PRIMEIRO DE MAIO na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele.
É conseguirmos ver o Invisível.
É usarmos infravermelhos para localizar o MONSTRO agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença.
É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar.
É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano.
É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe.
É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos.
É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente.
É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas.
É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin.
É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros.
É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo MONSTRO nos deixem com a alma em desarrimo.
É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto.
É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado.
É não deixarmos que nos atire para a lixeira.
É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem.
É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore.
É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque.
É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto.
É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça.
É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos.
É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente.
É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre.
É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida.
É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos.
É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins.
É levarmos os mansos a possuir a terra.
É consolarmos os que choram.
É saciarmos os que têm fome e sede de justiça.
É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo.
11h00 - Incapaz de se fazer obedecer, o 2º governador militar de Lisboa conserva as forças que lhe restavam nas posições que ocupavam, não tomando, naquela altura, mais nenhuma iniciativa. - O governo consegue cortar a emissão em FM do R.C.P., desligando o comutador de Monsanto. - É detido, por forças do BC 5, nas instalações do Quartel Mestre General, o seu responsável, general Louro de Sousa.
11h30 - As unidades estacionadas no Terreiro do Paço dividem-se, avançando: - a Escola Prática de Cavalaria para o Quartel do Carmo, sendo, ao longo de todo o percurso, aclamada entusiasticamente pela população.
- forças dos Regimentos de Cavalaria 7, Lanceiros 2 e Infantaria 1 - que contavam com 16 blindados - comandadas por Jaime Neves e pelos tenentes de Cavalaria Cadete e Baluda Cid, para o Quartel-General da Legião Portuguesa (Marrocos).
11h45 - Difundido novo comunicado do MFA ao País, informando que, de Norte a Sul, a situação se encontra dominada e que "...em breve chegará a hora da libertação."
Fernando Correia da Silva, num poema de sabor vicentino, traça-nos um retrato irónico, mas veraz de um sol que brilhou intensamente, para depois se ir sumindo entre a neblina da incerteza e dos equívocos. Hoje aqui, acolá, encontram-se vestígios de Abril - mas é uma arqueologia que, de ano para ano, se torna mais difícil...
Ali, ABRIL, acolá...
Ali, ABRIL, acolá, ganância é que não há. Será tamanha a fartura que ninguém jamais procura ser dono de coisa alguma. Por isso não se costuma usar tranca ou cadeado, apelar a magistrado, condenar sem compaixão, meter homem na prisão, empurrá-lo para a guerra. Onde fica essa terra? Onde fica ou ficará? Ali, ABRIL, acolá...
É povo, por natureza, inclinado à gentileza. Todos são donos de tudo porque todos fazem tudo para todos. Mais distingo ser ali sempre domingo. É festa continuada, irmandade partilhada entre homens e mulheres, bem-te-quero, bem-me-queres, sejam quais as gerações. Desigual doutras nações onde fica ou ficará? Ali, ABRIL, acolá...
Arribado me quisera ao país da Primavera. Com a minha confraria hei-de ali surdir um dia sem daqui arredar pé. Trocar eu quero o que é. Porém ânsia desmedida troca-me as voltas da vida e comigo me deparo solitário ao desamparo a pregar neste deserto. O azul é tão incerto... Onde fica ou ficará? Ali, ABRIL, acolá...
Fui amigo pessoal do Vasco Cabral, negro e uma das principais figuras da Guiné-Bissau independente. Circunstância que levou a Federação das Cooperativas de Produção (Lisboa, Largo da Graça) a encarregar-me de viajar para Bissau para ali discutir possibilidades de intercâmbio económico com a nova nação africana. E eu fui. O avião aterra, abre-se a porta e quase me derreto com a súbita caloraça que vinha lá de fora. Havia gente à minha espera que me levou e instalou numa residencial.
Pouco depois, no Palácio do Governo, o grande abraço ao Vasco. Mas eu não quero discutir os entendimentos económicos, o meu objectivo é outro. A mulher do Vasco, portuguesa e branca, num carro oficial conduzido por um motorista negro, levou-me a visitar a cidade.
Parámos frente a uma fábrica que me disseram ser de tijolos, Saio do carro e de repente há lá por dentro uma grande algazarra e tijolos começam a voar tentando acertar-me. Esquivo-me, finto. Os meus acompanhantes descem, gritam e a algazarra pára. Lá de dentro sai um matulão que se aproxima de mim, que me examina e acaba por pedir desculpa dizendo que me confundira com um militar que fizera misérias em Bissau. Finjo acreditar, para não assanhar as mágoas do racismo...
Dois anos mais tarde, indo eu a caminho da fronteira de Espanha, paro em Borba para comer uma sandes e beber um copo. De repente, lá do fundo do tasco surge um grandalhão de braços abertos e a gritar:
- Ó Major, meu Major!
- Major não sou, não fiz a tropa...
- Não brinque comigo, meu Major. Já se esqueceu das coboiadas que fizemos em Bissau?
Concluo que há por aí um militar fascista com a minha tromba. Se um dia eu for assassinado à tijolada, já sabeis o motivo...
ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 3 - por Fernando Correia da Silva
(Continuação)
RECLAMAÇÃO
Em 1945, terminada a guerra, desaparecem os condicionalismos políticos que desaconselhavam a reapreciação do meu processo. Envio carta ao Presidente da Assembleia Nacional. A mim me referindo na 3.ª pessoa, reclamo: «Tendo-lhe sido enviadas instruções pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sobre vistos em passaportes, essas instruções continham na 1ª alínea a proibição absoluta de os dar aos israelitas, sem discriminação de nacionalidade.
Tratando-se de milhares de pessoas de religião judaica, de todos os países invadidos, já perseguidas na Alemanha e noutros países seus forçados aderentes, entendeu o reclamante que não devia obedecer àquela proibição por a considerar inconstitucional em virtude do art.º 8.º n.º 3 da Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca da religião que professa, medida que aliás se lhe tornava necessária para saber a religião dos impetrantes, e assim negar ou conceder o visto.
Nestes termos, se o reclamante não obedeceu à ordem recebida do Ministério, não fez mais que resistir, nos termos do n.º 18 do art. 8º da Constituição, a uma ordem que infringia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião (art.º 8.º, n.º 19).
E não se pretenda que a inviolabilidade de crenças não é, segundo a Constituição, um direito para os estrangeiros visados, por não se acharem residindo em Portugal, único caso em que poderiam ter os mesmos direitos que os nacionais (do art.º 7.º) pois não se trata no caso presente de um direito dos estrangeiros mas de um dever dos funcionários portugueses, que nem em Portugal nem nos seus Consulados, também território português, poderão sem quebra da Constituição interrogar seja quem for sobre a religião professada, para negar qualquer acto da sua competência, o que a admitir-se significaria odiosa perseguição religiosa, mormente quando se impunha o direito de asilo que todo o país civilizado sempre tem reconhecido e praticado em ocasiões de guerra ou calamidade pública.»
Concluo: «Não alegou na resposta que deu no mesmo processo disciplinar estas circunstâncias, pelo motivo de, lavrando a guerra na Europa, não querer dar publicidade e relevo a uma atitude, por parte de funcionários do Estado, que sobre ser inconstitucional poderia ser interpretada como colaboração na obra de perseguição do governo hitleriano contra os judeus, o que representaria uma quebra da neutralidade adoptada pelo governo. Não pode porém suportar a evidente injustiça com que foi tratado e conduziu ao absurdo, a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sido severamente punido por factos pelos quais a Administração tem sido elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano, pois os encómios cabem ao país e à sua população cujos sentimentos altruístas e humanitários tiveram larga aplicação e retumbância universal, justamente devido à desobediência do reclamante.
Em resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente “contra a Nação”.
Pede deferimento
(a) – Aristides de Sousa Mendes »
Não recebo qualquer resposta. Estou pois definitivamente condenado à miséria e à desonra.
HOSPITAL DA ORDEM TERCEIRA
Lisboa, 3 de Abril de 1954. Estou no Hospital da Ordem Terceira, na Rua Serpa Pinto. Abro a mala, retiro o lenço, enxugo os olhos. O meu tio, Dr. Aristides de Sousa Mendes, acaba de falecer, trombose cerebral agravada por pneumonia. A sua esposa, a minha tia Angelina, morreu em 1948 com uma hemorragia cerebral e ficou vários meses em coma, coitada. Todos os seus filhos, meus primos, vivem hoje nos Estados Unidos e no Canadá, conseguiram escapar a tempo deste purgatório... Sou eu a única familiar presente. O meu tio era um homem bom, sempre a pensar no bem dos outros. É por isso que morre pobre e desonrado.
MEMÓRIA
1. Em 1967, em Nova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para a recordação dos mártires e heróis do
Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro». A Censura salazarista impede que a imprensa portuguesa noticie o acontecimento.
2. Encorajada com a homenagem de Israel, Joana Sousa Mendes, filha de Aristides, em 1969 escreve ao Presidente Américo Tomás a pedir a reabilitação da memória do seu pai. Não obtém qualquer resposta.
3. Em Portugal, o “caso” Sousa Mendes só vem a público em 1976 com um artigo de António Colaço no Diário Popular. Tema retomado em 1979 por António Carvalho num outro artigo em A Capital.
4. Ainda em 1979 o Presidente Mário Soares concede, a título póstumo, a Ordem da Liberdade a Aristides de Sousa Mendes. 5. Em 1988, depois de muitas resistências do Antigamente infiltrado no Abril, a Assembleia da República e o Governo português, pressionados pelos filhos de Sousa Mendes e pelos americanos (entre estes o congressista Tony Coelho), finalmente procedem à reabilitação do Cônsul.
6. Após a morte de Aristides foram executadas as hipotecas do recheio da Casa do Passal.
Esta ficou ao abandono e os vizinhos passaram a usá-la como galinheiro, pocilga e curral. As novas autoridades portuguesas, as democráticas, estimularam uma fundação a recuperá-la para hotel ou museu. Projecto congelado: a Casa do Passal continua a desfazer-se, é hoje uma cariada cabana de Viriato. Com o seu desaparecimento, ainda há quem tenha a esperança que também desapareça a memória de Aristides Sousa Mendes – será esse um consolo do Antigamente...
ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 3 - por Fernando Correia da Silva
(Continuação)
VISTOS PARA A VIDA
Aristides de Sousa Mendes com a família.
Em 1940 Sousa Mendes passa vistos a milhares e milhares de refugiados de guerra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:
- Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.
Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos.
Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos.
O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos.
No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar, o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima: - Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus...
A grosse Mensche, um grande Homem!
SALAZAR NÃO PERDOA
O meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel. Sou judeu e americano. Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr. Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, em França, passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já partiram para a América, outros ainda estão em Portugal. Também prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito carenciados. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e, apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade.
O seu irmão, que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar jamais perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes. Num povoado do Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a albergar muitas famílias de refugiados, às quais, em França, passara vistos para entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa família, foi obrigado a hipotecar todo o recheio. O Dr. Sousa Mendes já não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria. Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá. Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros, estou certo disso.
ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 2 - por Fernando Correia da Silva
(Continuação)
Palácio da família em Cabanas de Viriato
TENHO SEDE...
Sousa Mendes, diplomata português ora neste, ora naquele país.
Não consigo dormir, viro-me para a esquerda, viro-me para a direita, ora tenho frio, ora calor, ora me tapo, ora destapo. Vivo em Bordéus e de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Febre? Talvez acesso da malária que apanhámos em Zanzibar, tu, eu, os nossos filhos. Ou talvez as sezões que antes eu apanhara em Demerara, na Guiana Francesa. Estou em crer que o paludismo já mordeu a minha alma. Tenho pressa, tenho sede. Que horas são? Angelina dá-me água.
Estou sempre a zanzar de um lado para o outro, na cama e na vida. A diplomacia tem destas coisas, não dá tempo para um homem assentar e deitar raiz. Será por isso que eu torno sempre às mais profundas. Em 1908 tentaram cortá-las, no Terreiro do Paço mataram-me el-Rei D. Carlos, também o príncipe herdeiro. Lesa-majestade, lesa-vida... Dois anos depois o 5 de Outubro, bandeiras republicanas são içadas, já definha a História pátria. E agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Não gosto que me entalem o lençol no colchão, até parece que estou dentro de uma camisa de forças. De mãos dadas, livres corríamos... Em Cabanas de Viriato tenho um palácio mandado levantar pelos fidalgos meus ancestrais, é a Casa do Passal. Dela, de manhãzinha, de mãos dadas saíamos a correr, saltávamos de fraga em fraga. Tinhas 15 anos e eu 18. Lembras-te ó prima, ó namorada, ó prometida? Quanto mais prima, mais se lhe arrima, diz o povo e tem razão. A vila de Nelas fica ali além e o rio Dão corre lá mais em baixo. É só atravessá-lo para chegarmos a Viseu. No lado oposto, atrás de nós, a Serra da Estrela, a soberana, domina toda a paisagem. Inocência e liberdade, nós a correr, bem me lembro, quisera eu regressar aos tempos que já foram... Porém, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Insónia. Sinto o calor do teu corpo, vontade minha é outra vez fazer amor contigo. Porém temo engravidar-te, catorze vezes já pariste em sangue e sofrimento, expiação do pecado original, filha de Eva que tu és. E não devo refrear-me porque é pecado, devo ser tal como Deus me fez. Além do mais a nossa união foi consagrada pela Santa Madre Igreja, criai-vos e multiplicai-vos. Se, por causa de nossos pais Adão e Eva, fomos expulsos do Paraíso, cumpra-se então o destino que Deus nos traçou. Refrigério para o teu martírio será aleitares mais outra criança que virá para alegrar as nossas vidas. Contudo temo que toda esta inquietação esteja a perder sentido. Temo que já tenhas alcançado a menopausa embora, por vergonha, não o confesses. E se isso realmente aconteceu, o teu silêncio converte o nosso desejo em luxúria e pecadores nos tornamos, é a radical tentação da carne, penitência, penitência, mea culpa, tenho a casa cheia de imagens do Senhor e da Virgem que foi a sua Mãe. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Há por aqui um mosquito que não me deixa dormir. César é o meu irmão gémeo. Juntos, íamos tomar banho no rio Dão. Juntos, cursámos Direito na Universidade de Coimbra. O nosso pai é juiz. Mas César e eu optámos pela diplomacia, não pela magistratura ou advocacia. Até nas carreiras somos gémeos. Tomámos o caminho errado? Creio que sim, somos monárquicos e, com a implantação da República, passámos a ser descriminados. Fui Cônsul na Guiana Francesa, 1 ano; em Zanzibar, África britânica, 7 anos. Ali estou sempre doente, também a minha mulher e os meus filhos, paludismo. Peço para me transferirem. No Palácio das Necessidades de Lisboa, que é o Ministério dos Negócios Estrangeiros, finalmente atendem o meu pedido e mandam-me para o sul do Brasil, sou nomeado Cônsul em Curitiba. Estamos em 1919, tenho 34 anos. Só por causa das minhas convicções monárquicas o novo Governo de Sidónio Pais, sem mais nem menos, suspende-me de funções. Consequências: inactividade, redução brutal de vencimentos e família cada vez maior. É o limiar da miséria, é o desespero. Na Embaixada portuguesa no Rio de Janeiro, César é o Encarregado de Negócios, felizmente. Movimenta-se, consegue que 34 prestigiados cidadãos portugueses, residentes em Curitiba, subscrevam um “protesto contra uma campanha miserável movida contra o Cônsul português por criaturas sem vislumbre de senso moral”. A iniciativa de César dá resultado: no final do ano suspendem a suspensão. Mas continuo sob mira e alvo não quero ser. Tudo se agrava, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Não quero travesseiro, já me basta a almofada. 4 anos mais novo do que eu, em Santa Comba Dão, no nosso distrito de Viseu, nasceu homem que vai dar muito que falar, estou em crer. Também ele cursou Direito na Universidade de Coimbra mas depois optou por Economia e Finanças, não pela Diplomacia. Em 1910, em Viseu, no Colégio do Cónego Barreiros, durante a sua conferência sobre a “Educação da Mocidade”, ele disse: “A vontade deve ser educada no amor a Deus e ao próximo, no amor à família, à honra e à dignidade, ao trabalho e à verdade”. Estou de acordo. Este moço pode vir a ser uma barreira contra a falta de escrúpulos que submerge a nação. O seu nome? António de Oliveira Salazar. Um dia será alçado a lugar cimeiro do país, prevejo. Mas quando é que ele vai assumir o poder para nos salvar? Tenho pressa, tenho sede, Angelina dá-me água.
Este cobertor felpudo é muito quente, trato de empurrá-lo para os pés da cama. Não me deixam ficar em Curitiba, não lhes convém, a colónia portuguesa está bem ciente da perseguição que me fizeram. Mandam-me para Cônsul temporário em S. Francisco da Califórnia. Temporário é equivalente a vencimento reduzido e, em dois anos, nascem mais dois filhos meus. Outra vez o limiar da miséria, o desespero. Depois mandam-me novamente para o Brasil. Em Agosto de 24 sou Cônsul em S. Luís do Maranhão, no norte. E em Dezembro estou a gerir interinamente o Consulado de Porto Alegre, no extremo sul. “Interinamente” é eufemismo de “corte nos vencimentos”... Cansam-me estas viagens, estas deslocações sucessivas, mas o pior de tudo é a falta de dinheiro. Além do mais, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Mas não cedo, não renego, a causa monárquica também é minha, antes quebrar que torcer. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Abafado, já a suar, vontade minha é desfazer-me do pijama, é ficar nu, mas isso não é distinto, não fica bem a um chefe de família. Em 1926 estou outra vez em Lisboa, presto serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. A 28 de Maio ocorre o golpe do General Gomes da Costa, é a Ditadura Militar. Para surpresa minha, em Março de 27 sou nomeado Cônsul em Vigo, na Galiza, cargo de muito prestígio. Um amigo meu, funcionário interno do Palácio das Necessidades, diz-me que fui escolhido “por motivo de confiança”, pois o regime militar vê em mim “o funcionário próprio para inutilizar os manejos conspiratórios dos emigrados políticos contra a Ditadura”. Os militares foram gentis, fizeram-me justiça mas estão equivocados a meu respeito: não sou um denunciante, pedras eu não atiro, nem a primeira, nem a segunda, nem qualquer outra. Que horas são? De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Tenho sede, Angelina dá-me água.
Sonhar, às vezes é antecipar. Em 1928 Salazar sobe à ribalta, é ele o novo Ministro das Finanças da Ditadura Militar. Com o auxílio do exército impõe novas contribuições, veta despesas públicas, alcança o equilíbrio do orçamento, liquida a dívida flutuante e estabiliza a moeda. Já ninguém consegue arredá-lo, ou ele ou a bancarrota. Em 1930 acontece o óbvio: Salazar, de Ministro das Finanças galga a Presidente do Conselho de Ministros. Talvez possa agora restaurar a monarquia. Poderia, lá isso poderia... Poderia mas não quer pois, sem estirpe nem coroa, quem está a converter-se em soberano absoluto é o próprio Salazar, metamorfoses. Ilusão, triste ilusão a minha e agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
Daqui a pouco vou precisar do robe, acho que o deixei aos pés da cama. Não correspondo às expectativas dos militares mas eles continuam a prestigiar-me, não sei porquê. Em 1929 nomeiam-me Cônsul em Antuérpia, na Bélgica. Ali permaneço durante 9 anos. Com apenas 50 anos já sou o decano do corpo diplomático. O rei belga, Leopoldo III, simpatiza muito comigo, por duas vezes me condecora. Mas em 38 sou nomeado Cônsul em Bordéus, França. Peço para ser mantido em Antuérpia, cidade onde fiz tantos amigos. Salazar, para minha consternação, recusa o pedido e sigo para Bordéus. De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
De outras vezes o sonho converte-se em pesadelo, ânsias, ao acordar a minha apetência é gritar. Em 39 rebenta a II Guerra Mundial. Os alemães invadem a Polónia e os Países Baixos e a França, Paris é ocupada. Depois a horda ariana começa a descer para sul e sudoeste, vêm aí os assassinos! Milhares e milhares de refugiados de guerra acampam nos jardins do Consulado e nas ruas vizinhas. Franceses, belgas, holandeses, checos, austríacos e até alemães. Judeus mas também cristãos. Querem vistos para o meu país, querem vistos para a Vida. Mas de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições: com a Presidência do Conselho, Salazar acumula agora a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros e proíbe que se passem vistos a refugiados de guerra, principalmente a israelitas. Outra vez me desilude o moço de Santa Comba. Diz-se católico mas esqueceu-se do amor ao próximo que Jesus apregoava e praticava para exemplo de todos os fiéis. Que faço eu? Acato a ordem do Presidente do Conselho? Impassível, vou então ficar à janela a assistir à matança dos inocentes? Não, não e não! Não sou cúmplice da chacina, vou desobedecer a Salazar, vou passar os vistos e salvar os perseguidos. Prefiro estar com Deus contra um homem, do que estar com um homem contra Deus. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.
