
HOJE É DIA 1 DE MAIO - DA FORÇA DO TRABALHO
- NO PAÍS BASCO, NA GALIZA, NA CATALUNHA, ... POR TODO O LADO
Gernikako Arbola
POESIA
Esanen dute
hau
poesia
eztela,
baina nik
esanen diet
poesia
mailu bat
dela.
Gabriel Aresti (Bilbau 1933 - 1975), 1963
POESIA
Dirão
que isto
não é
poesia,
mas
dir-lhes-ei
que a poesia
é um
martelo.
(versão portuguesa a partir da tradução castelhana do autor)
Sempre Galiza!
Monólogo do velho trabalhador
Agora tomo o sol. Pero até agora
traballei cincoenta anos sin sosego.
Comín o pan suando día a día
nun labourar arreo.
Gastei o tempo co xornal dos sábados,
pasou a primavera, veu o inverno.
Dinlle ao patrón a frol do meu esforzo
i a miña mocedade. Nada teño.
O patrón está rico á miña conta,
eu, á súa, estou vello.
Ben pensado, o patrón todo mo debe.
Eu non lle debo
nin xiquera iste sol que agora tomo.
Mentras o tomo, espero.
um poema de Longa noite da pedra, 1962
Celso Emilio Ferreiro (1912-1979)
Quatre Barres
Som nosaltres, els joves
Som nosaltres, els joves, qui hem d'agafar l'arada
i remoure aquesta terra cansada i vella,
plena de rostolls i d'història
amarada en sang.
Cal que hi llancem llavors de sol a sol,
cal abocar-hi torrents de suor,
fer fermentar les pedres
i amorosament contemplar-la, al capvespre,
com la gossa la seva cria.
Que cada brot nou que surti
no mori per la gebrada, ni la pedra,
ni tampoc per la sequedat,
que creixi erecte i violent com una llança,
que arreu trobi companys en la lluita,
units tots
entorn d'un mateix
foc.
um poema de D'aquesta terra, 1966
Isidre Molas (Barcelona, 1940)
Sempre Galiza!
Hino e Bandeira da Galiza
A bandeira galega tem fundo branco, e é atravessada ao centro por uma faixa azul celeste, desde o ângulo superior da esquerda até ao ângulo inferior da direita.
A bandeira nacional galega moderna tem origem no século XIX e inspira-se na bandeira naval de Corunha, então principal porto de saída para a América dos emigrantes galegos e por estes adoptada como símbolo identitário.
“Os Pinos” é o hino nacional da Galiza. A letra corresponde às duas primeiras partes do poema “Queixumes dos pinos” de Eduardo Pondal e a música é de Pascual Veiga.
A invocação da Galiza é feita de forma metafórica por referência à nação de Breogão, guerreiro mitológico celta e pai fundador da Galiza, e primeiro título do texto enviado por Eduardo Pondal a Pascual Veiga a solicitação deste.
A Lei 5/1984, de 29 de Maio, estabelece os símbolos oficiais da Galiza. A letra do hino oficializada pela Lei 5/1984 seguiu as "Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego" da Real Academia Galega (RAG), apresentando diferenças relativamente à versão original do poema de 1890.
Lembrando que já no poema original Pondal afirmara uma tendência reintegracionista, os reintegracionistas defendem que o hino deve ser fiel às convicções de Pondal.
Versão reintegracionista
do Professor Carlos Garrido
Que dim os rumorosos
na costa verdecente,
ao raio transparente
do plácido luar?
Que dim as altas copas
de escuro arume arpado
c’o seu bem compassado
monótono fungar?
Do teu verdor cingido
e de benignos astros,
confim dos verdes castros
e valeroso clam,
nom dês a esquecimento
da injúria o rude tono;
desperta do teu sono,
fogar de Breogám.
Os bons e generosos
a nossa voz entendem
e com arroubo atendem
ao nosso rouco som,
mas só os ignorantes
eférridos e duros,
imbecis e obscuros,
nom nos entendem, nom.
Os tempos som chegados
dos bardos das idades,
que as vossas vaguidades
cumprido fim terám,
pois, onde quer, gigante,
a nossa voz pregoa
a redençom da boa
naçom de Breogám.
Sempre Galiza!
Emilio Cao. Fonte do Aranho
Emilio Cao, o vento e as raízes celtas na Fonte do Aranho.
Sempre Galiza!
Valentim Paz-Andrade, nasceu em Pontevedra, a 23 de Abril de 1898, e faleceu em Vigo, a 19 de Maio de 1987. Escritor, poeta e jornalista galego. O Dia das Letras Galegas do ano 2012 foi-lhe dedicado.
Neste texto, Carlos Durão conta-nos do papel - por alguns desconhecido, por outros "esquecido" - de Valentim Paz-Andrade como pioneiro do reintegracionismo e do Acordo Ortográfico.
Valentim Paz-Andrade
Valentim Paz-Andrade, pioneiro do reintegracionismo e do Acordo Ortográfico
por Carlos Durão
No percurso recente do reintegracionismo galego e do apoio ao Acordo Ortográfico, o vulto galego Valentim Paz-Andrade (1898-1987), homenageado este ano no Dia das Letras Galegas, foi pioneiro e encorajador, para além das outras facetas da sua personalidade realmente multifacetada: jornalista, empresário, ensaísta, poeta, narrador, economista, advogado, político republicano, exilado. Algumas destas facetas são salientadas repetidamente em meios informativos e institucionais galegos, mas, via de regra, não o seu importante papel no reintegracionismo contemporâneo e o seu impulso ao Acordo Ortográfico, hoje vigorado nos países lusófonos.
Com Antão Vilar Ponte e Jenaro Marinhas, ele participara na fundação das Irmandades da Fala históricas, e conheceu Castelão, em Ponte Vedra, no 1916. Participou na II Assembleia Nacionalista de Santiago, no 1919. Em 1931 formou parte da Candidatura Galeguista, junto com Afonso R. Castelão e Ramom Cabanilhas, às Cortes Constituintes espanholas. Colaborou na redação do anteprojeto do Estatuto de Galiza pelo Seminário de Estudos Galegos. Teve amizade com Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, e correspondência com Santos Júnior.
A sua criação poética galega estende-se do 1954 ao 1985. Mas é do 1959 que datam os seus primeiros testemunhos reintegracionistas, falando então em “reabilitação literária” e em ”língua galaico-portuguesa”. Assim, no seu livro Galicia como tarea, desse ano (mas escrito entre 1957 e 1958), diz: “dada la identidad estructural que conservan el portugués y el gallego, recíprocamente inteligibles. Se trata de una lengua con la cual pueden entenderse millones y millones de personas, aunque lo hablen con distinto acento o escriban de forma diferente cierto número de vocablos” (1959, 2-3, 139) (1); “no puede parecer razonable cualquier tendencia que reduzca el problema a la rehabilitación literaria de una lengua retardada en su forma escrita, haciendo caso omiso, o poco menos, de la evolución que experimentó durante siglos de uso múltiple y pleno, fuera del área de origen” (1959, 2-13, 146) (2).
Volta ao tema em O porvir da lingua galega (1968, 115-132) (3): “Sô desrespeitando o resultado histórico de tan fecunda andadura se pode deixar de comprender que hoxe pouco representa o destiño autónomo da fala galega. O que importa, por enriba de todo, é o destiño conxunto da lingua galaico-portuguesa. A integración e desenvolvimento d-un dos grandes dominios lingüísticos da civilización atlántica” (p. 121). “Dunha mais chea interpenetración do galego no portugués, ou as avesas, sô ventaxas comúns poderán colleitarse [...] Da doble conxungación do mesmo verbo poderían agardarse ainda acentos endexamais ouvidos” (p. 130). “¿O galego ha de seguir mantendo unha liña autónoma na sua evolución como idioma, ou ha de pender a mais estreita similaridade co-a lingua falada, e sobre todo escrita, de Portugal e-o Brasil? Os termos da custión non deben ser tomados no senso de que o galego, pra marchar en maior irmandade formal co portugués, teña que deixar de ser o que é” (p. 131).
E mais tarde em La marginación de Galicia (1970, 8: 101): “la identidad con la lengua de Portugal había de arrancar forzosamente de los orígenes./ Ni aún bajo el período de mayor depresión social y cultural de Galicia resultó oscurecida la idea de tal unidad primigenia. Las pocas figuras que descollaron sobre el nivel de su época no dejaron de proclamar ‘que el idioma gallego y el lusitano son uno mismo’” (4); “La circunstancia de que la evolución morfológica entre la rama gallega y la lusitana no haya sido sincrónica representa menos de lo que parece” (p. 103). Também em Cen chaves de sombra (1979), e em A galecidade na obra de Guimarães Rosa (1978, II: 219-233): “unha lingua que aínda se fala hoxe no grande sertao, como se fala na Galiza” (p. 104).
Lembremos também o seu artigo A fonte galega de Guimarães Rosa, extratado de A galecidade na obra de Guimarães Rosa, alguns capítulos de cuja obra foram o seu discurso de ingresso na RAG (1978.1986, 219-233) (5); nele, V. Paz-Andrade apontava à "galecidade" rosiana, ao seu emprego de palavras e expressões tão "galegas" como amojar, chirimia, sanfona, orvalho, lusco-fusco (também lus-fus), noitinha, sol-pôr, arco da velha, lonjão, c[o]roça, fura-bolos, mata-piolhos, meninho, sovela, queixume, folgar-se de, ri que ri, verter água (mijar), arranjar (acomodar), pendão (do milho), folha de videira... (algumas incluídas hoje em dicionários e ferramentas informáticas portugueses, por via do Léxico da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da Academia Galega da Língua Portuguesa, AGLP). [De passagem, dá-lhe uma chamada de atenção ao antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, a quem qualifica de "pontífice do estruturalismo", porque este autor, ao escrever sobre o Brasil profundo, creu achar ali cousas típicas "indigènes", como a peneira, o abano (da lareira), a figa...]
