Terça-feira, 15 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - VI

 

(continuação)

 

Emprego no sector dos não negociáveis


Os grandes sectores dentro do agrupamento dos não negociáveis são o governo, a saúde, as vendas a retalho, os serviços de alojamento/alimentação (i.e., hotéis, restaurantes e hotelaria) e a construção (ver Figura 6). Em 2008, estas actividades representavam cerca de 73,5 milhões de empregos, cerca de 64% do emprego total que se verificava  no sector dos bens e serviços não comercializáveis e aproximadamente cerca de 50 por cento de toda a economia. Em conjunto, os 5 principais sectores dos não  comercializáveis contribuíram com 65 por cento da variação  total de postos de trabalho a partir de 1990 para 2008.


O Governo, em todos os níveis, é o maior empregador do sector dos não comercializáveis e representa um pouco mais de 22,5 milhões de empregos em 2008. Os cuidados de saúde é claramente o segundo sector mais importante do grupo dos não negociáveis tendo no fim do período atingido um  total de 16,3 milhões. Em termos de acréscimos, o crescimento do emprego nos  cuidados de saúde foi  de 6,3 milhões de empregos e está portanto no  topo da lista quanto ao volume de emprego adicional criado,  enquanto que o total criado pelo  lugar governo o situa em segundo pois o seu acréscimo em volume de empregos foi  de 4,1 milhões. Estes dois acréscimos juntos valem quase 40% do emprego total líquido criado adicionalmente na economia desde 1990. Para uma discussão posterior, notemos que o emprego criado a nível governamental não é principalmente impulsionado pelas forças de mercado, e os cuidados de saúde é algo de relativamente híbrido. As forças de mercado trabalham na área da saúde, mas com grandes assimetrias ao nível da informação e com uma  substancial participação pública no lado da procura e na regulação. Tanto no governo como no sector dos cuidados de saúde, há pelo menos algumas questões a colocar sobre a sua capacidade futura em ser o principal impulsionador do crescimento do emprego.

 

As Figuras 6 e Figura 7 mostram as tendências no sector dos bens e serviços não comercializáveis. Elas incluem componentes não comercializáveis de sectores como as finanças e  os seguros, mesmo que a maioria destas indústrias sejam  negociáveis. Para garantir que os dados são vistos no seu contexto, as indústrias que não são predominantemente ou não são totalmente comercializáveis incluem  um asterisco. Não temos até este momento forma de isolar o crescimento do emprego ou o seu declínio em subcomponentes negociáveis e não negociáveis de um sector ou indústria que é uma mistura dos dois grandes agregados em que estamos agora a analisar a economia.

 

Podemos, portanto, simplesmente ligar o aumento ou diminuição do emprego (ou depois, o do  valor acrescentado) ao grande agregado dos  bens e serviços negociáveis ou  não negociáveis com base na proporção da  indústria que é estimada estar em cada um dos dois agregados.6 Isto é improvável ser  preciso, pelo menos para as situações de declínio ; os declínios são mais prováveis de ocorrer no subcomponente dos negociáveis. As reduções na parte dos não comercializáveis, portanto, não devem ser tomadas muito a sério. Felizmente, elas são relativamente pequenas e não afectam substancialmente o quadro geral.

 

 

 

 

 

Para facilitar a visualização destas tendências, as indústrias mais pequenas do agrupamento dos bens e serviços não comercializáveis têm uma escala diferente e estão incluídas na Figura 7. Mais uma vez, o leitor poderá notar que certas categorias — como Industria Transformadora III que na sua maior parte são mercadorias negociadas internacionalmente e são mercadorias intensivas em  capital tais como a maquinaria pesada — incluem também  um componente não negociável .

 

 

Figure 7. Nontradable Industry Jobs, 1990–2008 (Minors)8

Source: Authors’

 

 

(continua)



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Sábado, 12 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - V

 

(Continuação)

 

 

A estrutura da economia americana está em evolução.

 

A estrutura da economia americana está a evoluir. A tecnologia é uma das forças motrizes, tanto no mercado interno como  na integração da economia americana com a economia mundial. Uma economia, não funciona no  vácuo. Numa economia global relativamente aberta, as mudanças estruturais nas economias emergentes podem levar a que estas forcem também a  mudanças estruturais  nos países avançados. Quando um certo tipo de actividade fica numa situação de declínio na  nossa economia, normalmente esta actividade  não desaparece pura e simplesmente  da economia global, mas em vez disso pode significar, normalmente é assim, que se está a deslocalizar para outro país. Estas poderosas forças de mercado operam directamente sobre o sector de bens e serviços negociáveis internacionalmente e, indirectamente, na produção de bens e serviços não negociados internacionalmente através dos salários e dos seus efeitos nos preços e da deslocação de oportunidades de emprego no mercado de trabalho.

 

Com o objectivo de dividir a economia em dois grandes agregados, em duas partes,  em actividades de produção de bens e serviços negociados e em  não negociados internacionalmente nós utilizámos  a metodologia desenvolvida por Bradford Jensen e Lori Kletzer. A metodologia destes dois autores determina que neste caso a colocação de uma indústria, de um ramo, de um sector numa ou noutra parte  é feita com base na sua concentração geográfica — quanto mais concentrada é a indústria, maior é a sua possibilidade de comercialização (e vice-versa). Por exemplo, tomemos o comércio a retalho: a sua presença geográfica omnipresente implica que se trata de uma actividade largamente não comercializável internacionalmente. O mesmo poderia ser dito para a limpeza a seco, para a construção e para a maioria dos cuidados de saúde. Por outro lado, o sector mineiro tende a ser geograficamente concentrado, o que aponta para a possibilidade de comercialização internacional.

 

A classificação de Jensen e de Kletzer reflecte com mais precisão o facto dos  bens negociáveis internamente do que o facto de serem negociáveis internacionalmente. Por exemplo, quanto aos serviços jurídicos, a possibilidade de comercialização no mercado interno e a possibilidade de comercialização internacional divergem. Nós adaptámos e ajustámos as suas classificações por principalmente olharmos para a estimativa de possibilidade de comercialização de cada sector e de  usarmos  simultaneamente  o senso comum e os dados das  exportações e importações para ver se as suas proporções reflectem a comercialização internacional das indústrias. Geralmente, as divisões parecem correctas, certamente com algumas indústrias a estarem bastante próximas da  imagem dada   pela evolução estrutural  geral,  sinal que não seria enganosa. Muitas indústrias são totalmente negociáveis ou não negociáveis internacionalmente, embora na maioria dos sectores exista um conjunto crescente de serviços fornecidos que são em princípio serviços negociáveis internacionalmente.


 

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - IV

 

(Continuação)

 

 

Para ilustrar o que é uma cadeia de valor acrescentado ou como é que esta pode ser pensada, imagine-se  que estamos a planear lançar um novo produto electrónico. Do projecto inicial até à venda a retalho há uma infinidade de etapas que devem ser tomadas e em que cada um delas pode ser dividida em outras pequenas etapas e processos (ver figura 3). Em suma, estas etapas, estes processos, formam a cadeia de valor acrescentado. O valor acrescentado para o produto final seria então o preço de venda no retalhista (o total, com as suas margens de lucros) menos todos os custos que se tiveram de suportar para obter o referido produto e   para o levar até às mãos dos consumidores, com exclusão, de novo, dos custos em capital e trabalho.

 

Figura 3. Cadeia de valor acrescentado para um produto electrónico imaginário

 

 

Os detalhes e número de etapas variam entre as diferentes indústrias, entre os diferentes sectores. Quando as coisas são vistas desta forma, como sendo a transformação, no sentido da produção de uma dada mercadoria, não se trata de uma só  indústria. Há um subconjunto de etapas ou passos na cadeia de  valor acrescentado, e frequentemente,  para produtos complexos como automóveis, há sempre mais do que uma etapa, mais do que um passo. 

   

As cadeias de valor acrescentado complexas normalmente utilizam tanto bens e serviços transaccionáveis ​​como os bens e serviços não  transaccionáveis na qualidade de serem  os seus inputs, os bens e serviços necessários para a produção do produto final  ​​ Assim como os dados de uma qualquer dada  indústria não capturam   essas complexidades, adicionalmente  os  dados comerciais também têm muitas falhas.  Um iPad enviado da Foxconn na China tem  de valor acrescentado as componentes  nele  instaladas com origem os Estados Unidos e de vários países da Ásia. Sem uma grande quantidade de informações suplementares, é impossível fazer o registo, partindo do país consumidor até  á origem de criação do produto  e  encontrar os locais de criação de valor acrescentado para um qualquer dado produto. Além disso, as cadeias de valor acrescentado para os produtos finais podem- se sobrepor. Algumas partes da cadeia são específicas para um particular  produto em análise (montagem, por exemplo), enquanto que outras podem  ser partilhadas  (componentes ou logística ou funções de contabilidade e controle de custos). A economia global não se divide de forma nítida  em diferentes cadeias  de valor acrescentado totalmente separadas com uma  para cada sector ou classe de produtos finais.

 

Parte do sector de bens e serviços  transaccionáveis  é um conjunto de funções que envolvem o processamento de informações e serviços que lhes estão  relacionados. Estes sectores têm sido objecto de numerosos estudos e de muita atenção. As inovações tecnológicas importantes têm permitido importantes economias de trabalho no processamento de informações e na automatizações  das transacções. Além disso, algumas destas funções foram externalizadas. Parece tornar-se então evidente que os dados  parecem estar mais conformes com a conclusão que grande parte da redução do emprego que actualmente se tem verificado  terá  sido mais o resultado da aplicação de tecnologias labour-saving, tecnologias economizadoras do factor trabalho,  do que da atitude de se andar a externalizar. No entanto, alguns analistas confundem  estes sectores, com o sector dos bens e serviços negociáveis internacionalmente como um todo  e concluem  que a globalização tem tido impactos relativamente pequenos até agora. A premissa está errada e a conclusão falsa. O processamento de informações e os serviços relacionados representam uma pequena parte do crescimento do comércio internacional. Mas isto é interessante e relativamente novo, e os estudos feitos são pois úteis. Mas não se podem tirar conclusões gerais acerca do impacto da integração dos mercados globais a partir de análises feitas na base de uma relativamente pequena parte. Como veremos rapidamente, o emprego está em declínio na indústria transformadora  e está a aumentar no sector financeiro. Ambos os grupos têm estado a externalizar o seu sector de serviços de  informação. Mas  concluir que o declínio do emprego industrial pode ser atribuído a um impacto extraordinariamente grande sobre estes sectores devido à externalização dos processos de tratamento das informações destes  mesmos sectores ou pelo facto de que a automação das  transacções   seja labour-saving  é simplesmente uma conclusão  incorrecta.

 

 

Em forma de resumo, a melhor maneira para poder  pensar sobre os sectores de bens e serviços da economia em termos de serem negociáveis ou não negociáveis internacionalmente é definir o primeiro subconjunto de actividades, de bens e serviços,  como o subconjunto de  actividades, de  bens e serviços, que podem  fazer parte de cadeias globais de produção . A este nível, temos os dados sobre os sectores. Então, como uma primeira aproximação, a classificação em bens e serviços (ou seja, por sectores) ​​será pois feita em função da proporção como transaccionáveis ​​e não transaccionáveis que depende aproximadamente da proporção dos bens e serviços  transaccionáveis ​​na cadeia de valor acrescentado (usando o valor acrescentado como medida).

 

(continua)



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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - III

 

(Continuação)

 

 

 

Depois de trinta anos com uma muito forte taxa de crescimento, a estrutura da economia da China está em clara transformação e deslocação, como anteriormente o estiveram antes dela a Coreia do Sul e o Japão.  

 

FIGURA 1

 

Reafectação  das exportações  em produtos manufacturados da China entre os maiores sectores com a agregação feita a dois dígitos 

 

 

A China, com um rendimento per capita de cerca de 3.800 dólares está agora a entrar no que são chamados países de rendimento médio em transição. Esta fase de desenvolvimento é muitas vezes chamada de armadilha. É uma das transições mais complexas e arriscadas que já ocorreram na longa jornada, uma jornada de várias décadas,  de  países de baixos níveis de rendimento para os níveis  de países  avanaçados.  A experiência que nós temos da realidade e da história do pós-guerra sugere-nos  que a maioria dos países que entram para o grupo de rendimentos médios em transição  reduziu-se  depois significativamente ou ficaram  até em situações em que estabilizaram.

 

No conjunto dos casos de alto crescimento sustentado no período do pós-guerra (primeiro 13 países, depois 15, com a entrada para este grupo da Índia e Vietname), apenas cinco mantiveram as suas altas no quadro da transição dos  países  de  rendimentos médios  e continuaram no sentido dos países de elevados rendimentos  de 20.000 USD per capita ou  mesmo superior (ver figura 2). Essas transições extremamente rápidas ocorreram no Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura.

 

Figura 2. PIB real per capita e a Transição na zona de rendimento médios

 

Para a China e para outros países de rendimento médio, então, a manutenção do crescimento rápido não é automática.

 

 

 

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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo  - II

 

(Continuação)

 

Introdução

 

No ambiente pós-crise, as questões de sustentabilidade na trajectória da economia americana começaram a ser levantadas. Entre os problemas que eram sublinhados estava um grande défice na conta corrente, estava a escassez de poupança interna, estava o excesso de alavancagem e de endividamento no sectores financeiros e nas famílias, e estava igualmente a estagnação dos rendimentos ao nível da classe média. No entanto, o que nessa análise estava claramente a faltar era uma análise detalhada quanto às mudanças estruturais na economia sobre o longo prazo e era uma análise sobre a maneira pela qual o crescimento económico das economias emergentes está a afectar a estrutura de emprego na indústria e a do valor acrescentado por trabalhador na economia americana. O presente trabalho tenta preencher essa lacuna, oferecendo um novo olhar sobre a evolução da estrutura económica dos EUA ao longo dos últimos vinte anos e tenta explorar as implicações de tais mudanças.


A economia americana não existe num sistema de vacuum; a evolução de algumas das suas  mais marcantes características está  ligada à evolução das características de longo prazo dos países em desenvolvimento  e sobretudo está ligada à evolução das economias emergentes em especial às  mais importantes delas.

 

A primeira secção do presente trabalho descreve a evolução  da estrutura da economia global e oferece uma perspectiva de  como as economias emergentes aumentaram a sua influência sobre a economia americana desde os anos 50.

 

A próxima secção descreve as características da economia vista esta em dois grandes agregados da sua estrutura produtiva, um agregado, uma parte, a do conjunto   dos  bens e serviços  negociáveis internacionalmente  ​ e como segunda parte,  como segundo agregado, o conjunto  dos bens e serviços não negociáveis internacionalmente. ​ A partir desta divisão pretende-se olhar  para as tendências do emprego, do valor acrescentado, do valor acrescentado  por trabalhador  nas indústrias de cada um destes dois grandes agregados  em que se dividiu a economia... O artigo conclui com uma análise dos desafios estruturais e sobre as questões sobre o emprego e tenta de forma diria preliminar fazer uma exploração sobre possíveis respostas políticas.

