Domingo, 13 de Maio de 2012
O jardim de Raquel - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  O jardim de Raquel

 

 

    

 

(Manuel Cruz)

 

 

 

O jardim de Raquel abre-se ao sol

caindo da Serra

uma coberta de retalhos

tecida de mil aromas

borda a pedra do tanque grande.

Entrelaçam ervilhas de cheiro

os toros das couves galegas

esporas azuis na cidreira e na hortelã

abraçam-se pica-narizes e alecrim

e os cosmes cor-de-rosa

chamam os pintassilgos ao cair da tarde.

Malmequeres de muitas cores

e amores-perfeitos

desdenham da singeleza

dos miosótis azul-sulfato

que bebem a água do rego da mina.

As tímidas flores da rama das batatas

estendem o jardim pelo campo fora

fundindo verdes

no verde de todo o Vale.

Raquel desprende-se da pedra do tanque

veste-se da cor dos cosmes

enche a vida de flores

e voa na brisa que afaga o seu jardim.

No regresso do tempo sonhado

à beira do tanque grande

só um pintassilgo volta

ainda

com o cair da tarde.
 
(in Eva Cruz, Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
NOVA IORQUE CAI NAS NOSSAS MÃOS!

 

 

04h00 - Um pelotão do BC 5 desloca-se para a residência de António de Spínola, a fim de garantir a sua segurança. - O programa «A noite é nossa», do R.C.P., deixa de transmitir publicidade, passando a emitir apenas música.

 

04h15 - O general Eduardo Martins Soares, comandante da RMP, apela aos coronéis Rui Mendonça, comandante do RI 8, e Carneiro de Magalhães, comandante do RI 13, ambos de Braga, para avançarem sobre o Porto e libertarem o QG das mãos dos insurrectos. Nos dois casos, os oficiais das unidades recusam-se a cumprir tais ordens.

 

04h20 - A coluna da EPI, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, assume o controlo do Aeródromo Base nº 1 (Figo Maduro) e do Aeroporto de Lisboa. O capitão Costa Martins emite um comunicado NOTAM, interditando o espaço aéreo português e desviando o tráfego para os aeroportos de Las Palmas e Madrid. Nova Iorque encontra-se sob o controlo do Movimento.

 

04h22 - Em resposta a um telefonema de Silva Cunha, a mulher do Ministro do Exército informa-o que «O Alberto saiu agora de casa».

 

04h26 - O Rádio Clube Português transmite o 1º comunicado do Movimento das Forças Armadas, lido por Joaquim Furtado. Seguem-se o Hino Nacional e marchas militares, designadamente uma da autoria de John Philip de Sousa que se viria a transformar no hino do MFA. Os portugueses começam a tomar conhecimento de que algo de muito importante se está a desenrolar no País.

 


- No Grupo de Artilharia Contra Aeronaves 2 (GACA 2) de Torres Novas os capitães do Quadro Permanente, Pacheco, Dias Costa e Ferreira da Silva, conseguem a adesão dos tenentes milicianos comandantes de companhias mobilizadas para o Ultramar e que aguardam embarque.

 

04h30 - Rendição do QG/RML. O major Cardoso Fontão comunica ao posto de comando que Canadá fora ocupado sem incidentes.

 


- Forças do CICA 1 detêm, à saída da sua residência, o chefe do Estado-Maior do Q.G./R.M.N., coronel Ramos de Freitas.

 

04h45 - O 2º comunicado do MFA é emitido, apelando à desmobilização de eventuais acções contra o Movimento.


- O primeiro grupo do BC 5, comandado pelo major Fontão, penetra no interior do R.C.P.
- O alarme é dado no Quartel-General da Região Militar de Coimbra (QG/RMC). Rapidamente se apercebem de que a maior parte das unidades segue o Movimento.
- O governador da Região Militar de Lisboa reúne-se com o corpo do seu Estado-Maior na residência do respectivo subchefe.

 

A noite reinava ainda. O dia ainda não nascera. Mas esta madrugada nascera já muitas vezes dentro de nós, por dentro da nossa esperança. Foi nessa madrugada, nessa alvorada de Abril que a Eva Cruz colheu um cravo vermelho e o colocou na boca de uma espingarda. Foi isso que fizémos, nós todos o que esperávamos esta madrugada que tardou quase cinquenta anos a chegar - silenciámos as armas com flores e deixámos que os verdugos e a sua prole sobrevivessem. Aí os temos, disfarçados de democratas. Mas não nos antecipemos:

 

Pois naquela madrugada, sem cravo vermelho de Abril a vida não valia nada...

 

 

 

Colhi um cravo vermelho

 

 

 

 

Colhi um cravo vermelho

 

Quando Abril era criança

 

Reguei-o com água benta

 

E o sol da minha esperança.

 

Colhi um cravo vermelho

 

Tudo fiz p’ra que vivesse

 

Toda a vida lhe dei vida

 

P´ra que Abril não morresse. 

Sempre viveu no meu peito

 

E no coração de muitos mil

 

Não murcha nos ventos de Outono

 

Não perde a cor em Novembro

 

E sempre renasce em Abril.

 

Ao mundo eu quero pedir

 

Que o não deixe secar.

 

Nesta vida estiolada

 

Sem cravo vermelho de Abril

 

A vida não vale nada.

 

 

 

Poema de Eva Cruz

Ilustração, quadro de Dorindo Carvalho - "O guardador de cravos" 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 04:00
editado por Augusta Clara às 01:25
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
Uma casa grande - Eva Cruz
 

 

 

Eva Cruz  Uma casa grande

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

É uma casa grande
tem dentro o mundo
em recantos de lenda
e história.
Alma de poetas.
Retratos e santos
recordações de vida
por todos os cantos…
Livros nas paredes
seu melhor recheio
quadros a saber a poesia
e o vento que agita a figueira
a entrar pelas portas adentro.
Música de um bandolim adormecido…
Levanta o pó
descobre Marx, Brecht
e Nietsche.
O vento da história
acorda a memória
aconchegada ao canto da lareira.
É uma casa grande
com escadas
onde se brinca às escondidas
e as crianças inventam anjos
pelos cantos…
Gostam da casa
correm-na a rir
sem medos de partir
o que por lá há.
É uma casa grande
tem dentro o mundo
onde só vale
a alma do que lá está.



publicado por Augusta Clara às 18:00
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Quinta-feira, 22 de Março de 2012
Pena de Morte - Eva Cruz
 

 

 

Eva Cruz  Pena de Morte

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

    Era uma tarde do começo de Primavera.

 

Sentada no banco do meu jardim num deleite bucólico, a contemplar as flores de pão e queijo amarelas, espreitando por entre os fetos de pé preto, vi uma melra com uma palhinha no bico, disparar de um galho meio despido e entrar que nem uma flecha num arbusto, rente à hera do velho muro. Reconheci a fêmea pelo bico e penas acastanhadas, salpicadas de cinzento. Ia ali nascer um ninho e dentro a Primavera.

 

Dias seguidos fui observando a melra a construir a sua casa, com palhas, pequeninos gravetos e penas levadas no bico. De vez em quando o melro, no seu fato preto de bico amarelo, ajudava, e percebi que a emancipação já tinha chegado às aves, ou então sempre assim fora e mostravam-se mais evoluídas do que os humanos.

 

Ninho feito, logo foram postos quatro ovinhos, claros, de manchas avermelhadas, não saindo a fêmea de cima deles, enamorada no seu choco, durante cerca de duas semanas. Quando a via sair, espreitava de longe pelo buraquinho, não fosse ela enjeitar, e não tardei em ver quatro cabecinhas nuas, de tenro bico espetado no ar. Em breve se haviam de vestir e voar pelos céus da Primavera.

 

Um gato malhado de branco e preto, pequenito ainda, o resto de uma ninhada da gata amarela, espreitava, num galho seco de uma vide morta, a pequenina presa, e de um salto acrobático enfiou-se no buraco, agarrando o ninho por entre os bigodes. Foi tal a minha fúria que aos gritos o espantei, e na fuga deixou cair o ninho com os passarinhos despidos e esfacelados. A pobre da mãe melra chegou e chorou com pios desgarrados a sua desgraça. O melro voltejava por ali descontrolado.

 

Na calçada, ouvi o barulho…do tractor que matou o gato com as rodas traseiras. Com  fúria disse para comigo: bem feito, foi como esmola num pobre! A gata amarela chegou, cheirou o corpo do gatito inerte e em cima do muro chorou o seu cântico fúnebre. Apoderou-se de mim um sentimento de pena e quase esqueci os passaritos nus.

 

Recordei então um texto de Camus, Reflexões sobre a guilhotina.

 

Numa aldeia deu-se um crime hediondo. Um assassino tinha chacinado uma família de lavradores incluindo os filhos pequenitos. O caso revoltou a população que considerava a decapitação uma pena leve de mais para tal monstro. No dia da execução, um aldeão, na sua revolta, quis a todo o custo presenciar a morte do criminoso. Só assim poderia saciar a sua sede de vingança. Levantou-se de madrugada, pois tinha à frente um longo percurso a pé, uma vez que o lugar da execução era na cidade. Viu chegar o condenado que tremendo de medo, mal se erguia nas pernas. O rosto congestionado implorava pela vida.

 

O aldeão, depois de ver a cabeça rolar pelo chão, voltou para casa, recusou-se a falar do caso e vomitou. Dali em diante apagou-se nele a imagem do crime hediondo. Na sua mente ficara apenas e para sempre o rosto do condenado.

