Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
A SAÚDE EM PORTUGAL – por Raúl Iturra

No nosso país há, pelos menos, três grandes pilares da sociedade em que muito ainda há para melhorar, a saber: a educação, a justiça, a crise financeira e o atendimento na saúde pública. É sobre este último, o atendimento na saúde pública, que hoje escrevo.

 

O Estado português implementou, após o 25 de Abril, o Sistema Nacional de Saúde para atender todos os utentes que dele necessitassem. O princípio é, na minha opinião, de louvar, contudo, diz-nos a prática, muito há para melhorar, sobretudo ao nível organizacional e de gestão dos recursos materiais e humanos. Por exemplo, tenho constatado que para se obter uma consulta no próprio dia nos Centros de Saúde, os utentes, ditos doentes, começam a aparecer de madrugada, pelas 5 horas, permanecendo no exterior até às 9 da manhã, hora de abertura dos serviços, esperando por uma senha que lhes permita ter acesso ao médico. Os médicos dos Centros de Saúde, refiro-me ao concelho em que habito, aparecem perto do meio-dia e nem têm tempo para ver e tratar todas as pessoas da fila multitudinária, que espera um dia e outro, vão-se embora e regressam de novo na madrugada seguinte para mais umas horas de espera ao relento, com a esperança de, desta vez, terem senha. Ora, esta organização é propícia ao aparecimento de «esquemas» como tenho observado, há pessoas que vendem as suas senhas, outras que pagam a quem as gere, para poderem entrar. Triste espectáculo!

 

E nos hospitais? Somos atendidos pelos melhores licenciados em medicina, mas, infelizmente, são poucos para tanto público. Ser atendido num hospital pode demorar de três a cinco horas, para cinco minutos de atenção.

 

Atenção, por vezes, extremamente simpática, como me tem acontecido, mas outras muito classistas.

 

Os favores e trocas existem entre o pessoal hospitalar. É preciso um troco de simpatias, uma invenção, para sermos atendidos pelo sistema público. Nem falar do privado. Um exame que custa no sistema privado 250€, no público paga-se 2€ 35 cêntimos, o correspondente à taxa moderadora. Com a crise económica que vivemos, quem pode pagar a importância pedida pelo privado?

 

Há dias, num hospital público, observei mais de 300 utentes à espera de serem chamados, corredores cheios de pessoas, para os poucos médicos que entregam a sua saúde, saber e serenidade aos pacientes espalhados por todos os hospitais do país.

Comentava este assunto com a minha mulher, e ela, que bem conhece Portugal, disse-me que, independentemente das horas de espera, temos a garantia de sermos observados e tratados, caso seja necessário, nos hospitais públicos e nos centros de saúde, sem haver qualquer constrangimento com seguros, como por exemplo acontece nos EUA.

 

Admiro as senhoras e senhores médicos. Moram o dia inteiro em prédios que são hospitais, mal pintados, sem lugares para descansar. Bem como a simpática atenção de médico a utente.

Há os que entram no sistema privado. Há os que entregam o seu patriotismo à nacionalidade trabalhando em péssimas condições.

 

Há os que utilizam abusivamente o Sistema Nacional de Saúde e há, ainda, os que se entregam à Nossa Senhora de Fátima… Faltam-nos os que «olhem» para os serviços de saúde em Portugal pensando-o num todo, desburocratizando-o e moralizando-o, isto é, as parcerias com o Ministério de Educação são urgentes, para ensinarmos os mais jovens a utilizar correctamente um bem tão precioso como é o Sistema Nacional de Saúde.

 

Eu, como Etnopsicólogo, faço destas esperas intermináveis, trabalho de observação participante…

 

A seguir -  Confiança



publicado por Carlos Loures às 14:00
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Sábado, 12 de Maio de 2012
O CRESCIMENTO DOS FILHOS É A MORTE LENTA DOS PAIS – 1 – por Raúl Iturra

1. Introdução.
O título é uma hipótese que tenho andado a observar já algum tempo. Parece existir uma estrada de dupla via, dois caminhos que são paralelos entre ascendentes e descendentes dum ser humano, um cruzar-se nas diferentes etapas da vida entre adultos e crianças. Um efetivo avançar das crianças que resulta num aparente declínio dos pais. Parecendo que, à medida que a criança cresce, o adulto inicia esse declinar e não a procura de outros objetivos não entrosados à vida com a qual sempre sonhou ou para a qual se preparara ou que teria sido preparado. Todo o adulto, na nossa cultura, é ensinado que o seu objetivo é fazer crianças, nutri-las, cuida-las, ajuda-las no seu crescimento e educa-las.
Ama-las. Ser o peão de pivô, o fantasma do objeto da vida, o apoio necessário para os que andam a aprender. Modelo para filhos, ou para a nova geração, caso filhos não houver. A questão que se coloca não é simples: um dia nasce uma criança e os adultos, alvoroçados, sentem e pensam que o seu olhar deve ser reproduzido; seu pensar, um elo central; as suas palavras, a lei sagrada a ser respeitada. O seu amor, o centro da forma de reproduzir o grupo social. Reprodução com ou sem descendentes, reprodução como memória histórica: o que eu faço é bom, e era melhor ainda, se a geração seguinte fizesse igual. Igual nos sentimentos que me fazem feliz, igual no agir que faz de mim o centro do meu grupo social.
 Conquistar a minha hierarquia e ultrapassa-la. Parece ser o sentir das pessoas que tenho analisado este verão na Beira Alta de Portugal, em Pencahue, no Chile e as continuadas visitas a Vilatuxe, Galiza. Sítios que dinamizam a minha observação, a minha conclusão e a minha emotividade.

 

2. O crescimento das crianças.
Faz anos que convivo com as crianças desses lugares. O tempo passa, elas crescem. Os pais parecem ser os mesmos, enquanto amadurecem. Não só não ficam mais velhos, bem como entendem o real com maior parcimónia Não por anos atrás de anos, terem uma cronologia com um algarismo a mais: o número é irrelevante, a experiência é o mais importante. O adulto vai entendendo a memória social e o contexto que a cria, que a dinamiza, que a produz, que lhe lembra o que fazer, quando e como. Memória que, desde a via paralela, a geração mais nova observa com curiosidade por investigar esse real. Não é ainda uma experiência acumulada, não é ainda uma experiência amadurecida, é apenas uma experiência que desenha o futuro, que quereria querer encontrar. Quereria querer. Quereria atingir. Atingir para conquistar o seu lugar.
 Tal e qual o adulto já atingiu criando para si um nicho social dentro do seu grupo. Vias paralelas que se observam: a miudagem que tenta entender esse querer amar, esse querer possuir, esse querer preparar uma vida folgada como recompensa a uma vida de trabalho. O adulto folga-se do sucesso enquanto a miudagem se afasta do cansaço que no sucesso do adulto, vê. O adulto pensa e sente que a sua vida é o lar ao qual a criança deve, um dia, chegar. A criança pensa e sente que esse lar já foi trilhado e é tempo de começar de uma forma diferente.
Os seus adultos foram pais bem cedo, as crianças querem adiar a criação para o dia em que tenham uma vida económica viável. Os seus adultos apaixonaram-se quase na puberdade e criaram crianças; estas, por sua vez, começam a distinguir entre paixão e amor: a primeira, como a junção de corpos no prazer de se acariciarem; o segundo, para cimentar uma união que acompanhe duas pessoas numa eventual procriação ou criação, acrescentando carinho à paixão e ao amor. Um terceiro sentimento novo, que permite a organização de uma vida a dois que os acompanhe até o fim dos seus dias.

 

 



publicado por Carlos Loures às 14:00
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012
O DIA DO TRABALHADOR – por Raúl Iturra

 

 

No dia em que escrevi este texto não imaginava que nem a grave servia para aliviar a nossa miséria, a nossa falência, a nossa fome, falta de trabalho, as lutas políticas e gastos desnecessários. Pensava que éramos bem governados. Enganei-me redondamente. Em frente de nós, temos uma luta política que desactiva os investimentos e cada dia ficamos mais pobres. Nem a greve ajuda ao bom governo e a desafiar os que nos tratam mal. É melhor recordar os bons momentos em que a força de trabalho tinha a sua própria força e os proprietários tremiam. Para se defender, matavam, despediam, investiam noutros sítios e fugiam de nós.

 

No dia 1 de Maio celebra-se o dia do trabalhador. Por outras palavras, celebra-se o dia do operário ou do proletário industrial ou rural. O motivo, nem sempre é conhecido. Apenas sabemos que, em Portugal, por estes dias, estamos todos paralisados pelas greves que o povo oferece ao Governo que em nós manda, por ter cometido o imenso pecado de não pagar ordenados mais elevados que o custo de vida e porque se tem de trabalhar mais horas. Como é definido pelo Código do Trabalho Português, um horário de labor, são oito horas por dia, sem incluir dias de festas e Domingos. Se for um serviço que requer continuidade, como transportes, água, energia eléctrica, enfermagem e outras especialidades como a de trabalhar nas minas de carvão, extrair óleo de poços escavados na terra ou no mar, essas oito horas são rigorosamente cumpridas por turno. A população está bem servida, o povo não.

 

Em tempos idos, há já muitos anos, quando exercia a minha outra profissão, a de advogado, defendi os sindicatos que não tinham lei nem direito à greve. O operariado agarrava-se ao meu saber legal e às poucas liberalidades que os chamados governos  democratas, ofereciam. Havia a lei de despedimento com ou sem justa causa. Justa, para quem despedia, injusta, para quem perdia o trabalho.

 

Tempos em que famílias com lares acomodados alugavam o trabalho de uma mulher jovem e solteira, que trabalhava desde as 7 da manhã até à noite, sem qualquer inscrição e quotização na caixa de previdência, para assegurar o seu futuro e contava apenas com um Domingo por mês para ir passear ou namorar, ou ver a família. Os tempos mudaram, as criadas ou mulheres-a-dias chamam-se agora empregadas de limpeza e o patrão deve entregar uma importância não retirada do seu ordenado, para a sua segurança social.

 

Porém, não havia apenas esta profissão desfavorecida. Tive, no meu cartório, dois grupos de pescadores, que viviam do que conseguiam retirar do mar para vender nos mercados ou nas ruas. Tivemos a ideia de formar um sindicato, sendo eles próprios os seus patronos, com um presidente e um grupo de directores que alertaram para que estes trabalhadores se inscrevessem numa Caixa de Previdência, ou fizessem investimentos, além do trabalho da pesca, para, assim, puderem viver com mais decência. Para materializar esta ideia, os dois sindicatos, situados em sítios diferentes da minha cidade, Valparaíso, compraram terrenos, construíram casas e, ainda, mantiveram um pedaço de terra para ser cultivada. Nunca esquecerei, como estes meus clientes obedeciam a tudo o que eu lhes dizia e fiscalizava nas contínuas visitas às suas casas, nas que almoçava ou até ficava a dormir. Foram os melhores amigos que tive nos meus vinte anos de idade. Da minha mulher também. Os do cais Caleta Abarca, entre Valparaíso e a cidade balnear de Viña del Mar, organizaram um bingo e o dinheiro arrecadado foi usado para comprar um artefacto de cristal talhado – no Chile chamam-se poncheiras, para preparar sumo de frutas com álcool, e doze taças, do mesmo material. Estava em minha casa, quando o Presidente e os seus colaboradores, apareceram uma noite e ofereceram a dádiva. Fiquei… comovido. Convidei-os para o nosso casamento. Agradeceram, mas recusaram: “Don Raúl, o povo é o povo e não se deve misturar com pessoas de classes mais altas”…. Frase que me fez pensar e, já casados, mudei de profissão para me doutorar em Etnopsicologia. Tornou-se urgente, para mim, aprender como as pessoas pensam. Assim aconteceu: saí do país, estudei ciências da educação e etnologia, nas Universidades britânicas de Edimburgo e Cambridge. Aí fiquei, até aos dias de hoje, pesquisando e estudando pessoas em bairros ou aldeias de outros países.

 

Dia do trabalhador? Foi o que me comoveu e fez de mim um proletário intelectual, com filhas e netos. Sempre a andar entre as universidades em que ensinava e as aldeias pobres para entender o pensamento da infância e o seu crescimento. Primeiro de Maio? Porquê? Já fundada a Organização Internacional do Trabalho por Karl Heinrich Presborck Marx e a sua mulher, a Condessa prussiana que tudo deixou pela causa dos trabalhadores, Johanna von Westphalen, da mesma maneira que o seu marido ao abandonar a advocacia para se dedicar à filosofia e, através dela, aliada à economia, descobrir a fórmula da mais-valia, que cria o capital e retira ou aliena os bens produzidos pelo proletariado, causando, como diz Ratzinger (Bento XVI), um decaimento nas faculdades mentais dos descosidos e que Marx foi o único a entender esse facto, o que faz da sua obra um pilar de liberdade.

 

Em 1886, realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos da América, reivindicando a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias. A manifestação contou com a participação de milhares de pessoas e deu início a uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou em escaramuça com a polícia levando a morte alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.

 

Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, asegunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu, por proposta de Raymond Lavigne, convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago. Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama-o como dia internacional de reivindicação de condições laborais. Fonte: os Livros de Eleanor Marx sobre o materialismo histórico, a sua Biografia sobre o pai, Karl Presborck Marx, e o texto do seu genro, Paul Lissagaray, La Commune de Paris, traduzido por Eleanor para inglês.

 

Em 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica a jornada de trabalho para 8 horas diárias e proclama o dia 1 de Maio, desse ano, feriado. Em1920, aRússia adopta o 1º de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países. Apesar de até hoje os estado-unidenses se negarem a reconhecer essa data como sendo o Dia do Trabalhador, não negam que, em1890, aluta dos trabalhadores estado-unidenses conseguiu que o Congresso aprovasse a redução da jornada de trabalho de 16 para 8 horas diárias.

 

 

Os artistas usam a sua criatividade e o povo a sua força sindical.

 

(Escrito no dia em que a minha família faz greve e a minha mulher pede divórcio, após 43 anos de casamento).