 

O corpo principal do trabalho é a análise detalhada e que se quer intensiva a partir dos dados da economia americana sobre as mudanças no emprego e no valor acrescentado das diferentes indústrias dos EUA. Os leitores interessados ​​basicamente sobre as principais tendências e sobre as suas conclusões poderão ler o sumário executivo e a evolução da estrutura da economia global, e em seguida as últimas quatro secções, a partir da página XXXXX, onde se discute as respostas politicas que podem ajudar a mudar a actual trajectória

 

Na mudança da estrutura da economia global

 

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, com a economia global tem-se vindo, por lado,  a aumentar o peso do comércio externo face à sua produção interna, o PIB, e por outro lado, a aumentar a sua abertura financeira, o que foi  possibilitado em parte pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo  Banco Mundial e pelo Acordo Geral de  Tarifas e Comércio (GATT), este último transformado agora em  Organização Mundial do Comércio (OMC). Em paralelo, o colonialismo, com os seus inerentes constrangimentos sobre o desenvolvimento económico e as suas assimetrias internas, falhou. Apesar de duzentos anos atrás dos países desenvolvidos, cuja aceleração em termos de crescimento se iniciou no século dezoito com a revolução industrial inglesa, os países em desenvolvimento em todo o mundo iniciaram um processo secular de modernização. Hoje estamos já percorremos um pouco mais de metade do caminho, ao longo deste século.


Como as barreiras formais ao comércio e aos fluxos de capital diminuíram, houve uma série de outras tendências a acelerarem o crescimento assim como as mudanças estruturais nas economias em desenvolvimento. Nisto incluíam-se as inovações tecnológicas nos transportes e nas comunicações, a inovação na gestão em empresas multinacionais, os processos de aprendizagem sobre como fazer negócios em vários e diversificados ambientes, e a integração de cadeias produtivas multinacionais.


Graças às tecnologia da informação, muitos dos serviços que anteriormente não eram negociáveis internacionalmente como por exemplo as actividades que vão desde os serviços de radiologia até às contabilidades e à manutenção das tecnologias da informação passaram a serem actividades cujas produções se tornaram agora bens e serviços negociáveis internacionalmente.

 

As grandes economias emergentes, com diferentes pontos de partida (e muitas falsas partidas), têm mantido altas taxas de crescimento, muitas vezes superior a 7 por cento ao ano. Depois de várias décadas de crescimento em alta velocidade, essas economias tornaram-se mais ricas e economicamente maiores. Um ingrediente essencial é que neste crescimento haja mudanças estruturais. Com o aumento da sua dimensão, as transformações das estruturas dos mercados emergentes tenham cada vez mais e maiores impactos sobre as estruturas das economias dos países avançados. Uma economia emergente em crescimento desloca-se na sua cadeia produtiva para produtos de mais elevado valor acrescentado nas cadeias internacionais de produção, tal como o capital físico, o capital humano e o capital institucional aprofunda as economias emergentes levando-as a competir com as economias desenvolvidas.

  

No  inicio  do período pós-guerra, com as sucessivas rondas de negociações  do GATT removeram-se  restrições às exportações da produtos manufacturados , os países em desenvolvimento, cujas exportações consistiam até principalmente de recursos naturais e produtos agrícolas, desenvolveram uma base industrial em produtos da indústria transformadora  intensivos em mão-de-obra e de baixo valor acrescentado . Nesta sua base industrial a indústrias têxtil e a do vestuário eram dominantes. Outras indústrias foram sendo sucessivamente acrescentadas à medida que se progredia no tempo. A lista é quase que interminável: malas de viagem, louças, coudelarias, brinquedos, produtos pessoais, e assim sucessivamente.


Mas não eram apenas produtos acabados que estavam a ser  adicionados às carteiras de activos das economias emergentes. As partes das cadeias internacionais de produção fortemente utilizadoras em trabalho não especializado também se estavam a  deslocar  para as economias emergentes tanto quanto as  empresas multinacionais aprenderam a integrar de forma eficiente operações de produção geograficamente dispersas. No sector de produtos electroeletrónicos, o processo de montagem fortemente intensivo em trabalho não especializado é,  diríamos,  um produto  quase que naturalmente adaptado aos  países de baixos rendimentos. Semicondutores, placas de circuitos impressos e outros componentes são projectados e fabricados em lugares diferentes, ou seja, em países de médio e altos rendimentos tais como a  Coreia do Sul e Japão. A concepção e elaboração dos produtos das grandes marcas, o marketing, e investigação tendem a ser feitas nos países ricos. Cada componente da cadeia internacional produtiva tem sempre a sua mais eficiente localização de modo a reduzir ao máximo o custo do produto final.


A forma que assume a cadeia global de produção está  constantemente em  mudança. Países entram e integram-se  na economia global em momentos do tempo diferentes e expandem-se também a taxas diferentes. As economias que anteriormente apresentavam altas taxas de crescimento, as economias do Japão, da Coreia do Sul e Taiwan - inicialmente eram países exportadores de produtos intensivos em trabalho e foram-se gradualmente movendo e subindo na cadeia de produção global e então foram-se deslocando para produtos mais intensivos em capital como automóveis e motocicletas e depois para actividades intensivas em capital humano, como o design e o desenvolvimento tecnológico. As actividades intensivas em trabalho, foram as actividades que estes primeiros mercados de alto crescimento deixaram partir quando os seus custos do  trabalho aumentaram e estas indústrias deslocalizaram-se então para os países mais recentemente chegados  à economia global   e estes são predominantemente  os países asiáticos, como a China e o Vietname...


A transformação da estrutura global não é estática, nem cíclica, nem auto reversível. Esta é bem melhor descrita como sendo um dia que só pode ser vivido nesse mesmo  dia.. Os países que chegaram tardiamente à industrialização tendem a seguir a mesma trajectória que aqueles que os antecederam. 

 

(Continua)



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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo IV. 1. Bens e serviços negociáveis e não negociáveis no quadro da economia global: o caso da economia americana. Por Michael Spence e Sandile Hlatshwayo - I

 

Apresentação

 

Este trabalho examina a evolução da estrutura da economia americana, especificamente, as tendências em termos de valores de  emprego, de valor acrescentado por sector   e de valor acrescentado per capita  de 1990 a 2008. Estas tendências estão estreitamente ligadas com as tendências complementares em dimensão e em estrutura  da economia global, particularmente das principais economias emergentes.


Empregando séries temporais de dados da base de dados  do Bureau of Labor Statistics e Bureau of Economic Analysis, a economia americana e os seus sectores é dividida em duas partes, uma parte, em que se colocam os sectores ou ramos ou  indústrias norte-americanas que  produzem os  bens e serviços negociáveis internacionalmente e uma outra parte em que se colocam os sectores, ramos ou indústrias que estão a produzir bens e serviços não negociáveis internacionalmente. Procura-se que sejam analisadas as tendências, em termos de emprego e em termos de valor acrescentado, quer ao nível dos ramos quer a nível mais agregado ainda. O valor acrescentado em toda a economia cresceu, mas quase todo o acréscimo de emprego, que no total foi de 27,3 milhões de empregos, deu-se no sector de bens e serviços não negociáveis internacionalmente. Neste caso, nesta parte da economia, o sector governamental e o sector de cuidados de  saúde são os maiores empregadores e foram neles que se verificaram os maiores acréscimos, (um adicional de 10,4 milhões de postos de trabalho) ao longo das  duas últimas  décadas. Há perguntas óbvias sobre se estas tendências se podem manter  desta forma ou não, pois  sem uma rápida criação de empregos no sector de bens não comercializáveis, os Estados Unidos teriam já enfrentado  um enormíssimo  desafio em termos de emprego.


As tendências em termos de valor acrescentado por trabalhador são consistentes com os movimentos adversos na distribuição de rendimentos dos EUA nos últimos vinte anos, em particular o fraco crescimento do rendimento na faixa média de rendimentos. A parte da economia caracterizada pelos  sectores  dos bens transaccionáveis  está a deslocar a sua cadeia de valor acrescentado  com os seus elos de valor acrescentado na média ou inferior  a serem deslocalizados para o exterior,  especialmente para os mercados emergentes em rápido crescimento. Estes últimos países estão eles mesmos, e rapidamente, a subirem nas cadeias de valor acrescentado pelo que os empregos de remunerações mais elevadas podem deixar também os Estados Unidos, seguindo o padrão de migração dos empregos de salários mais baixos. A evolução da economia americana permite considerar que se trata da existência de um grande desafio quanto às suas estruturas de emprego de longo prazo relativamente à quantidade e à qualidade das oportunidades de emprego nos Estados Unidos. Um conjunto inter-relacionado de problemas está ligado às questões da repartição do rendimento; quase todos os acréscimos de emprego ocorreram no sector de bens não transaccionáveis, em que o crescimento do valor acrescentado por trabalhador tem sido muito mais baixo. Uma vez que este valor está fortemente correlacionado com o rendimento, haverá um longo caminho para explicar a estagnação dos salários entre largos  segmentos da força de trabalho americana.

 

 

Síntese

 

1. O crescimento do emprego na economia dos EUA entre 1990 e 2008 foi substancial, na ordem dos 27.3 milhões de empregos quando em 1990 havia 121.9 milhões de trabalhadores.

 

2. Virtualmente todos os acréscimos de emprego (97,7 por cento) resultam da criação de postos de trabalho na parte da economia dos bens e serviços não comercializáveis. Isso ocorreu apesar da dramática utilização das tecnologia economizadores em trabalho, labour-saving, no processamento da informação transversal a todos os sectores da economia.


 

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Domingo, 1 de Abril de 2012
A força está na ignorância, por Paul Krugman.

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Nota de leitura

 

 

Júlio Marques Mota

 

Um texto que Passos Coelho gostará de ler. Na sua sanha de destruição do futuro deste sítio, outrora país e que país há-de voltar a ser, não lhe bastarão na consciência  política, as dezenas de mortes que ficam social e economicamente por assumir, por gente que com a gripe, o frio, a falta de dinheiro,  ao hospital não terá ido ou não terá podido ir, não, teremos ainda a formação técnica e política de todo um país que se está fortemente a diminuir. Por causa deste objectivo, teremos os milhares de professores que esgotados abandonaram a sua profissão de décadas e já não basta ao actual governo encher as Universidades de monitores em substituição dos professores   e as vagas nos liceus preencher com jovens licenciados, agora em situação  de precariedade quase que absoluta, é necessário também colocar as salas de aulas a abarrotar de alunos porque  pura e simplesmente é necessário roubar ao país o seu futuro para com esse espólio satisfazer a  ganância dos mercados alimentares.  Esse é o trajecto actual do ensino em Portugal, do pré-primário ao superior.


Da América, dos rufias dos Tea Party e dos seus representantes mais um exemplo de que para além Atlântico as linhas de força da direita e extrema direita são as mesmas que o nosso executivo preconiza, pela mão de um Nuno Crato de democrata já esquecido. Um exemplo que o chefe do executivo português gostará de conhecer, um texto de Paul Krugman, aqui vos deixo. 

 

A força está na ignorância

 

Paul Krugman

 

O apoio na América à educação tem sido um campo em que os americanos sempre foram excepcionais. Em primeiro lugar nós, os americanos, assumimos a liderança na educação primária universal; em seguida, o movimento de "high school" fez de nós a primeira nação a dar uma enorme importância à generalização do ensino secundário. E depois da II Guerra Mundial, o apoio público concedido, inclusive o G.I. Bill e uma enorme expansão das universidades públicas, ajudou uma grande número dos  americanos a obter  o grau do ensino superior.


Mas agora um dos nossos dois grandes partidos políticos fez uma forte e violenta viragem à direita contra a educação, ou pelo menos contra a educação que os trabalhadores americanos podem pagar. Notavelmente, esta nova hostilidade à educação é partilhada pelas alas conservadoras, do ponto de vista social e económico, da coligação republicana, agora materializadas nas pessoas de Rick Santorum e Mitt Romney.


E esta posição dos republicanos surge num momento quando a educação na América está em grandes dificuldades.


Sobre essa hostilidade: o candidato republicano Santorum já deu aso a muitas manchetes nos jornais ao declarar que o presidente Obama quer aumentar o número de estudantes inscritos no secundário e na Universidade porque as Faculdades são "moinhos de doutrinação" que destroem a fé religiosa. Mas a resposta de Romney para um estudante do secundário preocupado com os custos das propinas nas Faculdades é sem dúvida ainda mais significativa, porque o que ele disse aponta o caminho para as opções políticas reais que irão prejudicar ainda mais o nível de formação e educação na América.


Aqui está o que o candidato disse ao aluno: "não vá para uma faculdade que tenha as propinas mais caras. Vá para uma que tenha propinas mais baixas onde poderá obter uma boa educação. E, tenho a esperança,  estou seguro que encontrará. E não espere que o governo venha a perdoar a dívida que com isso irá assumir. "


Heia. Uma posição tão forte, para o que tem sido a tradição da América na sua ajuda aos estudantes. E a observação de. Romney era ainda mais insensível e destrutiva do que poderíamos pensar, tendo em conta o que tem acontecido ultimamente no ensino superior americano.


Para as nossas últimas gerações, escolher uma escola mais barata significa geralmente ir para uma universidade pública em vez de uma universidade privada. Mas nestes dias, o ensino superior público está ainda muito mais cercado pela falta de meios  e a enfrentar cortes orçamentais ainda mais duros do que o resto do sector público. Ajustado pela inflação, o apoio do Estado para o ensino superior tem caído cerca de 12 por cento nos últimos cinco anos, mesmo tendo em conta que o número de estudantes tenha continuado a aumentar; na Califórnia, o apoio público reduziu-se mesmo em cerca de 20 por cento.


Um dos resultados tem sido o crescimento do custo das propinas. Ajustadas à inflação a taxa de inscrição nas faculdades públicas de cursos de  quatro anos aumentou em mais de 70% na última década. Então, boa sorte em encontrar essa faculdade "que tem  propinas um pouco mais baixas."


Um outro resultado é que as dificuldades financeiras das instituições de ensino têm levado a cortes nas áreas que lhes saem mais caras a ensinar — que por seu lado são as áreas de que a economia americana mais precisa.


Por exemplo, diversas faculdades públicas em vários Estados, incluindo na Flórida e no Texas, eliminaram departamentos inteiros em engenharia e ciência da computação.


Os prejuízos que estas alterações irão fazer — quer do ponto de vista das perspectivas económicas do nosso país quer do ponto de vista da destruição do sonho americano da igualdade de oportunidades — são bem óbvios. Então porque é que os republicanos estão com tanta vontade de dar cabo da qualidade do nosso ensino superior?


Não é difícil ver o que está por detrás das intenções da ala do Partido que apoia Santorum. A sua principal ideia quanto à frequência na Universidade é que esta mina a fé, o que é falso. Mas tem razão em considerar que o nosso sistema de ensino superior não é um terreno favorável ao desenvolvimento da actual ideologia conservadora. E não são somente os professores das artes e das letras : entre os cientistas, os professores publicamente assumidos como democratas superam os republicanos na proporção de nove para um.


Pessoalmente penso que Santorum veria isso como a evidência de uma conspiração liberal. Outros poderiam sugerir que os cientistas têm dificuldade em apoiar um partido em que a negação das alterações climáticas se tornou um teste político e em que a recusa em aceitar a teoria da evolução tem e bem da mesma maneira um estatuto semelhante.