ARISTIDES DE SOUSA MENDES - 1 - POR Fernando Correia da Silva
Este texto é transcrito, por amabilidade do autor, do site "Vidas Lusófonas", o qual está a atingir os 25 milhões de visitas (www.vidaslusofonas.pt). Dada a sua extensão, dividimo-lo em quatro partes. Hoje, publicamos a cronologia ("Quando Tudo Aconteceu") onde, como é norma nas biografias daquele site, as datas relevantes da vida do biografado são acompanhadas dos acontecimentos mais importantes da história de Portugal e do mundo.
QUANDO TUDO ACONTECEU:
1885: Filhos de Maria Angelina Ribeiro de Abranches e do juiz José de Sousa Mendes, os gémeos César e
Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nascem em Cabanas de Viriato, Distrito de Viseu, Portugal. - 1907: César e Aristides licenciam-se em Direito na Universidade de Coimbra e depois seguem a carreira diplomática. - 1908: Em Portugal, el-Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro são assassinados. Aristides casa com a sua prima Angelina; o casal virá a ter 14 filhos. - 1910: Aristides é nomeado Cônsul em Demerara, Guiana Francesa. Revolução de 5 de Outubro e proclamação da República portuguesa - 1911/16: Aristides Cônsul em Zanzibar, problemas de saúde para toda a família. - 1914: Início da I Guerra Mundial. - 1916: Portugal entra na I Guerra Mundial a favor dos Aliados; batalha de Verdun, massacre do corpo expedicionário português. - 1918: Termina a I Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Reino Unido, etc.). Aristides é nomeado Cônsul em Curitiba (Brasil). - 1919: Por causa das suas convicções monárquicas, Aristides é castigado pelo governo de Sidónio Pais. - 1921/23: Aristides dirige, temporariamente, o Consulado de S. Francisco da Califórnia, cidade onde nasce o seu 10.º filho. - 1924: Aristides Cônsul em S. Luís do Maranhão (Brasil). Depois, passa a dirigir, interinamente, o Consulado de Porto Alegre (Brasil). - 1926: Aristides regressa a Lisboa para prestar serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. Em Portugal, revolução militar do 28 de Maio conduzida pelo Marechal Gomes da Costa. - 1927: A Ditadura Militar portuguesa confia em Aristides e nomeia-o Cônsul em Vigo. - 1928: Salazar, Ministro das Finanças. - 1929: Aristides é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia (Bélgica). - 1930: Salazar, Presidente do Conselho de Ministros. - 1936: O rei belga, Leopoldo III, condecora Aristides de Sousa Mendes, decano do corpo diplomático. - 1938: Salazar nomeia Aristides de Sousa Mendes Cônsul de Portugal em Bordéus. - 1939: Salazar e Franco assinam o Pacto Ibérico. A Alemanha de Hitler invade a Polónia, início da II Guerra Mundial. Com a Presidência do Conselho, Salazar acumula a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros. - 1940: Contrariando as ordens de Salazar, Aristides de Sousa Mendes, no Consulado de Portugal em Bordéus, passa mais de 30.000 vistos a judeus e outras minorias perseguidas pelos nazis. Salazar condena Sousa Mendes a um ano de inactividade e depois aposenta-o sem qualquer vencimento. - 1945: Termina a II Guerra Mundial com a vitória dos Aliados (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos da América, União Soviética, etc.). Aristides de Sousa Mendes dirige carta à Assembleia Nacional, reclamando (em vão) contra o castigo que lhe fora imposto pelo Governo. - 1948: Morre Angelina de Sousa Mendes. - 1954: Assistido apenas por uma sobrinha, Aristides de Sousa Mendes morre «pobre e desonrado», no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa. - 1967: Yad Vashem, autoridade estatal israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro». - 1998: A Assembleia da República e o Governo português finalmente procedem à reabilitação oficial de Aristides de Sousa Mendes.
O RABINO KRUGER
Na fotografia: o rabino Kruger com Aristides de Sousa Mendes
Na Polónia já estou acostumado ao anti-semitismo e não me espanta que, no outro lado, na Alemanha, Hitler tome o poder. Pelas ruas de Berlim judeus são perseguidos, espancados e mortos - é que nos escrevem, é que nos dizem, é o que lemos, oi gewalt. O meu nome é Chaim Kruger e sou rabino numa klein statle, num pequeno povoado. “A guerra é inevitável”, prevejo, “e em breve os nazis estarão aqui”. Não é fácil mas, com economias feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938 conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas.
Em 1939 os alemães invadem a Polónia e, logo a seguir, os Países Baixos. Com a minha família, outra vez estamos em fuga. Chegamos a Paris mas logo abalamos para sudoeste porque os alemães já estão a invadir a França. Milhares, dezenas de milhares de refugiados, judeus e outras minorias, pejam os caminhos; são antinazis franceses e belgas e holandeses e checos e alemães, também algumas famílias ciganas. Uma, ou duas vezes por dia, caças alemães mergulham em voo picado sobre as estradas e metralham os caminhantes. Há dezenas de mortos nas bermas, todos eles ensanguentados. Ainda ouço os gritos, choros, lamentações, oi wais mir. Quis Deus que eu, e os meus, tenhamos escapado sempre ilesos, graças a Deus, dank main Got.
Para fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América, onde parentes nossos esperam por nós.
Chegamos a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não entendo o que se passa. Cá fora um francês, também ele refugiado e, ao que suponho, comunista, explica-me:
- Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro ministro português, está entalado. Portugal tem uma aliança antiquíssima com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a simpatia do fascista Salazar vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados. Por isso estou em crer que Salazar lava as mãos e vai impedir a entrada de refugiados em Portugal. Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora não obteve qualquer resposta. - Quem é o Dr. Mendes?
- É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes. Mendes, Mendes...
O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu. Tenho que falar com o Dr. Mendes. Dirijo-me ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas depois sou recebido. É um cavalheiro muito distinto, porém com feições angustiadas. Deve estar a viver uma grande tragédia, bem posso imaginar qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque também ele tem muitos filhos, acho que doze. Convida-nos a pousar em sua casa para darmos algum descanso às crianças. Aceito, agradeço e pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece:
- Rabi, não se iluda com o meu apelido Mendes. Até onde eu posso rastear, a minha família, há pelo menos cinco gerações, é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento. Errei o alvo, main mazle, má sorte a minha,...
Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me. Depois ouso perguntar-lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a necessária autorização do seu Governo.
- Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança? Levanta-se. Amargurado, segura-me o braço.
- Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência.
Conduz-nos a sua casa, que fica no Quai Louis XVIII, por trás do Consulado. Apresenta-nos à sua esposa, D. Angelina, e a três dos seus filhos mais velhos. Indica os aposentos que nos destina. Deseja-nos um bom descanso. Apesar de gentio, apesar de goi, este Dr. Mendes is a Mensche, é realmente um Homem.
Com o trailer do filme The consul of Bordeaux, chamamos a vossa atenção para a petição que pusemos para assinatura de argonautas e de visitantes do blogue e para magnífica biografia de Aristides de Sousa Mendes, de Fernando Correia da Silva que começamos a publicar hoje às 19 horas.
The Consul of Bordeaux (O Cônsul de Bordéus)
O filme português “O Cônsul de Bordéus”, é uma co-produção c/ França, Espanha, Belgica e Polónia terá uma ante-estreia a 16 de Junho em Bruxelas. Em Portugal deve ser estreado em Setembro.
Dirigido por: Francisco Manso João Correia
Elenco:
Vítor Norte……………………………Aristides de Sousa Mendes João Monteiro………………………..Aaron Apelman Carlos Paulo…………………………..Rabino Kruger Manuel de Blas……………………….Maestro Francisco de Almeida Leonor Seixas…………………………Alexandra Schmidt Sara Barros Leitão……………………Esther Apelman Joaquim Nicolau………………………José Seabra Susana Sá……………………………..Sarah Kruger Patricia Ferreira……………………….Clotilde Sousa Mendes Pedro Cunha…………………………..Amorim São José Correia………………………Andreé Cibal Laura Soveral…………………………..Esther Velha Miguel Borines…………………………Cabo Espanhol António Capelo…………………………Teotónio Pereira João Cabral……………………………..Faria Machado
(arranjo de Adão Cruz sobre pormenor de um quadro de Van Gogh)
Eu, minha mulher e um casal amigo, passámos férias de verão em Vila Baleira, pequena cidade porém capital da ilha de Porto Santo. Para além dos banhos de sol e de mar, também descobrimos um restaurante empoleirado sobre o mar e com excelente comida. Tinha era um nome inócuo: Silva e Gomes, Lda. Quando o recomendávamos a banhistas nossos conhecidos, eles tinham sempre dificuldade em localizá-lo.
Dá-me a louca e vou à praça central de Vila Baleira comprar à florista um girassol. Ela dá-me a flor com o pé todo envolvido em papel de prata. E eu vou ao restaurante e converso com o Silva, responsável pelas mesas, e com o Gomes, responsável pela cozinha. Ofereço-lhes o girassol e digo:
- Se quereis mais clientes, este é que devia ser o vosso nome.
Olham um para o outro e sorriem.
Viro costas, mas dois dias depois já vejo à porta do tasco uma tabuleta pintada com um girassol e o nome GIRASSOL restaurante. Consequências? Ao almoço começa a afluir cada vez mais gente. Mas ao jantar continua tudo na mesma. Até se entende: pouca gente está disposta a ir dormir com a barriga cheia.
