Um Café na Internet
Quadro de Vladimir Kush
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Encerramos esta série com uma grande poetisa polaca - Wislawa Szymborska - morreu no dia um deste mês. A nossa singela homenagem.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia
Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.
Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
Wislawa Szymborska
Niektorzy Lubia Poezje
Niektorzy -
czyli nie wszyscy.
Nawet nie wiekszosc wszystkich ale mniejszosc. Nie liczac szkol, gdzie sie musi,
i samych poetow,
bedzie tych osob chyba dwie na tysiac.
Lubia -
ale lubi sie takze rosol z makaronem,
lubi sie komplementy i kolor niebieski,
lubi sie stary szalik,
lubi sie stawiac na swoim,
lubi sie glaskach psa.
Poezje -
tylko co to takiego poezja.
Niejedna chwiejna odpowiedz
na to pytanie juz padla.
A ja nie wiem i nie wiem i trzymam sie tego jak zbawiennej poreczy.
Wisława Szymborska [(Prowent, 1923 – Cracóvia, 2012) , poetisa, ensaista e tradutora polaca. Prémio Nobel da Literatura de 1996.
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Celso Emilio Ferreiro
Longa noite de pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan,
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
Celso Emilio Ferreiro Míguez (Celnova, 1912 - Vigo, 1979). Escritor e político galego.
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Quadro de Vladimir Kush
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T.S. Eliot
A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (excerto)
S’i credesse che mia risposta fosse
persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável…
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
(Tradução de João Almeida Flor)
T.S. Eliot
The Love Song of J. Alfred Prufrock (excerpt)
S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.
(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)
Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.
Thomas Stearns Eliot (St. Louis, 1888 - Londres, 1965), poeta e crítico inglês, Prémio Nobel da Literatura 1948
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João Cabral de Mello Neto
Tecendo a Manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto (Recife, 1920-Rio de Janeiro, 1999), poeta e diplomata brasileiro. Um dos maiores do século XX.
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Paul Verlaine
Canção de Outono
Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.
Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.
Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...
Tradução de Alphonsus de Guimaraens
Paul Verlaine
Chanson d'automne
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà
Pareil à la
Feuille morte.
Paul Verlaine (Metz, 1844 -Paris, 1896). Um dos maiores poetas franceses de sempre, figura de proa do movimento Simbolista.
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D. Dinis, o Lavrador
Quer' eu en maneira de proençal
|
Quer' eu en maneira de proençal
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Dinis I o Lavrador (Lisboa,1261 — Santarém, 1325) rei de Portugal. Pela sua obra literária, recebeu também o cognome de o Rei-Poeta.
Entardecer
Atardecer
Um Café da Internet
Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, rainha armada, rei derradeiro,,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando os jogadores tiverem partido,
quando o tempo os tenha consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que começou esta guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Tal como o outro, este jogo é infinito.
II
Tenue rei, sesgado bispo, encarniçada
rainha, torre directa e peão ladino
sobre o negro e o branco do caminho
procuram e travam a batalha armada.
Desconhecem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
ignora que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.
Também o jogador é prisioneiro
(a frase é de Omar*) num outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.
Deus move o jogador, e este a peça.
Que Deus por trás de Deus a trama começa
de poeira e tempo e sonho e agonias?
Jorge Luis Borges (Buenos aires, 1899-Genebra, 1986), poeta, ficcionista e ensaista argentino, um dos maiores escritores do século XX.
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Sóror Juana Inés de la Cruz
Homens néscios (excerto)
Argúi ser inconseqüência o gosto e
a censura dos homens, que às
mulheres acusam do que eles causam
Homens néscios, acusais
as mulheres sem ter razão,
sem ver que sois a ocasião
daquilo de que as culpais.
Se com ânsia sem igual
solicitais seu desdém,
como quereis que ajam bem
se as incitais para o mal?
Combateis-lhes a resistência,
em seguida com gravidade
dizeis que foi leviandade
o que fez a vossa diligência.
......................................
Com muitas armas em fundo
luta a vossa arrogância,
com promessas e instância
juntais diabo, carne e mundo.
Sor Juana Inés de la Cruz
Hombres necios
Arguye de inconsecuencia el gusto y
la censura de los hombres, que en las
mujeres acusan lo que causan
Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis.
Si con ansia sin igual
solicitáis su desdén,
¿por qué queréis que obren bien
si las incitáis al mal?