 

Quem dera que na próxima Primavera, a melra volte ao velho muro de hera para cantar um novo hino à vida.

 

 



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Quarta-feira, 21 de Março de 2012
Dia Mundial da Poesia - Adão Cruz, Ethel Feldman, Eva Cruz, Maria Inês Aguiar
 

 

Dia Mundial da Poesia

(e o início da Primavera)

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Adão Cruz  Dia de enganos

 

Uma gaivota beijando a espuma branca das águas fundas em bailado  grandi mestri culminando as chaminés do cabo do mundo.

 

O barco ao longe só estático no horizonte como eu aqui de olhos  fitos nas rochas.

 

Gaivotas bailando Rossini mascagni massenet sem ponte nem  horizonte verdi wagner bizet sobre a espuma da tarde sem dia do dia sem  ponte sem horizonte para lá das rochas negras e nuas.

 

Marcia trionfale dunas de espuma branca abraçando as  rochas do meu deserto tão perto do mar imenso tocando as nuvens por dentro de  mim.

 

Alguém me leva nas asas da gaivota por dentro de mim em doce  intermezo de rios de sol e mar sem fim.

 

Alguém me passeia por dentro de ti cavalcate delle  valchirie a vertigem avança em turbilhão até planar bailando sobre o coração  cravado no sol poente vermelho e quente do sangue que verti.

 

Bruscamente o prelúdio voando dentro de mim a alma que  resta em meditazioni pelo espaço imenso tocando aqui e ali as penas das  asas que perdi.

 

Vesti la giuba viajante da barcarola com ar  triunfante va pensiero seguro de quem se apoia nas pedras nuas da orla do  mar esquecendo o mar que navega infinito mistério.

 

 

Ethel Feldman  Maresia

 

Vem de oeste o vento
maresia
doce vontade de continuar

Ama sem nunca acabar de amar
Invade o corpo sem pressa
Intervalo que prolonga a vida.

Vem de oeste o vento
tudo traz sem nada ter
momento desperto - vazio
 
 
Maria Inês Aguiar  Abram-se as portadas
 
abram-se as portadas do silêncio
ouça-se o grito do instante
quebranto dum rio sem tempo
dispam-se as vestes da espera
desencanto, desalento
respire-se a primavera
atravessemos o momento
acordando a madrugada
madruguemos mar e vento
inventando a caminhada
pintemos de azul o cinzento
ou cor de uma rosa perfumada
nasça em pessoa o lamento
da palavra alvorada
 
(Adão Cruz)
 
Eva Cruz  Poetas do trigo
 
Sementes de água
gotas de trigo no chão duro
cresce o pão mal repartido.

Ergue-se o punho erguido
de Homens Inteiros
poetas do trigo
na fome da Revolução.

Ceifeira da noite
com medo do dia
semeia a morte
mais pobre a seara.
Ceifeiras do dia
foices vermelhas
cantares de esperança
não deixam a morte
matar a seara.

Sementes de água
gotas de trigo
não morre a seara
não morrem os Homens
os Homens Inteiros
poetas do trigo repartido
 
 



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Quinta-feira, 15 de Março de 2012
À Nelly-Poema a quatro mãos - Adão Cruz, Clara Reis, Eva Cruz, Isilda Graça
 
 

 

 

Adão Cruz, Clara Reis, Eva Cruz, Isilda Graça  À Nelly-Poema a quatro mãos

 

 

 

(autor desconhecido)

 

 

Amaina o vento

sobre a areia rendada de espuma branca.

Do alto da falésia metade do sol se esvai

abrindo o céu à lua inteira.

Uma mantilha de ouro estende-se a teus pés.

Tímidas gaivotas olham para os teus dedos

e de ternura as algas te acariciam.

Sabem que o mar é teu

que tu és dele

e sempre dele sentiste o ondular das ondas

nas teclas do teu piano.

Jovem mulher com seu piano de sol

de sombra e de tempestade

escreve suavemente na areia branca

a partitura quase incriada quase incerta

do instinto palpitante das ondas da vida.

O corpo arde por dentro

e o sangue fervente navega nos dedos febris

dobrados pela música do cantar da vida

até à exaltante alegria de morrer.

Subirão à tua face

as águas incendiadas pelo mítico brilho da falésia

que aquecem as ruas frias da nossa cidade interior.

Impregnados de silêncio

teus cabelos se incendeiam

de gesto fulgurante ou de loucura.

Onde a mulher começa nasce o sorriso

e o desejo se faz auréola de santidade

até que a beleza e o lume

se dêem tempo de incendiar a vida.

Sempre foste memória que se perde e se ganha

na espuma de um mar fecundo de fogo e leite

vertido num piano em noite de lua cheia.

No jogo das tuas mãos

levadas pelo vento da maré

nasce a luz e a sombra do linho branco

e a tua música subirá contigo

entrelaçada em algas

até pousar no alto da falésia.

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
DEBATE.QUE RUMO QUEREMOS PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL - depoimento de Eva Cruz

 

 

 

 

 

Eva Cruz
Nasceu em 1942 em Figueiras, Vale de Cambra. Licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de
Coimbra, foi professora do Liceu durante trinta e seis anos.No início da sua carreira profissional foi correspondente/tradutora numa empresa nacional e numa empresa suíça. Fez formação no País, na Alemanha, Inglaterra e Suíça alemã. No Ensino exerceu cargos de direcção e cargos pedagógicos.
 
Esteve ligada à formação de professores durante doze anos. Foi dirigente sindical.

Escreveu para jornais e publicou em 2004 o seu primeiro livro Era uma vez Future Kids, em 2006 Aurora Adormecida e em 2010 Era uma vez em Outubro. Está a terminar o quarto livro Corconte, um romance.

Este é o depoimento de Eva Cruz:

 

 

 Sobre Democracia.  

 

Em tempos de crise, enquanto uns choram, outros fazem lenços.

 

Democracia é, como todos os conceitos, uma utopia. Chegar lá não será possível, mas caminhar para ela e senti-la cada vez mais próxima é o que qualquer ser humano verdadeiramente consciente deve ambicionar.

O vinte e cinco de Abril abriu as portas de par em par e quase nos levou ao altar da Democracia. Muito mais cedo do que se imaginava, os abutres a torceram e distorceram levando-a às portas da morte.

A história repete-se através dos séculos. E o desânimo apodera-se lentamente dos lutadores e perseguidores de utopias.

A reflexão por parte de quem quer que seja, esporádica ou sistemática, pode ser um simples desabafo ou inglória panaceia, mas é sem dúvida uma arma forte de esclarecimento. O silêncio é uma forma de legitimar as injustiças. É, por isso, muito importante que se escreva, se reflicta e faça reflectir sobre estes temas.

Por muito grande que seja a desilusão, há sempre um sentido que aponta rumos que nos arrastam e criam forças onde parece que as não há.

 

Numa sociedade onde a ciência, a tecnologia e o pseudo-desenvolvimento estão ao serviço do super-lucro e de uma desenfreada economia de mercado a expensas do esmagamento da dignidade e felicidade humanas, onde os governos não passam de meros gestores da forma de enriquecer meia dúzia de senhores do mundo à custa de milhões de milhões de explorados, a vida já não pode fazer sentido fora de um contexto revolucionário.

 

A reflexão vale essencialmente como motor da denúncia. Denúncia sem medo e sem tréguas, denúncia pública e arrojada dos verdadeiros culpados, sejam eles altos capitalistas, governos, instituições com rosto ou sem rosto. Denúncia que empurre tais grupos ou pessoas para a sentença que merecem.

 

A legitimidade de viver a vida bafejada, pelo menos, de saúde e emprego começa a ser rara e por isso as hostes dos indignados engrossam.

 

É importante que ninguém se perca no vazio acrítico de si mesmo.

 

É importante não esquecer que, enquanto uns choram, outros fazem lenços, com a triste ironia de limpar as lágrimas dos que choram.

 

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
A faca - Eva Cruz
 

 

 

Eva Cruz  A faca

 

 

 

(Arranjo de Adão Cruz)

 

 

 

   A noite estava fria. A faina dos dias anteriores dava uma certa tranquilidade e certeza de que a ceia e a festa iam correr bem.

 

Cá fora brilhavam as luzinhas intermitentes do presépio feito de musgo das pedras do rego. Bonecos de todos os tempos tomavam os seus lugares habituais nos altos e baixos  ao longo dos caminhos feitos de areia. Todos os anos se acrescenta uma ou outra novidade. Este ano, quatro anjos brancos se associaram à família e ao rebanho, cada um com o seu instrumento. As luzinhas com música tocavam por eles.

 

Na cozinha, descascava-se as batatas e escolhia-se as pencas. A mesa estava posta a rigor, uma para os adultos e outra para as crianças. A lareira, bem recheada de lenha, alimentava o calor e a beleza verde e vermelha de toda a sala. Ao lado, todas as delícias de Natal cobriam a mesa, desde as compradas às feitas em casa, com um viço especial para as rabanadas de vinho tinto ou de leite, para os bilharacos de abóbora menina a imitar os da avó, a aletria, tapioca e mexidos, únicos para o paladar da saudade.

 

 

 

Que fiz eu à faca?  Não sei onde se meteu o raio da faca. Se acabei de a usar, onde se meteu ela?

 

Provavelmente meteste-a no lixo. Foi de certeza junto com as cascas.

 

Eu não saí daqui, como pode ser?

