Hélia Correia Sul
(Adão Cruz)
Aquele não era o som da peste, pensou Joan. Não tinha, como têm os lamentos, uma direcção certa; não buscava um efeito contra as portas cerradas do céu e do inferno. Havia um brado, a rouquidão de um esforço. E um emaranhado de rumores que lhe seria fácil ordenar, pegando-lhes nas pontas um a um, isolando as camadas de modo a poder dar-lhes um nome e um motivo. Nada, porém, gerado pela terra costumava merecer-lhe uma atenção.
No seu terraço, olhava para as estrelas. E estava ali faziam tantos anos que nem mesmo o mais velho dos vizinhos se lembrava de o ter visto chegar. Visitavam-no às vezes mancebos de liteira e velhos que tremiam nos seus gibões escarlates. Mas também os peixeiros e mesmo os que viviam nos cantos das ruelas na esperança de um frete ou de um bom roubo trepavam pela escada em caracol que os conduzia até Joan de Sória para que ele decifrasse na vontade dos astros que fortuna aguardava os seus recém-nascidos. Era uma espécie de revolução o facto de um plebeu e até um vadio poderem consultar para os seus filhos os livros de uma ciência que passara de credo a credo e de regime para regime porque a todos servira sem um estremecimento.
O povo amava e alimentava Micer Joan, mas uma coisa e outra às escondidas. Quando, ao raiar do sol, ele se encostava sobre o grande baú que era o seu leito, via poisada no tijolo da braseira uma escudela cheia com as papas de milho e às vezes a cabeça de um peixe a fumegar. Entre as mulheres que o assistiam e as fadas. Joan não encontrava substancial diferença. Mesmo no fim das noites de maior lucidez em que a doce tontura do cansaço era o mais desejado dos prazeres ele encharcava a cara e bocejava, sentava-se a comer com ruidosas exclamações de apreço para as não ofender nos seus desvelos.
Pelo contrário, os nobres queriam-lhe um certo mal pois os desastres de que os avisara haviam quase todos sucedido. E não sabiam se Micer Joan lhes dera a conhecer os seus destinos traçados muito antes de eles nascerem, no início das eras do universo, pela mão que aprecia e distribui a dor — ou se, com nomeá-los, ele é que os inscrevia numa folha que Deus deixara limpa mas não suficientemente resguardada. A curiosidade e o medo eram, no entanto, mais fortes que essa dúvida e os fidalgos, já que Joan de Sória recusava sair ainda que fosse o rei a convocá-lo, vinham vê-lo na plena luz do dia. sem o menor disfarce, levando à frente os moços que se davam os braços para não escorregarem nas podridões da rua e recolhendo as capas que corriam o risco de lhes ficarem presas nos varandins de tábua, mais baixos do que os ombros de qualquer cavaleiro. Não queriam revelar a repugnância com que se sujeitavam a buscá-lo.
Micer Joan gostava daqueles bairros. E, do seu torreão de adobe e pedra, pairava sobre o peso, a sujidade, as tarefas despóticas dos homens. Mentia um pouco, o menos que podia, somente o necessário para os aliviar quando estavam a ponto de lançar fogo às casas num grande desespero.
Eva Cruz O jardim de Raquel
(Manuel Cruz)
O jardim de Raquel abre-se ao sol
caindo da Serra
uma coberta de retalhos
tecida de mil aromas
borda a pedra do tanque grande.
Entrelaçam ervilhas de cheiro
os toros das couves galegas
esporas azuis na cidreira e na hortelã
abraçam-se pica-narizes e alecrim
e os cosmes cor-de-rosa
chamam os pintassilgos ao cair da tarde.
Malmequeres de muitas cores
e amores-perfeitos
desdenham da singeleza
dos miosótis azul-sulfato
que bebem a água do rego da mina.
As tímidas flores da rama das batatas
estendem o jardim pelo campo fora
fundindo verdes
no verde de todo o Vale.