Mas quanto a pessoas como Romney? Pessoas como ele não terão uma participação no futuro êxito económico da América, que pode estar a ser comprometido pela cruzada contra a educação? Talvez não seja tanto quanto se pensa.


Afinal de contas, ao longo dos últimos 30 anos, tem havido uma  atordoada desconexão entre os enormes rendimentos ganhos no topo da escala de rendimentos e a lutas da maioria dos trabalhadores. Poder-se-á pensar que o egoísmo da elite americana é melhor servido pela garantia de que esta desconexão continue então o que, por seu lado, significa manter baixas as taxas de tributação sobre os rendimentos mais elevados custe o que custar,  querendo assim ignorar as consequências em termos da pobreza das nossas infra-estruturas, altamente deficientes, e em termos de uma mão-de-obra tecnicamente mal preparada.


E se a necessidade de verbas para educação pública deixa muitas crianças de menos abastados rendimentos excluídas da mobilidade ascendente, bem, será realmente de acreditar que estamos a assegurar a existência da igualdade de oportunidades?


Assim, sempre que ouvirmos os republicanos dizerem que são o partido dos valores tradicionais, tenha em mente que estes realmente fizeram uma ruptura radical com a tradição da América da valorização pela educação. E eles geraram esta ruptura porque os republicanos acreditam que o que cada um de nós não sabe não os pode prejudicar a eles. Por outras palavras, para os republicanos quanto mais ignorantes nós formos, melhor.

 

Paul Krugman, Ignorance Is Strength, 8 de Março de 2012



publicado por João Machado às 13:00
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 28 de Março de 2012

 

A bordo da nossa Argos, a preocupação com a política nacional tem tido, muito justamente, lugar de destaque. Mas não nos podemos alhear do que se passa lá fora. Há muitos motivos para andar de mãos na cabeça. Ora vejam um:


Decorreu em Seul uma cimeira sobre segurança nuclear. E tivemos mais um caso de conversas captadas por microfones supostamente (mas não realmente) desligados.  O ainda presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, abordou Obama sobre a defesa antimíssil que os EUA pretendem instalar na Europa Oriental, e que levanta muitas objecções a Moscovo. O presidente norte-americano terá procurado tranquilizar o seu interlocutor e proferiu a frase seguinte:


- "After my election, I'll have more flexibility". Depois das eleições, serei mais flexível”.


Este episódio, se não fosse tão grave, quase nos faria rir. Ah, estes microfones só desligados na aparência… ainda fazem concorrência ao Wikileaks. Mas o facto é que estamos perante um problema gravíssimo. A tensão na Europa Oriental é um factor de desequilíbrio no continente e uma preocupação adicional para a UE, cuja orientação política dominante tende para um conservadorismo pouco atreito a aproximações com a Rússia ou com a Turquia, e mais virado a uma aproximação calculista aos EUA. O nacionalismo dominante nos países do leste europeu, conjugado com as recordações do peso da ex-URSS nas respectivas vidas, agrava a situação. Historicamente, o leste europeu tem sido palco de grandes conflitos. O projectado escudo antimíssil traz esta questão novamente à tona. Se, por um lado, a Rússia parece ter menos capacidade militar do que a antiga URSS, os seus recursos naturais são uma fonte de grande interesse para os centros financeiros, os quais, como se sabe, têm um peso considerável na política internacional. Um dos pilares da política estrangeira dos EUA é a manutenção da sua superioridade militar. E o tradicional complexo militar-industrial parece manter todo o seu peso.

 

 

Sintoma claro da complexidade do assunto, são as declarações do candidato a candidato republicano Mitt Romney às próximas eleições presidenciais norte-americanas. A respeito das declarações (se assim se podem chamar) de Obama considera-as inaceitáveis, e classifica a Rússia como “o nosso inimigo geopolítico número um” (number one geopolitical foe).  Ah, isto promete…

 

 

Eis um assunto já antigo, e que não podemos perder de vista. Pedimos ao argonauta Pezarat Correia que nos dê a sua visão, no seu Giro do Horizonte. E esperamos, claro, que os actores principais (e os outros também) ganhem juízo. 



publicado por João Machado às 12:00
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Quarta-feira, 21 de Março de 2012
GIRO DO HORIZONTE - Nota sobre um comentário a A IMPUNIDADE DE ISRAEL - Por Pedro Pezarat Correia.

Pezarat Correia pediu-nos para publicar o seguinte, em resposta a um comentário à nota publicada ontem, às 19 horas.

 

João Machado (JM) tem razão na generalidade do seu comentário: são diferentes os quadros geográficos e os momentos históricos. Mas os paralelismos são reais.

 

Acrescento algumas considerações:


- nada indicia que uma mudança do panorama na Palestina no sentido que apontei signifique o fim da presença dos EUA no M.O.;

- o isolamento da Africa do Sul do apartheid não impediu, como JM reconhece, apoios nem sempre muito velados do ocidente; nos princípios da década de 70 Kissinger ainda afirmava que a hegemonia branca na África Austral estava para durar e isso era vantajoso para o ocidente; e na fase mais aguda da guerra civil em Angola, na década de 80, Reagan alinhava com a África do Sul no apoio à UNITA, o que era uma forma de apoiar o apartheid;

- por fim, se é verdade que Israel está menos isolado no ocidente, também o é que o mundo está cada vez menos centrado no ocidente.



publicado por João Machado às 21:30
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Segunda-feira, 5 de Março de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 5 de Março de 2012

 

O Presidente Obama, cada mais embrenhado na sua campanha eleitoral, fez um discurso perante o Comité de Assuntos Públicos entre Estados Unidos e Israel (AIPAC), o principal lobby pró-israelita existente nos EUA, em que declarou encarar todas as hipóteses para obstar a que o Irão adquira a arma nuclear, incluindo a guerra. Amanhã vai-se encontrar com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o tema principal será igualmente o Irão.


Entretanto, os vários candidatos republicanos vão-se degladiando entre si, mas todos eles garantem que se Obama for reeleito o Irão terá acesso à arma nuclear. De modo que o assunto promete. A intervenção militar contra o Irão torna-se assim cada vez mais provável, apesar de haver quem afirme que não tem qualquer possibilidade de a conseguir fabricar nos anos mais próximos. O que torna o assunto mais complicado é o empenho que Israel põe no assunto. Convém ter presente que Israel dispõe de um poderoso arsenal nuclear e que não aderiu ao Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, tal como a Índia e o Paquistão. A manutenção da superioridade militar na região é para os sionistas um ponto chave, alegadamente para a sua seguarança, e na realidade para poderem continuar a expandir os colonatos e pressionar os palestinianos para abandonarem as suas terras, assim como os outros povos não hebraicos que vivem no seu território.


Quanto aos EUA, a pressão no Médio Oriente é também essencial porque são os grandes beneficiários do negócio do petróleo, na medida em que as grandes companhias são norte-americanas, e auferem grandes vantagens do facto de o dólar continuar a ser usado como moeda para esse negócio. Parece haver bastante verdade na afirmação de que o ataque ao Iraque foi decidido após Saddam Hussein ter decidido aceitar pagamentos noutras moedas. Para além do petróleo, a importância estratégica do Médio Oriente também contribui para o interesse da superpotência em controlar a região, directamente ou através do seu aliado Israel.


Deste modo, parece que os povos do Médio Oriente, seja qual for o desenlace das eleições presidenciais norte-americanas, não podem ter grandes expectativas numa vida mais pacífica e equilibrada, e ainda menos de verem os regimes que os governam evoluirem para sistemas mais abertos e democráticos. A situação na Síria é muito grave, trata-se de uma autêntica guerra civil que ali se está a travar, a Líbia não parece ter melhorado com o linchamento de Kadafi, o Egito continua em convulsões sob o governo militar actual, e a chamada  primavera árabe parece apagar-se por todo o lado. A disposição belicosa dos dirigentes norte-americanos e dos seus aliados não vai dar grandes hipóteses.



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Sábado, 3 de Março de 2012
DIÁRIO DE BORDO, 3 de Março de 2012

 

Vivemos numa época em que se agudizam conflitos da maneira mais inesperada, invocando-se argumentos, novos ou velhos, para servir causas diversas, inclusive causas diversas daquelas a que tinham sido originariamente aplicados. A objecção de consciência é um exemplo. Já foi invocada para situações como a recusa de prestar serviço militar, para não se ir combater em guerras como a de Angola ou a do Vietname. Noutros campos, como na saúde, médicos e outros trabalhadores da saúde recusam-se a intervir em situações relacionadas com a interrupção voluntária de gravidez, igualmente por objecções de consciência.

 

 

Há dias, nos EUA, um senador republicano propôs uma alteração a um aspecto das  reformas introduzidas por Obama na legislação para os serviços de saúde, concretamente  a parte que implica que os empregadores (nós chamamos-lhes patrões) tenham de participar na despesa com contraceptivos destinados aos seus empregados. Este assunto já vinha sendo debatido, com o lado republicano invocando que a legislação de Obama seria uma ameaça à liberdade de religião, e os democratas os direitos das mulheres.  A questão agravou-se após o anúncio da candidatura de Obama à reeleição.

 

 

A proposta do senador Blunt, foi rejeitada por uma margem muito reduzida, correspondendo mais ou menos à divisão entre democratas e republicanos. Terão ocorrido defecções dos dois lados. O texto da proposta de Blunt era de tal ordem que, segundo se lê no Slate de 1 de Março, Kathleen Sebelius,  secretária do governo de Obama para os assuntos humanos e de saúde, chegou a declarar que, caso tivesse sido aprovada, qualquer empregador poderia deixar de contribuir, invocando objecções de consciência.

 

 

Esta questão insere-se na campanha eleitoral para as eleições presidenciais nos EUA, que já decorre bravamente e com grande estardalhaço. Mas não deixa de ser importante constatarmos a latitude que se vai dando ao direito de objecção de consciência. Nos EUA, que conste, esse direito não foi reconhecido ao soldado Bradley Manning, que terá passado informação para o Wikileaks. E a situação de um soldado que se recusasse a marchar para o Vietname (que houve casos destes), era incomparavelmente mais complicada, em termos de riscos a correr, do que a dos empregadores que quisessem deixar de pagar comparticipações para a saúde. Como o exemplo dos EUA é muitas vezes invocado noutros países, e no nosso também, para situações muito diferentes, será conveniente irmos prestando atenção neste assunto, como noutros.

 

 

 

 

 



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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Por Júlio Marques Mota.

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.11- Porque é que os Estados Unidos nunca, nunca jamais, irão construir o iPhone

 

Não é apenas porque os salários são baixos. A China tem operários mais qualificados e está no centro da cadeia de abastecimento global.


Neste fim de semana, o The New York Times publicou uma longa análise das muitas razões pelas quais a Apple escolheu a China para fabricar os seus iPhones. A peça é leitura indispensável para quem quer entender porque razão os Estados Unidos têm visto certos segmentos e produtos da indústria transformadora desaparecerem da sua produção local. Mas a lição central do artigo pode ser difícil de engolir: a Apple não só escolhe a China porque o trabalho é mais barato. A Apple também escolhe a China, porque as fábricas e os trabalhadores fazem um trabalho melhor.


Aqui estão quatro lições básicas que podemos aprender com a produção da Apple:


A mão-de-obra barata não é a questão

 

 

Não há dúvida de que os baixos salários da China fazem parte das vantagens que a China oferece, mesmo que estes tenham estado a crescer. De acordo com o NYT, a produção do iPhone nos Estados Unidos levaria a um custo adicional de 65 dólares por unidade. Para se ter uma melhor perspectiva do significado deste valor, isto significaria 10 por cento do preço no consumidor para o mais barato dos iPhones, o 4S. Dadas as enormes margens de lucro em produtos da Apple, a empresa poderia absorver esse custo extra e ainda sair com um lucro razoável. Mas é difícil imaginar razões para que façam este sacrifício.


O custo do trabalho, porém, é apenas uma pequena parte do que torna a China um lugar de eleição para produzir o iPhone. Depois de ter estado anos a produzir os seus computadores na Califórnia, a Apple começou a deslocalizar a sua produção depois do quase colapso da empresa na década de 90. Esta opção foi tomada por Tim Cook, agora CEO da empresa, e na altura o seu chefe de operações. De acordo com o NYT:


Para Cook, o interesse na Ásia " resultava de duas coisas", disse um antigo alto-funcionário da Apple. As fábricas na Ásia "podem aumentar ou reduzir a escala de produção muito mais rapidamente" e "as cadeias asiáticas de abastecimento ultrapassaram as americanas nos Estados Unidos “. O resultado é que "não podemos competir a este nível ", disse este director.


O que é que significa "scale up" mais rápido? Relativamente à Foxconn, a quem o monstro da indústria transformadora global que é a Apple paga para montar os seus produtos, é a capacidade de contratar milhares de novos trabalhadores num só dia. É ter a capacidade de acordar 8.000 empregados durante a noite, de os reunir tendo-os disponíveis  em dormitórios e ordenar-lhes uma mudança de turno à meia noite para rapidamente irem instalar visores em vidro reforçado para ecrãs de telefones. Na China, os salários dos trabalhadores são baixos e os trabalhadores são abundantes, e - mais importante ainda – com uma mentalidade espantosamente dócil e em termos que a cultura da América e as suas leis de trabalho quando bem aplicadas simplesmente nunca permitiriam. Sim, o tratamento notoriamente duro de Foxconn para com os seus trabalhadores levou a uma bem conhecida vaga de suicídios. Mas quantos americanos no século 21 poderão ver disponíveis, seja sob que circunstâncias forem, para viverem num dormitório da General Motors?


A segunda metade da equação de Cook – as cadeias globais de abastecimento – pode ser ainda mais importante. Nós gostamos muito de falar sobre a forma como o mundo é plano, mas na realidade, ainda é necessário um mês para enviar bens dos EUA para a China. Porque a Ásia é o centro de fabricação das componentes electrónicas, as fábricas chinesas podem assumir partes cruciais do processo produtivo por ser mais rápido e mais barato, se estas componentes vêm de uma fábrica de semi-condutores perto dali ou mesmo se vêm de uma fábrica Samsung na Coreia do Sul. As fábricas locais chinesas também produzem pequenas peças em metal como por exemplo pequenos parafusos sem os quais não se pode construir um iPhone,  uma pequena mas importante vantagem. Os Estados Unidos estão completamente desligados destas linhas de abastecimento. Logisticamente, faz mesmo menos sentido produzir aqui um gadget de alta tecnologia.


Melhorar o sector da Educação não é enviar mais gente para Harvard


A vantagem da China em termos de trabalho vai muito para além dos trabalhadores de baixa qualificação que fazem o trabalho indiferenciado de estar a colocar peças no iPhones. O país também se destaca nos níveis de educação e formação média ou intermédia  como por exemplo os agentes técnicos ou formações superiores curtas na indústria. Estes não são alunos graduados por Stanford e não serão pois capazes  de projectar a próxima geração do IPAD. Não, em vez disso, eles são parecidos com os alunos dos primeiros anos das universidades regionais que têm as competências técnicas para gerir a linha de produção de iPad. Como observa o Times:


Os directores de Apple tinham estimado que cerca de 8.700 engenheiros industriais seriam necessários para supervisionar e orientar a linha de montagem de 200 mil trabalhadores que possivelmente estariam envolvidos na fabricação dos iPhones. Os analistas da empresa havia estimado que seria necessário gastar até cerca de nove meses para encontrar esta quantidade de engenheiros qualificados nos Estados Unidos.