 

E os dois discutiam o paradeiro da faca e ambos a procuravam na banca, no balcão, sobre a mesa, no fogão, até se espreitou para dentro das panelas.

 

Eu não estou tola, acabei de a usar.

 

Provavelmente está na gaveta.

 

E as gavetas foram despejadas, e peça por peça foi vista por quatro olhos.

 

Estás confusa, de certeza. Não seria uma dessas facas?

 

Não, tenho a certeza, eu não estou tola.

 

Se calhar, estás mesmo, dizia ele a rir-se, mas também intrigado, tentando procurar tudo o que fosse sítio com os olhos e com as mãos.

 

Vê lá no lixo.

 

Com uma lanterna e uma colher foi o lixo vasculhado e nada de faca.

 

Realmente é estranho. E ele também concordava. É mistério, ironizava ele, mas irritado com a evidência.

 

No espírito dela, associava-se o barulho estranho que naquela tarde, sem mais nem menos, se ouviu, na saleta onde a avó, anos a fio contemplava através da janela o dia desde o nascer ao pôr-do-sol. E às três pessoas que ouviram o barulho, pareceu que vinha do sofá onde ela, placidamente, se sentava, com os seus olhos cor da flor do linho e o cabelo com réstias de sol. Todas entenderam que foi uma tábua a ranger, a madeira a dar de si. Nem uma ponta de medo se notou no rosto de nenhuma. Só quem não conhece o amor, podia ter reacção diferente.

 

Saíram os dois para o pátio.

 

A noite estava linda, com as estrelas a brilhar no céu húmido de alguma doce neblina e  lá em cima a lua era igual à de uma infância tão longínqua como ela.

 

De certeza que na mente de ambos, adornada de saudade, por ali andavam, como estrelas em firmamento de Inverno, todos os que foram também Natal naquela casa.

 

E a faca foi esquecida por momentos.

 

O lixo foi despejado sobre um plástico no pátio, convencendo-se ambos que ela ia aparecer ali, e pronto. Mas nada.

 

Completamente derrotados, não conseguiam entender como desapareceu a faca.

 

Na cabeça dele não se sabe o que se passava, mas o silêncio e o semblante enigmático mostravam um certo desconforto na dúvida.

 

Pela cabeça dela, passou um filme a preto e branco feito de teias entrelaçadas de fantasias, de recordações, de sensações, onde o mistério era esbatido ou anulado mas onde a faca era uma realidade e tinha desaparecido. Só a incomodava a falta de domínio do pensamento. E constantemente à memória lhe vinham reminiscências de infância . Alguém te quer falar e não pode. E na mente a ideia das energias dos que partem e que ela gostaria, de uma forma simples, que não se perdessem.

 

Por momentos, aceitou o pensamento de que teria feito confusão. Só podia ser. Mas logo de seguida lhe veio a certeza de que não estava confundida.

 

Disfarçando a máxima naturalidade, ambos desistiram de procurar a faca.

 

 

 

Olá , boa noite , titi.

 

A Marta , acabada de chegar, abria a porta da cozinha sorridente.

 

Que frio está lá fora. Aqui dentro está uma maravilha.

 

E o seu sorriso iluminou a cozinha.

 

Olha Tatinha , tenta encontrar  por aí uma puta de uma faca que desapareceu e estou eu o teu pai há que séculos à sua procura, completamente intrigados com o seu desaparecimento.

 

Deixa lá a faca. Acabou-se. Disse ele, aparentando descontracção. Foi o diabo.

 

Diabo, não, porque aqui só há anjos.

 

A Marta chegou à banca, pegou no escorredor da louça que já tinha sido visto e revisto por ambos e levantou a faca que estava entalada de lado entre a base e o bordo.

 

Dá cá um beijinho. Felizmente não estou tola ainda.

 

 

 

No fim da ceia, a propósito da faca, ambas tivemos uma conversa muito interessante sobre a matéria, a energia, a origem do Universo, a partícula de Deus, a ciência, a morte, que é afinal o que mais nos incomoda.   

 



publicado por Augusta Clara às 18:00
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Microconto de Natal - Eva Cruz
 

 

Eva Cruz  Microconto de Natal

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

   O céu estava límpido, sem ponta de nuvem, e lá em cima brilhava uma luz tão intensa como se fosse uma estrela das grandes.

 

- Avô, que luz é aquela que brilha tanto como as estrelas?

 

- É a nave espacial, meu menino, um laboratório de ciência.

 

- Quem vive lá nos ares, avô, são homens ou pássaros que conseguem voar tão alto?

 

- Os homens vão em foguetões até à nave. De vez em quando, um vai - vem leva alimentos necessários à vida e às suas experiências.

 

- Que fazem os homens dentro dessa nave, tanto tempo?

 

- Contemplam a Terra e estudam o Universo. A Ciência é a grande mestra da Vida. Quem sabe, se não serás tu, um dia, também um cientista e possas salvar a Terra.

 

O menino, de tanto imaginar, adormeceu a contemplar a estrela que não era estrela e a lua através da vidraça do seu quarto. O avô deitou-se a seu lado. Velava o sono do menino.

 

Embalado pelo sonho, o menino voou pelas alturas como um passarinho, levando a cama e o avô nas suas asas.

 

As ondas do vento guiavam-no no mar do infinito. Sem outra consciência de si próprio, senão o pulsar do seu coração, entrava num deslumbramento por entre as estrelas. Eram tantas, tantas,  que lhes perdeu a conta. Passava-lhes ao lado, por baixo e por cima. Só não encontrava a estrela grande que via da janela do seu quarto. Mesmo rentinho à Lua reconheceu o homem com o molho de lenha às costas que ele via da Terra em noites de lua cheia. Lá em baixo a Terra como um balão de fogo flutuava no ar. Muito perto, pendurada no céu, estava a estrela que não era estrela. Voou até ela mas não viu ninguém. Apenas telescópios, muitos telescópios... Pegou neles e voltou-os para a Terra. Já tinha saudades. Então os mares abriam-se aos seus olhos num torvelinho, e a força da água era tanta que saia em jacto do globo luminoso. Os lagos e os rios eram manchas azuis como num mapa e os campos salpicados de pequenos pontos. Ao longe ouvia-se um cântico muito suave “Paz na Terra aos Homens de boa vontade”. Lá do alto do seu castelo a Lua riu-se e fez uma careta ”Tudo isso é treta”.

 

Quis o menino voltar ao seu planeta mas o globo de fogo explodiu e a Terra ficou mergulhada na sombra. Já não sabia o caminho e as estrelas estavam muito longe.

 

Então, aqui e além uns homens começaram a erguer-se e, fincando os pés na Terra, crescerem tanto como gigantes. Subiram, subiram e chegaram à nave. Dali acendiam archotes e espalhavam luzes por toda a parte. Nem um pontinho sequer ficou às escuras. A Terra vestiu-se de verde e azevinho e os homens de boa-vontade reconheceram que na Terra era Natal. Havia gente às janelas para ver os homens descer do céu e agradecer-lhes. Por vezes, eles perdiam-se nas curvas dos caminhos mas logo apareciam na sua grandeza.

 

O menino, levado pelo encantamento da sua viagem, desafiou a Lua e fugiu a uma velocidade estonteante para a Terra que agora o fascinava. Nesta queda vertiginosa acordou, estremecendo ao cair na cama.

 

A seu lado, o avô dormia. O menino não o quis acordar.

 

- Deve ser um dos gigantes que andam por aí a acender o Natal. Deixá-lo dormir.

 

 



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Domingo, 1 de Janeiro de 2012
Olha-me o lume na lareira adormecida - Eva Cruz
 

 

Eva Cruz

 

 

 

(Adão Cruz)

 

Olha-me o lume na lareira adormecida.

 

Fogo e música misturam-se em emoções,

em turbilhões e saudade de ilusões.

 

Yesterday em labaredas de vida.

 

Ardeu a paixão, sobrou das cinzas a ternura

que teima atear o lume até ao fim.

 

Autumn leaves caem dentro de mim.

Apaga-se o fogo na lareira escurecida.

 

Renasce das cinzas a love until the end oftime,

amor fonte de vida.

 

(in Era Uma Vez em Outubro, Edições Engenho)

 

 



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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011
Aprendi a viver com o mar - Eva Cruz
 

 

 

Eva Cruz  Aprendi a viver com o mar

 

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Aprendi a viver com o Mar

a bramir e a quebrar em mansidão

nas areias da praia

nos rochedos homens

em maré viva de afronta.

 

Mar é Mar

não contido em cores verde e azul

Mar é Céu com asas de gaivota

à solta.

 

Noite e dia a ouvir o Mar

nas serenas ondas do pensamento

feito dor e tormento

de não acreditar na paz

da maresia do fim da tarde.

 

Plangentes cânticos de turbante

de olhos azuis em pele de negro fundo

revolvem o mundo com a música do Mar

a amainar a maré viva

e cobrem de esperança

os rochedos da afronta.

 



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Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
A lenda grega - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz   A lenda grega

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Na Antiga Grécia corriam rios de leite e de mel. Abundavam pastagens verdejantes.

 

O mar era fonte de sonhos.

 

No Olimpo, os Deuses comandavam a vida e os destinos dos humanos.

 

Em festins permanentes celebravam as riquezas da terra.

 

Um pastor com asas nos pés levava as ovelhas de terra em terra em busca das melhores pastagens.