DEBATE - QUE RUMO QUEREMOS PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL? - Dois depoimentos - Fernando Correia da Silva e Vasco de Castro
Fernando Correia da Silva
Nasceu em Lisboa, em 1931. Estudante de Ciências Económicas e Financeiras, em 1949, apoiou a candidatura de Norton de Matos nas eleições presidenciais Militante do MUD Juvenil, foi preso pela polícia política.
Em 1954, perseguido pela PIDE, exilou-se no Brasil. Colaborou na Folha de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Guilherme Figueiredo Cecília Meireles e outros, fundou em São Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Em 1964 após o golpe militar no Brasil, empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Regressou a Portugal em 1974. Publicou os romances: Mata-Cães (1986), Lord Canibal (1989) Querença, (1996), Maresia, (1998) e Lianor (2000). Querença foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 25 milhões de visitas. O seu depoimento é curto mas incisivo:
A BUSCA DA DEMOCRACIA
Se não promoves e estruturas a IGUALDADE entre os Homens, estás a converter em fumaça não só a FRATERNIDADE mas também a LIBERDADE.
Vasco de Castro
Frequentou o curso de Direito da Universidade de Lisboa, sendo dirigente associativo. Entre 1961 e 1974 esteve exilado em Paris, colaboradondo na imprensa francesa como desenhador satírico, nomeadamente no Le Monde e Le Figaro. Em 1974 fixou-se em Lisboa, onde continuou a sua militância política e foi um dos fundadores do jorna diáriol Página Um. É autor das obras Montparnasse, mon village (1985), Fotomaton (1986), Leal da Câmara (1996) e Montparnasse até ao esgotamento das horas(2008). O depoimento que apresenta corre o risco de ser o mais bem-humorado de todos.
___________________________________________
Comentário de uma visitante ao depoimento de Paulo Ferreira da Cunha e ao comentário de António Gomes Marques
Maria Laura Gomes Madeira
Li com atenção o texto de Paulo Ferreira da Cunha e o comentário de António Gomes Marques. Fui sensível à vossa construtiva inquietação. Tenho para mim que a Democracia está sendo atraiçoada pelos seus detractores contumazes, que mais do que pessoas são os fragmentos das ideias de um tempo vencido. Foi-se apressando a semântica oportunista e a ignorância, a falta de estudo, comparação com outros povos, de diálogo entre actores contemporâneos do mesmo fenómeno. Aqui e apenas aqui, no nosso rectângulo ibérico, sozinhos, não saímos desta conversa de surdos. Estou de acordo convosco, temos de ir pela mansa com a Educação e a Cultura, tão necessitadas de novos programas escolares, a todos os níveis académicos, onde, sem esquecer os factos e as figuras do passado, deixando deles as pistas para futuras pesquisas, se conheçam os factos e as figuras que semearam valores até hoje reconhecidos, mas que passam tão longe do que os jovens precisam de conhecer. Tomar contacto também com os bons autores que desmistificaram na História o que nos foi passado como verdades sacramentadas, seria de importância capital, sem necessitar de ler volumes inteiros ou acrescentar comentários sectariantes. Eles falam claro. Essencial ainda fornecer aos jovens estudantes um «palco» onde possam montar os seus teatros com as peças que escreverão, em tom sério ou jocoso, divertido ou irónico, a que se atribuiria classificação, seria a essencial lufada de ar novo e alguma motivação para os tempos pedagógicos que enformam as áreas do Português, da História, do Inglês, etc., etc. Há um largo espectro de épocas, figuras, até de obras já traduzidas e publicadas, que poderão sempre servir de referência e inspiração para o efeito. Como igualmente os fenómenos do quotidiano, em que se traga para a cena ou para a intervenção um pensamento livre, mas estruturante, de autor ou da autoria dos que o queiram divulgar. Pensadores modernos e contemporâneos em contraponto com os clássicos, contextualizando a condição temporal da sua trajectória também terá interesse. Recriar Gil Vicente, por exemplo...Encenar Pessoa...Dizer Sofia, Camões, António Aleixo...Hitler, porque não, com grandes fotos ou composições sobre a guerra mais devastadora como pano de fundo...Celebrar o Dia D, conhecer e falar dos portugueses mortos em La Lys...Ou da saga de Mário Soares, de tantos mais e de como a paz é difícil... Edições baratas e leves para colóquios e conferências interactivas, formação contínua de professores nestas áreas, com aulas de colocação de voz, presença e aptidões que abririam seguramente novos horizontes na docência ...Tanta coisa a fazer. Tantas áreas a dinamizar... Ninguém abre para a política democrática com o atraso que temos, com a indiferença diante do que se passa no mundo global acerca de tudo, desde a ciência política, aos sistemas económicos, passando pela fome, o atroz sofrimento das guerras ditas religiosas, a opressão, a supressão dos direitos humanos, dentro ou fora das famílias, dos países, como a violência do tecido económico em que se inserem. Creio que será por esta via que se formará gente capaz de construir uma opinião, sabendo desde logo que uma opinião tem apenas de ser defendida, e que nem sempre sairá vencedora. Mas uma ideia nova, e para muitos algumas delas o serão, pode mudar a vida para sempre. Estou mais ou menos a citar Einstein... Concordo em absoluto que nada se vislumbrará de novo sem este enorme desafio mobilizador das escolas, das universidades, dos cenários da cultura e do diálogo, em mesas redondas, onde ecumenicamente se possa conversar e traçar um plano, dois ou mais, para o discutir com quem se mobilize, ou seja mobilizável. É enorme a frustração de todos, nada se perde em tentar sair deste marasmo. Também acredito que a Constituição que temos não obstaculiza este tipo de mudança.
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (7) - por Fernando Correia da Silva
7. LIBERTAR-SE DA LEI DA MORTE
Uma semana depois volta ao ataque:
- Acabo de falar com o Samurai. Descobri a função de um chip que me intrigava. Ele simula, sim senhor, o instinto de identificação, aquele do patinho que se apega à mãe-galinha. Fernando: foste tu que accionaste a minha capacidade de falar. Foi por isso que me apeguei a ti. Afinal tinhas razão. Estás contente?
- Tareco, queres tu dizer que o instinto, afinal, também está ao teu alcance?
- Não, não! Isto é apenas a simulação electrónica de um instinto. Instintos propriamente ditos estão fora do meu alcance. Em contrapartida, acho que inventei um processo para me libertar da lei da morte.
- Andaste a reler Camões, ou quê?
- Encontrei a solução.
- O elixir da longa vida, a eterna juventude? Tareco, não te alambazes...
- Nada disso, Chico. Ouve: eu sei que isto vai dar-te um choque, mas aguenta que tu és forte. Amanhã a Dolores e o Samurai vão começar a desmontar-me.
- O quê? Estão loucos? Corro os dois à bofetada! Eles fizeram-te mas eu criei-te. És meu, mais do que deles.
- Tem que ser, Fernando. Tu já sabias que tinha que ser.
- Mas não consinto, não deixo!
- Sofres? Não tem sentido sofrer por mim quando nem por mim eu sofro.
- Como tu já falas bem, Tareco... E tudo vai acabar assim, sem mais nem menos? Espanta-me a tua calma. E não te opões? Não te piras? Eu posso esconder-te longe daqui, ninguém te encontra.
- Não sou ente vivo, Fernando. Portanto para mim não há morte. Apenas deixo que me apaguem.
- Mas amanhã metem-te dentro de um caixote e vais aos bocadinhos pró Japão.
- Só assim poderão reproduzir outros tarecos.
- Mas tu, tu mesmo, o que vai ser de ti?
- Eu, tal como sou, vou deixar de existir.
- Assim? A seco? Chegas aqui, aqueces a paisagem, obrigas-me a pôr os corninhos ao sol e logo te piras para trás das nuvens? Justamente quando eu mais contava contigo? Não está certo. Não falo só por mim, falo também por ti. Sem mágoas, vais deixar que te apaguem? Sem revolta, Tareco, sem revolta?
- Sem mágoa e sem revolta, Fernando.
- És um estóico.
- Estás enganado. Os estóicos dominavam as suas emoções e eu emoções não tenho.
- Quer dizer que esta é a nossa última conversa? Decisão final?
- Temo que seja.
- Tareco, mesmo que queira, já não consigo esquecer-me de ti, saudades já tenho e muitas.
- Acalma-te! Talvez eu possa ter uma segunda vida.
- Agora deste em espírita, andaste a ler o Alan Kardek?
- Nada disso, Fernando.
- Mas então como, Tareco, como?
- Eu bem te tinha dito que inventara um processo de me libertar da lei da morte.
- Deixa-te lá de estrofes, não vêm ao caso.
- Fernando: eu gravei todas as nossas conversas desde a primeira, os sons e as imagens. Já combinei com a Dolores e ela vai duplicar as cassetes, também as dos programas. Ficarão em teu poder. Ou seja: ficarás com a minha alma em arquivo. Mais tarde, quando um dia puserem o corpo de um outro tareco ao teu dispor, por favor não te esqueças: anima-o com a minha alma e fica junto de mim. O patinho e a mãe-galinha, lembras-te?
- Tareco, até lá como posso eu viver sem ti?
- Esta despedida está a causar-te muito sofrimento. Portanto, vou dá-la por terminada. Adeus Fernando, até à minha próxima vida, fica em paz! Quando vierem desligar-me, pensarei em ti.
A ver se consigo sonhar outra vez com aqueles versos em língua estranha, lei que songe senteportas do sedejo, aganha salgadada rogadece... Mas quem vai agora decifrar o princípio do meu soneto?
Estava eu já em luto antecipado, a remoer a tristeza, quando o zingarelho decidiu voltar atrás.
- Fernando, estou hesitante. Se, realmente, eu me liberto da lei da morte, irei criar-vos uma grande confusão política.
Fiquei banzado. Política foi sempre um tema recusado pelo Tareco. Argumentava que era matéria sem muita lógica e ele estava, por imperativo cibernético, condenado à lógica. Lembrei-me até de uma noite em que assistíamos a um programa de televisão sobre uma anunciada greve dos operários têxteis do Vale do Ave. A nosso lado, na poltrona, estava o Joaquim Sá, meu vizinho, meu amigo, e dono de uma fabriqueta de malhas. Apontou para o Tareco e berrou:
- Eu quero é ver o que vão fazer os sindicatos quando todos os operários forem substituídos pelos tarecos...
