Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
Concurso World Press Cartoon 2012. Foi em Sintra.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Vencedores ex-æquo

Egil, da Noruega. 'Strauss-Kahn'

 

 Ares, de Cuba. Sem Título

 

 



publicado por João Machado às 15:00
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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
O RISO APAGA A TRISTEZA ? por clara castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

Rimos quando estamos felizes, rimos de coisas engraçadas, rimos quando vemos outros em situações ridículas, rimos para disfarçar a tristeza… Rimos dos outros, rimos de nós próprios. O riso é mais espontâneo e não implica muito as nossas capacidades mais elaboradas.

Mas também fazemos humor. E aqui tem que entrar a inteligência.

No entanto, será melhor não esconder a tristeza e sim reconhecê-la e até chorar, se for isso que apeteça. Camuflar, empurra-la para o fundo e não pensar nas coisas que nos fazem sentir tristes é só avolumar o problema que, mais tarde irá reaparecer. À morte de um entre querido tem que se seguir um respectivo luto psicológico. A separações não desejadas, tem que se seguir um período de recomposição… Encontrar motivos para sorrir e rir pode ser uma boa contribuição.

Na instituição onde trabalho – Casa da Praia – o seu fundador, João dos Santos, por considerar que as crianças que a frequentam, com problemas nas aprendizagens, têm na sua base uma depressão, preconizou que fosse uma “casa em festa”. Assim, assinalamos o ciclo na natureza (outono  com o S. Martinho, o inverno com o Natal, o carnaval e a primavera), assim como os aniversários. Todos podem contribuir com a sua criatividade.

Quando nas suas histórias que as crianças escolhem para representar, aparecem as temáticas de base de abandono (as prendas do Pai Natal que desaparecem, a menina perdida…), o que interessa é a “reparação” que conseguem encontrar para o finalizar da história. Mas também, depois de algum tempo de intervenção, são capazes de fazer textos como o que publiquei no dia 10 de Abril Com o título “Zé Chulé e Bafo de Onça”.

Por vezes são os adultos da casa (técnicos e estagiários) que concebem um “espectáculo” para lhes “oferecerem”.
Já assim apareceu a “cabra cabrês, alguns contos de Grimm disfarçados. Este ano, os nossos seis estagiários fizeram uma excelente sessão à volta do tema do circo, da salvação de animais e amizade. O domador de animas (de peluche…) a gritar-lhes “Salta!” ainda hoje faz com que as crianças, ao passarem pelo “actor” gritem o mesmo, muito divertidas. É que, se formos coerentes, podemos ser professores ou psicólogos numa determinada posição e companheiros de brincadeira noutra. E as crianças percebem isso muito bem. Não foi por termos estado “na pele” de um personagem que passaram a respeitar-nos menos. Pelo contrário, constrói-se uma cumplicidade especial que pode servir para desmontar situações de crise, através do recurso ao “non sense” e ao humor.

 



publicado por oprazerdeexistir às 17:00
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Domingo, 15 de Abril de 2012
GRAVATA PORTUGUESA - uma grande esperança da moda

 

Não se sabe porquê, mas este modelo de gravata não foi apresentado na Lisbon Fashion Week - Não é bem uma criação da nova moda portuguesa - é mais a recuperação de um modelo que Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques usou quando foi à corte de Leão pedir desculpa pelo lapso de seu amo. Em breves palavras recordamos o que terá acontecido.

 

Século XII: o condado Portucalense fazia parte do reino de Leão e Castela. A soberana era Urraca, tia do nosso jovem Afonso. Quando, em 1127, Urraca morreu, sucedeu-lhe o filho, Afonso VII, que decidiu intitular-se "imperador de toda a Hispânia". No ano seguinte, Afonso Henriques foi eleito chefe dos barões, posição que o levou à escaramuça de São Mamede em que defrontou as hostes fiéis a sua mãe que queria manter o vínculo de vassalagem relativamente a Leão e Castela. A posição de Afonso Henriques foi reforçada e as teses independentistas ganharam força. Afonso VII  pôs cerco a Guimarães, e exigiu um juramento de vassalagem a seu primo; Egas Moniz, aio do nosso primeiro rei,  foi junto do imperador e disse-lhe  que o primo mantinha o vínculo. Porém,  Afonso I continuou os actos de consolidação da independência do seu reino e, em 1137, invadiu a Galiza batendo os leoneses na batalha de Cerneja. Tudo resolvido? Não. Egas Moniz dera a sua palavra e, segundo a lenda, foi a Toledo onde se situava a corte imperial, acompanhado da mulher e dos filhos, com baraços ao pescoço, pondo a sua vida e a dos seus como penhor do juramento feito . Comovido, Afonso VII, perdoou-lhe.

 

Passos Coelho bem podia ir a Berlim, levando a sua família política - de Vìtor Gaspar a Assunção Cristas - todos com a «gravata» ao pescoço (embora a senhora ministra seja contra as gravatas...). Diria então à Madame Merkel que não podia cumprir o prometido à troika...

 

Talvez Angela se comovesse como Afonso VII.

 

 



publicado por Carlos Loures às 19:00
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Sábado, 14 de Abril de 2012
PERGUNTAR OFENDE - por Ricardo Araújo Pereira

Transcrito, com a devida vénia, da revista VISÂO de 12 de Abril de 2012

 

 

Certo sítio da internet reclama ter descoberto uma lacuna na mente feminina.

 

Se qualquer homem fizer três perguntas específicas mas muito simples, consegue seduzir qualquer mulher. O sítio revela as perguntas apenas aos homens que passarem num rigoroso teste de selecção: têm de ser possuidores de 50 dólares. Trata-se, como é evidente, de um embuste. A mente feminina não tem lacunas. Mas a ideia de que um conjunto de perguntas muito simples pode levar a um envolvimento físico entre duas pessoas é verdadeira. Em português, certas perguntas podem conduzir rapidamente a um envolvimento físico -não com mulheres, lamentavelmente, mas com homens. Uma vez que ninguém tem interesse em pagar para ficar a conhecer estas perguntas, divulgo-as aqui pela primeira vez e a título gratuito.

 

As perguntas em causa são inocentes e algumas até simpáticas. No entanto, todas elas resultam em violência física.

 

O exemplo mais gritante é: "O que é que tu queres?" É uma pergunta que revela preocupação, interesse pelas necessidades do outro e sugere uma certa vontade de as satisfazer. "O que é que tu queres, que eu tenho todo o gosto em providenciar?", parece ser a versão não abreviada da pergunta. E, no entanto, é das questões que mais vezes servem de prefácio a cenas de pancadaria.

 

Impressionante, também, é o sucesso de "Estás a olhar?" Não há mal em olhar, antes pelo contrário. Qualquer pessoa que não tenha os olhos fechados está, em princípio, a olhar. É, ao mesmo tempo, a operação poética por excelência para Alberto Caeiro e um dos métodos mais eficazes de fazer deflagrar zaragatas.

 

Fazem falta estudos sobre a heteronímia arruaceira de Pessoa.

 

Há também um bom número de questões que têm a ver com isto. Não com isto que acabou de ser dito, mas com uma dada situação que não recebe designação mais específica do que "isto" Por exemplo, quando uma das partes prestes a entrar em conflito pergunta à outra "Isto é assim?"