 

 



publicado por Carlos Loures às 14:00
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
O STRESS - por Raúl Iturra

 Ensaio de etnopsicologia

 

Duas correntes debatem o objetivo e a finalidade do Stress. A primeira, a que combate o que se denomina uma doença. A segunda, essa que opina que o stress é o melhor que pode existir na interação humana, por causar concorrência, concorrência necessária para vencer.

 

A calma é para os fracos. Stresse-se. Ou a história que retiro de um documento: O homem casado. O que nunca, nunca, nunca está livre ao fim-de-semana, raramente à noite, na intimidade com a sua mulher, olha para o relógio e diz: - "Mas querida sabes bem que é a ti que eu amo. E adormece. Estas duas ideias, retiradas da minha experiência de trabalho de campo e de ouvir as conversas entre as pessoas, representam as duas correntes mencionadas.

 

Quem pensa que é uma doença, afirma que é provavelmente o quadro clínico mais frequente que existe. E descreve uma série de doenças causadas pelas corridas dentro das vias da vida, tais como o trânsito, os assuntos financeiros, os profissionais, os familiares, a situação geral da nossa vida. São estes fatores que dinamizam o nosso corpo de forma a produzir quantidades anormais de adrenalina, que podem causar o referido stress. Nas crianças causa distúrbios alimentares: anorexia, bulimia, comer compulsivo, sentimento de abandono e de rejeição ou ainda outro tipo de manias entre adultos ou nas crianças: manias como distúrbio ou transtorno obsessivo compulsivo, cleptomania, jogo compulsivo na rua ou entre irmãos, sexo compulsivo, sem paixão nem desejamos, compras compulsivas. Ideias retiradas dos textos do Dr. Rubens Pitliuk e equipa, do Hospital Albert Einstein de São Paulo, grupo dedicado no dito sítio clínico, a análise dos transtornos do temperamento, ao usar terapias como psicoterapia analítica e psicoterapia comportamental, entre outras.

Parecemos estar familiarizados com o processo do stress, com os seus diagnósticos, os estudos especializados, as análises convencionais, o tratamento de crianças por meio de métodos de Pedo psicólogos, esses que Alice Miller, citada nestes textos vezes sem fim, critica em livros, conferências e tratamentos; ou consumo de anti depressivos, de drogas contra a ansiedade, confidentes, choramingar no ombro de pessoas íntimas é outra aspeto do perigo do stress. De uma ou de outra maneira, todos vivemos no meio de elementos que dinamizam a doença que hoje em dia tanto combatemos.

 

E a felicidade? Para os meus dias íntimos de tristezas, de solidões, de críticas, de não ser amado como eu amo, de não ser desejado como eu desejo, criei uma frase que denomino a terapia do riso: e canto, escrevo, ando, falo de arranjos florais, procuro a ajuda de amigos que me fazem andar, que me mandam não trabalhar muito e retiram de mim o que denomino as drogas da morte anunciada: café, tabaco, álcool. E aceito a solidão e vou criando atividades, ideias, no debate com os meus estudantes ou nos meus seminários. O melhor segredo são as conversas sem destino entre dois seres humanos, sem debate na base do conhecimento, andar pelas ruas a observar, com discrição, as pessoas, ou dar força à má-língua.E retirar do meu corpo o cansaço por meio de admirar uma obra de arte, ler um livro ou escrever o próximo. Saber retirar-me das obrigações que me possam facilitar uma vida cheia de zanga.... Especialmente, nunca ligar aos que nos fazem mal, porque o stress conduz facilmente à esquizofrenia. Saber parar o trabalho atempadamente, saber ouvir, ver e calar e responder apenas se somos questionados...ou esquecer os turbilhões, como faz a Ana Paula Nazário, que no meio de uma vida sacrificada, vê, ouve, cala e dá frases de cooperação.

 

Ainda falta pensar nas crianças e passar pelas formas de anti stress que merecem, a começar pela análise do carinho largo e querido dos seus adultos de fantasmas, como diriam Freud, Klein, Bion e Cyrulnik... Ensinar-lhes a vestir o casaco para ir à guerra...

 

A seguir -



publicado por Carlos Loures às 14:00
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Sexta-feira, 9 de Março de 2012
CATEQUESE E SEXUALIDADE INFANTIL. UM MANIFESTO - por Raúl Iturra

Hoje em dia sabemos a verdade. Sacerdotes celibatários abusam das crianças. Anteriormente, sem saber deste latrocínio, deste abuso ou crime de pedofilia, escrevi o seguinte:X No seu texto inédito Pragtamisme et Sociologie, (manuscrito em minha posse) proferido na Universidade da Sorbonne de Paris, durante o ano de 1913-1914, o velho socialista e materialista histórico, Émile Durkheim, comentava que os velhos deuses estavam mortos e que a religião estava em vias de mudança. Mas, acrescentava, nem tanto assim, porque todo o ser humano precisa de ritos, ideias, ética, interação moral, orientação na criação dos seus descendentes. Donde, a Religião, seja ela qual for, pelo menos define as relações emotivas e pedófilas (o meu acréscimo) entre pais e filhos, voir mães, pais, filhos, filhas.

 

A nossa língua não tem, ainda, um conceito para designar estas relações, apenas excepto ascendentes e descendentes, palavras sem música e indefinidas. Era o que eu pensava antes de saber da existência da pedofilia , incesto e adultério , que não são definidas na catequese, por conveniência de sevicio. Nem o Catecismo de Wojtila, 1992, menciona esta atividades criminosas, excepto o adultério. Max Weber entre 1904 e 1915, ocupou o seu tempo em definir esses conteúdos entre Xiitas, Budistas, Luteranos, Calvinistas, Cristãos Koptos, Cristãos Arménios, Cristãos Romanos. E são estes os que nos interessa entender melhor, por sermos, por um lado, um País em debate sobre a educação sexual da infância, e por outro, um País de Concordata entre o Estado Vaticano e o Português. E, no entanto, os cristãos romanos falam pelo seu grupo nos lugares de mando, sem separarem o seu dogma dos interesses da população. Bem sabemos que se ensina, como optativa, uma disciplina que pode ser ou Educação Cívica ou Estudos Religiosos, como sabemos também que a Igreja Romana tem decidido ensinar as suas ideias conforme são decretadas no Vaticano. Os Cristãos Romanos não podem pensar na forma de serem pais, ou ainda, se querem ou não sê-lo.

 

Desde 1566, quando o Papa Pio V publicou o Catecismo de Trento, a família passou a exemplo do que fizeram Martinho Lutero, o Rei James Tudor da Inglaterra e Jean Calvin, uma regulamentação obrigatória, escrita em línguas faladas pelo povo e ensinadas ao povo desde o primeiro dia do seu entendimento. Diz o Código de Direito Canônico de 1983, no cânon 97, # 2, que toda a criança tem uso de razão, a partir dos sete anos de idade, logo, tem deveres . E esse primeiro dever está definido nos artigos 2196 até ao 2246, incluindo - no artigo 2201- dentro dos deveres de família, como a base da união da vida social, a semente da interação, a obediência à autoridade civil, porque à Eclesiástica já está dita no Capítulo II do catecismo denominado da Igreja Católica, artigos 50 a 68, com minúcia e muita história sintética. Estes artigos não dão muita opção à liberdade individual, tal como ela é definida pelo mesmo texto e pelo de Direito Canónico, que define obedecer ao Código Civil e aos outros Códigos que governam as nossas vidas, artigos 1877 a 1917, com minúcia também.

 

Nada escapa à gestão da vida social para os teólogos que organizaram este, como outros, catecismos, para a sua conveniência libidinal. Assim, pergunto-me, porquê Françoise Dolto, essa terapeuta falecida recentemente, escolhe falar num dos seus livros, L’Évangile aux risque de la psychanalyse, Seuil, 1977, da parábola do Filho Pródigo que Lucas no capítulo XV do seu Evangelho, Versículo 11 a 32 reproduz como imitação de Jesus: o filho mais novo vai embora, pede ao seu pai a sua parte de bens, delapida-a, e volta a casa pobre e mal ferido; o pai faz uma festa para o receber que, o irmão mais velho critica ao dizer que ele trabalhou e nunca desobedeceu nem fugiu e não é comemorado. O pai diz que o ama, mas que o filho que voltou, é a ovelha recuperada para o redil. Como as crianças abusadas, os abusadores estão, com justiça, em tribunal. De facto, Françoise Dolto analisa com cuidado as semelhanças entre o pai e o filho mais velho, o largo tempo gasto juntos, com objetivos de vida e trabalho a serem semelhantes, e, por ser justo e verdadeiro, reconhece no filho que volta, a sua própria maneira de agir, de responsabilidade retomada e que o mais velho não tinha por causa de ser silencioso e subordinado, sem uma ponta de debate com o seu adulto. Dolto escolhe Lucas, Wojtila o João Paulo II e os seus teólogos, escolhem Mateus e Paulo de Tarso para falar de família, obediência, subordinação. Mas, os delitos são ocultados, excepto Freud em 1906 e 1923.

 

Aliás, Wojtila define o bem como comum desde que tudo seja feito como Barnabé diz na Epistola 4, parágrafo 1: no vivais isolados...como se já fosseis justificados; reuni-vos para procurar em conjunto o que é de interesse comum; ou na Encíclica Gaudium et Spes de Paulo VI, dos anos 60 do Século XX: o direito de agir conforma a própria consciência, direito à salvaguarda da vida privada e à justa liberdade, mesmo em matéria religiosa? Donde, um bem comum contraditório, como contraditória é a rejeição ao Socialismo e ao Capitalismo, Artigos 2425 a 2443, que desdenha formas económicas de mais-valia, embora aprove a propriedade privada, manda aos ricos assistir aos mais pobres, sem mandar repartir os recursos entre todos. Vida sexual? Até há pouco, o catecismo usado era o de Montini o Paulo VI, porque o de Wojtila admite o amor entre pessoas do mesmo sexo, apesar de definir que a intimidade sexual é para fazer filhos; não pune a masturbação que, durante Séculos, era o pecado mais confessado, e não condena o amancebamento, ou seja, viver em união sem o Sacramento do Matrimónio. Mas de pedofilia e de incesto, ninguém fala, melhor dizendo, ninguém se atreve a falar.X O que entendem as crianças deste conjunto de contradições, sem contar com as carícias dos celibatários que lhes ensinam o que é mais conveniente para a vida do grupo social em que habitam. Esta conveniência vê-se logo na comemoração de Fátima e o esquecimento da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal, desde que a guerra da recuperação da Liberdade e Soberania Portuguesa, ganha em Vila Viçosa, história que poucos parecem conhecer, por Fátima ser um sentimento e a Imaculada, um facto.

 

O meu maior medo é esse: o ensino da lógica da História, que denomino religião, por pessoas entregues a predefinições, dogmas de fé, ideias nunca provadas e ensinadas a crianças cujo dever, dizem os Romanos que nos governam, é a produtividade e o conhecimento para organizar empresas, sem referir a venda de filhos para pedófilos e ocultam o mais comum dos crimes, o incesto. Que o povo não ouve? Mas, meus senhores, porque tivemos mais de duas semanas uma Assembleia da República a debater o que se ensina e quem o faz? Que sabem os senhores deputados, de esquerda e de direita, dos textos usados neste artigo? Como consideram os que devem curar, entender, tratar, dar argumentos, da religião? Será como essa frase de Feürebach de 1842? Será entregar-se a mãos desconhecidas, mas milagreiras, que fazem das rochas, pão? Frase do criador da psicanálise, que Freud soube usar como Dolto e outros e recuperar essa fraternidade e igualdade prometida a todos nós desde o começo da nossa era.

 

As crianças andam em péssimos lençóis se, pessoas como eu, ateias, não se interessam com as bases do pensamento cultural que incluem e permitem os crimes mencionados e abandonam o processo de ensino a hierarquias que a Concordata e os nossos poderes hierárquicos, mandam. Que não digo mais do sexo? Mas, não está ele dentro disto tudo, por acaso? Haja um Deus que nos proteja deste debates desinformados que a Assembleia usa para nos deixar nas mãos de uma teologia mais velha que o Concílio de Trento de 1542. Aos meus filhos, ensino eu: aprendem a pensar comigo e eu, com eles. É o que se devia discutir dentro dos poderes, antes de benzerem com a espada ou com a cruz. Apenas nos anos em que famosos da sociedade aparecem como pedófilos, é que a lei e os tribunais, como os fiscais, se interessam dos crimes referidos, julgam, levam o caso a tribunal e aos felones à cadeia e a tribunal, no julgamento mais comprido da história do direito em Portugal.

 

A catequese é a atração dos mais novos, por meio de parábolas, para depois usar os seus corpos como satisfação erótica. Os pais que leiam este texto, atenção com o que acontece na transferência de saberes divinos e o erotismo que os mais novos acordam nos adultos. Será uma obrigação saber o catecismo num povo católico romano, mas, atenção com os abusos dos catequistas cristãos que abusam dos (as) catequizados. Pais que deviam antes entrevistar os que ensinam e apenas depois, enviar ou não aos seus descendentes para aprender ou estudar em colégios privados, como Salesianos e Maristas. Não sou eu quem julga, são os fiscais e os tribunais. Todos sabemos os casos, não é preciso distinguir. É dever de pais e mães, se são tão crentes, tomar atenção para onde enviam aos seus filhos a prender ou catequeses ou ciência.



publicado por Carlos Loures às 19:00
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Quarta-feira, 7 de Março de 2012
A CRIANÇA DITA INCAPACITADA - por Raúl Iturra

ENSAIO DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA

 

 … para minha amiga Ana Paula Vieira da Silva, que inspirou a ideia deste texto ….

 

Estamos habituados a definir os limites da infância. Habituados a comandar os seus afazeres, bem como a desenhar os seus dias, hora após hora. Mandamos nelas. Dispomos delas. Pensamos por elas. Dizemos em vez delas. Pensamos que as conhecemos e até, sem as conhecer, as definimos. Eu, nos meus textos, Freud, na sua teoria. Os pedo-analistas e pedo-psicólogos, nas suas teorias, como costumava dizer Alice Miller , (Falecida em 2010), no seu texto de 1988: Das verbannte Wise , traduzido pela Tusquets de Barcelona como El saber proscrito, refugiam-se nas teorias com o intuito de não se confrontarem a si próprios ao analisar uma criança, ou não encontrar, nelas, rastos das crianças que foram.