 

Estas começavam a rarear e lentamente os campos rapados iam secando e as ilhas transformavam-se em penhascos inóspitos.

 

Os Deuses, porém, deambulavam por ali de vez em quando, pairando para além das nuvens, e de tão poderosos que eram, esqueciam os mortais, insensíveis à destruição da vida daquelas ilhas.

 

O pastor feito de vento, escravo do rebanho, dormindo ao relento, encostado às suas ovelhas, pedia aos Deuses do Olimpo clemência.

 

Cansado de tanto labutar, fechou os olhos e de súbito os campos se tornaram azuis.

 

O seu corpo transformou-se num barco, levado por uma força inumana, arrastando com ele o seu rebanho.

 

O mar ofegante alterou-se em redemoinho e das águas revoltas ergueu-se uma outra ilha onde de novo corriam rios de mel e os campos eram fonte de leite.

 

O Olimpo ficara para trás e pastor e ovelhas nem sequer queriam ouvir falar dos Deuses.

 

Petrificados na sua mansão, foram esquecidos para sempre.

 

Assim libertos do FMI dos Deuses e do Olimpo, o pastor e o rebanho começaram nova vida em paz e abundância.

 

A avó, cansada de sonhar, inventou esta lenda e contou-a aos netos.

 

Adormecidos ao canto da lareira, levavam com pés de vento, o conto da avó pelo tempo fora.

 

E a avó descansou, assim, do seu sonho.

 

 



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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011
A Arte - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  A Arte

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Quem somos nós para dizer o que é a arte? Constante invenção de um permanente epítome da vida? Criação de formas da actividade humana dentro de uma estética de formatividade? A descoberta da artisticidade intrínseca que existe dentro de cada um de nós? Intuição do sentimento? Missão e dever do homem na investigação apaixonada da disposição ética das formas?

 

Para além do poder emotivo e criativo, a arte, em termos sociais e pedagógicos tem para nós uma finalidade formativa muito mais abrangente que o "restrito" conceito de "arte pela arte". Sabemos que, filosoficamente, este "restrito" tem ambições de absoluto, o que se nos afigura ser, a um tempo fascinante e perigoso, na medida em que podem desaparecer as fronteiras pessoalistas e a penetração da obra na sociedade como expressão cultural e humana do criador.

 

Sabemos que poderão ser consideradas prosaicas dentro da poética de muitos artistas, estas nossas considerações, mas, dentro do Ensino, não conseguimos dissociar a arte das nossas concepções pedagógicas. Assim, choca-nos o individualismo, a parcialidade emotiva, o elitismo tantas vezes infundado. Pelo contrário, inclinamo-nos para uma luta de plenitude que inclua a humanidade como centro de cultura, para uma luta de universalidade que abrace o mundo de forma humana, entendível, solidária. Somos dos que pensam que a arte, sem deixar de perseguir a pureza, pode constituir um elo entre o indivíduo, a vida e a comunidade. Conscientes de que, quando a reflexão e o juízo se desenvolvem, a arte pode morrer, pensamos, contudo, que o pensamento realizado no interior da actuação formante, pode dilatar-lhe o conteúdo e a memória. O reflexo e a interpenetração da obra na humanidade não a desmerecem, antes podem dar-lhe a riqueza que ela muitas vezes procura e não encontra no formalismo "estéril" de conceitos geradores de equívocos.



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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011
A Parábola - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  A Parábola

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Levantei-me cedo. Esperavam-me umas pencas que cresciam viçosas no quintal, fortalecidas pelo rego da água da mina, e uns diospiros vermelhinhos no meio das folhas verdes da árvore. Estranha que está a natureza que dá frutos antes da folha amarela caduca e faz florir as japoneiras de camélias brancas esperadas lá só para Janeiro ou Fevereiro!

 

Ia de carro a pensar nas pencas e liguei o rádio na Antena 1. Um diálogo interessante, em que um dos falantes, um professor doutor, conhecido do nosso público, se referia, para adornar o seu discurso, à parábola que diz que é mais fácil fazer passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Dizia então o senhor professor, mais ou menos nestes termos : é mais fácil imaginar um animal desses corpulentos passar pelo fundo de uma agulha…

 

Já várias vezes tenho ouvido esta hipérbole mal articulada. Doutas bocas, incluindo a de um padre que, no auge do seu sermão, dizia : imaginem o que é um camelo com a sua bossa a passar pelo buraco estreito de uma agulha…E os fiéis sorriam, talvez para fazer jeito ao padre, pois era impossível que tal imagem não lhes fizesse confusão. A mim fez-me confusão e era eu bem pequenita. Fui educada religiosamente pela minha mãe. O meu pai era ateu, mas foi ele quem me explicou que um camelo era uma corda muito grossa com que se amarravam os barcos ao cais.

 

Parece, no entanto, que a palavra camelo, animal, tido como o maior animal da Palestina de então, poderia, segundo alguns, estar na origem da hipérbole, mas referindo-se a agulha a uma suposta portinhola lateral, muito estreita, nos muros de Jerusalém, chamada fundo da agulha, pela qual passavam os pedestres quando os grandes portões da cidade já estavam fechados. Um camelo passaria ali com muita dificuldade, mas depois de despojado de toda a sua carga. Pessoalmente não acredito nesta versão.

 

Claro que o professor e o padre, pura e simplesmente, ignoravam. Mas seja qual for a imagem, tem de dizer a letra com a careta, isto é, o fundo de uma agulha é o buraco de uma agulha, e por analogia e comparação com a linha que habitualmente o atravessa, é de uma corda grossa (camelo) e não de um camelo, animal, que se trata nesta história.

 

Pena é, porém, que a Igreja deixe passar muitos camelos pelo cu da agulha e às vezes até dê uma ajuda ou um empurrão. Mas… isso é outra questão.



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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
Aurora Adormecida 31 - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

("Mãe", Adão Cruz)

 

No último dia de publicação do livro da Eva Cruz

apresentamos em maiores dimensões o belo quadro

do seu irmão Adão Cruz que nos serviu de ícone

em todos os capítulos

 

Capítulo 31

 

 

(conclusão)

 

Viveu catorze anos em casa da filha, numa relação com os netos, única e singular. Faziam dela a sua mascote. Brincavam, arreliavam-na, bei­javam-na, amando-se mutuamente. Só estava bem junto deles, ora no quarto de um ora no do outro.

 

° Sai daqui, avozinha, deixa-me estudar.

 

* Sempre a pôr-me do quarto para fora, a quem tanto faz por vós.

 

º Que fazes tu ? Nós é que te damos banho, te levamos a comer um bolo, até te levo ao colo para a garagem.

 

* Banho, a mim? Eu é que dou banho a toda a gente aqui em casa. Trabalho nisto e naquilo. Comprei tudo o que está cá dentro e este é o pago.

 

º Compraste o quê, avozinha?

 

Olha, este armário e estes livros todos.

 

º Os livros? Onde os compraste tu?

 

* Na feira, não sei se na dos nove, se na dos vinte e três.

 

° Como os compraste?

 

* A tua mãe escolheu-os e eu paguei-os.

 

° Ai, avozinha, tu és uma pândega, uma pateta.

 

* Se eu sou pateta, tu és pateta.

 

Riam-se com as suas conclusões. Na mente dela comprava tudo. Andava sempre com uma carteirinha preta e o dinheiro da sua reforma. Nem para dormir largava a bolsa. Era um tormento quando lhe perdia o lugar. Tão generosa a vida inteira e agora tão presa ao pouco que tinha! O filho chegou a fazer-lhe umas notas falsas no computador para ela se entreter a contar. Embora tivesse estranhado a textura do papel lá se foi iludindo.

 

Para além da carteira, faziam parte do seu tesouro a cartilha, o livrinho de orações, a bengala, os óculos de ver ao perto, os óculos de ver ao longe, a bandolete, os vestidos, os lenços de adorno, os colares, os alfinetes e os cheirinhos. Agora, ao lado das bonecas, tudo jaz abandonado, espólio de guerreiro, livros abertos de tempo, de vida, de poesia.

 

º Vá, põe-te a, andar, quero estudar. Não percebo nada disto.

 

* Se não percebes, a tua mãe que te ensine. Se ensina os outros, mais depressa ensina a ti.

 

° A minha mãe não sabe nada.

 

* A tua mãe não sabe nada? Essa é que é boa, rapaz! Tanto tempo a estudar para não saber nada? Quem não sabe nada és tu. Tu é que não sabes nada.

 

° Deixa-me estudar, já te avisei.

 

Porém, ela continuava ali sentada junto deles, sempre linda e bem cheirosa, enfeitada nos seus vestidos de seda ou de lã, com o lencinho ao peito, de cores doces. Tinha um orgulho enorme nos vestidos, nos lenços, colares e alfinetes. Muito direita, apoiada na bengala encastoada de prata, um porte distinto de matriarca, advindo do alto conceito da sua beleza e do seu ca­rácter, lá andava ela de um lado para o outro procurando sempre a presença dos netos. Orgulhavam-se dela. Era para eles o grande adorno da casa.

 

° Ó mamã a avó é o melhor enfeite desta casa. Até dá respeito.