Raquel desprende-se da pedra do tanque
veste-se da cor dos cosmes
enche a vida de flores
e voa na brisa que afaga o seu jardim.
No regresso do tempo sonhado
à beira do tanque grande
só um pintassilgo volta
ainda
Bernardo Sassetti "Seria muito infeliz se me dedicasse só à música"
Entrevista realizada por Laurinda Alves para a revista "Xis" saída com o PÚBLICO de 18 de Março de 2006
(foto de Pedro Cunha)
A sua música, inspirada e inspiradora, transborda de emoções. Não gosta da exposição mediática e protege-se dos excessos. Conserva a mesma pureza de coração que tinha quando começou a tocar e a compor. Enche plateias e é sempre aplaudido de pé.
Está com um ar tranquilo e feliz. De onde vem a sua felicidade?
De muitas coisas... Dos projectos muito entusiasmantes que tenho pela frente, mas acima de tudo por ter encontrado o equilíbrio entre o trabalho e a coisa mais importante na vida, que é a família.
Fala do amor?
Sim, naturalmente do amor e da partilha. Mas penso mais do que falo. Tem sido muito importante para mim a paternidade, olhar para as minhas filhas e perceber muito mais coisas da vida. Elas ajudam-me a relativizar outras que me preocupavam no passado.
O que é que mais o fascina na paternidade?
O que me fascina realmente é tudo o que já foi escrito de bom, de positivo e de construtivo, mas há um aspecto que eu gosto muito, que é rever-me naqueles seres tão fascinantes e que me podem ensinar tanto. Através das minhas filhas consigo, pela primeira vez na minha vida, ter tempo para pensar um bocado nas memórias que tenho do passado e que muitas vezes esqueci. A memória dos tempos familiares e das coisas que me aconteceram na infância. É bom chegar a um ponto da nossa vida em que percebemos que o trabalho é interessante mas existem coisas muito mais importantes.
O trabalho não nos completa como seres humanos?
De maneira nenhuma.
Trabalha muito?
Sim, mas seria muito infeliz se me dedicasse só à música ou ao trabalho. Chega a ser angustiante, porque a música é uma forma de representação de qualquer coisa que está cá dentro. Do imaginário abstracto ou de memórias que não consigo exprimir por palavras. Isto parece-me evidente para qualquer pessoa que se dedique à composição.
Fala de memórias e dessa massa abstracta que são os sentimentos e as emoções?
Exactamente. O que acontece é que este processo de desenvolvimento musical relativo à nossa vida pode ser muito angustiante e, sobretudo, pode fazer de nós seres desumanos. Há uma expressão muito engraçada que é o "Bernardo eremita" que é um ser que se esconde numa concha e sobrevive sozinho.
Alguma vez se sentiu "Bernardo eremita"?
Sim, na altura da minha aprendizagem. Hoje estou cada vez mais convencido de que tinha interesses muito especiais relativamente às pessoas com quem me dava e sei que vivi com uma obsessão durante anos: aprender não só a linguagem musical mas, sobretudo, a linguagem do jazz que é tão difícil em Portugal. Conseguir ter acesso à informação naquela altura, nos princípios dos anos 80, não foi nada fácil.
Quantos anos tinha?
Comecei, realmente, com 14 anos.
Fala em obsessão e gostava que explicasse melhor porque usa essa expressão.
Pois, é um bocado forte mas às vezes utilizo termos que podem parecer excessivos. Era uma obsessão porque eu vivia com as imagens daqueles sons diariamente. Não só ao piano, sozinho, como na rua a ir para o liceu. Vivia diariamente com a ideia de que um dia ia conseguir tocar aquela música.
Que música era essa? Era só o jazz que já conhecia ou era a música que tinha dentro de si?
Acho que eram as duas mas, nessa altura, eu não tinha capacidade para pensar muito bem naquilo que queria. Até cheguei a uma fase em que me apetecia desistir da música. Foi num período em que estagnei um bocado. Era preciso dar um salto qualquer.