 

A própria Alice Miller afirmva, no mesmo texto, Capítulo 3 da III Parte, que a criança impõe limites. Donde, a criança define. Leitor, preste bem atenção, esta é a realidade.

 

Miller conta, a propósito, uma história que penso que o leitor devia ler, para melhor entender essa nossa batalha pelo saber da epistemologia da criança. Epistemologia ainda não conhecida, que arrisca um processo emotivo mal-entendido e um educativo ainda pior. Para estarmos certos do que o adulto pensa da criança, bastará ler o artigo 65º do Código Civil Português, versão de 2007, no seu n.º 1: A personalidade ou capacidade jurídica é a sugestibilidade de se ser sujeito de direitos e obrigações, isto é, de realizar atos jurídicos. E acrescenta no Artigo 123º: Salvo disposição em contrário, os menores [de 18 anos] carecem de capacidade para o exercício de direitos. Antes, no Artigo 14º, estabelece que a incapacidade dos menores é suprida pelo poder paternal ou do tutor.

 

Por outras palavras, a criança não é pessoa, não tem capacidade, por parecer não entender o valor dos bens, nem como celebrar contratos. Ideia do campo jurídico, retirada da experiência: a infância parece não saber gerir um património. Mas, esta incapacidade, jurídica, estende-se ao quotidiano e ao campo das emoções da criança.

 

Ou, por extensão e também por outras palavras, a população inteira de uma Nação pode ser considerada incapacitada, por não saber o que é o PIB, ou a fórmula do Multiplicador de Investimentos do britânico Lord John Maynard Keynes, as bases de produtividade de uma empresa, os motivos de despedimento do trabalho ou a estrutura do processo de produção de uma lei, Lei-Decreto, decreto-lei, lei, decreto, lucro, mais-valia, ou outros conceitos relacionados com a reprodução da vida.

 

De duas, uma: ou a maior parte de uma Nação é incapacitada, ou a criança é tão adulta quanto o resto dos seus concidadãos. Ou de duas, três, quem especula com o multiplicador de investimento tem capacidade e é pessoa, sendo o resto apenas sujeito, do qual se retira valor a mais para o lucro do conhecedor da produção do PIB, da lei feita para ele e das definições criadas para manter a população com capacidade de produzir, e não de investir. Sujeito que inclui adultos e crianças que não disto não sabem, nem imaginam. A infância, antigamente um largo segmento da população, parece hoje reduzido a um envelhecido segmento adulto, por causa do lucro dos investidores. Não é esta a igualdade à qual a criança aspira, dentro dos seus conceitos, definidos nas suas emoções e nas palavras usadas para exprimir uma realidade.

 

Pensava, enquanto falava com uma especialista no tema, em Portugal, Ana Maria Bénard da Costa , que era atribuída incapacidade às pessoas nascidas com o denominador de Inteligência muito baixo, ou com acidentes biológicos ou genéticos, ou cegos, ou mudos ou surdos. Estas crianças despertam comiseração entre adultos. E no entanto, por força do já referido, toda a criança é afinal incapacitada. Ou porque não pode ler, ou porque, ainda que tendo lido, não entende; ou porque não pode ouvir, ou, ainda que ouvindo, não percebe. A lei não distingue as heterogéneas incapacidades da infância, bem como não entende a semelhante incapacidade do adulto. As crianças com posses, sabem gerir, por imitarem os seus adultos, produtores de leis e conhecedores do multiplicador de investimentos; as crianças sem posses, não têm de onde ou como, imitar esse agir, qualificado pela lei como capacidade. As (os) Educadores de Infância sabem, muito bem, os limites dos mais novos. Esses limites, navegam pela via das emoções ou, por essa outra, mais difícil de ultrapassar, a de ter meios para gerir e saber lidar com recursos. Porque, leitor, na minha longa prática de tentar entender o pensamento dos mais novos, observei, neles, a capacidade para bem entender a correlação meios-lucros. Uma correlação que o adulto esquece, no seu hábito de poupar para continuar, sem fome, dentro da História; para não ser um excluído social, cujo rendimento lhe é retirado pela globalização. Conceito a que a criança não tem acesso, pela falta de entendimento do conceito no seio da família, à qual, por sua vez, até hoje, ninguém o explicou. Maastricht é um dos mistérios usados pelas bancadas dos partidos políticos, para lutar em nome do povo e para o povo, mas nunca pelo povo.

 

Discurso que não inclui crianças, apenas salário e operariado. O programa de capacitação da infância dita deficiente, deve ser mais abrangente que o definido por Ana Maria Bénard e pela sua equipa. Em Portugal, teve como recompensa o fecho do seu Instituto de Inovação Educativa. Inovação que contempla a capacitação em economia de toda a população, ou deveria, como tenho defendido, desde que me lembro de escrever e falar sobre a infância. Esse grupo social, que é pessoa e tem capacidade, deve ser ensinado, desde muito novo, a calcular a otimizar recursos. De alguma forma, e sem palavras, já o fazem pela sua escassez. Os Direitos das Crianças, definidos pelas periclitantes Nações Unidas, que aceitam uma invasão à antiga Mesopotâmia, hoje Iraque, da qual nasceu todo o nosso saber. Esses Direitos, não são nem reconhecidos, nem ensinados. Donde, toda criança é incapaz, mongólica, autista, sem inteligência nem futuro. Os sabedores da lei é que mandam e definem, em Códigos que, se desobedecidos, causam punição. 

 

A hora deveria chegar para um Natal Feliz, com os Direitos das Crianças usados para as capacitar para a vida de hoje. Como sempre devia ter acontecido. Como sempre seria, se lutássemos para aprenderem o Multiplicador de Investimentos, a Teoria dos Chicago Boys e a expandirem a Soberania de Portugal, dentro da sua Democracia.

 

No saber económico e de gestão, adultos e crianças são semelhantes: nada sabe, ninguém lhes ensina a teoria da gestão do PIB…como Alice Miller afirmava.X Uma Alice Miller que foi psicanalista de crianças, como muitos de nós….



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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - -por Raúl Iturra

(Continuação)

(Parágrafos relacionados: 431,208,359,729)

 

389 A doutrina do pecado original é, por assim dizer, "o reverso” da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos graças a Cristo. A Igreja, que tem o senso de Cristo [a6], sabe perfeitamente que não se pode atentar contra a revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de Cristo.”[1].

 

 

 

A criança desejada pelos progenitores, chega a este mundo com esta carga de ideias que outros estão a pensar por ela, porque da história da desobediência, é suficiente a que ela própria faz ao longo da sua vida, como para carregar aliás, as desobediências da metáfora da origem bíblica do mundo. O que o texto está a dizer, é a paciência que, como o filho de Deus, Jesus, todo o ser humano deve ter com os mais pequenos. No decorrer da vida, o contrário. A racionalidade catequista é uma forma de pensamento que Freud e Klein, embora judaico-cristãos, usam para entender o nascimento do complexo de Édipo. A análise é feita dentro da sua cultura judaico-cristã, sem comparar com os factos de outras culturas, como da muçulmana, chiita, budista, etc., como Weber tinha estudado entre 1904 e 1919, ao comparar comportamentos católicos e luteranos. Teria sido uma análise de grandes vantagens para entender quem foi primeiro a querer matar o pai, em qual confissão nasce o Édipo, como a tábua que apresentei na Lição Segunda. Pelas provas clínicas e pelas observações culturais feitas em terreno, cada um de nós tem observado um duplo comportamento: esse que se explica pela lei positiva, dentro da qual está o Direito Canónico, a Catequese, a Patrística e a Teologia, mas apenas cristã. Uma outra etnografia comparativa, teria colaborado na explicação do nascimento do complexo, outras culturas das que pouco ou nada entendemos e que, em síntese, seria a luta pela emotividade e a felicidade, sendo o Édipo, numa dessas confissões, um facto de alegria permitido dentro do grupo social que aceita o Édipo, como os Chiitas, Muçulmanos, Sunitas, saduceus, que permitem relações íntimas de consanguinidade, como estão restringidos a unirem-se carnalmente entre eles. Como o sabido caso dos egípcios, faraós e povo, como Keith Hopkins, o meu colega historiador de Cambridge, soube provar. De resto, as relações íntimas entre consanguíneos são um facto sabido e punido. Contudo, acontece entre pessoas de qualquer classe: eis o motivo para as proibições e sanções, ou causas de escândalo.

 

 

 

Há duas verdades provadas nos derradeiros cem anos: a procura do erotismo de orgasmo, e a satisfação da fome. Ambas levam à procura do lucro e à mais-valia e, ainda que Marx, Durkheim e Mauss tenham defendido uma devolução de bens ao povo por parte dos proprietários dos meios de produção, cada um deles conseguiu viver dentro de uma mais-valia facilitada pelo seu pensamento. Nenhum deles teve de perguntar qual era a ilusão de ser pai: uma “fessée”[2] à Alice Miller, uma bofetada, uma palmada, um murro, é a resposta que satisfaz. E, digo eu, ai dos adultos que não sabem punir no minuto adequado! Mais tarde na vida, ficam sem Filhos e sem descendentes.

 

 

 

Acabam por ser duas as interpretações do comportamento de criança. De Etnopsicologia, pouco sabemos para entender o comportamento enraivecido ou doce de uma criança, mas devíamos entrar por ele. A ciência antropológica tem armas para entender, suficiente trabalho de campo e milhares de interpretações conforme o que pensa cada um dos profissionais. Mas, e a metodologia complementar à Devereux? Como entender as formas de viver entre uma metáfora e uma procura da realidade feliz? Ainda, como entender que parte dessa felicidade acaba por ser aceitar o sofrimento para fazer arrependimento? A meu ver, a ciência antropológica é parte do inquérito etnológico para saber o comportamento e a conduta social, a partir do entendimento da individualidade. Não digo de cada indivíduo em particular, com nome e ficha, mas sim de cada indivíduo de um grupo cultural, até entender que a masturbação foi pecado para os Romanos até 1992, que a homossexualidade, banida que esteve até finais do Século XX, é hoje um Sacramento que até permite a carreira política, ser dignitário de Igrejas, que o incesto é parte da cultura reprodutiva de etnias que conhecemos, etc. É tentar entender os textos sagrados, ler as suas diferentes versões ao longo do tempo, e observar que mudam conforme a conveniência do grande público.

 

A Paternidade Eterna, faz tempo acabou. A ideologia de sermos pais faleceu com a globalização, como refiro no meu texto de A Página do mês de Maio de 2004. A companhia filial, o cultivo da descendência, a consanguinidade, o comportamento de estrutura endogâmica, ou exógama, os outros conceitos de família permanente, com amantes ou sem eles, com fidelidade ou com neurose, passam a ser ideias para definir outra vez, conforme a realidade. Se as formas de definir emotividade emitida pelos primeiros clínicos, provam ainda ser verdade, significa que a Antropologia deve trazer para dentro da sua hermenêutica uma forma moderna de entender o trabalho de campo.

 

A criança é um pecador por dois motivos: porque deixa de amar entre os seis meses e quatro anos e enche-se de ciúmes; e porque, a criança que fica na mente e na afectividade dos progenitores, acaba por precisar de uma liberdade que retira da sua ascendência. É aí onde as tábuas que apresentei no Capítulo anterior, me fazem duvidar na minha análise: o Édipo é um comportamento muito mais aberto que o que no começo Freud e Charcot definiram, mas a vida de Jesus é um ponto comparativo de pouca estima por ser resultado de História inventada no Século III da nossa era, para Constantino invadir o Ocidente através dos Evangelhos e das cartas de Pedro e Paulo de Tarso, sem contar com a escrita dos próprios Evangelhos, pelo Século II e III da nossa era, quer dizer, pela época da necessidade de Roma ser Lei e Bizâncio, Rei.

 

Não há ilusão de se ser pai, há a solidão de quem já fez o caminho da vida e precisa abrir uma nova alternativa para elevar a sua auto-estima e amar-se como se amou na sua infância.

 

De momento, vou fechando este rascunho até poder abrir as duas linhas analíticas da conduta humana: a Etnologia e a Terapia Social.

 

(Continua)

 

1] Mesmo texto, páginas 97 e 98

[2] Miller, Alice, 1996: Breaking down the wall of silence, Virago, Barcelona. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=+Alice+Miller+Breaking+down+the+wall+of+silence&btnG=Pesquisar&meta=

 

 

 



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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 46 -, por Raúl Iturra
 

(Continuação)

 

Este texto não precisa de comentários, excepto dizer que é retirado da realidade social, que segue as águas do moinho da procura da liberdade do homem. Mas, como já comentei, essa liberdade é a subordinação à lei que nos governa e define cada passo que damos na nossa vida e dá nomes às pessoas conforme o seu comportamento. A capacidade de raciocinar, de pensar e decidir, é o que traz a liberdade ao ser humano. O problema é que liberdade… O texto, como todos os outros denominados sagrados que referi, remete a actividade humana para uma metáfora que não vive entre nós, que radica na mente do ser humano e que dita leis por meio de pessoas como Moisés, Elias, Jesus, hierarquias pontifícias, formas de acreditar e que, no fim dos finais, é parte da cultura ou formas de comportamento adequadas às conveniências da nossa individualidade. O que é adequado à nossa pessoa, é viver sem pecado, quer dizer, sermos capazes de fixar um último bem, uma auto-estima que, em metáfora, está definida como a procura de Deus, muito embora a divindade não esteja definida em parte nenhuma. É aí que Freud e os seus seguidores foram capazes de ver as dificuldades da vida, para além da metáfora e entrar dentro de cronologias e contextos genealógicos, orientados por uma libido erótica que leva à reprodução. Ideia que o texto que comento não refere, antes pelo contrário, retira da materialidade da vida o que a ilusão de sermos pais tinha colocado: factos históricos, com provas complementares para demonstrar a sua verdade.