 

Passavam o tempo a alindá-la como quem enfeita uma boneca. Em contrapartida arreliavam-na tanto, e faziam tantas diabruras que só o excesso de ternura podia explicar. Pintavam-lhe a cara de Rato Mickey, escreviam-lhe frases cómicas na testa, ornavam-lhe o vestido no fundo ou atrás com pregadeiras da roupa, fazendo rir toda a gente com as figuras a que, inocentemente, se prestava. Um dia calçaram-lhe umas botas de ski, cujo peso a impedia de se mexer, puseram-na em cima de um par de skis, bastões nas mãos, barrete na cabeça, cachecol ao pescoço. Fingindo-se arreliada, lá se aprumava toda vaidosa para a fotografia. Enquanto dormia a sesta, trocavam-lhe os óculos por óculos escuros. Acordava, e, com ar de vedeta, queixava-se de ter escurecido tão depressa. Quando apareceram os primeiros leitores automáticos de CDs diziam-lhe que o porta-CDs só abria quando pela frente passassem boas pessoas. Passavam eles, e sem ela se aperceber, abriam-no com o comando. Mandavam-na passar a ela e... nada acontecia.

 

º Vês, avozinha, ele só abre quando passam as boas pessoas. Tu não prestas para nada.

 

Divertiam-se, depois, ao darem com ela, à socapa, a passar de um lado para o outro diante do aparelho, a ver se ele abria. Apanhavam-na de surpresa, irritando-a no seu orgulho.

 

° Dá-me um beijinho, avó.

 

* Dou-te mas é uma ferradela. Só sabem é consumir-me, a quem tanto fez por vós. Não há direito.

 

° Portas-te mal, vais para o lar, avozinha.

 

* Para o lar? Lar tenho eu em minha casa. Tive toda a vida um lar. E o Estado é meu amigo, dá-me uma reforma que chega para comer e sobra. E tinha muito. Se não tenho é porque vos dei tudo em vida. Tendes obrigação de me criar e educar.

 

° Ai, lá isso criar, criamos-te nós, agora educar é que é mais difícil porque tu não deixas.

 

* Educada sou eu. Fosses tu assim, meu malcriado.

 

Falar-lhe em lar era o diabo que lhe aparecia. Ficava furiosa e triste. Mas depois de a tentarem amansar, e de tão insistentemente lhe pedirem um beijo, ela lá lhes dava uma ferradela que não era mais do que um afago.

 

Adorava que a levassem a passear mas desconfiava sempre da intenção do passeio. Um dia, quando subia, amparada pelo filho, as escadas do Museu do Caramulo, perguntou em voz alta, antes que fosse tarde, às pessoas que desciam, se não era ali a casa onde se deixava os velhinhos.

 

Aos noventa e quatro anos teve de voltar à sua casa das Figueiras para aí viver com duas empregadas, uma de dia e outra de noite. Nada lhe falta, nem o carinho nem a dedicação de ambas. E mimada de filhos e netos, vizinhos e amigos. Agora meiga, serena, muito linda, branca e rosada, com pele de veludo e cabelo de seda, deslumbra quem a visita.

 

Parece uma santinha numa redoma.

 

Viveu até à quarta geração. Tem um bisneto que brinca com ela. Tem uma bisneta. De novo, um menino e uma menina.

 

Canta de dia e de noite, conta, faz versos, monólogos e diálogos, num distanciamento total da realidade.

 

* Quem me dera, dera., dera estar sempre a dar, a dar beijinhos até morrer e abraços até acabar.

 

Está longe, muito longe. Talvez num conto de fadas, no conto da Bela Adormecida. Sei apenas que é feliz e irradia felicidade. Reconhece ainda a filha e o neto que mais a arrelia, e que mais a ama. Já se despediu do mundo mas vive ainda.

 

Vive, talvez no Paraíso, no Limbo, mansão de inocentes sem pecado ori­ginal. Paradise Lost? Paradise Regained?

 

Quem me dera poder elevar-te aos altares das Mães de Gorki, de Steinbeck, de Brecht. Na minha simplicidade ergui-te um altar dentro do meu peito, enfeitado com as flores e as hastes dos campos e dos matos e tecido com as fitas de veludo azul e rosa do teu baú.

 

 

 

Quarto de dormir

de azul pintado e flores no cortinado

casinha de Coppèllia

bonecas por todo o lado.

O Popeye espreita no topo da cama

uma boneca de cabelos cor de chama

um boneco vestido de azul

todo empertigado

no cortinado.

Bonecos no sofá

no chão

em todo o lado.

 

.

Minha mãe de tão velhinha fez-se menina.

Ai de mim

se o encanto se parte

e o quarto fica vazio

sem velhinha

sem menina

a aconchegar os bonecos

cheios de frio.

 

.



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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
Aurora Adormecida 30 - Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 30

 

 

 

(continuação)

 

Aurora ficou viúva muito nova. Continuava fresca e bonita. No mesmo ano em que viu partir o marido, casou o filho e a filha.

 

* Em seis meses vi a minha casa vazia. Fiquei só, nas Figueiras, entregue à dor e à solidão. Só se veja quem só se deseja! Depois de viúva ainda tive quem me qui­sesse. Nunca o disse a ninguém. Um homem chega para dizer o que é mundo.

 

° Então o que é mundo, avó?

 

* Tu sabes bem o que é mundo. Olha! É céu, terra e água.

 

Sempre gostou de viver com gente nova. Fez-se rodear de crianças. À noite, fizeram-lhe companhia duas meninas por quem sempre nutriu grande afecto e de quem recebeu muito carinho. Aos serões iam para sua casa vizinhos, parentes e as primas direitas. Aqueciam-se à lareira, a ver televisão e a beber chá ou cacau. A sua generosidade, a lealdade e a firmeza do seu carácter conquistavam todos com quem privava.

 

* Víamos todas as telenovelas e uma era muito bonita.

 

° As Dallas, não era, avozinha?

 

* Isso mesmo, as Dallas.

 

Era uma série americana com três mulheres bonitas. Não sabendo as amigas que Dallas era uma cidade, entendiam que se tratava do nome das actrizes.


* Já era sina minha e da minha casa. Agora vinham ver televisão. Noutros tempos, em vida de meu marido, vinham ouvir o rádio.

 

Na aldeia foi a casa de Aurora a primeira a ter rádio, um Philco, que dava música e as notícias. Abria-se a porta da sala para quem quisesse ouvir, na calçada.

 

Não era vulgar esta abertura e generosidade na aldeia. Apesar de toda esta franqueza, o respeito era grande.

 

* Ai de alguém que me faltasse ao respeito! Toda a gente sabe que por boa sou uma e por má sou outra.

 

° O que te vale é a mamã e o tio, senão ninguém te ligava nenhuma.

 

* Não há dúvida, essa é que era boa, rapaz, eu é que imponho respeito e estou a valer a todos vós. Sem mim o que é que tu eras? Quem julgas tu que és?

 

No campo trabalharam jornaleiros que a adoravam, e toda a gente que mais cedo ou mais tarde para ela trabalhou, a respeitava muito. Depois da morte do marido, tomou as rédeas da vida e de novo se sentiu dona e senhora do mundo. Começou a vender algumas propriedades, ampliou a casa para melhor receber a família, alindou o quintal, mandou compor ramadas. De novo sentiu a liberdade de poder administrar, sozinha, os seus bens e deles dispor a seu bel-prazer.

 

* Vendi muito, os Valdantes, os Valinhos, lameiros e matos, mas reparei casa, ramadas e tudo o que estava a cair.

 

° Pois é, avó, desbarataste tudo. Não soubeste conservar o que tinhas e o que o teu marido te deixou.

 

* Homessa, deixei-vos muito e em boas condições. Olha o que por aí vai. Tendes muito que herdar. Ele é o Paul, o Cortinhal, o Covo, os Couços, as Portelas...

 

º Cala-te mas é. Tudo isso não vale um corno.

 

* Se não vale um corno, então dá-o. Há muito quem queira, ora essa! Eu para vocês não tenho valor nenhum, fui uma grande mulher e este é o pago. Fiquei sem mãe ao nascer. Ai filhinha que não tens pai nem mãe...

 

° Cala-te, cala-te, avozinha, roda, roda a cassete.

 

Aos domingos lá ia ela à capelinha de S. Gonçalo, à missa, onde se rode­ava de pessoas que a estimavam. Ofereceu toalhas de renda e linho para o altar-mor, ajudava a zelar pelo enfeite da capela e a sua voz esmerava-se a acompanhar cânticos das missas. Não havia coro e as vozes das mulheres eram muito tímidas para se fazerem ouvir. Ela, como sempre, avançava, convencida de que era apreciada. Na missa dispunham-se os homens à frente e atrás, e no meio da capela ficavam as mulheres. Tinha o seu lugar e a sua almofadinha de veludo castanho onde se ajoelhava. Se, porven­tura, tomasse lugar noutro sítio, logo almofadas eram arremessadas pelo chão até ela, umas de chita, outras de estopa, não fosse ajoelhar-se na pedra fria da capela. Toda a gente gostava de a sentir por perto. Recebia mais atenções do que muita gente rica da terra.


º Tu quem és, avozinha?

 

* Sou a Aurorinha do Engenho, aquela menina mais bonita que veio há pouco do Porto.

 

° Do engenho? Que engenho?

 

* O engenho do linho, que engenho havia de ser?

 

° Pensava que era engenho de arte, mas tu não sabes fazer nada!

 

* Sei fazer tudo e teria ido longe se fosse cultivada. Não tive a tua sorte.

 

E não lhe faltava realmente engenho e arte.

 

Com muita saúde ganhou de novo gosto pela vida. Nasceram-lhe cinco netos, quatro rapazes e uma menina. Foram o orgulho da sua velhice e a nova grande razão de viver. Filhos e netos vinham aos fins de semana à casa das Figueiras e ela sentia-se feliz.

