Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
Mãe - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  Mãe

 

 

 

 

(foto da eurodeputada italiana Licia Ronzulli que tem levado o filho consigo para várias sessões do Parlamento Europeu) 

 

 

Mãe a palavra universal a palavra mais consensual da humanidade

 

Nem Deus… Deus é de uns e não de outros Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos

 

A mãe não a mãe é de todos sem excepção

 

A mãe é de todos e é só nossa a mãe é do crente e do ateu a mãe é do pobre e do rico do sábio e do ignorante

 

A mãe é dos poetas dos filósofos e artistas dos bons e dos maus a mãe é do amigo e do inimigo

 

Não há mãe de uns e não de outros não há ninguém sem mãe não há mãe de ninguém

 

A mãe é de toda a gente a mãe é de cada um a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto

 

A mãe é do longe e do perto da água e do fogo do sangue e das lágrimas da alegria e da tristeza da doçura e da amargura da força e da fraqueza

 

A mãe é certeza e aventura é medo e firmeza dúvida e crença a haste que se ergue no céu ou se aninha rente ao chão para que a morte a não vença

 

A mãe é a outra parte de nós

 

Sem mãe somos metade sem mãe nada é exacto igual a um igual a infinito onde se tocam princípio e fim onde os tempos se encontram sem tempo presente passado e futuro

 

A mãe é tudo a mãe é de mais a mãe é o máximo

 

A mãe é a lágrima que não seca no sorriso que não se apaga a nuvem que chove no sol que aquece a mensagem da luz e da harmonia e dos acordes matinais com que abre o nosso dia

 

A mãe levanta-se no orvalho das lágrimas da noite e mesmo cansada não perde a voz nem a cor da madrugada

 

A mãe é a voz que se não teme a voz que se confia a voz que tudo diz nas consoantes do grito nas vogais do silêncio nos abismos da agonia

 

Mãe

 

Primeira palavra a nascer a última palavra a morrer a mãe é sempre a mesma a mãe nunca é outra na sua infinita diferença

 

A mãe é criação a mãe é sempre o fim da obra-prima inacabada a mãe nunca é ensaio nem esboço nem projecto

 

A mãe é um milagre no milagre do mundo o único milagre concebido neste mundo real e concreto

 

Chora para que outros riam ri para que a dor a não mate mistura-se com a luz das estrelas para vencer a escuridão devora as nuvens por um raio de sol

 

A mãe é beleza e poesia aurora fulgurante aurora adormecida a mãe é bela porque é simples a mãe é simples porque nasce da silenciosa lógica da vida

 

A mãe é o que é a mãe é a fragilidade da semente a força do tronco a beleza da flor a doçura do fruto o dom de renascer

 

A mãe é tudo numa coisa só

 

Amor

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
Inadmissível atentado ao Pingo Doce na esquina do Bonjardim - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  Inadmissível atentado ao Pingo Doce na esquina do Bonjardim

 

 

 

 

(pormenor da Ribeira Negra de Júlio Resende)

 

 

 

 

   A pobre mulher tinha lágrimas nos olhos.

 

Pudera!

 

Encostada à carrinha da polícia, aguardava a elaboração do auto, que o agente escrevia, com ar de gozo.

 

A pobre mulher tinha, na soleira de uma porta, à esquina da rua do Bonjardim com Fernandes Tomás, uma pequena caixa de esferovite com duas marmotas, que procurava vender.

 

Esta situação também me arrancou das entranhas algumas lágrimas de raiva e revolta, ainda mais pelo facto de este local distar uma centena de metros do Pingo Doce, que, como sabemos, se lembrou de festejar o Primeiro de Maio da forma mais vergonhosa e escandalosa que se possa imaginar, pela falta de ética, moral, ética social, negocial, comercial. Para não falar no monte de ilegalidades e irregularidades que, eventualmente, estarão por detrás de acto tão feio. Numa situação caótica como aquela valerá tudo, porventura, até escoamento do que está fora de prazo.

 

Mas a carrinha da polícia não esteve lá, pelo menos a ver se as marmotas eram frescas, pois até eu já comprei no Pingo Doce um polvo podre. A carrinha da polícia só vai ao Bonjardim, multar quem se atreve a vender duas marmotas que deveriam estar, por exemplo, na banca de peixe do Pingo Doce e não ali na soleira de uma porta.

 

Notícias de hoje dizem o seguinte:

 

“A investigação da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) à campanha promocional dos supermercados Pingo Doce no 1.º de Maio vai estar concluída no início da próxima semana, informou o inspetor-geral.”

 

“A rádio Antena 1 afirmou que a ASAE detetou a prática de “dumping” em três produtos (arroz, óleo e uísque) vendidos na promoção do Pingo Doce no 1.º Maio, notícia que António Nunes não confirmou nem desmentiu à Lusa.”

 

“Grandes superfícies lucram mais de 50% em alguns alimentos

O lucro das grandes superfícies supera os 50 por cento na venda de alguns tipos de alimentos, revelou o Observatório dos Mercados Agrícolas.”

 

Mas o Pingo Doce está a rir-se à tripa-forra, com o papo cheio e com a alma elevada aos céus destas ignominiosas catedrais de consumo.

 

Está a rir-se da humilhação a que submeteu os trabalhadores de um povo inteiro, está a rir-se da ASAE, cuja rede é demasiado pequena para tão grande peixe, está-se marimbando para a legalidade e para a ética.

 

Só a pobre mulher da esquina do Bonjardim não tem vontade de rir. É um peixe demasiado pequeno para tão grande rede.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
Comemorações da hipocrisia - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  Comemorações da hipocrisia

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Eu peço desculpa por meter, hoje, no Estuário, irmão do delicioso Jardim das Delícias, este creme feito de leite azedo e de gosto amargo mas não sou eu o responsável pelos ingredientes.

 

Aquilo que se passou naquele lugar que dá pelo nome de Assembleia da República, e deveria chamar-se Assembleia dos Interesses alheios à República, foi uma enfadonha cantilena sem qualquer alma e um despudorado ramalhete de hipocrisia. Até os pobres dos cravos pareciam todos murchos.

 

Ainda que respeitando e salvaguardando as pessoas honestas e sinceras que lá se encontravam, esta desenraizada cena, esquálida e amarelecida múmia da revolução, sem sangue nem vida, repugna e faz subir à garganta um nó que só consegue desatar-se quando uma lágrima de saudade humedece o canto dos olhos.

 

Ouvir o Presidente percorrer no seu discurso todo um mundo feito de males e bens, com a escamoteada intenção de branquear os males e redimir-se da grande responsabilidade que teve na génese da miséria que hoje somos, vá que não vá. O que se torna insuportável é ouvi-lo a meter, a martelo e a contragosto, o 25 de Abril aqui e ali, disfarçadamente , para enfeitar as palavras do discurso.

 

E quase nos apetece dar razão àquele sujeito com ar assim… assim grosso modo, de olhos ramelados pelo ódio, usando o cérebro com a fralda de fora, aquele sujeito com comportamento que parece marginal à linha darwiniana, aquele sujeito com a polícia à perna e que terá deitado mil e tal milhões de todos nós pelo cano abaixo, ou por canos que ninguém sabe onde vão dar, quando chama a estas coisas “folclore abrileiro”.

 

Claro que não é ao folclore da Assembleia que ele quer chegar. Embora isso o incomode, ele sabe que é uma farsa com a qual até poderia ser tolerante e colaborante, se fosse hipócrita, coisa que, honra lhe seja feita, não é. É facho genuino, embora por vezes use entre dentes e com sorriso provocador, a palavra democracia, que ele sabe não ter na sua boca a minima força para ser levada a sério.