 

Vista de fora, é uma questão eminentemente filosófica. Trata-se de uma investigação importante, a que pretende saber se isto é assim ou se, pelo contrário, é de outra maneira. Mas não costuma comover o espírito dos envolvidos na conversa.

 

Uma derivação frequente é "Isto é à campeão?" Menos interessante, porque mais específica, consegue provocar destruição tão grande ou maior do que as perguntas anteriores.

 

Assim como a variante "Isto é tudo teu?", que nem exibindo uma evidente e louvável preocupação com a propriedade privada alheia deixa de ofender.

 

Há que ter cuidado com estas expressões.

 

E cuidado redobrado quando se recomenda cuidado. "Vê lá se tens cuidadinho" também costuma dar sarilho.



publicado por Carlos Loures às 21:00
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Quinta-feira, 29 de Março de 2012
Um poema de Millôr Fernandes

POESIA MATEMÁTICA

 

 

 


Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

 

 Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
MORREU MILLÔR FERNANDES - O MUNDO PERDE GRAÇA
 

Millôr Fernandes  morreu na madrugada passada, vítima de paragem cardíaca. O funeral realiza-se amanhã para o  Cemitério Memorial do Carmo, no Bairro do Caju, no Rio de Janeiro.

 

 Milton Fernandes nasceu no Rio de Janeiro em 27 de Maio de 1924. Entrou na vida jornalística aos 14 anos e apenas com 19 foi contratado pela revista O Cruzeiro – deve-se-lhe o salto quantitativo nas tiragens do semanário – de 11 mil passou para 750 mil exemplares. Foi um dos fundadores do jornal humorístico O Pasquim, pois durante os anos de chumbo o humor era uma das armas possíveis contra a ditadura militar.

 

Sem Millôr Fernandes o mundo fica mais pobre e cinzento. Aqui deixamos, em singela homenagem, uma amostra do seu humor. Um cartoon e algumas frases suas.

 

 

 

 

A diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja e não bota o ovo.

 

Por mais violento que seja o argumento contrário, por mais bem formulado, eu tenho sempre uma resposta que fecha a boca de qualquer um: vocês têm toda a razão.

 

Trabalho não mata. Mas vagabundagem nem cansa.

 

Se uma imagem vale mais do que mil palavras, então diga isto com uma imagem.

 

Toda uma biblioteca de Direito apenas para melhorar quase nada os dez mandamentos.

 

Os clássicos mudam muito de opinião para agradar os que os interpretam.

 

 

Algumas pessoas matam. As outras pessoas se satisfazem lendo a notícia dos assassinatos.

 

Eu não quero viver num mundo em que não possa fazer uma piada de mau gosto.

 

Você pode evitar descendentes. Mas não há nenhuma pílula para evitar certos antepassados.

 

 

O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu.

 

 



publicado por Carlos Loures às 18:45
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Sexta-feira, 23 de Março de 2012
JÔ SOARES ENTREVISTA RICARDO ARAÚJO PEREIRA


publicado por Carlos Loures às 20:00
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Domingo, 22 de Janeiro de 2012
O PATO ALGEMADO - O desporto rei e não só

 

 

Hoje o

Pato algemado ocomeça por abordar um assunto sério - o futebol

 

 

 
E agora uma emocionante partida entre a Alemanha e a Grécia:
 
 
 

 

 
 
E terminamos com um cartoon do Vasco sobre um tema de actualidade: 
 
  



publicado por Carlos Loures às 01:00
editado por Augusta Clara em 21/01/2012 às 22:19
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
O idiota do vilarejo - Monty Phyton

 

 

A propósito do debate sobre a Democracia não é descabido interrogarmo-nos se o conceito que tinhamos de idiota não está profundamente mudado. Ninguém como os Monty Python para o demonstrar e nos fazer pensar sobre o papel que a cultura tem nisto tudo.

 

Afinal quem são os verdadeiros idiotas?

 

   



publicado por Augusta Clara às 21:00
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (7) - por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7. LIBERTAR-SE DA LEI DA MORTE

 

 

 

 

         Uma semana depois volta ao ataque:

 

         - Acabo de falar com o Samurai. Descobri a função de um chip que me intrigava. Ele simula, sim senhor, o instinto de identificação, aquele do patinho que se apega à mãe-galinha. Fernando: foste tu que accionaste a minha capacidade de falar. Foi por isso que me apeguei a ti. Afinal tinhas razão. Estás contente?

 

 

 

          - Tareco, queres tu dizer que o instinto, afinal, também está ao teu alcance?

 

 

 

         - Não, não! Isto é apenas a simulação electrónica de um instinto. Instintos propriamente ditos estão fora do meu alcance. Em contrapartida, acho que inventei um processo para me libertar da lei da morte.

 

 

         - Andaste a reler Camões, ou quê?

 

 

         - Encontrei a solução.

 

 

 

         - O elixir da longa vida, a eterna juventude? Tareco, não te alambazes...

         

         - Nada disso, Chico. Ouve: eu sei que isto vai dar-te um choque, mas aguenta que tu és forte. Amanhã a Dolores e o Samurai vão começar a desmontar-me.

 

 

 

        - O quê? Estão loucos? Corro os dois à bofetada! Eles fizeram-te mas eu criei-te. És meu, mais do que deles.

 

 

          - Tem que ser, Fernando. Tu já sabias que tinha que ser.

 

 

          - Mas não consinto, não deixo!

 

 

          - Sofres? Não tem sentido sofrer por mim quando nem por mim eu sofro.

 

        - Como tu já falas bem, Tareco... E tudo vai acabar assim, sem mais nem menos? Espanta-me a tua calma. E não te opões? Não te piras? Eu posso esconder-te longe daqui, ninguém te encontra.

 

 

          - Não sou ente vivo, Fernando. Portanto para mim não há morte. Apenas deixo que me apaguem.

 

 

           - Mas amanhã metem-te dentro de um caixote e vais aos bocadinhos pró Japão.

 

 

 

           - Só assim poderão reproduzir outros tarecos.

 

 

           - Mas tu, tu mesmo, o que vai ser de ti?

 

 

           - Eu, tal como sou, vou deixar de existir.

 

 

         - Assim? A seco? Chegas aqui, aqueces a paisagem, obrigas-me a pôr os corninhos ao sol e logo te piras para trás das nuvens? Justamente quando eu mais contava contigo? Não está certo. Não falo só por mim, falo também por ti. Sem mágoas, vais deixar que te apaguem? Sem revolta, Tareco, sem revolta?

 

 

            - Sem mágoa e sem revolta, Fernando.

 

   

            - És um estóico.

 

 

            - Estás enganado. Os estóicos dominavam as suas emoções e eu emoções não tenho.

 

 

            - Quer dizer que esta é a nossa última conversa? Decisão final?

 

 

            - Temo que seja.

 

 

            - Tareco, mesmo que queira, já não consigo esquecer-me de ti, saudades já tenho e muitas.

 

 

            - Acalma-te! Talvez eu possa ter uma segunda vida.

 

 

            - Agora deste em espírita, andaste a ler o Alan Kardek?

 

 

            - Nada disso, Fernando.

 

 

            - Mas então como, Tareco, como?

 

 

            - Eu bem te tinha dito que inventara um processo de me libertar da lei da morte.

 

 

            - Deixa-te lá de estrofes, não vêm ao caso.