Na China foram necessários apenas 15 dias.

 

Estes tipos de estatísticas deve pôr em evidência, fria e claramente porque é que o sistema educacional da América tem numa tal desvantagem quando se trata de falar em indústria. O problema não é a falta de elites altamente qualificadas. Temo-las. É a nossa classe de trabalhadores não qualificados.


Tem sido amplamente divulgado que as escolas chinesas formam cerca de 600.000 engenheiros por ano, contra cerca de 70.000 nos Estados Unidos. Alguns têm tentado minimizar a gravidade dessa lacuna, apontando que cerca de metade dos engenheiros chineses têm o equivalente a um grau de 2 anos de curso superior. Isso pode ser verdade. Mas também é errar na questão. A China aprendeu a produzir graduados de nível médio com sólida formação técnica que são cruciais nos processos de fabrico modernos. Os  Estados Unidos precisam de aprender a fazer o mesmo se quiserem continuar a ser uma força na indústria transformadora no futuro. O nosso objectivo imediato não deve ser a preparação de mais estudantes para Harvard, Penn State, ou University of Central Florida. O nosso primeiro objectivo deve ser o de encontrar uma maneira de garantirmos que mais de 25% dos alunos que se matriculam nas Faculdades  regionais comunitárias se formem realmente no espaço de 3 anos


Questões relativas à política industrial


O NYT conta que quando a Apple andava a procurar uma nova fábrica para cortar o vidro de alta resistência para os seus ecrãs do iPhone, visitaram uma fábrica chinesa que já havia construído uma nova ala para o trabalho na expectativa de que poderia ganhar o contrato. Era capaz de suportar a dispendiosa aposta devido aos subsídios do governo chinês.

 

Nos Estados Unidos, é claro, a maioria das fábricas não poderia ter contado com o governo americano para o mesmo tipo de apoio. Aqui, os conservadores gostam de argumentar que o governo não deveria estar no processo de " selecção dos vencedores e dos perdedores." Mas é isso o que os nossos concorrentes têm estado a fazer desde há décadas e com grande sucesso. Tanto a Alemanha como o Japão são países que se levantaram das cinzas da Segunda Guerra Mundial e se reconstruíram como potências industriais em grande parte graças à cuidadosa gestão da política industrial do governo. A China tem feito o mesmo no século 21. No entanto, como o escândalo em torno de fabricante de painéis solares Solyndra nos mostrou, uma grande parte da população americana está ainda profundamente pouco à vontade com esta ideia de uma política industrial.


A parte irónica é que, embora os conservadores se oponham à ideia de uma política federal industrial activa, eles são muito confortáveis ​​com ela ao nível estatal. Os Estados do sul como Alabama e Tennessee ganharam  uma grande arte em atrair cadeias de montagem de automóveis de empresas estrangeiras com a promessa de milhões em incentivos fiscais e outras regalias. Em vez de colocar o forte e inigualável peso do governo federal a funcionar como grande suporte da nossa base industrial, temos apenas esforços dispersos por 50 estados.


Quando e para onde a Apple vai, os outros também vão


Os fabricantes têm o hábito de acompanhar quem está na liderança do processo industrial. Ou mais precisamente, seguem o cliente, especialmente quando o cliente é outra empresa industrial.


De novo, isto é o resultado natural da necessidade de estar perto da cadeia de abastecimento. O artigo do NYT centra-se em Corning, empresa situada a norte do estado de Nova York que produz o vidro de alta resistência utilizado nos ecrãs do iPhone e de outros smartphones que deslocaram grande parte da sua produção para o Japão e para Taiwan, a fim de estarem mais perto de seus compradores.

 

Os nossos clientes estão em Taiwan, Coreia, Japão e China ", disse James B. Falhas, presidente da Corning e vice-director financeiro." Nós poderíamos fazer o vidro de alta resistência  aqui, e então enviá-lo de barco, mas isso  leva 35 dias. Ou, poderíamos enviá-lo por via aérea, mas isso é 10 vezes mais caro. Então, vamos construir as nossas fábricas de vidro na porta ao lado para as fábricas de montagem  e não no seu exterior.


Como mostra a história de Corning, as indústrias estão muitas vezes ligadas de maneiras inesperadas. Porque a fabricação de produtos electrónicos de consumo  final  se deslocalizou, os Estados Unidos estão  agora a perder empregos na produção de vidro de alta resistência. Se uma empresa como a Apple se desloca para o exterior, as outras empresas acompanham-na.


Jordan Weissmann, Why the United States will never, ever build the iPhone, The Atlantic, 24 de Janeiro de 2012.

 



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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Por Júlio Marques Mota.

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.10- O problema do trabalho escravo chinês para a Apple e para a América

 

 

KARL DENNINGER


Se ainda não leu este artigo,  deve  fazê-lo.  Ele é apresentado como uma explicação  "porque é que a classe média é espremida" na América, com a premissa de que outrora já fomos suficientemente grandes  para ser a força motriz da indústria transformadora do mundo, mas já não o somos e quanto a isso a  culpa é nossa.

 

 

Errado.

 

 

 

Comecemos com este exemplo. Não há ainda muito tempo, que a Apple se vangloriava de que os seus  produtos  eram feitos na América. Hoje, poucos o são. Quase todos os 70 milhões de iPhones, 30 milhões de  iPads e 59 milhões de outros produtos vendidos pela  Apple no ano passado foram fabricados no exterior.


Porque não se traz estes empregos para os Estados Unidos, perguntou Obama.


A resposta de Jobs foi inequívoca. "Os empregos não vão voltar", respondeu ele, de acordo com outro convidado no jantar.


Ok, então porque não?


Será porque os chineses são mais inteligentes?


Será porque perdemos a nossa capacidade de termos bons resultados na indústria transformadora?


Será por causa da nossa estrutura fiscal?


Em suma, onde é que está a nossa culpa?


Numa palavra: não.


Isto, meus amigos, é porque:


Os executivos da Apple dizem que têm estado actualmente a ir produzir no  estrangeiro , porque isso é a sua única opção. Um antigo director descreveu como como é que a Apple dependeu de uma fábrica chinesa para renovar a sua fabricação dos iPhone poucas semanas antes de o produto chegar para ser posto nas prateleiras das lojas para  venda. A Apple tinha redesenhado o ecrã já na última hora,  forçando  a que uma cadeia de montagem fosse também ela e por essa razão  renovada. Os novos ecrãs  começaram a chegar à  fábrica já perto da meia-noite.


Um encarregado da produção imediatamente  acordou  8.000 trabalhadores dentro dos  dormitórios da empresa, segundo este antigo director.. Cada empregado recebeu um biscoito e uma chávena de chá, foi enviado para um  posto de trabalho, de montagem,  e no espaço de  meia hora começou um turno de 12 horas a colocar ecrãs de  vidro em quadros chanfrados. No espaço de 96 horas, a fábrica estava a produzir mais de 10.000 iPhones por dia.

A velocidade e a flexibilidade é de tirar o fôlego ", disse este executivo. "Não há nenhuma fábrica norte-americana que possa fazer o mesmo".


É fácil ser "rápido" e "flexível" quando efectivamente se tratam os seus próprios "empregados" como escravos!


Quantos dos leitores perceberam bem o parágrafo anterior? À meia-noite, sem aviso, o encarregado da fábrica entrou nos dormitórios em que os trabalhadores estavam a dormir, despertou-os e efectivamente obrigou-os a trabalhar um turno de 12 horas, com nada mais do que um biscoito e uma chávena de chá.


Alguém conseguiu isso? Esses não são empregados, eles são escravos.


Afinal, eram estes empregados que estariam a trabalhar  por salários grandes, certo? Uh, talvez não.


Estas instalações da (Foxconn) têm 230.000 empregados, muitos trabalham seis dias por semana, muitas vezes a trabalharem até 12 horas por dia na fábrica. Mais de um quarto da força de trabalho da  Foxconn vive em regime de internato nas instalações da  empresa e muitos trabalhadores ganham menos de US $ 17 por dia. Quando um executivo da Apple chegou durante uma mudança de turno, o seu carro ficou bloqueado por um rio de empregados a saírem em bicha contínua. . "A escala é inimaginável", disse ele.


A parte inimaginável disto tudo é que esses empregados são escravos. A nação comunista pode ir longe com esse tipo de coisas. Eles podem, e fazem-no, impedir a organização desses trabalhadores num bloco de negociação consolidada,  prendendo  ou simplesmente fazendo "desaparecer " quem o tenta. Uma greve coordenada é impossível, o que significa que não há equilíbrio de poderes entre o trabalho e o capital.


Este poder não vem de forças económicas naturais. Este vem, literalmente, do cano de uma arma.


Empresas como a Apple ", dizem que o grande problema em estabelecer fábricas nos Estados Unidos é que aqui não se encontra  uma força de trabalho técnica capaz", disse Martin Schmidt, reitor associado do  Massachusetts Institute of Technology. Em particular, as empresas dizem que precisam de engenheiros com mais do que  ensino médio como formação de base , mas não necessariamente com um grau de licenciatura no MIT ou outras. Os americanos a este nível de formação são difíceis de encontrar, dizem os executivos destas empresas. "Há bons empregos, mas o país não tem em número suficiente os quadros técnicos capazes de alimentar a procura", disse Schmidt.


Está a estudar este país, a América? Como se podem ver e compatibilizar os custos da formação universitária a subir o dobro ou mesmo mais do que a taxa de inflação  e níveis esmagadores  da dívida com a premissa de uma força de trabalho tecnicamente treinada? É impossível. 


Nas duas últimas décadas, algo de muito mais fundamental mudou, dizem os economistas. Os empregos de salários médios começaram a desaparecer. Especialmente entre os americanos sem formação universitária, os novos postos de trabalho de hoje são desproporcionalmente em ocupações no sector dos serviços - em restaurantes ou em call centers, ou como funcionários do hospital ou ainda trabalhadores temporários - que oferecem muito menos possibilidades de se ascender à classe média.


Os princípios do mercado livre são mesmo muito bons  até que as pessoas começam a utilizar o trabalho escravo numa base efectiva, em paralelo com a degradação ambiental, como sendo  o  "progresso". E não vamos poupar  as palavras: Isto foi o que  na verdade aconteceu.


Dada a ausência de uma interferência intencional no nosso sistema monetário e económico de ambos os lados do Pacífico o que tem estado a acontecer não se pode manter, não pode ser sustentado. Os americanos não podem andar a comprar iPhones sem dinheiro para gastar com eles e também  não podem ter esses fundos na  ausência do  "crédito livre" e sem esquemas  de Ponzi ou sem bons empregos.


Por outras palavras, ausente a distorção intencional que é possibilitada através  dos enormes défices orçamentais, Estado a Estado, a nível dos  governos local e federal  o que aconteceu não pode  pois ser imediatamente auto-corrigido.  Henry Ford percebeu isso - é por isso que ele pagou aos seus funcionários o suficiente para que pudessem comprar um dos seus carros! Ele não só levou á redução dos custos de produção de um carro, ele aumentou o salário dos operário modestamente qualificados para que eles pudessem comprar  um. Henry Ford  assumiu todas as vantagens que descobriu na  automação e na indústria transformadora  com beneficio também para os trabalhadores  de modo que o excedente económico total seria redistribuído e destinado parte dele adicionalmente para a compra dos seus produtos, e de outros também.


Isso é o que significa a melhoria na produtividade, é o que dá força à deflação natural que é o estado normal de todas as economias ao longo do tempo, e traz consigo melhorias em comum quanto ao padrão de vida para a maioria das pessoas.


"Nós não devemos ser criticados por utilizar trabalhadores chineses", disse um executivo actual da Apple. "Os EUA deixaram de estar a criar pessoas com as competências de que nós precisamos."


O que a Apple (e outras empresas) querem são empregados que estão alojados em dormitórios, que podem ser acordados à meia-noite para trabalhar de seguida num turno de 12 horas na base de uma ordem e alimentados apenas com uma chávena de chá e dez cêntimos de biscoitos, pagando-lhes US $ 17 por dia.


Isto é o que a Apple e as outras empresas exigem.


É absolutamente verdade que a América não pode satisfazer esta exigência, uma vez que a um dólar por hora não se consegue colocar a comida na sua mesa para uma família de quatro pessoas, digamos, muito menos pagar renda, electricidade ou a gasolina para o carro, para ir trabalhar e voltar!


"Nós vendemos iPhones em mais de uma centena de países", disse um actual executivo da Apple. "Nós não temos a obrigação de resolver os problemas da América. A nossa única obrigação é fazer o melhor produto possível. "


Isso é absolutamente verdadeiro. Mas os Estados Unidos continuam a ser um mercado monstruosamente grande e a América não tem nenhuma obrigação em permitir a entrada  de produtos para este país sem tarifas ou impostos enquanto ao mesmo  tempo se está  a explorar a existência de governos autoritários e a degradar o meio ambiente.


A tarifa de 100% sobre todos os produtos estrangeiros produzidos ou montados por Apple pode ser uma decisão fácil - isso tem a ver realmente com a disponibilidade de uma força de trabalho, caso que parece não interessar à Apple, ou isto tem a ver realmente com a exploração da escravatura  patrocinada pelo Estado?

 

KARL DENNINGER,    Apple (and America’s) Chinese Slave Labor Problem, 23 de Janeiro de 2012.

Source: Market Ticker



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Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Por Júlio Marques Mota.

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.9  Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone - III

 

CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER

 

(Continuação)

 

 

Dias de pagamento para a Apple


Como as operações no exterior da Apple e as suas vendas se expandiram, os seus funcionários de topo têm prosperado. No último ano fiscal, os rendimentos da Apple ultrapassaram 108 mil milhões de dólares, uma soma maior do que o orçamento do Estado combinado de Michigan, Nova Jersey e Massachusetts. Desde 2005, quando as acções da Apple foram distribuídas o valor destas subiram de 45 dólares para mais de 427 dólares.


Alguma desta riqueza foi distribuída pelos accionistas. A Apple está entre as empresas com as acções mais valorizadas e a subida do valor das suas acções tem beneficiado milhões de investidores individuais, 401 (k) 's e planos de pensão de reforma. A recompensa também tem melhorado a posição dos trabalhadores da Apple. No último ano fiscal, para além dos seus salários, os empregados da Apple  e os seus directores receberam acções no valor de  2 mil milhões de dólares e exercerem as suas stock options ou investiram  em acções num valor adicional  1,4 mil milhões de dólares.


As maiores recompensas, no entanto, têm ido frequentemente para os altos funcionários  da Apple. Cook, chefe da Apple, recebeu no ano passado como valor da oferta de acções - que investiu sobre um período de 10 anos –que ao preço de hoje valem 427 milhões de dólares  e o seu salário foi elevado para 1,4 milhões. Em 2010,.o envelope das remunerações globais de Cook foi avaliado em 59 milhões, de acordo informações vindas da Apple.