 

Onde ele quer chegar com o seu “folclore abrileiro” é mesmo às comemorações autênticas e verdadeiras, à pureza e ao cerne das comemorações do 25 de Abril, mas todos sabemos que isso não passa de uma daquelas tiradas genuinamente fascistas que desde há muitos anos lhe entopem a garganta.

 

Mas o 25 de Abril é grande de mais para almas tão pequenas.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
Esse bocadinho de tarde cinzenta - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Esse bocadinho de tarde cinzenta

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

   Ela não sabia mas a vida havia-lhe ensinado naturalmente que os mais belos poemas se fazem com gestos e palavras simples

 

Que os nossos corpos ainda que distantes no tempo se uniam como a clara e a gema

 

Fora da jaula com a ponte ao longe sentia-se voar e dizia que o ar fresco da liberdade acendia nela um poderoso desejo

 

Nos corredores da casa o céu abria-se ao vê-la frente ao espelho provando a blusa que lhe trouxera de fora

 

Ao sentir a sua pele macia coberta apenas pela leve blusa que vestia frente ao espelho ficava enraivecido por alguém lhe pôr as mãos em cima uma vida inteira

 

Sentir nos dedos a maciez do seu sexo era um poema com versos de fogo

 

Para lá da beleza a transparente ternura da infelicidade prendia cada vez mais aos olhos aquele corpo de sonho e magia

 

Os seus beijos não tanto pela sensualidade como pela necessidade de fuga através deles para um qualquer lugar de paz e segurança tornavam mais dolorosa a hora que viria a seguir sem ela

 

A alegria que tinha ao vê-la entrar era tão grande quanto a tristeza que sentia ao vê-la sair

 

Era como se levasse consigo a sina de não voltar embora tivesse voltado sempre como uma aparição

 

Era como se o mundo caísse ao chão e se partisse e não houvesse forma de unir os pedaços

 

Uma imensa amargura pelo desencontro de idades e de vidas cerrava os olhos mas a beleza interior daquela mulher sabia abri-los e agarrar o sol de forma sublime

 

Nesse bocadinho de tarde cinzenta só uma alma grande podia fazer da tristeza e da amargura um acto de amor

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
editado por João Machado em 10/05/2012 às 11:46
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
Ressurreição - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Ressurreição

 

 

 

 

 

 

   Na sequência de algumas crónicas sobre as minhas vivências na guerra colonial da Guiné, publicadas no Aventar e no Estrolabio, recebi um mail de um amigo que não vejo há quarenta e cinco anos. Por mero acaso, este amigo, o alferes Ruca, leu os meus textos e enviou-me esse mail dizendo: você é que é o médico da minha companhia, o Adão Cruz?! Vou mandar-lhe uma foto em que estamos os dois à porta de uma Dornier. Com efeito lá estávamos, a entrar ou a sair, não me lembro bem, da avioneta.

 

O Ruca era um alferes da Companhia que veio substituir a nossa, a 1547. Por artes que já expliquei noutros artigos, obrigaram-me a ficar mais algum tempo no mato, e, portanto nesta nova Companhia onde conheci o Ruca e outros. Não tenho qualquer dificuldade em fazer amigos, amigos a sério, seja em que situação for.

 

Soube, através de um nativo que costumava escrever-me, o Abibe Tal, alguns anos depois de regressar, que o alferes Ruca tinha perdido uma perna. Quando recebi o mail, respondi-lhe com um caloroso abraço de nostalgia e saudade.

 

Um dia, ao abrir a minha caixa de correio electrónico, dei com uma afectuosa resposta ao comentário do Ruca, vinda do amigo Daniel Carvalho, o capitão Daniel Carvalho. Imediatamente o contactei através do seu e-mail:

 

Caro Daniel Carvalho 

Lembro-me muito bem de si. Eu era o médico da 1547 do capitão Vasconcelos, que o meu amigo veio substituir. Depois da Companhia ir embora ainda fiquei cerca de dois meses na companhia do capitão Torre do Vale, que está nessa fotografia (a foto do artigo que eu havia publicado e que ele havia visto).

Um grande abraço

Adão cruz

 

Ontem, dia 31 de Março de 2012, recebo do amigo Daniel Carvalho o seguinte mail:

 

Caro doutor Adão

Muito obrigado pela sua simpática e pronta resposta, que me deu muita satisfação e agradavelmente me surpreendeu, na medida em que eu tinha encontrado na net o seguinte comentário numa das fotografias colocadas pelo "Zeca do Rock" (alferes José das Dores):

 

Navio Uige, 7-05-1966>Saída do Cais da Rocha do Conde Óbidos - Lisboa

Da dta: Alf José das Dores>Alf Sap Fernando Gaspar

Alf Médico Gomes Pedro, Assistente do Prof Dr Jácome Delfim

[Com boina] Alf Médico Adão Pinho da Cruz [falecido]

© Foto Alf José das Dores

  

Cruzes, canhoto... felizmente, contrariamente ao que aquele comentário me tinha levado a crer, o nosso doutor Adão continua vivo e oxalá que assim continue por longos e saudáveis anos.

 

Gostei muito de rever a foto do seu "homónimo" Adão Doutor que, em Bigene, eu cheguei a conhecer e que o meu amigo refere numa das suas interessantes crónicas divulgadas na Net. Era um lindo bébé. Voltou a ter notícias dele ao longo desses 45 (!) anos entretanto decorridos?

Um grande abraço

 

Daniel Andrade de Carvalho

 

(Falecido)!!!

 

Soube-me porreiramente esta ressurreição!

 

E para terminar, deixo-vos com a bela história do “Adão Doutor”, que o Daniel Carvalho agradavelmente recordou:

 

 

Adão doutor

 

   Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupações que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes. Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.

 

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos diferentes, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques, por imposição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil, e a desvirtuação constituía um perigo possível. Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. Com o tempo as janelas foram-se abrindo, e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.

 

As mulheres de Bigene e não só de Bigene pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato. Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam um cheiro nauseabundo. Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido eram graves e frequentes, soube eu mais tarde.

 

Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi actuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas, dentro da mesma escala de cultura. Estou disposto a comprová-lo através de exemplos sérios nascidos da minha experiência.

 

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca, acerca de higiene e infecções, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que modesta e minúscula.

 

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar, nesta altura, a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto. Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha, electricista de profissão, brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de fio a pavio a minha sebenta de obstetrícia, e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

 

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho, que apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

 

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, único possível, indispensável aos primeiros tempos de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de maneira tão eutrófica e perfeita.

 

Uma semana após o nascimento, vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente: “doutor, vou dar-lhe uma linda notícia, que a mim, pessoalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio…aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se? A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de “Adão Doutor”.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 2 de Abril de 2012
O pecado original - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  O pecado original

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

   Quando nasceu trazia entranhados em si dois grandes pecados, o pecado original e o pecado de ter sido gerado em mãe solteira.

 

Para além disso fora parido quase moribundo.

 

Imagine-se o terror de sua mãe que já o via a arder no fogo do inferno.

 

O pai, mais racional, não tinha assim tão maus pressentimentos.

 

Para ele, Deus não seria capaz de condenar, e logo com penas eternas, um ser indefeso, pelo facto de a pia baptismal distar três quilómetros do local de nascimento.

 

Pegaram na mulher mais à mão e no homem mais ao pé, embrulharam num coeiro aquele escarro de gente e correram a sete fôlegos em direcção à igreja.