 Este texto define já a criança como uma entidade que, como diz o artigo 1739, página 387, livremente soube rejeitar o amor, ou seja, pecou. O pecado, conceito que defini noutro texto, é a forma de organizar as relações entre os seres humanos: nenhum ser humano publicamente rejeita a empatia simpática a outro. No entanto, a metáfora do texto começa por dizer que nascemos todos já na situação de estarmos preparados para não amar, para rejeitar o outro ou procurar no outro o que convém à minha felicidade. É a definição que dou de pecado original no fim do Capítulo II:

 

 1691 O pecado está presente na história do homem: seria inútil tentar ignorá-lo ou dar a esta realidade obscura outros nomes. Para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado em sua verdadeira identidade de recusa e de oposição a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história.

(Parágrafos relacionados: 1848,1739)

1692 387 A realidade do pecado, e mais particularmente a do pecado das origens, só se entende à luz da Revelação divina. Sem o conhecimento de Deus que ela nos dá não se pode reconhecer com clareza o pecado, e somos tentados a explicá-lo unicamente como uma falta de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro a consequência necessária de uma estrutura social inadequada etc. Somente à luz do desígnio de Deus sobre o homem compreende-se que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente.

 

(Parágrafo relacionado: 1847)


O PECADO ORIGINAL UMA VERDADE ESSENCIAL DA FÉ

 

 

 

1693 388 Com o progresso da Revelação, é esclarecida também a realidade do pecado. Embora o Povo de Deus do Antigo Testamento tenha conhecido a dor da condição humana à luz da história da queda narrada no Génesis, não era capaz de entender o significado último desta história, que só se manifesta plenamente à luz da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo [a5]. É preciso conhecer a Cristo como fonte da graça para conhecer Adão como fonte do pecado. É ó Espírito – Paráclito, enviado por Cristo ressuscitado que veio estabelecer "a culpabilidade do mundo a respeito do pecado" (Job 16,8), ao revelar Aquele que é o Redentor do mundo.

 

(Continua)

 

 



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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 42 - por Raúl Iturra

 

(Continuação)

 

De uma ou outra maneira, entre um ou outro processo, todos vivemos atados a uma mesma estrutura. Este processo, designo-o de hierarquia parental, esse que faz de nós ascendentes e descendentes, onde, normalmente, os adultos têm a autoridade, as crianças a obediência. Tem-me sido muito simples dizer, na maior parte do meu discurso, que o mundo está dividido em dois grupos, o do adulto e o das crianças. Tudo isso é verdade, tudo acontece, há os que têm uma epistemologia desenvolvida nas opções da mais-valia, há os que têm a epistemologia desenvolvida nos investimentos emotivos de quem confia, porque toma conta, alimenta, agasalha, faz carícias, ouve, cala e responde apenas se é perguntado.

 

Sim, estamos divididos em duas culturas que procuram formas diferentes de encantar o real e ser feliz dentro da dor de viver. Essa dor que Bion tão claramente define na sua obra, essa dor ao invés da felicidade que segundo Freud o nosso inconsciente procura num Id esquecido pela consciência do dia de hoje, do dia de ontem, da fadiga do trabalho, do desejo insatisfeito, da alegria que não encontramos. Um dia sonhamos em sermos pais, passado um curto espaço de tempo, quando ainda fica muito de nós para viver dentro de um corpo que vai ficando pequeno, como Úrsula Iguarán de García Márquez em Cem Anos de Solidão, até ao ponto dos tetranetos a tratarem como se fosse um anjo de brinquedo a servir os seus ideais e imaginários.

 

Esse nosso corpo que pensa, mas que a matéria faz tolhido e dentro dessa tolha, a criançada que me importa, vai, enquanto desenvolve a sua epistemologia da afectividade e a subordinação que ajuda à aprendizagem e à reprodução de outros e do saber – continuidade da História como desde Flávio Josefo[4] temos ficado a saber, ou Heródoto de Halicarnasso – à epistemologia da opção do lucro e, por lei da vida encontra uma outra alternativa para a sua reprodução, nós, os adultos que fomos pais, passamos a adultos que perturbamos a nova filiação e devemo-nos desabituar do facto e da ideia de sermos pais. Passarmos do amor paterno, ao abandono celibatário, porque nem para seduzir somos capazes de existir, menos ainda para termos companhia, porque a História passa dentro de contextos diferenciados, com conceitos e comportamentos concebidos pelos que foram crianças para fazer do tolhido, um adulto que entende, aceita, cala e não repreende, definição que dou dessa idade do ser humano.

 

Os habitantes da Melanésia têm a sua casa para celibatários[5] como acontece com os chineses e as suas casas para morrer, os lares da terceira idade entre nós, como os Picunche têm os grupos do Centro de Tecido, o Tear, para entreter os que já não vendem produtos agrícolas por lhes faltar força para transformar a terra em mercadoria, proibido para o consumo da casa ou valor de uso e transferidos com prazer aos conchenchos (intermediário em Mapudungun)[6] pelo dinheiro de mais valia que dá o mercado. É o dia que a criança passa de pequeno que aprende, a adulto que grita, zanga-se, repreende, pede para ficar isolado para não ter que ver de quem aprendeu, uma solidão desprezível e desagradável....excepto se é o proprietário, o monarca ou o Cardeal Patriarca de Veneza, Constantinopla ou Lisboa. A criança, agora adulto, manda. Não ouve, nem vê, nem cala e responde ainda que não perguntado. O adulto, se cresce à Bion, desenvolve as suas capacidades para procurar seu finito no infinito do prazer freudiano da verdade Bioniana, acaba por aceitar o sofrimento que permite a aprendizagem da verdade da vida,[7] que é o fazer.

 

Adultos pecadores, reprodutores de pequenos pecadores. Todo o ser humano procura a sua liberdade e responsabilidade. É assim que o diz o texto que define o nosso comportamento, e que começa por uma imensa verdade: “A dignidade da pessoa humana se fundamenta em sua criação à imagem e semelhança de Deus (artigo 1); realiza-se em sua vocação à bem-aventurança divina (artigo 2). Cabe ao ser huma­no a livre iniciativa de sua realização (artigo 3). Por seus actos deliberados (artigo 4), a pessoa humana se conforma ou não ao bem prometido por Deus e atestado por sua consciência moral (artigo 5). As pessoas humanas se edificam e crescem interiormente: fazem de toda sua vida sensível e espiritual matéria de crescimento (artigo 6). Com a ajuda da graça, crescem na virtude (artigo 7), evitam o pecado e, se o tiverem cometido, voltam como o filho pródigo (a 35), para a misericórdia de nosso Pai do Céu (artigo 8). Chegam, assim, à perfeição da caridade.

 

Esta frase é uma verdade para os que lêem o texto, aprendem-no, praticam-no e sentem a emotividade da fé como um sentimento de caridade, como a base da relação com outros seres humanos ou da interacção social, como gosto de dizer. Aliás, é a introdução para uma outra verdade de vida em grupo: a liberdade do homem: “Deus [§80]criou o homem dotado de razão e lhe conferiu dignidade de uma pessoa agraciada com a iniciativa e o domínio de seus actos. "Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão" (Eclo 15,14), para que pudesse ele mesmo procurar seu Criador e, aderindo livremente a Ele, chegar à plena e feliz perfeição[a81].

 

O homem é dotado de razão e por isso é semelhante a Deus: foi criado livre e senhor de seus actos [a82].

 

I. Liberdade e responsabilidade

 

1691 1731 A [§83] liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto, de praticar actos deliberados. Pelo livre – arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.

 

1692 1732 Enquanto [§84] não se tiver fixado definitivamente em seu bem último, que é Deus, a liberdade comporta a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, portanto, de crescer em perfeição ou de definhar e pecar. Ela caracteriza os actos propriamente humanos. Toma-se fonte de louvor ou repreensão, de mérito ou demérito.

 

1693 1733 Quanto [§85] mais pratica o bem, mais a pessoa se toma livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça. A escolha da desobediência e do mal é um abuso de liberdade e conduz à "escravidão do pecado [a86]".

 

1694 1734 A [§87] liberdade torna o homem responsável por seus actos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus actos.

 

1695 1735 A [§88] imputabilidade e a responsabilidade de uma acção po­dem ficar diminuídas ou suprimidas pela ignorância, inadver­tência, violência, medo, hábitos, afeições imoderadas e outros factores psíquicos ou sociais.

 

1696 1736 Todo [§89]acto directamente querido é imputável a seu autor:

Assim, o Senhor pergunta a Adão, após o pecado no jardim: "O que fizeste?" (Gn 3,13). O mesmo pergunta a Caim [a90]. A mesma pergunta faz o profeta Natã ao rei David, após o adultério com a mulher de Urias e o assassinato deste [a91].

Uma acção pode ser indirectamente voluntária quando resulta de uma negligência quanto a alguma coisa que deveríamos saber ou fazer, por exemplo, um acidente ocorrido por ignorância do código de trânsito.

 

1697 1737 Um [§92] efeito pode ser tolerado sem ser querido pelo agente, por exemplo, o esgotamento da mãe à cabeceira de seu filho doente. O efeito ruim não é imputável se não foi querido nem como fim nem como meio de acção, como poderia ser o caso de morte sofrida por alguém quando tentava socorrer uma pessoaem perigo. Para que o efeito ruim seja imputável, é preciso que seja previsível e que o agente tenha a possibilida­de de evitá-lo, como, por exemplo, no caso de um homicídio cometido por motorista embriagado.

 

1738 A [§93] liberdade se exerce no relacionamento entre os seres hu­manos. Toda pessoa humana, criada à imagem de Deus, tem o direito natural de ser reconhecida como ser livre e responsável. Todos devem a cada um esta obrigação de respeito. O direito ao exercício da liberdade é uma exigência inseparável da dignidade da pessoa humana, sobretudo em matéria moral e religiosa [a94]. Este direito deve ser reconhecido civilmente e protegido nos limites do bem comum e da ordem pública [a95].[8]

 

(Continua)

 

[4] FlavioJosefo: Jerusalén, 37 d JC-?, c. 100) Historiador judío. Fez parte do partido dos judeus, de forma  especial. Quando explode o conflito com Roma, em 66 d.C., Josefo aceita, talvez por ambição, quem sabe por vaidade, o comando da Galileia. Traiu Roma para defender o seu povo a sua maneira. Desenvolveu as suas capacidades de sofrimento e criou uma História que até hoje nos domina. Website com texto: http://www.airtonjo.com/flavio_josefo02.htm ou website para debate:

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Fl%C3%A1vio+Josefo+Biografia&btnG=Pesquisar&meta=

[5] Malinowski, obra citada, volume 1, páginas 58 e seguintes. Ver nota 210.

[6] Iturra, Raúl, 1972, “El Paro de los conchenchos” Revista do Centro de Estúdios Agrários e Campesinos: CEAC, Pontifícia Universidad Católica do Chile, Santiago, sede de Talca. Conchencho, palavra Mapudungun que em castelhano significa intermediário que aumenta os preços sem mando.

[7] Heródoto 484-425 a C: o mais importante dos historiadores gregos mais antigos. Website

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Her%C3%B3doto&btnG=Pesquisar&meta=

[8] Mesmo texto, mesmo autor, páginas386 a 387.

 

 



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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA -41, por Raúl Iturra
 

(Continuação)

 

Encore tout jeunes, les enfants commencent à comprendre les traditions et coutumes tribales et à s'y conformer ; cela est particulièrement vrai des restrictions ayant un caractère tabou, des dispositions impératives des lois tribales ou des usages relatifs à la propriété[1].


La liberté et l'indépendance des enfants s'étendent également au domaine sexuel. En premier lieu, les enfants entendent beaucoup parler de choses se rapportant à la vie sexuelle de leurs aînés et assistent même souvent à certaines de ses manifestations. A la maison même, où les parents n'ont pas la possibilité de s'isoler, l'enfant a de multiples occasions d'acquérir des informations pratiques concernant l'acte sexuel. Aucune précaution spéciale n'est prise pour empêcher les enfants d'assister en témoins oculaires aux rapports sexuels des parents. On se contente tout au plus de gronder l'enfant et de lui dire de se couvrir la tête avec une natte. J'ai souvent entendu faire l'éloge d'un petit garçon ou d'une petite fille dans ces termes : « C'est un bon enfant : il ne raconte jamais ce qui se passe entre les parents.» On permet à de jeunes enfants d'assister à des conversations au cours desquelles on parle ouvertement de choses sexuelles, et ils comprennent parfaitement le sujet de la conversation. Ils savent eux-mêmes jurer et employer un langage obscène avec une maîtrise passable. Étant donnée la précocité de leur développement mental, on entend souvent de tout petits enfants lancer des plaisanteries graveleuses que les aînés accueillent avec un gros rire.»[2].

 

A ideia da liberdade sexual não acaba com princípios éticos ou aberrações, definida pelos costumes Massim. Há uma lista de “pecados” já não dos mais novos, mas sim dos adultos. Ou foi omisso por Malinowski, ou os comportamentos mencionados para a nossa cultura não aparecem em parte nenhuma dos textos dedicados à vida sexual da Melanésia. No entanto, a lista dos tabus, que é dura, deve ser comprida, como na nossa própria cultura, só que os grupos Kiriwina vivem em espaços pequenos, cada casa é parte de uma família e todos os membros que a habitam, acabam por ser parentes que tomam conta uns dos outros. A vida sexual infantil acaba na adolescência, ao começar a época de poder reproduzir seres humanos e a idade do matrimónio se aproxima, isto é, pelos 12 ou 14 anos da nossa cronologia. A lista dos tabus começa, como refere o autor para os adultos (a partir da página 123 e seguintes do texto), com a ideia de Aberrações Sexuais, conceito que me faz pensar se estas problemáticas são mais do autor e da sua cultura, ou advêm dos seus livros de notas de trabalho de campo. Do conjunto de proibições, o autor salienta a mais importante no seu debate Freudiano: a do incesto. Depois de ter esclarecido no Volume 1 que o complexo de Édipo é um facto possível no ocidente, define, como vários analistas hoje, o Édipo como a proibição do incesto, passível entre pessoas de um mesmo clã[3] ou parentesco, semelhante à nossa definição consanguínea. O que interessa neste texto, é salientar não as semelhanças ou diferenças dos autores, mas entender um conceito que é muito ocidental: a liberdade humana, não é fazer o que se deseja e quando se quer, mas o convívio dentro de normas respeitadas pelas pessoas e que, a não observância dessas normas entre nós se denomina pecado. Ao qual passamos para finalizar este capítulo, por ser uma noção fundamental para entender o conceito de criança pecadora que não aparece em parte nenhuma dos textos malinowskianos.

