes realidades nacionais, do tempo e do espaço. Não é possível formular algo geral sobre isso. Corre-se o risco grave de ser muito injusto.
Acho que nós temos assumido um desafio que não é só político no sentido tradicional da palavra “política”. A palavra “política” é muito restritiva. Como se a esquerda fosse apenas os partidos e os sindicatos, que são atores da esquerda política. Mas a esquerda tem muito a ver com a vida da gente, com desafios culturais, com a necessidade de reformular a vida. É isso o que o Fórum tem de bom. O Fórum é uma coisa incrível. A quantidade de energia diversa que está se encontrando aqui , tentando reformular a vida, tentando encontrar uma resposta diferente. Dizendo “não somos o resultado da maldição de Deus ou de uma piada de humor negro do diabo”. Podemos ser mais do que isso. Aí está o grande desafio da América Latina de ser o Sul do mundo. O que vamos ser da vida? A caricatura do Norte? Vamos reproduzir uma civilização de consumo e de violência, orientada contra a gente contra a natureza? [Vamos reproduzir] essa cultura suicida que é a cultura dominante no mundo de hoje ou vamos reformular respostas novas que vão ser perguntas novas rumo a um mundo diferente?
[A esquerda] tem que buscar estratégias de fazer política no sentido restritivo tradicional. Para ser muito mais do que isso.
A integração nossa [da América Latina] é uma necessidade. O caminho é juntarmos os conflitos. Nesse mundo que é um mundo de espaços fechados de maneira egoísta, ninguém vai vir de fora para salvar a nossa vida. Somos nós que temos que atravessar as nossas diferenças e ser mais fortes do que uma longuíssima tradição de ignorância mútua, de divórcio mútuo. Temos que refazer vínculos perdidos e criar outros. Por isso é que eu dou tanta importância à experiência do Fórum. O Fórum foi, é, e eu espero que continue sendo um imenso espaço de encontro para vincular os desvinculados. E a única maneira de responder ao desafio colocado: O que é que vocês vão ser? A sombra dos outros fóruns, eco de outras vozes? Vão caminhar com os seus próprios pés ou vão ser incapazes de caminhar? Essas são as grandes perguntas. E aí é imprescindível a integração. Até agora, são muito mais palavras do que fatos. Tem muito discurso nessa direção e poucos resultados concretos. É imprescindível que nossos países - Uruguai com o novo governo que vai assumir, o Brasil, a Argentina, todos os países da América Latina – formulem uma política conjunta para várias áreas, sobretudo para a dívida externa, que é o problema mais grave. Chega de dar respostas em separado. Chega de tentar nos entender separadamente, como quer a banca internacional. Separados, vamos ser implacavelmente estrangulados. O pescoço não tem outro destino. Ou aceitam que a corda dos credores continue dando volta ao redor ou o pescoço fica por fim livre, para poder respirar...
O que acham se delirarmos um pouco? O que acham se fixamos os nossos olhos para além da infâmia, para podermos imaginarmos um outro mundo possível -?
O ar das ruas limpo de todo o veneno que não venha dos receios e das paixões humanas; os carros sendo esmagados pelos cães; as pessoas deixando de ser guiadas pelos carros e programadas pelo computador, compradas por supermercados, deixando de ser acompanhadas assistidas pela TV; - a TV deixará de ser o membro mais importante da família e será tratada como um ferro de passar ou máquina de lavar roupa; será integrado nos códigos penais o crime de estupidez para aqueles que cometerem: viver para ter ou para ganhar ao invés de viver para viver, simplesmente, assim como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca; os historiadores deixarão de acreditar que os países gostam de ser invadidos; os políticos que os pobres adoram comer promessas; - ninguém viverá para trabalhar, todos trabalharão para viver; - os economistas dixarão de chamar ao nível de vida de nível nível de consumo e nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas acumuladas; os cozinheiros deixarão de acreditar que as lagostas adoram ser fervidas vivas; -a morte e o dinheiro perderão os seus poderes mágicos e nem por falecimento ou fortuna um canalha se tornará um virtuoso cavalheiro; ninguém levará a sério alguém que não seja capaz de tirar sarro de si mesmo; o mundo não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá escolha a não ser declarar falência; em nenhum país serão presos os rapazes que se recusarem a cumprir o serviço militar, mas aqueles que quiserem prestar; a comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos; ninguém morrerá de fome; as crianças da rua deixarão de ser tratadas como lixo, porque não haverá crianças de rua, as crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas; a educação não será privilégio daqueles que a podem pagar; - a polícia não será a maldição de quem não a possa comprar; - A justiça e liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, serão novamente juntas de volta, bem coladas, costas com costas; - Na Argentina, as “Loucas da Plaza de Mayo” serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória; a Santa Madre Igreja corrigirá algumas erratas das escrituras de Moisés, e o sexto mandamento mandará festejar o corpo, a igreja também realizará outro mandamento que Deus havia esquecido: “Amaras a natureza da qual fazes parte”; -serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma; os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperaram de esperar muito, muitos e se perderam de tanto procurar; - seremos compatriotas e contemporâneos de todos os tenham anseio de beleza e vontade de justiça, tenham nascido quando tenham e tenham vivido quando e onde, sem se importarem minimamente com as fronteiras do mapa ou do tempo, - Seremos imperfeitos e a perfeição continuará sendo um privilégio chato dos Deuses; - Neste mundo mentiroso, seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro e cada noite como se fosse a última.