Quantos anos de estudo musical já tinha?
Cinco anos, mais ou menos. A minha forma de estudar foi muito pouco ortodoxa porque tive sempre professores particulares.
Foi uma aposta do seu pai ou da sua mãe?
Foi uma aposta que eu decidi enfrentar. A música sempre fez parte da vida daquela casa, dos meus irmãos e, sobretudo, do meu pai. Ele sempre tentou transmitirnos o gosto pela música e pela sua compreensão. Lembro-me de passar muitas horas sentado ao lado do meu pai com ele a explicar-me a música e o contexto de algumas óperas enquanto eu via e seguia partituras muito antigas que tinha lá em casa.
E isso era feito em esforço?
Era fascinante e até era iniciativa minha. Depois, naturalmente, vieram os ensinamentos do meu pai. Tudo isso faz parte das minhas memórias de família.
Quem é que percebeu primeiro que tinha um grande talento?
Ninguém...
Até hoje ninguém? [risos]
Era difícil, sabe?! Levou muito tempo a todas as pessoas da minha família, pais e irmãos, a perceber que a música já fazia parte da minha vida.
Quantos são ao todo?
Somos oito irmãos. O meus pais têm 25 netos. Somos uma família grande.
Todos ligados à música?
Não, só o meu irmão Francisco, também em piano. Os meus outros irmãos têm profissões sérias [risos].
O seu pai tocava?
Não tocava mas sabia e sabe muito de música.
Tem bom ouvido também?
Muito bom ouvido e uma memória invejável das coisas, dos lugares e de textos que leu há mais de 50 anos. Tudo isso se nota na forma como ele nos transmite as coisas e os conhecimentos.
Tzvetan Todorov “La democracia incumple su espíritu”
(Tzvetan Todorov. Ensayista, autor de Los enemigos íntimos de la democracia)
Entrevista de Juan Cruz publicada no suplemento Cultura do El País em 29 de Abril de 2012
Tzvetan Todorov nació en Sofía, Bulgaria, en 1939, vive en Francia desde 1963 y es un gran lingüista que en las últimas décadas se ha dedicado a mirar heridas sobre las que el mundo se pregunta poco. Ahora le ha tocado hurgar en la democracia: ¿es tan buena como parece?, ¿hace siempre el bien?, ¿no será que disfraza de bien el mal en ocasiones? ¿Se siente legitimada, como Napoleón, para causar los desastres de la guerra que invoca Goya (sobre el que ha escrito un libro) en nombre de la ilustración democrática que predica? El libro en el que lanza estas preguntas es Los enemigos íntimos de la democracia (Galaxia Gutenberg) y produce desasosiego. Todorov se muestra ahí como si estuviera descubriendo ángulos oscuros en un cuarto en el que advierte que el mejor juguete está roto. Y actúa como el niño del cuento El rey desnudo.
Pregunta. Dice que nuestro tiempo se caracteriza por el proceso de civilización, pero ilustra un estado de embrutecimiento. ¿Cuál era su estado de ánimo al escribir este libro?
Respuesta. Creo que mi estado de ánimo era diferente del que tuve al escribir mis libros anteriores sobre temática política. En esos otros libros mi postura siempre fue la de defender la democracia contra sus enemigos. Como provengo de una parte del mundo que se oponía a la democracia y yo consideraba eso el mal, desde que vivo en Francia siempre preferí la democracia. Sin embargo, ya llevo dos tercios de mi vida aquí y me he dado cuenta de que, con el tiempo, me he vuelto cada vez más crítico con la democracia. No porque esté en contra de sus principios, sino porque creo que esos principios están pervertidos y que no vivimos verdaderamente en una democracia. Por eso me sentí identificado con las palabras que gritaban los indignados en España: “¡Democracia real ya!”. Estuve en Santander, en los cursos de verano, y entonces hubo muchas manifestaciones y me chocó. Me di cuenta de lo diferente que era Europa cuando emigré y ahora. Antes lo que gritaba la gente joven era: “¡Revolución ya!”. Y años más tarde lo que piden es: “Democracia ya”. Esto es muy significativo. Quiere decir que la democracia ya no está presente. Es aún un ideal por el que se tiene que luchar.