Nos anos 80, V. Paz-Andrade (que foi afastado da editora Galaxia), colaborava com entidades reintegracionistas, como a Associaçom Sócio-Pedagógica Galega (depois Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa) e as Irmandades da Fala renovadas (depois Irmandades da Fala da Galiza e Portugal). Assim, na “Escola Internacional de Verão-8ª Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal”, celebrada na escola Normal de Ourense, de 27 de agosto a 1 de setembro de 1984, deu uma palestra sobre A.R. Castelão. Sob a epígrafe de “Castelão, literatura, arte, política e ensino”, no primeiro dia das “Jornadas” teve lugar uma homenagem a ese grande vulto de Rianjo. Na mesa redonda intervieram V. Paz-Andrade, Isaac Diaz Pardo e Ricardo Carvalho Calero. José Paz Rodrigues era o presidente da Comissão Organizadora.
Esteve ainda em Portugal no lançamento de lápides dedicadas a Castelão, e a Fernando Pessoa, em Viana do Castelo e em Guimarães, com membros das Irmandades da Fala. E saudou no seu dia o nascimento da Associaçom Galega da Língua como “maximalismo nobre”, embora, ao seu ver, utópico, postulando contudo que o galego, mesmo gramatical quanto lexicologicamente recorresse ao português, sem chegar á identidade, e que o fundamental era que se entendessem na língua comum os membros da comunidade galaico-portuguesa.
Mas, além do seu encorajamento e contribuição económica, o seu contributo principal à língua da Galiza, reintegrada na sua forma gráfica internacional, foi a sua vice-presidência da Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo Ortográfico. Paga a pena demorar-se um pouco na sua génese.
Acordo do Rio de Janeiro (1986)
Ato de Abertura
Da esquerda para a direira: Prof. Antônio Houaiss (Brasil), Prof. Veiga (Cabo Verde),
Profª. Maria Helena da Rocha Pereira (Portugal), Prof. Malaca Casteleiro (Portugal),
Profª. Adela Figueroa (Galiza), Profª. Rogéria Cruz (União Latina), Dr. J.L. Fontenla Rodrigues (Galiza)
Por convite do Brasil, foram convocadas, para 6-12 de maio de 1986, sessões de debate e negociação dum novo Acordo Ortográfico da Ortografia Simplificada, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Nessa perspetiva, membros das Irmandades da Fala (José Luís Fontenla e Carlos Durão) (6) deslocaram-se a Lisboa, em setembro do 1984, para realizar gestões junto das embaixadas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e do Brasil, da Academia das Ciências de Lisboa, e de Ernesto Guerra da Cal, na altura reformado e residente no Estoril: foi ele quem os apresentou em Lisboa a Jacinto Nunes (Presidente da Academia das Ciências de Lisboa), Luís F. Lindley Cintra (porta-voz oficial de Portugal no encontro do Acordo do Rio), e João Malaca Casteleiro (porta-voz no segundo encontro de Lisboa do Acordo), e quem contatou com Antônio Houaiss (secretário da Academia Brasileira de Letras) para que os atendessem.
Foi a seguir convocado, em Ponte Vedra, por várias entidades galegas independentes (7), o IV Encontro Internacional da Língua Galaico-Portuguesa, de 6 a 7 de dezembro de 1985, sob a presidência do prof. Dr Fernando Alves Cristóvão (presidente do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, ICALP), o prof. Dr Ricardo Carvalho Calero e o prof. Dr Luís A. Polanah, do que saiu um acordo pelo que se decidia: “que fiquem autorizados os representantes das entidades convocantes do IV Encontro Internacional da Língua Galaico-Portuguesa para promover a constituição de uma Comissão, cuja finalidade seja a de iniciar relações com a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras de Rio de Janeiro, para a intervenção na revisão do Acordo Ortográfico” (1986, 6/10: 68, n. 36) (8). Foram secretários de atas do Encontro Isaac Alonso Estraviz e António Gil Hernandez; criara-se um grupo de trabalho presidido por João José Santamaria Conde e José Martinho Montero Santalha; participara também José Paz.
O Presidente dessa Comissão Galega do Acordo era Ernesto Guerra da Cal; os vice-presidentes Jenaro Marinhas del Valhe e Valentim Paz-Andrade; secretários Ângelo Brea e A. Gil Hernandez; vice-secretários J. Luís Fontenla e Isaac A. Estraviz; membros Carlos Durão, Tibério Feliz, Adela Figueroa Panisse, J. Martinho Montero Santalha, José Paz, João J. Santamaria, Xavier Vilhar Trilho; assessores Herculano de Carvalho, Amadeu Torres, Rosa Sil Monteiro, Orlanda Marina Correia, F. Soares, J. Luís Pires Laranjeira, Cristina de Mello.
Para se deslocar ao Rio foi então constituída uma delegação, na que estava previsto irem V. Paz-Andrade e C. Durão, mas, por razões familiares, eles não se puderam deslocar, como tampouco Guerra da Cal; ficou afinal integrada por Isaac Alonso Estraviz, José Luís Fontenla Rodrigues e Adela Figueroa Panisse; a delegação de funções por E. Guerra da Cal foi feita a Isaac A. Estraviz (1987, 80-81) (9); o grupo galego esteve em contato telefónico com Guerra da Cal e Paz-Andrade.
Guerra da Cal, como presidente da Comissão galega do Acordo,
desculpa-se com A. Houaiss de não poder ir ao Rio e delega em I. A. Estraviz
Mas, como é sabido, aquele Acordo do Rio, que atingia uma altíssima percentagem de unificação ortográfica, abolindo quase totalmente os acentos, não vigorou nos países signatários, e só foi aplicado por algumas organizações não governamentais doutros países.
Contudo, não se perdeu aquele trabalho nos anos seguintes, e no 1988 foi retomada a iniciativa para um novo Acordo pela Academia das Ciências de Lisboa, elaborando um Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa, que no 1989 foi submetido à consulta dos países lusófonos, em previsão de uma reunião em Lisboa que não veio a realizar-se. A ACL elaborou em 1990 um novo “Projecto de Unificação Ortográfica” tendo em conta os pareceres sobre o “Anteprojecto”, e ao respeito convocou uma nova reunião.
Em 1 de outubro de 1990, o Prof. Dr Manuel Jacinto Nunes, Presidente da ACL, enviou uma carta ao então Vice-Presidente da Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo da Ortografia Unificada, José Luís Fontenla (10); na altura, o Presidente, E. Guerra da Cal, morava em Londres, onde C. Durão “ia ter todas as semanas com o professor Guerra da Cal na sua casa em Londres, para explicar a nossa posição e atividade negociadora em matéria ortográfica, com portugueses, brasileiros e africanos lusófonos” (1991.1994: 27-38, 69) (11); a carta comunicava: «solicitamos, pois, a presença de dois representantes galegos, para tomarem parte, como observadores, na mencionada reunião em Lisboa, de 8 a 12 de Outubro de 1990» (1994: 35-40, 136) (12).
carta da Academia das Ciências de Lisboa convidando dous observadores
da Comissão Galega do Acordo às negociações do Acordo de 1990 em Lisboa
Desta vez, a delegação galega de observadores era integrada por J. Luís Fontenla e A. Gil Hernandez (novamente em representação de E. Guerra da Cal, que continuava a ser Presidente da Comissão Galega, embora impossibilitado de ir em pessoa), que participaram nas reuniões de trabalho e colaboraram na redação do texto definitivo do Acordo Ortográfico, nele incluindo os “galeguismos” brêtema e lôstrego entre 19 exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada (Base XI 2o a)), tirados do Prontuário Ortográfico das Irmandades da Fala de 1984 (1994: 35-40, 136) (13).
Acordo de Lisboa (1990)
Prof. António Gil Hernandez (à direita) com o Prof. Houaiss e membros
de diversas delegações, observando o a Crónica da Espanha na Sede da
Academia das Ciências
Na presidência daquela Comissão Galega do Acordo continuaram a figurar E. Guerra da Cal, Jenaro Marinhas e V. Paz-Andrade, embora este já falecera, sendo o seu posto continuado por José Luís Fontenla.
Contudo, Valentim Paz-Andrade, com o seu nome e prestígio, continuou assim a prestar à sua pátria o grande serviço de a reintegrar no seio da Lusofonia, como ele queria, na melhor tradição da sua geração. Seja-lhe isso justamente reconhecido neste ano da sua homenagem na Galiza.
Eis, enfim, como amostra da sua criação poética, na grafia internacional da língua, este poema, do seu Pranto matricial, por ele assinado e recolhido numa publicação das Irmandades da Fala modernas (1990, 15/18: 13) (14):
O que todo galego choraria
Chora, Terra, teu pranto
das águas e dos eidos, e dos ares,
as vivas páreas cósmicas da raça
em mantelo de brêtemas envoltas,
que o nosso fim à nossa origem ligam.
Deita nas áureas leiras do horizonte
lavradas de sol-pores e de abrentes,
em adoas de luz a debulhar-se,
as sementes feridas da tua dor.
Harpa de nobres cordas esquecidas,
ceiva teu som no coração retido,
e faz acordes em total latejo
almas, pássaros, rios e paisagens.
Chora, Terra,
teu pranto generoso.
O que todo galego choraria,
em roda de multânime silêncio
e olhares abatidos,
rente do longo corpo derrubado
que fora vivo mastro em luta nua;
perto daqueles beiços,
seca fonte
da verba nunca dantes mais belida;
do peito petrucial,
reflorescido
de mapoulas pampeiras,
que invejam a nascença das chorimas;
junto das postas mãos voltas ao gelo,
onde a eito agromaram da sua arte,
no cerne da galega patronia,
viçosas primaveras.
Chora, Terra,
teu pranto matricial.
O que todo galego choraria,
se inda chorar pudera,
até cobrir de lágrimas o mar.