 

* Era uma casa cheia.

 

A casa enchia-se de amigos dos filhos, e lá se realizavam tertúlias em longos dias de Verão ou noites frias de Inverno, aquecidas pela lareira e pelo saboro­so cacau com gosto a limão. Sempre acreditou nos filhos. Mesmo em tempos quentes, de grande controvérsia política, e apesar da sua mentalidade de pes­soa de aldeia, presa a tantos preconceitos religiosos, sempre tomou posição ao lado dos filhos. Em altura de votação era com eles que se aconselhava.

 

* Vou por vós, porque acredito que quereis o melhor para o mundo.

 

Na altura das vindimas ou de colheita juntavam-se as pessoas, não só por ela mas também por respeito pelo filho, para os trabalhos mais difíceis, sem por isso levarem dinheiro. Nesses dias fazia almoço e jantar de festa, e exigia à noite a presença dos filhos e netos. Rituais havia em que ela não perdoava a falta deles. Eram dias de grande alegria. As pessoas vinham pelo gosto de ajudar. Para elas era dia de festa. Para ela eram momentos marcantes da sua actividade. Deles se orgulhava e para eles vivia.

 

* Servia-se doce, champanhe e vinho fino.

 

Morreram todos os que participaram nesse trabalho comunitário. Resta ela, semi-viva.

 

° Ficaste para aqui agarrada à terra, não é, avozinha?

 

* Eu passeei muito com a minha prima Laurindinha, fui ao Brasil, à Ale­manha e a Espinho.

 

° Estás tola, avozinha, tu algum dia foste ao Brasil?

 

* Pois não, tens razão, eu vim do Brasil.

 

° E à Alemanha foste mas é com a mamã, onde não estava a tua prima Lau­rindinha!

 

* Mas fui à Espanha com o teu tio e vi o Palácio do Oriente, e uma vez com o meu marido que Deus haja. Ele até me disse que aquelas ovelhas além são espanholas, são do Franco e as de cá são de Portugal, são do Salazar.

 

º O Salazar sabes tu quem é. E o Franco?

 

* Sei lá quem é o Franco. Frango sei, é aquilo que eu te dou, estufadinho. O que ele dizia é que eram tudo ovelhas. Ele não era político mas sabia o que dizia.

 

° Ai, avó, tu saíste-me uma grande revolucionária. Podias ter sido presa.

 

* Presa, só se fosse pelo rabo.

 

Eram conversas misturadas, com algum nexo ou sem ele, ao sabor da sua imaginação em que confundia pessoas e tempos. Lentamente foi envelhecen­do e tornou-se, apesar da sua saúde de ferro, dependente da filha. Os ossos foram-na traindo e cada vez era mais difícil viver sozinha. Sempre mandona e exigente, mesmo apoiada na bengala, obrigava a filha a segui-la para todo o lado que lhe desse na veneta. Em férias, lá ia ela agarrada aos netos e à benga­la, fosse para onde fosse. Nunca dava parte de fraca, e empertigava-se no seu orgulho para mostrar que ainda não tinha perdido as forças e a frescura.

 

* Isto não é doença. Eu ando de bengala mas isto não é doença. Eu sou muito sã. Escorreguei numa escada interior de madeira com uns carapins de lã e desconjuntei os ossos. Eu sou muito saudável.

 

Acabou por viver definitivamente com a filha, exigindo sempre que pelo menos a levassem à missa, à feira e à casa dela todos os fins-de-semana.

 

* Leva-me às Figueiras para ver o que lá vai.

 

(continua)




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Domingo, 2 de Outubro de 2011
Aurora Adormecida 29 - Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 29

 

 

(continuação)

 

Os filhos cresceram e saíram de casa, cada um para a sua Universidade. Aurora ficou só com o marido e a sua dependência do álcool. De três em três meses vinham os filhos a casa. Viveu anos de angústia, escondendo o mais que pôde a sua dor para os não entristecer. Estava sempre presente em tudo com uma força gigantesca.

 

* Fui sempre o esteio desta casa..

 

º Tu, avozinha, tão pequenina, que esteio eras tu?

 

* O burro não se mede por grande orelha. Sou pequenina, mas segura. Nunca caí à primeira, nem à segunda, nem à terceira.

 

° Mas caíste à quarta, avozinha.

 

* Quarta, sermil e alqueire.

 

Era tal a força e a segurança que dava aos filhos e à vida que dificilmente eles se apercebiam de que estavam à beira da ruína económica. O marido não queria vender nada e ainda se metia em compras de terras, quando já mal tinha para as despesas.

 

Ela não recorda os tempos mais próximos. A sua memória vai para o passado longínquo.

 

° Parabéns, avozinha, fazes hoje noventa e nove anos.

 

* Noventa e nove anos? Estás tolo, rapaz. Se tivesse esses anos todos já tinha morrido. Dez anos pr'aí talvez, vá que não vá.

 

Na verdade, a mentalidade daquela velhinha não estaria muito longe dessa idade.

 

° Dez anos, avozinha, com filhos de sessenta e tal? Põe-te fina. Estás tolinha de todo, ainda te dou uma galheta para ver se afinas.

 

* Sei lá o que é uma galheta, se me desses mas é um chocolatitol Um pra mim e outro pra estas crianças.

 

º Crianças, avó, não vês que são bonecas?

 

* Boneco és tu.

 

° Estás-me a insultar, vou-me embora.

 

E logo, mais mansa, porque via a companhia e o interlocutor a faltarem, perguntava:

 

* Para onde vais tu? Vais ao brejo, não é? Vão todos para o brejo e deixam-me ficar aqui sozinha.

 

Na sua cabeça, andava toda a gente no brejo, e ela que tão brejeira era, tinha de ficar em casa.

 

Para a arreliar batia ele com a bengala nas bonecas que a rodeavam. Ma­lhava numas e noutras sem dó nem piedade. Enfurecia-a de tal ordem que a fazia gritar pela filha.

 

* Vem cá que este malandro mata-me as crianças.

 

Ele ria-se a bom rir.

 

º Tu és tola, põe-te fina, só tens areia nessa cabeça. Tu não vês que isto não são crianças, são bonecos. Põe-te fina. Só gosto de ti fininha.

 

Já mais lúcida, repetia:

 

* Areia na cabeça? Eu não sou nenhuma praia.

 

º Tu és histérica, histérica é que tu és.

 

* Como é que eu sou histérica, se eu tive dois filhos?

 

E ria-se de sobranceria e autoridade.

 

O certo é que sempre que o neto a provocava, ela afinava de uma forma repentina. A lucidez surgia com toda a força, mas pouco tempo depois deixava-se mergulhar na fantasia, no seu devaneio pelo mundo do passa­do, vivido e criado ao sabor do momento,

 

° Avozinha, gostas do Rui Veloso?

 

* Sei lá quem é o Rui Veloso.

 

° Avozinha, repete, eu curto o Rui Veloso.

 

* Curto e comprido. Sei lá eu bem o que é isso.

 

Depois de tanto insistir, lá repetia contrariada.

 

* Eu curto o Rui Veloso.

 

Num riso espontâneo, ele cobria-a de beijos.

 

° Ai, avozinha, tu estás uma teenager.

 

* Estou o quê?

 

º Uma teenager, avozinha, se não sabes, pergunta à mamã.

 

A saúde do marido esvaía-se, na altura, de dia para dia. Felizmente os filhos estavam quase a acabar o curso. Teve ele ainda a alegria de ver os filhos formados, o filho médico com o seu nome, e sentir todo o orgulho do mundo. Os elogios que ouvia ao bom nome deles enchiam-lhe os olhos de lágrimas e comoviam-no até aos soluços. Era muito terno e doce. Es­tavam, porém, ainda reservados para um grande sofrimento, a partida do filho para a guerra colonial da Guiné.

 

Foram dois anos de enorme sofrimento em que a mãe passava as noites em claro, a rezar. Só os aerogramas, de onde em onde, lhe traziam alguma alegria e muitas incertezas, porque na hora em que ela os lia já não sabia se seu filho estava vivo ou morto.

 

* Passei todo esse tempo a rezar, correndo para a capela a acender velinhas à Senhora da Boa Viagem para que me trouxesse o meu filho são e salvo. E assim aconteceu, louvado seja Deus! Tanto passei para lhe salvar a vida em criança, para agora o deixar morrer, sabe-se lá onde. Teve a coqueluche em pequeni­no, não comia nada, saía com ele, de manhã, para os matos, por causa do ar puro, levava uma conservadeira de leite e andava por lá todo o dia, fiquei na espinha mas salvei a vida ao meu filho. Mais tarde salvou-me ele a minha.

 

Um dia sofreu ela uma intoxicação alimentar e ficou à beira da morte. O filho, ainda aluno dos primeiros anos de medicina, recorreu a um médico da aldeia que, com a sua velha experiência, o ajudou realmente a salvar a vida à mãe.

 

Regressado da Guiné, a aldeia recebeu o seu filho, em festa. Durante a noite ardeu uma fogueira ao cimo do Caminho Novo e toda a gente se manteve alerta. De madrugada estoiraram foguetes. Houve missa de festa e banda de música. Um almoço com centenas de pessoas. Era tal a alegria e o orgulho dos pais que a emoção se manteve por muito tempo. O pai vi­veu ainda mais um ano a glória do filho e a alegria de ver a filha formada, ainda que não na carreira de advogada, que ele tanto ambicionara.

