Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
A propósito de uma sessão de cinema - III Parte- C Um olhar sobre o mundo das matérias-primas ou o clube dos milhões de milhões de dólares; por Joshua Schneyer, Reuters - 2. Seleccionado e traduzido por Júlio Marques Mota.

(Conclusão)

 

Uma análise do passado

 

Apesar de uma relativa falta de supervisão e regulação , taís posições deveriam ter de chamar a atenção das autoridades, dos supervisores, dos reguladores ."Sempre houve uma certa preocupação sobre a influência das empresas de negócio, de trading", disse Craig Pirrong, professor de finanças e especialista nos mercados de produtos básicos e matérias primas na Universidade de Houston, que sublinha o facto de que algumas empresas "têm estado associadas a alegações de manipulação do mercado".


A atenção do público e dos reguladores está normalmente centrada sobre a evolução dos preços. A subida dos preços mundiais dos bens alimentares em 2007 provocou um clamor contra as maiores empresas de comercialização de cereais, quando os preços do petróleo saltaram para um valor recorde de 147 dólares por barril em 2008, o Congresso dos EUA estudou e levantou um inquérrito ao papel das empresas de trading sobre o petróleo, mas não encontraram nenhuma arma a deitar fumo, nada viram de evidente . Mas em Maio a Commodity Futures Trading Commission processou Arcadia e a Parnon, ambas as empresas a serem propriedade de um bilionário armador norueguês , por supostamente ter manipulado os preços de petróleo dos EUA há três anos antes, acumulando milhões de barris que não tinham intenção de usar imediataamente. As empresas negam as acusações.


Algumas transgressões foram caixas nos jornais, nos media. Um petroleiro fretado por Trafigura foi interceptado nas Caraíbas em 2001, sob suspeita de transportar volumes ilegais de petróleo iraquiano. Através de um acordo Trafigura concordou em pagar uma multa de 5 milhões de dólares, mas não foi acusada de contrabando e negou as irregularidades. Em 2006, um navio-tanque fretado pela mesma empresa despejou lixo tóxico na Costa do Marfim  tendo alegadamente feito milhares de pessoas doentes e em que 16 delas morreram. Os tribunais não encontraram nenhuma ligação entre os seus resíduos e as pessoas doentes. Trafigura tomou as medidas legais para manter o relatório sobre o incidente na Costa do Marfim fora do alcance dos jornalistas mas os detalhes foram finalmente tornados público.


E isto não é só com os europeus. Os executivos de ADM de Illinois, Archer Daniels Midland, foram presos muito antes, nos anos 90, por concluio na fixação de preços internacionais da lisina, um aditivo para a alimentação animal. Depois da empresa Cargill, sediada no Minnesota ter construído um enorme terminal de soja nas margens do rio Amazona em 2003, foi alvo de fortes críticas de Greenpeace e sujeita a injunções por parte do governo brasileiro devido a que supostamente terá incentivado uma maior exploração dos terrenos agrícolas na frágil floresta tropical. Cargill, desde então, ficou sujeita a uma moratória sobre a compra de soja produzida nas terras recém-desflorestadas.


A  pressão e as arbitragens

 

Para muitos comerciantes de commodities, a manobra mais rentável é a de pressionar o mercado, fazer variar os preços para cima ou para baixo, para se ganhar uma posição dominante. No início de 2000, o fluxo de petróleo bruto Brent - usado como referência de preço global - caíu para 400 mil barris por dia a partir de mais de 1 milhão no final de 1980. Alguns  traders sobre commodities aproveitaram a chance de comprar o equivalente a quase toda a oferta disponível. Os spreads sobre os preços para fornecimento imediato imediatamente dispararam, reduzindo as margens para as refinarias em todo o mundo. O refinador americano Tosco processou Arcadia e Glencore pela manipulação do mercado e o caso foi resolvido fora do tribunal.


Nos metais, as existências em armazém podem ficar imobilizadas durante anos como garantias do empréstimo, permitindo que os mesmos comerciantes que dominam o mercado de metais controlem também uma enorme parcela da oferta mundial - um aparente conflito de interesses que atraiu fortes críticas do Parlamento do Reino Unido.


"Os armazéns parecem ter uma capacidade infinita para guardarem os metais , mas uma capacidade muito pequena para libertá-lo", disse Nick Madden da Novelis, a maior produtora mundial em laminados de alumínio.


As firmas de trading viram a oportunidade de alavancar o armazenamento de metais depois da crise financeira de 2008. Dos seis principais armazenistas de metais apenas um, sediado na Holanda, C. Steinweg, continua independente. As empresas de trading concorrem com os bancos nos despojos - Glencore, Trafigura e Noble tomaram assim cada uma delas  uma empresa de armazenamento, Goldman e JP Morgan tomaram as outras.


E, de modo diferente, os produtores de bens básicos, como a gigante petrolífera Exxon Mobil nos EUA, são empresas de comércio que não ganham dinheiro quando os preços sobem. Muitas jogam com a arbitragem - actuando sobre a divergência nos preços em diferentes locais, entre as diferentes datas de entrega futura, ou entre a qualidade de uma mercadoria em lugares diferentes.


Isso é o que Koch, Vitol e outros fizeram em 2009, quando estes armazenaram 100 milhões de barris de petróleo por via marítima em navios-tanque. Graças a uma situação de mercado conhecido como contango - um período em que os compradores pagam mais caro pela entrega futura do que se recebem os seus carregamentos imediatamente  - estas empresas puderam vender futuros e ganhar assim 10 dólares por barril ou mesmo mais.


História de Marc Rich


Muitos dos maiores especuladores ou traders sobre petróleo e sobre o comércio de metais têm as  suas raízes num famoso trader, Marc Rich, cujo triunfo nas décadas de 60 e 70 foi a criação de um mercado spot de petróleo, deslocando assim muitos negócios das mãos das empresas ditas as majors.


Nascido na Bélgica  trabalhou para Philipp Brothers, mais tarde chamada Phibro, com 20 anos, de onde saíu, em 1974, com um pós-graduado da empresa mãe Phibro, Pincus "Pinky" Green para criar a firma Marc Rich e Co AG, na Suíça.


Rico, agora com 76 anos, viria a acabar na lista dos mais procurados do FBI por suposta evasão fiscal e de comércio de petróleo do Irão depois da revolução, em 1979. Mais tarde foi perdoado por Bill Clinton. Os seus colegas de trabalho tomaram o controle da empresa em 1994, agora com o nome Glencore.


Várias das grandes firmas de trading ainda são grandes firmas de base familiar - empresas como a gigante agrícola Cargill, a empresa privado de topo dos EUA, ou Koch Industries, sediada no Kansas a número dois e esta tem como director - executivo Charles Koch, um activista libertariano, um ultra-neoliberal, com uma fortuna pessoal de 22.000 milhões dólares de acordo com a Forbes, que disse que a sua empresa só seria pública "sobre o meu próprio cadáver". "O seu pensamento é, abrir os livros (contabilidade, creio) para o mundo para quê?" , disse um ex-lobista de Koch, que pediu o anonimato. " Koch beneficia com a  privacidade e nisto é surpreendentemente ágil o que lhe é fortemente rentável como sabemos."


A velha guarda agora enfrenta agora um desafio enorme de uma nova geração de concorrentes asiáticos. Empresas como Noble sediada em Hong-Kong ou a a Olam Hong sediada em Singapura não são nada desconhecidos nestes negócios, mas eles estão a alargar a sua esfera de influência  da mesma maneira que está a aumentar a influência e a importância da China nos mercados de commodities. Os fundos estatais chineses têm fluido para Noble e para os traders asiáticos privados. Como a influência da China cresce, é muito provável que as empresas chinesas venham a criar as suas próprias dinastias nestes ramos . Seguindo uma prática semelhante à dos grandes jogadores ocidentais nestes mercados a empresa petrolífera estatal PetroChina criou uma base de trading em Houston para o petróleo e alugou enormes tanques de armazenamento de petróleo nas Caraíbas. "A China está-se a tornar cada vez mais parecida com a Glencore", disse Hinde. "O Estado chinês está a financiar empresas de trading extremamente capazes de levarem a cabo as suas propostas, os seus objectivos. Nós não ouvimos ainda falar muito sobre eles, mas o tempo virá e deles, depois, muito se falará. [A ver vamos como dizem os portugueses????] ."


E a seguir segue-se um olhar sobre as 16 maiores empresas que valem 1,1 milhão de milhões de dólares de rendimentos agregados,  em energia, metais e bens agrícolas.

 

Joshua Schneyer,  Commodity Traders-the trillion dollar club, Reuters, 21 de Outubro de 2011.



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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011
A propósito de uma sessão de cinema - III Parte- C Um olhar sobre o mundo das matérias-primas ou o clube dos milhões de milhões de dólares; por Joshua Schneyer, Reuters. Seleccionado e traduzido por Júlio Marques Mota.

 

Para o pequeno clube de empresas que comercializam os produtos alimentares, os combustíveis e os metais que mantêm o mundo em actividade, a última década tem sido sensacional. Impulsionado pela ascensão do Brasil, China, Índia e outras economias em rápido crescimento, o boom global das commodities tem visto os lucros crescerem de forma abissal nas maiores empresas de trading a nível mundial.


Este conjunto de empresas formam um grupo exclusivo, fechado, em que os seus membros estão muito pouco sujeitos à regulação e estão na maioria dos casos com as suas firmas sediadas em paraísos fiscais como a Suíça. Em conjunto, valem mais de um milhão de milhões de dólares em rendimentos anuais e controlam mais de metade do mundo de commodities negociadas nos mercados da economia global. Os cinco primeiros juntos valeram  629.000.000.000 $ de receitas no ano passado, imediatamente abaixo das cinco maiores empresas financeiras globais e mais do que as vendas juntas dos principais líderes nas novas tecnologias ou telecomunicações. Muitos acumulam posições especulativas no valor de milhares de milhões em matérias-primas, em commodities acumuladas nos armazéns e silos e em super-petroleiros durante os períodos de menor oferta.


Os reguladores dos EUA e da Europa estão a apertar a malha, estão a condicionar os grandes bancos e os hedge funds que especulam em matérias- primas, mas as grandes empresas de negociantes permanecem praticamente intocáveis . Muitas não são cotadas na bolsa ou são mesmo somente empresas familiares mas porque negoceiam sobre produtos físicos são em grande parte impermeáveis aos reguladores financeiros. Fora do sector das commodities, muitos desses calmos gigantes que são os corretores do mundo dos bens básicos são pouco conhecidas.


A sua esfera de acção está em clara expansão. As grandes empresas de negócio possuem agora um número crescente de minas que produzem muitas das nossas commodities, possuem os navios e os oleodutos que transportam, essas commodities, possuem os armazéns, os silos e os portos onde estão armazenados esses produtos. Com as suas conexões e conhecimento do meio - os mercados de commodities são em sua maioria livres de restrições de insider trading - as empresas de negócio tornaram-se poderosos brokers, especialmente com o rápido desenvolvimento da Ásia, América Latina e África. Eles fazem parte da cadeia alimentar, e adicionalmente ajudam a moldá-la, e os ganhos pessoais podem ser enormes. Nestas empresas "a percentagem de bónus sobre os lucros pode ser o dobro do que os bancos de Wall Street pagam", diz George Stein, da Talent Commodity de Nova York, empresa de selecção de pessoal altamente qualificado, também consideradas empresas de caça-cabeças.


Com sede na Suíça, a empresa Glencore, cuja oferta pública inicial (IPO) em Maio colocou as empresas de trading no centro das atenções, paga anualmente bónus a alguns dos seus traders na casa das dezenas de milhões. No papel, a riqueza do seu Director Ivan Glasenberg pode aumentar de 10.000 milhões dólares numa só noite.


O problema da dimensão


O problema da dimensão pode ser visto como sendo o de se conhecer qual a dimensão  das grandes casas, das empresas de maior volume de negócios? Posto de uma outra maneira: duas delas, Vitol e Trafigura, venderam em conjunto um total de 8,1 milhões de barris de petróleo por dia no ano passado. isso é, um valor igual ao do conjunto das exportações de petróleo da Arábia Saudita e Venezuela.


Ou posto ainda da seguinte forma: Glencore em 2010 controlava 55 por cento do mercado mundial do negócio de zinco e 36 por cento do valor negociado em cobre.


Ou ainda um outro exemplo: com pouca publicidade as vendas de Vitol, que foram de 195 mil milhões em 2010, foram duas vezes mais elevadas que as vendas da Apple. Assim como os 200 navios que tem no mar, Vitol possui tanques de armazenamento nos cinco continentes.


A regulação americana está agora inclinada para limitar o volume de posições especulativas próprias para os bancos - operações feitas com fundos próprios mas as novas regras não se aplicam a empresas de trading: " as casas de negócio têm grandes volumes de negociação por conta própria. Nalguns casos, faz-se entre 60 a 80 por cento do volume total que negoceiam", disse Carl Holland, um ex-gerente de risco sobre o preço do petróleo na Chevron Texaco, que agora dirige a empresa de consultoria em energia Solutions LLC em Connecticut. "Eles são os que têm mais talento, são os que têm os bolsos mais fundos e são também os que têm a melhor gestão de risco."


Adicionalmente, além da contenção sobre o trading, o regulador dos EUA votou em 19 de Outubro a imposição de posições limite nos mercados de petróleo e metais. Isto dá aos bancos que negociam nos mercados de futuros motivos para preocupação, mas uma vez que os agentes a negociarem em produtos físicos recebem normalmente isenções de limites - porque estes são categorizados como hedgers bona fide - as empresas de negócio podem saír desta situação ilesas, isto é podem tomar no mercado em valor as posições de compra ou de venda que entenderem.


O talento das casas de negócio e os seus bolsos profundos traduzem-se num enorme poder . "A maioria dos compradores de commodities do mundo são empresas tomadoras de preços, price takers. as principais empresas de negócio, as de topo, são empresas fomadores dos preço, price makers", disse Chris Hinde, editor do jornal londrino Mining Journal. E "isso confere-lhes uma posição tremenda."


É este tipo de posição que tem permitido a Vitol fazer um activo negócio em petróleo com o governo dos EUA, com o regime sírio sitiado e com os rebeldes que recentemente tomaram o poder na Líbia e tudo isto em simultâneo e ao longo dos últimos meses. Em Abril, a empresa contornou as bombas da Nato e esquivou-se a um bloqueio naval e enviou o primeiro petroleiro para o martirizado porto de Tobruk no Mediterrâneo para levar um carregamento de petróleo vendido pela direcção de uma empresa de petróleo da Líbia em franca ruptura e desafiando Muammar Kaddafi.


Vitol também discretamente forneceu os rebeldes da Líbia, com mil milhões em combustível, soube a agência Reuters - fornecimentos de que os rebeldes precisavam desesperadamente para avançar sobre Trípoli. Este comportamento de início deu à empresa Vitol uma vantagem face aos novos administradores políticos do país. Como se vê as bombas voltam a tirar novamente petróleo e a Agoco, empresa líbia de petróleo, afectou metade da sua capacidade de  produção de petróleo bruto para pagar dívidas.


Enquanto os seus experientes traders estavam a fazer negócios no leste da Líbia, Vitol, juntamente com a sua rival Trafigura, manteve a oferta de produção do produto refinado de modo fluido  para o governo sitiado de Bashar al-Assad na Síria assim como para as suas tropas que atacaram os civis. As casas de negócio puderam fazer isto na Síria porque as sanções internacionais não proibiam o fornecimento de combustível ao país, mas elas não tiveram que resistir a muita concorrência para este tipo de negócio.

 

 

(Continua)

 



publicado por João Machado às 13:30
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A propósito de uma sessão de cinema - 3ª Parte. Nota de leitura. Por Júlio Marques Mota

Hoje pretendemos colocar o leitor  face a um outro mundo estranho, tanto ou mais estranho ainda que o dos 9 banqueiros  do mundo, os grandes traders do mundo da finança, os que se reúnemem Nova Iorque, em Manhattan para discutirem os seus destinos e o que discutem dos seus destinos tem a ver com os nossos destinos mas normalmente no sentido oposto ao que nós desejamos realizar, porque as motivações são inversas.

 

Hoje falaremos dos homens que dominam o mundo do negócio, do trading, das matérias primas, dos bens alimentares, de tudo aquilo que está por debaixo da terra, de tudo aquilo que à superfície dela pode crescer, de tudo aquilo que sendo produto se pode transformar em mercadoria, ou seja, em metal sonante.