 

Ambos conheciam a gravidade do pecado original.

As almas dos que morrem em pecado mortal ou apenas de pecado original descem ao inferno anunciava o Concílio de Florença em 1439.

Todos sabiam que o baptismo era a única terapêutica que salvava e apagava o pecado original.

 

Se chegasse à pia com vida, não seria este pecado, marca da infâmia dos seus longínquos antepassados, que o levaria à condenação eterna.

 

Quanto ao outro, o pecado de amor, o pecado de sua mãe, nada constava na tradição que o considerasse passaporte directo para as profundas, embora fosse exactamente igual ao primeiro mas muito mais recente.

 

No mínimo, em cima do outro, agravaria certamente, a sentença divina.

 

Portanto, as perspectivas não eram animadoras nesta correria para a salvação.

 

Nada mais dominava o pensamento dos hipotéticos padrinhos - assim o permitissem serem-no, efectivamente, a graça divina - senão o terror.

 

Já com alguma idade, esse esperançoso par lembrava-se de ter ouvido da boca de um padre velhinho de quem se dizia ser pai de onze filhos, que um papa chamado Bento XIV e outros seus sucedâneos aprovaram o baptismo de fetos e abortos, bem como dos fetos de mulheres grávidas mortas, aos quais faziam chegar a água benta através de um sifão especial ou de uma cesariana.

 

O medo era tão grande que chegaram a arranjar fórmulas especiais para baptizar abortos ainda sem forma humana ou mesmo aberrações e monstruosidades resultantes de distracções ou falhas nos cálculos divinos.

 

Já a meio do caminho da igreja, os corações dos dois estafetas salvadores quase pararam ao sentir que nada pulsava naquele montinho de carne.

 

Apertaram-no contra o peito e deram-lhe algumas palmadinhas suaves, não fossem acabar com o sopro de vida em que ainda acreditavam.

 

Aquele minúsculo projecto, à falta de melhor resposta, reagiu com o intestinal ruído que precede ou acompanha uma pequena dejecção de ferrado, o que aliviou um tanto os padrinhos, embora soubessem que esse facto não constituía, propriamente, uma manifestação de vida.

 

No último minuto, provavelmente já na fronteira do entroncamento onde divergem os caminhos do céu e do inferno, o nascituro usou pela primeira vez as cordas vocais soltando um pequeno gemido que logo se fez choro convulso ao sentir a água benta e fria na cabeça.

 

Crê-se, hoje, que não fora a água fria mas o nome que pretenderam dar-lhe a razão do seu choro.

 

Era como que voltar à estaca zero, uma espécie de restitutio ad integrum do pecado original, tornando inútil toda aquela corrida para a pia da salvação.

 

Os seus gritos devem ter ecoado como ribombante trovão para lá dos séculos, no ex-paraíso, hoje deserto, no lugar onde os pais da humanidade condenada, não sabendo para que servia aquilo que tinham entre as pernas, pagaram com a perda da felicidade eterna o terem-no descoberto.

 

Para que ele parasse de chorar, não tiveram outro remédio senão esquecer o nome.

 

A força do sacramento venceu, o diabo recuou, enfiou o rabo entre as pernas, e assim o detergente divino, limpando a nódoa do pecado original, deu ao mundo mais um cristão.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 26 de Março de 2012
Poema Inteiro - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Poema Inteiro

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Foi a noite mais triste a mais negra noite mais triste do que todas as sombras mais triste do que a noite de Orfeu mais triste do que a sombra dos coqueiros sem lua mais negra do que o mergulho do tarrafe nas águas fundas do Cacheu

 

O homem honesto vítima de esconso agravo sozinho na noite sem força sem amor sem atitudes enrolou-se na torrente de lágrimas e não dormiu as longas horas dessa noite tudo se tinha rasgado o sol a lua a paisagem os rios os braços e o sonho em tiras de trapos que à toa foi enfiando nos sacos de lixo sozinho na noite sem que uma espada refulgisse em suas mãos impondo a fronte e a palavra no renascer do horizonte

 

O nevoeiro inesperado entrou pela frincha da janela e comeu tudo comeu a casa que caiu comeu os olhos que deixaram de ver comeu as mãos tensas que deixaram de tocar a casa ruiu não ficou pedra sobre pedra e no fim nem pedras se viam no chão nem terra nem pó tudo limpo impecavelmente limpo feito em nada num lençol apenas mordido de pétalas e sedução

 

E o nada entrou na alma como nevoeiro cerrado e o coração deixou de bater preso na argila agarrada às veias apenas um fio de luz de prata fria incandescente atravessava o sítio onde devia estar a mente e as ideias gerando um lamento seco como um gemido fremente não há remédio para o gemido o gemido é a coisa mais só mais terrível mais cortante da carne viva latido de cão
perdido no monte não dorme ante o silêncio de mil ouvidos moucos e agarra-se ao sangue como crude apenas o dissolve a lama da noite jorrando fontes de silêncio sobre um corpo sem beijos de bocas atadas e olhos sem horizonte

 

A noite do desespero despenhou-se sobre a cidade cuspindo nomes falsos fincou as garras nas janelas rasgou em feridas extensas o corpo nu da solidão queimou a vida em catedrais de cinzas abriu com estrondo a porta de saída sem porta de entrada a janela era só uma frincha desmesurada tudo era dentro e tudo era fora sem nada… nada havia pelo meio só livros a voar sem paredes nem estantes de permeio

 

Tudo soava a violino sem cordas num ritmo de movimento sem cor sobre um tabuleiro sem pedras sem força nem entreactos numa franca abertura da porta que desce aos infernos chorando a virtude em forte clamor à beira da morte que sobe no sangue glosando a pobreza de mil retratos impressos noutra era em letra de amor atirados ao fundo abismo de uma profunda cratera

 

Havia em tempos cobertores ainda que dobrados em opróbrios jugulares havia um cobertor alheio como lívido veneno dentro de casa mas não há casa nem cobertor que aqueça por dentro o frio é mais dentro do que de fora do corpo não há fora nem exterior nem mãos nem cara apenas dor e um mar de nada gelado sem brilho e sem cor enganando a amargura de uma fogueira sem calor

 

O nevoeiro traiçoeiro penetrou de mansinho sorrateiro enleou-se no orvalho gelado e num abraço apertado dançaram os dois até se esfumarem e entrarem pelos olhos cegos e pela respiração já frouxa prestes a apagar-se no chão sem pedras desenhado no pó que se havia sumido num tempo esquecido na imobilidade das promessas e no correr das águas em qualquer sentido

 

Gritou o homem sem voz pela mãe que havia morrido como gritam os filhos pelas mães e as mães pelos filhos vivos que não ouvem nos momentos de aflição mas não havia mães nem filhos nem momentos de aflição eram apenas restos de uma ilusão espalhados pelo chão que não era chão mas uma angustiante perda de forças para gritar se gritar fosse água no incêndio da solidão

 

O tempo era de morte seria assim a morte pior não seria se houvesse uma porta de entrada para onde para o nada e não de saída para onde para a vida se vida houvesse para o frio da rua se rua houvesse para a fímbria do mar se o mar tivesse fundo onde o silêncio grita e explode numa girândola de palavras e gestos de outroras perdidos entre nuvens que choveram relâmpagos
entontecidos

 

A memória era um vidro estilhaçado vermelho de sangue quebrado um pedaço de vidro partido que o nada deixou esquecido entre os dedos sangrantes do homem que caminhava por dentro do nevoeiro quando homem inteiro nada sendo agora desde que em nada se desfez a casa e dela tomou conta o nevoeiro