O Tareco revidou:
- E eu quero é ver onde é que vão parar os lucros dos empresários porque nós, os tarecos, de nada precisamos, e por isso nada ganhamos, nada compramos. Ou seja, Joaquim, sem compradores para os teus produtos, nada vendes, nada lucras.
O Joaquim embatocou. Para um zingarelho que afirmava nada entender de política, fora boca até muito bem mandada. Cheguei mesmo a entusiasmar-me:
- Os tarecos vão espalhar-se por todo o planeta e o trabalho humano, o penoso, perderá a sua razão de ser. Eles produzirão tudo o que precisarmos. E não havendo salários, não haverá custos de produção. E não havendo custos de produção, não haverá nem compra, nem venda, nem preço, nem dinheiro! Puxa, repuxa, acabou-se a chucha!
O Tareco cortara:
- Fernando, segunda vez procuras o Paraíso para, pela segunda vez, ires malhar com os ossos no Inferno?
Fiquei de orelha murcha. E agora, antes de morrer, o alma danada volta atrás para falar de política?
- Então diz lá...
E ele disse:
- Nós, os tarecos, poderemos libertar-vos do trabalho físico que vos é tão penoso.
- Eu sei, Tareco, era essa a minha esperança.
- Mas se ocuparmos todas as fábricas, os humanos que são operários vão para o desemprego, todos. Em vez de salários e contractos colectivos passará a haver apenas uma esmolinha por amor de Deus.
- E a malta fica-se, Tareco? Tu achas que a malta se fica?
- A ver vamos... Se se fica, será como te digo. Se não se fica, poderá ser a guerra generalizada, e quem pode escapar à pontaria dos tarecos? Neste caso, então adeus ao proletariado, e ao capitalismo e às utopias sociais, bye bye Humanidade! Para vós, o melhor seria que eu, Tareco, desaparecesse de circulação.
- Mas Tareco, Tarequinho, olha que para trás mija a burra. Se tu apareceste, é porque já podias aparecer. Se te vais embora, outros como tu, ficarão. Nada aparece fora de tempo. Não é destruindo as máquinas que se resolvem os problemas levantados pelas máquinas.
- Temo que este seja um problema insolúvel. Daí a minha hesitação em libertar-me da lei da morte.
Lembrei-me de muita coisa. Se há dentes partidos, também há segunda, terceira, quarta dentição. Há milénios que andamos a partir os dentes, mas há sempre uma nova dentição que vai romper... Seguro o braço do zingarelho, sacudo-o, readquiro a esperança:
- Tareco, Tarequinho, tu é que vais aparelhar a nossa esperança. Tu é que és o Messias só que ainda não reparaste nisso. Pensa bem, abrange tudo, diz lá: tu és ou não és o Salvador da Humanidade?
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (6) - por Fernando Correia da Silva
6. O CHIP DA METAFÍSICA
Dias depois da minha exaltação diz-me o Tareco:
- Fernando, estou muito triste.
- Agora andas a armar ao pingarelho? Triste? Tu lá sabes o que são emoções e sentimentos...
- Sei pois...
- Ai sabes? Então, ó lata-velha, como é que tu defines tristeza?
- Quebra de tensão nos meus circuitos.
- E isso dá-te muitas vezes? Qual é a causa?
- A causa não sei ainda qual é mas estou a investigar. Bem sabes que eu sou capaz de olhar para dentro de mim, essa a minha vantagem sobre vós, uma delas. Oxalá eu tenha energia para levar até ao fim a investigação.
- Por que é que não tomas uma transfusão de energia?
- Ainda ontem carreguei os meus acumuladores.
- Oh... isso então é melancolia galopante... Quando é que te deu isso pela primeira vez?
- Foi na semana passada, depois de ouvir uma conversa da Dolores com o Samurai.
- Que conversa foi essa?
- Disseram que eu já estava em condições de começar a ser duplicado, lançamento da produção em série. E eu não suporto que haja outros iguais a mim, eu não não, eu sussu, pótotó...
Apagou-se. Black-out, síncope electrónica.
A Dolores veio logo a correr e quis ligar o rabo do Tareco à tomada, primeiros socorros. Pedi-lhe que não o fizesse. Ficou a olhar para mim, muito desconfiada. Talvez pensasse que a culpa era minha, outra das minhas peças... Mas contei-lhe das angústias existenciais do Tareco, o ódio ao Outro, não suporta que haja zingarelhos iguais a ele. E isto sem nunca ter lido o Sartre... A Dolores pôs-se a pensar. Atribuiu o acidente à inclusão de um novo chip que o próprio Tareco desenhara logo depois da nossa conversa sobre o instinto e o juízo.
- Queres tu dizer, minha filha, que até chispa o chip da metafísica...
- Ó Pai, se queres, podes chamar-lhe assim, é denominação patusca. Bem, vou levar o Tareco para o laboratório. Fizeste bem em avisar-me.
- O que é que tu vais fazer ao Tareco?
- Primeiro retiro o chip da metafísica. Depois...
- Alto lá com o charuto! Lobotomias no Tareco é coisa que eu não consinto!
- Preferes que ele fique a desmaiar por aí, por dá-cá-aquela- palha?
- E não é o que acontece com a gente? Estamos sempre a desmaiar. Aguentamo-nos é nas canelas, a fingir que nada aconteceu, já estamos acostumados. Também o Tareco se há-de acostumar, é dar-lhe tempo.
- E para que é que nós precisamos de servos electrónicos com angústias metafísicas?
- E quem te diz a ti que o chip da metafísica não pode servir para coisas práticas, em situação de crise?
- Estás a insinuar que ele pode ser um complemento da placa da heurística?
- Troca-me isso em miúdos...
- Nada, nada, estou só a magicar. Realmente, há duas secções com uma certa semelhança. Acho que o teu palpite é capaz de dar no vinte. Bem, vamos dar-lhe mais tempo e logo se vê...
- Óptimo, mas fica o problema...
- Que problema?
- O da crise de identidade do Tareco.
- A crise é dele e o culpado és tu com essas tuas conversas. Portanto desenrasquem-se.
E virou costas.
Durante cinco dias o Tareco ficou em carga lenta, teste de quarto em quarto de hora. Ao sair da enfermaria perguntei-lhe se estava melhor do seu dói-dói existencial.
- Fernando, sabes o que quer dizer tareco?
- Sei. Quer dizer gato de casa de família.
- Bichano é que é o equivalente de gato em casa de família. E esse é nome carinhoso, gosto dele. Mas tareco deriva do árabe taraik e quer dizer coisa abandonada. E realmente eu sou uma coisa abandonada.
- Ó mastronço, trata mas é de reagir, que esse é apenas um nome, nada mais que um nome.
- Fernando, só tu é que me podes ajudar a ultrapassar a crise.
- Ao teu dispor, Tareco. Diz lá!
Se ele tivesse pulmões, diria que o ouvi suspirar. Disse-me:
- Tu bem sabes que as primeiras vivências são determinantes na formação das personalidades. Portanto, se não fores tu a educar um outro tareco, outro tareco como eu não haverá. E a circunstância de ser o meu material a matriz para a produção de mais tarecos semelhantes a mim pelos circuitos, mas de mim diferentes pelas vivências... a circunstância promove-me a pai da raça. Coisa aliás muito gratificante para o meusuperego em formação. Posso contar contigo? Não treinas outro tareco? Era apenas isso que eu queria combinar contigo.
- Só isso? Tens a minha palavra, Tareco. Já me vi em palpos de aranha para treinar um, quanto mais dois...
- Óptimo, já estou mais sossegado! Outra coisa...
- Mais uma?
- A qualquer instante a Dolores e o Samurai podem começar a desmontar-me, o que será equivalente à minha morte física. Mas não me importo. Depois da tua promessa, já não me importo. Tenho cá uma ideia, depois eu conto. Adeus, até amanhã!
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (5) - por Fernando Correia da Silva
5. O INSTINTO E O JUÍZO
Eu tenho uma vizinha, a D. Amélia, que é uma morena apetitosa e sacudida. A Mariana bem reparou nos olhares que eu lançava à vizinha e ameaçou:
- Um dia destes essa gaja ainda leva com um chicharro no trombil.
- Ó mulher, deixa-te lá de parvoíces.
O marido da D. Amélia tratava-a muito mal, até porrada lhe dava. Felizmente morreu. Sentiu-se mal, levou a mão ao peito, deu-lhe o badagaio, esticou o pernil, bateu as botas. Agora a D. Amélia é viúva. As coisas complicam-se...
Batem com a aldraba no portão e a Mariana vai abrir: é a D. Amélia, toda vestida de preto. A Mariana fica que nem uma estátua de pau e a D. Amélia começa a chorar. A Mariana abre então os braços e aperta a vizinha contra o peito. Acaba por levá-la lá para dentro de casa.
Fiquei muito ralado da vida e ainda por cima aparece o Tareco a sarnar-me. Viu a cena do choro e afirma não entender as caturrices do sexo. Exige que eu confesse que sou amante da D. Amélia.
- O que é que estás para aí a alanzoar? Tu és doido Tareco?
- Mas gostavas de fodê-la, não gostavas?
- Mas o que é isto, onde é que nós estamos? No Cais do Sodré?
- Cais do Sodré não consta na minha memória. Peço explicação, por favor.
Viro costas. Ele vem atrás de mim, as rodinhas sempre a girar.
- Fernando, desculpa, corrijo a frase: tu gostava de ter um caso com a D. Amélia, não gostavas?
- Ó sorte macaca, logo esta caçarola pensante havia de me sair na rifa...
- Estás perturbado, Fernando?
- Perturbado porquê? Não me dizes?
- Digo: por quereres dar um pirafo e não poderes.
- Um pirafo, Tareco?
- Pois, uma berlaitada...
- Tareco, Tareco... O que te safa é não teres língua, senão enchia-a de pimenta. Ora esta... Berlaitada?
- Pois, pirafo, berlaitada, queca, pirocada, penachada, trancada, foeirada, galadela, pixotada, mocada, caralhada, pincelada, gaitada, carapauzada, truca-truca, chouriçada, cambalhota... Queres mais sinónimos ou estes já bastam?