Uma pessoa próxima da Apple argumentou que as remunerações recebidas pelos empregados da Apple foram justas, em parte porque a empresa tinha obtido muitíssima riqueza para a nação e para o mundo. Como a empresa tem crescido, esta tem aumentado o seu volume de emprego na América, incluindo empregos na indústria transformadora. No ano passado, a força de trabalho americana na Apple cresceu de 8.000 pessoas.


Enquanto outras empresas enviam os seus call centers para o exterior, a Apple manteve os seus centros nos Estados Unidos. Uma fonte estima que as vendas de produtos da Apple deve ter levado a que outras empresas tenham contratado dezenas de milhares de americanos. FedEx e a United Parcel Service, por exemplo, dizem ambas terem criado empregos nos Estados Unidos por causa do volume de produtos da Apple transportados, embora nenhuma delas tenha fornecido dados específicos sem a permissão da Apple, o que a empresa se recusou a permitir.


"Nós não devemos ser criticados por empregarmos trabalhadores chineses", disse um actual alto-quadro da Apple. "Os EUA deixaram de formar pessoas com as competências de que precisamos."


Além disso, fontes da Apple dizem que a empresa criou muitíssimos bons empregos aos americanos nas lojas de venda ao consumidor entre os empresários que venda aplicações para os iPhone e os iPad.

 

Depois de dois meses de testes sobre os iPads, Eric  Saragoza saiu. O salário era tão baixo que ele estava melhor, assim o pensou, passando o tempo  à procura de outros empregos. Numa noite de Outubro passado Saragoza sentou-se com o seu MacBook e submeteu mais uma rodada de currículos on-line, para quase meio mundo  quando uma mulher chegou ao seu escritório. A trabalhadora, Lina Lin, é uma gestora de projecto em Shenzhen, China, em PCH International, que tem contratos com a Apple e com outras empresas de material electrónico para coordenar a produção de acessórios, como as capas que protegem os visores em vidro do iPad. Ela não é uma funcionária da Apple. Mas Lina Lin é parte integrante da capacidade da Apple para oferecer os seus produtos.


A senhora Lin ganha um pouco menos do que Eric Saragoza ganhava quando pago pela Apple. Ela fala fluentemente inglês, língua que aprendeu a ver televisão e numa universidade chinesa. Ela e o seu marido colocavam mensalmente um quarto dos seus salários numa conta bancária. Eles vivem num minúsculo apartamento que compartilham com os seus sogros e o filho.


Há muitos empregos ", disse Lin. "Especialmente em Shenzhen."


Perdedores da inovação


Já quase para o fim do jantar de Obama com Jobs e os outros executivos de Silicon Valley, no ano passado, quando toda a gente se levantou para sair, o Presidente foi rodeado por uma multidão de gente a querer tirar uma fotografia ao seu lado. Um grupo ligeiramente menor rodeou Steve Jobs. Os rumores tinham-se difundido de que a sua doença piorara, e alguns esperavam para ter uma fotografia com ele, talvez pela última vez.


.Eventualmente, tratava-se de órbitas de homens sobrepostos. "Não estou preocupado com o futuro do país a longo prazo", disse Obama a Steve Jobs, segundo um observador. "Este país é espantosamente grande. O que me preocupa é o facto de não falarmos o suficiente sobre as soluções. "


No jantar, por exemplo, os altos quadros das grandes empresas americanas  sugeriram que o governo deveria reformar os programas de vistos de entrada para ajudar as empresas a contratar engenheiros estrangeiros. Alguns sugeriram mesmo ao presidente que desse às empresas um "feriado fiscal" para que elas pudessem regressar com os seus lucros do exterior, o que, segundo eles, poderia ser utilizado para criar postos de trabalho. Steve Jobs ainda sugeriu que ainda poderia vir a ser possível, algum dia, relocalizar alguns dos produtos da Apple tecnologicamente muito evoluídos nos Estados Unidos se o governo ajudasse a formar mais engenheiros americanos.


Os economistas debatem a utilidade destes e de outros esforços, e note-se que uma economia em dificuldades  é, por vezes, transformada por desenvolvimentos inesperados. Os analistas na última vez torciam as mãos sobre o desemprego americano prolongado, o desemprego de longa duração, por exemplo, no início de 1980 quando  a Internet praticamente não existia. Poucos na época teriam imaginado que uma licenciatura em design gráfico se tenha tornando rapidamente numa aposta inteligente, enquanto que aqueles que  estudavam matérias  sobre a reparação de telefones entravam para um beco sem saída.


O que permanece desconhecido, contudo, é se os Estados Unidos serão no futuro imediato capazes de alavancar inovações que gerem  milhões de empregos.


Na última década, os grandes saltos tecnológicos na energia solar e eólica, na fabricação de semicondutores e nas  tecnologias de imagem criaram milhares de empregos. Mas, enquanto muitas daquelas indústrias nasceram  nos Estados Unidos, muito do emprego gerado ocorreu no exterior. As empresas têm fechado grandes instalações nos Estados Unidos para reabrirem na China. A título de exemplo, os dirigentes das grandes empresas dizem-nos que estão a concorrer com a Apple a favor dos accionistas. Se eles não podem competir em crescimento e em margens de lucro com a Apple então eles não irão sobreviver.


"Os empregos para a nova classe média estarão talvez a aparecer ", disse Lawrence Katz, um economista de Harvard. "Mas será que alguém na casa dos seus 40 anos tem a formação profissional que lhes seja adequada? Ou será que vai ser ultrapassado por um novo graduado e nunca irá reencontrar o seu caminho de regresso à classe média?


O ritmo da inovação, dizem os altos dirigentes de um largo leque de indústrias, tem sido acelerado por empresários como Steve Jobs. A empresa G.M. gastou perto de metade de uma década apenas para redesenhar os seus principais carros. A Apple, por comparação, lançou cinco iPhones em quatro anos e enquanto com isso dobrava a velocidade dos dispositivos de memória e fazia descer deixar cair o preço que alguns consumidores pagam.


Antes de Obama e Jobs se dizerem Até à próxima o executivo da Apple tirou do bolso um iPhone para mostrar uma nova aplicação - um jogo de condução - com gráficos incrivelmente detalhados. O dispositivo reflectia o brilho suave das luzes da sala. Os outros executivos, cujo valor combinado ultrapassava os 69 mil milhões de dólares, empurraram-se para conseguirem ver melhor e olhar por cima do ombro. O jogo, todos concordaram, era maravilhoso.


Não havia mesmo nenhum risco, por mínimo que fosse , no visor do iPhone.


David Barboza, Peter Lattman and Catherine Rampell contributed reporting. New York Times.



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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Por Júlio Marques Mota.

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.9  Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone - II

 

CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER

 

(Continuação)

 

Na cidade Foxconn

 

A oito horas de carro desta fábrica de vidros está um complexo conhecido de modo informal como Foxconn City, onde o iPhone é montado. Para os executivos da Apple, Foxconn City é mais uma prova de que a China poderia disponibilizar trabalhadores – assim como outras vantagens  - que ultrapassam as suas contrapartes americanas.


Digamos, não existe nada como a Foxconn City nos Estados Unidos.


A instalação fabril tem 230 mil empregados em que muitos deles trabalham seis dias por semana, muitas vezes estando até 12 horas por dia na fábrica. Mais de um quarto dos trabalhadores da Foxconn vive em instalações – dormitórios da empresa e muitos trabalhadores ganham menos de US $ 17 por dia. Quando um alto-quadro da Apple  veio a  Foxconn City durante uma mudança de turno, o seu carro ficou bloqueado  num rio de gente em filas continuas e compactas de funcionários a saírem. "A escala aqui é para nós inimaginável", disse ele.


A Foxconn emprega cerca de 300 guardas que irão orientar o trânsito dos peões para que os trabalhadores não sejam esmagados em engarrafamentos junto às portas de entrada e de saída. As instalações da cozinha central permitem que se confeccione uma média de três toneladas de carne de porco e de 13 toneladas de arroz por dia. Enquanto as fábricas são impecáveis, o ar dentro das casas de chá próximas é nebuloso com o fumo e o cheiro de cigarros.


Foxconn Technology tem dezenas de instalações na Ásia e na Europa Oriental, assim como no México e no Brasil, e estima-se que faz a montagem de mais de 40 por cento dos produtos electrónicos de consumo final no mundo para clientes como a Amazon, Dell, Hewlett-Packard, Motorola, Nintendo, Nokia, Samsung e Sony.


"Eles poderiam empregar 3.000 pessoas durante a noite", disse Jennifer Rigoni, que era o gestor do aprovisionamento mundial da Apple até 2010, mas que se recusou a discutir detalhes específicos de seu trabalho. " Qual é a fábrica nos EUA que pode encontrar 3.000 pessoas para trabalhar durante a noite e convencê-los a viver em dormitórios?"


Em meados de 2007, depois de um mês de experiências, os engenheiros da Apple finalmente aperfeiçoaram um método para o corte de vidro reforçado e de alta resistência  para que este pudesse ser usado nos ecrãs do iPhone. Os primeiros camiões com este vidro de alta resistência destinados ao corte chegaram à Foxconn City na calada da noite, de acordo com o ex-executivo da Apple. Foi então aí que os capatazes acordaram milhares de trabalhadores, que se arrastaram  nos seus uniformes - camisas brancas e pretas para os homens, vermelho para as mulheres - e rapidamente se alinharam para montar, manualmente os telefones. No prazo de três meses, a Apple  tinha já vendido um milhão de iPhones. Desde então, a Foxconn já montou mais 200 milhões de iPhone’s.


Foxconn, em declarações, recusa-se a falar sobre clientes específicos.


"Qualquer trabalhador recrutado pela nossa empresa é coberto por um contrato claro definindo os termos e as condições estabelecidas pelas leis do governo chinês, que protege os seus direitos", escreveu a empresa. A empresa Foxconn " leva muito a sério a responsabilidade assumida face aos nossos empregados e nós trabalhamos muito duro para poder dar aos nossos mais de um milhão de empregados um ambiente seguro e positivo."


A empresa contestou alguns detalhes que nos foram comunicados pelos antigos altos‑quadros da Apple e escreveu que um turno da meia-noite como o descrito, era impossível ", porque temos normas rígidas em relação à jornada de trabalho dos nossos empregados com base na especificação dos seus turnos e cada funcionário tem cartões de ponto informatizados que os impediriam de trabalhar em qualquer instalação num horário fora do turno que lhe foi atribuído. "A empresa disse que todos os turnos começam às 7 horas ou às 7h e 30 min e que os empregados recebem com uma antecedência mínima de 12 horas a informação sobre qualquer mudanças de horários.


Funcionários da Foxconn, em entrevistas, têm contestado estas afirmações.


Outra vantagem importante para a Apple era de que a China dispunha de engenheiros e numa escala que os Estados Unidos não poderiam igualar. Os directores de Apple tinham estimado que cerca de 8.700 engenheiros industriais seriam necessários para supervisionar e orientar a linha de montagem de 200 mil trabalhadores que possivelmente estariam envolvidos na fabricação dos iPhones. Os analistas da empresa havia estimado que seria necessário gastar até cerca de nove meses para encontrar esta quantidade de engenheiros qualificados nos Estados Unidos.


Na China, foram necessários 15 dias.


Empresas como a Apple dizem que o grande problema em instalar fábricas nos Estados Unidos está no facto que aqui não se encontra uma força de trabalho técnica capaz", disse Martin Schmidt, reitor associado do Massachusetts Institute of Technology. Em particular, as empresas dizem que precisam de engenheiros com mais do que ensino secundário como formação de base, mas não necessariamente com um grau de licenciatura- mas sim com boa formação técnica superior mas curta. Os americanos a este nível de formação são difíceis de encontrar, dizem os executivos destas empresas. "Há bons empregos, mas o país não tem em número suficiente os quadros técnicos capazes de alimentar a procura", disse Schmidt.


Alguns aspectos do iPhone são exclusivamente americanos. O software do iPhone, por exemplo, e as suas inovadoras campanhas de marketing foram em grande parte criadas nos Estados Unidos. A Apple recentemente construiu um centro de dados que lhe custou cerca de 500 milhões na Carolina do Norte. Os semicondutores fundamentais que estão dentro do iPhone 4 e 4S são fabricados numa fábrica de Austin, no Texas, pela Samsung, da Coreia do Sul.


Mas mesmo estas instalações não são enormes fontes de empregos. O centro da Apple na  Carolina do Norte, por exemplo, tem apenas 100 funcionários em tempo integral. A fábrica Samsung tem cerca de 2.400 trabalhadores.


"Se se passa da produção e venda de um milhão de telefones para 30 milhões de telefones, não se precisa verdadeiramente de mais programadores", disse Jean-Louis Gassée, que supervisionou o desenvolvimento de produtos e marketing da Apple até que ele abandonou a Apple em 1990. "Todas essas novas empresas – Facebook, Google, Twitter- beneficiam disto. Eles crescem, mas na verdade não precisam de contratar mais gente. "


É difícil estimar quanto custaria a mais a produção dos iPhones se  a sua fabricação  fosse feita nos Estados Unidos. No entanto, vários académicos e analistas estimam que, uma vez que o trabalho é apenas uma pequena parte dos custos de fabricação dos produtos de alta tecnologia, o pagamento em salários americanos teria um custo adicional na ordem dos  65 dólares por cada iPhone. Dado que os lucros da Apple por iPhone são frequentemente de centenas de dólares a fabricação feita nos Estados Unidos, em teoria, poderia ainda continuar a  dar um bom lucro à Apple.


Mas esses cálculos são, em muitos aspectos, sem sentido, porque a fabricação do iPhone nos Estados Unidos exigiria muito mais do que a contratação de norte-americanos - seria necessário transformar tanto a economia nacional como a economia global. Os directores de Apple acreditam que pura e simplesmente não há trabalhadores americanos qualificados em número suficiente para satisfazer as necessidades da empresa em termos de formação técnica que a empresa precisa nem fábricas com suficiente capacidade de resposta, em rapidez e em flexibilidade. Outras empresas que trabalham com a Apple, como a Corning, também dizem que deve ir produzir no estrangeiro.


A fabricação de vidro reforçado para o iPhone fez renascer uma fábrica da Corning em Kentucky, e hoje, grande parte do vidro utilizado em iPhones ainda aí é feita. Depois do iPhone se ter tornado um sucesso, Corning recebeu uma enxurrada de ordens de encomenda de outras empresas na esperança de conseguirem imitar o design da Apple. As suas vendas de vidro reforçado têm crescido para mais de US $ 700 milhões por ano, e tem empregado e continuam a empregar mais de 1.000 norte-americanos para apoiar o mercado emergente.


Mas como esse mercado se tem expandido muito, a produção adicional de vidro reforçado de alta resistência de fabrico  Corning  tem-se feito   em fábricas no Japão e Taiwan.