 

Ainda havia lágrimas havia restos de sonhos pedaços de vida espalhados pelo chão que agora estava impecavelmente limpo depois da entrada do nada e da inundação do nevoeiro como se nada ali tivesse caído ou fosse lambido pelo orvalho que entrou pela frincha da janela agora em buracos que davam para a rua esburacada onde a violência silenciada pelo vinho azedo havia deixado todas as coisas na sombra do barro da terra apagando milhões de estrelas demasiado cedo

 

No ar se ar havia voava um texto de mil palavras sem língua uma nicotínica melodia de álcool e soníferos na frágil clareza de um cérebro brumoso se cérebro havia trancado de sofrimento entre a perda e a morte gargalhando a fraqueza para tentar encher o último momento se momento era aquele onde cabia a tristeza e o sofrimento de uma aurora escondida onde os astros quebraram a luz que dá luz à cidade e as pálpebras se incendiaram com os olhos de fora

 

Altas horas da noite por entre castanheiros podres e montes de estevas sem cheiro precipícios e falésias suicidas lânguidos cantares da planície seca secaram as lágrimas fugiram as sombras dos olhos baços do pensamento inteiro e uma luz de prata sensual escorreu de alto a baixo quase conclusiva persuasiva desejosamente metafísica mas de cálculo tão frio que a força das lágrimas quentes avançou no sono precipitado por entre abismos para as águas do mar

 

Do fundo dessa longa noite gritam as mãos erguidas novos olhos doces de chorar e negar o velho altar do homem empoleirado grosseiro brutal avarento derradeiro a condição de ser inteiramente outro com sabor a mel a terra e a resina nem eterno nem intacto nem primeiro sem medo de caminhar por dentro do nevoeiro sem medo nem angústia de se perder devorado pelo orvalho de pedra de qualquer noite mais triste que possa tombar sobre o leito de morte de um homem inteiro

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 19 de Março de 2012
Zulmiro - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Zulmiro

 

 

 

(Manel Cruz)

 

 

 

  Diziam que ele tinha o diabo no corpo mas não tinha. Pelo menos assim o afirmava a sua prima, sabida que era em coisas de mau-olhado e almas penadas. O diabo no corpo era outra coisa. O que ele tinha era uma comichão dos diabos que o atormentava dia e noite, obrigando-o a coçar-se até se arranhar e fazer sangue.

 

O Ti Salvador dizia que, sem borbulha, sem mancha ou licenço à flor da pele, o mal estaria por baixo, sabe-se lá onde. Dada a falta de qualquer médico nas redondezas, o Ti Salvador reclamava-se de toda a sabedoria nestas coisas de maleitas, sabedoria já herdada de seu pai e avô. Para entrar debaixo da pele, só uma mezinha muito antiga, raramente usada por cheirar muito mal. Uma pasta de azeitonas esmagadas, com uma mão cheia de sementes de linhaça e outra mão cheia de coirato bem cozido e bem pisado, uma colher de óleo de rícino e uma pequena porção de merda de galinha.

 

Zulmiro, sem fé nenhuma, besuntou-se da cabeça aos pés e naquele dia a comichão desapareceu. Mas era tal o fedor que a sua presença exalava, que as pessoas não se aproximavam dele a menos de cinco metros. Zulmiro não aguentou a cura e preferiu a coçadura.

 

Zulmiro sabia bem qual a causa do seu mal e do seu sofrimento. Não só sabia como tinha a certeza. Simplesmente, nunca o contara a ninguém, por vergonha. Tudo começara com aquele beijo atamancado, arrepiado, babado, a saber a remédio das bichas. Tudo começara naquele dia em que a Maria tola o empurrou para trás da porta, lhe apertou a ferramenta até o fazer ganir e lhe assapou a boca desdentada na sua, como uma ventosa, deixando-o agoniado semanas a fio.

 

Por isso ele sabia qual o remédio para o seu mal. Não só sabia como tinha a certeza. Só outro beijo o poderia salvar, um beijo limpo, casto e puro, a ferver de amor e ternura. Mas como iria ele arranjar uma namorada, assim a coçar-se como um bicho ou a cheirar a estrume?

 

A Fatinha há muito que lhe punha os olhos em bico. Era uma dor de alma, para quem quer que o sentisse, ver o Zulmiro a chorar pelos cantos, perdido na angústia de nunca dela se poder aproximar. A Fatinha cantava na capela o Hosana nas alturas e outras coisas. Um dia, aguentando a comichão até humanos limites, o Zulmiro ajudou-a a levantar uns livros que lhe haviam caído do regaço. A Fatinha agradeceu com um sorriso tão doce e tão terno que o Zulmiro não teve mais comichão até ao fim da missa.

 

Mais tarde, Zulmiro soube pela Tia Alice, sua madrinha, que a Fatinha lhe confessara gostar muito do afilhado, que achava um rapaz bonito e bondoso, e não acreditava que tivesse o diabo no corpo. Zulmiro andou até à Páscoa com estas palavras nos ouvidos e na cabeça, fazendo delas a mais bela canção do acordar e do adormecer. Além disso, caíra sobre ele a bênção do Céu. Quanto mais nelas pensava, menos a comichão o apoquentava.

 

Um dia, Zulmiro encheu-se de coragem. Empastelou-se de mezinha pestilenta durante três dias, a seguir tomou um banho de alto abaixo, borrifou-se com água-de-colónia e foi à capela. Fatinha estava sozinha nas suas tarefas de zeladora do Coração de Jesus. Zulmiro ajoelhou-se no primeiro degrau do altar, lavado em lágrimas, e contou-lhe toda a sua desgraçada história, desde o maldito dia da investida da Maria tola, quando ele tinha treze anos.

 

Fatinha afagou-lhe o rosto, e, perante o olhar atónito da Virgem, depôs-lhe nos lábios o beijo mais doce que algum dia um ser humano sentiu.

 

E assim o diabo meteu o rabo entre as pernas, deixando o Zulmiro em paz e cheio de felicidade.

 

E também a Fatinha, que, ao fim de nove meses, mesmo sem autorização de Deus, lhe deu o primeiro Zulmirinho.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 12 de Março de 2012
Ser gente - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Ser gente

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

   Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente?

 

Ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos sectores da Administração e do empresariado, de onde deveria vir o exemplo e não o assalto miserável a quem trabalha, eu entendo o que os meus pais quereriam dizer, com o ser gente.

 

Ser gente seria, porventura, ir mais além do que trabalhar com seriedade e honestidade. Ser gente pressuporia a construção de alguma coisa dentro de nós e fora de nós que assenta, a meu ver, em quatro pilares fundamentais:

 

1 - O pensamento. O pensamento é o suporte mais poderoso e a armadura mais forte do homem, a mágica força da sua criatividade e da sua razão de ser. Sem pensamento o homem não pode ser gente, o homem não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento tem tantos inimigos! São inimigas todas as inúmeras formas de anestesia mental, falsamente lúdicas, falsamente festivaleiras, falsamente religiosas, falsamente futebolísticas, levando a sociedade à ignorância, através de uma espécie de coma vigil que a impede de raciocinar. É inimigo o vazadouro de lixo mental da televisão, com que a sociedade vai enchendo a disquete da sua metacultura. Inimiga a perversão mediática da política, que deveria ser a nobre arte de uma verdadeira democracia participativa, inimiga a política pornografada em degradantes guerras de interesses que escamoteiam os verdadeiros problemas nacionais, inimiga a política atafulhada no maior lamaçal de corrupção de sempre.