 

(Continua)

[1] Nous parlons dam plus d'un passage de ce livre, et plus spécialement dans la chapitre 13, des processus à la faveur desquels on inculque à l'enfant le respect pour le tabou et les traditions de la tribu. Il faut se garder de personnifier la coutume ou de croire qu'elle possède une autorité absolue ou autonome: elle est tout simplement le produit d'un mécanisme spécifique, social et psychologique. (Voir mon ouvrage : Crime and Custom, 1926.)

 

[2] Texto citado na nota anterior, página 52 para a idade e 48 para a vida sexual infantil, descrita com minúcia pelo autor.

Website:http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/malinowsli/vie_sexuelle/chap_3_2

[3] Malinowski, obra em análise, Volume II, páginas 138 e seguintes. Um outro comentário encontra-se no texto de Raoul et Laura Levi Makarius, 1961: L’0rigine de l’exogamie, website http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/makarius_Laura_raoul/origine_exogamie/origine_exogamie.pdf

 

 

 

Ver mais... )


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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 40 -, por Raúl Iturra

(Continuação) 

 

As formas Melanésia são de uma outra estrutura. É preciso entender a diferença de idades para ver as possibilidades das crianças Massim e a sua vida sexual que é conforme a idade e a proximidade clânica e os comportamentos culturais Kiriwina. Malinowski elabora um quadro, antes de falar de comportamentos dinâmicos e proibições[5].

 

 

Désignation des âges

1. Waywaga (fœtus; enfant jusqu'à l'âge où il commence à se traîner; garçon ou fille).

2. Pwapwawa (enfant, jusqu'à l'âge où il commence à marcher; garçon ou fille).

3. Gwadi (enfant, jusqu'à la puberté; garçon ou fille).

1e Phase: Gwadi : mot géné­rique servant à désigner les phases 1-4 : signifie enfant, de sexe masculin ou féminin, pendant toute la période qui s'étend de la naissance à la puberté.

4. Monagwadi (enfant mâle).

4. Inagwadi (enfant de sexe féminin).

     

5. To'ulatile (jeune homme, de la puberté au mariage).

5. Nakapugula ou Nakubukwabuya (jeune fille, de la puberté au ma­riage).

2e Phase : Désignations génériques : Ta'u-homme, Vivila-femme.

6. Tobulobowa'u (homme mûr).

6. Nabubowa'u (femme mûre)

6a. Tovavaygile (homme marié).

6. Navavaygile (femme mariée).

     

7. Tomwaya (vieillard).

7. Numwaya (vieille femme).

3e Phase : Vieillesse.

7a. Toboma (vieil­lard honoré).

 

 

É possível perceber a diferença entre as pessoas, para entender a vida livre da infância, em relação à sua libido parental, amiga, fraterna e, eventualmente, erótica, que Malinowski descreve na página 48 da 2ª parte do texto e que, antes de debater, vou citar:

 

« Les enfants jouissent aux îles Trobriand d'une liberté et d'une indépendance considé­ra­bles. Ils sont émancipés de bonne heure de la tutelle des parents qui n'est jamais bien stricte. Quelques-uns obéissent à leurs parents de bon cœur, mais cela dépend uniquement du tempérament personnel aussi bien des parents que des enfants: il n'existe ni notion de dis­ci­pline régulière ni système de coercition domestique. Il m'est souvent arrivé, lorsque j'assistais à un incident de famille ou à une querelle entre parent et enfant, d'entendre le premier dire au second de faire ceci ou cela: c'était toujours une prière plutôt qu'un ordre, bien que cette prière fût parfois accompagnée d'une menace de violence. Le plus souvent, lorsque les parents flattent ou grondent leurs enfants en leur demandant quelque chose, ils s'adressent à eux comme à des égaux. Ici on n'adresse jamais à un enfant un simple ordre impliquant l'attente d'une obéissance naturelle.


Il arrive parfois que les parents se mettent en colère contre leurs enfants et vont même jusqu'à les frapper; mais j'ai vu tout aussi souvent des enfants se précipiter furieusement sur le père ou la mère et les frapper à leur tour. Cette attaque sera reçue avec un sourire indulgent, ou bien le coup sera rendu avec colère; mais l'idée d'une rétribution définie ou d'une punition coercitive n'est pas seulement étrangère à l’indigène: elle lui répugne. Lorsque je croyais devoir suggérer, après un flagrant méfait commis par un enfant, que ce serait une bon­­ne leçon pour l'avenir que de le corriger ou de le punir d'une façon quelconque, en dehors de tout emportement, mon conseil apparaissait à mes amis immoraux et contre nature et était repoussé non sans un certain ressentiment.


Un des effets de cette liberté consiste dans la formation de petites communautés d'enfants, groupes indépendants qui englobent naturellement tous les enfants dès l'âge de quatre ou cinq ans et dans lesquels ils restent jusqu'à la puberté. N'écoutant que leur bon plaisir, ils peuvent tantôt rester avec leurs parents toute la journée, tantôt s'en aller rejoindre pour un temps plus ou moins long leurs camarades de jeux dans leur petite république. Et cette communauté dans la communauté n'agit que conformément aux décisions de ses membres et se trouve souvent dans une attitude d'opposition collective aux aînés. Lorsque les enfants ont décidé de faire telle ou telle chose, de s'en aller, par exemple, en expédition pour toute la journée, les plus âgés et même leur chef (j'ai souvent eu l'occasion de le constater) sont impuissants à les en empêcher. J'ai été à même, voire obligé, au cours de mes travaux ethnographiques, de me renseigner directement auprès des enfants sur eux-mêmes et sur leurs affaires: tous s'accordaient à m'affirmer leur indépendance spirituelle dans les jeux et autres activités enfantines et beaucoup d'entre eux ont même été capables de m'instruire en me donnant des explications sur la signification souvent compliquée de leurs jeux et entreprises.

 

(Continua)

 

 

[5] Malinowski, texto citado, nota 36, Volume 1.

 

 



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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 39 - por Raúl Iturra
 

(Continuação)

 

A vida sexual das crianças é de grande liberdade e existe a possibilidade de relações amorosas entre elas, seja de plaisanterie, sedução, brincadeira, ou ainda, de juntar os corpos em fellatio, esfregar um com o outro, masturbação em grupo, ou a uma penetração possível – a criança de três, quatro ou mais anos, tem erecção, prazer e orgasmo, como diria Klein na sua teoria meta psicológica já citada[1], embora não tenha ejaculação, esfregam os corpos como vêem fazer aos adultos com quem moram. Para entender essa vida sexual parece-me necessário explicar dois factos: a classificação por idades entre os Kiriwina; como é que acontece entre nós, como está permitido termos relações sexuais antes do ritual do matrimónio, ou apenas no dia do matrimónio, e nunca durante a época do contrato de compromisso para o matrimónio ocidental?

 

Entre nós, os tempos têm mudado, especialmente entre 1895 e a actualidade. O que Freud diz de sexualidade infantil é diferente das análises de hoje.[2] Quer Freud, quer Ferenczi, apesar de se dizer que inventaram a sexualidade infantil a partir de um código de comportamento retirado da vida adulta, analisam no entanto o abuso da sexualidade infantil, como, aliás, se prova pelos factos de pedofilia, o encerramento de Instituições, as acusações a homens detentores de poder politico na sociedade, o tráfico de crianças entre países e famílias, a prostituição infantil, demonstrando largamente que os textos sobre abuso infantil destes autores não estavam nada longe do real e dos danos que causavam. Diz Freud que o desenvolvimento da sexualidade infantil leva, no limite, à “ansiedade de castração”. A comparação do que a criança vê entre os adultos e o seu próprio corpo e as possibilidades dentro da sua libido erótica, faz com que o mais novo tenha medo desse adulto que pode violar o seu corpo, fisicamente falando, como Richard relata a Klein. Não existe apenas desejo infantil, excitação ou necessidades genitais precoces, mas também comportamento infantil na procura de prazer com adultos, como sugar o pénis de um homem adulto até à ejaculação, acariciar uma vagina ou brincar com corpos de adolescentes, como eu próprio presenciei no meu trabalho de campo, para prazer de ambos. É o que o analista designa por sexualidade oral ou anal, entre nós não permitida, mas ritual entre outros grupos[3]. A sensação de angústia do adulto, tem o seu começo na idade infantil, nas brincadeiras de masturbação em grupo, com amigos ou com adultos, como acontece nos factos observados, especialmente de homens novos com crianças que procuram o seu corpo, viúvas a temer gravidezes não desejadas, sucção de pénis que ejacula e outras actividades eróticas da libido[4]. Actividades que acontecem especialmente em actividades rituais e festivas, na altura em que o adulto usa drogas que rebaixam as suas pulsões éticas e a criança confia nele por não conhecer essas diferenças entre a vida quotidiana e de trabalho ou em família, e a vida solitária, quando o adulto não resiste conter a sua pulsão erótica e penetra na criança, pelo ânus ou pela boca. Penetração que a criança aceita ao pensar que é emotivamente evidente e permitida, especialmente se o adulto é da sua confiança, conhecimento e proximidade emotiva sentimental, como parentesco, filiação e outras já referidas para outros grupos sociais, tentando ignorar o nosso, hoje em tribunal, enquanto muito adulto anda pelos campos das neuroses.

 

 (Continua)

 

1] Klein, Melanie, especialmente os ensaios do volume Inveja e gratidão e Narrativa da análise de uma criança, Imago, Rio de Janeiro, 1991 ou a colecção Payot dos anos 80 e 90, Paris. Também, a História do pequeno Hansde Freud, notas 39 e seguintes, Capítulo II deste texto.

[2] Freud, Sigmund, para além dos textos citados de 1906 e 1913, especialmente as Histórias mencionadas do Caso do pequeno Hans e o Caso do pequeno Arpád – retirado da análise de Ferenczi, dos seus textos sobre abuso de crianças Analyse d’enfant avec les adultes http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Sandor+Ferenczi+Analysis+Arp%C3%A1d&btnG=Pesquisar&meta= , ver 1905 Teoria da sedução na sexualidade infantil ou Ritual Abuse em http://directory.google.com/Top/Society/Issues/Children,_Youth_and_Family/Child_Abuse/Sexual_Abuse/

[3] Freud, Sigmund, em Website http://directory.google.com/Top/Society/Issues/Children,_Youth_and_Family/Child_Abuse/Sexual_Abuse/ , bem como em Totem e Taboo e 1905: O abandono da infância a sexualidade ou Drei Abhandlungen zur Sexuakltheorie Website em alemão, com texto: http://www.iep.utm.edu/f/freud.htm#Infantile%20Sexuality ou teoria tripartida, retirada das ideias de Platão, as análises clínicas e as suas conclusões do Id, Ego e Superego, onde o ego da criança fica erotizado. Ver Website http://www.iep.utm.edu/f/freud.htm#Neuroses%20and%20The%20Structure%20of%20the%20Mind ou

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Drei+abhandlungen+zur+Sexualtheorie&btnG=Pesquisar&meta= Versão inglesa de 1905: Sexual aberrations, Penguin, Londres. Website com texto e debates: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Sigmund+Freud+Sexual+Aberrations&btnG=Pesquisar&meta=

[4] Freud, 1926, Signal d’angoise Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Signal+angoisse&spell=1

 

 

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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 38 - por Raúl Iturra
 

(Continuação)

 

A vida sexual das crianças é de grande liberdade e existe a possibilidade de relações amorosas entre elas, seja de plaisanterie, sedução, brincadeira, ou ainda, de juntar os corpos em fellatio, esfregar um com o outro, masturbação em grupo, ou a uma penetração possível – a criança de três, quatro ou mais anos, tem erecção, prazer e orgasmo, como diria Klein na sua teoria meta psicológica já citada[1], embora não tenha ejaculação, esfregam os corpos como vêem fazer aos adultos com quem moram. Para entender essa vida sexual parece-me necessário explicar dois factos: a classificação por idades entre os Kiriwina; como é que acontece entre nós, como está permitido termos relações sexuais antes do ritual do matrimónio, ou apenas no dia do matrimónio, e nunca durante a época do contrato de compromisso para o matrimónio ocidental?

 

Entre nós, os tempos têm mudado, especialmente entre 1895 e a actualidade. O que Freud diz de sexualidade infantil é diferente das análises de hoje.[2] Quer Freud, quer Ferenczi, apesar de se dizer que inventaram a sexualidade infantil a partir de um código de comportamento retirado da vida adulta, analisam no entanto o abuso da sexualidade infantil, como, aliás, se prova pelos factos de pedofilia, o encerramento de Instituições, as acusações a homens detentores de poder politico na sociedade, o tráfico de crianças entre países e famílias, a prostituição infantil, demonstrando largamente que os textos sobre abuso infantil destes autores não estavam nada longe do real e dos danos que causavam. Diz Freud que o desenvolvimento da sexualidade infantil leva, no limite, à “ansiedade de castração”. A comparação do que a criança vê entre os adultos e o seu próprio corpo e as possibilidades dentro da sua libido erótica, faz com que o mais novo tenha medo desse adulto que pode violar o seu corpo, fisicamente falando, como Richard relata a Klein. Não existe apenas desejo infantil, excitação ou necessidades genitais precoces, mas também comportamento infantil na procura de prazer com adultos, como sugar o pénis de um homem adulto até à ejaculação, acariciar uma vagina ou brincar com corpos de adolescentes, como eu próprio presenciei no meu trabalho de campo, para prazer de ambos. É o que o analista designa por sexualidade oral ou anal, entre nós não permitida, mas ritual entre outros grupos[3]. A sensação de angústia do adulto, tem o seu começo na idade infantil, nas brincadeiras de masturbação em grupo, com amigos ou com adultos, como acontece nos factos observados, especialmente de homens novos com crianças que procuram o seu corpo, viúvas a temer gravidezes não desejadas, sucção de pénis que ejacula e outras actividades eróticas da libido[4]. Actividades que acontecem especialmente em actividades rituais e festivas, na altura em que o adulto usa drogas que rebaixam as suas pulsões éticas e a criança confia nele por não conhecer essas diferenças entre a vida quotidiana e de trabalho ou em família, e a vida solitária, quando o adulto não resiste conter a sua pulsão erótica e penetra na criança, pelo ânus ou pela boca. Penetração que a criança aceita ao pensar que é emotivamente evidente e permitida, especialmente se o adulto é da sua confiança, conhecimento e proximidade emotiva sentimental, como parentesco, filiação e outras já referidas para outros grupos sociais, tentando ignorar o nosso, hoje em tribunal, enquanto muito adulto anda pelos campos das neuroses.