Combatís su resistencia,
y luego con gravedad
decís que fue liviandad
lo que hizo la diligencia.
........................................
Bien con muchas armas fundo
que lidia vuestra arrogancia,
pues en promesa e instancia
juntáis diablo, carne y mundo.
Sóror Juana Inés de la Cruz ou, simplesmente, Sóror Juana, religiosa católica, poetisa e dramaturga, nascida em data incerta (1648/51 em San Miguel Nepantla, perto de Amecameca - Cidade do México, 1695).F oi a última dos grandes escritores do Século de Ouro.
Um Café na Internet
Ela caminha em formosura, como uma noite
Em que o céu está sem nuvens e com estrelas palpitantes,
E o que há de bom em treva ou resplendor
Se encontra em seu olhar e em seu semblante:
Ela amadureceu à luz tão branda
Que o Céu denega ao dia em seu fulgor.
Uma sombra de mais, em raio que faltasse,
Teriam diminuído a graça indefinível
Que em suas tranças cor de corvo ondeia
Ou meigamente lhe ilumina a face:
E nesse rosto mostra, qualquer doce idéia,
Como é puro seu lar, como é aprazível.
Nessas feições tão cheias de serenidade,
Nesses traços tão calmos e eloquentes,
O sorriso que vence e a tez que se enrubesce
Dizem apenas de um passado de bondade:
De uma alma cuja paz com todos transparece,
De um coração de amores inocentes. .
(Tradução de Fernando Guimarães)
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellow'd to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impair'd the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and o'er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
George Gordon Byron (Londres, 1788-Missolonghi, conhecido como Lorde Byron, foi um famoso poeta inglês a figura cimeira so Romantismo. Considerado como um dos maiores poetas europeus a sua obra continua a ser muito lida.
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Salvatore Quasímodo
Das frondes dos salgueiros
E como podíamos nós cantar
com o pé estrangeiro sobre o coração,
entre os mortos abandonados nas praças
sobre a erva dura de gelo, ao lamento
balido das crianças, ao uivo negro
da mãe que ia ao encontro do filho
crucificado no poste do telégrafo?
Das frondes dos salgueiros, como ex-votos,
também as nossas cítaras pendiam,
oscilavam leves ao triste vento.
(Tradução de Manuel Simões)
Salvatore Quasímodo
Alle fronde dei salici
E come potevamo noi cantare
con il piede straniero sopra il cuore,
fra i morti abbandonati nelle piazze
sull’erba dura di ghiaccio, al lamento
d’agnello dei fanciulli, all’urlo nero
della madre che andava incontro al figlio
crocifisso sul palo del telegrafo?
Alle fronde dei salici, per voto,
anche le nostre cetre erano appese,
oscillavano lievi al triste vento.
(de Giorno dopo giorno, 1947)
Salvatore Quasímodo (Ragusa 1901 – Nápoles 1968) foi um dos maiores poetas italianos do século XX. Obteve o Prémio Nobel para a Literatura em 1959.
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William Butler Yeats
VIAJANDO PARA BIZÂNCIO
Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
— gerações de mortais — cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sémen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.
Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância,
em busca da cidade santa de Bizâncio.
Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.
Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássa-
ro, o que passou e passará e sempre passa.
Tradução de Augusto de Campos
William Butler Yeats
SAILING TO BYZANTIUM
That is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees —
Those dying generations — at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.
An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.
O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.
Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.
1927
William Butler Yeats (1865-1939) – Poeta e autor teatral irlandês Prémio Nobel da Literatura de 1923.
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Dante Alighieri
O Paraíso - canto 1
A glória do que tudo movimenta
Pelo universo espalha-se e resplandece,
Embora em uma parte mais que noutra.
No céu onde esta luz é mais intensa
Estive e vi coisas tais como não sabe
nem consegue contar quem de lá desça.
É que à beira divina dos desejos
tanto o u«humano intelecto se absorve
que a memória é incapaz de acompanhá-lo.
Mesmo assim quanto eu do reino santo
retive em minha mente por tesouro
será a matéria agora do meu canto.
Bom Apolo em meu escopo derradeiro,
faz que me encha o teu engenho tanto
que logre merecer-te o amado louro.
(Tradução de Vasco Graça Moura)
Dante Alighieri
Paradiso - canto 1
La gloria di colui che tutto move
per l'universo penetra, e risplende
in una parte più e meno altrove.