 

2 - O segundo pilar do alto edifício que é ser gente decorre do primeiro e chama-se cultura. Não se trata da cultura do enciclopedismo balofo, somatório de vagos conhecimentos, empilhamento de ideias improdutivas, a cultura-cassete dos tempos de hoje, a cultura-espectáculo, mas sim a cultura do dia-a-dia, a cultura autêntica da dignidade da vida, a cultura irrepreensível do percurso.

 

3 - O respeito pelos outros constitui o terceiro pilar. Simplesmente, não há respeito pelos outros se não houver respeito por nós próprios. Quem não se respeita a si mesmo não pode respeitar os outros. E quem tem respeito por si próprio não pode ser falso, corrupto, ladrão, indigno, especulador, manipulador de pessoas e ideias, criminoso, traficante e sabujo. O respeito dos outros é o espelho de nós próprios.

 

4 - O quarto pilar desta edificação é a solidariedade, a solidariedade no seu sentido global, já que a solidariedade pontual, ainda que louvável, não conduz a nada em termos sociais. É o caso da caridade, que não sendo de forma alguma negativa, pode ter, ao contrário do que acontece com a justiça, efeitos nefastos quando pregada como fim em si mesma. O primeiro passo da solidariedade está no entender da indispensabilidade da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades, a todos os níveis. O segundo passo reside, por parte do cidadão, no cumprimento correcto da lei, no cumprimento escrupuloso e competente dos seus deveres de cidadania, no mais correcto exercício da sua profissão e da missão de que cada um está incumbido. Viver dos outros, implica viver para os outros.

 

É triste reconhecermos que uma parte dos homens de hoje, dos homens que mandam, dos homens que podem, dos homens que estão à frente de governos e de instituições de alta responsabilidade não são gente, nunca foram gente nem para lá caminham. São verdadeiros exemplares da mediocridade e da ausência de formação e de escrúpulos, a ocupar grandes e rendosos postos, arremedos de gente, excrescências malignas da sociedade, contrafacções da honra e da dignidade, são a parte podre da humanidade. A epidemia de corruptos é disso exemplo, e o que conhecemos é a ponta do iceberg.

 

A esses, os que se apresentam como cabotinos deste palco da vida, para os que não reconhecem a sua inutilidade e dilatam dia a dia a sua perversidade, e pensam que a roubar é que são grandes e que a viver à grande e à francesa à custa da miséria e do trabalho dos outros é que estão acima do mundo e do homem comum, eu lembro que no seu estômago já não cabe mais nada e nos seus cofres o dinheiro já não passa de entulho. Ainda bem que existe a morte, o único mecanismo democrático da vida.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 8 de Março de 2012
Bilhete-postal - Adão Cruz
 
 

 

Adão Cruz  Bilhete-postal

 

 

(Poema sobre ilustração de autor desconhecido)

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 5 de Março de 2012
Já fui poeta da luz (Poemas de mãos dadas) - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Já fui poeta da luz (Poemas de mãos dadas)

 

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.

 

Quando a vida alumiava o infinito eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.

 

Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.

 

Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino.

 

A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus.

 

Um dia abri as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só me apareceram muralhas.

 

Nada de crianças.

 

Os homens comeram as crianças os homens comeram-se crianças os homens pariram-se adultos.

 

Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro.

 

Por isso a luz se apagou por isso já não sou poeta já não sou poeta nem nada não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada.

 

Talvez louco…

 

O louco não tem número o limite da soma é o vazio.

 

Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa.

 

Não sou quebra-luz nem gavinha entrelaçada num abraço de frio.

 

Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma o fecundaram.

 

Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem seiva.

 

Morreram Afrodites e leões de pêlo fulvo quando se inventou a alma e eu não sou mais do que rescaldo.

 

Já não sou poeta nem nada já não sou quem era… não sinto as noites de prata nem mexe comigo a ventania que varre as faldas da serra.

 

Não me doem as videiras espetadas no céu nem os castelos de fantasia caídos por terra.

 

Cada erva cada semente é resto de uma canção que já não sei cantar.

 

Fugiu do peito o coração foi-se embora o luar e o rio que eu era nem sequer chegou ao mar.

 

Resta-me a tarde que declina como o lento caminhar de uma nuvem para o fundo escuro da noite.

 

Resta-me a saudade dos olhos na luz viva de um sonho perdido num campo de violetas.

 

A tarde declina para onde não há outra manhã de corpos apertados e corações bem perto.

 

Já não sou poeta nem nada nem credo nem sonho nem dilema nem a magra esperança de uma luz que faça nascer um verso para acabar o poema.

 

Sou pirilampo das sombras voando pelos regatos secos não sei se vou longe se vou perto se ao cimo se ao fundo não sei se giro por dentro ou por fora do mundo.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Mas a Senhora quem é? - Adão Cruz

 

 

 

Adão Cruz  Mas a Senhora quem é?

 

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

 

 

   Passei frente à loja onde se deu o crime e lembrei-me…

 

Mataram o meu filho, Sr. dr., e ele está aí.

 

Isto dizia a voz rouca do outro lado da linha.

 

Pousei o telefone e desci imediatamente à urgência que ficava no rés-do-chão. A primeira maca que vi no corredor tinha um corpo coberto com um lençol. Levantei a ponta do lençol e vi logo que era ele, o filho do Sr. José. Tinha um botão de sangue coalhado acima da clavícula, na parte esquerda da base do pescoço.

 

O Sr. José foi porteiro do prédio onde vivo, no tempo em que os meus filhos eram crianças. Ainda hoje lá permanece a sua mesa onde ele sentava, muitas vezes, o mais novo.

 

Viviam, ele e a D. Amélia, numa casinha rasteira escondida numa das ilhas da Rua do Bonjardim.

 

Muitas vezes os encontrei na rua, tristes, abatidos, mas muito amigos, sempre de braço dado.

 

A última vez que os vi, o Sr. José não me reconheceu. A doença começara há muito a comer-lhe a mente até ficar vazia. A D. Amélia tomou as minhas mãos entre as suas e disse-me com as lágrimas nos olhos:

 

Sofremos muito com a morte do nosso filhinho, Sr. dr., sofro muito com a doença do meu marido e com a minha, mas há uma coisa pior que tudo, que me atravessa a alma e quase me arranca o coração do peito. É quando ele, coitadinho, sentadinho na beira da cama, e eu lhe digo, Zézinho queres um chazinho quentinho, com umas bolachinhas, e ele me responde:

 

Mas a Senhora quem é?

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
Maruja - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  Maruja

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Furioso, João entrou na livraria e só lá dentro se deu conta de que era uma livraria gay, de literatura erótica. Não tinha disposição para nada, muito menos para aquilo. Deu duas voltas à sala, cumprimentou e saiu. Madrid estava fria como o seu coração, e sentia uma lagrimeta no canto dos olhos. Atirou-se para a cadeira de uma esplanada em frente e pediu uma fabada asturiana.

 

Maruja tinha dezoito anos e era linda como um cravo. João encontrara-a na Candeia, um conhecido cabaret do Porto. Ali cantava e dançava, sempre acompanhada pela mãe. João prendeu-se de tal modo nos seus olhos negros e na luz do seu sorriso que, durante uma semana, ali passou as noites até de madrugada. Terminada a semana do contrato, mãe e filha passaram para o Casino de Espinho, onde iriam trabalhar mais uns dias. João contou e recontou os trocos, pediu algum emprestado, marimbou-se para a Faculdade e não falhou uma noite em Espinho.