 

 

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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 37 - por Raúl Iturra

 

 

(Continuação)

 

A Análise que Malinowski e a sua escola iam fornecer, apesar de ter estudado de forma importante, as trocas que o Kula permite: objectos, pessoas, aliança para a defesa, ataque em caso de guerra, carinho, acasalamentos, emotividade, ou uma forma especial de carisma, denominada mana. Um mana que existe entre os que mais sabem, sejam homens ou mulheres, adultos ou crianças, jovens ou pessoas de mais idade.

 

Esta troca leva Malinowski a duas grandes descobertas: a primeira e que caracteriza a Antropologia Britânica, é que o estudo dos seres humanos não é feito como o fizeram os seus mestres anteriores, que nunca foram ao terreno, era necessário partilhar o dia-a-dia das pessoas e entrar pela vida dos Massim da forma que eles permitiam: aberta, amiga, fraterna, sem segredos (nem os íntimos). O Diário de Malinowski assim o diz[4], nunca pensou que os seus relatos seriam tornado públicos quase 50 anos após a sua morte.

 

A análise do Kula entre os Massim, permite a Malinowski estudar as famílias e a sua forma de serem geridas. Entre nós, o acasalamento tem sido monogâmico, seriado ou não, com adultério ou sem ele, com pedofilia ritual ou emotiva. Entre os Massim, o autor começa por colocar um problema, depois de ter abandonado o estudo da economia – um comércio, como diz na página 204 do texto que uso. O problema aparece já no Prefácio do seu texto de 1926[5]: “Le problème central de la psychanalyse est celui de l'influence que la vie de famille exer­ce sur l'esprit humain. Elle nous montre comment les passions, les chocs et les conflits que l'enfant éprouve et subit dans ses rapports avec son père, sa mère, ses frères et sœurs, aboutissent à la formation de certaines attitudes menta­les ou de certains sentiments perma­nents à leur égard, attitudes et senti­ments qui, tantôt subsistant dans la mémoire, tantôt englobés dans l'inconscient, influent sur toute la vie ultérieure de l'individu, dans ses rapports avec la société. J'emploie le mot « sentiment » dans le sens technique que lui attache M. A. F. Shand, avec toutes les implications importantes qu'il comporte dans sa théorie des émo­tions et des instincts » Começa logo por debruçar-se sobre o primeiro problema, o famoso problema de Édipo e acrescenta : « C'est ainsi que le sociologue estime que le problème du complexe n'est pas purement psy­cho­logique, mais qu'il comporte aussi deux chapitres sociologiques: une introduction faisant ressortir la nature sociologique des influences familiales, et un épilogue contenant l'analyse des conséquences que ce complexe comporte pour la société”[6].

 

Escolhi estas duas citações, porque salienta o papel que Freud sempre ignorou, pelo menos até 1930 e O mal-estar na cultura, porque, apesar de ter analisado as famílias australianas, não reparou na sua estrutura por dedicar a sua análise a conceitos psicanalíticos e não etnográficos, como faz Malinowski. A primeira coisa que o nosso autor faz, é distinguir entre Direito Paterno e Direito Maternal, análise não feita pelos psicanalistas. Esta distinção poderia parecer estranha aos leitores de uma sociedade ocidental, especialmente na época do começo do Século XX, a fonte mesma do Pater famílias, quando no Ocidente, como vimos na Lição Primeira, a mulher não tem direito a mais que a obedecer ao seu marido e aos seus filhos varões. Temos vivido, e em Portugal ainda vivemos, numa sociedade masculina que acrescenta uma feminilidade servil da mulher para com o marido e os filhos varões e que, na actual independência feminina, faz agir de forma autoritária masculina as senhoras, enquanto homens começam a mudar para formas sedutoras de senhoras e pessoas sem autoridade, como tenho referido num outro texto[7].

 

Não é bem este tipo de convívio o que Malinowski analisa: “L'attitude de la femme à l'égard du mari est loin d'être servile. Elle possède des biens personnels et une sphère d'influence, privée et publique. Il n'arrive jamais que les enfants voient leur père brutaliser la mère. D'autre part, le père ne contribue qu'en partie à gagner le pain de la maison, obligé qu'il est de travailler avant tout pour ses propres sœurs, tâche qui - les garçons le savent- leur incom­bera à leur tour, lorsqu'ils seront grands »[8]. Podia-se pensar que é por causa de a mulher ser a proprietária dos bens, que a sua atitude é de companhia. É mais a estrutura de constituição da família que permite uma relação da forma que descrevo. O acasalamento não existe como entre nós, a forma de se juntarem casais acontece no dia e momento em que uma rapariga sente que no seu corpo entrou um espírito que habita na Ilha dos mortos ou Baloma[9], que aguarda a vez para recuperar a vida entre os seus. Os Massim acreditam na reencarnação, mas é uma reencarnação clãnica: o acasalamento é extra – clãnico. Cada clã é um grupo de parentes disponíveis para casar com um membro de um outro clã. A relação de acasalamento é previamente tratada entre o irmão da rapariga e um membro de outro clã, o mais velho parente do homem para onde a rapariga deve sair e alimentar o seu corpo com o sémen do marido e assim organizar o bebé que cresce no seu corpo, resultado dos seus banhos de mar ou dos seus passeios pela praia. Por ser uma sociedade matrilinear, a rapariga sai da sua aldeia ou sub–clã, passa a habitar na casa do seu marido, têm os seus filhos e estes, na altura da puberdade, saem para a casa do irmão da mãe que faz o papel equivalente ao do pai na nossa sociedade. Passam a ser seus colaboradores e cuidadores na sua velhice e herdeiros dos seus bens e das mulheres que o irmão da mãe pode ter, tal como o homem da sua mãe tem e das quais também tem filhos, que na puberdade saem também, para as casas dos irmãos de sua mãe[10].

(Continua)
[4] Malinowski, (1989) A Diary in the Strict Sense of the Term, Stanford, California: Stanford University Press. Estas eram as notas pessoais que o autor escrevia em língua de Cracóvia, que a sua viúva entregou para publicação. As suas intimidades eróticas aparecem, incluindo o que denominamos hoje pedofilia, uma forma de saber, tal e qual Devereux usou no estudo dos Mohave e Godelier, entre os Baruya. Formas, sejamos claros, rituais, como descreve Gilbert Herdt entre os Sambia (nome criado pelo autor para ocultar a identidade da etnia) e não por opção pessoal como define Freud em 1906. O estudo de crianças feito por Bion, Klein, Piaget, Winnicot, eu próprio, não inclui esta pratica, como consta nos nossos diários. Vejo-me obrigado a dizer esta frase pelo tipo de vida que hoje levamos no mundo Ocidental: o que é ritual participado é delito entre nós. Para maior informação sobre Malinowski: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Diary&btnG=Pesquisar&meta=

[5] Malinowski, Bronislaw, 1926: Sex and repression in savage societies, Routledge and Kegan Paul, Londres. Website para saber mais: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Sexuality+and+repression&btnG=Pesquisar&meta= Website com texto on-line, mas data enganada (confunde 1926 por 1921): http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Sexuality+and+repression&btnG=Pesquisar&meta=

[6] Malinowski, obra em analise, página 10 ambas citações, da versão francesa que uso.

[7] Iturra, Raúl, 2000: “Mulher a crescer, machismo a tremer”, in Jornal A Página, ano 9, nº 94, Setembro. Website com texto http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/mulher_a_crescer.htm

[8] Malinowski, obra em análise, página 14.

[9] Baloma; the Spirits of the Dead in the Trobriand Islandas, Website com texto: http://www.sacred-texts.com/pac/baloma/index.htm. Destaco neste trabalho a análise da vida dos mortos, ao deixarem as Ilhas de Coral, que, em forma de espíritos (os mais antigos) andam em busca de uma rapariga pelas praias e as águas do mar para entrar no seu corpo e renascer.

[10] Retirado de Malinowski 1929, The sexual life of the savages, dois volumes, Routledge and Kegan Paul, website http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Clasiques_des_sciences_sociales/classiques/malinowski/vie_sevuelle_2.doc y do website de Patrick Reinier, École des hautes études en Sciences Sociales http://www.reynier.com/Anthro/Parente/Matrilin.html

 

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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 36 - por Raúl Iturra
 

(Continuação)

 

É fascinante aplicar o saber de Freud, Klein e Bion ao entendimento de um ser humano que, nos seus curtos anos, é considerado um pecador. As análises revelam a possibilidade, a realidade diria eu, de seres que, desde a sua existência dentro do líquido amniótico pensam, sentem, têm emoções, choram, decidem. Aprendem a optar, a ter autonomia. Sobre esta temática, a melhor análise é o texto Inveja e Gratidão de Klein, base das ideias de disciplina religiosa de Bion no seu Attention and Interpretation, debate que define o comportamento como ideias partilhadas, em harmonia ou em desencontro, por muitos, uma religião como o autor denomina, sem entrar pela teologia, pelo Direito canónico ou a catequese, procura como John Locke[1] no Tratado sobre a Tolerância baseado nas suas observações de crianças e sobre teologia, que era o seu domínio[2], com recurso ao estudo de crianças em clínica.

 

Não é o caso de Bion nem o de Freud ou o de Klein, entre outros. Sim, usam os elementos da teoria cultural, cuja lógica da cultura é a religião, mas a definição é diferente. Enquanto os Locke, o William of Ockam, os Henry Bergson, passando pelos economistas Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquis de Condorcet, François Quesnay, Adam Smith, James Mill, Alfred Marshall, Lord John Maynard Keynes, até o Socialista David Ricardo em 1823, procuram um saber do real com base numa religião orientada pela divindade, pelo totem que colabora com o lucro e ajuda a guardar a mais-valia retirada ao operariado dos seus povos, como analiso no meu livro A Dádiva, essa grande mentira social. A mais-valia na reciprocidade, Afrontamento, Porto, 2003. Bem longe do caso, claro está, de Émile Durkheim e Marcel Mauss, fundadores do Marxismo-leninismo francês e colaboradores da Revolução Soviética. Freud, por seu lado, define religião como foi dito e, no entanto, baseia-se na mesma para entender a mente e a procura da felicidade na interacção social que Bion define em 1970 como “um pensamento de modelos de seres humanos, criaturas de intencionalidade que transcende as necessidades físicas imediatas e permite actos pessoais de compensação como a meta emocional e cognitiva que procura o ser humano, para acrescentar que usa a notação 0 para indicar a realidade última, representada por termos como realidade última, verdade absoluta, a deidade, o infinito, a coisa – em – si”[3]. Esta deidade não é ritual nem faz milagres, é apenas um conceito que indica que entre todos os seres humanos, há uma procura de saber para fazer – contrário a Aquino em 1275, ou Averröes, dois Séculos antes entre os Muçulmanos, que já tinham tudo definido pela cultura revelada e o denominado Direito natural, estes intelectuais estabelecem um diálogo com uma mente em branco, e denominam divindade a procura do fazer a seguir ao entendimento dos factos. Não é em vão que Freud, num dos seus textos – revisto por ele em francês – Psychopatologie de la vie quotidienne[4], analise a masculinidade de Moisés e a sua capacidade de ditar e de obrigar a cumprir as leis. Ou o comentário de Melanie Klein de ser indiferente a religião e filosofia, mas nada oposta a análises que permitem um posicionamento esquizoide, como já referi.

 

 

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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 35 - por Raúl Iturra
 

(Continuação)

 

Bronislaw Malinowski, Polaco – Austríaco, refunda a Antropologia Britânica, interessa-se pelas formas de troca de povos sem mercado e, antes ainda, pelas formas de organizar a reprodução em grupos sociais não europeus, ao escrever a sua tese doutoral em Antropologia em Londres, em 1913, sobre The Family Among the Australian Aborigines[1], certo de que era uma família monogâmica, nuclear e regida pela lei que governava a Melanésia, a da Coroa Britânica. Em procura de prova certa, compara – o método que cria – estuda um outro, denominado The Natives of Mailu, de 1915[2]; em ambos os livros fala de pais e filhos, rituais de iniciação e, especialmente, a autoridade pater famílias, no seu ver, aí existente.

 

Era a época em que existia a ideia do mundo estar a mudar, assim como as formas diferentes ou semelhantes do acasalamento para a reprodução humana – conceito criado e usado por Malinowski pela primeira vez, e, infelizmente, usado sem citação até hoje. O mundo começou a mudar, o Rei da nova Alemanha, declara a guerra, Malinowski é um inimigo e é transferido para fazer trabalho de campo na Austrália. A sua surpresa é grande ao reparar que a família Australiana - na época em que nenhuma família escapava à análise feita por Durkheim, Freud ou pelos alemães como Thurnwald no Estreito de Torres, Boas no Canadá, os Ingleses Haddon e Seligman, mais tarde Gregory Bateson entre os Iatmul da Nova Zelândia, Reo Fortune entre os Dobu Kiriwina, Raymond Firth com os seus parentes maori da Nova Zelândia, Ruth Bennedict entre os Japoneses e entre os índio Pueblo do México, Margareth Mead primeiro entre os Dobu e posteriormente entre os Mundugumor e Arapesh da Polinésia, todo o mundo corre para ver como é que era e como vai deixar de ser – encontra-se de uma forma muito diferente daquilo que se tinha falado.