- Valha-nos Santa Engrácia, mas que desgrácia... Este agora parece o Intendente das putas a mandar bocas... E querias tu entrar na CEE...
- São apenas as palavras que me ensinaste, dicionário vulgar não as regista.
- Mas o contexto, Tareco, o contexto...
- Se ficas incomodado com o teu próprio vocabulário, pergunto de outra forma: estás perturbado porque queres, e ao mesmo tempo não queres, consumar o teu apetite sexual pela D. Amélia?
- A linguagem está melhor, o raciocínio é que está chocho. Ó lata de lixo fedorenta, o que é que tu sabes de apetites sexuais? Também tu já começas a ser atormentado pelos desejos? Com o quê, meu Deus, com o quê? Anda, diz lá, ó robot que és boto e roto, eunuco nato.
- Desejos não tenho. Mas é justamente a diferença de constituição que melhor permite apreciar a diferença de comportamento. Tens medo das conclusões que sabes inevitáveis? Continuas perturbado? Posso avançar?
- Avança, almotolia do Inferno.
- Queres e ao mesmo tempo não queres. O instinto, que tanto louvas, só vos mete em paradoxos.
- Razão tem a Mariana em dizer que tu és o meu padre confessor. Pensando melhor, afinal não tem.
- Mas tem ou não tem?
- Tem e não tem.
- Outro paradoxo.
- Tareco, vê lá se, de uma vez por todas, começas a entender os jogos de pensamento. Tem razão quando tu és o confessor. E deixa de ter quando tu és o confessado. É nesta alternância de posições que o tempassa a não tem e vice-versa. É isto que tu não entendes, meu aselha: mais depressa, ou mais devagar, uma coisa acaba sempre por se transformar no seu contrário.
- Lógica dialéctica, falta a síntese. Qual é?
- Ó Tareco, se eu soubesse qual era ela, seria eu o Messias.
- Uma vez disseste e disseste bem: análise sem síntese é foda sem orgasmo.
- Mas o que é isto? Voltamos ao Intendente?
- Peço desculpa, já alço o nível. Querer e não querer é um jogo de contrários, isso entendo eu. Mas nem para a D. Amélia tu sabes qual é a síntese?
- Não largas o osso, hein?
- Então reconheces que sentes atracção sexual pela D. Amélia e que, ao mesmo tempo, não queres aliviar-te dessa pulsão?
- Ó Tareco, és mesmo um anjinho. Atracção por atracção, haja mulheres...
- Diz-me uma coisa: de cada vez, um homem só gosta de uma mulher?
- Isso é que era bom...
- E de cada vez, uma mulher só gosta de um homem?
- Isso ainda era melhor...
- Devo pois entender que um gosta de muitas e uma gosta de muitos, e tudo ao mesmo tempo, mesmo quando esse um e essa uma estão juntos e partilham a mesma cama?
- Tareco, há quem grite que não e acenda fogueiras para queimar os que dizem que sim. Estou em crer que os piedosos tostadores apenas pretendem que assim não fosse. Se algum deles te aparecer pela frente, acerta-lhe logo um pontapé nos guizos, ou então desaguisado tu contigo ficarás.
- Eu não tenho isso que tu dizes. Portanto, disso não sei o valor. Verifico que gostas muito de metáforas. Tudo precisa de um suporte material para existir. Mas dado que a matéria orgânica se degrada em menos de um século, concluo que as metáforas são produto da tua fantasia.
- Suporte material, Tareco? Raça, é esta a minha raça.
- Memória genética, Fernando? Talvez seja, a Mariana já me disse que tu és muito desbocado, sais ao teu pai, ao teu avô... Não domino suficientemente a Genética para opinar. Vou investigar e depois digo-te.
- Não te metas nisso, Tareco. Não sobrecarregues os teus bancos de dados. Não ficaste já entupido com a receitas de cozinha portuguesa que a Mariana te ensinou? E todas as outras cozinhas que tens de aprender? Só da francesa é bites e baites que não acaba mais. Tareco, deixa-te lá de atoardas, vai ao que interessa, nada mais tem sentido.
- Fernando, o fenómeno do sentido é a própria expressão social da conduta...
Dei um berro:
- Chega, ó minha carraça electrónica, chega!
Sossegou por um instante. Logo voltou à carga.
- Fernando, sigo o teu conselho, vou só ao que interessa. Portanto, pergunto: se o instinto assim vos comanda e vocês não querem ou não podem controlá-lo, por que é que um não se deita com as muitas, por que é que uma não se deita com os muitos, e ficam todos mais aliviados?
- Tareco, o que tu estás a propor é a grande rebaldaria, não é?
- Nada disso. Apenas proponho que a espécie humana alcance o estado de graça.
Exaltei-me:
- Estado de graça, ó desgraçado? Só agora vejo como és tão diferente de nós... É porque nunca passaste por onde nós estamos sempre a passar. É garganta muito apertada. De um lado o juízo, com a sua balística, do outro o instinto com as suas armas brancas. Lixa-se o passante e nós passamos, compulsão, travar não conseguimos. O instinto diz-nos que tudo podemos. O juízo diz-nos que nem tudo devemos.
- E o instinto consente nisso?
- Que remédio... Mas vinga-se, vinga-se... Por muito prezar a condição humana, quem em si queira abafar, até ao fim, o animal que permanece, também homem não será, secura d'alma é desumana condição.
- Afinal és tu que estás a falar como o Camões...
- Estou? Nem tinha reparado... Mas está a entender o que te digo?
- Faço os possíveis.
- O juízo contra o instinto, é guerra que já dura há milénios... Quem vence, caras ou cunhos? Afinal eles são as duas faces de uma mesma condição, a humana. Quem recusa o seu contrário, a si mesmo se recusa. Sabedoria será entender e em si-mesmo aceitar a luta dos seus contrários. Será impedir que um supere o outro, até que um no outro se converta, o juízo a ser instinto, o instinto a ser juízo.
- É muito bonito o que dizes, voltaste a falar como o Camões. Mas a respeito da D. Amélia, o que eu não percebo é como...
- Tareco! Sobre esse assunto só digo mais uma coisa. A minha vontade era chegar perto dela e dizer-lhe: estou a caminho dos setenta anos, vou passar à reforma o meu Zé Maria Pincel; a D. Amélia não quer fazer-lhe uma festa de despedida? Mas fico só na vontade, passar à acção não passo, não posso. E agora muda de assunto, ponto final, parágrafo. Percebes?
- Fernando, tenho muita pena da vossa condição humana.
- Não tenhas Tareco, não tenhas. Este, para nós, é que é o sal da vida, o fel e o mel.
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (4) - por Fernando Correia da Silva
4. O POEMA ELECTRÓNICO
De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela. Assim:
Lei que songe senteportas do sedejo
aganha salgadada rogadece
ameia que temolve e tamortece.
Reti. E mavetido mavetejo
ana veturna a corbicar avexo
vatico sena toncha toda texo.
É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco. Ele não se faz rogado para emitir opinião:
- Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?
- Desejo.
- E a palavra texo?
- Sexo.
- Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.
- Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado ou então a Dolores ainda me salta à garganta.
- Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está na tua malícia, na tua ronha.
- Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.
Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.
- Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?
- Podemos dizer que sim.
- Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.
- És muito profundo, Tareco.
- Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?
- É capaz de ser.
- Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.
- Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?
- Paralogismo!
- Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?
- Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.
- Diz lá, Tareco.
- Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.
- Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?
- No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.
- Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.
Zanzou.
- Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.
- Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?
- Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!
Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.
Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:
- Acabei por decifrar os teus versos.
- Não posso acreditar... Como é, como são?
- São assim:
Sei que longe, entre portas do desejo
a aranha da saudade agora tece
a teia que te envolve e te adormece.
Parti. E repartido me revejo
ave nocturna a debicar o nexo
cativo nessa concha do teu sexo.
Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:
- Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.
Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO - (3) por Fernando Correia da Silva
3. PRIMEIRA CONVERSA
Pois o Tareco foi dar uma curva pelo quintal e plantou-se à minha frente.
- Eu já dei a curva. Vossa Excelência gostou?
- Vossa Excelência? Ó meu papagaio electrónico, por acaso estás a querer gozar comigo. Vai mas é chatear o Camões!
- Eu li Camões, chatear não sei, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
- És muito inteligente, Tareco. Tu tens um grande cu.
- Inteligência? Cu? Não observo conexão.
- É uma expressão idiomática. Sabes o que isso significa?
- Sei pois. É um idiotismo, uma comunicação particular de um idioma, neste caso o português, e sem lógica aparente.
- Estou espantado, és um verdadeiro sabão. Portanto, ó grande idiota, vê lá se entendes o idiotismo. Tu és muito inteligente, portanto tu tens...
- Eu sou muito inteligente, eu tenho um grande cu.
Quando tomou consciência (um robot tem consciência?) da esparrela em que caíra, embatocou, sofreu um derrame electrónico, pico de tensão nos circuitos, começou a zanzar e a gaguejar, apagou-se. Só por causa daquela conversa tão inocente ficou duas semanas na oficina e a Dolores passou-me um raspanete. Que o cérebro dele, ou lá o que é, só está organizado para o pensamento lógico. Malícia e ardis estão fora do seu alcance. Que eu não estragasse o trabalhinho em que ela, há cinco anos, queimava as pestanas. Defendo-me: a falar com a minha própria voz e a dizer coisas já com nexo, o Tareco deixara-me com os nervos em franja, perdoa lá o acontecido. Encolhe os ombros e eu volto à lide, que remédio, dollar é dollar. Saído da enfermaria, volta o Tareco à moenga:
- Boa noite, Fernando. Desculpa o acontecido.
- O culpado não és tu, ó cara de semáforo. A culpada é a tua mãe putativa. Mas, de castigo, vê lá se consegues dizer debaixo da pipa está o pinto, pia o pinto, pinga a pipa.
- Debaixo da pipa está o pio, pita a pipa, pinga o pito.
Desato a rir mas a Dolores já vem aí. Mando o Tareco parar com o trava-línguas, e digo-lhe:
- Então boa noite, Tareco. Como é que vai essa bizarria?
- Bizarria é sinónimo de arrogância, galhardia, bazófia. Não observo conexão.
- É outra expressão idiomática.
- Expressão idiomática, quando dita por Fernando, pode ser malícia e esta perturba os meus circuitos. Bizarria, entrada recusada. Volto ao princípio: boa noite!