 

Até que a Maruja lhe disse que ia embora para Madrid. Não seria fácil João encontrá-la por lá, na grande cidade, mas que tentasse, se um dia se resolvesse a lá ir. Não tinha morada certa, mas vivia a maior parte do tempo no Monasterio de Las Descalzas e, por vezes, cantava e dançava no Passapoga.

 

Desde Portugal, João viajou na mesma cabine do comboio, com uma prostituta. Em Ciudad Rodrigo, já alta madrugada, um padre fez-lhes companhia. Quem eram, quem não eram, João era estudante de medicina no Porto e ia a Madrid à procura do amor, o padre ia a Salamanca colaborar nas exéquias de um velho professor, e a prostituta, de Coimbra, ia cumprir mais uma temporada numa casa de alterne junto à Plaza Mayor.

 

Depois de Salamanca João adormeceu e acordou em Madrid ao romper de uma manhã seca e fria. Ficou um tanto atemorizado com o silêncio das ruas e com a presença de muitos soldados nos telhados das casas, armados de metralhadora. O cheiro a Guerra Civil ainda não se desvanecera por completo. As camionetas a gasogénio subiam ronceiramente a Gran Via e um ou outro transeunte perguntava se tinha café para vender.

 

João martelou com força por duas ou três vezes o grande batente de ferro do enorme portão do Monasterio, e quando a esperança já parecia esfumar-se, um pequeno postigo lateral encastoado no portão emoldurou uma cara do outro mundo. Uma freira muito feia, com ar de demónio, boca torcida e olhos fulminantes.

 

¿Qué quiere Usted?

Quiero hablar con Maruja, quedé con ella.

Maruja no está ni podría estar. Maruja, ¿qué Maruja, Señor?

La bailarina.

 

A porta bateu com estrondo, quase lhe esmurrando o nariz. João ainda carregou por mais duas vezes no batente, com toda a fúria e revolta. Mas um silêncio pesado cobriu como uma avalanche negra toda a fachada do enorme edifício.

 

A fabada não parecia estar má, mas, apesar de nada ter comido desde a véspera, a tristeza dificilmente permitia que ela passasse da boca para baixo. Esperou pelo cair da noite, gelado por dentro e por fora. Passou junto ao Passapoga e perguntou ao porteiro a que horas actuava a Maruja.

 

Maruja, ¿qué Maruja, Señor?

 

Ainda hoje, ao fim de tantos anos, quando João passa pelo Monasterio, levanta os olhos para a grande fachada e vê Maruja vestida de branco a voar de janela em janela.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012
Desilusão - Adão Cruz
 

 

 

 

Adão Cruz  Desilusão

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso.

 

Minha voz de gravador que outros ouvem só eu não tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

 

Sonho de amor invisível e ateu.

 

Pela escada fantasma do falso destino destino essencial quem subia ou descia afinal…era eu.

 

Nos gestos por dentro nos jardins de contraste da natureza fecunda no penoso brio de um curriculum lavrado na areia meti as mãos na areia e palpei o futuro.

 

Palpei a filosofia dos cadáveres e em febril pulsação espremi a vida dentro de uma mão cheia.

 

Enchi de virilidade a cidade a cidade e o lixo o lixo e o luxo a luz e eu.

 

No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo feito de tempo gasto e de nojo.

 

Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.

 

A verdade era uma mesa a vida os dados e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.

 

Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe não há sim nem não entre passado e presente e o futuro é o deserto que temos à frente.

 

Neste chão de lama na ejaculação abortada nos restos de orgia da orgia de restos em ritmo de coração moribundo sobra o tremor da carne adormecida.

 

A arte o sonho a verdade o viço e a cor perderam o brilho e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
Tu vens - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Tu vens

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

   (Dedicado à Augusta Clara)

 

 

Tu vens

eu acredito que vens

neste céu de cabelos soltos

e seios ao vento

nesta fome de corpo e pensamento.

 

Tu vens

eu sei que vens

é hora de vires

nesta vespertina voragem de felicidade

neste céu da cor da angústia.

 

Tu vens

construir a Primavera
em teu vestido branco de espuma
dominar meu indómito cabelo
com jogos simples dos teus dedos.
Eu quero acreditar que tu vens
pegar docemente nas minhas mãos cegas
e delas fazer uma flor de acácia
com que amacias os lábios
e abres o cofre dos teus seios de fogo.

Tu vens
eu sei
por isso sou feliz no meu silêncio.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
A luz era azul - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  A luz era azul

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

A luz do sol era azul...lembro-me como se fosse hoje a luz azul azulava os claustros as caras e o sentir.

 

Imaterial pálida e fria.

 

As grandes janelas filtravam a luz azul que entrava dentro de nós como chuva miudinha.

 

Pela vida fora senti sempre um arrepio ao recordar essa luz azul e fria.

 

As batinas negras dos jesuítas eram azuis e frias…frias e azuis como os olhos a alma e a sombra.

 

A alma não era nessa altura apenas designação académica por isso ela punha os braços de fora e estrangulava a minha frágil personalidade de adolescente sem sexo nem liberdade.

 

Se Deus existisse e fosse justo teria poupado Ignacio de Loyola à mística cristocêntrica e ter-lhe-ia dado Catarina ou Germana ou Leonor.

 

Se Deus existisse e fosse humano teria posto A Freira no Subterrâneo dentro da pureza dos meus lençóis aquecidos de saudade e vazio azul e frio.

 

A saudade excitava-me vivia-me de dia e adormecia-me de noite.

 

Saudade do Caminho Novo da minha fogueira quente e vermelha do meu sol vermelho e quente do meu campo do meu rio da minha noite de estrelas e luar.

 

A luz azul e fria reacendeu-se ao fim de quase meio século e eu tive medo.

 

A imposição do azul desfaz as formas e os sons e remete para a cidade da morte.

 

Discordo de Kandinsky no movimento do azul para o infinito solene e metafísico a caminho da eternidade tranquila.

 

A culpa foi daquela luz azul e fria.

 

O medo do azul abre as portas do inferno e mostra lá dentro a coragem a arder.

 

Sem coragem não há saudade último reduto da liberdade.

 

Coragem liberdade saudade inverteram as horas e perderam o tempo.

 

Correm agora fora das veias à velocidade de uma luz fria e azul azul e fria.

 

 

.



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Gema de fora - Adão Cruz
 

 

 

Adão Cruz  Gema de fora

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela ele acordou acordou como sempre com pedaços do passado agarrados ao pijama às mãos e aos cabelos.

 

Sentou-se na beira da cama e um sonolento oh que merda soltou-se da garganta ainda seca do bagaço da véspera quando os pés palparam a falta dos chinelos.

 

Moldou os passos ao chão de modo a evitar a madeira fria do soalho.

 

Sobre a cómoda continuava a tristeza à mistura com águas-de-colónia de vários tipos.

 

Abriu um sorriso quando viu no tapete o artigo que acabara de escrever na véspera e que o sono fizera escorregar-lhe das mãos.

 

Dera-lhe o título Orgasmo inspirado numa dessas tardes em que o fim do domingo abre as portas à demência.

 

A caminho do quarto de banho ia pensando nas palavras que nada dizem e na flatulência da comunicação que o fizera deitar-se tão tarde e acordar assim com a gema de fora.

 

Sempre nele permanecera uma grande dúvida quanto à eficácia de debates como o da véspera.

 

Será que têm algum valor como profilácticos da deterioração mental que a idade e os tempos acarretam ou são eles próprios catalisadores dessa mesma deterioração?