 

O seu primeiro objectivo, foi tentar entender se era possível funcionar de forma económica sem mercado, ideia retirada do seu Mestre Marcel Maus e do mestre do seu Mestre, Émile Durkheim, que mais tarde tiveram que reconhecer que não existia grupo social sem troca, como refiro no meu livro de 2002 e no de a Mais-valia na Reciprocidade - publicado em 2008 -, esse conceito Freudiano de 1906 que refere a troca de amamentar e de carinho entre a criança e a sua mãe, até à idade dos seis meses, que Melanie Klein analisou, como o afirmo anteriormente. Um conceito emotivo e romântico, que Malinowski retira dos textos de Freud de 1906 e de 1913 e aplica às relações de mercado como um dar para receber e devolver, como a mãe que dá o leite, o bebé recebe e em troca, dá carinho e ternura.[3]

 

(Continua)

 

 

[1] Malinowski, Bronislaw, 1913, sob a orientação do finlandês Edward Westermack, Professor na Universidade de Londres, que procurava organizar um largo conhecimento sobre as formas matrimoniais do mundo.

[2] Malinowski, Bronislaw, publica ambos os livros na Routledge and Kegan Paul, hoje textos inexistentes, excepto na colecção completa que a Routledge tem preparado das obras todas, que são mais do que cem textos, pelo que o Website é importante: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Family+Australian+Aborigines&btnG=Pesquisar&meta=

[3] Malinowski, Bronislaw, 1922: The Argonauts of Southern Pacific, Routledge and Kegan Paul, website para debate e definer conceitos: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+The+Argonauts+of+Southern+Pacific&btnG=Pesquisar&meta=

 

 



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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÃNCIA - 34 -por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Esta transferência do amor à mama grande para o encantamento das actividades do imenso grupo social é uma análise da paixão que acontece entre seres humanos. A Mama Grande era amada, temida, esperada, respeitada, obedecida, desenhada, a sua palavra era um Edito à Justiniano, as suas ideias eram lei e não havia rapariga que pudesse mexer sem o seu conhecimento nem homem a agir sem a sua autorização. Como o bebé que nasce na ideia dos pais, sem os pais cultivarem primeiro um carinho calmo e sereno entre eles, que possa levar a separar duas actividades que os teóricos e a lei esquecem: a de pais e a de cônjuges, como me ocorrera um dia escrever[4]. Os pais são os ancestrais das crianças, devem-lhe carinho e cuidados, alimentos, estudos e novas ideias, dentro de uma relação que, até hoje me parecia eterna; os cônjuges, são apenas os amantes de olhos nos olhos que podem durar até ao dia da morte de um deles, podem ou não ser pais das mesmas crianças, ou podem, recorrer à nova instituição denominada divórcio, lei que não existe para separar a paternidade da filiação, excepto nas heranças, mas não na consanguinidade. Um matrimónio pode ser desfeito, uma paternidade dura até que permaneça na lembrança do último parente conhecedor dessa paternidade – maternidade, ou as fotos, ou a árvore genealógica, no carinho e na lembrança. Na materialidade dos afectos. O que o autor nos ensina é a passagem de sensações e carinho de uma actividade a outra.

 

É o que Guthrie nos diz no texto francês até agora comentado: «Travail de séparation. Les parents confrontent l’enfant imaginaire à l’enfant réel. Un processus de deuil commence. L’enfant existe. Le processus de deuil doit être achevé à l’accouchement. L’enfant naîtra réel, autonome et différent. La femme pense à son accouchement, craint les douleurs, le risque de l’enfant mort-né, ou anormal ». O trabalho de separação mencionado é uma realidade, um golpe da realidade, o começo da análise da diferença entre a criança imaginária, idealizada pelos progenitores para complementar uma falta de acompanhamento entre os pais, essa ideia de Criação que parece estar no pensamento de todas as culturas, como Alice Miller e Françoise Dolto analisam: o luto pela criança aparece, começa, porque o ideal não existe mais e o que nasce passa a ser um problema quer para a casa, quer para a vida social e, às vezes, o motivo do afastamento dos cônjuges por serem progenitores[5].

 

Este tipo de análise faz-me pensar a ideia central da nossa cultura o nosso comportamento e o comportamento regulamentado quer pela lei, quer por textos sagrados que, dentro da cultura, têm força de lei. O próprio Wilfred Bion começa a analisar as formas pelas quais uma criança pode passar a ser um torvelinho no meio dos outros e no meio dos adultos. Se lembrarmos bem, Bion propõe que todo o ser humano é uma finitude ou é finito, um 0, do qual se parte para aprender com a experiência. Por outras palavras: nas formas religiosas de entender a mente de Wilfred Bion, todo o ser humano está subordinado a grupos, de cuja experiência aprende, como define, ainda discípulo de Melanie Klein, nos anos 40 do Século passado[6].

 

Texto no qual propõe que o entendimento dos fenómenos sociais são possíveis na medida que o inconsciente é revelado entre todos e fazem História ou consciente, o que denomina a Quinta Hipótese. É a ideia para entender as formas de tratar as pessoas, entre as quais as crianças que, como Klein[7] já propunha, funcionam melhor em grupo, especialmente do mesmo tipo de origem. O infinito pode ser trazido ao finito por meio do grupo, como explica no já citado, Learning from experience de 1962. A criança é essa finitude que dentro do grupo familiar pode ter memória e perder a ideia de plenitude e omnipotência que a caracteriza, quando separada da sua família. Se assim não acontecer, a criança pode desenvolver uma neurose uma histeria para chamar a atenção dos seus adultos. Quase é possível afirmar, a partir do texto citado de Klein, que em grupo há possibilidade de entender a realidade que existe para a menina que relata no seu texto de 1946. A criança exibe um comportamento que ela denomina posição paranóica, relativa ao facto de não se sentir amada pela mãe, não ter acesso ao seio e ao seu alimento, e que é através do jogo e da brincadeira que consegue entender o sentimento de perseguição que os grupos lhe causam. Porque as crianças têm um superego – uma memória de si próprias e uma auto-estima maior do que a dos adultos, sem ter vergonha de confessar o que não lhe parece claro. Este facto faz mal ao adulto, incapaz de sentir uma realidade perante si sem ter que disfarçar por motivos de interacção social.

 

É preciso recordar que os factos se desenrolam na época da guerra, que Freud denomina Thanatos[8], isto é, o princípio não refutado da procura do prazer e da alegria, de vida, que criança como Richard está a procurar. Bion, desenvolve a ideia de que as crianças dentro do jogo de História desenvolvem o problema muito complexo e preocupante para os pais de trazer o infinito para si e desenvolver o sentido do poder e da omnipotência, que causa estragos entre a população infantil e a população adulta. A criança não obedece às ideias dos seus pais por pensar que estão enganados e eles, os mais novos, têm a razão. O próprio Bion desenvolve uma ideia a partir deste facto e a sua hipótese do saber 0 ou infinito e o saber finito que as pessoas têm e diz que ter grupo é ter uma mente, e a criança tem um grupo mais semelhante entre si do que os grupos adultos. Os adultos têm uma epistemologia de opção de cálculo e lucro, como mencionei e a criança tem em conta a emotividade e o que pode ganhar com uma manipulação da mesma[9].

 

A mente da criança fascina Bion, que de imediato retira mais um saber sobre os mais novos rebeldes com os adultos: When two characters or personalities meet, an emotional storm is created. If they make a sufficient contact to be aware of each other, or even to be unaware of each other, an emotional state is produced by the conjunction of these two individuals, these two personalities, and the resulting disturbance is hardly likely to be something which could be regarded as necessarily an improvement on the state of affairs had they never met at all. But since they have met, and since this emotional storm has occurred, then the two parties to this storm may decide to "make the best of a bad job”[10].

 

Esta citação acrescenta ideias sobre o nosso jovem pecador. Porque o texto de Bion permite, muito embora não tenha falado directa e exclusivamente de crianças, dar uma ideia mais importante do que Klein tinha definido ao falar das reacções próprias dos mais novos: o afastamento de uma forma de comportamento esperada destes pequenos, normalmente de união com adultos, subordinação aos mesmos e aceitação do que os mais velhos dizem. Das análises feitas por estes eruditos, é possível aceitar a afirmação de Bion que refere que a verdade é um facto contingente – não fixo, não provado – mas fundamental. Fundamental porquê? Porque reflecte a forma cultural de entender o contexto da verdade que está definido pelo acontecer histórico que resulta da passagem do inconsciente à História e do consciente ao factual quotidiano.

 

Como diriam Freud e Bion: o primeiro, a verdade é o prazer; o segundo, a antítese de escolher o sofrimento para entender a verdade do infinito e poder preencher os Alfa e Ómega da realidade quotidiana. Conceito vazio na cabeça dos mais novos, que acabam por tomar os seus posicionamentos, bem longe do que os adultos iludidos esperavam na ilusão da paixão, como foi descrito no começo, quase como num conto de fadas. A procura do sofrimento, de que fala Bion, para explicar a verdade, não é gratuidade: permite o crescimento mental na procura de saber encontrar um caminho alternativo à frustração. Se Freud falava de Eros e Thanatos, Klein de posicionamento paranoide e esquizoide – note-se bem, não de paranóia ou esquizofrenia – Bion de procurar alternativas à frustração, podemos concluir perante estas três ideias básicas para a terapia dos nossos dias que o acusar os pequenos de quererem matar o pai, ter ciúmes da mãe, sentir perseguição da família, pretender omnipotência, são realidades bem mais positivas que revelam uma mente infantil capaz de crescimento e não de doenças ou dos modelos neuróticos que Alice Miller critica no seu livro O saber proscrito, várias vezes citado[11].

(Continua)
4] Iturra, Raúl, Junho 2000, p. 26. “Pais e Cônjuges”Jornal A Página", ano 9, nº 91,

[5] Ver não apenas nota anterior, bem como as citações de Alice Miller e Dolto, especialmente no caso de Miller o seu texto de 1985, publicado por Tusquets em Barcelona em 1994: El drama del niño dotado y la búsqueda del verdadero yo, que analisa a ilusão da uma infância que nunca foi vivida; ou Françoise Dolto, 1995: La difficulté de vivre, especialmente páginas79 a 209, sobre família e sentimentos.

[6] Bion, Wilfred, 1948-1951: Experiences in groups. Human Relations, reeditado em 1961 pelo Instituto Tavistock como Experiences in Groups, website para informação e debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Wilfred+Bion+Experiences+in+groups&btnG=Pesquisar&meta=

[7] Klein, Melanie (1947) 1973: Psychanalyse d’un enfant, Tchou. Paris. Também Imago, Rio de Janeiro 1991. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Melanie+Klein+Psychanalyse+d%27un+enfant+1946&btnG=Pesquisar&meta=

[8] Freud, Sigmund, versão francesa revista pelo autor de 1923, já referida, define: “Além do princípio do prazer”1, trabalho no qual Freud desenvolveu suas ideias sobre pulsão de vida, pulsão de morte, compulsão à repetição, etc. é segundo ele próprio, um trabalho que se nutre de especulação2. A actividade especulativa difere por sua natureza da actividade de raciocinar. Ela permite-nos a suprema ousadia de avançar por espaços desconhecidos, liberando novas formas de pensamento e sensibilidade. Enquanto a Razão no mantém atados ao conceito – abstracção das realidades estéticas – o Pensamento nos fornece ideias que estão fora de senso comum. Eros/Thanatos produtos do pensamento e não da Razão, são ideias e não conceitos”. Retirado do artigo “Eros/Thanatos: uma exegese e uma pragmática de «Além do principio do prazer»”, de Nahman Armony, http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Thanatos&btnG=Pesquisa+Google&meta=

[9] Bion, Wilfred, 1979 a) A Memoire of the future, Book Two: The Past Presented, Imago, Rio de Janeiro. Website para informação e debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Wilfred+Bion+Memoirs+of+the+future&btnG=Pesquisar&meta=

[10] Bion, nota anterior, retirado do texto de R.D. Hinshelwood, website http://psychematters.com/papers/hinshelwood2.htm

[11] Ver Bion, 1970: Attention and interpretation, Tavistock Institute, Londres. Website para debate e ideias: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Wilfred+Bion+Attention+and+Interpretation&btnG=Pesquisar&meta=

 


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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - 33, por Raúl Iturra

 (Continuação)


 

Sétima Lição

O PEQUENO PECADOR...

 

 

Olhos felizes, sorrisos brilhantes. Silêncio no beijo. Respeito na carícia. Uma mão doce a percorrer o corpo. Suavidade, ternura, sedução. Silêncio: uma criança está a ser projectada. O imaginário de dois, transferido a um entre momentos de sedução, brinca e pensa: como é que será, os teus olhos, a minha boca, o teu andar? A felicidade prometida no Jardim do Éden, a felicidade que nasce nesse primeiro encontro? Quando um corpo chama o nosso, faz sentir a nossa pele rizada, a querer correr dentro da outra uma e outra, e outra vez, com doçura, com respeito, com a alma a brilhar[1]. A paixão. O amor. O presente dos novos, o futuro dos velhos. A lembrança dessa outra pessoa que nos faz sentir a alma quente e terna, a cabeça perdida, ideias que iluminam e aquecem a tarde de um Domingo de Inverno. O Jardim de Éden. O paraíso antes, durante e depois do tema que nos leva a estas ideias: a glória de sermos pais... um dia, em breve. Já: « À partir du moment où on est deux (couple), on est déjà trois, même si l’enfant n’est pas encore pensé consciemment. Il y a toujours dans le désir d’avoir un enfant un besoin personnel à assouvir»[2]. A paixão da afectividade faz-nos sentir a urgência de nos projectarmos e eternizarmos dentro de um outro ser humano, porque o nosso amor é tão grande, que dois não são suficientes para poderem guardá-lo. Eis o motivo desta frase e de todo o texto que citei no início da lição quarta.