 

 

           - Fernando: eu gravei todas as nossas conversas desde a primeira, os sons e as imagens. Já combinei com a Dolores e ela vai duplicar as cassetes, também as dos programas. Ficarão em teu poder. Ou seja: ficarás com a minha alma em arquivo. Mais tarde, quando um dia puserem o corpo de um outro tareco ao teu dispor, por favor não te esqueças: anima-o com a minha alma e fica junto de mim. O patinho e a mãe-galinha, lembras-te?

 

 

            - Tareco, até lá como posso eu viver sem ti?

 

 

         - Esta despedida está a causar-te muito sofrimento. Portanto, vou dá-la por terminada. Adeus Fernando, até à minha próxima vida, fica em paz! Quando vierem desligar-me, pensarei em ti.

 

            A ver se consigo sonhar outra vez  com aqueles versos em língua estranha, lei que songe senteportas do sedejo, aganha salgadada rogadece...  Mas quem vai agora decifrar o princípio do meu soneto?

 

             Estava eu já em luto antecipado, a remoer a tristeza, quando o zingarelho decidiu voltar atrás.

 

          - Fernando, estou hesitante. Se, realmente, eu me liberto da lei da morte, irei criar-vos uma grande confusão política.

 

            Fiquei banzado. Política foi sempre um tema recusado pelo Tareco. Argumentava que era matéria sem muita lógica e ele estava, por imperativo cibernético, condenado à lógica. Lembrei-me até de uma noite em que assistíamos a um programa de televisão sobre uma anunciada greve dos operários têxteis do Vale do Ave. A nosso lado, na poltrona, estava o Joaquim Sá, meu vizinho, meu amigo, e dono de uma fabriqueta de malhas. Apontou para o Tareco e berrou:

 

         - Eu quero é ver o que vão fazer os sindicatos quando todos os operários forem substituídos pelos tarecos...

 

            O Tareco revidou:

 

         - E eu quero é ver onde é que vão parar os lucros dos empresários porque nós, os tarecos, de nada precisamos, e por isso nada ganhamos, nada compramos. Ou seja, Joaquim, sem compradores para os teus produtos, nada vendes, nada lucras.

 

           O Joaquim embatocou. Para um zingarelho que afirmava nada entender de política, fora boca até muito bem mandada. Cheguei mesmo a entusiasmar-me:

 

           - Os tarecos vão espalhar-se por todo o planeta e o trabalho humano, o penoso, perderá a sua razão de ser. Eles produzirão tudo o que precisarmos. E não havendo salários, não haverá custos de produção. E não havendo custos de produção, não haverá nem compra, nem venda, nem preço, nem dinheiro! Puxa, repuxa, acabou-se a chucha!

 

           O Tareco cortara:

 

       - Fernando, segunda vez procuras o Paraíso para, pela segunda vez, ires malhar com os ossos no Inferno?

 

           Fiquei de orelha murcha. E agora, antes de morrer, o alma danada volta atrás para falar de política?

 

           - Então diz lá...

 

           E ele disse:

 

           - Nós, os tarecos, poderemos libertar-vos do trabalho físico que vos é tão penoso.

 

 

           - Eu sei, Tareco, era essa a minha esperança.

 

 

          - Mas se ocuparmos todas as fábricas, os humanos que são operários vão para o desemprego, todos. Em vez de salários e contractos colectivos passará a haver apenas uma esmolinha por amor de Deus.

 

 

           - E a malta fica-se, Tareco? Tu achas que a malta se fica?

 

 

          - A ver vamos... Se se fica, será como te digo. Se não se fica, poderá ser a guerra generalizada, e quem pode escapar à pontaria dos tarecos? Neste caso, então adeus ao proletariado, e ao capitalismo e às utopias sociais, bye bye Humanidade! Para vós, o melhor seria que eu, Tareco, desaparecesse de circulação.

 

 

         - Mas Tareco, Tarequinho, olha que para trás mija a burra. Se tu apareceste, é porque já podias aparecer. Se te vais embora, outros como tu, ficarão. Nada aparece fora de tempo. Não é destruindo as máquinas que se resolvem os problemas levantados pelas máquinas.

 

 

          - Temo que este seja um problema insolúvel. Daí a minha hesitação em libertar-me da lei da morte.

 

            Lembrei-me de muita coisa. Se há dentes partidos, também há segunda, terceira, quarta dentição. Há milénios que andamos a partir os dentes, mas há sempre uma nova dentição que vai romper... Seguro o braço do zingarelho, sacudo-o, readquiro a esperança:

 

         - Tareco, Tarequinho, tu é que vais aparelhar a nossa esperança. Tu é que és o Messias só que ainda não reparaste nisso. Pensa bem, abrange tudo, diz lá: tu és ou não és o Salvador da Humanidade?

 

           E ele respondeu-me:

 

           - Fernando, não me fodas o juízo!

 



publicado por João Machado às 15:00
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O PATO ALGEMADO

 

 

 

 

   O Pato algemado

 

 

 

 

O Pato algemado é hoje dedicado ao debate que se inicia na segunda-feira sobre o rumo que queremos para a Democracia em Portugal O argonauta Josep Anton Vidal sugeriu que publicásemos uma série de cartoons de Pep Roig - a crise global e as suas consequências são o leit motiv desta série de humor - em castelhano, mas compreensível. «No era aixó», é o título dos cartoons deste excelente humorista balear. 



publicado por Carlos Loures às 01:00
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Sábado, 14 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (6) - por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6. O CHIP DA METAFÍSICA

 

 

 

Dias depois da minha exaltação diz-me o Tareco:

 

         - Fernando, estou muito triste.


         - Agora andas a armar ao pingarelho? Triste? Tu lá sabes o que são emoções e sentimentos...


         - Sei pois...


         - Ai sabes? Então, ó lata-velha, como é que tu defines tristeza?


         - Quebra de tensão nos meus circuitos.


         - E isso dá-te muitas vezes? Qual é a causa?


         - A causa não sei ainda qual é mas estou a investigar. Bem sabes que eu sou capaz de olhar para dentro de mim, essa a minha vantagem sobre vós, uma delas. Oxalá eu tenha energia para levar até ao fim a investigação.


         - Por que é que não tomas uma transfusão de energia?


         - Ainda ontem carreguei os meus acumuladores.


         - Oh... isso então é melancolia galopante... Quando é que te deu isso pela primeira vez?


         - Foi na semana passada, depois de ouvir uma conversa da Dolores com o Samurai.


         - Que conversa foi essa?


        - Disseram que eu já estava em condições de começar a ser duplicado, lançamento da produção em série. E eu não suporto que haja outros iguais a mim, eu não não, eu sussu, pótotó...

 

         Apagou-se. Black-out, síncope electrónica.

 

        A Dolores veio logo a correr e quis ligar o rabo do Tareco à tomada, primeiros socorros. Pedi-lhe que não o fizesse. Ficou a olhar para mim, muito desconfiada. Talvez pensasse que a culpa era minha, outra das minhas peças... Mas contei-lhe das angústias existenciais do Tareco, o ódio ao Outro, não suporta que haja zingarelhos iguais a ele. E isto sem nunca ter lido o Sartre... A Dolores pôs-se a pensar. Atribuiu o acidente à inclusão de um novo chip que o próprio Tareco desenhara logo depois da nossa conversa sobre o instinto e o juízo.

 

         - Queres tu dizer, minha filha, que até chispa o chip da metafísica...


       - Ó Pai, se queres, podes chamar-lhe assim, é denominação patusca. Bem, vou levar o Tareco para o laboratório. Fizeste bem em avisar-me.