Por aqui teoricamente passaria a renda diferencial sobre a terra, sobre as explorações, mineiras ou outras, cujos fundamentos foram explicados por um grande economista,  um dos maiores de sempre, David Ricardo,  mas ironia da história os homens de que no texto abaixo se fala  nunca leram nem lerão Ricardo e se alguma coisa compreenderam, mesmo sem nunca também terem lido, terá sido Marx, pois a lição deste parecem ter bem apreendido. O que regula este estranho  mundo não   é a renda diferencial  que seria estabelecida pelo mercado, pelo jogo da procura e oferta, pela concorrência dos factores, pela existência de bens de valor de mercado nulo como bens livres, o que regula este estranho mundo não são os mercados transparentes de que tanto nos querem ensinar que são a quinta essência do  capitalismo, mas que ninguém conhece afinal, não, o que regula este estranho mundo é   a renda absoluta, é o poder que se tem ou não tem de se apropriar um recurso que não é reproduzível, de um recurso que se tem ou não tem o poder de disponibilizar para o mercado, face às forças que lhes podem opor. Nas antípodas da teoria neoliberal portanto e é que disso nos falou Marx mesmo que do ponto de vista da formação do valor ele tenha sido muito confuso.  Mas a teoria da formação dos preços não para aqui chamada, pelo que passemos à  frente, avancemos.


Para simplificar este nosso raciocínio admitamos três tipos de terra de produtividade diferentes. Na terra 1 produzem-se 100 alqueires de trigo por hectare, mas não chegam para satisfazer a procura. Utiliza-se então a terra 2 onde com os mesmos custos com que se produzem 100 alqueires se produzem agora 80 alqueires de trigo. Mas o consumo é superior a 180. Utiliza-se uma terra 3 onde se produzem  com os mesmos custos 50 alqueires de  trigo por hectare e a procura global é agora satisfeita. Esta terra de que muita fica em pousio, não recebe então nenhuma renda, é um factor livre, de valor nulo! Imaginemos então que os custos de produção, com lucros incluídos para os empresários que exploram as terras,  para produzir os 100, os 80 e os 50 alqueires são  exactamente os mesmos, digamos 10.000 euros, ou seja o trigo sai a 200 euros o alqueire na terra nº 3. Na terra a que chamámos terra nº2 a receita é dada por 16. 000 euros, pois produzem 80 alqueires  e o custo de factores é de 10.000. Desta receita de 16.000 então os 10.000 são para o empresário e  restam 6.000 para o proprietário da terra. A renda diferencial é então de 6.000 euros  e a terra nº 1 pelo mesmo raciocínio dará de receitas  20.000 euros e custos de 10.000. A diferença, será então a renda diferencial, neste caso de 10.000. Tudo estaria certo  se a teoria estivesse certa. Ora, a última terra, a terra nº 3  tem dono,  e portanto para a deixar utilizar, exige uma renda, e isso é independente do valor do trigo no mercado que, de resto, depende da disponibilidade  desta terra nº 3 para a concessão da terra para a agricultura. Mas admitamos que ele exige uma renda de mil euros. Não há hipótese, num sistema de mercado livre, de poder evitar  esta situação, por hipótese. O custo sobe portanto de mais 20 euros por alqueire e é estabelecido a 220 euros. Esse preço estende-se a todas as produções de trigo e curiosamente na mesma lógica de mercado a mesma renda absoluta fez crescer ainda mais a renda nos outros terrenos. Com efeito o terreno nº 2 produz oitenta alqueires   que agora a 220 euros por alqueire gera um rendimento de 17.600 euros. Dez mil revertem para o empresário capitalista que explora a terra com o seu capital em máquinas, sementes, adubos, salários, etc. Obtêm-se um valor para a renda agora de 7.600 contra 6.000 anteriormente. A renda aumentou portanto de 1600 nesta terra nº 2 por imposição de uma renda absoluta  na terra nº 3. Para a terra nº 1 esta diferença seria agora de 2000 contra 1.600 na terra nº 2.


Por este exemplo podemos redesenhar o mundo violento que está por detrás de tudo isto. No nosso caso significava que a resistência do proprietário da terra nº 3 levava a que os proprietários da terra no seu conjunto ficassem altamente beneficiados com o sistema, a classe dos arrendatários da terra, a classe mais retrógrada do sistema capitalista. E é aqui que entra toda a espécie de violências neste caso na apropriação da terra, na pressão da terra nº 2 para produzir mais, mesmo a perder, para eliminar a necessidade de recorrer à terra nº 3  e assim eliminar .o recalcitrante proprietário da terra  nº 3, enfim, o leque é infinito onde a própria morte física não está sequer excluída. A burguesia ávida de excedente económico não estaria disponível para tolerar recalcitrantes deste tipo que levariam a que os latifundiários engordassem à sua custa.

 

Neste  texto fala-se muito do maior trading mundial Glencore, sediada num paraíso fiscal. Não é por acaso, certamente,  que, além de Glencore, lembro-me de Metal Europe no norte de França com perto de mil empregados, fechada de um dia para o outro, por fax, depois de se ter  roubado todo o espólio de metais  raros que nos seus armazéns havia como uns  vulgares ladrões e com todo o seu pessoal reduzido a nada repentinamente. De Glencore lembro-me de um filme passado por uma cadeia de televisão Suíça, lembro-me de um sindicalista numa sua mina no Peru, creio, ter recebido uma carta com uma bala sem nada mas com o aviso que para a próxima não será assim, ser-lhe-á directamente entregue!


Glencore, uma das empresas FTSE 100, o índice bolsista das cem mais importantes empresas na Bolsa de Londres, é uma sociedade híbrida, de um lado, as minas, as jazidas, os portos e os entrepostos, a que se acresce uma miríade de participações industriais. Por outro lado, age como empresa intermediária, freta navios, executa transportes  de matérias primas, entre países produtores e consumidores. Graças às suas actividades, Glencore controla 60% do zinco à escala mundial, 50% do cobre, 30% do alumínio, 25% do carvão, 10% de cereais e 3% do petróleo. Glencore está para as matérias primas como Golden Sachs está para a banca, ambas as empresas têm o mesma alcunha, a Firma. Dirigida por Glasenberg, as suas ambições não se reduzem à regra nº 1 do trader, comprar no mais baixo possível, vender no mais alto possível, Não, Glasenber prefere estabelecer ligações de longo prazo com os seus clientes, prefere ter sempre o seu pessoal no limite máximo de tensão e a insegurança no emprego na Glencore é total. Mata ou morres, é a divisa que se  segue na Glencore. Dá pois para entender. E tanto se pode entender o que não estamos a  escrever sobre Glencore que esta no seu prospecto de  cerca de 1600 páginas para a sua introdução na Bolsa aí dizia  bem explicitamente: «A fraude e a corrupção constituem um risco ligado à natureza da  nossa actividade .»


Um exemplo curioso  para não dizer dramático, o que vamos agora contar. Recentemente, Glencore, primeiro negociante sobre os cereais   russos, comportou-se como um terrível especulador  apostando no maior em segredo sobre um aumento do preço trigo no início do Verão de 2010. Paralelamente, os emissários  de Glasenberg convenceram Moscovo a colocarem um embargo sobre as exportações dos seus cereais para combater o efeito da grave seca que reinava na ex-URSS. Resultado, os preços dos cereais dispararam e aumentaram cerca de 15% em dois dias o que fez subir  o preço do pão em todo o mundo.

 

“Trabalhando com  países  mal armados para fazer face ao rolo compressor das multinacionais, Glencore é potencialmente uma das empresas mais perigosas em termos de responsabilidade social e de desenvolvimento”, denuncia Olivier  Longchamp da ONG suíça Déclaration de Berne. Glencore decidiu recorrer ao mercado de capitais para obter fundos de modo a  prosseguir a sua conquista de mercados mas sem estar a respeitar para isso os imperativos de transparência, como o atesta a recente deslocação da sede jurídica de Baar para a praça  financeira off-shore da ilha Jersey, um paraíso fiscal mais perto de  um outro paraíso fiscal, Londres.  Até aqui  a ausência de cotação tem permitido até  ao seu proprietário cultivar o silêncio como arma.  

A fim de afastar os projectores da imprensa assim como   os analistas, Ivan Glasenberg deu apenas uma só entrevista. Este silêncio permitiu a esta muito grande fortuna escapar aos radares da imprensa. Até ao anúncio da introdução em Bolsa, até a revista económica Bilanz, que estabelece  a escala das grandes  fortunas na Suiça  nem conhecia sequer a sua existência!


É pois sobre este estranho mundo de Glencore e outras empresas  que se fala no texto que se segue sobre as 16 maiores empresas de trading. Curiosamente um texto publicado pela Reuters, um dos elementos chaves da  e  na lógica neoliberal. 



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Domingo, 27 de Novembro de 2011
A propósito de uma sessão de cinema - 3.ª parte - Glencore revela ter apostado no aumento do preço do trigo. Por Javier Blas e Farchy Jack em Londres. Financial Times. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota.

 (Conclusão) 

 

Glencore fez uma aposta especulativa sobre a subida do preço do  trigo e dos preços do milho no início do Verão de 2010, que no caso da Russia foi um Verão muito seco, revelou o maior comerciante mundial de commodities aquando da sua IPO, oferta inicial pública na bolsa colocando o valor da empresa em cerca de  60  mil milhões de dólares.


Em simultâneo com esta aposta sobre a subida dos preços dos cereais, os dirigentes  da Glencore  com sede na Suíça, no paraíso fiscal por excelência e sediada no cantão de referência, Zoug, convenceram Moscovo a impor uma proibição de exportação de cereais russos. Moscou assim fez  alguns dias mais tarde, provocando uma corrida à compra de trigo. Glencore é  o  maior trader sobre cereais da Rússia, seguida pelo rivais norte-americanos Cargill e Bunge.


A questão é muito sensível porque políticos como o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, muitas vezes culparam os especuladores pela subida dos  preços dos  bens  alimentares. O grupo G20, o grupo das 20 principais economias mundiais,  irá realizar uma sessão especial em Junho, para discutir os mercados de dos produtos alimentares.


Glencore revelou as suas operações  especulativas por conta própria à UBS , um dos bancos de subscrição da sua emissão de títulos, uma posição de divulgação que é rara  para uma empresa que guarda completo segredo sobre as suas actuações nos mercados.


"Os traders da [Glencore] sobre bens agrícolas têm  frequentemente  recebido relatórios muito detalhados sobre  a evolução do crescimento das searas na  Rússia e nestes se  informava que as condições de crescimento tinham-se estado a deteriorar de forma agressiva ao longo da Primavera e no início do Verão de 2010, devido a  uma seca que atingiu globalmente toda a Rússia. A  " UBS disse num relatório dedicado à IPO que foi  pré-distribuído aos potenciais investidores e de que o Financial Times teve conhecimento:  "Isto fornece uma boa situação para assumir posições longas sobre o trigo e o milho.", ou seja adquirindo posições de compra a prazo sobre estes produtos ou então  comprando  contratos sobre o trigo no mercado de futuros.


A 3 de agosto, Yury Ognev, chefe da unidade de cereais  da Glencore russa, incitou Moscovo a proibir as exportações de trigo, dizendo-lhes : "do nosso ponto de vista, o governo tem todas as razões para parar com todas as suas exportações de cereais." Outros fizeram comentários semelhantes. Entretanto Glencore distanciou-se  dos comentários, dizendo que esses comentários  representam a opinião pessoal de Yury Ognev e não a opinião da Glencore.  A Rússia impôs a proibição de se exportarem cereais a 5 de Agosto, o que desencadeou imediatamente a subida dos preços destes produtos que subiram mais de 15 por cento em dois dias.


Glencore, disse neste domingo que no ano de  2010 as suas posições globais em cereais  era uma mistura de "resultados" bons e maus. A proibição de exportação de trigo russo  apanhou a casa-mãe numa ratoeira pois esta tinha comprado trigo com antecedência, para fornecer a um país do Médio Oriente . "Então tivemos que comprar trigo mais caro a partir de outros lugares para cumprir essa obrigação", disse. "A proibição de exportação não ajuda particularmente o nosso negócio."


Glencore concordou em fornecer trigo ao seu cliente, que se acredita seja o Egipto, com um contrato em que não se estipulava  a origem do trigo, situação  esta  que é  conhecida na indústria como acordo com uma "opcional origen". A flexibilidade do  contrato permitiu à Glencore não ter de declarar uma força maior, que é, com efeito, uma cláusula legal comum que permite que os comerciantes se afastem dos  contratos de fornecimento por  causas alheias à sua vontade como, por exemplo,  uma proibição de exportação.


Os lucro brutos e antes de impostos da divisão agrícola Glencore mais do que dobraram para atingir os  659 milhões de dólares no ano passado, segundo dados fornecidos aos analistas. Outras empresas de topo no ramo de negócio, trading, incluindo Cargill, beneficiaram com a interrupção de fornecimento de trigo russo, mas alguns deles, como Archer Daniels Midland, sofreram com isso.


Glencore sublinhou que raramente faz  tomadas de posições especulativas por conta própria  na base da evolução futura  dos preços das commodities.  Glencore afirmou que os lucros de tais atividades representam uma "minoria substancial" da rentabilidade das suas  transacções  comerciais. No entanto, a empresa não forneceu nenhum detalhe sobre a separação  dos lucros entre as suas operações de arbitragem do dia a dia  e a sua  mais rara actividade especulativa por conta própria, ou  tomadas de posições especulativas, dizem os analistas.


Liberum Capital, que faz parte do sindicato bancário da oferta inicial pública  (IPO)  da Glencore  estima   que as posições especulativas por conta própria, provavelmente, representam um único dígito em termos percentuais  do lucro global da empresa no negócio, no trading. Mas Olivia Ker, analista chefe  no relatório da UBS, diz que sem  sem nenhuma outra explicação, sem nenhuma documentação adicional, então  ", a valorização do fluxo de lucro de operações especulativas por conta própria de  Glencore será um acto de fé por parte dos investidores".


Analistas de  nove bancos envolvidos no sindicato bancário encarregado na  IPO colocaram uma valorização média de 62 mil milhões de dólares sobre a Glencore, com um terço deste valor vindo das suas actividades comerciais de trading. A emissão  espera-se, poderá  levantar fundos eventualmente mesmo superiores a   12 mil milhões de dólares  até ao final de Maio, e seria a maior em Londres, e  a  terceiro maior da Europa.


Glencore disse que espera vir a tornar-se apenas  a terceira  empresa - e  a primeira em 25 anos - a  entrar no índice  FTSE 100 no seu primeiro dia de trading.


Javier Blas, Jack Farchy, Glencore reveals bet on grain price rise, 24 de Abril de 2011.



publicado por João Machado às 13:00
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Sábado, 26 de Novembro de 2011
Ainda A propósito de uma sessão de cinema-3ª Parte. Glencore aproveita-se da fome e do caos - Chris Arsenault - 2. Por Júlio Marques Mota

(Conclusão)

 

O conhecimento e o poder


Para ganhar dinheiro a apostar  sobre as cotações  da energia, dos metais e dos bens alimentares  - como outras multinacionais ou hedge funds - é essencial possuir a informação.


“Têm escritórios por toda a parte no mundo e são os únicos a terem  a informação quer sobre a produção quer sobre  a distribuição” diz o investigador para a segurança alimentar Kuyek. “Quando os que detêm a informação são também os que especulam, isto  é muito inquietante; podem concluir-se  contratos a prazo quando sabem que os preços vão subir.


“Em Agosto de 2010 por exemplo, a Rússia proibiu a exportação de cereais decisão posterior à  seca que destruiu as colheitas. A  3 de Agosto o director do departamento russo dos cereais de Glencore aconselhou  o governo a parar com  as exportações de cereais.  O governo seguiu o seu conselho a 5 de Agosto o que provocou  um aumento dos cereais de 15% em dois dias.


“Alguns dias antes da proibição de exportar, Glencore fez enormes  apostas” disse Kuyek. “Sabiam o que se iria  passar  de uma maneira ou outra; as multinacionais que têm informação são os melhores lugares para fazer lucros  sobre a volatilidade. “Glencore disse por  seu lado que a proibição lhes tinha feito perder dinheiro, a  eles também,  porque tinham de cumprir com as suas obrigações e entregar cereais a clientes fora da Rússia ao novo preço agora  mais elevado.


Além de manipular dos preços alimentares - essencialmente graças a informações internas -  a multinacional gigante parece ter violado as leis de vários continentes.