 

Sobretudo se tais debates não passam de confusas sinfonias de mediocridade e estupidez discutindo pessoas reles factos ridículos ideias banais estafadas e apodrecidas.

 

Sobretudo se tais debates se processam entre corruptos golpistas e terroristas que invadem as casas maquilhados de gente de bem e cobardemente espantalhados de homens dignos.

 

Sempre pensara que não deve transformar-se em espectáculo o perigo da lavagem dos rostos com o sabão da ingenuidade.

 

A verdade é só uma e ele não aderia de ânimo-leve à tese de que cada um teria a sua verdade.

 

A verdade existe está lá está sempre lá dentro das coordenadas humanas.

 

Há quem dela se aproxime e quem dela se afaste mas o único caminho da verdade é o caminho do entendimento e não há lucidez que não assente na razão.

 

Sem deixar de se considerar que a irracionalidade é o caminho das trevas cada um tem o direito de escolher o seu caminho da verdade mas aí tem-se o direito de o julgar pela escolha se se conhece a formação ou a deformação a inteligência ou a indigência a humildade ou a petulância o rigor ou  a confusão a seriedade ou a manigância.

 

Grande respeitador do relativo e da cultura da diferença considerava-se adversário do consenso do consenso acima de tudo que destrói e anula o indivíduo e da tolerância tolerância como virtude que implica sempre alguém que tolera e alguém que é tolerado.

 

Acordou mal disposto porque não acreditava na existência de debates fluidos corajosos e pedagógicos e mesmo assim cedera-lhes parte do seu tempo de sono.

 

Convidar tanta gente de caras e tantas caras de gente fazer cócegas em temas profundos inacessíveis a mentecaptos meter num mesmo saco capazes e incapazes lúcidos e ineptos fazer de assuntos sérios estéreis discussões criar espectáculos de feira sem receio de sujar a consciência e ofender a verdade era mais do que razão para o incómodo acordar dessa manhã.

 

Já no café da esquina deu de caras com a mulher de longos cabelos negros rosto comprido e olhos paradoxalmente achinesados a quem pedira há cinco anos atrás para posar para si.

 

Esguia quase linear de uma beleza que parecia desenhada a sua figura prendia os olhos que nela tocavam.

 

Sempre que a via recordava-lhe alguém e bulia com qualquer coisa dentro dele.

 

Na mesa do lado via-se que um outro homem seguramente um habitante dessas ilhas que se escondem no ventre da cidade tentara encontrar uma camisita de riscas verdes a condizer com o verde das calças se bem que mais escuro aceitava-se não era muito boa a combinação mas percebia-se a ideia.

 

Já não era de aceitar tão facilmente aquela senhora vista de trás relativamente escorreita blusa da moda e saia quase mini moldando formas enganadoramente jovens que o virar da cara logo atraiçoava ao denunciar as engelhas dos setenta.

 

Ninguém tem nada com isso e se mentalmente o comentava era porque considerava o sentido do ridículo irmão gémeo da inteligência.

 

Uma outra senhora tentava limpar com um guardanapo de papel os pingos de baba que o marido por força de tentar sorrir deixava escorrer dos lábios inertes sobre a gravata cinzenta.

 

Deve ter sido acometido de acidente vascular cerebral mesmo hemiplégico nem por isso deixou de sugerir com a mão válida que a mulher esfregasse suavemente o guardanapo um pouco abaixo da fivela do cinto ao que ela acedeu de maneira afável e sorridente.

 

Em paga ele abriu o livro de cheques e mostrou o que havia por lá.

 

Ela arregalou os olhos e inspeccionou-lhe com falsa displicência o pavilhão auricular tentando arrancar-lhe docemente uns pêlos esbranquiçados e eremitas que teimaram isolar-se do mundo cabeludo.

 

Ciente de que a poderosa dinâmica da vida quer se queira quer não reside no sexo não tinha dúvidas em aceitar que o homem do livro de cheques optaria se fosse possível dar-lhe a escolher por poder levantar o pénis em vez da mão paralítica.

 

Do outro lado uma mulher cheirando a perfume que tolhia bafejou os óculos limpou-os a um pequeno lenço e pô-los em contraluz para ver o resultado mas os seus olhos em vez de fitarem o vidro fizeram esguelha para o companheiro que tinha na frente o generoso cruzar de pernas de uma dessas liberais criadoras de pulsões.

 

Na televisão as eméticas telenovelas e todos os Bancos caridosamente solidários a abrirem uma conta para as vítimas dos incêndios.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
Terra e a poesia - Adão Cruz
 

 

Adão Cruz  Terra e a poesia

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Tenho falado com alguns poetas sobre o que entendem por poesia poetas de muito nome.

 

Cada um deles diz-me o que sente mas ninguém me diz que a poesia nasce como nasce a água da fonte.

 

O homem veio consultar-me sentia sobretudo ao levantar da cama e com os esforços uma dor em barra sobre a tábua do peito que o imobilizava por completo.

 

Era um homem alto seco de carnes magras e duras sem qualquer mazela que se visse.

Nunca estivera doente.

 

Por isso este bloqueamento o intrigava tanto parecia que tinha a mó de um moinho em cima do peito quebrando-lhe as costelas.

 

Não era homem de queixumes mas coisa séria haveria de ser para o pôr naquele estado.

 

Até já lhe haviam dito que o mal seria sabe-se lá uma angina de peito.

 

O senhor tem de facto uma angina de peito.

 

Sr. Doutor eu nunca estive doente em oitenta anos de vida sou um privilegiado não tenho medo da morte pois todos temos de morrer mais tarde ou mais cedo mas tenho pena de deixar o trabalho sem trabalhar não sei viver.

 

Diga-me sr. doutor com a verdade que muito lhe agradeço se poderei fazer alguma coisa.

 

Faço-lhe esta pergunta porque sempre trabalhei no campo casado com a natureza e beijado pelo nascer do sol.

 

Tenho pena porque a enxada nas minhas mãos era uma viola e eu fazia nascer da terra a música que queria.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
Aquela janela - Adão Cruz
 
 

 

 

Adão Cruz  Aquela janela

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 

Abri a janela de par em par e o sol encheu a sala. Respirei fundo e o ar fresco daquela manhã inundou os pulmões. O sangue como que adormeceu na quietude do pensamento. O magnífico impressionismo de Monet desdobrado pelas amplas salas do Grand Palais deixara-me a alma cheia.

 

Sentei-me numa cadeira com os braços apoiados no parapeito da janela, a olhar o mundo e os tectos cinzentos da grande cidade que se estendiam para lá do fundo da rua. Devo ter semi-cerrado os olhos pois não dei pela veloz queda do seu corpo frente à minha janela, apenas o estrondo no solo me fez levantar.

 

Ela vivia no andar de cima, na Rue Mouffetard, e a sua janela era mesmo por cima da minha. Há uma semana atrás, quando tomávamos um esporádico café, segredara-me que a vida já nada lhe dizia.  Falámos de homossexualidade e homofobia, tema que não me interessava particularmente.  A ela parecia dizer-lhe muito, pois ia aos arames com a cara e o ar das pessoas do bar em frente á nossa porta, quando a viam com a mulher com quem vivia. E logo em Paris, ainda se fosse na sua aldeia transmontana!