"Os nossos clientes estão em Taiwan, na Coreia, Japão e China", disse James B. Flaws, vice-presidente da Corning e seu director financeiro. "Poderíamos fazer o vidro aqui, e enviá-lo por barco, mas isso leva cerca de 35 dias. Ou, poderíamos enviá-lo por via aérea, mas isso é 10 vezes mais caro. Assim, construímos as nossas próprias fábricas de vidro reforçado perto das fábricas de montagem e estas estão no exterior. "


A empresa Corning foi fundada na América há 161 anos e a sua sede está ainda em Nova York. Teoricamente, a empresa poderia fabricar todo o seu vidro reforçado no  espaço americano. Mas isso "exigiria uma reformulação total na forma como está estruturado o sector," disse Flaws. "O sector de produtos electrónicos de consumo final tornou-se uma actividade da Ásia. Como americano, eu lamento que assim seja, mas não há nada que eu possa fazer para travar este movimento. A Ásia passou a ser o que os Estados Unidos foram nos últimos 40 anos."


A classe media desfeita


A primeira vez que Eric Saragoza entrou na fábrica da Apple em Elk Grove, Califórnia, ele sentiu-se como se estivesse a entrar num mundo maravilhoso dos produtos da engenharia.


Estávamos em 1995, e as instalações fabris de Sacramento empregavam mais de 1.500 trabalhadores. Era um caleidoscópio de braços de robôs, das correias transportadoras a movimentarem placas de circuito e, eventualmente, computadores multicores  com o símbolo iMac em várias fases de montagem. Eric Saragoza, um engenheiro, rapidamente subiu na escala do pessoal de engenharia e juntou-se a uma equipe de elite em análise de qualidade. O seu salário subiu para cerca de US $ 50.000. Ele e sua esposa tiveram três filhos. Eles compraram uma casa com piscina.


"Parecia que, finalmente, a escola estava a ser compensadora ", disse ele. "Eu sabia que o mundo quer pessoas que  saibam construir coisas".


Ao mesmo tempo, no entanto, a indústria electrónica estava a mudar e Apple - com produtos que estavam em declínio de popularidade - estava a lutar para se refazer, para se recompor. Uma das preocupações maiores era a necessidade de modificar as linhas de produção e montagem. Poucos anos depois de Eric Saragoza ter começado o seu trabalho, os seus superiores explicaram-lhe porque é que a fábrica da Califórnia empilhava produtos contra o que acontecia com as fábricas no exterior: o custo, excluindo os materiais, em construir um computador de  1.500  dólares em Elk Grove foi de 22 dólares por máquina enquanto que em Singapura, era de 6 dólares e em Taiwan, eram apenas de 4,85 dólares. Os salários não foram a principal razão para as disparidades. Pelo contrário, eram bem maiores os custos na armazenagem e a diferença de tempo gasto a cumprir cada tarefa, os ritmos de trabalho, digamos.


"Disseram-nos que teríamos que fazer 12 horas por dia, e que tínhamos que trabalhar também aos sábados" disse Eric Mr. Saragoza. "Eu tinha uma família. Eu queria ver os meus filhos jogar futebol.


A modernização sempre provocou que alguns tipos de empregos mudem ou desapareçam mesmo. Como a economia americana tinha transitado da agricultura para a indústria transformadora e, em seguida, para outras indústrias, os agricultores deram em metalúrgicos, em seguida, em vendedores e gerentes de nível médio. Estas mudanças trouxeram muitos benefícios económicos e, em geral, com cada progressão, mesmo os trabalhadores não qualificados recebiam salários melhores e tinham maiores possibilidades de mobilidade ascendente.


Mas nas últimas duas décadas, algo de mais fundamental mudou, dizem os economistas. Os empregos de salários médios começaram a desaparecer. Especialmente entre os americanos sem formação universitária, os novos postos de trabalho de hoje são de forma desproporcional em ocupações de serviços - em restaurantes ou call centers, ou ainda como funcionários do hospital ou de trabalhadores temporários - que oferecem menos oportunidades de mobilidade ascendente, menores possibilidades para se atingir a classe média.


Mesmo  Eric Saragoza, com o seu diploma universitário, estava a ficar vulnerável a essas tendências. Em primeiro lugar, algumas das tarefas de rotina da fábrica de Elk Grove eram enviadas para o exterior. Mr. Saragoza não as questionava. Então a robótica que fez de Apple uma base futurista permitiu aos executivos substituírem trabalhadores com  máquinas. Alguns engenheiros de diagnóstico foram para Singapura. Gestores de formação média que supervisionavam as existências da fábrica foram demitidos porque, de repente, algumas pessoas apenas e com ligações à Internet faziam tudo o que fosse necessário.


Eric Saragoza era muito caro para uma posição de não-qualificado, agora. Ele também foi insuficientemente credenciado pelos seus superiores. Ele foi chamado a um pequeno escritório em 2002 depois de um turno da noite, foi demitido e, em seguida, acompanhado até à saída da fábrica. Foi dar aulas  no ensino secundário durante algum tempo, e depois tentou um regresso para as  tecnologias. Mas a Apple, que tinha ajudado a “chupar” a região conhecida como " Silicon Valley North ", já tinha então convertido grande parte da fábrica de Elk Grove num call center AppleCare, onde muitos dos novos empregados ganhavam cerca de US $ 12 por hora.

.Havia perspectivas de emprego no Silicon Valley, mas nenhum destes empregos foi para ele visível. "O que eles realmente querem são pessoas com 30 anos de idade sem filhos", disse Saragoza, que hoje tem 48 anos e cuja família agora inclui cinco dos seus filhos.


Depois de alguns meses de andar à procura de trabalho, ele começou a sentir-se desesperado. Os empregos até no ensino tinham desaparecido. Então ele assinou um contrato com uma agência de empregos temporários para a electrónica em que ele tinha sido contratado pela Apple para verificar iPhones e iPads que vieram devolvidos e antes que fossem reenviados de volta aos seus clientes. Todos os dias, Eric Saragoza levaria para o edifício onde tinha trabalhado como engenheiro, e por US $ 10 por hora, sem benefícios sociais, milhares de ecrãs de vidro limpos e testado ligações de áudio ligando os auscultadores.

 

(Continua)




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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série. Por Júlio Marques Mota.

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.9  Como os Estados Unidos perderam o trabalho de fabricação dos iPhone - I

 

CHARLES DUHIGG and KEITH BRADSHER

 

Quando Barack Obama se juntou às luminárias de topo para jantar em Silicon Valley na Califórnia em Fevereiro passado, foi solicitado a cada convidado que colocasse uma questão ao presidente.


Mas, quando Steven P. Jobs, da Apple falou, o presidente Obama interrompeu-o com uma pergunta pessoal: o que seria necessário fazer para que os iPhones fossem produzidos nos Estados Unidos?


Há não muito tempo atrás, a Apple vangloriava-se de que os seus produtos eram feitos nos Estados Unidos. Hoje, poucos são. Quase todos os 70 milhões de iPhones, 30 milhões de iPads e 59 milhões de outros produtos da Apple vendidos no ano passado foram fabricados no exterior.


Porque é que não se produzem nos Estados Unidos? Perguntou Obama.


A resposta de Jobs foi inequívoca. "Os empregos já não vão voltar", disse ele, de acordo com outro convidado do jantar.


A questão levantada pelo Presidente centrou-se sobre uma convicção central na Apple. Não é exactamente porque os trabalhadores são mais baratos no exterior. Em vez disso, os directores da Apple acreditam que a vasta escala de fábricas no exterior, bem como a sua flexibilidade e o maior empenho dos trabalhadores como também as capacidades profissionais dos trabalhadores estrangeiros tudo isto têm até ultrapassado as suas congéneres americanas de tal modo que o "Made in EUA" deixou já de ser uma opção viável para a maioria dos produtos Apple.


A Apple tornou-se uma das empresas mais conhecidas, mais admirados e mais imitadas no Mundo, em parte através de um domínio inflexível e inultrapassável sobre as operações realizadas a nível global. No ano passado, os seus lucros foram mais de $ 400.000 de lucro por empregado, mais que a Goldman Sachs, Exxon Mobil ou Google.


Entretanto, o que tem irritado o Presidente Obama assim como muitos economistas e decisores da política económica é o facto de que a Apple - e muitos dos seus pares nas indústrias e serviços da alta tecnologia – estão, quanto à criação de empregos nos Estados Unidos muito longe do empenho na criação de empregos que tiveram outras empresas famosas quando estavam no seu apogeu.

 

 

 

 

 

 

A Apple emprega 43.000 pessoas nos Estados Unidos e 20.000 no exterior, uma pequena fracção dos mais de 400.000 trabalhadores norte-americanos da General Motors na década de 1950, ou das centenas de milhares na General Electric em 1980. Muitas mais pessoas trabalham para a Apple: este valor deve estar próximo das 700 mil pessoas, como engenheiros, como trabalhadores, industriais fabris ou ainda  como instalações de cadeias de montagem de iPads, iPhones e outros produtos da Apple. Mas quase nenhum deles funciona nos Estados Unidos. Em vez disso, trata-se de pessoal que trabalha para empresas estrangeiras na Ásia, Europa e noutros lugares, em fábricas de que quase todos os designers de material electrónico do Ocidente dependem para produzir construir os seus produtos.

 

"A Apple é um bom exemplo de como é tão difícil criar empregos para a classe média actualmente nos EUA ", disse Jared Bernstein, que até ao ano passado era um dos conselheiros económicos da Casa Branca.

 

 

Se isto é o auge do capitalismo, devemos então estar muito preocupados. 


Os directores da Apple dizem que o facto de estarem a ir produzir no exterior é, neste momento, é sua única opção. Um antigo director descreveu como é que a empresa dependeu de uma fábrica chinesa para renovar a fabricação do iPhone poucas semanas antes de o produto estar à venda nas prateleiras das lojas. A Apple tinha redesenhado o ecrã do iPhone, já na última da hora, forçando mesmo uma revisão urgente na linha de montagem. Os novos ecrãs começaram a chegar à fábrica perto da meia-noite.

 

 

Um capataz imediatamente despertou 8.000 trabalhadores que dormiam nos dormitórios da empresa, segundo este mesmo executivo. Cada um destes trabalhadores recebeu um biscoito e uma chávena de café, foi mandado para um posto de trabalho na cadeia de montagem, para uma  estação de trabalho, e dentro de meia hora começaram um turno de 12 horas seguidas na montagem dos ecrãs em quadros chanfrados. No espaço de 96 horas, a fábrica estava a produzir mais de 10.000 iPhones por dia.

 

 

“A rapidez e a flexibilidade são impressionantes”, diz o executivo. “Nenhuma fábrica na América consegue ou pode fazer isso".

 

 

Histórias similares poderiam ser contadas sobre quase qualquer outra empresa de produtos electrónicos - e a externalização também se tornou comum em centenas de outras indústrias, incluindo a contabilidade, os serviços jurídicos, os serviços bancários, a produção de automóveis e produtos farmacêuticos.

 

 

Mas enquanto a Apple está longe de estar sozinha, esta oferece uma janela para sublinhar e muito que o sucesso de algumas empresas proeminentes não se traduziu num grande número de empregos criados internamente, nos Estados Unidos. Além do mais, as decisões da empresa colocam questões mais amplas sobre a forma como a América das grandes empresas, das grandes corporações leva a que os americanos assim como as economias nacionais estejam todos a nível global cada vez mais interligados.

 

 

"As empresas antes sentiam a obrigação de apoiar os trabalhadores americanos, mesmo quando não isso não era a melhor opção financeira", disse Betsey Stevenson, o economista-chefe do Departamento do Trabalho, até Setembro do ano passado. "Essa forma de sentir e agir desapareceu. A maximização dos lucros e a ideia de eficiência deram cabo da generosidade. "

 

 

As empresas e outros economistas dizem que essa noção é ingénua. Embora os americanos estejam entre os trabalhadores com mais formação a nível mundial, o país deixou de formar suficientemente as pessoas ao nível da formação intermédia que as fábricas precisam, dizem os directores destas grandes empresas.

 

 

Para prosperarem, para se desenvolverem, as empresas argumentam que precisam de deslocalizar a produção onde esta possa gerar lucros suficientes para continuar a poder manter os custos da inovação. Fazer o contrário seria correr o risco de perder ainda mais empregos para os trabalhadores americanos ao longo do tempo, como é evidenciado pelas legiões de fabricantes nacionais outrora orgulhosos - incluindo a GM e outros - que têm diminuído com o aparecimento de concorrentes muito ágeis.

 

 

À Apple foram fornecidas diversos excertos da reportagem organizada pelo New York Times para este artigo, mas a empresa, que tem uma reputação de secretismo, não quis sequer comentar.

 

 

Este artigo é baseado em entrevistas com mais de três dezenas de funcionários da Apple actuais e antigos, entre outros, com empresas subcontratadas - muitos dos quais pediram o anonimato para proteger os seus empregos - assim como economistas, especialistas em produção industrial, especialistas em comércio internacional, analistas de tecnologias, investigadores universitários, funcionários de fornecedores da Apple, concorrentes e dirigentes de grandes empresas, e autoridades governamentais.

 

 

Em privado, os directores da Apple dizem que o mundo é agora um lugar de muita mudança e que é um equívoco medir a contribuição de uma empresa simplesmente pelo registo do número dos seus funcionários - embora estes observem que a Apple emprega agora mais trabalhadores nos Estados Unidos do que antes.

 

 

Estes dizem ainda que o sucesso da Apple tem beneficiado a economia como um todo, dando mais capacidade de acção aos empresários e criando postos de trabalho em empresas como nas operadoras de telemóveis e nas empresas de transporte de produtos Apple. E, finalmente, dizem ainda que resolver o problema do desemprego não é a sua função, não é o seu objectivo.

 

 

"Nós vendemos iPhones em mais de uma centena de países", disse um actual director  da Apple. "Nós não temos a obrigação de resolver os problemas da América. A nossa única obrigação é fazer o melhor produto possível. "

 

 

'Eu quero um ecrã de vidro'.

 

 

Em 2007, um pouco mais de um mês antes de se ter programado a data de colocação do iPhone nas lojas, Jobs chamou um punhado de lugares-tenentes ao seu gabinete. Durante semanas, ele tinha andado com um protótipo do iPhone no bolso.

 

 

Jobs irritado ergueu o iPhone, dobrando-o para que todos pudessem ver as dezenas de pequenos riscos a estragarem o seu ecrã de plástico, de acordo com alguém que participou da reunião. Steve Jobs tirou então o molhe de chaves das suas calças de jeans.

 

 

As pessoas irão andar com este telefone no bolso, disse. As pessoas também andam com as chaves no bolso. "Eu não vou vender um produto que fica cheio de riscos", disse ele, muito tenso. A única solução seria em vez disso a utilização de ecrã de vidro que não se risque desta forma. "Eu quero um ecrã em vidro, e quero-o perfeito. Têm seis semanas para isso."

 

Depois de um executivo ter deixado a reunião, Steve reservou um voo para Shenzhen, na China. Se Jobs queria o ecrã perfeito, não teria então nenhum lugar para onde ir, teria de ficar.

 

 

Durante mais de dois anos, a empresa tinha estado a trabalhar num um projecto – cujo nome de código era Purple 2 - que apresentava sempre as mesmas questões em cada fase do projecto: como é que re-imagina de modo completamente o telemóvel? E como é que pode projectá-lo para que venha a ter a mais alta qualidade possível - com um ecrã que não se risque, por exemplo – enquanto garante simultaneamente que milhões deles podem ser fabricados de forma rápida e suficientemente barata para obter um lucro significativo?