Nel ciel che più de la sua luce prende
fu' io, e vidi cose che ridire
né sa né può chi di là sù discende;
perché appressando sé al suo disire,
nostro intelletto si profonda tanto,
che dietro la memoria non può ire.
Veramente quant'io del regno santo
ne la mia mente potei far tesoro,
sarà ora materia del mio canto.
O buono Appollo, a l'ultimo lavoro
fammi del tuo valor sì fatto vaso,
come dimandi a dar l'amato alloro.
Dante Alighieri (Florença 1265 - Ravena 1321) É considerado o il sommo poeta ("o sumo poeta"), o primeiro e o mais importante poeta de língua italiana.
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Afonso X o sábio
Cantiga X
Esta é de loor de Santa María, com'é fremosa e bõa e à gran poder
Rosa das rosas et Fror das frores,
Dona das donas, Sennor das sennores,
Rosa de beldad' e de parecer
e Fror d'alegria e de prazer,
Dona en mui piadosa seer,
Sennor en toller coitas e doores.
Rosa das rosas et Fror das frores...
Atal Sennor dev' ome muit' amar,
que de todo mal o pode guardar;
e pode-ll' os peccados perdõar,
que faz no mundo per maos sabores.
Rosa das rosas et Fror das frores...
Devemo-la muit' amar e servir,
ca punna de nos guardar de falir;
des i dos erros nos faz repentir,
que nos fazemos come pecadores.
Rosa das rosas et Fror das frores...
Esta dona que tenno por Sennor
e de que quero seer trobador,
se eu per ren poss' aver seu amor,
dou ao demo os outros amores.
Rosa das rosas et Fror das frores...
(in Cantigas de Santa Maria)
D. Afonso X, o Sábio, rei de Castela e Leão (1252-1284). A actividade literária valeu-lhe o cognome de o "Sábio". Escreveu em castelhano as obras históricas, políticas e filosóficas. A poesia escreveu-a em galego-português, a língua de cultura nos reinos hispânicos.
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Paul Éluard
A Curva dos Teus Olhos
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras" Tradução de António Ramos Rosa
Paul Éluard
La courbe de tes yeux
La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.
Paul Éluard - pseudónimo de Eugène Emile Paul Grindel - (1895-1952), poeta francês, ligado aos movimentos dadaísta e surrealista, escreveu pemas de intervenção contra a ocupação alemã de França, durante a II Guerra Mundial.
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Nâzım Hikmet
Angina pektoris
Yarısı burdaysa kalbimin
yarısı çin'dedir, doktor.
sarınehre doğru akan
ordunun içindedir.
sonra, her şafak vakti, doktor,
her şafak vakti kalbim
yunanistan'da kurşuna diziliyor.
sonra, bizim burda mahkûmlar uykuya varıp
revirden el ayak çekilince
kalbim çamlıca'da bir harap konaktadır
her gece,
doktor.
sonra, şu on yıldan bu yana
benim, fakir milletime ikrâm edebildiğim
bir tek elmam var elimde, doktor,
bir kırmızı elma:
kalbim...
ne arteryo skleroz, ne nikotin, ne hapis,
işte bu yüzden, doktorcuğum, bu yüzden
bende bu angina pektoris...
bakıyorum geceye demirlerden
ve iman tahtamın üstündeki baskıya rağmen
kalbim en uzak yıldızla birlikte çarpıyor...
Nâzım Hikmet Ran , nasceu em 1902 na cidade de Salónica, então integrada no Império Otomano, e morreu em 1963 em Moscovo. Considerado o maior poeta turco do século XX, sendo militante comunista, foi por vezes designado «o revolucionário romântico».
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Vladimir Mayakovsky
Algum dia tu poderias?
Manchei o mapa quotidiano
atirando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.
E tu?
Algum dia poderias
conseguir tocar
um nocturno louco na flauta dos esgotos?
Влади́мир Маяко́вский
А ВЫ МОГЛИ БЫ?
Я сразу смазал карту будня,
плеснувши краску из стакана;
я показал на блюде студня
косые скулы океана.
На чешуе жестяной рыбы
прочёл я зовы новых губ.
А вы
ноктюрн сыграть
могли бы
на флейте водосточных труб?
Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky (Влади́мир Влади́мирович Маяко́вский; Bagdadi, 7 de Julho (calendário juliano) / 19 de Julho (calendário gregoriano) de 1893 – Moscovo, 14 de Abrill de 1930, poeta, dramaturgo e teórico russo, considerado como um dos maiores poetas do século XX. A sua obra é associada ao Futurismo.