 

- Gostava que fosses advogada.. Juíza não. Talvez notária. Professora tam­bém não é mau. Podes vir a ser reitora de liceu. O Gasparinho das Ordens de Cima é professor e toda a gente lhe tira o chapéu.

 

Havia também as Ordens de Baixo. As Ordens eram um local junto à igreja matriz onde se erguia uma casa lindíssima na qual viviam uns ingle­ses com quem ele se dava bem. Tagarelando a sua lenga-lenga, assustavam muitas vezes os aldeões que andavam por ali, à erva, nos lameiros. Chega­vam a ser confundidos com quadrilhas que, constava, vinham de Lisboa. Amava tanto a filha que via nela o melhor do mundo. O carinho e a ter­nura cegavam-no. Por isso as canas brancas de S. José, na leira de cima, nunca mais deixaram de florir.

 

- Essas não se cortam, são as predilectas da minha Ervinhas.

 

Morreu um ano após a chegada do filho. Era uma tarde de meados de Março, daquelas Primaveras que fazem rebentar toda a natureza por dentro e deitar cá para fora os bolbos, os fetos, os gomos e os talos. Era uma tarde sem sossego. Apesar das melhoras da véspera, um fim de semana, a inquie­tude daquela segunda-feira fez regressar a filha. O ambiente era pesado.

 

O irmão José, seu padrinho, a um canto da sala, esperava o momento final num misto de dor e resignação. O filho, melhor do que ninguém, sabia até onde aquele coração poderia resistir. Exalou o último suspiro nos seus braços, com um sorriso nos lábios, fazendo pouco da morte.

 

Apesar da dor profunda, Aurora nunca soltou uma lágrima.

 

A filha não aceitou a morte. Virou-lhe as costas humilhada pela dor desse corte fatal. Olhou o quintal de cima e as caninhas de S. José estavam a florir. O pai gostava de flores brancas e de cravos. Nunca lhe faltaram em cima da sua campa rasa.

 

Se a morte o tivesse deixado viver, gostaria também, de certeza, de cravos vermelhos.

 

 

 

Banalizou-se a morte

de tal sorte

que saiu por cima a vida.

Cortou as asas ao sofrimento

a vida voou para dentro

de mim e ali ficou guardada

entre o vazio e o nada.

 

A morte é feia

voa no vento

no uivar do cão

pela madrugada

na noite adormecida

no rebentar e no cair da folha.

Vindima de cangalheiro

não me há-de levar de vencida.

Mesmo de costas voltadas

hei-de lutar contra ela

até ao fim da minha vida.

 

(continua)

 



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Sábado, 1 de Outubro de 2011
Aurora Adormecida 28 - Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 28

 

 

 

 

(continuação)

 

Aurora e o marido decidiram matricular o filho num colégio da terra. Porém, a sua preparação dos jesuítas era tão boa, que ele entendeu nada ter ali a aprender. Foi, então, para um colégio mais distante, com melhor reputação pedagógica. Mais tarde acompanhou-o a irmã.

 

Todos os dias os filhos acordavam, automaticamente, ao som da sirene da fábrica e dos afagos da mãe. Preparava-lhes um lanche para a tarde, uma garrafinha com uma gemada e um pão com marmelada ou manteiga. Subiam o Caminho Novo, sempre à recta, com o simpático motorista da Leyland, à sua espera quando raramente se atrasavam. Ao princípio da noite regressavam a casa. Esperava-os, sobretudo em tempo de chu­va, o Bininho, o corcunda, para os ajudar a trazer as pastas pela calçada abaixo. O Bininho vivia com a mãe, velhinha, a ti Fruménia (forma aldeã da palavra Filomena). Tinha uma figura tão bizarra e grotesca que fazia lembrar o Quasimodo da Notre Dame, de Victor Hugo. Já nesse tempo, os dois miúdos liam muito e faziam eles próprios essa analogia com o corcunda do grande escritor francês.

 

Não era fácil crescer intelectualmente num ambiente tão rural, nem tão pouco crescer saudavelmente em tempos tão difíceis. Só a grandeza de alma, a inteligência e a sensibilidade dos pais que tiveram, facilitaram a sua perspectiva de vida e o modo como futuramente construíram a sua visão do mundo.

 

O Bininho era mais uma das muitas figuras com aleijões físicos e mentais que se tornaram carismáticas na aldeia. Uns corcundas, outros mon­golóides, filhos últimos de casais com grande prole, outros vítimas de meningite ou poliomielite iam vivendo e convivendo por ali, perante a complacência de muitos e a troça de outros. Toda a aldeia tem um tolo, era um ditado popular. Aquela tinha vários.

 

O cigarrito era o principal prazer da vida do Bininho. Volta e meia abria a cigarreira de metal, que lhe havia dado uma irmã que vivia no Porto, olhava de lado a ver se alguém se compadecia da cigarreira vazia e lhe dava uns tostões. Quando fazia anos, abordava ao romper do dia os seus meninos e dizia:

 

Meninos, parabéns.

 

Porquê, Bininho? 

 

- Hoje faço anos.

 

Em casa havia um pequeno cão de raça, o Pluto, e uma cadelita meio raçada, a Xerxes, assim baptizada por influência de leituras.

 

Sempre que a cadela paria, o corcunda andava num sino, para levar os cãezitos a afogar no rio. O teu avô dava cinco escudos por isso. O tolito passava a vida a chegar os cães à cadela e arreliava-se todo por ela não emprenhar.

 

Era tão tolo ou tão pouco, que um dia foi-se confessar ao Sr. Prior e ele per­guntou-lhe se ele tinha alguma amiguita. O palerma foi-lhe dizer que tinha sim, senhor, que era a Aurorinha do Engenho. O teu avô fartou-se de rir.

 

° Se calhar, Avó, era mesmo verdade.

 

* Rais te partam, amiga dele e dos pobres como ele, fui eu toda a vida. O que vale é que o prior sabia que ele era pobre de espírito.

 

Todas as festas de ano eram celebradas com rigor naquela casa. No Natal não faltava o presépio com musgo, e por técnicas e hábitos aprendidos no seminário, chegava a fazer-se um presépio com água a correr e pastorinhos a mexer. Nessa época também se representavam comédias e teatros de sombra para as pessoas da aldeia que ali quisessem vir. Na lareira ficavam os sapatos e as chanquinhas, à espera dos bonecos de chocolate revestidos de pratas coloridas e reluzentes, que o Menino Jesus iria trazer à meia-noite, entrando pela chaminé. A tudo isto se juntava a ceia de Natal, a bacalhoada, as rabanadas, os mexidos, os belharacos, as castanhas cozi­das, o cheiro a canela e vinho fervido. No Entrudo, as caras enfarruscadas na lapeira, as serpentinas, as bichas, as caretas, a fantasia da simplicidade. Na Páscoa,o repicar dos sinos, o cortejo pascal, o doce sortido, as amên­doas e o doce cheiro da Primavera. As romarias, as cascatas com canos de abóbora e ramalhos de carvalhas e o S. João a mijar em bica.

 

- Um tostãozinho para o santinho.

 

A Senhora da Saúde, as pandeiretas, as rusgas, as cestas com o farnel, o manjerico atrás da orelha, o frenesim dos carroceis e do arraial eram a apoteose das festas de Verão. As de S. Gonçalo, as da Senhora da Piedade e até a Senhora do Carmo, a maior da freguesia, não se comparavam à da Senhora da Saúde.

 

(continua)

 



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Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
Aurora Adormecida 27 - Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 27

 

 

(continuação)

 

Faziam-se piqueniques com os familiares vindos de Lisboa, com os amigos e com os jesuítas do seminário. Havia em Macieira de Cambra um seminário de Jesuítas, para o qual o marido de Aurora se tornou um grande benfeitor. Todo o trabalho de dentista era feito gratuitamente, não só a padres e irmãos coadjutores, mas também a alunos. Não era religioso, tendo porém com eles essa atenção, sabe-se lá bem porquê. Talvez por­que, sempre atraído pelo saber, os julgava muito cultos.

 

Todos os anos lhes mandava dois cestos de vindima cheios das melhores uvas das suas videiras. Tinha boas ramadas de vinho verde mas quis expe­rimentar fazer uma vinha de cepa com castas do Douro. A terra era bem batida pelo sol e havia muita água. Mesmo assim não resultou. Enxertou-as e fez ramadas. As uvas, apesar de traçadas, eram excelentes e passaram a ser uvas de mesa.

 

Um dia, o reitor do seminário, com a devida cortesia, ofereceu-lhe a oportunidade de receber o seu filho como aluno. Fazia-o por gratidão. Era uma excepção merecida. Afinal ele era o melhor benfeitor do semi­nário, vinha logo em número um no jornal lá editado. Se o filho não quisesse seguir a vocação do sacerdócio, sairia quando assim o entendesse, e poderia continuar os seus estudos onde quisesse.


* Podia até vir a ser um bom dentista como o pai. Não perdia com isso.


O seminário preparava muito bem e o filho lá entrou. Mais tarde ofe­receram à filha aulas de música. Já então não se encontrava lá o irmão.