 

 

As respostas, quase sempre, foram encontradas fora dos Estados Unidos. Embora as componentes difiram entre as diferentes versões, todos os iPhones contêm centenas de peças, em que cerca de 90 por cento são fabricadas no exterior. Os semicondutores tecnologicamente de ponta vieram da Alemanha e de Taiwan, as memórias da Coreia e do Japão, os painéis e os circuitos vieram da Coreia e de Taiwan, enquanto os chips vieram da Europa e os metais raros vieram da África e da Ásia. E tudo isso foi montado na China.

 

 

Nos seus primeiros dias, a Apple normalmente não olhava para além do seu próprio quintal quanto á procura de soluções na área de fabrico. Poucos anos depois da Apple ter começado a construir o Macintosh em 1983, por exemplo, Steve Jobs vangloriava-se de que se tratava de "uma máquina que era feita na América." Em 1990, enquanto Jobs estava a fazer correr NeXT, que acabou por ser comprada pela Apple, ele  terá dito a um repórter "eu estou tão orgulhoso da fábrica como estou do computador." Mais tarde, no final de 2002, os principais executivos da Apple, ocasionalmente, gastavam duas horas para noroeste de sua sede para visitar a fábrica iMac da empresa em Elk Grove, Califórnia.

 

 

Mas em 2004, a Apple já se tinha em grande parte reorientado para a fabricação no exterior da América. Na base desta nova orientação estava Timothy D. Cook, que era um perito das operações da Apple, que veio a substituir Steve Jobs como Presidente executivo em Agosto passado, seis semanas antes da morte de Jobs. A maioria das outras empresas americanas de produtos electrónicos já tinham deslocalizado a produção para o estrangeiro e a Apple, que na época estava a lutar com dificuldades, sentiu que tinha que agarrar todas as oportunidades.

 

 

Em parte, a Ásia era atraente, porque os trabalhadores semiqualificados tinham salários bem mais baixos. Mas não era bem isso que motivava Apple. Para as empresas de alta tecnologia, o custo do trabalho é mínimo em comparação com a despesa feita em compra de peças e de gestão da cadeia de abastecimento que reúnem componentes e serviços de centenas de empresas.

 

 

Para Cook, o interesse na Ásia " resultava de duas coisas", disse um antigo alto-funcionário da Apple. As fábricas na Ásia "podem aumentar ou reduzir a escala de produção muito mais rapidamente" e "as cadeias asiáticas de abastecimento ultrapassaram as americanas nos Estados Unidos “. O resultado é que "não podemos competir a este nível ", disse este director.

 

 

O impacto de tais vantagens tornou-se evidente logo que Jobs exigiu ecrãs de vidro em 2007.

 

 

Durante anos, os fabricantes de telemóveis tinham evitado o uso de vidro porque exigia uma grande precisão no corte e no polimento, o que era extremamente difícil de se conseguir. A Apple já tinha seleccionado uma empresa americana, Corning Inc., para a fabricação de grandes painéis de vidro reforçado, de vidro de alta resistência. Mas descobrir como cortar os painéis em milhões de pequenos ecrãs iPhone exigia que se encontrasse uma fábrica que estivesse disponível para o corte com centenas de peças de vidro para serem utilizadas experimentalmente e um exército de engenheiros de nível médio. Isto, só por si, custaria uma fortuna simplesmente a preparar.

 

 

Então chegou uma proposta de uma fábrica situada na  China.

 

 

Quando uma equipa de técnicos da Apple visitaram a fábrica, os seus proprietários já estavam a construir  uma nova área de fabrico.. "Isto é para ser utilizado no caso de nos darem o contrato ", disse o director, de acordo com um ex-executivo da Apple. O governo chinês concordou em subscrever os custos para numerosas indústrias e estes subsídios também deram para a fábrica de corte do vidro. Tinham um armazém cheio de amostras de vidro disponíveis para a Apple, gratuitamente. Os proprietários também disponibilizaram engenheiros quase sem nenhum custo. Os proprietários da fábrica tinham construído dormitórios no próprio local para que os empregados estivessem disponíveis 24 horas por dia.

 

 

A fábrica chinesa foi contratada.

 

 

"A cadeia total de fornecimento está agora na China ", disse um outro antigo alto-quadro da Apple. "Por exemplo, precisa-se de umas mil juntas de borracha? Isto faz-se já aqui, na fábrica ao lado desta, já ao sair da porta. Por exemplo, precisa-se de um milhão de parafusos? Na fábrica do quarteirão seguinte, arranja-se É preciso um parafuso um pouco diferente? No máximo, leva três horas. "

 

(Continua)

 



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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
Eurointelligence Daily Briefing, 6 de Fevereiro de 2012 (ontem). Enviado por Domenico Mario Nuti.

 

 

High Noon in Athens

  • Greek coalition partners face a noon deadline to sign up to the reform package;
  • major disagreement were still unresolved by last night;
  • Antonis Samaras says package would make recession intolerable;
  • finance ministers said there will be no agreed debt restructuring without the package;
  • Jean-Claude Juncker says default was now real possibility in Greece;
  • the CDU central party apparatus is gearing up for the French elections;
  • the involvement is on par with a major state election;
  • Merkel refuses to grant an audition to Francois Hollande;
  • a French satyrical TV show depicts Merkel as „the president of the French Republic“;
  • Merkel and Sarkozy will today receive a proposal to implement a joint system of corporate taxation;
  • As Marine Le Pen is struggling to get the signatures of 500 deputies needed to qualify as a presidential candidate, a poll shows that Sarkozy’s electoral chances improve dramatically without Le Pen;
  • a poll among bank economists says ECB will not cut interest rates this Thursday, but most expect further rate cut down the line;
  • the poll also shows Yves Mersch as the favourite next ECB executive board member;
  • James Hamilton says the  US economic upturn is stronger than it appears;
  • a group of Italian economists has a simulation that Italy’s debt is likely to be sustainable even at higher interest rates;
  • Wolfgang Munchau, meanwhile, dismisses the notion that Germany should turn itself into a Bric. 

Greek coalition parties face a noon deadline after they failed to sign off the terms of the second rescue package on Sunday. Comments by conservative New Democracy leader Antonis Samaras and by the Pasok spokesman suggested that major controversial points remained.  Kathimerini quotes Samaras saying “They are asking for more recession than the country can take,’’ he said, referring to the country’s foreign creditors. “I am fighting against this.’’ Reuters reports that Greece has to give its response in principle by noon today, to be taken to the Euro Working Group in Brussels. The sense of exasperation in the EU is high.


Earlier eurozone finance ministers told Greece it could not go ahead with an agreed deal to restructure privately held debt until it guaranteed to implement reforms to secure a second financing package from the euro zone and the IMF, according to Reuters.

 

Juncker for the first time threatens with a default for Greece


The possibility of a sovereign default by Greece cannot be ruled out, Jean-Claude Juncker told Der Spiegel in an interview. Greece could no longer expect solidarity from other euro zone members if it cannot implement reforms it has agreed, the Luxemburg prime minister said. „If we were to establish that everything has gone wrong in Greece, there would be no new programme, and that would mean that in March they have to declare bankruptcy,“ he said. The very possibility of bankruptcy should encourage Athens to „get muscles“ when it comes to implementing reforms, he added.

 

Merkel gets deeply involved in campaign for Sarkozy’s reelection


Angela Merkel and the whole party apparatus of  the CDU is getting more deeply involved in the French presidential elections than in any foreign election ever before, Der Spiegel reports. The chancellor’s aim is to assure Nicolas Sarkozy’s re-election because she sees him as her strategic partner in advancing a rules-based EMU, which has the fiscal pact as one of its cornerstones. Should the Socialist challenger Francois Hollande win, Merkel fears that all the efforts she undertook in the past two years to safe the eurozone will be undone in favour of an old style Socialist redistribution policy on a European level. „The coaching of the French sister party (of the CDU) is similarly intensive as that of a CDU regional section that is heading for an important election“, Der Spiegel writes. Merkel will today be in Paris for a Franco-German summit, and she will do a common TV interview with Sarkozy tonight. Other common appearances are on the agenda.

 

At the same time the chancellor’s office has so far refused to grant Holland an appointment with Merkel. But getting so deeply involved in Sarkozy’s reelection is controversial within the German government. Foreign minister Guido Westerwelle asked for restraint and said: „The federal government is no party in the French elections“.

 

Also many people are not sure if Merkel’s presence in France is really a smart move that will help Sarkozy. Many French start to be upset about the German influence in internal French affairs. The satiric daily news show „Les Guignols des info“, where dolls make fun of politics in France, has now a Merkel doll who is called „The President of the French Republic“ and who lectures the French with a German accent and who always finishes her speeches by exclaiming „Arbeit!“.

 

Merkel and Sarkozy to receive white book on taxation


At the Franco-German summit in Paris today, Nicolas Sarkozy and Angela Merkel will be presented a white book that outlines possibilies to make French and German taxation converge, Les Echos reports. The authors of this higly technical report have identified five topics in which they think greater convergence makes sense. They insist the aim is not to increase taxes on companies. However there is great uncertainty about the implementation given that Sarkozy’s reelection chances are highly uncertain and that Merkel will have to stand for reelection in Septemer 2013. So there are few chances that anything concrete will come out of this unless both leaders manage to get reelected.

 

Sarkozy’s reelection chances improve dramatically if Marine Le Pen cannot run


A poll done by Journal de Dimanche showed that Nicolas Sarkozy’s chances for a second term would improve dramatically if Marine Le Pen, the leader of the extreme right Front National, was not allowed to run. The scenario is realistic to the extent that any candidate has to present 500 signatures of elected officials in support of the candidacy and Le Pen so far only has 350. Should Le Pen not run, Sarkozy would be sure to make it into the second round because he would get 33 Percent in the first round, just as much as the his Socialist challenger Francois Hollande, the poll shows.

 

Bank economist believe the ECB will hold rates on Thursday


A majority of bank economists believe that the ECB will not change its policy rate of 1.0% on ist interest rate setting meeting this Thursday, Financial Times Deutschland’s monthly interest rate survey shows. Out of the 39 polled economists, 35 believed the euro central bank would remain in a wait and see mode until the second 3 year LTRO will be done on February 29. But a majority of 25 of the 39 are convinced that the ECB will lower ist rates subsequently to 0.75% or to 0.5%. In a different poll done, by Handelsblatt 10 out of 15 economists urged the ECB to already cut rates at this Thursday’s meeting.

 

In an additional question to its monthly rate survey, FTD asked who of the three candidates fort he ECB’s executive board they would favour. Out of the 23 economists who replied, 16 backed Yves Mersch, one supported Antonio Sainz de Vicuna.

 

The US economic recovery


Not sure what it means for the eurozone, but there are signs that the US economy is recovering. James Hamilton has a good analysis of the much better than expected US recovery, pointing to the latest purchasing managers survey reading of 54.1 and a fall in the rate of unemployment to 8.3% that would normally only have happened in the presence of much stronger GDP growth. (There also signs of a much brisker recovery in Germany, though not elsewhere in the eurozone yet.)

 

Is Italy’s debt sustainable?


Writing in Lavoce, Nicola Borri, Gianfranco Di Vaio and Giuseppe Ragusa report on a simulation exercise for Italian debt sustainablity on different assumptions of debt, nominal GDP growth, and find that even at a nominal growth rate of 2.4% Italy would still be sustainable, if the country can achieve a balanced budget by 2014.


(We take issue with this approach. First, a 2.4% nominal growth is not really a credible worst case scenario, in view of an unbelievely optimistic best-case scearnio. Given that Italy’s need to undercut eurzone inflation, and the impact of austerity on growth, one could have constructed a more credible worst-case scenario, which, in turn, would also have an impact on the interest rate.)

 

Germany’s future as a bric?


In his FT column, Wolfgang Munchau discussed the notion, popular among the German business elites, that Germany should detach itself from the eurozone, and become a Bric. He says there is a yearning within the elites for a euro exit, as the country’s trade pattern shifts more and more towards the east. Munchau concludes that this is not a viable strategy. Germany always prospered within fixed exchange rate systems, but usually finds it much harder to achieve the same degree of success within a free-floating exchange rate. And structurally, Germany is the very opposite of Bric.

 

10-Y Spreads, Forex, ZC Swaps and Euribor-Ois


Greek spreads shoot up as markets contemplate default;

others bond spreads are mixed (down for France and Portugal, up for Italy and Spain).


 

 

 

 

 

 

 

 

 

10-year spreads

 

 

 

 

 

 

 

Previous day

Yesterday

This Morning

France

1.059

0.977

0.991

Italy

3.761

3.891

3.889

Spain

2.882

2.839

3.155

Portugal

13.122

12.218

12.098

Greece

32.349

32.683

40.27

Ireland

5.503

5.288

5.388

Belgium

1.629

1.598

1.602

Bund Yield

1.852

1.938

1.94

 

 

 

 

 

 

 

 

Euro Bilateral Exchange Rate

 

 

 

 

 

 

 

Previous

This morning

 

Dollar

1.314

1.3084

 

Yen

100.120

100.39

 

Pound

0.830

0.8292

 

Swiss Franc

1.206

1.2063

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ZC Inflation Swaps

 

 

 

 

 

 

 

previous

last close

 

1 yr

1.88

1.89

 

2 yr

1.91

1.91

 

5 yr

2.06

2.06

 

10 yr

2.37

2.39

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Euribor-OIS Spread

 

 

 

 

 

 

 

previous

last close

 

1 Week

-4.429

-5.629

 

1 Month

25.257

25.157

 

3 Months

 

 

 

1 Year

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Source: Reuters

 

 

 



publicado por João Machado às 16:30
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Desindustrialização, Globalização, 3ª Série 5ª Parte- B. As Deslocalizações e os dogmas económicos destroem o dólar - II. Por Paul Craig Roberts

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

(Conclusão)

 

 

Há coisas importantes que devem ser creditadas ao livre-mercado e à livre-troca. No entanto, para muitos economistas, o livre-comércio tornou-se uma ideologia, sobre o que deixaram de ter qualquer espírito crítico.


Estes economistas tornaram-se indiferentes ao facto de que os lóbis favoráveis às deslocalizações que subsidiam as suas investigações e os seus institutos, defendem os interesses que estão intimamente relacionados com as empresas que operam no domínio das deslocalizações.


Os economistas da livre-troca cometeram três erros graves:

 (1) eles confundem a arbitragem dos custos do trabalho através das fronteiras com o livre-comércio, quando na verdade, não há nenhuma troca.

 (2) eles esquecem-se de que para que a teoria clássica da livre-troca permaneça válida, que se baseia no princípio das vantagens comparativas, então esta deve-se apoiar em duas condições necessárias.

(3) eles ignoram os últimos trabalhos teóricos em que se mostra que a teoria do livre‑ comércio nunca foi correcta mesmo quando se verificam as condições que ela pressupõe.


Quando uma empresa americana deslocaliza a produção para o exterior, ela procede a arbitragens entre os custos do trabalho (e impostos, regulamentos, etc.) através das fronteiras, procurando uma vantagem absoluta e não a procura de uma vantagem comparativa no país. Quando uma empresa americana coloca no mercado americano produtos e serviços das actividades deslocalizadas, esses produtos e serviços devem ser considerados como importações.