P. Y eso marca su pensamiento.
R. Lo que sentí al escribir este libro era que tenía que azuzar a mis contemporáneos. A pesar de que no es un ataque a la democracia (ni soy comunista ni un terrorista islámico), sentía la necesidad de decirles que la democracia no cumple con sus promesas. Intenté demostrar que la democracia en la que vivimos hoy día es contraria al espíritu real de la democracia.
P. Usted dice que los indignados siguen buscando una fórmula. ¿Usted realmente cree que hay un remedio? ¿Cuál es la enfermedad?
R. Creo que hay muchas enfermedades, pero no hablo de todas. Como ciudadano individual soy más sensible a unas que a otras. Algunas ni siquiera tienen que ver con la vida diaria, sino con la situación geopolítica. Esto es lo que me enfurece más. España por lo menos es más moderada en sus posturas internacionales…, ¡pero Francia! Estamos viviendo un momento de la historia en que nos creemos que somos la encarnación perfecta de la democracia. Consideramos legítimo trasladarnos a otros países e imponer democracia a la fuerza. Goya, en Los desastres de la guerra, no solo ataca a los invasores franceses, sino que demuestra las consecuencias de la guerra. La guerra es más poderosa que las razones por las que se va a la guerra. Hoy casi todas las guerras que lidera Occidente se presentan como si fueran humanitarias. Sentimos que se debe llevar la democracia allí donde sentimos su falta.
P. Lo que hizo Napoleón.
R. Es para mí muy importante insistir en que esta actitud es la continuación del convencimiento francés de que, creyéndose la mejor civilización, podía invadir España, Alemania, Italia, Egipto… Y lo mismo sirve para los demás países europeos que han invadido África y Asia. Eso es lo que yo llamo mesianismo político. Es una perversión muy peligrosa de la democracia. Decimos que es en nombre de la democracia, pero resulta que al final acabamos creando situaciones como Abu Graib o Guantánamo, levantando fronteras aquí y allá. Esta es una de las mayores perversiones existentes en la geopolítica actual. Pero en mi libro menciono dos enfermedades importantes de la democracia. La otra es la dominación neoliberal que destruye el frágil equilibrio de los fundamentos de la democracia, que son la libertad individual y la preocupación por el bien común. En la última década se ha desarrollado una ideología nueva que rompe con eso. Pretendemos que el único rol del Estado es desmantelar todas las legislaciones que protegen a los trabajadores para darles lo que se les antoja a los reyes de la economía. El poder no tiene límite. Sin embargo, una de las fórmulas de la democracia la dio Montesquieu: ningún poder ilimitado puede ser legítimo.
P. Ahora el poder económico es el que importa.
R. Y si el poder político se pone a las órdenes del poder económico estamos perdidos. Nos estamos volviendo igual de radicales que el totalitarismo comunista, ese en el que todo está dominado por el interés colectivo y no queda nada para la iniciativa personal. Nuestro sistema es igual de radical, pero al revés. Está dominado por el interés personal y ninguna intervención del Estado trabaja en nombre del interés colectivo. Eso que llamamos el Estado de bienestar. Pero los gurús dicen que aquello es mejor para la economía. Como si las personas no importaran.
P. Ha pasado en Italia y en Grecia: el poder político está en manos de exbanqueros que no han sido elegidos democráticamente. ¿Cómo puede ocurrir esto en Europa?