Procuradores  belgas acusaram os assalariados de Glencore de conspiração criminosa e de corrupção porque, na opinião destes juízes, teriam obtido de uma autoridade dos serviços públicos informações sobre as subvenções europeias à exportação de maneira ilícita. O caso será julgado a 12 de Maio em Bruxelas. 


Negócios ambíguos


Durante  o reino de Saddam Hussein no Iraque e das sanções da O.N.U que acompanharam os seus últimos anos, Glencore fez muitos bons lucros a vender  petróleo sobre o qual  havia um embargo. Em Fevereiro de 2001, Glencore comprou um milhão de barris de petróleo bruto iraquiano que era destinado aos EUA e foi  desviado para a Croácia onde foi  vendido  com um lucro de três milhões de dólares, de acordo com o relatório do Conselho de Segurança da O.N.U.


Quando a notícia foi difundida, o jornal inglês The Sunday Times titulou: “Um homem de negócios suíço discreto liga a City a uma fraude sobre o petróleo iraquiano.”


Marco Rich, o fundador de Glencore que traficou durante toda a sua  vida sobre  matérias-primas foi alcunhado como sendo aquele  “por quem  o escândalo sempre chega” pela revista Vanity Fair. Depois de  ter fundado a companhia em 1974, Rich deu-se a conhecer  por ter sido  o primeiro a fazer “combate comercial” ou seja a arrancar  mercados muito vantajosos a países que se debatiam com  problemas.


Marc Rich negociou  com os Ayatollahs quando o Irão foi posto na lista negra pelos EUA, negociou com o governo do regime de apartheid da África do Sul e contornou o embargo dos EUA sobre a Cuba e sobre a  Líbia para fazer negócios com divisas: não recuava em coisa nenhuma.


“Haverá sempre alegações segundo as quais [Glencore] traficou  com pessoas pouco convenientes” diz Chris Hinde da revista Mining Jornal “mas eu não diria que isso  é a excepção nas multinacionais.”

 

 

Glencore propôs  a Tony Hayward, antigo Director Geral de BP caído em desgraça e que é responsável pela pior maré negra  da história dos Estados Unidos,  o posto de administrador no conselho de administração da firma quando esta se abrir  ao público.

 

 

Rich vendeu a firma em 1993 mas o seu método de  não deixar fazer prisioneiros no comércio das matérias-primas tornou-se a norma nos negociantes actuais e nos especuladores incluído o director  sul-africano Ivan Glasenberg que deu ao império comercial de Rich o nome de Glencore.

 

 

Numa entrevista concedida ao Financial Times, Rich apoiou a venda de acções reconhecendo ao mesmo tempo que é “muito cómodo” para um negociante não  estar cotado  em bolsa já que os controlos legais e a transparência obrigatória “limitam a actividade da empresa.”

 

 

Talvez que Glencore entre  em Bolsa para poder aumentar ainda mais a sua dimensão e poder comprar grandes concorrentes em especial a empresa mineira gigante Xstrata. “Eles são agora tão grandes que não podem mesmo crescer mais sem estarem cotados em Bolsa, ,” diz-nos  Hinde que acrescenta que certos  colaboradores da firma querem  que ela entre em  Bolsa porque esperam embolsar milhões vendendo as suas acções nos próximos anos.

 

 

A insegurança alimentar

 

 

Sem se estarem a preocupar com as motivações da firma, os investidores institucionais dos EUA, do leste da Ásia e do Médio Oriente todos estão  decididos a  comprar acções.

 

 

Aabar, o fundo soberano dos Emiratos Árabes Unidos controlado pelas monarquias petrolíferas de  Abu Dhabi tornar-se-ia assim o mais importante “investidor de base” (em Inglês cornerstone) gastando cerca de um milhar de milhões de dólares  em acções.

 

“Parece que os  Emiratos Árabes Unidos ao comprarem  estas acções  esperam reforçar o seu controlo no mercado mundial dos cereais para a sua própria segurança,” diz Kuyek “dada a ausência de uma verdadeira política internacional -  com exclusão das  mesmas   incitações ao livre mercado e à  liberalização comercial.  

 

De acordo com ele “os países a quem  falta a  segurança alimentar como é o caso dos  países do Golfo, da Ásia do norte, da Coreia e de outras regiões  tentam controlar mais directamente a questão alimentar  porque a economia de mercado “não pode garantir preços decentes.”

 

 

"Ali, na sua cabana  na Indonésia, Lia Romi não acompanhou  as  peripécias da entrada em Bolsa de Glencore. É inquieta porque não sabe como alimentar os seus  três filhos.“

 

 

“Devo frequentemente renunciar a comprar livros e roupas à minha filha e ao meu filho  para poder  comprar bens alimentares  porque não tenho nenhumas  economias” diz.

 

 

É pouco provável que os directores de Glencore que se preparam para embolsar milhões apostam sobre o futuro de Romi cujas flutuações do mercado mundial poderia causar a sua perda bem como a dos membros da sua família. “A estabilidade tem um grande valor ” disse  David Green da Oxfam. Mas é a última coisa que pode querer  quer Glencore, porque a instabilidade traz muito mais dinheiro aos que estão  no segredo dos Deus e têm as informações necessárias para saber explorar a instabilidade.  

 

Chris Arsenaul

 



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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
Ainda A propósito de uma sessão de cinema-3ª Parte. Glencore aproveita-se da fome e do caos - Chris Arsenault - 1. Por Júlio Marques Mota

 

Na sequência de um filme que fui convidado a comentar e da dureza das imagens sobre a vida e sobre o trabalho neste nosso século XXI que nos foi dado ver, na sequência de um debate que se  seguiu,  e porque não dizê-lo, na sequência também de muitas interrogações dos estudantes sobre o que foi visto, sobre o que foi dito e não dito, na sequência de  perguntas muito sérias que foram postas e cujas respostas ficaram no ar,  apenas,  aqui vos deixo alguns textos complementares e a serem lidos na seguinte sequência:  

  1. A CRISE FINANCEIRA ACTUAL TEM O ESTRANHO PERFUME DOS ANOS 30, já apresentado.
  2. O ESTRANHO MUNDO DAS MATÉRIAS-PRIMAS

A)    Glencore aproveita-se  da fome e do caos - Chris Arsenault

 

B)    Uma aposta sobre o trigo, sobre a fome - Financial Times.

 

C)    Um olhar sobre o mundo das matérias-primas - Reuteurs

 

A)    Glencore aproveita-se  da fome e do caos


Chris Arsenault


A maior multinacional sobre  matérias-primas do mundo procede à um aumento de  capital e os observadores críticos dizem que a firma é responsável pelo aumento do preço dos bens alimentares.


A subida rápida dos preços dos bens  alimentares, o petróleo e as matérias-primas foi desastrosa para os pobres do mundo inteiro como Lia  Romi que é vendedor num mercado da Indonésia. Mas é um presente  para as multinacionais como Glencore.


Enquanto que  Romi tem dificuldade em  alimentar a sua família, Glencore- o maior  negociante de diversas matérias primas do mundo projecta vender cerca de  mil milhões de dólares em  acções, o que corresponde sem dúvida à oferta de partida mais elevada que alguma vez tenha sido  registado na  Bolsa de Londres.

 

“O preço dos bens  alimentares  de que  temos necessidade diariamente duplicou no decorrer destes  dois últimos anos,” disse-nos  Lia  Romi através de um intérprete. “Os bens  alimentares absorvem  100% do rendimento diário da família [que é  cerca de 3 dólares]. Não posso economizar nada e devo [dinheiro] aos que me fornecem os produtos  que eu vendo [na minha pequena banca no mercado].


Enquanto que Lia Romi e milhões como ela se preocupam com o que vão dar comer à sua família, a oferta pública inicial deste especulador  gigante de matérias primas vai criar pelo menos quatro multimilionários, dúzias de milionários  que possuem mais de 100 milhões de dólares e várias centenas de milionários à moda antiga. O seu Director‑Geral Ivan Glasenberg vai ganhar mais de 9 mil milhões nesta venda de acções. A especulação sobre os bens  alimentares constituiu uma parte importante da sua riqueza.


O controlo dos preços

 

 

A empresa  Glencore, que está  avaliada em cerca de  60 mil milhões de dólares controla 50% do mercado mundial de cobre, 60% do do zinco, 38% do alumínio, 28% do carvão para o aquecimento, 45% do chumbo e quase o trigo mundial de acordo com informações fornecidas pela firma antes da venda das acções. Controla também um quarto do mercado mundial de cevada, das sementes de girassol e de colza.

 

“É uma das raras firmas que determina  os preços a vigorar em vez de a eles se sujeitar,” diz Chris Hinde, director de redacção da revista Mining Jornal. Eles são os corretores do mercado das matérias-primas [e operam] num mundo relativamente secreto. São verdadeiramente eles que fixam o preço das matérias-primas vitais, “disse‑nos.


A multinacional emprega cerca de 57.000 pessoas, gerou um volume de negócios de 145 mil milhões de dólares no ano passado e tem activos de um valor superior a 79 mil milhões. O serviço de comunicação de Glencore recusou responder às nossas perguntas.


Baseada em  Baar na Suíça, onde a regulação é mínima, a companhia tem interesses que se estendem de maneira tentacular sobre  as minas de estanho da Bolívia, sobre o petróleo da Angola, sobre os produtores de zinco do Cazaquistão, sobre as minas de cobre da Zâmbia e ainda sobre as operações com o  trigo russo.


“A integração vertical de Glencore não tem precedentes” diz Devlin Kuyek, um investigador de GRAIN  uma organização internacional sem fins lucrativos que se ocupa da segurança alimentar.


“Glencore possui quase 300.000 hectares de solo arável e é um dos maiores  proprietários de solo arável do mundo. Especulam sobre o comércio de cereais e têm um poder imenso no mercado, “ disseram-nos.


Os preços dos bens  alimentares  do planeta subiram dramaticamente nestes últimos tempos ao nível de 2008, época na qual se  tinham  desencadeado as revoltas da fome em certos lugares do Médio Oriente, da África e as Caraíbas.


“Uma parte inquietante do aumento dos preços é, e disso tenho medo, a consequência da especulação” disse-nos Marcus Miller, um professor de Economia internacional da  universidade de Warwick. “As apostas [sobre o aumento ou a baixa dos preços] podem facilmente ser realizadas se o interveniente no mercado  é um grande operador para ter uma influência no mercado.”


Em Março de 2001, o índice dos bens alimentares  do Banco Mundial era de 36% superior ao ano precedente embora os preços das matérias-primas tenham fortemente descido nas semanas precedentes.


Certos analistas crêem que os aumentos de preços são a consequência do aumento da população mundial, nomeadamente das classes médias, sobretudo na China e na Índia onde se come e mais carne,  o que provoca o aumento dos preços do milho e dos outros produtos destinados à alimentação dos animais.


Duncan Green, o director das investigações do organismo de desenvolvimento Oxfam na Inglaterra diz que os mercados internacionais de bens alimentares  e outras matérias‑primas  podem ser comparados com a forma de uma rolha de champanhe. “Há muitas pessoas que produzem e muitas pessoas  que consomem mas há um ponto de passagem estreito no meio que é controlado pelas multinacionais que embolsam a mais‑valia gerada,” dizem-nos na Oxfam. “A maior parte dos pobres do mundo é - estranhamente o conjunto daqueles  que semeiam e fazem crescer os bens alimentares .


Em 2010 o banco de investimento Goldman Sachs assinalou que iria haver “violentos aumentos de preços ” no mercado das matérias- primas. As suas previsões revelaram-se aproximadamente  exactas.


(Continua)



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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
A propósito de uma sessão de cinema - 2. Por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

De um comunicado de Agosto de 2011 pode-se ler : A AMF decidiu "proibir toda e qualquer posição especulativa, as posições  curtas, para todos os  agentes estabelecidos ou residentes  em França ou no estrangeiro sobre os títulos de capital ou dando acesso ao capital dos estabelecimentos  de crédito e das companhias de seguros da lista seguinte :  April, AXABNP ParibasCICCNPCrédit AgricoleEuler HermèsNatixis, (PartnerRe), Scor e Société Générale. Na Bélgica medidas semelhantes aplicavam-se na protecção às instituições como  Ageas, Dexia, KBC et KBC Ancora.Na Espanha as medidas tinham a ver com a protecção dada à  Banca Cívica, BBVA, Sabadell, Banco de Valencia, Banco Español de Crédito, Banco Pastor, Banco Popular Español, Banco Santander, Bankia, Bankinter, Caixabank, Caja de Ahorros del Mediterrâneo, Grupo Catalana de Occidente, Mapfre, Bolsas y Mercados Españoles et Renta 4 Servicios de Inversion. E podíamos continuar, porque a lista seria longa…embora fosse bom questionar sobretudo a razão de ser desta fragilidade e em tão grande extensão.

 

Esta medida foi decidida a 12 de Agosto e foi prolongada uma primeira vez no final de Setembro.

 

Mais recentemente podemos ler :

 

Pelo Ministro da Economia Finanças e Indústria, decisão tomada a 9 de Novembro de 2011.

 

Art. 1


É  prorrogada por um período que não pode exceder três meses a decisão do colégio da Autoridade dos mercados financeiros de 25 de Agosto de interditar toda e qualquer posição curta líquida ou todo o acréscimo de uma tal posição existente e por esta proibição compreendendo-se  também ao longo do dia por toda a pessoa estabelecida ou residente em França ou no estrangeiro sobre os títulos de capital ou dando acesso ao capital dos estabelecimentos de crédito ou de empresas de seguros  cuja lista se apresenta em anexo.

 

Art. 2. − O presente decreto entra em vigor a 11 de Novembro de 2011.


Anexo :

 

Lista dos Estabelecimentos de Crédito e das Companhias de Seguros mencionadas em 1. April Group; AXA; BNP Paribas; CIC ; CNP Assurances ; Crédit agricole ; Euler Hermes ; Natixis ; SCOR, Société générale.


Também agora, em Novembro, a Autoridade da Bolsa na Itália, a Consob, anunciou nesta sexta feira, 18 de Novembro, a prorrogação da interdição da venda a descoberto de valores financeiros até 15 de Janeiro de 2012 afim de contrariar a especulação e de limitar a volatilidade nos mercados, proibição a incidir sobre mais de uma dezena de insituições financeiras.


E aqui é como em tudo, logo que a proibição acabe a especulação regressa e regressa com mais força. Mas proibi-la impossível, porque vivemos num quadro instituicional onde o risco criado é um  elemento da dinâmica do sistema porque um excepcional “revelador” dos preços correctos e onde a protecção ao risco é á válvula de segurança do  sistema! Proibí-la, nunca porque isso seria considerar que os mercados podem não ser eficientes!  E a especulação continuou a ser admitida.  Foi assim neste final de Verão e o banco Dexia caiu. O resto foi amparado mais ainda na sexta feira um dos bancos visados em Setembro esteve em forte risco. Depois o Parlamento europeu aparece agora a proibir a especulação a descoberto para final de 2012. Possivelmente à espera que a Europa caia primeiro e por inteiro em frente ao altar dos mercados. Mas mesmo assim, depois de Novembro de 2012 ainda têm a coragem de deixar a porta aberta aos mesmos mercados, aos mesmos mecanismos quando no Parlamento Europeu se determina nesse mesmo texto e conforme noticia o Jornal Público : “Além disso, aos primeiros sinais de que o mercado da dívida soberana não esteja a funcionar convenientemente, a autoridade reguladora nacional passará a poder suspender temporariamente (12 meses, no máximo) essa restrição, com base em “elementos objectivos”, como uma taxa de juro da dívida elevada ou crescimento, o alargamento do spread da taxa de juro daquele país em relação a outros, etc.” É pois tubo bem claro, a União Europeia mantém-se fiel a si-mesma e mantém-se fiel a quem pelos vistos quer prestar juramento de bem servir, ou seja aos mercados de capitais e não aos povos que os elegeram. Veja-se, se dúvidas há, qual foi o comportamento dos nossos dirigentes europeus na última reunião do G 20 quanto à hipótese de referendo na Grécia. Desta forma todos eles sem excepção se mantêm fieis à sua estrutura institucional da União Europeia que a torna incapaz de qualquer reacção a contrariar os maus ventos que por esta Europa sopram e que gerados por um modelo neoliberal de que ela na sua própria estrutura é um bom exemplar do que se entende por economia global . Daí que à pergunta que me foi feita por dois estudantes de quem seria a culpa de tudo isto, ela é sobretudo da responsabilidade dos nossos líderes políticos tomados quer singularmente quer colectivamente, e dizemos sobretudo destes, porque estes herdaram uma situação terrível derivada de um modelo global e de uma estrutura europeia que tudo isto gerou  mas  que em vez de quererem perceber as razões subjacentes à crise e em vez de quererem perceber os mecanismos pelos quais esta se tem  vindo a estender e a aprofundar para a poderem bem enfrentar, não, em vez disso, preferem antes afundar os seus próprios países na tentativa absurda de quererem salvaguardar o modelo institucional que está na base de tudo isto e as grandes fortunas que com este modelo e esta crise bem se alimentaram. Veja-se a protecção à Banca em qualquer dos países europeus. E é nessa dança que temos vindo a ver os partidos ditos de esquerda a capitularem uns a seguir aos outros face às exigências supostas dos mercados financeiros, é nesta dança que se percebe a posição dos Indignados quando insatisfeitos dizem que neste sistema, nesta lógica de não Democracia só lhes dão a escolher entre o mal e o pior,  sem que muitas vezes se possa distinguir o que é mal e o que é que é o pior. 