David Ricardo considerava que as vantagens comparativas se devem basear em duas condições: a primeira é que se deve procurar as vantagens comparativas no interior do país e não uma vantagem absoluta no exterior. A outra é que os países têm estruturas de custo diferentes para produzir um mesmo bem. As deslocalizações não respondem, portanto, às condições de Ricardo.


Hoje, o capital é tão móvel no espaço nacional como  no espaço internacional e tão móvel como as próprias mercadorias e as funções de produção baseadas no conhecimento têm estruturas de custos semelhantes país a país. As célebres condições de Ricardo para a livre-troca não são verificadas no mundo de hoje.


Para o avanço mais importante sobre a teoria do comércio desde há 200 anos, o grande matemático Ralph Gomory e o grande economista e antigo Presidente American Economics Association, William Baumol, mostraram que a argumentação para a livre‑troca no mundo não era válida mesmo quando estavam reunidas as condições de Ricardo. O seu livro, Global Trade and Conflicting National Interests, apresentado pela primeira vez numa conferência na London School of Economics, foi publicado em 2000 pela MIT Press.


Mas os economistas defensores da livre-troca fecham os olhos movidos por uma doutrina que se tornou uma ideologia e o dólar deixa-se assim morrer da mesma forma que a economia americana.


Uma das grandes mentiras do lobby pro-deslocalizações é que as fraquezas da indústria dos Estados Unidos se devem a  um défice na educação e devem-se também à  falta de cientistas e engenheiros. Especialistas como Thomas Friedman ajudaram a espalhar este erro até ao ponto em que este se tornou um dogma. Recentemente, Jeffrey Immelt, PDG da General Electric, também  ele, concordou em caucionar esta mentira. (Ver " The US No Longer Drives Global Economic Growth,” Manufacturing & Technology News, Nov. 30, 2007.)


Na verdade, as deslocalizações ao nível da engenharia e de  I&D dos Estados Unidos assim como a imigração de engenheiros e cientistas estrangeiros combinaram-se  ou juntaram-se  aos subsídios para a educação para produzir um excedente de cientistas e engenheiros americanos, muitos dos quais não poderão encontrar emprego ao sair da sua Universidade e, assim, tornam-se eles próprios vítimas destas deslocalizações e dessa imigração.


Os lóbis continuam a exercer pressão sobre o Congresso para mais trabalhadores imigrantes, argumentando com a falta imaginária de americanos qualificados, enquanto a Comissão profissionais de ciência e tecnologia indica que o aumento real dos salários dos cientistas e engenheiros americanos era zero ou negativos nos últimos 10 anos. A previsão de uma "tendência a longo prazo de uma procura de especialistas científicos e técnicos nos Estados Unidos" terminou sem que nada se tenha verdadeiramente concretizado. (Consulte-se  " Job and Income Growth for Scientists and Engineers Comes to an End,” Manufacturing & Technology News, November 30, 2007).


Que economista é que alguma vez pode ter ouvido falar de falta de trabalhadores devido ao facto de os salários estarem constantes ou a descer?


Já não há nenhuma falta de cientistas e engenheiros nos Estados Unidos como também não há armas de destruição maciça no Iraque. A imprensa americana., que não dispõe de capacidade de investigação retomou tais quais as mentiras que servem os interesses políticos a curto prazo de algumas empresas. Se não houvesse Internet para lhes fornecer o acesso a fontes de informação estrangeiras, os americanos iria viver num mundo de desinformação perfeito.


Os interesses específicos daqueles que fazem as deslocalizações e os dogmas económicos parecem estar combinados para criar uma imagem falsa da posição económica da América. Enquanto a mobilidade ascendente já foi desmantelada, continua a explicar-se aos americanos que esta nunca foi tão boa.


M. Paul Craig Roberts foi sub-Secretário de Estado americano do Tesouro, encarregado da  Politica económica sob a Administração Reagan. 



publicado por João Machado às 22:00
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A Grande Estratégia depois do 11 de Setembro: Guerra Perpétua - II. Por Tariq Ali.

(Conclusão)

 

Os políticos e o poder passam por cima de tudo. Há liberais, cegos pelo facciosismo partidário, que ainda acreditam que a administração Bush se sobrepunha à lei, mas que os Democratas são exemplares no tratamento das normas. Se não levarmos em conta a retórica de cata-vento de Obama, a sua administração neste momento em pouco difere da do seu predecessor. Ignorem, só por um momento, o poder dos políticos e propagandistas de impor os seus tabus e os seus preconceitos à sociedade americana como um todo, um poder usado muitas vezes desregrada e vingativamente para silenciar a oposição que vem  de  todos os lados – Bradley Manning, Thomas Drake (libertado após um forte protesto nos meios de comunicação liberais), Julian Assange, Stephen Kim, que neste momento estão a ser tratados como criminosos e inimigos públicos, conhecem isto melhor do que a maioria das pessoas.

 

Nada descreve melhor esta aviltação do que o assassinato de Osama Bin Laden em Abbotabad. Podiam tê-lo capturado e levado a julgamento, mas nunca tiveram essa intenção. A maneira de ser dos liberais foi evidenciada pelos cânticos ouvidos em Nova Iorquenesse dia: E-U-A, E-U-A, o Obama apanhou o Osama. O Obama apanhou o Osama. Não nos conseguem vencer (aplausos) Não nos conseguem vencer. Dêem cabo do Bin La-den. Dêem cabo do Bin La-den.

 

Os líderes da Europa, parceiros menores da família imperial das nações, incapazes de terem ideias próprias, numa linguagem mais diplomática, fizeram eco a esses cânticos. As frases feitas e a hipocrisia tornaram-se a marca da cultura política.

 

Vejam o caso da Líbia, o exemplo mais recente de uma “intervenção humanitária”. A intervenção dos EUA e da NATO na Líbia, com a cobertura do Conselho de Segurança da ONU, faz parte de uma resposta orquestrada para exibir apoio a um movimento contra um determinado ditador, e deste modo contribuir para pôr fim às rebeliões árabes impondo o controle ocidental, usurpando o seu ímpeto e espontaneidade daquelas, e tentar repor o statu quo anterior. Como agora se vê os britânicos e os franceses gabam-se de sucesso e  de que vão controlar as reservas líbias de petróleo como pagamento pela campanha de seis meses de bombardeamentos.

 

Entretanto os aliados de Obama no mundo árabe têm trabalhado intensamente a promover a democracia. Os sauditas entraram no Bahrein, cuja população está a ser tiranizada e há detenções em grande número. Sobre isto pouco se fala na Al-Jazeera. Pergunto a mim próprio porque será?  Esta estação de televisão parece ter sido levada a mudar as suas orientações e voltar a obedecer às orientações políticas dos seus fundadores. Tudo isto com o apoio activo dos EUA. O déspota do Iémen, detestado pela maioria do seu povo, continua a matar por controlo remoto a partir da sua base saudita. Nem sequer lhe impuseram um embargo de armamento, ou uma zona de interdição de voo. A Líbia é outro caso de vigilância selectiva por parte dos EUA e dos seus cães de guerra ocidentais. Que os Verdes Alemães, que estão entre os europeus que mais ardentemente defendem o neo-liberalismo e a guerra, tenham querido participar deste assalto revela mais sobre como têm evoluído do que os méritos ou deméritos da intervenção em si.

 

Os limites do esquálido protectorado que o ocidente se prepara para criar estão a ser determinadosem Washington.  Mesmoaqueles líbios que, em desespero de causa, apoiaram os bombardeamentos da NATO, poderão – tal como os seus equivalentes iraquianos – viver o suficiente para lamentarem a opção que fizeram.

 

Tudo isto vai levar a uma terceira fase: um furor nacionalista crescente que se vai espalhar   e chegar à Arábia Saudita, e aqui, não duvidem, Washington fará tudo o que for necessário para manter no poder a família real saudita. Perder a Arábia Saudita é perder os estados do Golfo. O assalto à Líbia, muito facilitado pela imbecilidade de Khadafi em todos os aspectos, foi estudado para obstar à iniciativa que constituíam as manifestações de rua ao aparecer como feito pelos defensores dos direitos humanos. Os bahrainitas, egípcios, tunisinos, sauditas, iemenitas não estão convencidos, e mesmo na Europa-América há mais quem se oponha a esta última proeza do que quem a apoie. Os conflitos não terminaram, de modo nenhum.

 

O poeta alemão do século XIX Theodor Däubler escreveu assim:

 

O inimigo é a nossa própria insegurança encarnada

E acossar-nos-á, e nós acossá-lo-emos perseguindo o mesmo alvo

 

O problema hoje em dia com esta maneira de ver as coisas é que quem é o inimigo muda demasiadas vezes, ao sabor das necessidades da política norte-americana. Ontem Saddam e Khadafi eram amigos, e os serviços secretos ocidentais ajudavam-nos regularmente a lidar com os seus inimigos. Estes últimos passaram a ser amigos e os primeiros tornaram-se inimigos. E deste modo continua a confusão ao nível planetário. O assassinato de Osama Bin Laden foi saudado pelos líderes europeus como se o mundo tivesse ficado mais seguro. É uma história da carochinha.

 

O ultimo livro de Tariq Ali  “The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroadfoi publicado pela Verso.

 



publicado por João Machado às 20:00
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
Desindustrialização, Globalização, 3ª Série - por 5ª Parte- B. As Deslocalizações e os dogmas económicos destroem o dólar. Por Paul Craig Roberts.

Selecção e Tradução por Júlio Marques Mota

 

 

A globalização contestada em Seattle :

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Seattle Burning :WTO Protests, November 1999

 

Os economistas adeptos da livre-troca cometeram três grandes erros". Confundem a arbitragem dos custos do trabalho através das fronteiras com a livre‑troca, quando na verdade não há nenhuma troca. Eles esqueceram dois requisitos que a teoria clássica da livre-troca com base na vantagem comparativa pressupõe, para ser válida. Eles ignoram os mais recentes desenvolvimentos teóricos mostrando que esta teoria nunca foi correcta, mesmo quando as condições que ela pressupõe ainda se verifiquem. "Análise de Paul Craig Roberts. Por Paul Craig Roberts, Dezembro de 2007".


A 8 de Dezembro, as agências de imprensa chinesas e francesas relataram que o Irão tinha deixado de facturar em dólares as suas exportações do seu petróleo.


Os americanos já não têm acesso a esse tipo de notícias desde que a independência da imprensa foi destruída nos Estados Unidos na década de 90, quando Rupert Murdoch persuadiu o governo de Clinton e os seu apoiantes no Congresso a autorizar a monopolização dos media por um punhado de empresas gigantes.


O ministro do petróleo iraniano Gholam Hossein Nozari, declarou: "o dólar é uma moeda pouco fiável porque tem tendência a desvalorizar-se e isso implica perdas para os países exportadores". O Irão sugeriu a todos os países da OPEP que deixassem de aceitar o dólar dos Estados Unidos. Como os produtores dos Emirados e os sauditas já tinham decidido reduzir as suas reservas em dólares, os Estados Unidos poderiam eles-próprios ter que pagar as suas importações de energia em euros ou em ines...


Na Venezuela, Chávez, que escapou a um golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos e que provavelmente continua a ser um alvo de um atentado, poderia seguir o exemplo. Putin, irritado ao ver os esforços dos Estados Unidos para tentar cercar a Rússia poderia lançar as exportações de petróleo russo como um assalto simbólico contra o dólar.


Se o assalto é simbólico, isso não é porque o dólar seja a moeda de reserva a ser utilizada para facturar as exportações de petróleo. É o inverso. As exportações de petróleo são facturadas em dólares, porque o dólar é a moeda de reserva.


O que é importante para o dólar e para o seu papel como uma moeda de reserva, é que os actores internacionais continuam a ver os valores expressos em dólares como suficientemente atraentes apesar do aumento do défice comercial e do défice orçamental dos Estados Unidos. Se o Irão e outros países não querem mais dólares, podem então trocá-los por outras moedas sem ter em conta a moeda em que o petróleo é facturado.


No entanto, vemos que os actores internacionais já deixaram de  considerar os valores expressos em dólares como suficientemente atraentes. O dólar sofreu uma baixa espectacular sob a presidência de Bush, independentemente do facto de que o petróleo seja cobrado em dólares ou não. O Irão desembaraça-se dos seus dólares porque o dólar perde valor. É uma resposta do mercado contra uma moeda que se está a depreciar, não é uma acção punitiva do Irão para afundar o dólar.


A facturação do petróleo é apenas uma pequena parte do problema. A declaração do Ministro Nozari sobre a perda sofrida pelos exportadores de petróleo aplica-se na verdade a todos os exportadores e para todos os produtos.


Há um quarto de século atrás eram as importações de petróleo que explicavam o défice da balança comercial americana. As preocupações expressas ao longo dos anos sobre a "dependência energética" habituou os americanos a só pensarem nos problemas comerciais em termos de petróleo. O desejo de garantir a "independência energética" levou a políticas absurdas, como os subsídios para o etanol, cujo efeito principal foi aumentar os preços dos produtos alimentares o que é catastrófica para os pobres.

 

 

Hoje as importações de petróleo representam apenas uma pequena parte do défice comercial americano. Durante as décadas em que os americanos estavam centrados no " défice em energia" os Estados Unidos tornaram-se três a quatro vezes mais dependentes de produtos manufacturados do que do petróleo. O défice da balança comercial dos Estados Unidos nestes produtos, incluindo os produtos de tecnologia avançada, torna marginal o défice devido á energia. O défice da balança comercial dos Estados Unidos com a China é, por exemplo, mais de duas vezes o défice da balança comercial com os países da OPEP. O défice dos Estados Unidos com o Japão é equivalente ao défice com a OPEP. Sobre um défice comercial total superior a 800 mil milhões de dólares com Estados Unidos, a OPEP representa apenas um oitavo.


Se o abandono do dólar pelos exportadores de petróleo países não é a causa das desgraças da dólar, então qual é ela?


Duas razões explicam o fim do dólar. O primeiro é o facto de que as empresas americanas deslocalizam a sua produção destinada ao mercado interno dos Estados Unidos. Quando as empresas norte-americanas deslocalizam a sua produção de bens e serviços destinados ao mercado interno dos EUA, estas convertem o produto interno bruto (PIB) em importações norte-americanas. A produção dos Estados Unidos entra em queda, e quer o emprego quer as bacias de competências são assim destruídos e, consequentemente, aumenta o défice da balança comercial. No exterior, o PIB, o emprego e as exportações aumentam.


As empresas americanas que deslocalizam a sua produção destinada ao mercado interno dos Estados Unidos são as responsáveis por uma grande parte do défice comercial dos Estados Unidos do que é o défice com a OPEP. Pelo menos metade do défice da balança comercial dos Estados Unidos com a China provém desta produção deslocalizada e destinada ao mercado interno. Em 2006, o défice da balança comercial dos Estados Unidos para com a China foi  233 mil milhões de dólares, dos quais metade, ou seja, $ 116,5 mil milhões, representa 10 mil milhões a mais do que o défice dos Estados Unidos para com a OPEP.


A segunda razão para o fim do dólar é a ignorância e a passividade que mostram "-os economistas neoliberais do livre-mercado e da livre-troca" face às deslocalizações e ao défice da balança comercial. 

 

(Continua)



publicado por João Machado às 22:00
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