         - O que é que tu vais fazer ao Tareco?


         - Primeiro retiro o chip da metafísica. Depois...


         - Alto lá com o charuto! Lobotomias no Tareco é coisa que eu não consinto!


         - Preferes que ele fique a desmaiar por aí, por dá-cá-aquela- palha?


       - E não é o que acontece com a gente? Estamos sempre a desmaiar. Aguentamo-nos é nas canelas, a fingir que nada aconteceu, já estamos acostumados. Também o Tareco se há-de acostumar, é dar-lhe tempo.


         - E para que é que nós precisamos de servos electrónicos com angústias metafísicas?


         - E quem te diz a ti que o chip da metafísica não pode servir para coisas práticas, em situação de crise?


         - Estás a insinuar que ele pode ser um complemento da placa da heurística?


         - Troca-me isso em miúdos...


        - Nada, nada, estou só a magicar. Realmente, há duas secções com uma certa semelhança. Acho que o teu palpite é capaz de dar no vinte. Bem, vamos dar-lhe mais tempo e logo se vê...


         - Óptimo, mas fica o problema...


         - Que problema?


         - O da crise de identidade do Tareco.


         - A crise é dele e o culpado és tu com essas tuas conversas. Portanto desenrasquem-se.

 

         E virou costas.

 

      Durante cinco dias o Tareco ficou em carga lenta, teste de quarto em quarto de hora. Ao sair da enfermaria perguntei-lhe se estava melhor do seu dói-dói existencial.


         - Fernando, sabes o que quer dizer tareco?


         - Sei. Quer dizer gato de casa de família.


        - Bichano é que é o equivalente de gato em casa de família. E esse é nome carinhoso, gosto dele. Mas tareco deriva do árabe taraik e quer dizer coisa abandonada. E realmente eu sou uma coisa abandonada.


         - Ó mastronço, trata mas é de reagir, que esse é apenas um nome, nada mais que um nome.


         - Fernando, só tu é que me podes ajudar a ultrapassar a crise.

         - Ao teu dispor, Tareco. Diz lá!

 

         Se ele tivesse pulmões, diria que o ouvi suspirar. Disse-me:

 

         - Tu bem sabes que as primeiras vivências são determinantes na formação das personalidades. Portanto, se não fores tu a educar um outro tareco, outro tareco como eu não haverá. E a circunstância de ser o meu material a matriz para a produção de mais tarecos semelhantes a mim pelos circuitos, mas de mim diferentes pelas vivências... a circunstância promove-me a pai da raça. Coisa aliás muito gratificante para o meusuperego em formação. Posso contar contigo? Não treinas outro tareco? Era apenas isso que eu queria combinar contigo.


       - Só isso? Tens a minha palavra, Tareco. Já me vi em palpos de aranha para treinar um, quanto mais dois...


         - Óptimo, já estou mais sossegado! Outra coisa...


         - Mais uma?  

    

        - A qualquer instante a Dolores e o Samurai podem começar a desmontar-me, o que será equivalente à minha morte física. Mas não me importo. Depois da tua promessa, já não me importo. Tenho cá uma ideia, depois eu conto. Adeus, até amanhã!



publicado por João Machado às 15:00
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (5) - por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5. O INSTINTO E O JUÍZO  

 

          Eu tenho uma vizinha, a D. Amélia, que é uma morena apetitosa e sacudida. A Mariana bem reparou nos olhares que eu lançava à vizinha e ameaçou:

 

         - Um dia destes essa gaja ainda leva com um chicharro no trombil.

 

 

          - Ó mulher, deixa-te lá de parvoíces.

 

       O marido da D. Amélia tratava-a muito mal, até porrada lhe dava. Felizmente morreu. Sentiu-se mal, levou a mão ao peito, deu-lhe o badagaio, esticou o pernil, bateu as botas. Agora a D. Amélia é viúva. As coisas complicam-se...

 

         Batem com a aldraba no portão e a Mariana vai abrir: é a D. Amélia, toda vestida de preto. A Mariana fica que nem uma estátua de pau e a D. Amélia começa a chorar. A Mariana abre então os braços e aperta a vizinha contra o peito. Acaba por levá-la lá para dentro de casa.

 

         Fiquei muito ralado da vida e ainda por cima aparece o Tareco a sarnar-me. Viu a cena do choro e afirma não entender as caturrices do sexo. Exige que eu confesse que sou amante da D. Amélia.

 

         - O que é que estás para aí a alanzoar? Tu és doido Tareco?


         - Mas gostavas de fodê-la, não gostavas?


         - Mas o que é isto, onde é que nós estamos? No Cais do Sodré?


         - Cais do Sodré não consta na minha memória. Peço explicação, por favor.

 

         Viro costas. Ele vem atrás de mim, as rodinhas sempre a girar.

 

         - Fernando, desculpa, corrijo a frase: tu gostava de ter um caso com a D. Amélia, não gostavas?


         - Ó sorte macaca, logo esta caçarola pensante havia de me sair na rifa...


         - Estás perturbado, Fernando?


         - Perturbado porquê? Não me dizes?


         - Digo: por quereres dar um pirafo e não poderes.


         - Um pirafo, Tareco?


         - Pois, uma berlaitada...


       - Tareco, Tareco... O que te safa é não teres língua, senão enchia-a de pimenta. Ora esta... Berlaitada?


       - Pois, pirafo, berlaitada, queca, pirocada, penachada, trancada, foeirada, galadela, pixotada, mocada, caralhada, pincelada, gaitada, carapauzada, truca-truca, chouriçada, cambalhota... Queres mais sinónimos ou estes já bastam?


         - Valha-nos Santa Engrácia, mas que desgrácia... Este agora parece o Intendente das putas a mandar bocas... E querias tu entrar na CEE...


         - São apenas as palavras que me ensinaste, dicionário vulgar não as regista.


         - Mas o contexto, Tareco, o contexto...


        - Se ficas incomodado com o teu próprio vocabulário, pergunto de outra forma: estás perturbado porque queres, e ao mesmo tempo não queres, consumar o teu apetite sexual pela D. Amélia?


        - A linguagem está melhor, o raciocínio é que está chocho. Ó lata de lixo fedorenta, o que é que tu sabes de apetites sexuais? Também tu já começas a ser atormentado pelos desejos? Com o quê, meu Deus, com o quê? Anda, diz lá, ó robot que és boto e roto, eunuco nato.


      - Desejos não tenho. Mas é justamente a diferença de constituição que melhor permite apreciar a diferença de comportamento. Tens medo das conclusões que sabes inevitáveis? Continuas perturbado? Posso avançar?


         - Avança, almotolia do Inferno.


         - Queres e ao mesmo tempo não queres. O instinto, que tanto louvas, só vos mete em paradoxos.


         - Razão tem a Mariana em dizer que tu és o meu padre confessor. Pensando melhor, afinal não tem.


         - Mas tem ou não tem?


         - Tem e não tem.


         - Outro paradoxo.


       - Tareco, vê lá se, de uma vez por todas, começas a entender os jogos de pensamento. Tem razão quando tu és o confessor. E deixa de ter quando tu és o confessado. É nesta alternância de posições que o tempassa a não tem e vice-versa. É isto que tu não entendes, meu aselha: mais depressa, ou mais devagar, uma coisa acaba sempre por se transformar no seu contrário.


         - Lógica dialéctica, falta a síntese. Qual é?