 

A afectividade apaixonada, conceito pouco usado entre os analistas que procuram uma outra parte do texto citado, para podermos começar no Jardim do Éden, desencadeou o motivo do título desta lição. A realidade contextualiza o amor, trava a paixão e faz andar pela vida como se o cuidado de olhar nos olhos do outro pudesse perder-se ao entrar um terceiro na relação a dois. Um terceiro desejado pelo par, parte de si próprios, plenitude dos laços de ternura com espaço afectivo para o cobiçar para nós e guardá-lo dos outros, sentimentos mútuos de paixão materializados num novo ser, que passa a ser querido, mas dentro de uma grandiosidade que apenas García Márquez é capaz de descrever para um sentimento amoroso. Como o amor que descreve à Mama Grande, sem romance, sem a primeira sedução que muda para outras hierarquias: “Poco antes de las once, la muchedumbre delirante que se asfixiaba al sol, contenida por una elite imperturbable de guerreros uniformados de dormanes guarnecidos y espumosos morriones, lanzó un poderoso rugido de júbilo. Dignos, solemnes en sus sacovelas y chisteras, el presidente de la república y sus ministros; las comisiones del parlamento, la corte suprema de justicia, el consejo de estado, los partidos tradicionales y el clero, y los representantes de la banca, el comercio y la industria, hicieron su aparición por la esquina de la telegrafia. Calvo y rechoncho, el anciano y enfermo presidente de la república desfiló frente a los ojos atónitos de las muchedumbres que lo habian investido sin conocerlo y que solo ahora podian dar un testimonio verídico de su existencia. Entre los arzobispos extenuados por la gravedad de su ministerio y los militares de robusto tórax acorazado de insignias, el primer magistrado transpiraba el hálito inconfundible del poder…la mama Grande estaba entonces demasiado embebida en su eternidad de formaldehido para darse cuenta de la magnitud de su grandeza…estaban asistiendo al nacimiento de una nueva grandeza. Ahora podía el Sumo Pontífice subir al cielo en cuerpo y alma…”[3].

 

 

 

(Continua)

 

 

[1] « L’histoire de l’enfant commence dans l’imaginaire des parents. On l’imagine grand, beau, fort et plus tard riche. A partir du moment où on est deux (couple), on est déjà trois, même si l’enfant n’est pas encore pensé consciemment… » Psychiatrie Infirmière, Website http://psyciatrieinfirmiere.free.fr/infirmiere/formationInfirmiere/psychologie/cours.htm

[2] Ver nota anterior e as obras de Alice Miller referidas, especialmente o texto preparado por mim, tendo por base a minha participação no projecto The Natural Child Project: All children behave as well as they are treate em http://www.naturalchild.com/alice_miller\ ou Los funerales da la Mamá Grande de Gabriel García Márquez, 1974, Bruguera, Barcelona, website www.ciao.es/Los_funerales_de_mama_grande__144017 -

[3] García Márquez, nota 2, páginas154 a 157, intercaladas por mi.

[



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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA - 32 - por Raúl Iturra

 

(Continuação)

 

 

O caos é dos pais. Eis por que denominei este capítulo a ilusão de sermos pais. Não apenas por existir na vida social todo um ritual que pertence, desde muito cedo, aos pequenos, contos que nos dizem, canções que nos cantam, peças de teatro que devemos ver e comprar bilhete...pago em papel. O caos é dos pais que sabem manter uma disciplina de horário para comer, para tomar banho, para adormecer e para acordar. A parte mais complexa dos pais, é levantar as crianças de manhã cedo e levá-las ou à creche, ou à escola. Lembro-me de ter inventado uma brincadeira que consistia em entrar calado, ainda noite, na cama das pequenas e cantar uma canção de embalar, até lentamente acordarem com o barulho, sem jamais proferir as palavras: “já são horas, corre que é tarde...” e outras ideias do género. Como encher a casa de bolachas, chocolates e depois, sopa e mais comida. Esta contradição do adulto leva o mais novo a querer deixar de comer. Ou, ocultar o beijo na boca que um pai apaixonado pela mãe dos seus filhos quer dar na presença deles. Causa um alvoroço tão simpático, que seria impossível andar em procura dos vilaines petits canards.

 

É impossível deixar de referir que essa ilusão nasce também da quantidade de erudições que a vida social ensina aos pequenos que ficam a uma certa distância de nós, orgulhosos do seu saber. Um saber que, apesar de já estar connosco, nos deve sempre surpreender e agradecer, sem muito alarido, a lição recebida.

 

Era uma vez uma pequena que acordou da sua sesta durante um dos nossos trabalhos e entrou caladinha, para nos surpreender, no sítio da casa da aldeia onde nós, amantes além de pais, namorávamos. A idade era a de Freud e de Klein, esses duros três anos ou dois. Ao ver o seu adorado pai abraçar com paixão a mulher que a alimentava, teve um acesso de raiva imenso e começou a tirar tudo o que estava por perto: virar mesas, dar pontapés nas cadeiras, arrastar a toalha de mesa, partir loiça. Nós, já divertidos, não abrimos a boca nem proibimos nada; e fomos passando de quarto em quarto a partir o mundo e nós atrás dela, em silêncio a rir com os olhos nos olhos – esse rir calado e agradável, que acorda o brilho da pupila – e vigiar não fosse ficar ferida. Até que quis atirar com uma bilha de gás, foi-lhe impossível e, naturalmente, virou-se a nós para entornar esses 45 quilos, que...entornamos às gargalhadas. A seguir, o lanche e nunca mais falaram do assunto, como de nenhum outro que...causa punição. É a forma de sair do caos dos pais, ou, sem saber, colaborar a dar cabo do caos dos pais, parte natural da vida de casal.

 

É a ilusão de sermos pais. Há o próprio processo da criança, descoberto no Século XX, há o conjugal, há a economia, há as doenças. Há tanto problema a sarar, e, o mais difícil, o desejo de continuar a brincar aos noivos por parte dos pais. Como costumo dizer, ser pai é para toda a vida, mande-se no filho ou não, o afecto contínua, crescendo com a história e a criança. É o desenvolvimento que devemos aprender e acompanhar: eles são hoje os adultos que um dia nós fomos, e de pai a avô, há um mundo de mudança de comportamento. Nascemos sós, morremos sós. Apenas 5 anos são importantes: esses definidos antes neste texto, quando em casa, a criança desenvolve a sua epistemologia, que, para acontecer, nós devemos ver, ouvir e calar e responder apenas se lhe endereçam perguntas.

 
 
(Continua)

Ver mais... )

 



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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA- 31- por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Artigo 76.º

(Universidade e acesso ao ensino superior)

 

1. O regime de acesso à Universidade e às demais instituições do ensino superior garante a igualdade de oportunidades e a democratização do sistema de ensino, devendo ter em conta as necessidades em quadros qualificados e a elevação do nível educativo, cultural e científico do país.

2. As universidades gozam, nos termos da lei, de autonomia estatutária, científica, pedagógica, administrativa e financeira, sem prejuízo de adequada avaliação da qualidade do ensino.

 

Penso que a responsabilidade é dos pais e dos mais novos, fica amplamente demonstrada nesta contradição de conjunto de artigos que não apenas incentivam o estudo, bem como têm sido causa de uma série de outras leis necessárias para poder defender a vida dos que querem estudar e, por não terem melhor, usufruem de outras alternativas, como os estudos em Seminários, com essa ideia de se ser Padre ou Freira um dia – ou talvez até sejam e abandonem a seguir, como é possível ver dentro da História do País, ao longo do tempo e nas Universidades actuais, com Reitores e catedráticos saídos da fileiras da dita alternativa.

 

Ainda fica uma outra, que será parte da análise de outros Capítulos. O Código Penal legisla em 1998, sobre a autodeterminação sexual, uma outra alternativa que temos descoberto recentemente ser usada para andar dentro do saber. O Capitulo V do Código, artigos163 a169, legisla sobre o que se denomina o abuso sexual de menores, hoje em dia descoberto o seu uso dentro de estabelecimentos de ensino, para chegar mais à frente nos estudos.

 

Se a Carta Fundamental fala da Soberania do Povo, garante a individualidade e desenvolve as ideias do saber para ser cidadão como a lei espera, Códigos como o Penal não seriam necessários[1].

 

O que é, em consequência, cumprir a lei? A citação de Paulo de Tarso é taxativa: “Quem ama ao outro, cumpre a lei. É que nos mandamentos dizem: «Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não hás-de cobiçar», bem como qualquer outro mandamento, resumem-se nestas palavras: amarás ao próximo como a ti mesmo...”[2] Desde os artigos 2157 a 22 57, este outro texto da cultura que orienta as emoções e, em consequência, faz parte da análise da Etnopsicologia da Infância, como Françoise Dolto fez ao longo da sua obra, o catecismo analisa não apenas as relações de deveres dos filhos para com os pais em primeiro lugar, bem como a dos pais com os descendentes e de todos eles com a sociedade civil, ao definir que as autoridades, sejam quais forem, fazem parte do dever de todo o filho de ver, ouvir e calar. A Constituição dá, pelo menos, o direito a voto e a Soberania. Este texto – o primeiro que se aprende em países cristãos, como o Alcorão nos muçulmanos e o Tora nos judaicos – manda. Não permite o pensamento. Não há detalhe que, se não for cumprido, não passe a ser pecado ou injúria ao grupo social.

 

Aliás, o de Lutero, contém não apenas uma lista de culpas nem deixa ter um ritual especial para as analisar, denominado Confissão. Ritual que Lutero marca cuidadosamente até com fórmulas do que deve ser referido por cada um dos confessados. A criança cresce entre a falta social, de solidariedade social e a lista de faltas do que não soube fazer. O dever nestes textos não reside nos progenitores, reside nos descendentes. O artigo 2248 diz: “Segundo o quarto mandamento, Deus quis que, depois dele, honrássemos os nossos pais e aqueles que, para nosso bem, revestiu de Autoridade”[3].

 

A meu ver, esta referência está feita para o articulado que diz respeito às Autoridades da Sociedade Civil, “A submissão à autoridade e ser co-responsabilizado no bem comum exige moralmente o pago dos impostos, o exercício do direito de voto, a defesa do país[4]. Também essa criança que, como Freud e Klein já citados, definem de forma libidinosa na eterna união de orgasmo dos pais e a penetração permanente do pai dentro da mãe pela idade dos dois e três anos, aprende na catequese e na escola que “a fecundidade do amor conjugal não se reduz apenas à procriação dos filhos. Deve também estender-se à sua educação moral e à sua formação espiritual”, diz o artigo 2221, enquanto o 2222 acrescenta: “os pais devem olhar aos seus filhos como filhos de Deus e respeitá-los como pessoas humanas. Educam aos seus filhos a cumprir a lei de Deus, na medida que eles próprios se mostrem obedientes à vontade do Pai dos Céus[5]. A síntese de todo este articulado, seria talvez o Nº 2249: “A comunidade conjugal está fundada na aliança e no consentimento dos esposos. O Matrimónio e a família são ordenados para o bem dos cônjuges e para a procriação e educação dos filhos”[6].

 

É natural que tenhamos a ilusão de sermos pais, apesar de não sabermos estas leis e as suas semelhantes, elas estão a mandar dentro do pensamento das nossas crianças desde muito cedo nas suas vidas. Nós próprios esquecemos a base jurídica e de catequese do nosso pensamento. De facto, tenho já referido num extenso texto, que a criança vive num caos. O seu caos é a contraditória forma de receber informação, quer no lar, quer na escola, na rua, na televisão e nas conversas dos adultos que vão falando enquanto pensam que o mais novo não entende. O mais novo não entende o que falam os adultos que o rodeiam, sendo este facto o seu maior caos por ter que pretender entender. Eduardo Sá propõe que a conversa entre pequenos muito novos e os seus pais, passe pelo facto de brincar quer com a criança, quer entre os seus pais, em momentos adequados. Boris Cyrulnik, em 1991, transfere o comportamento do adulto para a resiliência, especialmente ao propor objectos intermediários entre o entendimento de crianças muito pequenas e os seus adultos. Faz uma lista, como capítulos de livro, na qual levantar um dedo ou fazer um sinal com a mão, é já uma palavra; ou o ursinho passa a ser um objecto de vinculação, ao qual se demonstra o mesmo carinho ou aborrecimento que o pequeno demonstra. É com surpresa que comenta na sua introdução que os adultos têm feito imensos esforços para adestrar animais, aos quais devem entender antes de ensinar. Daí que o que ele denomina o autista ou a “criança – armário”, é um pequeno que não pode ser obrigado a exprimir o que não deseja, bem como retirar das histórias que a pequenada ouve, a bela e o monstro[7]. Se repararmos, as brincadeiras de crianças hoje em dia são mais com animais, de Start-Treck, filmes como Brother-Beard, Sreck, e os desenhos já não são tipo Walt Disney, com pássaros a fugir de gatos, nem como bonecos que parecem pessoas. Especialmente, o entendimento dos adultos da transferência de carinho para este mundo de crianças que organizam uma estrutura activa, tipo Tolkien, no seu espaço físico, que o pequeno define como dele e deve ser respeitado, sem os seus adultos entrarem enquanto não forem convidados. Não esqueço ter andado, faz já tempo, em ponta de pés, nu, e à distância da água que uma das minhas filhas tinha criado na sua própria sala – a nossa, que adquiriu por ser adulta e receber visitas a nadar...aos seus três anos. Ou a ordem de leitura dos livros que o meu neto me faz para adormecer e que devo ler claramente em...Neerlandês.

 

(Continua)

 

1] Código Penal, 1998, Vislis Editores, Lisboa. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=C%C3%B3digo+Penal+de+Portugal+1998&btnG=Pesquisar&meta=lr%3Dlang_ptapenas troços de texto e comentários.

[2] Catecismo da Igreja Católica, 1992, mesmo site notas anterior.

[3] Página 481 do texto referido

[4] Artigo 2240, obre citada, página 479

[5] Página 476 da obra em análise.

[6] Mesma obra, página 481

[7] Cyrulnik, Boris, 1999: La naisance du sens, já referido e citado in passim nesta parte do texto.



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