Carlos Durão
Notas:
1. Galicia como tarea, capítulo 2, apartado 3, “Área de expansión exterior”, Ediciones Galicia, Centro Gallego de Buenos Aires, 1959, p. 139
2. id., cap. 13, p. 146
3. que inclui o seu artigo “A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa” (Círculo de las Artes, Lugo, 1968, pp. 115-132)
4. La marginación de Galicia, Siglo XXI Editores, Madrid, 1970, cap. 8, “La expansión transcontinental del idioma”, p. 101
5. A fonte galega de Guimarães Rosa, em A galecidade na obra de Guimarães Rosa, Eds. do Castro, Sada, 1978 (depois em Temas de O Ensino, nos 6/10, Vol. II, 1986, 219-233)
6. vide infra, n. 8
7. as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, a Associação de Amizade Galiza-Portugal e a Associação Sócio-Pedagógica Galaico-Portuguesa, além de pessoas doutras entidades. Os Encontros Internacionais da Língua vinham-se realizando desde março de 1982 em diversas localidades da Galiza: Santiago, Corunha, Ponte Vedra
8. “Breve história do conflito linguístico na Galiza”, J.L. Fontenla, Temas de O Ensino, nos 6/10, Vol. II, 1986, p. 68, nota 36
9. pode ver-se a reprodução facsimilar da carta em: I. A. Estraviz, "Estudos filológicos galegoportugueses", Alhena Eds., Madrid, 1987, entre as pp. 80 e 81; vide também https://www.facebook.com/media/set/?set=a.1
10. vide http://www.lusografia.org/CGAOLP/index.h
11. J.L. Fontenla, “Congresso Internacional de Língua, Cultura e Literaturas Lusófonas [Homenagem ao Professor Ernesto Guerra da Cal]”, Vol. VII-IX, Temas de O Ensino de Linguística, Sociolinguística e Literatura, Ponte Vedra-Braga, nos 27-38, 1991-1994, p. 69
12. J.L. Fontenla, “O Acordo Ortográfico 1990 - Crónica de uma semana de 5 dias”, J.L. Fontenla, II Congresso Internacional de Literaturas Lusófonas, revista NÓS, nos 35-40, 1994, p. 136
13. especial nos 2/3 de Temas de O Ensino, Ponte Vedra-Braga, 1984, vid. J.L. Fontenla, op. cit. 1994, 130-131
14. “O que todo galego choraria”, de Pranto matricial, reproduzido em “Matria da palavra, Antologia de poetas galego-lusófonos”, Cadernos do Povo, Revista Internacional da Lusofonia, Ponte Vedra-Braga, nos 15-18, 1990, com algumas modificações
Bibliografia breve:
V. Paz-Andrade, Galicia como tarea, Ediciones Galicia, Buenos Aires, 1959
V. Paz-Andrade, artigo “A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa”, pp. 115-132 de O porvir da lingua galega, VVAA, Círculo de las Artes, Lugo, 1968
V. Paz-Andrade, La marginación de Galicia, Ed. Siglo XXI, Madrid, 1970
V. Paz-Andrade, Cen chaves de sombra, Eds. do Castro, Sada, 1979
V. Paz-Andrade, Sementeira do vento, Editorial Galaxia, 1968
V. Paz-Andrade, Castelao na luz e na sombra, Eds. do Castro, 1982
Sempre Galiza!
Todo termina mal - Avante! Rock da Galiza
Cansam os deuses de felizes ser.
O fogo nasce para arrefecer.
O pássaro alça o voo para cair.
Sempre Galiza!
O Som das Águas Lentas - Xosé Lois Garcia
Xosé Lois García nasceu na cidade de Lugo, Galiza, em 22 de abril de 1945. Aos vinte anos de idade passou a viver em Barcelona, Catalunha, onde é director do Arquivo Histórico Municipal de Sant Andreu de la Barca. Escritor, poeta e ensaísta por cuja obra perpassa uma consciência da Galiza e de Portugal, das suas histórias e da sua língua, bem como da literatura africana de expressão portuguesa, e designadamente a angolana, que tem investigado e sobre a qual tem escrito.
Da sua vasta obra poética, alguns exemplos:
IV
Pedra calcinada
na vertigem que irrompe da água.
Já não cintilam os equinócios
sob o delírio dos dedos e das cítaras.
Surda é a matriz onde se criam
os nomes da pedra.
Multiplicam-se os nervos e os signos,
isso quer dizer que ainda existimos.
UM NAMORO NA RUA DO CARMO
Iam sozinhos e de mãos dadas:
perguntaram pelos frutos, pelos gestos
e ignaravam a direcção das palavral.
Não era preciso que descessem aos regatos:
nos seus lábios, estava o furor das trovoadas.
[Aqui se escutam ecos marítimos, navegações e descobrimentos; logo na abertura nos versos do barqueiro:]
I
Na íntima delicadeza da barca
estremece-te a líquida dimensão
duma potência solar que doura a água.
Deve ser o teu primeiro ofício,
nesta profunda paixão pelo desconhecido;
precisas do contacto que transparece
em tudo o que o barqueiro-mor
sabe das clareiras que iluminam o eco.
Herdaste a linhagem do marinheiro
para poupares a espessura do líquido,
e habitar as mudanças no próprio tempo
onde inclinas o teu rosto meio aceso
meio salgado para consagrar-te ao mar.
Surpreende-te a primeira atmosfera
na condensação do movimento em maresia,
já eras eterno no ritual dos balanços,
e serás mistério no pudico destino do ar.
Sempre Galiza!
A Música Galega que surgia Ao romper da bela aurora
passa a ser aqui acolhida, às quartas, às dez horas.
Menino do bairro negro - Uxia
A galega Uxia canta "Menino do bairro negro" do português José Afonso.
Sempre Galiza!
"Poucos povos como o galego sentem a separação entre a geografia física e a imaginária, o país vivido e o país desejado ou, evocando outros mundos míticos que dão horizonte ao nosso percurso na história, a Galiza demandada. O corpo da Galiza, o belo corpo de natureza poderosa e até perturbadora que raramente deixa indiferente não só aos nascidos no país mas aos visitantes, é o país dos estrangeiros na sua própria pátria, a mais dolorosa forma de exílio."

Delegação da AGLP:
Concha Rousia, Ernesto Vasques Souza, Maria Dovigo e Ângelo Cristóvão
AS DUAS GEOGRAFIAS
Intervenção de Maria Dovigo, da Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa,
no encontro A importância da Lusofonia, X Fórum da PASC - Plataforma Ativa da Sociedade Civil, organizado pelo MIL - Movimento Internacional Lusófono, na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 24 de fevereiro de 2012.
“Que fermosa geografia,
Só de nós sabida”.
José Maria Álvarez Blázquez
Se as palavras não só se compreendem pelo seu significado mas pela rede de associações que por várias vias tecem à sua volta, nenhuma mais forte como a ligação entre Lusofonia e liberdade para aqueles galegos que geração após geração mantemos a chama viva da defesa da unidade da língua galaico-portuguesa. “Portugal é a Galiza livre e criadora”, proclamava, mas do que dizia, o ímpar ser humano que foi Daniel Castelão.
Poucos povos como o galego sentem a separação entre a geografia física e a imaginária, o país vivido e o país desejado ou, evocando outros mundos míticos que dão horizonte ao nosso percurso na história, a Galiza demandada. O corpo da Galiza, o belo corpo de natureza poderosa e até perturbadora que raramente deixa indiferente não só aos nascidos no país mas aos visitantes, é o país dos estrangeiros na sua própria pátria, a mais dolorosa forma de exílio.
Cedo aprendemos os galegos a procurar pelo mundo o que nos é negado no lar materno: a nossa riqueza material mas também o nosso sonho secular e coletivo duma humanidade sem amos nem servos, dum mundo de irmãos. Podemos invocar mil fontes para defender a supremacia da origem deste sonho universalista.
Mas eu não procuro com estas breves palavras legitimar a prevalência de qualquer nação, comunidade ou religião. Não é essa a minha vocação. Não é isso o que, como filha da Galiza, procuro na palavra Lusofonia. Penso que a busca permanente dessa ilha à que já demos tantos nomes está no mais fundo da nossa condição humana.
Se alguma lição consigo tirar deste convulso tempo em que estamos a viver é o terror que o homem tem à falta de liberdade, que não por acaso começa com a privação dos bens materiais. E liberdade é o que como galega procuro na comunidade lusófona. Liberdade para que a minha pátria não morra, para que se regenere através duma língua, a portuguesa, da que já foi raíz mas da que anos de império alheio privaram de cultura, de palavras para dizer os sonhos dos que em todo o mundo, também em Portugal, fomos conhecidos pela força do nosso trabalho, pelo nosso empenho em libertar a família e a terra das privações materiais e também de soberania. Bem conhecemos essa dupla cara da miséria. Os caminhos já foram abertos, as fronteiras físicas desimpedidas. Fica agora a tarefa mais difícil, mas também a mais entusiasmante: a de converter esta geografia física que o mar uniu em geografia liberada e fraterna.
A terra estará sempre do nosso lado, como mãe amorosa cujos braços chegam a toda a parte, como mãe que mesmo no desespero encontra sustento para os seus filhos. Libertemos a terra da escravatura da ganância. Não foi para trazer especiarias a Europa que os portugueses partiram na aventura das descobertas nem é o saudosismo pelos séculos passados que trará a grandeza a Portugal. Também não foi para matar muçulmanos que os galegos inventaram o sepulcro do apóstolo peregrino. Será, por ventura, a consciência cívica, a vontade expressa de criar a cidade nova da ilha paradisíaca que persiste na nossa memória neste tempo em que todas as geografias físicas são conhecidas e todos os pesadelos realizáveis.
Ela, a ilha, está lá, à espera de todos nós, os que cá fomos convocados pela palavra Lusofonia e que por avatares da história fomos ligados pelos caminhos do mar. Eles nunca foram fáceis, nem no tempo das navegações míticas, nem nas dos santos, nem nas dos peregrinos, nem nas dos navegadores do Infante, nem nas dos escravos africanos ou dos seus substitutos nos barcos negreiros, os emigrantes galegos a caminho da América ou os que desde diferentes nações da Europa fugiam da fome e da opressão.
As viagens sempre pediram coragem, sacrifício, curiosidade, conhecimento, amor aos longes, imaginação. Demos-lhe agora a esta herança civismo no seu sentido mais pleno, desde o etimológico àquele que os séculos lhe conferiram. Unidos estamos aqui não pelas nossas etnias nem pelas nacionalidades, por mais que não renunciemos à riqueza que elas nos deixaram, mas pela esperança de nos ligarmos em liberdade, porque queremos deixar um legado de abundância e paz. Todos os contributos são imprescindíveis na construção da cidade nova, desde a satisfação das nossas necessidades materiais ao nosso inquieto desejo de criar o que só a nossa imaginação consegue ver. Enchamos de nomes o nome da Lusofonia. Talvez nesse momento, que tanto gostaram de cantar os nossos poetas, acabe porfim o exílio dos galegos. Como nos diz Rosalia de Castro: “Ânimo, companheiros. Toda a terra é dos homens”.