R. Efectivamente, ¿cómo? Y esto nos lleva a hablar del tema de los remedios que hay que administrar a las enfermedades íntimas de la democracia. En Grecia, el Gobierno elegido democráticamente fue reemplazado por un banquero. Lo mismo ocurrió con Monti en Italia, que vino de trabajar para los grandes bancos de Nueva York. En España, aunque hemos asistido a un cambio de la izquierda a la derecha, el primer ministro ha obedecido enseguida las normas que le ha impuesto el FMI. Etcétera. De hecho, las economías europeas están “hiperpenetrándose” y el único cambio que puede venir es de la Unión Europea. Aunque esto será difícil porque hoy día la UE está dirigida por los Gobiernos más poderosos de la Unión y no por un parlamento elegido.
P. Europa ya no es la mejor idea.
R. A mi gran pesar, la Unión Europea no es una entidad democrática ni política. Hace falta una crisis aún mayor para que obliguemos a la Unión Europea a ser mejor. ¿Qué podemos hacer? Primero, debemos ganar la batalla de la opinión pública. Mi libro va encaminado hacia ello y espero que haya más aportaciones. Hay que concienciar a la gente de que hay que cambiar, que hay mejores formas de resistencia a los poderes del mercado. ¿Por qué creemos ciegamente en gente que solo piensa en sus intereses personales? ¿Por qué creemos que ellos tienen la mejor solución?
P. Parece que ahora, para encontrar soluciones, es preferible ir a los mercados que al Parlamento.
R. Pero si pensamos eso, estamos fuera de la democracia. El poder político controla los demás. Hay que dar poder a las personas. Ese es el significado de la democracia. En lugar de que el poder esté en manos de la comunidad, y a favor de ella, es la tiranía de unos cuantos. Mire lo que ocurrió en Estados Unidos, donde el presidente no pudo imponer ni una reforma sanitaria porque las aseguradoras se organizaron y crearon tal resistencia que pudieron acabar con la iniciativa. Ya no existe la regla básica de la democracia, que ningún poder absoluto debe ser legítimo. Pero las corporaciones tienen el poder absoluto. Pueden comprarle la elección a un senador. Y esto es muy peligroso porque se convierte en plutocracia.
P. En sus reflexiones sobre las guerras que impone Occidente, usted se detiene en la aberración de la tortura, presentada por Estados Unidos, por ejemplo, como una posibilidad de atajar el mal.
R. Es increíble. La tortura es algo tan vergonzoso, pero es aún peor si se convierte en la política oficial de una democracia. Es una contradicción y es inaceptable. Los franceses torturaron a sus enemigos en la guerra de Argelia. El Gobierno argentino torturó a sus enemigos. Pero nunca lo aceptaron públicamente.
P. Usted reproduce las indicaciones oficiales para que la tortura fuera más eficaz. En Abu Graib, por ejemplo, para imponer la democracia. El mal que surge del bien, dice usted.
R. La palabra libertad es tan atractiva que todo el mundo la utiliza. Los tiranos, cuando suben al poder, dicen que a partir de entonces la población será libre. Sin embargo, yo, que me crie en un régimen que explícitamente limitaba la libertad individual, me impresionaba que los partidos de la más extrema derecha europea usaran la palabra libertad en los títulos de sus discursos. Al poner esa palabra ahí se sentían con el derecho a pasar de las leyes y sus limitaciones. Pasaban del respeto a la vida y atacaban a sus enemigos de la manera más viciosa que existe. Lo mismo ocurre hoy con el liberalismo. Es una ideología que pretende que no haya más valor que la libertad individual, y no creo que eso sea verdad. Me gusta citar a un cura francés del siglo XIX (Henri Lacordaire) que dijo que tanto los ricos como los pobres, los poderosos y los que no tienen poder, son protegidos por la ley, pero la libertad los aprisiona. Creo que él logra condensar esta verdad en una sola frase. No es la libertad la que libera, sino la ley.
P. ¿Usted se siente solo o casi solo en esta apreciación de las amenazas que tiene la democracia en su propio seno?
R. No. Eso sería demasiado pretencioso por mi parte. Las guerras humanitarias o preventivas y sus componentes antidemocráticos han sido discutidas por una minoría de escritores, y existen libros que denuncian “el imperialismo humanitario”. El neoliberalismo y sus efectos también tiene muchos enemigos. Y el populismo también. Lo que he intentado hacer es dar una imagen global de esas amenazas de las que la democracia debe defenderse. Creo que el rol de los intelectuales no es seguir la corriente, sino perseguir la libertad, preguntarse por ella, y transmitir los resultados de su pesquisa. Y no tener miedo.