 

Sempre que vou a Paris e passo pela Rue Mouffetard  levanto os olhos para a janela que estava acima da minha, olhos que logo me caiem nas pedras da rua. Lembro-me do corpo curvado, metade em cima do passeio e outra metade fora, rodeado por uma dezena de curiosos. Uma mancha de sangue deslizava vagarosamente sobre as pedras. Eu sabia que era o sangue dela, pois ela vestia a mesma roupa da véspera quando a encontrei nas escadas, uma saia negra debruada a veludo vermelho escuro e uma blusa azul. Não penses que sou lésbica e não gosto de homens, disse-me, um pé em cada degrau. Gosto muito de ti, por exemplo, que és o gajo mais porreiro que já conheci. Ia para a cama contigo, de olhos fechados. O que me fez afastar deles foi ter caído nas garras do bandalho do meu patrão, quando vim para esta cidade. Deixei a meio o curso de educadora de infância e fui sobrevivendo como ajudante na sua padaria. Ele e a mulher foderam-me bem fodida, o corpo e a alma, durante três anos. Perdi a coisa mais preciosa da vida, a dignidade. Salvou-me uma prima minha que trabalhava no hospital da Salpétrière, onde tu estás, e que me arranjou um emprego na sua cabeleireira.

 

Quando vou a Paris e passo na Rue Mouffetard, paro a olhar as duas janelas, e ainda hoje me envergonho por me ter mantido estático e paralisado no parapeito, sem coragem para descer, quando vi o seu corpo estatelado. Apenas uma coisa me obrigou a acertar os óculos, o livro que jazia meio aberto ao seu lado. Apesar da capa estar voltada para cima eu não conseguia ler o título, mas a cor da capa e a disposição das letras não me deixaram dúvidas de que se tratava do livro que eu lhe havia emprestado uma semana antes. Desci a correr os dois lanços de escadas, tomei-lhe o pulso que me pareceu parado e peguei no livro.

 

Sempre que vou a Paris e decido ir à Rue Mouffetard não deixo de levantar os olhos para as duas janelas, e pousá-los de imediato na rua sobre um livro meio aberto com pintas de sangue, que a polícia me obrigou a entregar, não sem antes me bombardear com perguntas, para que revelasse a minha e a sua vida e o meu tipo de relação com a vizinha, e, sobretudo, para que lhes dissesse a quem pertencia e o que significava aquele poema amoroso escrito à mão na primeira página do livro.

  



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | ver comentários (3) | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
Um amigo - Adão Cruz
 

 

Adão Cruz  Um amigo

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Ambos somos a maior cidade o seio cálido e palpitante o êxtase da geração a excitação amolecida desta idade de volúpia e de efusão.

 

Moderado claro.

 

Estando sempre à mão sendo um abraço supremo não deve curvar a gente a qualquer tipo de sensação.

 

Há os que vêem nele um grama a mais que na gordura não bebam ele não é dieta é ternura afeição criada no destino humano para musicar a vida e fazer dela uma canção.

 

A medida é o espírito de cada um e não o balão.

 

Se é trágica a sua acção pena de morte.

 

Proscrito seja a quem da vida não tem questão a quem o fluido calor da crença enche de momentos incolores que mais não fazem do que criar cataras na razão.

 

Ele é sagrado poético linguagem de horizontes que não pode ser bebida aos copos mas em gotas de emoção.

 

O abuso é uma hedionda metáfora da natureza criadora e tem de ser internado.

 

O estado grandioso do pensamento e da razão não termina nos olhos vazios do silêncio nem no calor da alma embriagada nem nas comissuras reprimidas dos lábios secos.

 

Vamos lá a ver se nos entendemos para além das rugas e dos discursos vamos lá a ver se encontramos a margem do lago sem ondas de agitação.

 

Tomado à medida não é vida feita à toa nem inimigo nem fantasma nem demónio.

 

É o estímulo recíproco entre a alma e o corpo na esfera misteriosa da exaltação que gira e se renova dia a dia no alternativo universo da verdade e da ilusão.

 

Ele fascina é certo mas isso não interessa senão às almas menores.

 

Para estas maldito seja o veneno e venha a polícia prender os sonâmbulos os fazedores de gargalhadas os ruidosos contra-sensos da dialéctica.

 

Sorrir por fora não existe não arrebata e nada cria.

 

Bebido à medida do espírito à altura do peito contém a mágica atracção e a complexa virtude de fazer olhar as ondas mesmo sem jeito dos que pensam ter jeito de observação.

 

As mundanas inflexões da felicidade são uma merda.

 

Frémitos delírios desejos loucuras explosões braseiros desertos excertos de alma penada intermitências de eclipse raízes no céu e flores na terra mortos que respiram ar de vivos…não.

 

Entre o amigo e o pensamento a racional homeostasia da vida…isso sim.

 

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARGONAUTAS

Adão Cruz

Afonso da Rocha Aguiar

Aleksandra Serbim

Álvaro José Ferreira

Amadeu Ferreira

Ana Afonso Guerreiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Mão de Ferro

António Marques

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Dorindo Carvalho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Pereira Marques

Francisca da Rocha Aguiar

François Morin

Hélder Costa

João Brito Sousa

João Machado

João Vasco de Castro

Joaquim Magalhães dos Santos

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Goulão

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Peres Lopes

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Margarida Antunes

Margarida Ruivaco

Maria Inês Aguiar

Mário Nuti

Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)

Moisés Cayetano Rosado

Octopus

Paulo Ferreira da Cunha

Paulo Rato

Paulo Serra

Pedro Godinho

Pedro de Pezarat Correia

Raúl Iturra

Roberto Vecchi

Rui de Oliveira

Rui Rosado Vieira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Vasco Lourenço

pesquisar neste blog
 
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Mãe - Adão Cruz

Inadmissível atentado ao ...

Comemorações da hipocrisi...

Esse bocadinho de tarde c...

Ressurreição - Adão Cruz

O pecado original - Adão ...

Poema Inteiro - Adão Cruz

Zulmiro - Adão Cruz

Ser gente - Adão Cruz

Bilhete-postal - Adão Cru...

Já fui poeta da luz (Poem...

Mas a Senhora quem é? - A...

Maruja - Adão Cruz

Desilusão - Adão Cruz

Tu vens - Adão Cruz

A luz era azul - Adão Cru...

Gema de fora - Adão Cruz

Terra e a poesia - Adão C...

Aquela janela - Adão Cruz

Um amigo - Adão Cruz

últ. comentários
Óptimo texto do Álvaro José Ferreira sobre o Berna...
Amigo Josep,O teu português é excelente e a anos-l...
Na ex-Jugoslávia, nenhuma etnia está isenta de cul...
Quanto mais não fosse, ficar-lhe-ia para sempre gr...
Carlos Leça da Veiga pede que coloquemos este seu ...
Caro amigo, peço-lhe desculpas pelo meu português ...
Amigos Josep e Carlos,A teologia sempre foi uma ár...
Este Estuário ficou lindíssimo. Posso afirmá-lo po...
Ser mãe é ser pedra, muro, ser a mão que nos agarr...
Obrigada pela dica no facebook, Augusta, belíssimo...
Muito obrigada por publicar a notícia. Lá imos hoj...
É ver por que cartilhas andam os nossos dirigentes...
Estou inteiramente de acordo com o teor deste comu...
Baseado na experiência inglesa, Jean-Jacques Rouss...
I és clar que és una nota d'humor. I així l'he lle...
Pentacórdio (agenda cultural)
14 a 20 de Maio - Parte I

14 a 20 de Maio - Parte II

14 a 20 de Maio - Parte III

arquivos

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

todas as tags

participar

participe neste blog

Posts mais comentados
subscrever feeds
Economia
links