 

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publicado por João Machado às 13:30
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Domingo, 13 de Novembro de 2011
Manipulação - III, por Júlio Marques Mota

(Conclusão)

 

Vamos agora apresentar alguns exemplos destas operações no século XIX.

 

1.1  A manipulação de John Lyon  em 1872


A  6 de Outubro de 1871 deu-se um incêndio espectacular - conhecido como “the Chicago Great Fire " que devastou uma grande parte da cidade e que destruiu  designadamente o edifício  e os arquivos do CBOT e 6 dos dezassete silos que aí estavam situados . Considera-se que a capacidade de armazenamento se reduziu assim  de    cerca   de 8.000.000 de alqueires para  cerca de 5.500.000 alqueires. Isto incentivou John Lyon, um importante comerciante de cereais, a  lançar um ataque especulativo, um corner, na segunda metade de 1872. Associou-se com Hugh Maher, um comerciante  de madeiras que se tornou  comerciante  de cereais e depois  um importante agente imobiliário e com F.J. Diamond, um mais importantes corretores  do CBOT cuja lista dos clientes compreendia nomeadamente Munn &; Scott, uma mais maiores  empresas de armazenamento de trigo em  Chicago.


Na Primavera de 1972 começaram a comprar  simultaneamente trigo no mercado dito físico, secando este mercado e ocupando os silos   e a comprarem  contratos com prazo de conclusão em  Agosto. Em Julho o preço do trigo  atinge $1.16 - 1.18 para terminar no fim do mês a  $1.35. Este aumento dos preços provoca chegadas maciças de trigo da colheita de1871 a  Chicago. Se estes excedentes não existissem o trigo necessariamente continuaria a subir. Ascendiam, habitualmente, em cerca de  15.000 alqueires por dia. A partir de 15 de Julho atingiam 20.000  e depois,  durante a última semana do mês de Julho, cerca de  25.000 alqueires por dia para se  chegar aos  27.000 no  início de Agosto.


Neste momento, a 5 de Agosto, um  outro silo - Iowa Elevator - é destruído pelo  incêndio. A propriedade deste silo era objecto de conflito jurídicos que implicava Hugh Maher. Esta destruição ainda limitou mais a capacidade de armazenamento em Chicago. Ao mesmo tempo as más condições atmosféricas suscitaram rumores segundo os quais a colheita de 1872 seria retardada para além do mês de Agosto. Isto provoca um forte aumento  dos preços ao mesmo tempo no mercado físico e no mercado a prazo onde certos vendedores dos contratos tentam sair das suas posições, antes que os preços subissem mais e, por esta razão, procuravam neutralizar as suas posições anteriores, querendo comprar agora contratos, como o nosso aldrabão que chega ao CBOT a dizer que está  a chover para fazer descer os preços. Mas aqui não descem, vão continuar a subir e trata-se de quererem comprar para minimizar as perdas. Acontece aqui o mesmo que aconteceu com os títulos da Volkswagen. No caso desta empresa (2009) os vendedores a descoberto descobriram que em vez de descerem os títulos da Wolkswagen subiam vertiginosamente, passam do de 200 euros a mais de mil!  Neste contexto em que nós estamos, o do trigo no século XIX, o preço atinge $1.50 a  10 de Agosto e os $1.61 a 15 de Agosto, o que constitui o pico deste acontecimento.


Este aumento dos preços acelerou as colheitas nas regiões tributárias de Chicago (os rumores revelaram-se exagerados). Os agricultores querendo aproveitar-se do nível excepcional dos preços aumentaram consideravelmente o ritmo das colheitas.  Ferris [3] refere-se aos  comboios que se  encaminhavam  para as regiões de produção cheios de  lanternas a fim de poderem iluminar os campos para assim se poder ceifar  mesmo durante a noite. No regresso transportavam para Chicago quantidades de trigo cada vez mais importantes.


Estas chegadas eram muito mais importantes do que o que esperava Lyon  e os seus amigos ao lançarem o ataque especulativo, o  corner, obrigando‑os   a comprar todo o trigo que aparecia, para que o seu preço não descesse. Esgotaram-se os recursos financeiros do grupo,  obrigando-os a  procurarem  o apoio dos bancos da praça de Chicago.


Durante a maior parte do dia 19 de Agosto,  Lyon continuava a fazer as suas aquisições de trigo  mas deixou de o fazer  quando soube que os bancos lhes recusaram  empréstimos suplementares. Naquela data  os preços desceram de 25 cêntimos para atingir os níveis de $1.27. Na manhã seguinte ao anúncio do malogro do corner os preços ainda  cairam mais 17 cêntimos.


Isto conduziu à falência dos iniciadores do corner. J. Lyon ficou na ruína , P.J. Diamond destruiu as suas contas e desapareceu enquanto que Munn & Scott foram declarados em falência e obrigados a venderem os seus silos.

Durante a segunda semana de Agosto as chegadas de trigo ascendiam a 75.000 alqueires por dia para atingir os níveis de 172.000 a19 de Agosto. Esperava-se  que as chegadas diárias até ao fim do mês de Agosto sejam de 175.000 a 200 000 alqueires por dia. Observou-se igualmente a inversão dos canais comerciais habituais. Com efeito o trigo era encaminhado das planícies  de Mid-West em Chicago para redireccionarem  por Búfalo para as grandes cidades da costa Leste. Os preços em  Búfalo eram habitualmente mais elevados que os preços de Chicago. Mas nesse momento  o preço em Chicago era suficientemente superior ao de Búfalo de modo que o trigo que já era expedido para  Búfalo era reenviado  de  voltado para  Chicago.


Quem eram os compradores deste trigo? De facto, para poder levar a bom fim o corner os manipuladores eram  obrigados a  manter os preços elevados e a controlar o trigo armazenado nos silos. É esta é a única condição para que pudessem pedir um preço extremamente elevado na data de execução dos contratos a prazo que estes tinham acumulado. É pois  J. Lyon que era obrigado a assumir-se  comprador destas novas chegadas.


É igualmente nesse momento  que os silos que foram destruídos durante o incêndio do ano anterior  foram restaurados, modernizados e aumentados. Por conseguinte a capacidade de armazenamento da praça comercial  de Chicago aumentou de 2.000.000 alqueires em relação à situação de antes de “ O Grande Fogo ".


Estas chegadas eram muito mais importantes do que o que esperava Lyon e os seus amigos ao lançarem o ataque especulativo, o corner. Esgotaram-se os recursos financeiros do grupo o que os  obrigava  a  procurarem  o apoio dos bancos da praça de Chicago.


Uma história elucidativa da ganância  dos homens, da lógica dos mercados não regulados como os de agora, que não se tornou colectivamente trágica porque havia bons excedentes, porque os Deuses  também ajudaram com uma boa colheita desse ano, e se assim não fosse como em 2008 haveria possivelmente corpos  destruídos pela fome que outra história nos contariam  mais tarde.


Da Volkswagen, da fortuna que o corner operado pela família Porsche terá ou não realizado, dos milhões que ganhava por minuto nesse ano  de 2008, falaremos numa outra crónica sobre este mundo estranho da alta finança.


E boa leitura.

 

Júlio Marques Mota 



publicado por João Machado às 22:00
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Sábado, 12 de Novembro de 2011
Manipulação - II, por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

A pretexto de um outro texto sobre a  manipulação dos mercados a prazo das matérias primas  no século XIX, de Wojtek Sikorzewski.

 

Com este artigo tem-se por objectivo analisar as operações de manipulação dos mercados a prazo ditas  “corners”.  Concentramo-nos nos inícios do primeiro mercado à prazo organizado da era moderna - o de Chicago Board of  Trade (CBOT) na segunda metade do  século  XIX. Apresentamos aqui  um ataque especulativo, um corner, que não foi bem sucedido, como o de J. Lyon  em 1872..

 

Os Inícios


As transacções das mercadorias a prazo são  conhecidas desde a antiguidade. Já certos artigos do código de Hammurabi mencionam mecanismos que se podem  aproximar dos mercados modernos sobre  opções. Na  era moderna assistiu-se ao  desenvolvimento dos contratos a prazo sobre o arroz no Japão em Osaka  no século XVII. .

Os mercados a prazo contemporâneos têm as suas origens nos Estados Unidos nos anos 1840. Os contratos que tenham a ver  essencialmente sobre o trigo eram negociados sobre o Chicago Board of  Trade (CBOT). No entanto é somente durante a Guerra Civil nos Estados Unidos que ficaram preponderantes destronando as transacções no mercado à vista, dito também mercado a contado ou ainda mercado físico. Foram oficialmente reconhecidos pelo CBOT em Outubro de 1865, data em que entrou em funcionamento o primeiro conjunto de regras destes mercados.


Os contratos a prazo, os contratos de futuros[1], sobre  mercadorias representam o  compromisso de poder entregar ou  de poder receber uma  certa quantidade de mercadorias  normalizadas  a  um certo preço num lugar fixado pelo contrato. Com a venda de um contrato o vendedor está a posicionar-se a vender trigo na data de entrega do contrato, tem uma posição curta no mercado do trigo,  e se está a comprar contratos significa que na data de execução, tem uma posição longa sobre o trigo,  estará a querer comprar trigo, por exemplo.


O recurso aos  mercados a prazo permite a  diferentes operadores cobrirem as suas posições tomadas  no mercado físico, através de uma operação no sentido inverso realizada no  mercado  de futuros, no mercado de papel . Assim um agricultor pode garantir-se, vendendo contratos à prazo, fixar pois um preço para as mercadorias que vai colher no  futuro, encontrando sempre um mercado para os produtosem questão. A contrapartida das suas vendas ou  seja, os compradores destas ofertas de trigo que ainda não existe  é  habitualmente  assegurada pelos especuladores  que, eles, funcionam em termos das suas expectativas quanto ao futuro. Não necessariamente assegurada pelos especuladores, mas em regra assim poderemos considerar.

 

Vejamos com algum detalhe a seguinte afirmação: nestes mercados, considera-se que não se está perante especulação quando cada operador actua nos mercados de futuros sobre matérias primas somente  para cobrir uma operação em sentido inverso feita no mercado físico. Duas operações em sentido contrário, e que desta forma garantem que cada agente  está nos dois mercados para se proteger da flutuação dos preços e não para ganhar com estas flutuações, o que iremos  explicar a seguir.

 

Admita-se um industrial de moagem que adquire um milhão de alqueires para lhe serem entregues  em Julho no mercado a prazo  dos  produtos físicos  a 5 dólares o alqueire de trigo, por exemplo. Comprados a este preço terá ele medo da sua subida? Não, tem é medo da sua descida e vejamos a razão.  Mas  o preço do trigo pode flutuar e ele industrial de moagem pode vir a ficar numa situação difícil face aos seus concorrentes, se o trigo descer e os seus concorrentes comprarem no mercado físico o trigo a preço mais baixo. Tudo depende pois da variação dos preços e é contra estas variações na subida   que se vai proteger no mercado de futuros, no mercado dos contratos, no mercado de ”papel”, fazendo a operação inversa à que fez no mercado físico e por isso vai vender no mercado de “futuros” contratos fixando aí o preço. Comprou no mercado físico, vende no mercado de papel, nos futuros. Imaginemos que o trigo em Julho, porque as colheitas foram muito boas, desce para 3 dólares e meio o alqueire. O nosso industrial  teria assim comprado mais caro e ficaria batido pela concorrência  se quisesse aplicar  ou repercutir nos seus produtos o preço elevado a que comprou o trigo.  Não o faz e poderá, no máximo, baixar  a sua margem de lucro e esta margem  poderia até mesmo desaparecer. Mais   ainda,   num quadro fortemente concorrencial este empresário ficaria sujeito a ataques poderosos dos seus concorrentes  e poderia ele mesmo desaparecer. Mas o nosso industrial avisado, foi ao mercado de futuros e em Janeiro vendeu contratos a 5 dólares  o alqueire. Na data de entrega, em Julho,  os contratos valem  o que vale o trigo no mercado  á vista, ou seja, 3,5 dólares pois  caso assim não fosse haveria deslocações de um mercado para outro até o preço ficar igual.  O industrial neutraliza a operação de venda anterior o que faz pela  compra agora, no dia, de  contratos a 3,5 para anular a venda e recebe a diferença de valores por  alqueire. A câmara de compensação faz as contas e paga-lhe apenas a diferença entre a venda e a compra dos contratos: um milhão de alqueires vezes (5-3,5) dólares, ou seja 1 milhão e  500 mil dólares. E o industrial protege-se  contra a baixa do trigo que é o que ele teme. Vejam-se as operações:


Em Janeiro compra no mercado à vista, dito mercado spot e armazena-o, carregando com os custos de armazenagem  e no mercado a prazo vende contratos de trigo. Simetria de operações nos dois mercados.


 

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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
Manipulação - I, por Júlio Marques Mota

Sobre a fome como produto dos mercados, um olhar para a História de ontem e de hoje, também[1].


Depois de termos falado de Tales de Mileto ou de uma história inventada como são todas as histórias, e inventada à volta dos mercados a prazo, mercados físicos ou alternativamente  os mercados de papel, os futuros, eis-nos com uma história  não imaginada, em que se alguma coisa há  a  imaginar , é então sobre a leitura que dela se pode depois falar. 


Uma história verdadeira, portanto, de ontem já muitas vezes contada e agora revisitada para melhor compreendermos os  maus tempos que por nós agora correm ou em que por eles nós andamos a correr, talvez.

 

É uma história terrível, não muito diferente das que acontecem agora e que aconteceram em 2008 com os preços dos produtos alimentares a subirem nas bolsas de mercadorias por efeitos da especulação e com esses títulos a serem vendidos a todos nós como títulos de alta rentabilidade, ditos investimentos em índices de matérias-primas e bens alimentares, medida esta rentabilidade indirectamente pelas mortes de fome provocadas. Antes morrer sob as balas dos oficiais da ONU do que morrer de fome, aqui no Haiti, gritou alguém contra a protecção que ao ditador estaria a ser feita, creio, é desse tempo aqui bem perto, a mais dura das imagens por nós  conservada. Mas isto é o mercado, dizem-nos os neoliberais, estes são eficientes, garantem-nos, estes são eficazes,  confirmam-nos,  tudo isto  pelos índices da Bolsa  bem confirmado, mas da confirmação dos neoliberais temos a realidade de hoje e de qualquer país europeu a ser disso uma clara evidência  da mentira tão bem vendida nas nossas Universidades, e não só.  Perguntem a um aluno da Universidade Nova o que sobre isto aprendeu em Economia, para além da certeza de que o pai, o tio, o avô lhe arranjará garantidamente emprego com o grau de doutor. Trata-se pois de uma história terrível do século XIX mas podia ser de hoje, onde a ganância dos homens fazia lei, a lembrar os nossos mercados de hoje, mas dessa vez bem distante, os deuses decidiram temporariamente estar ao lado dos homens, ajudaram-nos, deram-lhes boas colheitas de trigo e os tubarões dos mercados por força desse destino criado por todos aqueles que de dia e de noite o trigo ceifaram, por todos aqueles que dia e  noite o  trigo para Chicago  transportaram,  os tubarões foram pela força de trabalho colectiva bem esmagados. Imaginem-se milhares de homens a ceifar de noite à luz de lanternas para ganhar a corrida  estabelecida contra todos pela  especulação, possível porque por  esquecimento ou por adesão (?) os Deuses de todas as nossas culturas, de todas as nossas civilizações, deram boas colheitas às gentes daquelas terras e naquela época e com isso a especulação permitiram vencer. Inimaginável, creio eu. 