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Horácio
carpe diem
Tu não procures, conhecer não deves, o fim que a mim,
a ti concederam os deuses, ó Leucone, nem experimentes
os números babilónicos. Melhor sofrer o que quer que seja!
Seja muitos invernos, seja o último que Júpiter concedeu,
e que agora o mar Tirreno quebra contra os rochedos,
sejas sábia, filtres os vinhos, e pelo curto espaço de tempo
suprimas qualquer longa esperança. Enquanto falamos, o tempo invejoso
foge: aproveita o dia, muito pouco crédula no que virá.
Horacio
carpe diem
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
Finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
Tentaris numeros. Ut melius quidquid erit pati!
Seu plures hiemes, seu tribuit Jupiter ultimam,
Quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum, sapias, vina liques et spatio brevi
Spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit invida
Aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.
Quinto Horácio Flaco - Quintus Horatius Flaccus - Venúsia, 65 a.C -Roma 8 a.C, poeta romano, um dos maiores da Antiguidade Clássica.
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Joan Maragall
Na morte de um jovem
Partiste naquele tão doce entardecer
Caíste, lutador, ao ir à luta.
Sorrias à força dos teus músculos,
ansiavas por guerras e coroas,
e de súbito, esvaías-te na terra
com os olhos atónitos.
Ai, morte, quanto, quanto embelezas!
Quando lançaste o teu primeiro véu
sobre o herói em flor, um sorriso
quebrou os prantos, e uma profunda calma
foi invadindo o peito e o rosto
do moribundo. A respiração ia e voltava
suavemente preguiçosa… Eclodiram
mais fortes os prantos ao Céu..Ele já não estava..
Lá fora, no campo, o ocaso explodia em doçura…
(Tradução de Carlos Loures e Josep Anton Vidal)
Joan Maragall
En la mort d'un jove
Te'n vas anar amb aquell ponent dolcíssim...
Caigueres, lluitador, al marxar a la lluita.
Somreies a la força dels teus muscles
i glaties per guerres i corones,
i tot de cop t'has esllanguit per terra
amb els ulls admirats...
Ai, la Mort, i que n'ets d'embellidora!
Aquell teu primer vel, quan el llençares
damunt de l'hèroe en flor, tots somriguérem
sota els plors estroncats, que una serena
va començar a regnar en el pit i el rostre
del moribond. L'alè anava i venia
suaument emperesit... Llavors esclataven
més alts els plors al Cel... Ell ja no hi era...
Pro a fora, al camp, era un ponent dolcíssim...
(1895)
Joan Maragall (Barcelona, 1860 - 1911) - Um dos maiores poetas de língua catalã. Entusiasta e teórico do iberismo, teve contactos com intelectuais portugueses que comungavam desse projecto de federação das nações ibéricas.

Vamos viver, minha Lésbia, e amar,
e aos rumores dos velhos mais severos,
voz nem azo lhes vamos dar.
Sóis podem morrer ou renascer,
mas quando findar a nossa luz fugaz,
apenas uma perpétua noite dormiremos.
Dá mil beijos e outros cem depois,
Dá muitos mil, depois outros sem fim,
Dá ainda mais mil e mais cem, enfim –
e quando milhares de beijos tivermos dado,
vamos perder a conta, confundir,
para que infeliz algum inveja possa ter
se de tantos e tão longos beijos souber.
Gaius Valerius Catullus
Vivamus, mea Lesbia
Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
Rumoresque senum severiorum
Omnes unius aestimemus assis.
Soles occidere et redire possunt;
Nobis cum semel occidit brevis lux,
Nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
Dein mille altera, dein secunda centum,
Deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
Conturbabimus illa, ne sciamus
Aut ne quis malus invidere possit,
Cum tantum sciat esse bassiorum.
Catulo (Verona, 87 ou 84 a.C-57 ou 54 a.C.) - poeta polémico do final do período republicano de Roma. Pertenceu a uma corrente poética que rompeu com o passado literário amarrado à imagética mitológica, enveredando por temas ligados ao quotidiano e aos impulsos humanos. Uma linguagem coloquial, com repetição de palavras e movimento circular da elocução. Cícero designava-os pejorativamente por novos. Escolhemos uma das evocações mais conhecidas - a Ode 5, dedicada a Lésbia.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
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