Ouçam-na, de viva voz, no português da Galiza:
Irmaus - Fuxan os Ventos
O poema de Celso Emilio Ferreiro, musicado pelos Fuxan os Ventos.
Irmaus
Camiñan o meu rente moitos homes,
non os ceñezo. Sonme estrano.
Pero tí que te alcontras alá lonxe,
mais alá dos desertos e dos lagos,
mais alá das sabanas e das illas,
coma un irmau che falo.
Si é tua a miña noite,
si choran os meus ollos o teu pranto,
si os nosos soños son iguales,
coma un irmáu che falo.
Anque as nosas palabras sexan distintas
e tí negro i eu branco,
e tendo semellantes as feridas,
coma un irmáu che falo.
Por enriba de tódalas fronteiras,
por enriba de muros e valados,
si os nosos berros son igoales,
coma un irmáu che falo.
Común témo-la patria,
común a loita ambos,
a miña mau che dou,
coma un irmáu che falo.
Se sintes en probeza,
se sofres inxusticia,
se cheo de rabexa
encirras á cobiza
do teu peito o can,
pra tí chea de forza
vai miña mau, irmán.
Sempre Galiza!
Dia 24 de fevereiro é o dia de Rosalia de Castro; este ano é o 175º aniversário do seu nascimento. Leiam Rosalia, que faz bem à alma.
A sombra de Rosalía
por Séchu Sende
“Os países sem lendas estám condeados a morrer de frio”Patrice de la Tour du Pin“Sombra de Axular, volverás á terra (…) onde permanecerás até o fim dos séculos”Marc Légasse
Sempre Galiza!
Entrudo, Entruido
Entruido
O mesmo que entrudo.
[Dicionário Cândido de Figueiredo, 1913]
Entrudo, Entruido, Entroido, Antroido (do latim: introitu = intróito; entrada; começo), também dito de Carnaval.
Apontada como festa de origem pagã, com folguedos populares, associada ao início dum novo ciclo da natureza e dos trabalhos do campo, por alguns ligada às Saturnais romanas, que viria, como tantas outras que não conseguiu eliminar, a ser incorporada com regras próprias pela igreja católica para os dias anteriores à quaresma, sofrendo também alterações com o carnaval urbano.
Adeus martes de Entruido,
adeus,meu amiguinho
até Domingo de Páscoa
não comerei mais toucinho
Como em tantos outros aspectos, encontram-se semelhanças entre os diferentes festejos na Galiza e, em Portugal, no Minho e Trás-os-montes.
Em 2005, Xabier Prado, coordenador da candidatura do Património Imaterial Galego-Português apresentada à UNESCO dizia basear-se aquela em cinco elementos, dos quais “o quarto elemento constitui-o o ciclo festivo anual e as actividades de lazer, onde incluímos os jogos tradicionais. Nesta parte destacamos como um elemento de excelência o Carnaval, com as suas características enraízadas em tradiçons antiquíssimas e partilhadas pelos caretos de Podence, os peliqueiros, os generais da Ulha, etc. Em geral toda a celebraçom do Carnaval como um rito anterior à cristianizaçom e que foi assimilado polo catolicismo por um processo de sincretismo.”
Algumas “galeguices” do entrudo a merecer serem conhecidas: Festa da Pita, Domingo Fareleiro, Cigarróns de Verin,Peliqueiros de Laza, Oso de Salcedo, Merdeira de Vigo, Pantalha de Xinço de Limia.
Todos a chocalhar,
os Cigarrões de Verim (Ourense, Galiza)
os Caretos de Podence (Trás-os-Montes, Portugal)
o Oso de Salcedo (Lugo, Galiza)
E como o entrudo se está a tornar uma moda de laivos comerciais fiquemos, ao invés, com uma genuína “Moda do Entrudo”, música popular de Malpica, Beira-baixa, Portugal, na versão de José Afonso.
Sempre Galiza!
A LUSOFONIA E A LÍNGUA PORTUGUESA DA GALIZA:
DIFICULDADES DO PRESENTE E TAREFAS PARA O FUTURO (2)
(Publicado em: Atas do Congresso Internacional de Língua, Cultura e Literaturas Lusófonas (Homenagem ao Professor Ernesto Guerra da Cal): Santiago, 15-17 de Setembro de 1994, Pontevedra - Braga: Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, 1994, 452 pp. («Temas de O Ensino de Linguística, Sociolinguística e Literatura», volume VII-IX, núms. 27-38 (1991-1994)), pp. 137-149)
Prof. Dr. José-Martinho Montero Santalha,
da AAG-P - Associação de Amizade Galiza-Portugal
Ernesto Guerra da Cal é na história da cultura galega um dos principais defensores da unidade linguística da Galiza, a sua pátria – juntamente com todo o mundo lusófono, essa outra pátria criada pela língua comum. Deu exemplo com os seus escritos, especialmente com os livros de poemas, onde, sem deixar de ser profundamente galego (ou melhor: justamente por ser profundamente galego), foi também linguisticamente português.
A sua posição em favor da unidade lusófona do seu país concretizou-se, nos derradeiros anos da vida, no seu compromisso, como representante da cultura galega, com os acordos ortográficos de 1986 e 1990. Deste facto tomam ensejo as reflexões que a seguir se tecem, sobre dificuldades e tarefas da lusofonia na Galiza.
(...)
O que pretendo nestas páginas é expor brevemente algumas causas dessa situação presente e sugerir para o futuro algumas tarefas que de nós galegos dependem e que, a meu ver, cumpre realizarmos nos anos próximos: elas contribuiriam, segundo creio, a conseguir que, em eventuais acordos ou trabalhos linguísticos futuros entre todos os países de língua portuguesa, a Galiza ocupe um lugar não já de «observadora» mas de membro de pleno direito, em pé de igualdade com os restantes países, como em justiça lhe corresponde.
(conclusão - 1ª parte publicada aqui em 8 de fevereiro)
2. Algumas tarefas urgentes
A seguir enumero e comento brevemente algumas tarefas, necessárias, a meu ver, para os galegos conseguirmos que os demais lusófonos nos sintam mais facilmente como irmãos de pleno direito em assunto de língua.
2.1. O nome: «língua portuguesa (da Galiza)», não «língua galega»
Na Galiza vem sendo comum referirmo-nos à nossa língua nativa com a denominação de «língua galega» ou «idioma galego» [7]: usamos estas denominações ambos, tanto os partidários de mantermos a unidade como os que pretendem fazer do português da Galiza uma língua independente. Baste citar como exemplo o título que o professor Carvalho Calero, um dos grandes lutadores pela conservação da unidade linguística galego-portuguesa, deu a um livro seu publicado em Portugal: Problemas da língua galega [8].
Ora, penso que, sem necessidade de banir totalmente essas denominações, deveríamos preferir o nome universalmente aceito de «língua portuguesa». Andar falando de «língua galega» é prejudicial tanto para os galegos como para os falantes dos outros países lusófonos.
a) Nome enganoso para os galegos
Em primeiro lugar, porque mesmo nos galegos denominações como «língua galega», «idioma galego» ou simplesmente «galego» podem induzir a impressão de uma realidade distinta e própria exclusivamente de tais nomes. Especialmente em espíritos acríticos um nome tende a fazer surgir a impressão de uma realidade diferenciada.
Permita-se-me aduzir aqui – por via de apropósito humorístico se se quer – um texto de Álvaro Cunqueiro, justificado não só pelo seu valor literário mas também pelo facto de ter sido Cunqueiro um decidido partidário da plena unidade linguística galego-portuguesa. Trata-se das palavras que, no seu formoso livro Se o velho Simbad volvesse às ilhas, põe Cunqueiro em boca de Simbad a propósito da fantástica ilha de Gutor:
Gutor nunca se viu, e não se sabe quem a batizou, pero a oitenta léguas de Cambetum há que dar uma virada a SE para passá-la, e os que riem de nós os senhores pilotos de Arábia por fazer esta reverência, não se precatam de que não haverá ilha, pero há o nome, e o erre em que remata é rasgueado, e poderá não chocar um com a ilha, pero pode perder-se contra o nome, que esse ninguém o nega [9].
A meu ver, o nascimento da tendência isolacionista nos últimos anos deve-se em boa medida ao facto mesmo de usar-se o nome de «língua galega».
É bem sabido que isso foi o que sucedeu – ou ainda sucede – também noutras áreas linguísticas cuja situação política é similar à Galiza. A língua do País Valenciano (formado pelas três províncias de Alicante, Valença e Castelhom, na beira do Mediterrâneo, frente às ilhas Baleares) é o catalão; mas muitos valencianos resistem-se a falar de «língua catalã» e preferem usar a denominação de «língua valenciana». Não deve surpreender-nos que também ali, como na Galiza, tenha surgido em anos recentes uma tendência que pretende fazer do catalão de Valença uma língua independente, a «língua valenciana». E, sem sairmos da nossa própria área linguística, é conhecida a relutância que, em anos passados, alguns brasileiros mostravam a denominar «portuguesa» a sua língua, lançando mão de curiosas denominações perifrásticas de intenção “eufemística” como «língua nacional» ou até «língua vernácula».
b) Nome enganoso para os demais lusófonos
Não só para os galegos é enganoso. Para os demais falantes do português resulta especialmente iludente ouvir falar de «língua galega»: habituados a que todos, próprios e alheios, denominem espontaneamente a nossa língua como «língua portuguesa», quando ouvem falar de «língua galega» pensam logicamente que nos estamos a referir a uma cousa diferente: a uma língua que nada tem a ver com eles.
Citei antes o título de uma obra de Carvalho Calero, mestre de todos nós. E é agora o momento de completar a informação relativa a esse título aduzindo o que o sábio professor uma vez me comentou sobre o caso. O seu livro, editado em Lisboa por uma editora portuguesa, estava destinado primordialmente a leitores portugueses; mas o facto foi que não se vendeu muito em Portugal. Conversando sobre o assunto algum tempo depois, declarou-me estar convencido de que a causa, mais que no sistema ortográfico ali adoptado – que, apesar de substancialmente unitário, se afastava da normativa luso-brasileira nalguns pontos –, estava no título: para a imensa maioria de leitores portugueses o título Problemas da língua galega não deixava claro que os problemas que ali se discutiam eram problemas da sua própria língua no território galego; para eles pouco mais significava esse título do que poderia significar, por exemplo, Problemas da língua catalã ou Problemas da língua basca. Para ser imediatamente entendido, o título deveria ser Problemas da língua portuguesa da Galiza, ou algo parecido.