Pablo Neruda La Lâmpara Marina
(Adão Cruz)
Ethel Feldman Augusto
(Adão Cruz)
Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado levou a mão à boca numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência. Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?
Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.
Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.
Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã. Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.
Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.
Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado. O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.
O que é ler? (II)
Branquinho da Fonseca A Prova de Força
Branquinho da Fonseca (1905-1974)
Cursou Direito na Universidade de Coimbra e aí fez parte do grupo da revista Presença (com José Régio e João Gaspar Simões), da qual se desligou em 1930 para fundar (com Miguel Torga) uma outra publicação, Sinal. Entre 1936-38, colaborou no Manifesto, outra revista literária da época. Exerceu as profissões de conservador do Registo Civil, director do Museu e do serviço (por ele criado) de bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Os seus primeiros livros apareceram sob o pseudónimo de António Madeira.
Obras principais: Conto: Zonas (1931), Caminhos Magnéticos (1938) , Rio Turvo (1945), Bandeira Preta (1956); Romance e Novela: O Barão (1942), Porta de Minerva (1947), Mar Santo (1952).
- O senhor também gosta de ver os navios?...
Era um velho de cabelos brancos e olhos azuis, com as mãos enfiadas nos bolsos dum casaco de boa fazenda escocesa, onde uns traços mais escuros formavam grandes quadrados. Mas as calças desbotadas esfiampavam-se de velhas. Também o casaco.
Ao sorriso amargo da sua interrogação respondi com a contrariedade de quem vai ouvir um pedido de esmola justificado numa história vulgar.
- Trabalha-se a valer... — respondi, numa evasiva à pergunta, como se não quisesse confidenciar gostos a um desconhecido.
Meti a mão no bolso das calças, para tirar o porta-moedas, mas hesitei, reparando melhor naquele homem que me fitava com um olhar vago, como se já não estivesse a ver-me. Agora o seu sorriso era longínquo e irónico, talvez reflectido duma memória antiga, onde estava verdadeira essa expressão de superioridade. E acrescentei:
- Isto é interessante. Tem cor e movimento...
Achei-me ridículo ao dizer esta frase que não significava nada para aquele homem. Para mim também não eram só isso, aqueles navios e comboios, as docas, os guindastes, o formigar de gente, que se via daquele jardim como um terraço sobre o rio.
- Já andei naqueles barcos... Naqueles, não; noutros como aqueles... Fez bem em não falar de aventuras... (Esta expressão «Fez bem» colocou-o de repente numa posição de superioridade em relação a mim.) Em não falar de sonhos de países desconhecidos, dessas coisas que são mentiras... Vamos lá para ganhar dinheiro, roubar, jogar dobrado contra singelo, fugir às leis... E às vezes até parecemos uns homens fortes... No fim de contas é só o dinheiro e o amor.
Fez uma pausa. E eu olhei em volta, a procurar nas caras das pessoas que estavam por ali perto uma informação a respeito deste "filósofo" que falava comigo. Talvez estivessem a rir-se dele, ou de mim, que o ouvia com atenção. Era, com certeza, um maníaco já bem conhecido dos frequentadores daquele jardim público onde eu tinha parado por acaso, nessa tarde em que passeava sem destino. Mas os três ou quatro homens que estavam encostados às grades, olhavam também lá para baixo, para os navios atracados às muralhas, ao longo do rio, ou amontoados nas docas. Vinha um martelar estridente e compassado, dum velho cargueiro onde faziam reparações e pinturas; ao lado de um outro, de porões abertos, dois guindastes descarregavam lingadas de sacos. Ao longe, pequenos barcos pintados de branco atravessavam o rio cinzento. E as gaivotas, em voos serenos, pairavam, atentas, sobre os lugares onde descarregavam peixe ou desaguavam os canos de esgoto. Nos topos dos mastros, bandeiras de várias cores caíam sem vento. E um grande paquete estrangeiro dormia encostado ao cais, abandonado.