Mas, muitíssimas vezes, os Deuses também se esquecem de nós, os humanos  e também dos desumanos que deixam sucessivamente à solta de qualquer travão ético, humanos que por cá andamos   às cabeçadas com o que não podemos transformar  e em  que à custa de  não sabermos  desconstruir o discurso neoliberal e as suas práticas estamos nelas sempre a cair.  Exemplo disso é a especulação desenfreada que nem com a crise por ela estimulada para não dizer mesmo por ela criada foi estancada e quanto aos mortos que outrora andou a fazer e a que acima nos referimos o que se sabe é que o mesmo caminho estará de novo  disposta a percorrer sob a alçada dos nossos silêncios, silêncios de   cobardia   ou de ignorância, talvez.  Disto nos dá conta, Esther Vivas  quando escreve :


A ameaça de uma nova crise alimentar  é já uma realidade. O preço dos alimentos começou a subir para níveis recordes  uma vez mais, de acordo com o Índice de Preços da FAO  de Fevereiro de 2011, que faz uma análise mensal dos preços globais de um cabaz de bens básicos  composto de cereais, óleos de sementes, produtos lácteos, carne e açúcar. O índice chegou a um novo máximo histórico, o maior desde que a FAO  começou a estudar a evolução dos preços dos alimentos em 1990. Nos últimos meses, os preços estabilizaram, mas os analistas prevêem ainda mais aumentos  nos próximos meses.


Este aumento do custo dos alimentos, especialmente dos  cereais básicos, tem sérias consequências para os países do sul com baixos rendimentos e com uma  dependência da importação de alimentos, e para milhões de famílias que nesses países  dedicam entre 50 e 60 por cento dos seus rendimentos para a compra de bens alimentares, uma número que sobe para 80 por cento nos países mais pobres. Nesses países, o aumento do preço dos produtos alimentares torna-os inacessíveis.


Estamo-nos a aproximar  de um milhar de milhões de pessoas - uma em cada seis pessoas não tem hoje  acesso a uma  alimentação adequada. O Presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que com a actual crise alimentar tem aumentado o número de pessoas que sofrem de fome crónica calculado esse aumento em cerca de 44 milhões. Em 2009, esse número foi ultrapassado, atingindo 1,023 mil  milhões de pessoas subnutridas no planeta, um número que desceu ligeiramente em 2010, mas sem regressar  aos níveis de antes da crise alimentar e económica de 2008 e 2009.


A crise atual desenrola-se num no contexto de uma abundância de produtos alimentares. A produção de alimentos tem-se multiplicado ao longo das três últimas décadas e desde  os anos sessenta, enquanto  que a população mundial apenas  terá duplicado desde então. Há uma enorme abundância de alimentos. Ao contrário do que instituições internacionais como a FAO, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio têm andado a dizer, não se trata de  um problema de produção, mas sim de um problema de acesso aos alimentos. Estas organizações pretendem que haja um  aumento da produção através de uma nova revolução verde, que só irá tornar as crises alimentares , ecológicas e sociais ainda piores. [2]

 

 

Tomando como análise o índice de preços   até Junho de 2011 temos:


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E quanto à evolução expressa agora em valores temos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não exagerámos como os números e o gráfico de Julho, na verdade, bem nos evidenciam, mas voltemos  à história de que hoje vos queremos falar. De  Tales de Mileto ao Chicago Board of Trade, um olhar curioso também sobre os nossos dias, uma história de violência entre operadores  e desta violência inerente ao capitalismo desregulado, de ontem e de hoje,  reencontramos múltiplas versões na actualidade  como, por exemplo,  uma bem recente na luta dos “donos”  da Porsche sobre a Wolskwagen em que os resultados foram aqui bem diferentes. O multimilionário da Porsche ganhou e por causa dos seus jogos, das suas opções sobre títulos comprados , houve quem tudo perdeu, houve quem se suicidou, o patrão dos medicamentos genéricos na Europa a quem o Financial Times homenageou, considerando-o um homem do seu tempo.  Tratava-se de  Adolf Merckle, quinta fortuna alemã, que neste jogo casino perdeu simplesmente…400 milhões de euros. Mas essa é uma outra história, de que falaremos um dia e até porque   é bem elucidativa dos tempos que correm e nos corroem.

 

Coimbra, 13 de Outubro de 2011

 

 

Júlio Marques Mota

 

(Continua)

[1] Agradeço  ao meu colega  e meu antigo aluno Helder Sebastião a leitura crítica deste texto, assim com as correcções e sugestões que ao mesmo  colocou. Aproveito ainda esta ocasião para publicamente afirmar que gostaria que as Universidade de hoje retomassem uma  das mais nobres funções das de ontem, sejamos claros, das de há alguns atrás; criar capacidades intelectuais,  criar massa crítica. É disso, como agora politicamente se vê bem, que o país muito  precisa e não tem.

[2] Esther Vivas, Americas Updater, Vol.9, No.13, The Food Crisis Strikes Again, disponível em:

CIP Americas Program www.cipamericas.org.

 



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Domingo, 2 de Outubro de 2011
A crise financeira e o poder local - V. Textos sobre a crise e o poder local. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(Conclusão)

 

Os hospitais são igualmente referidos

 

Em FRANÇA, os hospitais, cuja situação financeira é complicada, recorreram maciçamente - em cerca de 3,7 mil milhões de euros - aos empréstimos estruturados junto do banco Dexia. De acordo com um documento confidencial, 313 estabelecimentos hospitalares , dos  qual 290 hospitais, contraíram empréstimos de cerca de  1,2 mil milhões de euros sob a forma de créditos “dinâmicos” ligados à evolução de  divisas estrangeiras.


O centro hospitalar de Ajaccio, acumulava, no final de  2009, 22 milhões de euros de créditos estruturados junto de Dexia e deveria pagar  6,8 milhões de euros se quisesse desfazer-se deste tipo de empréstimo . Em Março, este  estabelecimento apresentou  um procedimento cautelar o contra Dexia, rapidamente  retirado a pedido do Ministério da Saúde para tentar uma mediação… “O assunto é tão sensível” que o seu director não deseja responder ao jornalista do Le Monde.


Em Lyon, os Hospícios Civis contavam, no final de  2009, 195 milhões de euros de dívida de grande  risco, com um  custo de saída de 22 milhões; o Centro Inter-hospitalar  de Juvisy (Essonne), 13 milhões de euros apenas, mas com  um custo de saída eventual de 5,6 milhões, ou seja 43% da dívida… Em  Dijon, as finanças do Centro hospitalar universitário, na  mesma data,  estavam afundados numa  dívida, contratada junto de Dexia, de 116 milhões de euros de empréstimos estruturados,  com um  custo de saída de 31 milhões (27%), enquanto o Centro hospitalar de Marselha suportava uma dívida de  risco no montante de 122 milhões de euros, com um custo de liquidação negativo de 27 milhões.

  1. A.    Mi. e I.R.-L.

 

 

 

O conselho geral de Seine-Saint-Denis decidiu levar à Justiça  a partir de quarta-feira 9 de Fevereiro três bancos com os quais contraiu  empréstimos ditos tóxicos, anunciou o seu presidente Claude Bartolone (PS), que pretende anular estes tipos de contratos.


“Há o tempo da diplomacia, e aí tudo tentei , e há o tempo de  guerra", indica Claude Bartolone, igualmente deputado. “Hoje, um oficial de diligências  vai acusar Depfa, amanhã, será a vez de Calyon  e,  depois, será a vez de  Dexia" para um problema com cinco contratos, prossegue, afirmando ser o primeiro eleito a fazer tal diligência.


Tem por objectivo fazer “anular os contratos " passados entre estes bancos e o conselho geral, de 1997 até à sua eleição em 2008, quando o departamento era presidido por comunistas.


952,7 MILHÕES de EUROS de DÍVIDA PARA SEINE-SAINT-DENIS


A 1 de  Janeiro, a dívida de  Seine-Saint-Denis ascendia a  952,7 milhões de euros, dos quais 71,7% de empréstimos estruturados, ditos tóxicos. Uma percentagem em baixa, de acordo com Claude Bartolone, dado que ascendia a  92,96% em 2008. O departamento  Seine-Saint-Denis subscreveu 63 empréstimos tóxicos.


“Somos os campeões no que se refere à percentagem de produtos tóxicos, ainda que se dê  conta que estes empréstimos tóxicos existem por toda a parte ", lamentou o presidente do conselho geral.

 

Produtos financeiros tóxicos foram vendidos à numerosas autarquias locais. Estes têm as taxas   ligadas a  índices altamente voláteis, que podem provocar fortes aumentos das taxas de juro pagas pelas colectividades. O custo adicional para  Seine-Saint-Denis deveria ser em média de 23 para 28 milhões de euros por ano até em 2036, afirma Bartolone.


Uma TAXA DE JURO QUE PASSA DE 1,47% PARA 24,20%


“Os bancos não satisfizeram a obrigação de terem que avisar contra os perigos existentes quando se trata de estar  no domínio das operações especulativas ", considerou. “Tenho um empréstimo de 10 milhões de euros com o banco de origem irlandesa e alemã Depfa, pelo qual a taxa de juro é calculada em função da paridade euro/franco suíço ", explicou o eleito.

 

“A taxa inicial, durante três anos, era de 1,47% e a taxa actual é de 24,20%, o que representa um custo adicional de 1,5 milhão de euros por ano, seja quase o custo de um infantário ", prosseguiu. Numa entrevista ao Parisien-Aujourd' hui en France , o eleito, que considera que os bancos o  “trataram  com o  maior desprezo ", pede à justiça que obrigue a transferir o montante de juros  ilegítimos que o departamento pagou.


Além disso, o grupo socialista da Assembleia nacional anunciou a 1 de Fevereiro ter formado   um grupo de trabalho para criar uma estrutura encarregada de gerir e de  proteger os empréstimos tóxicos subscritos pelas autarquias locais. Será animado por Claude Bartolone.



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Sábado, 1 de Outubro de 2011
A crise financeira e o poder local - IV. Textos sobre a crise e o poder local. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

As colectividades locais apanhadas na ratoeira dos  créditos arriscados

 

Le Monde  16.06.10

 

O  custo de saída dos empréstimos estruturados[1] subscritos junto do banco  Dexia é calculado em  4 mil milhões de euros.

 

Postos perante extremas dificuldades na questão  dos créditos especulativos vendidos às cidades, aos departamentos e às regiões nos anos 2000 - trata-se de empréstimos cuja taxa varia em função de parâmetros financeiros complexos - o banco Dexia esforça-se, desde há vários meses, a tentar garantias de  transparência. Mas nesta diligência incentivada pelo governo, o grupo dirigido por  Pierre  Mariani, que foi director de gabinete de Nicolas Sarkozy para o orçamento, em 1993, recusa-se  a fornecer números precisos.


O único dado comunicado  incide sobre o montante destes créditos ditos “estruturados”, em  31 de Dezembro de 2009: quase 26 mil milhões de euros, sobre um valor de empréstimos em causa  ao sector público local no valor de 72 mil milhões. Não se diz nada sobre a natureza dos riscos incorridos pelas autarquias. Nada sobre o preço pedido por Dexia aos organismos do poder local que desejem sair destes créditos, para os transformarem  em empréstimos clássicos, a  taxa fixa ou variável, e suprimir assim o risco sobre as finanças públicas.


De acordo com as nossas informações,  assentes em  documentos confidenciais, sobre estes 26 mil milhões de euros de créditos estruturados, 10,5 mil milhões são produtos classificados  como “dinâmicos” por Dexia. Apresentam um forte risco de encarecimento das taxas de juro. Sobre estes 10,5 mil milhões, 6 mil milhões são pura e simplesmente explosivos. A sua taxa evolui de acordo com as cotações das  divisas, de  parâmetros muito voláteis e incontroláveis. A concessão de  tais empréstimos é agora  proibida, como o recomendou   o inspector das finanças Eric Gissler, encarregado de missão sobre o assunto pelo primeiro ministro François  Fillon.


Um crédito estruturado comporta um primeiro período protegido de dois a cinco anos, em que a taxa de juro é baixa. Permite ao tomador do empréstimo  reduzir as  suas despesas financeiras. Mas, depois , a taxa torna-se variável e acompanha  a inflação, as cotações das  divisas estrangeiras (franco suíço, dólar, libra, iene), ou até  o preço da electricidade ou  as diferenças  entre diversas taxas directoras, de longo ou de curto prazo, em Londres ou Nova Iorque.


Diariamente,  pode ser  calculado  “um valor de  liquidação” do crédito, ou seja, a penalização de saída do tipo de empréstimo até aí em vigor . De acordo com as nossas informações, a 31 de Dezembro de 2009, sobre os 26 mil milhões de euros de créditos Dexia, este valor de liquidação  era negativo de 4 mil milhões. Por outras palavras, estes 4 mil milhões são o preço a pagar pelo conjunto das colectividades ao banco  Dexia, se desejam  então desembaraçarem‑se  destes créditos especulativos.


Esta soma (16% do capital emprestado) é contestada por Dexia. O banco evoca avaliações “sensivelmente diferentes”, mas recusa revelá-las. E isto, enquanto que estes são os valores que  comunicou a  todos os seus clientes como estes  no-lo confirmaram.


Na realidade, estas divergências de avaliação residem na consideração sobre um perímetro de créditos diferentes. Certos empréstimos estão   na  fronteira entre produtos “clássicos” e produtos  “estruturados”. O separador entre uns e outros é difícil de  colocar. Resultam daí diferenças,  tanto na  alta  como na baixa, situação  que   testemunham estes casos onde os documentos confidenciais indicam custos frequentemente inferiores aos comunicados  por Dexia aos seus clientes: Châtillon (10,8 milhões de euros para nós, contra 14,8 milhões para Dexia), Angoulême (12,9 milhões contra 15,2 milhões), Argenteuil (30,6 milhões contra 43,8 milhões) etc.


 

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Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
A crise financeira e o poder local - III. Por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

Vejamos então, insisti eu. E continuei a ler-lhe um documento que de modo imaterial às mãos me chegou e com muita dificuldade mesmo  na minha  imaginação  se encaixou e por aqui ficou, por estas vias de um saber que se não tem e que se deseja,  para tudo isto conseguir entender. Diz-‑nos ainda o referido documento:


“Por « carta oficial » de  31 Março 2010, o gabinete de advogados de Deutsche Bank transmitiu ao gabinete de advogados da comuna de Saint-Etienne o aviso de pagamento  que leva a que para o montante dos juros a receber por Deutsche Bank, na base de uma taxa plafond  ou de tecto de acordo com o clausulado  do contrato seja aplicada  uma taxa de  24% correspondendo ao valor máximo  fixado nesse  contrato de swap. O nível do índice observado a 22 Março de 2010 era 1,5960. Assim, sem o limite superior de  24 %, a taxa teria sido 4,30 + (1,97 - 15960) x 10 = 41,70%, [sendo o parâmetro 10 o que falta no texto como acima se referiu].


O montante a pagar ao Deutsche Bank é 1 145 k€ para o período que vai de 4 Janeiro 2010 a 1 de  Abril de 2010.


O montante que a comuna Saint-Etienne deve receber de Deutsche Bank (por efeito do swap de taxas que está indexado  a 4,90 %, de acordo com os termos do contrato)  atinge  234 k€.


Em consequência destes valores  a comuna de Saint-Etienne deve pagar ao  Deutsche Bank, a soma  de 911 k€.

No encerramento da presente instrução, a comuna Saint-Etienne tinha-se  recusado:


- a  receber de Deutsche Bank a soma que este lhe deve  ;

- a pagar a Deutsche Bank a soma que este considera que lhe é devida. “

 

E a acabar esta questão, diz-nos o referido relatório oficial:

 

“Em 31 Dezembro 2009, o custo de rescisão do contrato foi avaliado entre 15 e 17 M€, para um valor de referência  em dívida , o nocional, em  cerca de 22 M€.


A Câmara observa que sobre  os  22 milhões previamente cobertos em condições cada vez mais arriscadas,  um credor, chamado num contexto que continua difícil de precisar , criou uma série de contratos, entre os quais este que comportam cláusulas que forçam a cidade “.

 

João, percebeste agora o que é quer dizer Smart?