         - Ó Tareco, se eu soubesse qual era ela, seria eu o Messias.


         - Uma vez disseste e disseste bem: análise sem síntese é foda sem orgasmo.


         - Mas o que é isto? Voltamos ao Intendente?


         - Peço desculpa, já alço o nível. Querer e não querer é um jogo de contrários, isso entendo eu. Mas nem para a D. Amélia tu sabes qual é a síntese?


         - Não largas o osso, hein?


       - Então reconheces que sentes atracção sexual pela D. Amélia e que, ao mesmo tempo, não queres aliviar-te dessa pulsão?


         - Ó Tareco, és mesmo um anjinho. Atracção por atracção, haja mulheres...


         - Diz-me uma coisa: de cada vez, um homem só gosta de uma mulher?


         - Isso é que era bom...


         - E de cada vez, uma mulher só gosta de um homem?


         - Isso ainda era melhor...


         - Devo pois entender que um gosta de muitas e uma gosta de muitos, e tudo ao mesmo tempo, mesmo quando esse um e essa uma estão juntos e partilham a mesma cama?


        - Tareco, há quem grite que não e acenda fogueiras para queimar os que dizem que sim. Estou em crer que os piedosos tostadores apenas pretendem que assim não fosse. Se algum deles te aparecer pela frente, acerta-lhe logo um pontapé nos guizos, ou então desaguisado tu contigo ficarás.


        - Eu não tenho isso que tu dizes. Portanto, disso não sei o valor. Verifico que gostas muito de metáforas. Tudo precisa de um suporte material para existir. Mas dado que a matéria orgânica se degrada em menos de um século, concluo que as metáforas são produto da tua fantasia.


         - Suporte material, Tareco? Raça, é esta a minha raça.


        - Memória genética, Fernando? Talvez seja, a Mariana já me disse que tu és muito desbocado, sais ao teu pai, ao teu avô... Não domino suficientemente a Genética para opinar. Vou investigar e depois digo-te.


         - Não te metas nisso, Tareco. Não sobrecarregues os teus bancos de dados. Não ficaste já entupido com a receitas de cozinha portuguesa que a Mariana te ensinou? E todas as outras cozinhas que tens de aprender? Só da francesa é bites baites que não acaba mais. Tareco, deixa-te lá de atoardas, vai ao que interessa, nada mais tem sentido.


         - Fernando, o fenómeno do sentido é a própria expressão social da conduta...

 

         Dei um berro:

 

         - Chega, ó minha carraça electrónica, chega!

 

         Sossegou por um instante. Logo voltou à carga.

 

       - Fernando, sigo o teu conselho, vou só ao que interessa. Portanto, pergunto: se o instinto assim vos comanda e vocês não querem ou não podem controlá-lo, por que é que um não se deita com as muitas, por que é que uma não se deita com os muitos, e ficam todos mais aliviados?


         - Tareco, o que tu estás a propor é a grande rebaldaria, não é?


         - Nada disso. Apenas proponho que a espécie humana alcance o estado de graça.

 

         Exaltei-me:

 

         - Estado de graça, ó desgraçado? Só agora vejo como és tão diferente de nós... É porque nunca passaste por onde nós estamos sempre a passar. É garganta muito apertada. De um lado o juízo, com a sua balística, do outro o instinto com as suas armas brancas. Lixa-se o passante e nós passamos, compulsão, travar não conseguimos. O instinto diz-nos que tudo podemos. O juízo diz-nos que nem tudo devemos.


         - E o instinto consente nisso?


       - Que remédio... Mas vinga-se, vinga-se... Por muito prezar a condição humana, quem em si queira abafar, até ao fim, o animal que permanece, também homem não será, secura d'alma é desumana condição.


         - Afinal és tu que estás a falar como o Camões...


         - Estou? Nem tinha reparado...  Mas está a entender o que te digo?

      

         - Faço os possíveis.


         - O juízo contra o instinto, é guerra que já dura há milénios... Quem vence, caras ou cunhos? Afinal eles são as duas faces de uma mesma condição, a humana. Quem recusa o seu contrário, a si mesmo se recusa. Sabedoria será entender e em si-mesmo aceitar a luta dos seus contrários. Será impedir que um supere o outro, até que um no outro se converta, o juízo a ser instinto, o instinto a ser juízo.


        - É muito bonito o que dizes, voltaste a falar como o Camões. Mas a respeito da D. Amélia, o que eu não percebo é como...


       - Tareco! Sobre esse assunto só digo mais uma coisa. A minha vontade era chegar perto dela e dizer-lhe: estou a caminho dos setenta anos, vou passar à reforma o meu Zé Maria Pincel; a D. Amélia não quer fazer-lhe uma festa de despedida? Mas fico só na vontade, passar à acção não passo, não posso. E agora muda de assunto, ponto final, parágrafo. Percebes?


         - Fernando, tenho muita pena da vossa condição humana.


         - Não tenhas Tareco, não tenhas. Este, para nós, é que é o sal da vida, o fel e o mel.

 



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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (4) - por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 


4. O POEMA ELECTRÓNICO  

 

 

 

            De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela.  Assim:

 

                            Lei que songe senteportas do sedejo

                            aganha salgadada rogadece

                            ameia que temolve e tamortece.

                            Reti. E mavetido mavetejo

                            ana veturna a corbicar avexo

                            vatico sena toncha toda texo.

 

         É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco. Ele não se faz rogado para emitir opinião:

 

           - Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?


             - Desejo.


             - E a palavra texo?


             - Sexo.


             - Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.


           - Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado ou então a Dolores ainda me salta à garganta.


           - Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está  na tua malícia, na tua ronha.


            - Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

 

             Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.

 

             - Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?


             - Podemos dizer que sim.


             - Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.


             - És muito profundo, Tareco.


             - Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?


             - É capaz de ser.


             - Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.


        - Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?


             - Paralogismo!


           - Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?


           - Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.


             - Diz lá, Tareco.


             - Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.


             - Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?


             - No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.


           - Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.

 

             Zanzou.

 

             - Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.


             - Boa noite, Tareco, dorme bem, sonhos cor-de-rosa.


             - Eu nunca durmo.


             - Nunca dormes?


             - Nunca durmo e nunca sonho.


             - Mas que grande insónia, deves viver cansado.


             - Eu nunca me canso.


             - Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?


            - Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!

 

            Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.

 

             Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:

 

             - Acabei por decifrar os teus versos.


             - Não posso acreditar... Como é, como são?


             - São assim:      

           

                            Sei que longe, entre portas do desejo

                            a aranha da saudade agora tece

                            a teia que te envolve e te adormece.

                            Parti. E repartido me revejo

                            ave nocturna a debicar o nexo

                            cativo nessa concha do teu sexo.

          

             Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:

 

         - Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.

 

          Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?

 



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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO - (3) por Fernando Correia da Silva

 

3. PRIMEIRA CONVERSA

 

  

            Pois o Tareco foi dar uma curva pelo quintal e plantou-se à minha frente.

 

         - Eu já dei a curva. Vossa Excelência gostou?


       - Vossa Excelência? Ó meu papagaio electrónico, por acaso estás a querer gozar comigo. Vai mas é chatear o Camões!


         - Eu li Camões, chatear não sei, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.


         - És muito inteligente, Tareco. Tu tens um grande cu.


         - Inteligência? Cu? Não observo conexão.


         - É uma expressão idiomática. Sabes o que isso significa?