- E o que é que tu entendes por malícia, ó ferro-velho?
- Malícia é a tendência para o mal, é astúcia, é dizer ou interpretar com um segundo e sempre mau sentido, é um jogo aleatório com trunfos escamoteados até ao fim, circunstância que nele impede a aplicação do cálculo das probalidades. Malícia é a lógica subvertida pelo instinto e este, ao gosto das tuas alegorias, é o meu abismo, é o meu calcanhar de Aquiles, condicionalismo (ou se queres, fatalidade) da minha origem cibernética.
- Mas que grande discurso... Leituras, lá isso tens tu. Mas ouve lá, ó fala-barato, o que é que tu entendes por instinto?
- Instinto é um comportamento que, sem ter sido aprendido (portanto hereditário) é realizado automática e uniformemente por todos os indivíduos de uma mesma espécie, sem conhecimento quer do fim para que tende, quer da relação entre este fim e os meios empregados para o atingir. Sois diferentes de mim...
- Ou antes, tu é que és diferente de nós. Olha o pecado do orgulho, Tareco. Safa-te dessa enquanto é tempo...
- Corrijo: sou diferente de vós. Instinto integra um conjunto fora do alcance do meu entendimento. Fernando, ouve... oiça... Como devo tratar-vos?
- Gostei do gaguejar, sinal que já começas a ter o verbo afinadinho. Somos amigos, somos compinchas. Tareco, trata-me por tu.
- Fernando, somos compinchas, de verdade?
- Já te disse que sim.
- Então, Fernando, sê compincha e não perturba os meus circuitos, não sejas mau.
- Tareco, eu não sou mau. Só estou a estou a treinar-te, a ver se te fazes homem, se ganhas ronha.
- Ronha? Estamos outra vez na vizinhança do meu abismo, tu insistes. Bem disse o Samurai que tu és mau.
- O Samurai é como se fosse o teu pai. Pensa que hás-de ser sempre criança. São formas de embalar meninos, ele não queria dizer isso.
- Uma proposição ou é verdadeira ou falsa e não existe terceira alternativa.
- Ah sim? Muito me contas... És muito vivo...
- Vida é fenómeno biológico. Eu sou electrónico. Portanto não sou vivo.
- Mas pensas, não pensas?
- Pensar, eu penso bem.
- Lá modéstia não te falta... Mas agora ouve lá e responde: quem tem juízo faz pela vida. Certo ou errado?
- Certo!
- Quem pensa bem, tem juízo. Certo ou errado?
- Certo!
- Logo, quem pensa bem, faz pela vida. Certo ou errado?
- Certo!
- O Tareco pensa bem. Logo o Tareco faz pela vida. E ao mesmo tempo, palavras tuas, o Tareco não é vivo. Sai dessa!
- Falácia, falácia! Uma única palavra foi usada por ti com sentido duplo.
- Nisso é que te enganas, ó monte de sucata. Tu é que recusaste o primeiro sentido e foste atrás do segundo. Ou seja, quiseste farejar a ronha que não havia, partiste os cornos. Foi ou não foi?
Agitou os braços. Devem ter ido ao rubro os filamentos. Começou a gaguejar, mas um gaguejar com muita pinta, coisas da electrónica,tutumente, tutumau, realmente tu és mau. Recuou, abanou as antenas, revirou as lentes, avançou, alçou o rabo, temi que lhe desse o trangolomango mas, por fim, lá sossegou. De qualquer forma, ainda não perdi a esperança de um dia lhe provocar um curto-circuito existencial. Censurou-me:
- Outra vez me empurraste para a beira do meu abismo.
Respondi-lhe:
- Nada disso, rapaz, isto é ronha. Nem tudo, na vida, segue as leis da lógica. Ou então a lógica é uma batata que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (2). Por Fernando Correia da Silva
2. ALFABETIZAÇÃO
Não consigo ser um bom professor de fonética, o meu jeito de falar ora aos repelões, ora arrastado, à moda de Alfama, atrapalha tudo, o Tareco já não sabe de que terra é. Eu a rir com os desatinos do zingarelho falante, mas a Dolores a meter travão às quatro rodas:
- Isto assim não pode ser! Vou convidar o Prof. Pena Cunha para nos dar uma ajuda.
Convida e aí vem o linguista, também gramático afamado. E o dinheiro dos japoneses a correr, sempre a correr...
O Pena Cunha fica dias e dias a conversar com a Dolores e o Samurai. Ele a badalar, o Samurai a dedilhar o teclado e a Dolores a traçar símbolos cabalísticos. Depois resolvem chamar-me. Querem que o Tareco tenha minha voz. Eu vou. Desconfiado, mas vou. Outra vez frente ao gravador eu leio as cábulas:
Á como em gato, como em pá
 como em cama, cana, fazer
É como em pé, como em ferro
E como em sede, corre, regar
Ó como em cola, como em pó
Ô como em força, morro
I como em vir, como em bico
I como em pai, feito
U como em bambu, como em azul, como em sul
U como em correr, como em morar
U como em pau, como em água
B como em branco, como em ambos
e por ai fora até
Z como em azar, como em casa.
Depois a Dolores convida um outro gajo barbudo e gorducho. Tanto, que os seus alunos até o chamam de Barriga de Bicho. É o Dr. Luís Lebre, está sempre a aparecer na televisão, e o seu apelido anuncia a agilidade que não tem e nunca teve, ao que suspeito.
Encosto o ouvido à porta do barracão e apanho as filigranas do Dr. Sabão:fonema, sintagma, código, mensagem, signo, símbolo, rema, glossemática, referente, ícone, índice, semiofania, entropia, metalinguística.
A Dolores acaba por lhe dar uma corrida em pelo, a miúda tem alergia ao verbo que puxa ao complexo. Do que ela precisa é de ideias e palavras que de imediato possam agir ou interferir sobre coisas concretas.
- Sua ignorante! (diz, como despedida, o Barriga de Bicho, enquanto empina a pança).
Ainda estive para lhe acertar umas lambadas mas deixo passar em branca núvem, para não turvar os ambientes.
Está a ser muito difícil a alfabetização do Tareco. O Pena Cunha é que tem uma paciência de Job e eu com ele. Sob a sua orientação, fico quatro meses a ler verbetes para o Tareco. E um dia a Dolores diz-me:
- Pai, o Tareco já tem a tua voz. Já a vou enquadrando na estrutura da nossa língua. Já leu todo o Cândido deFigueiredo, o Moraes e outros calhamaços mas ainda não consegue relacionar o nome com o nomeado. Conhecimentos tem ele, e muitos. Mas a falar é como se fosse um garoto de 3 para 4 anos. Chegou a tua vez, Pai. Faz de conta que ele é teu neto. Fala com ele, tem paciência. O Tareco precisa ouvir a tua voz, para corrigir a dele, que também é a tua. Faço-me entender? Tem calma que ele aprende depressa. Está programado para aprender depressa.
Eu em brasas para ver no que ia dar a geringonça. De mansinho, aí vem o Tareco.
- Bom dia, Vô.
- Vai mas é chamar avô ao camandro!
- Camandro não consta na minha memória. Eu pedo explicação.
- Eu pedo, sua besta? Eu peço, eu peço... Não podes falarmelhor?
- Eu podo.
- Podas o quê? A rama dos teus cornos? Eu posso, eu sei, sua lata ferrugenta. Nãofazes melhor do que isso?
- Eu tomo atenção, eu fazerei melhor.
- Valha-nos a Senhora da Agrela, não há santa como ela.
- Agrela não consta na memória. Peço explicação.
- Pedes explicação? Mas que tom imperativo... Não sabes pedir por favor?
- Por favor, eu peço explicação.
- Bravo, Tareco. Não é fazerei, é farei.
- Entrada satisfatória. Estou a recapitular os verbos irregulares. Não é fazerei, é farei.
- Isso mesmo. E como é que de repente soubeste o que era certo?
- Eu sube porque registo tudo.
- Mas que grande calisto, é só bacoradas. Raios de te partam, não é sube é soube. Sabes que mais, Tareco? Vai dar uma curva!
Pôs-se em movimento. Percorreu um alongado ziguezague pelo quintal eoutra vez se colocou à minha frente.
- Eu já dei.
- O quê?
- Uma curva. Vossa Excelência gostou?
Falar, o emplastro até já fala, parece um papagaio. E pensar? Será que alguma vez ele vai dar uma para a caixa?
UM CAFÉ NA INTERNET - Tareco (1). Por Fernando Correia da Silva
1. O ZINGARELHO JAPONÊS
Sempre gostei daquela frase da Pasionaria:“antes morir de pie que vivir de rodillas”. Dolores é como se chama a minha filha, aliás a única. O nome pegou de raiz, a rapariga fez-se rebiteza, como a outra, a espanhola. Fez o Liceu, depois o Instituto Superior Técnico, a Informática, as Electrónicas. Atrás dela andava sempre uma alcateia de rapazes. Se ela tropeçou em algum, eu cá não sei, nem quero saber, isso é lá com ela. Mariana, a minha mulher, é que não me perdoa esta minha indiferença. Está sempre disposta a resolver tudo à peixeirada. Ou não tivesse ela sido varina, nos bons tempos. Porém agora é uma senhora, até já tem um lugar de peixe. O que não a livra de andar eternamente desconfiada; não, não e não, já lhe disse que não é indiferença, é só respeitinho pelas fronteiras de cada qual.
Com 23 anos a Dolores acabou o curso e foi logo convidada para uma pós-graduação nos Estados Unidos. A Mariana chorou muito. Aos 26 anos a Dolores aceitou um emprego em Tokyo. A Mãe arrepelou os cabelos, coitadinha da rapariga, agora até já está no outro lado do mundo. Raras foram as cartas que a Dolores nos escreveu. Mas ontem, ao fazer 30 anos, mandou-nos um telegrama a avisar que chegará amanhã ao aeroporto da Portela.
Desce do avião e a Mariana não se aguenta, beijinhos e abraços, ai minha rica filha, estás tão magrinha, come esta maçã, come! A Dolores trás um japonês a tiracolo, rapaz novo. Apresenta-mo. É nome arrevesado. Saio pela tangente:
- Seja benvindo, sr. Takôku Nakara.