Carvalho Calero era sensível à “receptividade social”, como ele gostava de dizer, e, por isso, estava algo indeciso sobre o uso dessa denominação («língua portuguesa») a nível popular na Galiza no momento presente, temeroso de que pudesse ser mal interpretada; mas concordava em que cumpria ir dando passos também neste ponto. Ele entretanto costumava falar de “romance hispânico ocidental”, mas bem sabia que essa denominação só podia servir para explicar o nosso caso numa perspectiva histórico-linguística e não resultava transparente para o uso habitual.
A este respeito posso contar outra anedota. Terminava ele de proferir uma lição num congresso em Barcelona, e ao concluir, no colóquio que seguiu, um ouvinte galego, residente em Catalunha, perguntou-lhe, sinceramente interessado: “Mas não crê você que a língua da Galiza e a de Portugal é uma mesma?” Tanto ele como eu e outros presentes ficamos algo surpreendidos, pois esse fora precisamente o tema desenvolvido. Com a sua finura, mas sem dizer-lhe expressamente que isso era o que estivera explicando ao longo da conferência, o mestre expôs de novo o assunto abreviadamente. Mas ao sair, referindo-se ao caso, comentou-me algo desiludido se não deveríamos falar explícitamente de «língua portuguesa da Galiza», para que a gente compreendesse sem dificuldades a nossa mensagem.
Melhor que «língua galega» é a denominação «língua galego-portuguesa», que foi a que adoptamos por exemplo para os congressos linguísticos organizados pela AGAL («Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza»). Essa denominação pode ainda ser adequada em certas circunstâncias dentro da Galiza. Mas claro está que não pode pretender converter-se em nome universal, primeiro por ser desnecessariamente longo, e segundo porque outros territórios lusófonos –especialmente o Brasil– estariam igualmente legitimados para introduzir o seu gentílico. Em conclusão: também na Galiza, depois do caminho andado parece já preparado o terreno para dar preferência ao nome universalmente aceite: «língua portuguesa (da Galiza)».
2.2. Uma Gramática galega da língua portuguesa
Sendo a língua da Galiza uma modalidade de português, já se vê que qualquer gramática portuguesa serve também para a Galiza, pois no substancial reflecte satisfatoriamente o sistema linguístico dos galegos.
No entanto, a peculiar situação da Galiza exige que elaboremos uma Gramática galega da língua portuguesa; isto é, uma gramática que, apresentando a língua portuguesa culta, o faça desde uma perspectiva galega, quer dizer, prestando mais atenção aos fenómenos linguísticos próprios da Galiza.
No português da Galiza há, por uma parte, fenómenos plenamente legítimos –especialmente no campo fonético –, que devem assumir-se como constituindo a «norma» do português da Galiza. Por outra parte, há castelhanismos arreigados no uso popular (como os sufixos -ble e -ción, em vez dos correctos -vel e -ção): embora não por serem «populares» deixem de ser castelhanos nem portanto possam aceitar-se, talvez convirá citá-los a fim de serem melhor evitados, o que careceria de sentido numa gramática destinada aos falantes dos restantes países lusófonos.
Deste modo, essa gramática, sem deixar de ser uma gramática da língua portuguesa, estará pensada para a situação específica da Galiza. De resto, é o que sucede em quase todas as áreas linguísticas: por exemplo, a gramática castelhana que se usa na Espanha não serve para a América de fala espanhola, e viceversa; e é sabido que a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra, apesar do seu carácter intencionadamente unitário, teve que ser editada em versões diferentes para Portugal e o Brasil [10].
Claro está que isto não exclui a possibilidade – e até mesmo a necessidade – de que se elabore também uma gramática que intente ser reflexo de todo o âmbito lusófono. Noutro lugar [11] falei do projecto que Celso Cunha e Lindley Cintra tinham de incorporar Carvalho Calero para uma futura edição da sua já citada Nova Gramática do Português Contemporâneo, na qual estaria assim também representada a Galiza. A doença, e o falecimento logo, de Celso Cunha, e depois também de Lindley Cintra, desbaratou a empresa, que está esperando para ser realizada algum dia.
Para aqueloutro projecto de Gramática galega da língua portuguesa há já muito caminho andado. Na realidade, todas as gramáticas galegas publicadas até agora ou que se publiquem no futuro são já gramáticas galegas da língua portuguesa, incluídas as daqueles autores que pretendem que a língua da Galiza é independente do português: por muito que se escrevam com ortografia diferente e ainda que se dê acolhida a elementos castelhanizantes, vulgarizantes ou dialectalizantes, a maioria dos elementos do sistema (fonemas, unidades mórficas e morfemas, estruturas sintácticas, léxico) serão necessariamente comuns. Palavras como máis, millor, hoxe, onte, mañá não serão nunca filologicamente diferentes de mais, melhor, hoje, ontem, (a)manhã, apesar de que a grafia separatista pretenda diferenciá-las.
Qualquer gramática galega, pois, será sempre um bom ponto de partida. No entanto, aquelas gramáticas que foram redigidas com plena consciência de que a língua da Galiza é uma forma de português têm mais caminho andado. Podemos citar três das mais importantes e mais recentes desta tendência:
1979 Ricardo Carballo Calero, Gramática elemental del gallego común, Editorial Galaxia, Vigo 1979 (7ª edição), 348 pp. [12]
1980 Xoán Carlos Rábade, Xosé Ramón Pena, M. C. Vázquez, Lingua: gramática metódica da lingua galega, La Voz de Galicia, A Corunha 1980.
1988 Xoán Xosé Costa Casas, Mª dos Anxos González Refoxo, César Carlos Morán Fraga, Xoán Carlos Rábade Castiñeira, Nova gramática para a aprendizaxe da língua, Vía Láctea, A Corunha 1988, 400 pp.
2.3. Um Dicionário galego da língua portuguesa
Qualquer dicionário da língua portuguesa reflecte com exactidão a língua da Galiza, melhor mesmo que muitos dicionários galegos, até o ponto de que – se exceptuamos o dicionário de Alonso Estravis, a que logo me referirei – corresponde bastante à verdade aquela conhecida frase de que «O melhor dicionário galego é qualquer dicionário português».
No entanto, também se pode justificar a elaboração de um Dicionário galego da língua portuguesa, em função das circunstâncias específicas da Galiza. Um utente galego do dicionário necessita muitas informações que qualquer outro lusófono dispensaria para um uso correcto da sua língua.
O dicionário de Isaac Alonso Estravis é já um primeiro passo – e magnífico – nessa direcção; e podemos esperar que futuras edições desta magna obra irão progressivamente configurando a plena reintegração da Galiza no mundo lusófono também no campo da lexicografia [13].
2.4. Uma «Colecção dos clássicos galegos da língua portuguesa»
Seria preciso lançar ao mercado uma colecção das obras literárias escritas em língua portuguesa da Galiza durante os oito séculos que tem de vida a nossa literatura: uma colecção elaborada sob a perspectiva da língua comum, pensada não só para estudiosos da língua mas para a grande massa de leitores cultos de todo o âmbito linguístico português.
Uma empresa desta índole defronta de entrada diversos obstáculos. Em primeiro lugar, estará a dificuldade económica. Mas possivelmente esta não seja real. Muitos livros galegos que agora se editam na normativa castelhanista resultam rendíveis – moderadamente, aliás – para os editores mercê às subvenções oficiais com fundos públicos. (Caso à parte é o grande negócio dos livros de texto para o ensino oficial: os editores dóceis ao poder político-cultural do momento “fazem a América” nestes anos. É significativo, a este respeito, que esse imenso negócio se ache dominado por editoras não galegas mas espanholas). De começo, dada a política cultural, verdadeiramente sectária e injusta, que vem prevalecendo, uma colecção dos nossos clássicos editada com perspectiva lusófona não contará com este tipo de apoio. Ainda que eu estou convencido de que esta situação é transitória, e pode mudar da noite para a manhã do modo mais inesperado, há que planificar a iniciativa supondo que deverá autofinanciar-se. Não deveria resultar difícil: o êxito da empresa dependerá muito da planificação publicitária e da eficácia do sistema de distribuição. Nisto está ainda tudo por construir, praticamente.
De resto, talvez não seria impossível conseguir apoio económico de organismos culturais portugueses e brasileiros, públicos e privados, pelo menos em forma de aquisição de um determinado número de exemplares.
No que diz respeito à elaboração interna das edições, nenhuma iniciativa neste sentido terá nunca êxito se a normativa linguística que se adoptar não for a do português padrão, assim no aspecto ortográfico como no morfológico. O aspecto léxico, pelo contrário, suscita menos problemas e carece de importância [14].
2.5. Uma «Academia Galega da Língua Portuguesa»
Existe na Galiza, como é sabido, uma «Real Academia Galega» e outras Academias mais. A «Real Academia Galega» tinha entre os objectivos fundacionais a atenção à língua portuguesa da Galiza. Ainda que a instituição, sempre mediatizada pelas circunstâncias políticas, nunca foi muito activa, manteve durante anos a ideia guia da unidade linguística galego-portuguesa, como fica patente pelas normativas linguísticas que promulgou. Nos últimos anos, no entanto, coincidindo com a mudança na presidência, essa direcção mudou no sentido isolacionista. Em princípio, dada a existência de duas ideologias contrapostas sobre a identidade da nossa língua, a Academia podia ser um foro de encontro e debate científico e sereno. Mas alguns factos recentes parecem indicar que o caminho que se quer impor à instituição não se guia por esses critérios: os membros de tendência reintegracionista foram marginalizados, os que faleceram não foram compensados, e só se elegem novos membros que professem a concepção isolacionista. De facto, com as incorporações do último vinténio, o controle de qualquer actividade da instituição veio a ficar em mãos do Instituto da Língua Galega, o organismo que inventou a «língua galega independente do português» e que, por isso mesmo, outrora era feramente rebelde e opositor às directrizes linguísticas da Academia. Por uma espécie de «síndroma de Estocolmo», a Academia foi ficando submetida ao poder do seu maior inimigo.