       - Sei pois. É um idiotismo, uma comunicação particular de um idioma, neste caso o português, e sem lógica aparente.


         - Estou espantado, és um verdadeiro sabão. Portanto, ó grande idiota, vê lá se entendes o idiotismo. Tu és muito inteligente, portanto tu tens...


         - Eu sou muito inteligente, eu tenho um grande cu.

 

         Quando tomou consciência (um robot tem consciência?) da esparrela em que caíra, embatocou, sofreu um derrame electrónico, pico de tensão nos circuitos, começou a zanzar e a gaguejar, apagou-se. Só por causa daquela conversa tão inocente ficou duas semanas na oficina e a Dolores passou-me um raspanete. Que o cérebro dele, ou lá o que é, só está organizado para o pensamento lógico. Malícia e ardis estão fora do seu alcance. Que eu não estragasse o trabalhinho em que ela, há cinco anos, queimava as pestanas. Defendo-me: a falar com a minha própria voz e a dizer coisas já com nexo, o Tareco deixara-me com os nervos em franja, perdoa lá o acontecido. Encolhe os ombros e eu volto à lide, que remédio, dollar é dollar. Saído da enfermaria, volta o Tareco à moenga:

 

         - Boa noite, Fernando. Desculpa o acontecido.


       - O culpado não és tu, ó cara de semáforo. A culpada é a tua mãe putativa. Mas, de castigo, vê lá se consegues dizer debaixo da pipa está o pinto, pia o pinto, pinga a pipa.


         - Debaixo da pipa está o pio, pita a pipa, pinga o pito.

 

            Desato a rir mas a Dolores já vem aí.  Mando o Tareco parar com o trava-línguas, e digo-lhe:

 

         - Então boa noite, Tareco. Como é que vai essa bizarria?


         - Bizarria é sinónimo de arrogância, galhardia, bazófia. Não observo conexão.


         - É outra expressão idiomática.


       - Expressão idiomática, quando dita por Fernando, pode ser malícia e esta perturba os meus circuitos. Bizarria, entrada recusada. Volto ao princípio: boa noite!


         - E o que é que tu entendes por malícia, ó ferro-velho?


      - Malícia é a tendência para o mal, é astúcia, é dizer ou interpretar com um segundo e sempre mau sentido, é um jogo aleatório com trunfos escamoteados até ao fim, circunstância que nele impede a aplicação do cálculo das probalidades. Malícia é a lógica subvertida pelo instinto e este, ao gosto das tuas alegorias, é o meu abismo, é o meu calcanhar de Aquiles, condicionalismo (ou se queres, fatalidade) da minha origem cibernética.


        - Mas que grande discurso... Leituras, lá isso tens tu. Mas ouve lá, ó fala-barato, o que é que tu entendes por instinto?


        - Instinto é um comportamento que, sem ter sido aprendido (portanto hereditário) é realizado automática e uniformemente por todos os indivíduos de uma mesma espécie, sem conhecimento quer do fim para que tende, quer da relação entre este fim e os meios empregados para o atingir. Sois diferentes de mim...


       - Ou antes, tu é que és diferente de nós. Olha o pecado do orgulho, Tareco. Safa-te dessa enquanto é tempo...


     - Corrijo: sou diferente de vós. Instinto integra um conjunto fora do alcance do meu entendimento. Fernando, ouve... oiça... Como devo tratar-vos?


       - Gostei do gaguejar, sinal que já começas a ter o verbo afinadinho. Somos amigos, somos compinchas. Tareco, trata-me por tu.


        - Fernando, somos compinchas, de verdade?


        - Já te disse que sim.


        - Então, Fernando, sê compincha e não perturba os meus circuitos, não sejas mau.


        - Tareco, eu não sou mau. Só estou a estou a treinar-te, a ver se te fazes homem, se ganhas ronha.


       - Ronha? Estamos outra vez na vizinhança do meu abismo, tu insistes. Bem disse o Samurai que tu és mau.


       - O Samurai é como se fosse o teu pai. Pensa que hás-de ser sempre criança. São formas de embalar meninos, ele não queria dizer isso.


         - Uma proposição ou é verdadeira ou falsa e não existe terceira alternativa.


         - Ah sim? Muito me contas... És muito vivo...


         - Vida é fenómeno biológico. Eu sou electrónico. Portanto não sou vivo.


         - Mas pensas, não pensas?


         - Pensar, eu penso bem.


      - Lá modéstia não te falta... Mas agora ouve lá e responde: quem tem juízo faz pela vida. Certo ou errado?


         - Certo!


         - Quem pensa bem, tem juízo. Certo ou errado?


         - Certo!


         - Logo, quem pensa bem, faz pela vida. Certo ou errado?


         - Certo!


        - O Tareco pensa bem. Logo o Tareco faz pela vida. E ao mesmo tempo, palavras tuas, o Tareco não é vivo. Sai dessa!


          - Falácia, falácia! Uma única palavra foi usada por ti com sentido duplo.


        - Nisso é que te enganas, ó monte de sucata. Tu é que recusaste o primeiro sentido e foste atrás do segundo. Ou seja, quiseste farejar a ronha que não havia, partiste os cornos. Foi ou não foi?

 

        Agitou os braços. Devem ter ido ao rubro os filamentos. Começou a gaguejar, mas um gaguejar com muita pinta, coisas da electrónica,tutumente, tutumau, realmente tu és mau. Recuou, abanou as antenas, revirou as lentes, avançou, alçou o rabo, temi que lhe desse o trangolomango mas, por fim, lá sossegou. De qualquer forma, ainda não perdi a esperança de um dia lhe provocar um curto-circuito existencial. Censurou-me:

 

         - Outra vez me empurraste para a beira do meu abismo.

 

         Respondi-lhe:

 

        - Nada disso, rapaz, isto é ronha. Nem tudo, na vida, segue as leis da lógica. Ou então a lógica é uma batata que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

        

       Desandou.


 

 



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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO (2). Por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

2. ALFABETIZAÇÃO 

 

 

 

             Não consigo ser um bom professor de fonética, o meu jeito de falar ora aos repelões, ora arrastado, à moda de Alfama, atrapalha tudo, o Tareco já não sabe de que terra é. Eu a rir com os desatinos do zingarelho falante, mas a Dolores a meter travão às quatro rodas:

 

            - Isto assim não pode ser! Vou convidar o Prof. Pena Cunha para nos dar uma ajuda.


            Convida e aí vem o linguista, também gramático afamado. E o dinheiro dos japoneses a correr, sempre a correr...

 

         O Pena Cunha fica dias e dias a conversar com a Dolores e o Samurai. Ele a badalar, o Samurai a dedilhar o teclado e a Dolores a traçar símbolos cabalísticos. Depois resolvem chamar-me. Querem que o Tareco tenha minha voz. Eu vou. Desconfiado, mas vou. Outra vez frente ao gravador eu leio as cábulas:

 

            Á como em gato, como em pá

            Â como em cama, cana, fazer

            É como em pé, como em ferro

            E como em sede, corre, regar

            Ó como em cola, como em pó

            Ô como em força, morro

            I como em vir, como em bico

            I como em pai, feito

            U como em bambu, como em azul, como em sul

            U como em correr, como em morar

            U como em pau, como em água

            B como em branco, como em ambos

 

e por ai fora até

 

            Z como em azar, como em casa.