 

Claro que percebo. Basta olhar para estes números que aqui e agora citaste. Virei-me para o meu amigo João Machado e questionei: quanto à lógica da fórmula, perguntavas?

 

Não acabei a última sílaba. O meu amigo gritou bem alto, mas isto é roubo, é um roubo puro!

 

João, o mercado hoje não passa de uma enorme espaço de convencimetntos em que deves concordar com o que te querem  convencer, um enorme espaço onde se desencadeiam múltiplos contos do vigários, de quem conta e de quem escuta  e porque estes contos são  aceites não são então contestáveis! A menos que publicamente queiras passar por grande burro mas isto também ninguém quer. O mercado é pois o espaço de legalização destes contos do vigário. Não  é isto que dizem os Indignados de Espanha? Que achas tu que é a crise, se não uma dona Branca à escala planetária? Que achas tu dos nossos Sócrates, dos nossos Passos Coelho, que não  seja, serem eles servidores de segunda classe de outros interesses que nunca são os nossos, um, o primeiro,  mentindo com todos os dentes que tinha, e o segundo, como o lobo mau da história que  com falinhas mansas começou e que agora se  está  a transformar num lobo profundamente cego pelas consequências do que a estragar ainda não acabou?  E que achas tu de todas as autoridades que assistem passivamente a criação de desemprego  em massa , porque aos mercados tudo deve ser pago  nas   condições que estes exigem e não nas condições que cada país pode pagar ? Que me dizes destes políticos que autorizados estão a poderem-te roubar quando deixam as grandes fortunas para os paraísos fiscais voar, paraísos que eles deixaram criar e de que estão encarregados de bem conservar ?  Não será isto a situação típica de uma Dona Branca à escala planetária, por todos permitida? Ou visto de uma outra forma, não representa isto um mundo onde uma muito pequena parte entende o mundo como um enorme espaço para andar, dizem eles,  à caça  às “rolas” que essa caça os outros hão-de depois bem pagar?  Se não é nada disto, o que é então, João?


Devagar, meu amigo, isso são passos de autêntico gigante egoísta como no conto de Oscar Wilde, para onde me pareces querer  enviar. Explica-me lá o que têm as “rolas” , entre aspas de que falas,  a ver com isto.

 

Olhei para o João e lembrei-me, lembrei-me de um conto que alguém com mais imaginação e conhecimentos que eu há-de escrever sobre o mundo das “rolas” de que eles falam, sobre o mundo de Olivier Twist do século XXI. Lembrei-me desse conto ainda por escrever, lembrei-me de alguém que cansado das excitações que o mundo lhe dava com o  dinheiro que de um grande banco de então se dissipava, ao fim-de-semana procurava  descanso na caça às “rolas”, em plena época de defeso em Portugal. Uma roda de amigos convidados, um avião alugado, uma quinta  na Argentina ocupada, com “rolas” pelo ar e por terra, que o dinheiro gasto, esse  todos iremos pagar,  a voarem na vertical em risco de tiro ou esticadas na horizontal, lembrei-me, tudo isso nós pagamos agora. Alguém até agora se interessou pelos voos de dadas companhias de aviação privadas, por esse tipo de voos ocupadas?


Mas voltemos ao contrato do empréstimo que eu quero perceber isto, porque das  “rolas”  já eu sei, e devem andar ainda agora os mesmos   a fazer a mesma coisa  por essa África martirizada, espoliada, saqueada,  diz-me  o João, que insiste em querer saber no plano económico  qual o significado  da fórmula acima, uma vez que o seu objectivo final   já nós o sabemos: obter lucros enormes.


Deixei-me rir, sabia que nada pode ser encarado fora do seu contexto, e disparei-lhe uma pergunta:  e se perguntássemos ao génio que dá por função ser o senhor director da Faculdade de Economia da Universidade Nova de  Lisboa, ou aos seus jovens entre os mais brilhantes génios, os seus melhores alunos da garnde burguesia nascidos,  que terão sempre emprego se para lá forem estudar porque o já têm antes de lá chegar, se lhe perguntássemos o significado de uma taxa de juro  em  geral  e, depois, a partir dessa explicação que nos explicassem então o significado do que agora me pedes para te explicar?  Que achas?


Bem, mas tenho  ainda uma pequena dúvida, retorquiu. Se esta taxa é uma taxa acordada é então uma taxa de mercado, se é uma taxa de mercado, é uma taxa aceite por todos intervenientes, por parte e contraparte, e sendo assim, onde está o roubo a que me referi ainda há pouco? Não há!  Contudo,  o roubo é mesmo bem real!


Os Indignados    espanhóis  respondem-te : mijam-nos  em cima e dizem-nos que está a chover. É esse o discurso dos neoliberais desde que  te deixes por eles  enganar e é o que fazem sucessivamente, é procurar enganar toda a gente. Dúvidas? Houve então a explicação de alguém da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Ouve-os, pensa cuidadosamente no que te dizem, e diz-me então se  o mercado completamente desregulado é ou não, sobretudo, um enorme somatório de contos do vigário, aceites porque construídos livremente por parte e contraparte,  pois é disso que estamos nós os dois aqui a falar.


E o meu amigo João Machado, desse nome ou de um outro qualquer,  neste país vivido e sofrido, ficou a pensar em tudo isto e muito estarrecido nunca mais sobre isto se calou.

 

Aqui vos deixo, com uma sugestão, leiam  a sequência dos textos que se seguem abaixo nos próximos jornais de renome internacional.


Boa leitura então para os textos que se seguem sobre  a crise financeira e o poder local.

 

Júlio Marques Mota

 

(Continua)



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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011
A crise financeira e o poder local - II. Por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

E entretanto fomos vasculhar nos mercados financeiros o que se passa por outros lados quanto a estes mercados e quanto ao poder local. Um primeiro artigo sobre este tema  foi já publicado, um segundo se segue aqui,   e o meu   amigo João Machado , de produtos derivados ignorante,   questionou-me insistemente sobre a lógica das taxas de juro aplicadas aos empréstimos concedidos ao poder local. Lógica das taxas? Lógica ? Questionei eu a seguir.

 

Vejamos uma das taxas sobre um empréstimo contraído pela comuna de Saint Etienne junto do Deutsche Bank :

 

“ 1. O primeiro contrato assinado pela cidade de  Saint-Etienne com o Deutsche Bank é  realmente um contra swap (um swap sobre um outro swap, a cobertura de risco sobre  a cobertura do risco  assumida [1])  sobre uma parte da operação IXIS, acima detalhada, nomeadamente os swaps n " 151 e 152. O valor de referência, o notional, é de  22,839 M€.

 

A câmara sublinha  que a « confirmação » desta operação, feita a 23 Maio de 2007, assinada (mas não datada, cf. p. 6/20) pelo adjunto financeiro delegado por decisão de 25 Maio de 2007, afixado e registado nesta mesma data, emanava de Deutsche Bank AG, Frankfurt, que, na decisão acima referida está domiciliado em  « Winchester House, 1 Great Winchester Street, LONDON ECZN 2DB ».

 

Este texto de 20 páginas é de uma sofisticação extrema. E a partir da abordagem, as noções de « exótico » assinalam-se para uma chamada de  atenção de um leitor não-iniciado.

 

Assim, a decisão retoma (não é nada comum) uma referência utilizada para calcular o índice (estruturado) da segunda fase deste swap, e que  é designada por  “ desempenho acumulado SMART = (Nível fim de período / Nível de aplicação do  swap) - 1”.” SMART é objecto, no parágrafo seguinte, de uma precisão:

 

 “SMART permite antecipar a direcção dos movimentos de tendência a partir do estudo do comportamento da curva das taxas em diversos ciclos económicos e conjunturais. Um processo de sinal inteligente permite instaurar posições dinâmicas que actuam sobre a inclinação ou achatamento da  curva optimizando assim o  timing”,

 

♦ O índice Deutsche Bank SMART tem por objectivo capturar e maximizar o valor que provem da forma da curva, de maneira sistemática, detectando o melhor momento para entrar em posições de  inclinação ou de tendência ou de nivelamento da curva.

 

• O índice põe em prática  uma metodologia estrita que utiliza 3 sinais chave a fim de determinar a estratégia relevante. Estes sinais apoiam-se sobre elementos fundamentais do comportamento da curva das taxas. Trata-se do Ciclo de Taxas do BCE, de Portagem, de Tendência/inércia do mercado.”.

 

O início do texto do anexo Ni   desta confirmação, escrito em maiúsculas (p. o à 20/20) é formulado da seguinte forma: “De 31 de Janeiro de 2007 - Apresentação dos índices SMART de DB embora as informações  integradas no seu cálculo provenham de fontes consideradas fiáveis pelo  promotor do índice, este não procede de forma alguma  à nenhuma  verificação independente destas informações e não pode garantir nem a exactidão nem a exaustividade dos índices quaisquer que eles sejam ou de qualquer dado neles incluído. O promotor do índice declina qualquer responsabilidade (a título de negligência ou outra causa) para com todos  aqueles  que no caso em que um erro se produza   e  não terá em nenhum caso a obrigação de informar quem quer que seja ".

 

E o texto continua:

 

“Este contrato contém elementos que mereciam incontestavelmente que informações muito precisas sejam fornecidas à priori, entre as quais  nomeadamente o fundamento da taxa fixa ainda atractiva proposta de 4,30% ( mas comparar com os 4,07% do precedente empréstimo) durante os dois primeiros anos de vida do contrato.

 

1. Em primeiro lugar, na  página 2 ( o contrato não está organizado classicamente e exposto  em artigos ordenados), a fórmula de cálculo da indexação da segunda fase, que começa a 1  (ou 2) de Janeiro de 2010 e que no entanto é fixada 8 dias antes de 1 de  Abril de 2010, é formulada  da seguinte maneira :

 

4.30% + Máximo [0.00%, 1.9700 - Taxas de Câmbio]

 

Nesta fórmula, “taxa de câmbio” significa a taxa de câmbio GBP/CHF, a quantidade de francos suiços por libra  ou seja, neste caso esta   taxa, sobre a qual se compromete  a comuna de  Saint-Etienne durante 13 anos e 9 meses (comparar com os 2 anos da primeira fase), é estabelecida em função de uma aposta sobre a evolução da libra  inglesa  e do franco suíço e sobre a ausência de baixa da primeira divisa em relação à  segunda[2]. A câmara observa que estas duas divisas não pertencem à mesma zona monetária e que não têm, de resto, nenhuma relação  com a actividade e com os activos da colectividade pública que é a comuna de Saint-Etienne.

 

Os documentos na posse das autoridades levam a pensar que esta fórmula teria podido ser mal  compreendida pelas autoridades de Saint-Etienne, na medida em que a redacção da decisão que a apoia  não é, à letra, idêntica à do contrato: introduz parênteses e uma expressão (“ variação %”) que  não figura  no texto da confirmação, e que não significa exactamente a mesma coisa que o  texto original.”

 

Acabada a leitura do texto, virei-me  para o meu amigo João Machado a pensar com os seus botões, mas que burro que eu sou. E, sobretudo, face a programas inteligentes. Sendo tão inteligentes como é que os técnicos camarários os entendem, se homens como Einstein não sei se seriam capazes de os entender? Mas não  perceber o que se faz por todas as Câmaras, dada a modernização financeira, é demais, é quererem impor-me um estatuto de verdadeiro ignorante, pensou ele e pensei eu. Tenho que perceber isto, os vigaristas dos mercados financeiros não hão-de continuar a aldrabar-nos,  pensava ele.

 

Lógica neste contrato de milhões, perguntei eu, com um ar tão espantado e de ignorante como o dele. A lógica da taxa, a lógica do Smart, oh João? Esquece o Smart de que falaremos depois  e olhemos então para  a taxa neste empréstimo determinada. E continuei, com o João já demasiado espantado, intrigado mesmo.

(Continua)

[1] Complexo, é certo, mas grosso modo trata-se de uma cobertura feita no sentido inverso ao de uma cobertura de risco já havida. Num outro post falaremos disto.

 

[2] Seja 1,9700 o valor fixo da libra. Uma taxa mais alta, exemplo, 1,9900 significa que (1,97-1,99) vem negativo e o máximo a pagar é então 4,30 %. Se inversamente o valor da libra descer, por exemplo, para 1,47,  então (1,97-1,47) é igual a  0,5 que deve ser acrescido à taxa 4,3, pois a esta taxa deve ser acrescimento a diferença entre a taxa fixa e a taxa  variável se positiva e nada se acrescenta a 4,3 se for negativa. A taxa 4,30 representa o valor mínimo do taxa a que foi concedido o empréstimo.



publicado por João Machado às 22:00
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
A crise financeira e o poder local - I. Por Júlio Marques Mota

Sobre uns textos em que se analisa a crise financeira e o poder local, onde se fala sobre a ignorância do meu amigo João Machado:

 

O meu amigo João Machado   de produtos financeiros derivados nada percebe ou então, se percebe, percebe apenas que foram um dos instrumentos fundamentais  de onde derivou a dinâmica da crise actual , mas não confundir instrumentos , os meios, com os fins, os resultados, não os confundir também com as causas que permitiram esses fins, confusão esta que  anda por aí muita gente a fazer.

 

Não,  o meu amigo João Machado de alta finança nada percebe. Filho nascido num país católico cedo lhe ensinaram possivelmente o milagre dos pães e se já dessa imagem se esqueceu, não sei eu. O que sei  é que há muita gente que essa imagem na retina mantém e por   isso  aqui lhe lembro o caso do BPN, em que pelos vistos até o nosso Presidente da República essa imagem conserva, a imagem de que houve  o milagre dos pães que no mundo da alta finança significa que os lucros não se geram nas fábricas, nos campos, nas indústrias, nos serviços que prestam de facto serviços, não, os lucros ganham-se na circulação de produtos  financeiros numa enorme cadeia de transformação, onde ponto a ponto dessa cadeia vão deixando as mais-valias que depois o sistema também garante que não são tributáveis.  Para assim se alimentar mais essa cadeia, para que haja mais apetite por ela, para que aumente a procura de títulos, para que estes subam, e a subida significa agora, pelo tal milagre da  multiplicação, aumento de valor, aumento  de lucros na circulação, o sistema político a que ele preside toma como  garantida  as isenções fiscais.


Mas o João incrédulo vira-se para mim e dispara: o que é isso de lucros na circulação. Aqui me lembrei dos meus tempos de   estudante  dos anos setenta e de um livro de que nesses anos li escrito por homem que foi conselheiro económico de Lumumba. Aí se descrevia uma pequena história. Numa pequena cidade  africana, num dada rua havia duas boutiques, uma em frente da outra. Um dia,  o dono  de uma loja comprou a um artesão de uma aldeia longínqua, um colar. Um dólar foi o preço  pago. Mostrou-o ao seu concorrente que encantado de o poder eventualmente oferecer depois à mulher como prenda de anos lhe ofereceu dois dólares. Preço oferecido, colar conseguido.


À noite o primeiro titular contou a história à mulher que vendeu o colar por dois dólares ao vizinho e o comentário e  a ordem dada foram: homem, foste burro, se te deu dois dólares, é porque valia mais. Vais já amanhã voltar a comprá-lo. Assim se fez. No dia seguinte dirigiu-se à loja do vizinho e diz-lhe que    a mulher dele se zangou com ele pois gostaria de ter o colar. Dava-lhe três dólares. De novo, preço oferecido, colar garantido.


À noite, este vendedor da nossa história contou à mulher o que se passou, que vendeu ao vizinho um colar por três dólares que este antes lhe tinha vendido por dois dólares . O comentário foi idêntico. Se te deu três é porque vale mais.  Vai já amanhã voltar a comprá-lo. E assim foi.


A historia repete-se dia a dia, e dia a dia o colar sobe sempre um dólar na sua transacção. Como se vê, na circulação, deslocando-se entre dois pontos, entre dois utilizadores, a mesma coisa vai aumentando de valor, um dólar por cada venda e subia-se assim de valor como  a finança actualmente, pura e simplesmente circulando! É assim que pensam pessoas como o actual Presidente da República, é assim que este  embolsou as mais-valias com o BPN, mais valias que todos nós, sem distinção de pobreza, haveremos de pagar.   Até onde a subida do colar da nossa história? Até que passou por lá alguém que pensou ainda ganhar mais e ofereceu   30 dólares acima do  preço do dia anterior, que já ia em 25 dólares. Este comprador fora do mercado local tinha outro critério de avaliação diferente e trinta dólares a mais oferece. Muito dinheiro para a localidade e com ele quem o vendeu a preço tão alto se inebriou e tudo gastou. Depois de ter vendido o  colar chegou o outro vendedor, o que lho vendeu na véspera para voltar a comprá-lo por 26 dólares.  E o nosso vendedor do colar por mais 30 dólares acima encantado disse: vendi-o a um papalvo que por aqui passou. Oh, colega, como é possível, como é possível que tenhas vendido o nosso ganha-pão. Já reparaste que ganhávamos um dólar por dia? 