Vista essa situação, as perspectivas de que a «Real Academia Galega» se torne uma instituição cientificamente imparcial no assunto da língua da Galiza parecem escassas a curto prazo, e, tratando-se de uma instituição com grande dependência política, a sua evolução dependerá muito de factores políticos e, em geral, da situação política da Galiza, que, como já sugerimos, resulta difícil prever.
De todos os modos, qualquer que seja o futuro da «Real Academia Galega», a Galiza deve contar com uma «Academia Galega da Língua Portuguesa», de modo semelhante a como os diversos países de língua espanhola possuem as suas próprias Academias da língua.
Com este projecto, não se trataria de erigir uma instituição contra a actual «Academia Galega», mas de uma instituição alternativa, diferente, guiada por claros princípios de unidade lusófona e de cooperação com as correspondentes instituições dos demais países de língua portuguesa, e inspirada pelo amor à verdade e por um sincero respeito a qualquer outra opinião, em leal concorrência. Nem sequer deveria excluir a colaboração, ocasional ou habitual, com a «Real Academia Galega», e a possível existência de membros comuns. Mas os seus estatutos, os seus princípios reitores e os seus membros deverão estar clara e expressamente posicionados a favor do carácter lusófono da Galiza, excluindo de modo explícito e firme qualquer ideia de desmembração ou isolamento do território galego a respeito do restante âmbito linguístico português.
Evidentemente, esta instituição não interferiria de nenhum modo com os organismos de inspiração reintegracionista já existentes na Galiza, os quais devem continuar a existindo com a maior vitalidade possível: as características e os objectivos de uma «Academia Galega da Língua Portuguesa» são distintos aos de organismos de tão decisiva importância, tanto para o presente como para o futuro, como são a AGAL («Associaçom Galega da Língua»), as «Irmandades da Fala da Galiza e Portugal», a «Associação de Amizade Galiza-Portugal» e outros, com os quais naturalmente a nova instituição deverá colaborar estreitamente.
Uma «Academia Galega da Língua Portuguesa» é necessária para que os organismos reitores dos critérios normativos da nossa língua nos restantes países lusófonos tenham na Galiza uma instituição congénere, que ostente com pleno direito a representação da Galiza nas decisões técnicas sobre a língua comum, prescindindo – dada a particular situação da Galiza – de se o poder político do momento as ratifica ou não.
Sou bem consciente de que a posta em andamento de um tal organismo tropeçará com grandes obstáculos. Antes de mais, poderão aparecer travas de tipo jurídico, e devemos esperar que os defensores da tendência isolacionista moverão todos os seus poderosos instrumentos políticos para impedir que chegue a estabelecer-se. Logo, haverá dificuldades de tipo económico: será precisa uma sede estável numa cidade importante da Galiza – preferivelmente em Santiago – e a publicação dalgum órgão oficial. E finalmente não deixará de haver, como sempre sucede nestes casos, os problemas de índole pessoal: por muito grande que seja o número de membros que se estabeleçam, não todas as pessoas que o merecem poderão ter cabida, o qual pode provocar em alguns ressentimento e até aversão.
Mas com todas estas dificuldades há que contar para qualquer cousa que se faça, e não creio que nenhuma delas seja insuperável se a comissão promotora souber agir com tino e com espírito aberto, alheio a todo género de sectarismo.
2.6. Concluindo
Estas são algumas das tarefas que, a meu ver, deveremos realizar nos próximos anos quantos na Galiza nos sentimos membros da grande comunidade lusófona.
E quero terminar lançando um convite a todos aqueles que, partilhando destas ideias no substancial, ou pelo menos de alguma delas, se sintam capacitados para algum desses trabalhos: a nossa língua necessita – e merece – o esforço de todos.
José-Martinho Montero Santalha
[7] Nos primeiros escritores galegos modernos (meados do século XIX) a denominação mais comum era «dialecto gallego». Mas dialecto de que língua? Alguns deles, pelo menos num primeiro momento, parecem ter pensado que o «galego» era um dialecto da língua castelhana. Essa foi de resto a opinião mais geral entre a grande massa desinformada de galegos durante muito tempo, e talvez segue a ser ainda para muitos.
[8] Ricardo Carvalho Calero, Problemas da língua galega, Sá da Costa Editora, Lisboa 1981, 148 pp. (volume segundo da colecção «Noroeste»).
[9] Sobre a atitude de Cunqueiro acerca da língua pode ver-se o meu trabalho «Cunqueiro: da fala popular à língua literária», em: [Vários], Associaçom Galega da Língua [AGAL], Congresso A. Cunqueiro: Actas (Mondonhedo, 19, 20 e 21 de Abril de 1991); Coordenadores da ediçom: Aracéli Herrero Figueroa, Bernardo Penabade Rei, Xavier Cordal Fustes, Ramom Reimunde Norenha, Servicio de Publicaciones [de la] Diputación Provincial, Lugo 1993, 233 pp., pp. 99-113.
[10] Celso Cunha / Luís F. Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Edições João Sá da Costa, Lisboa 1984, 734 pp.
[11] «Carvalho Calero e a língua portuguesa da Galiza», em: [Vários], Ricardo Carvalho Calero: A razón da esperanza, Promocións Culturais Galegas, Vigo 1991 (Colecção «A nosa cultura», núm. 13), pp. 32-40.
[12] A primeira edição publicou-se em 1966, com 268 pp.; a segunda, em 1968, com 288 pp.; a terceira, em 1970, com 340 pp.; a quarta, em 1974, com 332 pp.; as edições quinta e sexta reproduzem literalmente a quarta. A sétima foi a derradeira.
[13] Isaac Alonso Estravis, Dicionário da língua galega, Alhena Ediciones, Madrid 1986, 3 volumes com um total de 2750 páginas (tomo I, A - DUXE, pp. 1-950; tomo II, E - ÑÚNDI, pp. 951-1872; tomo III, O - ZUTRA, pp. 1873-2750, mais um apêndice de XLIII pp.).
[14] Sobre este assunto dos critérios que creio cumpre adoptar na edição dos textos literários galegos modernos, permitimo-me remeter o leitor interessado para o meu trabalho «A recuperaçom da literatura galega para a língua portuguesa: critérios para a ediçom de textos literários galegos», em: [Vários], II Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, 1987: Actas (Santiago de Compostela, 23 de Setembro - Ourense, 27 de Setembro), Associaçom Galega da Língua [AGAL], A Corunha 1989, 928 pp., pp. 158-178.
Independência - Avante! (Rock da Galiza)
Um berro: Contra a opressão secular, erguemos a voz: Independência já! Espanha nunca mais.
Sempre Galiza!
A LUSOFONIA E A LÍNGUA PORTUGUESA DA GALIZA: DIFICULDADES DO PRESENTE E TAREFAS PARA O FUTURO
(Publicado em: Atas do Congresso Internacional de Língua, Cultura e Literaturas Lusófonas (Homenagem ao Professor Ernesto Guerra da Cal): Santiago, 15-17 de Setembro de 1994, Pontevedra - Braga: Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, 1994, 452 pp. («Temas de O Ensino de Linguística, Sociolinguística e Literatura», volume VII-IX, núms. 27-38 (1991-1994)), pp. 137-149)
Prof. Dr. José-Martinho Montero Santalha,
da AAG-P - Associação de Amizade Galiza-Portugal
Ferrol, Setembro de 1994
Em lembrança de Ernesto Guerra da Cal (Ferrol 1911 - Lisboa 1994),
porta-estandarte da lusofonia da Galiza.
Sumário:
0. A modo de preâmbulo: gozo e mágoa dos galegos ante o «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)»
1. Dificuldades do presente
1.1. O desapego dos demais lusófonos pelos lusófonos da Galiza
1.2. Raízes históricas da situação presente
1.3. O predomínio linguístico e político espanhol
a) No terreno linguístico
b) No terreno político
1.4. A tentativa de isolar a língua portuguesa da Galiza
1.5. A Galiza, «filho pródigo» da lusofonia
1.6. Uma situação inconfortável
2. Algumas tarefas urgentes
2.1. O nome: «língua portuguesa (da Galiza)», não «língua galega»
a) Nome enganoso para os galegos
b) Nome enganoso para os demais lusófonos
2.2. Uma Gramática galega da língua portuguesa
2.3. Um Dicionário galego da língua portuguesa
2.4. Uma «Colecção dos clássicos galegos da língua portuguesa»
2.5. Uma «Academia Galega da Língua Portuguesa»
2.6. Concluindo
Ernesto Guerra da Cal é na história da cultura galega um dos principais defensores da unidade linguística da Galiza, a sua pátria – juntamente com todo o mundo lusófono, essa outra pátria criada pela língua comum. Deu exemplo com os seus escritos, especialmente com os livros de poemas, onde, sem deixar de ser profundamente galego (ou melhor: justamente por ser profundamente galego), foi também linguisticamente português.
A sua posição em favor da unidade lusófona do seu país concretizou-se, nos derradeiros anos da vida, no seu compromisso, como representante da cultura galega, com os acordos ortográficos de 1986 e 1990. Deste facto tomam ensejo as reflexões que a seguir se tecem, sobre dificuldades e tarefas da lusofonia na Galiza.
0. A modo de preâmbulo: gozo e mágoa dos galegos ante o «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)»
Naqueles galegos que temos como língua materna o português – que somos, hoje por hoje, maioria entre os habitantes do nosso país – o facto de que no «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)» se inclua dalgum modo também a Galiza suscita uma duplicidade de sentimentos contrapostos.
Por um lado, sentimo-nos gozosos de que isso suceda por primeira vez (sem contarmos o precedente do frustrado Acordo de Rio de 1986 [1]): por razões diversas, quase sempre de ordem política, nos acordos ortográficos anteriores da língua portuguesa (realizados fundamentalmente, como se sabe, em 1911, 1931 e 1945), a voz da Galiza estivera totalmente ausente [2].
Mas, por outro lado, sentimos também uma certa mágoa pelo facto de que a presença da Galiza tivera que limitar-se ainda desta vez a uma modesta «delegação de observadores», constituída por organizações não governamentais e não por uma delegação oficial que se achasse em pé de igualdade com as dos restantes sete países que compartem a nossa língua [3].