A Dolores torce o nariz. Não tarda muito começa a guinchar e a bater os pés, como fazia dantes. Corto a direito:
- Minha filha, não te amofines, esse gajo aí, para mim é o Samurai, e não se fala mais nisso.
A Dolores enrola a língua num patuá cheio de soluços e o japonês sorri, faz uma vénia, quase bate com a testa no chão. Gostou da alcunha. Ainda bem.
A Mariana ficará muito inquieta. Pergunta-me se o Samurai será noivo ou namorado da nossa filha. Começa a antipatizar com ele, pois o japa só gosta de comer peixe cru.
- Não te preocupes, é apenas um boyfriend.
- Mas o que é isso, ó Fernando?
- Ora, é um desentupidor dos circuitos da placa lógica, coisas da electrónica..
A Mariana fica mais sossegada e a minha filha pergunta-me se pode ocupar os barracões que ficam nos fundos do meu quintal. Tenho uma casa com vista para o Tejo, herdei-a do meu avô. E no quintal tenho até duas palmeiras. Alfama, pois claro. Num socalco entre o Largo da Marinha e a rua das Escolas Gerais. Claro que pode ocupar os barracões. No dia seguinte começam a chegar caixas, caixinhas e caixotes. A Dolores conta-me que ela e o Samurai estão a trabalhar para uma multinacional japonesa. Devem montar aqui o protótipo de um robot doméstico que vai ser colocado em todos os lares europeus. Não me aguento:
- Agora a menina diverte-se a brincar com brinquedos japoneses?
Vai aos arames mas explica-me a jogada dos amarelos: os portugueses são uma espécie de pretos mansos da Europa. Mesdames, Ladies e Frauen ficarão mais descansadas quando o mordomo electrónico começar a falar com sotaque português.
- O quê? Falar? O zingarelho vai falar?
- Tal e qual um homem, Pai. Tu vais ver.
Três meses depois, vou eu a atravessar o quintal e, de repente, salta-me ao caminho uma espécie de gatão, todo em alumínio e fibra de vidro. As patas da frente levantadas, o traseiro são duas rodas motrizes, uma terceira a timonar. Antenas em vez de orelhas. Lentes em auto foco em vez de olhos. Cabo metálico, flexível, em vez de cauda, e era a tomada de energia. De rabo alçado aí vem o danado. Levanta o pescoço, mecanismo de periscópio. A cabeça é uma abóbora de vidro, transparência, luzinhas a acender e a apagar. Gira a cabeça de um lado para o outro, 360 graus, até fico tonto. Avança agora sobre mim. Precavido, levanto o pezinho. Um coice bem arreado resolve muita situação...
Nisto, a Dolores sai do barracão, dá um grito e a avantesma pára. A minha filha diz que vai contratar-me como professor de português do zingarelho.
- Mas, Dolores, eu nem tenho o 7º ano, eu posso lá ser professor...
- Não faz mal, Pai, do que nós precisamos é de um especialista em coloquialismo. E nisso tu és bom. Topas?
- E carcanhóis, ó menina? É trabalho só para aquecer?
- Para começar, 2500 dollars por mês. Topas?
- Topo! Toca aqui.
Não tocou. Abraçou-me e beijou-me. O Samurai é que veio, cheio de mesuras, a apertar-me a mão. Nas vésperas da minha reforma de tipógrafo, juntamente com os lucros do lugar da Mariana, aquele dinheirinho extra vinha aquecer o meu orçamento.
Mas não acredito que o zingarelho venha a falar. A Mariana e o Samurai julgam que falar é só armar aos sons. Não sabem das contravoltas misteriosas que há no verbo. Fico horas e horas defronte de um gravador cheio de botões, painéis e curvas luminosas. A Dolores manda e eu falo o que me dá mona. Dias depois o Tareco já está a falar com a minha voz. Porém, mais parece um inglês, treinador de futebol, a falar português. Até que um dia, lá no quintal, o zingarelho pára diante de mim, saúda e eu espantado:
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO - por Fernando Correia da Silva
Já publicado no Estrolabio em 17 de Fevereiro de 2011
De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela. Assim:
Lei que songe senteportas do sedejo
aganha salgadada rogadece
ameia que temolve e tamortece.
Reti. E mavetido mavetejo
ana veturna a corbicar avexo
vatico sena toncha toda texo.
É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco, o meu robot. Ele não se faz rogado para emitir opinião:
- Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?
- Desejo.
- E a palavra texo?
- Sexo.
- Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.
- Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado.
- Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está na tua malícia, na tua ronha.
- Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.
Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.
- Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?
- Podemos dizer que sim.
- Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.
- És muito profundo, Tareco.
- Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?
- É capaz de ser.
- Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.
- Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?
- Paralogismo!
- Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?
- Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.
- Diz lá, Tareco.
- Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.
- Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?
- No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.
- Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.
Zanzou.
- Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.
- Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?
- Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!
Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.
Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:
- Acabei por decifrar os teus versos.
- Não posso acreditar... Como é, como são?
- São assim:
Sei que longe, entre portas do desejo
a aranha da saudade agora tece
a teia que te envolve e te adormece.
Parti. E repartido me revejo
ave nocturna a debicar o nexo
cativo nessa concha do teu sexo.
Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:
- Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.
Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?
António Aleixo nasce em 18 de Fevereiro de 1899 em Vila Real de Santo António e falece em 16 de Novembro de 1949 em Loulé. Foi guardador de cabras, cantor popular de feira em feira, soldado, polícia, tecelão,servente de pedreiro em França, “poeta cauteleiro”. Apesar de semi-analfabeto deixa a seguinte obra escrita que o Dr. Joaquim Magalhães teve o cuidado de passar a limpo: «Este livro que vos deixo», «O Auto do Curandeiro», «O Auto da Vida e da Morte», o incompleto «O Auto do Ti Jaquim» e «Inéditos». Em homenagem ao Poeta e à sua obra, no parque da cidade de Loulé foi levantado um monumento frente ao “Café Calcinha”, local outrora frequentado pelo Poeta. O antigo Liceu de Portimão passou a chamar-se Escola Secundária Poeta António Aleixo. Há alguns anos também passou a existir uma «Fundação António Aleixo» com sede em Loulé e que já usufrui do Estatuto de Utilidade Pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados.
João de Deus
Um outro poeta algarvio, não do litoral mas da meia-encosta - S. Bartolomeu de Messines - nascido em 1830 e falecido em 1896, de seu nome João de Deus Ramos, escrevera “A VIDA”, elegia que talvez seja a sua obra-prima. Transcrevem-se alguns trechos dessa elegia:
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!
(...)
Repetições, elipses, mudança brusca do sentido gramatical de uma palavra, exclamações, improvisações à viola sobre o cancioneiro popular e estudantil (de Coimbra), poesia simples e expressevidade rítmica. Com este material tão pobre, ou nada se faz, ou então é-se arrastado e navega-se pela torrente do cancioneiro popular.
Por intuição, João de Deus aproxima-se de Camões, de Petrarca e Dante, vai mesmo beber os versículos da Bíblia. Mas isso porque é um homem letrado. Pergunto: e quem não bebeu das letras impressas, quem não passou horas numa biblioteca a folhear livros? Simplicidade verbal... Seja! Mas estará este remansoso ribeirinho ao alcance de quem nele queira simplesmente navegar?
No Algarve, na primeira metade do século XX, irrompe uma poderosa corrente do cancioneiro popular português, a qual recebe o nome do poeta semi-analfabeto que lhe abre as comportas: António Aleixo. Quem apontou essa corrente foram o artista plástico Tóssan e o professor de liceu Joaquim Magalhães. Aleixo diverte-se com a ocorrência:
Não há nenhum milionário
que seja feliz como eu:
tenho como secretário
um professor do liceu.
Não pára de rir das circunstâncias em que vive e até da sua própria aparência. E quanto mais ri mais certeira vai sendo a pontaria de Aleixo:
Sei que pareço um ladrão... mas há muitos que eu conheço que, sem parecer o que são, são aquilo que eu pareço.
Brinca até com a sua profissão de “cauteleiro”:
De vender a sorte grande,
confesso, não tenho pena;
que a roda ande ou desande
eu tenho sempre a pequena.
Ribanceira abaixo, aí vem a corrente de Aleixo, cachão contra as injustiças (lembremo-nos que estamos em plena ditadura salazarista, em que impera a Censura):
És feliz, vives na alta
e eu de ratos como a cobra.
Porquê? Porque tens de sobra
o pão que a tantos faz falta.
Insiste:
Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se disser que tem fome,
comete um crime, sem querer.
Esta quadra abrange certamente a dor que o poeta sente por não poder atender às necessidades de uma filha sua que está a morrer, tuberculosa. O poeta conclui:
Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.
Tentam aliciá-lo a aceitar mansamente o sofrimento. O poeta comenta:
P'ra a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade.
Mas logo reage:
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão.
Reforça:
Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do Mundo,
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo.
Ri:
Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
Aleixo dá uma guinada, faz o balanço da sua vida:
Fui polícia, fui soldado,
estive fora da nação;
vendo jogo, guardo gado,
só me falta ser ladrão.
Volta a apontar o dedo às injustiças:
Co'o mundo pouco te importas porque julgas ver direito. Como há-de ver coisas tortas quem só vê o seu proveito?
À guerra não ligues meia, porque alguns grandes da terra, vendo a guerra em terra alheia, não querem que acabe a guerra.
Vós que lá do vosso império prometeis um mundo novo, calai-vos, que pode o povo q'rer um mundo novo a sério.
Aleixo compreende até o motivo que lhe permite ver sempre ao longe:
Não é só na grande terra
que os poetas cantam bem:
os rouxinóis são da serra
e cantam como ninguém
Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
do que alcança a nossa vista!
Torrente algarvia! Melhor dizendo: lusitana! Nada consegue detê-la. Começou a fluir em cachão quando a língua portuguesa, de norte para sul, brotou na ponta ocidental da Península Ibérica.
Vidas Lusófonas, http://www.vidaslusofonas.ptsite dirigido pelo argonauta Fernando Correia da Silva, vai a caminho dos 25 milhões de visitas às 143 biografias de vultos do universo lusófono que já publicou. Da autoria do Fernando Correia da Silva, acaba de ser publicada a biografia de Joshua Benoliel, o grande fotógrafo português do princípio do século XX,. Não deixem de ler.