João,  é isto os ganhos na circulação financeira, e do papalvo que trinta dólares a mais deu, desse, a história nada nos conta mas consta-se por aqueles locais que também tudo perdeu  porque,  afinal, o colar mais do que um dólar também  não valia. Foi engolido na sua euforia financeira.


Mas esta história não poderia ter  ela um outro final, mais adequado aos tempos que nos esmagam, mais de acordo com as nuvens negras que não nos saiem do horizonte, perguntou ainda incrédulo o nosso amigo João de uma terra qualquer deste país nascido?


Acho que sim, respondi. Imagina que falamos de muitos milhões de dólares em colares aplicados. O especulador que os comprou não seria então um papalvo. Comprou, segurou os colares, segurou o valor do colar em 100 dólares,  titularizou-os transformou-os  em títulos assentes ainda  numa perspectiva  de maior subida, vendeu os títulos pelo montante  de  25+30+45 de lucros = 100 dólares, através de um banco que recebeu de comissões, 10 dólares. O banco aí aplicou as poupanças dos seus clientes e quando tudo estoirou, no valor de 110 dólares, no banco não havia um centavo, nos clientes não havia um dólar de poupança, a seguradora pagou ao suposto papalvo o seguro do valor do colar  de 100 dólares contra a entrega do colar de um dólar  e este suposto papalvo voltou assim a ganhar. Mark-to-market, avaliação ao valor dos tempos que correm, dos valores que a bolsa em cada momento determina,  valia 110 dólares ontem passou a valer 1 dólar, hoje. Ninguém se enganou, ninguém traficou, tudo se reavaliou! Foi apenas isso e disso o nosso Presidente da Républica entende, do mundo idílico em que nada de mal acontece, porque nada de mal aqui houve, como num campo em que  as vacas andam a pastar, maldade aí não existe. Tratou-se apenas de uma questão de reavaliação dos activos, neste caso do  colar, dirão as gentes do nosso Presidente ou ele-mesmo, até. Mas assim, o  buraco ficou, as poupanças de quem aí as depositou, essa, a golpada assim as dissipou.  Um buraco, um buracão visto à escala nacional, que os homens do Presidente agora querem branquear, ignorar, melhor dizendo, como o disse Nogueira Leite na televisão face ao meu amigo João Cravinho.  Esta minha leitura sobre o BPN ao Presidente da República aqui explicada, a este é então dedicada.


Mas hoje sabe-se que no caso do BPN   o aumento da circulação significava um buraco, um buracão, em valor será tão grande como o da Madeira talvez, hoje sabe-se que esse dinheiro por muitos recebido,  do bolso de cada um dos nós vai ser subtraído e, mais ainda, sabemos também que no corpo de cada criança com o frio do inverno neste inferno de país  vai também ser sentido. Não é o que diz o nosso primeiro ministro quando diz face à falta de aquecimento para as crianças do meu país , do nosso país, que  a crise é para ser paga por  todos?


O meu amigo João Machado é  um dos muitos que há  neste  país a interrogar-se sobre esta deriva no plano ético. Que  pagaram os  accionistas do banco BPN? Que foi  feito do dinheiro desaparecido? Se houve também quem o levantou e o não pagou, como o Bloco de Esquerda hipoteticamente admite, quem são esses artífices do buracão que todos nós iremos preencher? Que pagaram aqueles que teriam a obrigação ética de devolução dos ganhos havidos? Que custos nisto assumiu a SLN ? Essas são muitas das perguntas que pelo ar lhe passaram. E o meu amigo João Machado, quem quer que ele seja neste país entre parênteses rectos fechado, soube um dia que num país em dificuldade, em muita dificuldade mesmo,  havia um Presidente que considerava  que pessoa mais séria que ele não havia. Presidente, vou-lhe escrever, pensou revoltado, vou-lhe escrever com todas essas perguntas a que todos queremos uma resposta. Mão amiga de caneta na  mão até o ar assim atingia, disse-lhe que só valeria a pena escrever-lhe se lhe escrevesse   sobre o sorriso de felicidade das vaquinhas, porque sob este outro tema muito delicado e complexo uma carta antes lhe tinha sido enviada onde se dizia: 


“Senhor Presidente, uma coisa se sabe, uma transacção de títulos efectuada fora de mercado, como tantas se fazem, como se fizeram recentemente com a Goldman Sachs e Facebook, é uma das operações que se fazem todos os dias, se bem que esta última tem na sua peugada a polícia, porque exactamente feita fora da bolsa e dos mecanismos de transparência que esta garante ou é presumível garantir, e já agora ninguém pode levar a mal, sem nenhuma má intenção, que o mais comum dos mortais que todos nós somos entenda que esta transacção é especial pelas suas duas contrapartes envolvidas: a primeira, a entidade compradora pela parte do BPN, está presa e vai ser julgada, a segunda, essa, era o candidato que é agora, de novo, o Presidente de todos os portugueses. Dessa transacção que transparente não pode ser chamada houve mais-valias pagas por um Banco falido, agora nacionalizado, a um seu amigo pessoal, hoje Presidente de todos nós, que as recebeu como mais-valias geradas pelo mercado (qual?) mas em que agora se sabe terem sido menos-valias transformadas em custos que seremos todos nós, os contribuintes portugueses, que as iremos afinal pagar. Não, senhor Presidente, não podemos lamentar que o mais simples dos contribuintes não perceba que estas mesmas mais-valias não possam ser devolvidas ao erário público, ao Banco donde saíram, porque caso contrário, será cada um dos mais simples contribuintes que somos todos nós que as iremos repor, e isto não é, nunca foi, dizer mal de ninguém. Esta é apenas a lógica da realidade imposta a posteriori, é certo, a exigir, uma outra atitude sua, creio, também ela necessariamente a posteriori, depois de conhecida a realidade de agora do BPN, realidade que então desconhecia, como é suposto admitir. É apenas a lógica da moralidade ao longo do tempo.”


E ao  meu amigo João Machado lhe disse que   quanto a este texto, a esta carta,  resposta não havia. Entretanto surge o buraco da Madeira. À procura de alguma luz sobre  esta realidade o que vemos e lemos pelo lado das nossas autoridades   é claramente uma tentativa implícita de branqueamento da questão  ou então de chantagem sobre factos outros já bem passados, quando nos vêm falar agora e por comparação com  o défice no tempo de Guterres!

 

(continua)



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Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
Por aqui também passa o trabalho, por Júlio Marques Mota

Dedico este texto à “ignorância” do meu amigo João Machado em termos de câmbios

 

Júlio Marques Mota

 

Esta semana   o mundo foi  surpreendido pela situação do franco suiço. Com   intervenções maciças o BNS garantia um valor mínimo na cotação  do euro contra francos suíços, ou seja,  limitava a quantidade de francos suíços a dar  por unidade euro, dita cotação ao incerto pelo lado suíço.

 

Vejamos o comunicado do BNS :

 

O Banco nacional fixo uma cotação de valor  mínimo  de 1,20 francos suíços  para um euro.


“A sobreavaliação actual do franco é enormíssima [a subavaliação do euro é enormíssima]. Constitui uma grave ameaça para a economia suíça e  esconde  o risco de desenvolvimentos  de tensões deflacionistas.

 

 

O Banco nacional suíço (BNS) pretende pois um enfraquecimento substancial e duradouro do franco suíço. A partir de agora não tolerará mais as cotações abaixo de  1,20 francos suíços por unidade euro no  mercado cambial. O Banco nacional fará prevalecer esta cotação  limite  com toda a determinação necessária e está pronto para comprar divisas em quantidade ilimitada.

 

 

Mesmo a  1,20 franco suíço por unidade euro  a moeda suíça permanece a um nível muito elevado. Deveria continuar a baixar o valor do franco ao longo do tempo. Se as perspectivas económicas e os riscos de deflação o exigirem, o Banco nacional tomará medidas as suplementares que considere necessárias”.

 

Sabendo que a Suíça é um paraíso fiscal  não custa a acreditar que se trate em parte de fuga de capitais. Não nos falam de muitos milhares de milhões que já “voaram” da Grécia para sítios mais calmos pois se a Grécia for ao fundo os que não puderem fazer outra coisa que  paguem totalmente a crise. Não só da Grécia, mas de outros países também, acrescente-se, e passa-se aqui o mesmo fenómeno que se passou na Argentina quando pela  via da liberalização dos mercados se levou a que este país tenha ficado exangue. Quanto à fuga de capitais curiosamente em nenhum dos países atacados pela dívida soberana e pela incapacidade de os dirigentes europeus definirem um rumo face a mercados  de comportamentos alucinados se diz seja o que for sobre o assunto .

 

Mas o comunicado do Banco nacional suíço é sibilino: o BNS está disponível para adquirir quantidade ilimitadas de divisas estrangeiras que queiram comprar franco suíço, o que é o mesmo, mostra portanto que  estamos perante  vendas maciças de moedas estrangeiras, particularmente de euros que se querem refugiar em moeda franco suíço. Pressão de compra de francos e o franco sobe, pressão à venda de euros a fugir da Europa e o valor do euro a descer. Foi o que aconteceu.

 

Um outro veículo explicativo da situação verificada entre o franco suíço e o euro e mais uma vez encontraremos, se isto é verdade, a incompetência  dos múltiplos Durão Barroso que por essa Europa o futuro desta Europa  estão a vender, será a venda a descoberto do euro, venda antes de ontem, venda de ontem, venda de hoje, para o comprarem amanhã mais barato. 


Vejamos um gráfico com a cotação do euro em termos de franco suíço. Sublinhe-se que neste caso estamos a falar do valor do euro expresso em termos de franco suíço. Quanto mais francos suíços por euro  mais caro então está o euro ou, inversamente, mais barato estará o franco suíço. De modo inverso quanto menos francos suíços por unidade euro mais barato está então o euro o mesmo é dizer que quanto menos francos suíços se dá por euro mais caro está o franco suíço. É assim a forma de ler a evolução das cotações.

 

Franco Suíço/Euro

 


        

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ou ainda de forma mais visível:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Imaginemos que  vendo um milhão de euros que não tenho   a um 1,25 francos suíços.  Recebo então 1.250.000 francos suíços  e com a pressão dos mercados o euro continua a descer. Pois bem, admitamos que desce para 1,1 francos suíços por  euro. Então para comprar os euros que vendi e que não tinha, para os entregar afinal a quem os vendeu pago 1.100.000 de francos suíços. Embolsei a diferença. Bravo, sou muito mais inteligente que os outros, é esta a razão dizem os especuladores  e ganhei, portanto! É assim que se funciona nos mercados e neste caso até é muito mais simples. Nem há nenhuma operação feita. Pagam-me a diferença entre as duas cotações a da venda do euro e a da compra. Se o movimento fosse inverso pagaria eu a diferença ou então faria um rollover à espera de novo ataque contra o euro. E vivam os mercados, dirão os neoliberais, eles revelam o valor das coisas, dos “assets”,  das cotações dos títulos ou  das divisas, igualmente.

 

 

Sobre a especulação contra o euro  pode-se ler num grande  blog de onde terá saído o folhetim que deu origem  ao ataque contra a banca em França e Itália  na primeira quinzena de Agosto, Agefi,  o seguinte:

 

 

La remontée assez spectaculaire de l'euro face au franc, puis sa relative stabilisation, qui ont pris par surprise bon nombre de spéculateurs (et qui donne pour le moment  l'impression que tout était simple dans cette opération), n'a pas éliminé pour autant un certain scepticisme sur les marchés. De quoi redouter de nouvelles attaques exploratoires contre l'euro ces prochains jours ou prochaines semaines, avec des risques d'appréciation incontrôlable du franc. 


On ne s'étonnera guère que l'ancien alter-ego de George Soros, Jim Rogers, cocréateur du fonds Quantum, qui s'en était pris victorieusement à la livre sterling en 1992, fasse partie des sceptiques. La condition nécessaire au maintien de l'euro à au moins 1,20 franc, a-t-il déclaré, est tout simplement que la crise de l'endettement public en Europe se résorbe plutôt que de s'aggraver. Peut-on imaginer vingt ans plus tard qu'un fonds, ou qu'une coalition de fonds cherchent à rendrela BNS impuissante face aux force des marchés? Les conditions ont évidemment changé.

 

De nada disto eu por aqui ouvi falar.  Mas há um pormenor curioso no texto que acompanha esta nossa nota  e que foi publicado pelos industriais suíços. O franco suíço sobe e os gráficos salientam-no,salientam esta subida que vem relativamente de longe, e com ela as exportações da Suíça tornam-se mais caras quando transposto o seu custo de francos suíços em moeda estrangeira. A economia suíça perde por aqui competitividade. Inversamente as importações feitas pela Suíça tornam-se mais baratas e a economia suíça perde por aqui igualmente competitividade. Em suma se  considerarmos que a Suíça em bens de  consumo final  produz  sobretudo do médio de gama para cima e  se considerarmos que a pequena e média burguesia está claramente a ser espoliada na Europa e a perder poder de compra, então  temos aqui  um triplo ângulo de ataque à economia suíça: as exportações passam a ficar mais caras,  as importações passam a ficar mais baratas e os seus compradores no estrangeiro a perderem poder de compra.  Enorme  pressão sobre o mercado de trabalho.  Que pensam as autoridades suíças, que pensam os industriais da Suíça?  De acordo com a lógica neoliberal será de novo o custo do trabalho que é elevado, uma vez que se está a perder competitividade!

 

 

(Continua)



publicado por João Machado às 22:00
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Sábado, 17 de Setembro de 2011
A propósito de um apelo aqui publicado - A fraude na UBS. Por Mathieu Rosemain, Les Echos. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota.

Depois de publicada a série Rumores, Tremores, Tumores, afirmamos que os visitantes, os leitores de aviagemdosargonautas.blogs.sapo.pt poderiam seguir a continuação da história nos comunicados da Standard and Poor’s, da Fitch, da Moody’s , da Autoridade dos Mercados Financeiros, (AMF), do Governo francês e assim sucessivamente. Na verdade, a realidade ultrapassou e de longe a nossa capacidade de imaginação, a nossa capacidade de dedução, talvez  porque somos já velhos e essas capacidades vão-se queimando com a dureza dos tempos que correm e dos tempos que passam. Talvez seja assim.


Mas nessa sequência apelámos individualmente aos poderes instituídos para que no mínimo dos minímos proibissem as vendas a descoberto e garantissem a estabilidade aos mercados financeiros, actualmente a funcionarem numa vertiginosa espiral de loucura e de destruição. E aqui, de novo, nesta peça reencontramos as vendas a descoberto, a propósito da “enorme fraude” a que a UBS terá sido sujeita, como se anunciou ontem pela imprensa especializada. E sobre esse apelo aqui francamente o repito. 


Mas de novo a realidade ultrapassa tudo o que poderíamos ter imaginado sobre estes mercados financeiros, sobre a sua arquitectura e funcionamento, sobre os produtos que aí continuam a ser negociados como se nenhum deles tivesse a ver com a crise que se continua a aprofundar, e nestes mercados financeiros, nos quais os políticos não mexem, não regulam, porque nestes e a estes  mercados estão vendidos, porque destes mercados  estão priosioneiros ou porque destes mercado são uns ignorantes e deles nada sabem, mas se nada sabem ou nada conseguem saber porque é que os autorizam, nestes mercados,  dizíamos, as “bombas de destruição” maciças continuam  diariamente a rebentar nas notícias dos jornais, dos telejornais e também nas nossas vidas, de hoje e de amanhã, também.


De ontem, destes mercados, veio mais um exemplo, a UBS deu por si a braços com uma “gigantesca fraude”, milhares de milhões que voaram pelas mãos de um trader, mais um… E isto quando num curto  espaço de tempo três grandes bancos franceses mostram como nos mercados se derretem os valores: de Julho a Setembro a capitalização do BNP passou de 65,87 milhares de milhões para 31,58 milhares de milhões, tendo em 12 de Setembro perdido 12,35%, a capitalização da Société Générale passou de 32,93 milhares de milhões para 12,33 milhares de milhões, com uma descida de 10,75 a 12 de Setembro, enquanto a capitalização do Crédit Agricole desceu de 26,96 milhares  de milhões para 12,19 milhares de milhões com uma descida em 12 de Setembro de 10,64%.