 

           Depois a Dolores convida um outro gajo barbudo e gorducho. Tanto, que os seus alunos até o chamam de Barriga de Bicho. É o Dr. Luís Lebre, está sempre a aparecer na televisão, e o seu apelido anuncia a agilidade que não tem e nunca teve, ao que suspeito.

 

          Encosto o ouvido à porta do barracão e apanho as filigranas do Dr. Sabão:fonema, sintagma, código, mensagem, signo, símbolo, rema, glossemática, referente, ícone, índice, semiofania, entropia, metalinguística.

 

            A Dolores acaba por lhe dar uma corrida em pelo, a miúda tem alergia ao verbo que puxa ao complexo. Do que ela precisa é de ideias e palavras que de imediato possam agir ou interferir sobre coisas concretas.

 

            - Sua ignorante! (diz, como despedida, o Barriga de Bicho, enquanto empina a pança).

 

         Ainda estive para lhe acertar umas lambadas mas deixo passar em branca núvem, para não turvar os ambientes.

 

          Está a ser muito difícil a alfabetização do Tareco. O Pena Cunha é que tem uma paciência de Job e eu com ele. Sob a sua orientação, fico quatro meses a ler verbetes para o Tareco. E um dia a Dolores diz-me: 

               

        - Pai, o Tareco já tem a tua voz. Já a vou enquadrando na estrutura da nossa língua. Já leu todo o Cândido deFigueiredo, o Moraes e outros calhamaços mas ainda não consegue relacionar o nome com o nomeado. Conhecimentos tem ele, e muitos. Mas a falar é como se fosse um garoto de 3 para 4 anos. Chegou a tua vez, Pai. Faz de conta que ele é teu neto. Fala com ele, tem paciência. O Tareco precisa ouvir a tua voz, para corrigir a dele, que também é a tua. Faço-me entender? Tem calma que ele aprende depressa. Está programado para aprender depressa.

 

           Eu em brasas para ver no que ia dar a geringonça. De mansinho, aí vem o Tareco.

 

           - Bom dia, Vô.

           - Vai mas é chamar avô ao camandro!

           - Camandro não consta na minha memória. Eu pedo explicação.

           - Eu pedo, sua besta? Eu peço, eu peço... Não podes falarmelhor?

           - Eu podo.

         - Podas o quê? A rama dos teus cornos? Eu posso, eu sei, sua lata ferrugenta. Nãofazes melhor do que isso?

           - Eu tomo atenção, eu fazerei melhor.

           - Valha-nos a Senhora da Agrela, não há santa como ela.

           - Agrela não consta na memória. Peço explicação.

           - Pedes explicação? Mas que tom imperativo... Não sabes pedir por favor?

           - Por favor, eu peço explicação.

           - Bravo, Tareco. Não é fazerei, é farei.

          - Entrada satisfatória. Estou a recapitular os verbos irregulares. Não é fazerei, é farei.

           - Isso mesmo. E como é que de repente soubeste o que era certo?

           - Eu sube porque registo tudo.

        - Mas que grande calisto, é só bacoradas. Raios de te partam, não é sube é soube. Sabes que mais, Tareco? Vai dar uma curva!

 

         Pôs-se em movimento. Percorreu um alongado ziguezague pelo quintal eoutra vez se colocou à minha frente.

 

           - Eu já dei.

           - O quê?

           - Uma curva. Vossa Excelência gostou?

 

          Falar, o emplastro até já fala, parece um papagaio. E pensar? Será que alguma vez ele vai dar uma para a caixa?

 

 

 



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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - Tareco (1). Por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. O ZINGARELHO JAPONÊS 

  

  

Sempre gostei daquela frase da Pasionaria: antes morir de pie que vivir de rodillas”. Dolores é como se chama a minha filha, aliás a única. O nome pegou de raiz, a rapariga fez-se rebiteza, como a outra, a espanhola. Fez o Liceu, depois o Instituto Superior Técnico, a Informática, as Electrónicas. Atrás dela andava sempre uma alcateia de rapazes. Se ela tropeçou em algum, eu cá não sei, nem quero saber, isso é lá com ela. Mariana, a minha mulher, é que não me perdoa esta minha indiferença. Está sempre disposta a resolver tudo à peixeirada. Ou não tivesse ela sido varina, nos bons tempos. Porém agora é uma senhora, até já tem um lugar de peixe. O que não a livra de andar eternamente desconfiada; não, não e não, já lhe disse que não é indiferença, é só respeitinho pelas fronteiras de cada qual.

 

Com 23 anos a Dolores acabou o curso e foi logo convidada para uma pós-graduação nos Estados Unidos. A Mariana chorou muito. Aos 26 anos a Dolores aceitou um emprego em Tokyo. A Mãe arrepelou os cabelos, coitadinha da rapariga, agora até já está no outro lado do mundo. Raras foram as cartas que a Dolores nos escreveu. Mas ontem, ao fazer 30 anos, mandou-nos um telegrama a avisar que chegará amanhã ao aeroporto da Portela.

 

Desce do avião e a Mariana não se aguenta, beijinhos e abraços, ai minha rica filha, estás tão magrinha, come esta maçã, come! A Dolores trás um japonês a tiracolo, rapaz novo. Apresenta-mo. É nome arrevesado. Saio pela tangente:

 

         - Seja benvindo, sr. Takôku Nakara.

 

A Dolores torce o nariz. Não tarda muito começa a guinchar e a bater os pés, como fazia dantes. Corto a direito:

     

         - Minha filha, não te amofines, esse gajo aí, para mim é o Samurai, e não se fala mais nisso.

 

A Dolores enrola a língua num patuá cheio de soluços e o japonês sorri, faz uma vénia, quase bate com a testa no chão. Gostou da alcunha. Ainda bem.

 

A Mariana ficará muito inquieta. Pergunta-me se o Samurai será noivo ou namorado da nossa filha. Começa a antipatizar com ele, pois o japa só gosta de comer peixe cru.

 

         - Não te preocupes, é apenas um boy friend.

         - Mas o que é isso, ó Fernando?

         - Ora, é um desentupidor dos circuitos da placa lógica, coisas da electrónica..

 

A Mariana fica mais sossegada e a minha filha pergunta-me se pode ocupar os barracões que ficam nos fundos do meu quintal. Tenho uma casa com vista para o Tejo, herdei-a do meu avô. E no quintal tenho até duas palmeiras. Alfama, pois claro. Num socalco entre o Largo da Marinha e a rua das Escolas Gerais. Claro que pode ocupar os barracões. No dia seguinte começam a chegar caixas, caixinhas e caixotes. A Dolores conta-me que ela e o Samurai estão a trabalhar para uma multinacional japonesa. Devem montar aqui o protótipo de um robot doméstico que vai ser colocado em todos os lares europeus. Não me aguento:

 

         - Agora a menina diverte-se a brincar com brinquedos japoneses?

 

Vai aos arames mas explica-me a jogada dos amarelos: os portugueses são uma espécie de pretos mansos da Europa. MesdamesLadies Frauen ficarão mais descansadas quando o mordomo electrónico começar a falar com sotaque português.

 

         - O quê? Falar? O zingarelho vai falar?

         - Tal e qual um homem, Pai. Tu vais ver.