 

Novamente ousada foi esta inédita excepção permitida pelo reitor. Nunca ali tinham entrado mulheres para além da porta principal. Esta atitude só revelava a grande consideração e admiração que tinham por aquele benfeitor. Menina dos seus catorze anos, lá foi ela aprender o solfejo, para tocar órgão nas missas. A mãe sempre ambicionara educá-la como a pri­ma Laurindinha. O solfejo bem ela aprendeu, era apenas técnica. Chegou ainda a tocar harmónio na capelinha do seminário, mas a brincadeira era superior à vocação musical e por ali ficou. Hoje mal conhece as notas, as de música, claro!

 

O rapaz também não deu conta do recado. Sempre que vinha a casa, de férias, ia à missa só ao Domingo e passava o tempo numa total distracção e desinteresse, rodopiando, irrequieto, o terço em voltas e contravoltas, para arrelia e desgosto da mãe, que via a vocação a esfumar-se. Realmente, cedo chegou ao seminário, através do prior da freguesia, a notícia de que o rapaz não tinha qualquer jeito para padre.

 

* O reitor disse ao pai que tinha muita pena, mas que o teu tio não era feito para padre e a melhor altura para o tirar de lá era agora.

 

° E tu tiveste pena, avó? Assim não precisavas de ir à igreja, tinhas um padre em casa e ias direitinha pró céu.

 

* Sabes que mais, meu garoto de merda, muitas graças a Deus e poucas graças com Deus.

 

Antes, porém, da decisão da saída, o rapaz fugiu, de madrugada, avan­çando a cerca do edifício, e apareceu em casa dos pais, determinado a não pôr lá mais os pés. O seminário ficava no alto de uma colina, donde se via, ao longe, a sua aldeia. Não resistiu à saudade que sempre o invadiu, quando ao sol poente avistava o cabeço do monte, por trás do qual adivi­nhava a sua casa com a família, o seu rio ao fundo, serpenteando por entre juncos e salgueiros, esse rio que lhe correu nas veias desde criança.

 

Solta papagaios ao vento

leva nos pés uma bola

céu e terra em pé de guerra.

O rio corre-lhe nas veias

chama-o no calor da tarde.

Na mente irrequieta

inventa sonhos de menino

e engenhos na calçada.

Oprimido pela ausência

da infância perdida

chora a saudade

em rezas distraídas

de cara mal benzida

e genuflexão a meia haste.

Volta à paz do ventre materno

todo ele é razão e ciência

todo ele é terreno.

Vai para a frente volta atrás

encontros e desencontros

rasgam-lhe o coração

que estuda até ao fundo

desatando o nó

que o prendeu ao mundo.

Esquece tudo.

Esquece o rio.

A alma em que não acredita

toma as cores da fantasia

e com os papagaios ao vento

voa pelos céus da arte.

 

(continua) 

 



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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011
Aurora Adormecida 26 - Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 26

 

 

(continuação)

 

O cunhado padre foi entretanto ameaçado pela hierarquia religiosa, que não admitia a propriedade em seu nome individual, e obrigaram-no a de­sistir da fazenda em Moçambique. Não cedeu e apostatou. Resolveu, então, vir a Portugal mas não passou de Lisboa onde residia o irmão Gonçalo. Seria grande o escândalo se aparecesse na aldeia sem cabeção e com gravata, como surgira em Lisboa.

 

O marido de Aurora e o filho, adolescente, deslocaram-se à capital onde o esperaram à saída do barco. A par da grande alegria de rever o irmão predilecto, havia uma escondida tristeza, não tanto pelo facto de ele se desligar da igreja, mas pela humilhação que a situação representava. No próprio filho, criança educada em atmosfera religiosa, o sentimento nas­cido da insólita imagem de um padre de gravata, fumando cachimbo, só muito tarde se desvaneceu.

 

O padre decidiu emigrar novamente, desta vez para o Brasil, onde, mais tarde, regressou à Igreja. Foi pároco em S. Paulo onde fundou uma obra social, tendo morrido aos noventa anos, sem vintém.

 

* Foi uma alegria quando o meu cunhado padre voltou ao seio da Igreja. Em todas as capelas e igrejas foi anuncida a boa nova.

 

° Nessa altura já não tinhas chouriços para lhe mandar, não era avozinha?

 

* Hom'essa! Na minha casa matavam-se dois a quatro porcos por ano, conforme o tamanho ou a necessidade.

 

A matança era um acto tão solene que dava direito às crianças de faltarem à escola. O marido de Aurora fugia para os matos logo de manhãzinha, para não ouvir os guinchos angustiantes dos animais. Era um acto tão selvagem que ele não aguentava presenciá-lo. O almoço era melhorado, quase sempre arroz de frango ou de vitela e aletria de cortar à faca. Ser­via-se vinho do melhor que havia, tinto, branco ou de casta. O porco ficava pendurado na adega, a sangrar, até ao dia da desmancha. Parte dele repartia Aurora pela aldeia.

 

* A tua mãe, pequenina, ia de porta em porta, com uma cestinha, levar às pessoas mais velhas e mais pobres a sua oferta. Para as mais doentes, ia unto para um caldinho e para os outros adubo. Os rojões já iam feitos, menos gor­dos para os doentes e mais entremeados para os que tinham saúde. O teu tio só queria saber era da bexiga do porco para fazer uma bola.

 

Tanto Aurora como o marido eram pessoas muito generosas e toda a vida reconhecidas como tal. Ela acudia e valia a muita miséria que então havia nas aldeias. Até na casa de gente tuberculosa ela entrava, na flor da sua vida, para levar uma enxerga limpa e queimar a velha. Tratava queimaduras de crianças com folhas de malva e valia a quantos podia. Chegava a enviar encomendas de roupa, açúcar e arroz para pessoas que, por doença ou infe­licidade da terra se ausentaram. Nunca entrava ninguém naquela casa que não bebesse um copo ou tomasse um chá. Não havia pobre a quem fosse negada esmola, pequena ou grande. Nunca o portão estava fechado. Só se dava conta de que alguém tinha entrado no pátio quando se ouvia a lenga­lenga de um padre-nosso que estais no Céu. Era uma família feliz e havia alegria naquela casa, apenas toldada pelos amuos do marido. Sempre se fizeram boas merendas para os trabalhadores do campo, pataniscas, salada de bacalhau, bifinhos de peito de frango, azeitonas, pão e vinho ou comida de garfo. Para os de casa havia chá ou cacau, com um sabor único. Levava manteiga, sal e limão. A manteiga era pura. Batia-se o leite num cântaro de barro e retirava-se a nata ao de cima embrulhando-a em papel vegetal. Acompanhavam o chá e o cacau torradas polvilhadas de canela. Aurora trouxe toda a sua educação de outrora para a casa, para a família e para a aldeia. Todos os que com ela privaram, com ela aprenderam e lucraram.

 

O marido, sempre que ia ao Porto tratar de assuntos profissionais, trazia da Rua das Flores e da rua Mouzinho da Silveira, polvo seco, línguas ou caras de bacalhau, queijo da serra ou figos de seira.

 

* Para os filhos comprava latas de cálcio e de cola granulada.. Teve sempre cuidado com a saúde deles. Dava-lhes óleo de fígado de bacalhau e o remédio das lombrigas uma vez por ano. Era um suplício aquele sabor. O pai tapava-Ihes o nariz com uma mão e com a outra metia-lhes uma colher do remédio pela boca abaixo. Eu, ali à beira, passava-lhes na língua uma rodela de limão com açúcar, que os fazia estremecer.

 

Todos os anos se davam passeios, desta vez no velho Hillman cor de café com leite e de estofos de couro. O pai fazia questão em instruir os filhos pequenitos, levando-os para Norte ou para Sul, a visitar castelos ou museus. Tão intensamente transmitiu aos filhos a sensação e o desejo da aventura e do conhecimento, que, ainda muito pequenos, lhe propuseram uma ida, so­zinhos, ao parque da La-Salette, a meia dúzia de quilómetros de casa, para, na simplicidade da sua ideia, se desenvolverem. Mais tarde, tinha o rapaz à volta de dez anos, e a miúda os cinco, quando a mãe os entregou na camio­neta, para irem passar uns dias a Ovar, onde estava de férias o tio de Lisboa.

 

Simplesmente teriam de fazer transbordo na Ponte de Cavaleiros, para o que estavam bem instruídos. Porém, quando lá chegaram, já a camioneta tinha partido. O rapaz não desanimou, e logo, puxou dos conhecimentos que tinha, decidindo ir para a estação de caminho de ferro do Vale do Vou­ga, que ficava a dois ou três quilómetros. Sabia que o comboio os levaria a Espinho, onde tomariam outro vindo do Porto que passava em Ovar.

 

* Isto deu tanta aflição, tanta aflição, pois eles não apareciam em Ovar. Ainda por cima, gentes da terra que estavam a banhos em Espinho e regressaram nesse dia, me disseram, muito admiradas, que os tinham visto lá, a comer uvas e bananas.

 

° Pois é, Avó, deixavas os teus filhos ao abandono, eras uma mãe desnaturada.

 

* Desnaturada, eu? Que tão preocupada fui toda a vida. com eles? Alguém esperava semelhante coisa?

 

Ao pai atraíam-no, especialmente, os portos, os aeroportos ou estações de caminho de ferro, o que deixou marca nos filhos. Havia nele uma nostalgia dos longes, um sentido de partida ou de chegada, sabe-se lá, a busca do desconhecido, o desvendar de novos horizontes e, talvez também, o desejo do regresso, do descanso na cogitação, na dissecação das vivências, no de­leite do encontro do longe e do perto, do passado, do presente e do futuro.

 

(continua)

 

.



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