Estes são factos relacionados ainda  com a nossa série de Rumores, Tremores, Tumores, que lhes é bem anterior,  estes são  os tais factos sobre os quais aconselhámos que continuassem a “ler “ a nossa crónica por outras vias. E elas, as outras vias, aí estão a mostrar o  inferno, os altos fornos que são os mercados financeiros de hoje, onde as nossos sociedades estão a ser consumidas e com a responsabilidade  dos nossos silêncios.

 

De hoje e como crónica falaremos apenas de UBS e da “gigantesca” fraude a que se diz sujeita e adicionalmente disponibilizamos hoje aos nossos visitantes, aos nossos leitores, o texto da OCDE sobre Paraísos Fiscais  e aqui vos deixo a minha interrogação: porque é que não estão presos os políticos que estes paraísos permitiram criar, porque não estão presos aqueles  que os produtos financeiros a partir daí geridos deixam nas nossas bolsas negociar e  sobre os nossos bolsos andar a roubar, porque não estão presos todos os responsáveis políticos que esta realidade andam a legalizar, mesmo sob a caução da OCDE ?  Daqui também uma sugestão deixo  a Nogueira Leite, Presidente da Caixa Geral dos Depósitos e amigo do Presidente da República, daqui também uma sugestão a Braga de Macedo, ex-ministro do mesmo Presidente da República enquanto primeiro-ministro, que leiam este texto da OCDE que devem claramente desconhecer  e, se assim não acontece,  a todos eles  os devemos acusar de desonestidade intelectual quando se branqueiam os paraísos fiscais, quando se quer passar uma esponja sob a responsabilidade dos principais  agentes da crise actual . Que não digam, não sabemos, não conhecemos,  até porque  destes falsos ignorantes, não dos verdadeiros, estará o Inferno já bem cheio e não haverá no imaginário de cada um de nós nada pior, creio eu, do que pensar que nem no inferno se tem  lugar.


E os autores deste verdadeiro saque a nivel nacional, a nivel internacional, que agora em nome da dívida, dos défices, da supostamente necessária  austeridade imposta em simultãneo em Lisboa, em Madrid, em Atenas, em Dublin, em Roma, em Paris, se está a realizar à escala planetária, esses, estarão nessa situação certamente,  se consciência disso fossem  capazes de ganhar. Mas nem isso. 

 

Coimbra, 16 de Setembro de 2011

 

Júlio Marques Mota

 

Texto de Les Echos

 

A fraude coloca à luz do dia  os riscos ligados  aos “ exchange traded funds”

 

MATHIEU ROSEMAIN, Les Echos

 

O trader que foi preso ao que parece estaria encarregado de negociar sobre os produtos chamados  “trackers”, ou ETF, que são  fundos cotados e cujo desenvolvimento preocupa os reguladores.


Um novo duro golpe que vai levar a que se defenda ainda mais  uma redução do banco de investimento, [um banco demasiado grande para poder falir]

 

A acreditar no seu perfil sobre a rede profissional LinkedIn, Kweku Adoboli, o trader agora preso,  não negociava um qualquer produto financeiro por conta da UBS. O trader preso  ontem em Londres por ter levado a que a UBS tenha  perdido  cerca de 2 mil milhões de dólares parecia negociar,  entre outras coisas, os produtos ETF. Estas três letras significam “exchange traded funds”, assim chamados de “trackers” pelos profissionais da finança.

 

Como o seu nome o  indica, os ETF são veículos de investimento, da mesma forma que  os  OPCVM (sicav, FCP, etc.). [e por OPCVM entende-se Organismos de Aplicações Colectivas em Valores Mobiliários]. Com uma enorme diferença : são cotados continuamente em Bolsa, a exemplo das acções. Outra particularidade: o preço das partes de ETF baseia-se num índice de títulos ou de uma matéria prima, com os quais  mexem com a evolução das cotações. Daí o termo, em francês, “de fundos cotados sobre índices”.

 

Surgidos nos anos 1990 nos Estados Unidos, os “trackers” fizeram o seu aparecimento na Europa  há já uma dezena de anos. E o seu desenvolvimento, nos dois lados  do Atlântico levou uma forte aceleração desde 2005. No final de Julho, havia já  quase 2.900 para uma cotação  total cerca  de 1.445 mil milhões de dólares, de acordo com os dados de BlackRock, um  dos maiores   gerentes de activos mundiais - e grande  “fabricante” de ETF, através do seu departamento iShares. Este sucesso explica-se em grande parte pela simplicidade do produto e pelo fraco custo que necessita a aquisição de partes “de trackers” para os investidores (institucionais ou particulares).

 

Opacidade na  complexidade

 

Mas à força de crescer a um ritmo sustentado, os ETF preocupam hoje cada vez mais os reguladores. O Conselho de Estabilidade Financeira (CSB), encarregado pelo G20 de detectar os riscos de instabilidade na finança, publicou mesmo em Abril uma nota de cinco páginas a este respeito. O organismo aí sublinhava  a opacidade e a complexidade crescentes de um novo tipo de ETF, ditos “sintéticos”, cuja composição  assenta sobre os produtos derivados. Esta família de ETF vê o   número dos seus membros aumentar de dia para dia, entre “ETF invertidos”, “ETF alavancados” e outro “trackers” de  mecânica ainda mais subtil, o que não pode deixar de nos levar a lembrar de certos produtos estruturados do período que antecede a queda de Lehman Brothers…

 

Mas isto não é tudo. Como os ETF escapam ainda a um quadro regulamentar próprio, as suas características diferem de um “tracker” para outro. Nomeadamente no que diz respeito à gestão do risco de contrapartida e às regras que condicionam a utilização dos subjacentes detidos pelos ETF. Assim, nada proibe aos gerentes ETF de autorizarem o crédito  e o empréstimo dos títulos que  eles detêm, no âmbito, por exemplo, das  vendas a  descoberto. Sem estarmos a falar, sequer, do risco sistémico  criado  pelos ETF se o seu peso continua a aumentar, dado a sua natureza seguidista, de tipo carneiros de Panurgo… O que agravaria ainda mais os sobressaltos do mercado.

 

MATHIEU ROSEMAIN, La fraude remet en lumière les risques liés aux « exchange traded funds » Les Echos

 

 



publicado por João Machado às 22:00
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
AMANHÃ N'A VIAGEM DOS ARGONAUTAS LEIAM, ÀS 22 HORAS SOBRE O "DESVIO" de DOIS MIL MILHÕES DE EUROS NA UBS

Amanhã, leiam no nosso blogue, às 22 horas, sobre a desaparição de dois mil milhões de euros, na UBS - União de Bancos da Suíça, o trabalho de Mathieu Rosemain, publicado no jornal financeiro francês Les Echos. Comentado e traduzido pelo argonauta Júlio Marques Mota, professor de economia em Coimbra.



publicado por João Machado às 21:00
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011
Quando as agências de rating vêm em socorro dos países atacados. Do nunca visto na zona euro, por Sean Farrell, The Independent de 11 de Agosto de 2011. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Depois da série Rumores, Tremores e Tumores, os visitantes, os leitores de A Viagem dos Argonautas que não tenham formação em Economia poderão pensar que nesta peça haveria algum exagero, exageros de um homem de esquerda, de mal com o mundo actual mas não consigo próprio, e que, como sabe que outro mundo não tem, procura neste fazer o melhor que lhe é possível. Exagero, então? Já depois de ter a série escrita e em fim de publicação fiquei a saber que nessa série ficámos muito aquém do que na verdade se terá passado em Agosto, e é essa informação que hoje aqui vos trazemos. Estivemos à beira de mais uma crise dentro da crise, à beira de mais um colapso do sistema pelos nossos políticos bem escondido, porque mostra mais uma vez e no limite a incompetência destes mesmos políticos face aos mercados que estão em pura espiral de loucura. Mas pelos seus gestos, pelas suas aspirações que não são as nossas, pelas violência das suas apostas, é o mundo real que é vítima sucessivamente das apostas destes loucos e não há quem os coloque num manicómio com muitos políticos que ao seu serviço estiveram.


Como dizem os Indignados em Espanha, mijam para cima de nós e convencem-nos de que está a chover e tudo enquanto nós neles andamos a votar. É tempo de mudança.


Um artigo de The Independent, de 11 de Agosto de 2011. Boa leitura


Júlio Marques Mota

 

Texto

 

O sistema bancário europeu em queda livre à medida que o medo invade os mercados novamente.

 

Sean Farrell


The Independent, 11 de Agosto de 2011

 

O medo dominou os bancos da Europa ontem com as acções dos credores franceses e italianos mergulhados em preocupações que estavam ligadas à perda de valor dos seus títulos devido à crise da zona euro.


A Société Générale levou à descida dos valores dos bancos franceses dado que os rumores de mercado sobre a sua situação financeira levaram à descida das suas acções em mais de 20 por cento durante a sessão de bolsa. A Société Générale, o segundo maior banco francês, foi forçado a emitir um comunicado negando que estivesse em dificuldades, e que se tratava de um ataque especulativo.


A cotação das acções da Unicredit e de Intesa, dois dos maiores bancos de Itália, foram suspensas por causa da volatilidade a que estavam sujeitas. Os receios acerca da dívida soberana da Itália levaram à descida da cotação destes bancos, respectivamente em 9,4 e 13,7%.


Os bancos franceses foram atingidos por rumores de que a França iria ter a mesma sorte que os Estados Unidos e ia pois perder o seu triplo A de notação de crédito. As acções da SocGen fecharam com uma descida de 15 por cento, e quase metade nas últimas quatro semanas. O banco BNP Paribas, o maior banco de França, desceu 9,5 por cento.


A SocGen também foi vítima de um erro tipográfico num gráfico da Reuters que foi difundido e que desencadeou preocupações e interesses sobre o banco, um grande trader, e que estaria a tentar levantar dinheiro vendendo futuros sobre o ouro mais baratos a 12 meses do que a um mês.


Mais tarde, o mercado foi varrido pelo boato de que um segurador francês não identificado estava em dificuldades financeiras e tinha vendido as suas posições, as suas acções, sobre a SocGen.


A SocGen revelou na semana passada uma queda nos lucros do segundo trimestre dado que o banco tinha sido atingido pela sua grande exposição ao risco sobre a dívida soberana grega. O banco também admitiu que é improvável cumprir as suas perspectivas de lucros para 2012.


Um porta-voz da SocGen disse que não tinha havido nenhuma mudança a partir do comunicado anterior sobre os lucros, acrescentando: "A SocGen nega categoricamente todos os rumores do mercado".


A zona do euro está em perigo de contágio da crise com origem nos países ditos periféricos como a Grécia e Portugal e também nos países de economias importantes, como a Itália, a Espanha ou mesmo a França. Os medos acerca de se saber quais os bancos atingidos pelo facto de deterem títulos emitidos pelos países em dificuldades provocaram uma crise nos mercados inter-bancários fazendo disparar os custos dos empréstimos aí contraídos. Simon Maughan, analista da MFGlobal, disse: "Basicamente, os bancos deixaram de emprestar uns aos outros por causa das histórias que de novo um ou outro destes bancos possa estar a ir ao fundo e foi assim que se criou um outro problema, o problema de liquidez".


A situação lembra a turbulência dos mercados interbancários depois da falência de Lehman Brothers em Setembro de 2008, fazendo descer a pique os valores das acções e fazendo igualmente disparar os custos de financiamento e da dívida conduzindo o sector financeiro ao colapso total.


Na semana passada o Banco Central Europeu começou a comprar títulos dos Governos italiano e espanhol para conter a crise mas os mercados duvidam que a sua vontade ou a sua capacidade seja suficiente para barrar o caminho para a queda.


Segundo Maughan, as tentativas ditas dos bancos centrais em atenuar ou eliminar os medos dos mercados consistiam de facto em hastear “bandeiras vermelhas” ao mercado. “Tudo o que eles fizeram foi só de boca, foram só palavras e não acções, o que eles disseram foi que “nós estamos extremamente preocupados com a situação”, e isto deu a justificação para as pessoas começarem de novo a vender.


Os bancos britânicos eram também vítimas da venda ao desbarato. Barclays caíu 8,7 por cento, seguido pelo bancos Standard Chartered and Royal Bank of Scotland em que ambos desceram mais de 7 por cento. O banco Santander, o maior banco de Espanha, caiu 8,3 por cento. Pelo lado americano aconteceu o mesmo movimento de descida ao longo da sessão de bolsa.


Sarkozy interrompe as suas férias para enfrentar os temores de que a França possa perder o seu triplo A de notação de crédito


As principais agências de rating estariam alinhadas para retirar a sua notação, a da França, no meio de uma enorme especulação de que a França, a segunda maior economia da zona euro, teria o mesmo destino que os Estados Unidos, a descida do seu rating, do seu triplo A.


As agências Moody e Fitch repetiram que mantinham a sua avaliação da qualidade de crédito da França, o triplo A, procurando combater rumores que Paris estava já na calha para uma redução da sua notação quanto à qualidade de crédito. Os seus comentários vieram um dia depois de Standard & Poors -a agência que esteve por detrás do corte do rating dos EUA- dizendo que a França continuava a merecer uma classificação AAA, uma posição reiterada ainda ontem pelo analista N. Swann da S & P, que disse que o país tinha sido mais sério que os Estados Unidos em lidar com as suas questões orçamentais.


O presidente francês, Nicolas Sarkozy tentou acalmar o nervosismo também, interrompendo as suas férias para falar com os seus ministrosem Paris. Sarkozypediu ao ministro do Orçamento, Valérie Pécresse, e ao ministro das Finanças, François Baroin, para estabelecerem os planos que acelerem o processo de redução do serviço da dívida da França, o maior país da Europa com a notação de triplo A.


Os planos devem ser entregues a Sarkozy, que voltou de férias na noite passada, e ao primeiro-ministro, François Fillon, na próxima semana, com os mecanismos formais para serem aprovados mais tarde mas ainda este mês.



publicado por João Machado às 22:00
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
Sobre rumores, sobre tremores, sobre tumores, uma análise do capitalismo moderno, por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

Jean-Pierre Jouyet completa rapidamente a parte “recomendações” da sua nota: “Nestas condições, a suspensão das transacções sobre certas operações de carácter especulativo justifica-se plenamente. Uma diligência neste sentido junto da Autoridade europeia dos mercados, em concertação com os nossos homólogos alemães, é uma medida acertada. A directiva de 2011 sobre as vendas a descoberto prevê-o explicitamente no caso “de perturbação grave do mercado”.”


Chama um funcionário para que faça chegar a nota ao secretário-geral, pega no casaco e desce. À parte, alguns turistas americanos meio-perdidos, a praça Vaudeville está praticamente vazia nesse sábado, pelo meio-dia. O seu encontro espera-o, folheando o Libération. O diário de esquerda sonha numa grande “caixa” sobre uma vaga socialista nas “legislativas”. Os dois homens abraçam-se. Encomendam um dos pratos do dia. Vendo o ar curtido do seu amigo, Jean-Pierre Jouyet interroga-se se não teria feito melhor em permanecer advogado.

 

- Tens bom aspecto.


- Trabalho de grupo em Zermatt. E aqui?


- Crise aguda. Não se sabe qual vai a forma que irá assumir na semana seguinte. A rotina, que…


- Jantei ontem com François. Diz-me que há um verdadeiro debate no partido, que se julga estarmos a caminhar para um referendo. As pessoas estão fartas. Não vêem nenhum interesse em permanecer neste constrangimento. O discurso do Frente nacional faz o seu caminho nos espíritos. Jean-Pierre, o tabu está a cair. E isto não é necessariamente uma má notícia.


- Não te vais meter nisso, tu também.


-Poderia devolver-te o cumprimento. Esta história grega é grotesca. Passou-se-lhes um cheque no ano passado e continuam a estar pregados ao chão. Ninguém compreendeu nada a quem é que os bancos pagavam realmente. E de novo, cozinha-se um novo prato de medidas de apoio por pacotes de 50 mil milhões. Tudo isto se está a transformar numa farsa. É necessário deixá-los sair. Saldam-se as contas. Assume-se as perdas. Eles saem e dentro de alguns anos voltam a candidatarem-se. As condições são claras.


 

Ver mais... )

 



publicado por João Machado às 22:00
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