Claro está que a culpa desta «discriminação» para com os falantes galegos do português não deve assacar-se a nenhum dos outros sete países irmãos mas à nossa própria situação sócio-política. E sobretudo de nós galegos depende que essa atitude mude no futuro.
O que pretendo nestas páginas é expor brevemente algumas causas dessa situação presente e sugerir para o futuro algumas tarefas que de nós galegos dependem e que, a meu ver, cumpre realizarmos nos anos próximos: elas contribuiriam, segundo creio, a conseguir que, em eventuais acordos ou trabalhos linguísticos futuros entre todos os países de língua portuguesa, a Galiza ocupe um lugar não já de «observadora» mas de membro de pleno direito, em pé de igualdade com os restantes países, como em justiça lhe corresponde.
1. Dificuldades do presente
1.1. O desapego dos demais lusófonos pelos lusófonos da Galiza
Por muito que aos galegos nos doa, não podemos negar que os demais falantes da nossa língua nos consideram como “um mundo à parte”.
Estou seguro de que a causa desta atitude não se acha em motivos de índole linguística, ainda que algo possa influir a castelhanização que amostra o português falado e escrito pelos galegos.
Nem sequer creio que tenha tampouco influência sobre a situação essa vaga atmosfera colectiva de desdém mútuo que se respira socialmente: é sabido que muitos portugueses têm como imagem dos galegos a ideia tópica de que, pelo menos na sua maioria, um galego é um “indivíduo grosseiro, incivil”, por citar uma das definições que se dão à palavra galego em muitos dicionários portugueses [4]. Mas a inversa não é melhor: mais ou menos a mesma é a imagem tópica que muitos galegos têm dos portugueses (sujos, incivis, miseráveis...).
Injustas como são, estas atitudes de desdém entre povos irmãos não têm grande importância: são comuns em todas as comunidades vizinhas, sejam de um mesmo estado ou de estados colindantes, e costumam ser resultado da falta de conhecimento mútuo, limitado a um contacto superficial, sobretudo naqueles pontos em que colidem interesses contrapostos: já se sabe que é mais fácil levar-se bem com um forâneo, que mora longe, do que com um vizinho, com quem há que conviver todos os dias.
Esses fenómenos que acabo de citar não são as causas mas os sintomas da doença, que tem uma etiologia mais complexa, ainda que afinal, como costuma suceder, também os sintomas acabam formando parte da síndroma e contribuem a agravar o seu quadro clínico.
Mas, centrando-nos agora no terreno linguístico, o facto aí está: dentro do conjunto de países lusófonos a Galiza é, no melhor dos casos – pois outras vezes nem sequer é tida em conta–, considerada como um membro não já de segunda categoria (como podem ser os países africanos que têm o português como língua oficial) mas de terceira classe.
Esta atitude das instâncias oficiais é um reflexo do que sucede ao nível mais amplo da gente comum desses países. A maioria de portugueses e brasileiros nem sequer sabem que a Galiza é um país lusófono. Os meios de comunicação não costumam considerar os galegos como irmãos de língua, mas, simplesmente como “espanhois”. Muitos portugueses que visitam a Galiza, vêm aqui como se fossem a qualquer outra região da Espanha, e para entenderem-se com os galegos esforçam-se por falar castelhano. Por essa falta de informação, o interesse e o sentimento de solidariedade que os demais falantes de português mostram para com a Galiza, se exceptuamos uma minoria de estudiosos, é muito menor do que é o que sentem, por exemplo, –para citar outra área lusófona necessitada de apoio exterior– pelo território de Timor Leste [5].
1.2. Raízes históricas da situação presente
As causas que determinam a situação presente compendiam-se numa: a nossa história plurissecular de dependência com respeito à Espanha, que teve uma consequência no terreno linguístico: o espanhol, apesar de ser uma língua estrangeira, foi a única língua oficial da Galiza até há poucos anos; agora é cooficial juntamente com o português da Galiza, mas continua a desfrutar de facto de muitas vantagens sobre a língua nativa.
Para os demais falantes do português é quiçá difícil fazer-se uma ideia do que esta situação significa. Ajudar-lhes-á talvez a compreender o nosso caso imaginarem o que teria sucedido em Portugal se não conseguisse independizar-se da Espanha em 1640: a situação actual não seria muito diferente à da Galiza (ou se se quer melhor, à de Catalunha, cuja tentativa de independizar-se da Espanha pela mesma época fracassou). O espanhol teria sido seguramente a única língua oficial de Portugal durante estes séculos passados, como o foi na Galiza e na Catalunha, e conseguintemente a única língua de cultura; e o português, carente assim do apoio e do prestígio literário que lhe confere o uso público e oficial, ficaria relegado à fala informal da gente mais humilde e ao cultivo de uma minoria mais consciente, pois os círculos da administração, da política, da economia e da cultura oficial tenderiam na sua maioria a situar-se mais comodamente na órbita do poder, como quase sempre sucede.
Se em 1640 tivesse ocorrido aquela contingência histórica, Portugal encontrar-se-ia hoje num estado muito similar ao da Galiza (no aspecto que aqui nos ocupa: o linguístico). Ora, na Galiza, em realidade, essa situação vinha já de mais de um século antes.
Uma história tão longa explica a complexa situação linguística da Galiza, que para muitos portugueses ou brasileiros se torna um puzzle pouco menos que incompreensível, tal como alguns têm manifestado com franqueza. Os factores de desorientação são fundamentalmente dois: por um lado, o predomínio linguístico e político espanhol, e, por outro, nos últimos anos a tentativa, por parte dalguns galegos, de “independizar” do português a língua da Galiza. Ocupemo-nos uns momentos de cada um destes dois factores.
1.3. O predomínio linguístico e político espanhol
O predomínio espanhol manifesta-se, para observadores lusófonos, principalmente em dois campos: no linguístico e no político.
a) No terreno linguístico
Muitos galegos falam habitualmente castelhano, e de muitos essa é ademais a sua língua materna: nela – mais ou menos correcta, que isto depois de tudo importa menos para o caso– aprenderam a falar e nela têm instalada a sua faculdade de comunicação linguística.
Esse sector castelhano-falante é minoritário na Galiza, mas é o mais visível para o visitante estrangeiro, por situar-se no mundo urbano [6].
b) No terreno político
A situação política presente também resulta chocante. Desde o passado século vinha havendo na Galiza duas tendências políticas fundamentais: por uma parte, os que queriam recuperar a entidade política da Galiza, e, por outra, os que queriam conservar o status secular de submissão ao poder de Madrid. Os primeiros – que foram passando pelas sucessivas autodenominações de regionalistas, federalistas, nacionalistas –, dado que a sua postura exigia um alto grau de consciencialização sócio-cultural e de compromisso ético com o seu país subjugado, foram sempre menos que os segundos.
Depois dalgum precedente em épocas passadas, a Constituição espanhola aprovada depois da desaparição do franquismo deu a razão aos primeiros, estabelecendo um regime autonómico que, sem chegar a reconhecer a total soberania da Galiza em campos como a defesa militar ou as relações com outros estados, cedia-lhe grandes áreas de poder, como o ensino ou a sanidade. Devemos reconhecer que o papel da Galiza nessa decisão foi muito menos determinante do que o de Catalunha e do País Basco. Estabeleceu-se pois a autonomia na Galiza. Mas, dada a falta de formação e de consciência cultural da grande massa de galegos, sucedeu um paradoxo: que à hora de eleger as instâncias de governo autonómico (parlamento e daí governo, chamado «Junta») resultaram vencedoras aquelas forças tradicionalmente contrárias a qualquer ideia de autonomia. De modo que na Galiza – diferentemente ao que sucedeu na Catalunha e no País Basco – a responsabilidade do governo galego veio a ficar precisamente nas mãos das forças de dependência espanhola. O paradoxo reside, pois, em que o poder autonómico veio a recair em mãos daqueles que se tinham mostrado contrários à ideia mesma de uma autonomia política da Galiza. Sucedeu portanto algo assim como se em Portugal, imediatamente depois da independência em 1640, se celebrassem umas eleições nas quais resultasse vencedor um partido contrário à independência.
Cumpre porém reconhecer que na dúzia de anos que levamos de regime autonómico, a atitude dessas forças mudou para melhor: insertos na praxe política autonómica acabaram assumindo muitos dos postulados da tendência nacionalista galega. Poderia pensar-se que o fizeram por terem tomado gosto ao poder, mas também pode ser que um contacto mais directo com a realidade lhes fizesse despreender-se de preconceitos herdados da secular colonização espanhola e lhes limparam assim os olhos permitindo-lhes ver melhor o que antes mal viam.
A história dá muitas voltas e não sabemos onde nos levará, mas a verdade é que, passados uma dúzia de anos, não faltam motivos para a esperança. Neste sentido, dez ou doze anos de autonomia deram muito mais do que se poderia esperar nos seus inícios.
1.4. A tentativa de isolar a língua portuguesa da Galiza
Por outro lado, alguns dos galegos que falam português não reconhecem que se trate efectivamente dessa língua, mas afirmam que o que falam é um idioma distinto do espanhol e do português: a «língua galega», que seria a quarta língua românica da península (ao lado de catalão, castelhano e português).
Ainda que a tradição cultural autóctone tinha entre os seus postulados fundamentais a conservação da unidade linguística com Portugal, o poder político resultante da autonomia, cuja falta de consciência cultural galega já ficou apontada, decidiu-se, depois dalgumas hesitações, pela alternativa isolacionista, que propunha uma normativa linguística mais próxima do castelhano, a única língua que todos os galegos – incluídos os novos governantes – tinham estudado.
1.5. A Galiza, «filho pródigo» da lusofonia
E assim estão as cousas. Por um lado, a Galiza é hoje, dos países de língua portuguesa, o único que não goza de soberania política (exceptuando antigos territórios coloniais portugueses como Timor e Goa, que são caso muito diferente), e aquele em que, qualquer que for o futuro status oficial da língua portuguesa nos países africanos, a língua portuguesa está mais ameaçada (exceptuando mais uma vez os territórios asiáticos dantes citados).