Esperamos poder amanhã publicar as conclusões deste debate. A participação foi grande, o número de depoimentos e, sobretudo, de comentários foi elevado. Ouçamos mais uma vez um dos nossos oradores "residentes", Eduardo Galeano, quando o ano passado visitou osindignados acampados na Praça da Catalunha, em Barcelona. É, salvo erro, a terceira vez que editamos este vídeo - mas não será a última - Democracia manipulada... Este é o rumo que não queremos:
Nestas Vozes contra a globalização, vamos hoje ouvir depoimentos diversos - entre eles o do nosso conhecido Eduardo Galeano.
(13/1/2012 16:12, Por Redação, com Cubadebate - de Havana)
Eduardo Galeano foi recebido por Roberto Fernández Retamar , presidente da Casa de las Américas.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano afirmou na passada sexta-feira, à sua chegada a Havana, que a neutralidade é impossível num mundo que está dividido entre indignos e indignados. Qualquer um pode ser indigno ou indignado, afirmou, em breve conversa com jornalistas em sua chegada à capital cubana depois de mais de 10 anos de ausência, convidado pela Casa de las Americas, para o Prémio Literário 53 (anos da revolução comunista) que se inicia na próxima segunda-feira.
A crise que o planeta enfrenta tem levado muitos povos a aceitar o inaceitável, forçando-os à indignidade. É por isso que, segundo ele, os movimentos emergentes, como o dos indignados, de repente, se tornam perigosamente contagiante em todos os países. Ninguém pode deter a capacidade viral que tem a indignação, disse referindo-se aos movimentos sociais que surgiram em vários países para expressar os seus protesto contra a desigualdade e o desemprego.
Na sua opinião, em todos os lugares se pode respirar uma energia de mudança que procura manifestar-se. A esquerda, segundo ele, está por toda parte. Processos de mudança que realmente ocorrem, crescem lentamente de baixo para cima e de dentro para fora. Às vezes, são silenciosos, quase secretos, mas existem em toda parte.
– Eu volto para Cuba sem ter saído, porque esta ilha permaneceu sempre viva em mim, nas minhas palavras, nas minhas acções e na minha memória, uma memória viva de tudo o que dela recebí. Nunca ocultei minha admiração por esta Revolução, um exemplo de dignidade nacional e da solidariedade num mundo onde o patriotismo é um direito negado aos países pequenos e pobres. Nunca na minha vida conheci um país tão solidário como este, nenhuma revolução tão oferecida aos demais (seres humanos) como esta – assegurou.
Referindo-se ``a sua relação com a Casa de las Américas, “minha casa”, disse ele, lembrou que, no início, era um caso de amor pouco correspondido.
– Lembro-me de como escrevi As Veias Abertas (da América Latina, principal obra na vida do autor)… para chegar a tempo do concurso literário. Tanto esforço e perdi na competição – lembrou.
Três vezes vencedor do prémio, logo em seguida, Galeano volta à instituição para apresentar o seu livro Espelho, uma história quase universal, Menção Honrosa de Narrativa do Prémio José María Arguedas 2011.
– Este texto oferece uma tentativa de ajudar na recuperação do arco-íris terrestre, que contém mais cores e esplendor do que o arco-íris celeste. Queria ajudar a recuperar essas cores perdidas, porque estamos cegos, mutilados por uma longuíssima tradição de racismo, de machismo, elitismo, de militarismo e de outros ismos que nos impedem de descobrir toda a plenitude de nossa beleza possível – apontou.
Eduardo Galeano e José Saramago têm sido as figuras tutelares deste debate. No Forum Mundial Social realizado em Porto Alegre, Brasil , em Janeiro de 2005, teve uma excelente intervenção. Vamos escutá-la:
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
Vasco Lourenço
L'utilization des entités juridiques a des fins illicites (Relatório da OCDE sobre Paraísos Fiscais)
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