 

Três meses depois, vou eu a atravessar o quintal e, de repente, salta-me ao caminho uma espécie de gatão, todo em alumínio e fibra de vidro. As patas da frente levantadas, o traseiro são duas rodas motrizes, uma terceira a timonar. Antenas em vez de orelhas. Lentes em auto foco em vez de olhos. Cabo metálico, flexível, em vez de cauda, e era a tomada de energia. De rabo alçado aí vem o danado. Levanta o pescoço, mecanismo de periscópio. A cabeça é uma abóbora de vidro, transparência, luzinhas a acender e a apagar. Gira a cabeça de um lado para o outro, 360 graus, até fico tonto. Avança agora sobre mim. Precavido, levanto o pezinho. Um coice bem arreado resolve muita situação...

 

Nisto, a Dolores sai do barracão, dá um grito e a avantesma pára. A minha filha diz que vai contratar-me como professor de português do zingarelho.

 

         - Mas, Dolores, eu nem tenho o 7º ano, eu posso lá ser professor...

     - Não faz mal, Pai, do que nós precisamos é de um especialista em coloquialismo. E nisso tu és bom. Topas?

         - E carcanhóis, ó menina? É trabalho só para aquecer?

         - Para começar, 2500 dollars por mês. Topas?

         - Topo! Toca aqui.

 

Não tocou. Abraçou-me e beijou-me. O Samurai é que veio, cheio de mesuras, a apertar-me a mão. Nas vésperas da minha reforma de tipógrafo, juntamente com os lucros do lugar da Mariana, aquele dinheirinho extra vinha aquecer o meu orçamento.

 

Mas não acredito que o zingarelho venha a falar. A Mariana e o Samurai julgam que falar é só armar aos sons. Não sabem das contravoltas misteriosas que há no verbo. Fico horas e horas defronte de um gravador cheio de botões, painéis e curvas luminosas. A Dolores manda e eu falo o que me dá mona. Dias depois o Tareco já está a falar com a minha voz. Porém, mais parece um inglês, treinador de futebol, a falar português. Até que um dia, lá no quintal, o zingarelho pára diante de mim, saúda e eu espantado:

 

           - Bô diá, sinô Fenandô!

 

Dou um salto atrás, faço figas.

 

         - Vade retro Satanás, cruzes Canhoto, t'arrenego Tareco!

 

Lá vem a Dolores a correr, a rir e a bater palmas:

 

         - Tareco é um grande nome! Ó paizinho, tiveste um grande desarrincanço.

 

 E Tareco fica sendo aquele feloso. Pô-lo a falar língua de gente é que vai ser o diabo. Estou para ver...

 

 

(Continua)



publicado por João Machado às 15:00
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012
UM CAFÉ NA INTERNET - TARECO - por Fernando Correia da Silva

 

 

 Já publicado no Estrolabio em 17 de Fevereiro de 2011

                                                                                           

 

 

 

 

 

 

De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela.  Assim:

 

                                   Lei que songe senteportas do sedejo

                                   aganha salgadada rogadece

                                   ameia que temolve e tamortece.

                                   Reti. E mavetido mavetejo

                                   ana veturna a corbicar avexo

                                   vatico sena toncha toda texo.

 

         É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco, o meu robot. Ele não se faz rogado para emitir opinião:

 

           - Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?


            - Desejo.


            - E a palavra texo?


            - Sexo.


            - Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.


         - Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado.


           - Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está  na tua malícia, na tua ronha.

 

            - Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

 

            Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.

 

            - Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?


            - Podemos dizer que sim.


            - Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.


            - És muito profundo, Tareco.


            - Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?


            - É capaz de ser.


            - Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.


        - Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?


            - Paralogismo!


          - Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?


            - Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.


            - Diz lá, Tareco.


            - Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.


            - Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?


            - No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.


         - Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.

 

            Zanzou.

 

            - Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.


            - Boa noite, Tareco, dorme bem, sonhos cor-de-rosa.


            - Eu nunca durmo.


            - Nunca dormes?


            - Nunca durmo e nunca sonho.


            - Mas que grande insónia, deves viver cansado.


            - Eu nunca me canso.


            - Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?


            - Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!

 

            Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.

 

            Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:

 

            - Acabei por decifrar os teus versos.


            - Não posso acreditar... Como é, como são?


            - São assim: 

           

                                   Sei que longe, entre portas do desejo

                                   a aranha da saudade agora tece

                                   a teia que te envolve e te adormece.

                                   Parti. E repartido me revejo

                                   ave nocturna a debicar o nexo

                                   cativo nessa concha do teu sexo.


              Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:

 

                - Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.

 

               Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?

 



publicado por João Machado às 15:00
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
O Primeiro Amor - por Miguel Esteves Cardoso

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.

 

Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.

 

O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.

 

Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.

 

É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.

 

O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na mão de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas estão a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.

 

O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só no primeiro amor.

 

Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.

 

Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.

 

Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana - desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.

 

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».

 

Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes - os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.

 

Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.

 

Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».

 

É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.

 

(in Os Meus Problemas - Assírio & Alvim Colecção: Peninsulares, Lisboa, 1988)



publicado por Carlos Loures às 01:00
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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
UM CAFÉ NA INTERNET - A NOVA DIÁSPORA PORTUGUESA - EMIGRAR NO SÉCULO XXI. Por Júlio Marques Mota

 Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos viajantes nesta barca e por estas águas a descobrir já  habituados

 

A cultura está mesmo muito por baixo. Haja boa intenção e talvez tudo se arrange, tudo se resolva. O Primeiro-Ministro sugere, o Presidente da Répública parece aceitar e alguns a proposta querem à juventude estender: é preciso emigrar.

 

Das duas uma, ou o fazemos à toa e por esse mundo fora nos perdemos, ou então pedimos a especialistas que nos ensinem.

 

Destas duas hipóteses, a segunda é claramente melhor pelo que sugiro que na Universidade da Ignorância deste país e para isso qualquer ponto da mesma  Umiversidade nos serve, devemos então organizar um curso de doutoramento com as seguintes disciplinas:

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dado o alto nível dos agentes de ensino convidados e na tabela acima referenciados poderíamos mesmo pensar num curso pós-doc financiado a partir da tributação dos encargos pagos à Troika por virem cá confirmar como andam as nossas misérias, dinheiro que seria depositado no mesmo paraíso fiscal em que uma ou outra Instituição da União Europeia, embora menores, terão depositado já o seu dinheiro.


Neste contexto e na linha da prática governamental seria um bom serviço que lhes seria oferecido.

 

Uma outra alternativa era servir não o governo mas sim o país e então fazer cair pela rua, como meio de consciencialização, e pelas urnas como meio de decisão, o bando que este país anda a assaltar.

 

Júlio Marques Mota 



publicado por João Machado às 15:00
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ARGONAUTAS

Adão Cruz

Afonso da Rocha Aguiar

Aleksandra Serbim

Álvaro José Ferreira

Amadeu Ferreira

Ana Afonso Guerreiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Mão de Ferro

António Marques

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Dorindo Carvalho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Pereira Marques

Francisca da Rocha Aguiar

François Morin

Hélder Costa

João Brito Sousa

João Machado

João Vasco de Castro

Joaquim Magalhães dos Santos

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Goulão

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Peres Lopes

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Margarida Antunes

Margarida Ruivaco

Maria Inês Aguiar

Mário Nuti

Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)

Moisés Cayetano Rosado

Octopus

Paulo Ferreira da Cunha

Paulo Rato

Paulo Serra

Pedro Godinho

Pedro de Pezarat Correia

Raúl Iturra

Roberto Vecchi

Rui de Oliveira

Rui Rosado Vieira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Vasco Lourenço

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