Mas ao mesmo tempo, a Galiza encerra ainda uma parte do mais autêntico tesouro do idioma, vivo na fala de muitos galegos e derivado do facto de que somente na Galiza e em Portugal a língua é «nativa»: nos demais países, incluído o grande Brasil, é língua importada pela colonização, e em quase todos esses países – nuns mais, noutros menos – tem que conviver com outras línguas autenticamente nativas: socialmente o português não é aí língua nativa, embora para muitos indivíduos sim o seja.
É uma situação paradoxal: o português é língua nativa na Galiza, porque aqui (e na parte setentrional de Portugal) nasceu, mas não é língua nativa de muitos galegos; e à inversa, apesar de não ser língua nativa do Brasil e dos outros países africanos, é língua nativa de muitos dos seus cidadãos. A dialéctica entre o individual e o colectivo alcança aqui, para nós galegos, caracteres de drama histórico.
1.6. Uma situação inconfortável
Todos os galegos que não assumimos o castelhano como língua própria temos que viver em tensão permanente: vivemos conscientes da injustiça da situação em que nos encontramos e da ameaça que paira sobre esse núcleo da identidade colectiva que é a língua.
Ora, a situação daqueles que queremos conservar o carácter lusófono da Galiza é ainda mais dura: pelo menos os partidários da «língua galega independente do português» gozam neste momento do apoio do poder autonómico galego.
Poucos dos nossos irmãos de língua compreendem em que difíceis circunstâncias nos tocou viver: para os galegos que defendemos a conservação da unidade linguística, a situação secular de opressão da nossa língua tornou-se agora mais subtilmente agressiva, já que age não desde a descarada defesa da língua estrangeira mas desde uma atitude que aparece como defesa dos valores “galegos”. A situação tem algo de traumático, pois verificamos impotentes que tantos esforços e sacrifícios por conseguir uma Galiza autenticamente galega – isto é, linguisticamente portuguesa – vieram a desembocar nesta inesperada reviravolta.
(continua)
[1] Sobre a participação da Galiza no Acordo de Rio de 1986 vid. José Luís Fontenla, Isaac Estraviz, Adela Figueroa, Comentários ao novo acordo ortográfico, Cadernos do Povo de Literatura e Ensaio, Pontevedra - Braga 1986, 56 pp.; entre outros documentos de interesse, reproduz-se aí o escrito em que “As delegações de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e Brasil ao Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Letras, de 6 a 12 de maio de 1986, agradecem o assíduo comparecimento às suas sessões dos observadores da Galiza, escritor José Luís Fontenla, professora Adela Figueroa e professor Isaac Alonso Estravis, em representação do professor Ernesto Guerra da Cal” (pág. 23).
[2] No entanto, houve escritores galegos que formularam o desejo de que também a Galiza fizesse parte dos trabalhos em favor da língua que era comum a galegos, portugueses e brasileiros. Assim, António Vilar Ponte (1881-1936), fundador das «Irmandades da Fala» em 1916 e figura sobranceira do movimento cultural galeguista, solicitou publicamente nos seus escritos a participação da Galiza num acordo ortográfico que abrangesse todo o âmbito da língua portuguesa, tal como fora feito por flamengos e holandeses. Era uma chamada que ele dirigia às instituições galegas preocupadas pelo idioma, nomeadamente –naquela altura– a «Academia Galega» e o «Seminário de Estudos Galegos», das quais ele mesmo fazia parte. No entanto, quando em 1945 se apresentou o ensejo de fazer realidade esse anseio ao celebrar-se a primeira convenção com tal fim, Vilar Ponte já morrera, e a Galiza achava-se politicamente anulada nos seus direitos linguísticos, como consequência da vitória do bando franquista na guerra civil espanhola de 1936-39 e do imperialismo idiomático castelhano que os vencedores implantaram, de modo que nem sequer se pôde suscitar a possibilidade de uma participação galega nessa convenção ortográfica de portugueses e brasileiros.
[3] O comunicado, datado a 12 de outubro de 1990, em que se tornava público o facto do «Acordo», iniciava-se assim: “As delegações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Portugal com a participação de uma delegação de observadores da Galiza, reunidas em Lisboa de 8 a 12 de Outubro corrente, após terem discutido minuciosamente [...], comunicam que [...] chegaram a uma concordância unânime quanto à estrutura e especificidade de uma conveção ortográfica comum” (veja-se a reprodução facsimilar do documento, juntamente com outras informações relativas à partipação da delegação da Galiza nos trabalhos, em Nós: Revista da lusofonia (Pontevedra - Braga), núms. 19-28 (1990-91), pp. 471ss). O documento de assinatura oficial do «Acordo», datado em Lisboa em 16 de dezembro de 1990, inicia-se com um considerando em que se diz que “o projecto de texto de ortografia unificada da língua portuguesa aprovado em Lisboa, em 12 de Outubro de 1990, pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da Galiza, constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional” (vid. Diário da República (Lisboa), I Série-A, nº 193, Sexta-feira, 23 de Agosto de 1991, pág. 4370; reproduzido facsimilarmente no número dantes citado da revista Nós).
[4] Essa atitude de desprezo aos galegos partiu, ao parecer, dos castelhanos e estendeu-se depois não só a Portugal mas também à América latina; vem da época de trânsito da Idade Média à Moderna (séculos XV-XVI), ainda que pode ter a sua origem nos tempos de dominação árabe (os árabes peninsulares chamavam «galegos» a todos os cristãos dos reinos setentrionais).
[5] Pode ser boa mostra o facto de que para com a Galiza não houve nunca por parte do restante mundo lusófono uma acção simbólica de solidiariedade como foi a recente viagem do «Lusitânia Expresso» a Timor Leste, apesar de que a Galiza está nas mesmas portas de Portugal e de que as características do caso galego, no aspecto cultural, não são menos sangrantes que as da antiga colónia asiática.
[6] O mais grave do caso, no entanto, é que esse sector está a ampliar-se a base sobretudo das gerações mais novas: grande parte dos jovens e meninos de idade inferior aos 15-20 anos têm como língua de instalação o castelhano, apesar de que, em grande número de casos, seus pais têm como língua de instalação o português. Houve, pois, uma substituição linguística, que se deu no passo de uma geração a outra. Este facto, como é fácil de compreender, coloca a língua nativa dos galegos (isto é, o português na Galiza) em situação dramática no que diz respeito à sua supervivência, e exige um socorro urgente por parte de todos os lusófonos, a começar naturalmente pelos próprios falantes galegos.
O direito de viver em paz, Victor Jara pelos Luar na Lubre e Ismael Serrano
Versão do grupo galego Luar na Lubre, acompanhado por Ismael Serrano, da conhecida canção dos anos 70 do chileno Victor Jara, "O direito de viver em paz" .
El derecho de vivir en paz
(Víctor Jara)
El derecho de vivir
poeta Ho Chi Minh,
que golpea de Vietnam
a toda la humanidad.
Ningún cañón borrará
el surco de tu arrozal.
El derecho de vivir en paz.
Indochina es el lugar
mas allá del ancho mar,
donde revientan la flor
con genocidio y napalm.
La luna es una explosión
que funde todo el clamor.
El derecho de vivir en paz.
Tío Ho, nuestra canción
es fuego de puro amor,
es palomo palomar
olivo de olivar.
Es el canto universal
cadena que hará triunfar,
el derecho de vivir en paz.
(1970)
Caras/os amigas/os,
SÁB 4, 17h Literatura Feminista Galega: Rosalía de Castro
by ccif
Tertúlia com Marica Campo e Maria Pilar Negro
Entrada LivreA Galiza é das raras nações cujo símbolo principal é uma mulher: nem fada, nem rainha nem santa... mas uma mulher escritora, Rosalía de Castro (1837-1885), que inaugura o renascimento da literatura galega e, ainda, a história contemporânea da Galiza. Procuraremos explicar o percurso histórico que se inicia com ela e o porquê de uma importante presença feminina na arte literária, correlato de um peculiar papel social e económico das mulheres galegas em geral. Uma amostra desta vitalidade literária virá representada na pessoa de Marica Campo, escritora dos nossos dias, cuja obra abrange todos os géneros e que conta com um importante sucesso junto do público e da crítica.
A tertúlia conta também com a participação de Maria Pilar Negro, professora de Literatura, na Universidade da Coruña.Para aderir à mailing list da UMAR, envie uma mail com essa indicação, para umarfeminismos@gmail.com.
www.centrodeculturaeintervencaofeminista.w ordpress.com
Sempre Galiza!
Olhai os lírios do monte

"Nos lugares remotos do Gerês há uma planta que produz um lírio azul, planta endémica e maravilhosa. (...) Penso nela como sendo um olhar que a terra ergue das suas profundezas e que nos empresta para que os segredos novos nos sejam apontados. Pois é a terra quem nos persuade aos caminhos que ela tem ainda invioláveis. Um lírio azul que parece perdido nas alturas roqueiras é talvez algo mais do que a Iris Boissieri; é um olhar que nos vigia, passe a candura poética."
Agustina Bessa Luís
O Lírio do Monte (Iris Boissieri) é por muitos tido como a planta galego-portuguesa por excelência.
Encontra-se apenas no norte de Portugal, na serra do Gerês, e na Galiza.
É também comummente conhecido por Lírio do Gerês ou por Lirio do Xurés.
É uma planta endémica do noroeste peninsular, catalogada como em perigo de extinção, que na Galiza só se conserva nas serras do Xurés e Santa Eufemia (Ourense), no Courel (Lugo) e, na provincia da Corunha, no Monte Pindo - embora aqui os especialistas a tenham dado por desaparecida.
Daí o apelo feito pela Associação Monte Pindo Parque Natural para que com ela entre em contacto quem aviste algum exemplar da espécie no Monte Pindo, onde o habitat estaria nas fendas das grandes rochas graníticas.


Caem as folhas…
sinto uma cousa
que pousa em min e não me toca.
E chove pra que eu sonhe, pra que eu sonhe,
fala a tarde baixinho.
O poema é de Uxío Novoneyra, do livro "Os Eidos" (1952).
A música e a voz de Emilio Cao.
As imagens são da serra do Courel, nas montanhas orientais da província galega de Lugo, fonte de inspiração de muita da poesia de Uxío Novoneyra.
Courel dos tesos cumes que olham de longe! Aqui sente-se bem o pouco que é um homem...
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
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