Um grupo de rapazes invadiu o jardim e numa das ruas brancas de saibro começou a jogar a bola.
Eu não me tinha esquecido do velho, mas julgava que ele não tivesse mais nada para me dizer. E seguia as primeiras fases da luta desportiva, quando lhe ouvi a voz, que continuava:
- ...Ou tudo ou nada: de cada coisa que temos na mão. Ou tudo ou nada. Puxar de um lado, não. Os outros têm de largar. Por exemplo: as mulheres...
Olhei-o com desconfiança. Era um louco. Não porque falar de mulheres seja uma loucura. Mas é uma fraqueza ou uma vaidade... E um velho não tem essas fraquezas nem essas vaidades. Ou então era um poeta.
Compreendi que para o seu monólogo íntimo precisava de ter na frente outra pessoa. Por isso falava diante de mim, que lhe tinha calhado na hora própria. E percebi na sua voz serena um tom de fina ironia para consigo mesmo.
- As mulheres não são como uma maçã que se pode comer toda. As mulheres pensam... E o pensamento foge. É preciso descobrir-lhe a direcção e fazê-lo esbarrar. E a nossa prova de força... Filósofo, filósofo, diz bem...
Com um sorriso de condescendência deixei-o imaginar o que eu não dizia nem pensava. De repente mudou de tom e perguntou-me com uma voz tranquila de indiferença:
- O senhor é casado?
- Não.
- Eu sou. - Tinha tirado o cachimbo e carregava-o devagar, com o dedo curto e largo como uma barbatana, lentamente, como se praticasse um acto de ritual que deve demorar certo tempo. - Sou...legalmente. Quer dizer: separei-me. Era escriturário na Alfândega e conheci-a no Jardim Zoológico, num domingo no Verão, quando estávamos a ver um hipopotamozinho que tinha lá nascido. Não gosto dos hipopótamos. Têm um ar estúpido. Compare com os ursos: esses, sim, são inteligentes e têm graça. Eu vou ao Jardim Zoológico só pelos ursos. E pelos pássaros... Também tenho pássaros. Andam pela casa toda. Sempre é uma gaiola maior. Pus redes nas janelas.
- Sujam tudo.
Olhou-me com desconfiança.
- O senhor também tem a mania das limpezas?
- A mania, não. Mas há coisas que têm de estar limpas.
- Sim. Há coisas que têm de estar limpas. E estão. É fácil. Bem vê, é como se vivesse na gaiola dos pássaros. - E riu-se com bom humor. - Tenho as minhas coisas guardadas nuns armários. E o resto é todos os dias limpo como uma boa gaiola. Das coisas que gostamos de fazer porque não havemos de fazer, ao menos, as que podemos? Eu não defendo os exageros de liberdade. Só para certas pessoas, para haver progresso...Mas o hipopotamozinho era feio. E eu disse em voz alta: «Irra, que é feio!» Como uma opinião pode modificar a nossa vida! Ela olhou para mim e vi que era bonita. Casámos e as minhas teorias começaram a bater certas: domínio e mitologia. Na Grécia os deuses estavam no Olimpo. Quando desciam, eram homens. Nas outras religiões são invisíveis. A distância engrandece tudo, porque deixa o espaço para a imaginação. O espaço e o tempo. Eu era escriturário da Alfândega: não dá prestígio para muito tempo: um conto e duzentos. E tudo sempre mais caro... De tal maneira que um dia começou a falar de navios e das fardas dos oficiais. Quando uma mulher começa a falar de navios, não tenha dúvidas, está tudo perdido. Então todos os nossos passeios passaram a ser aqui pelas docas, pelos cais, visitávamos os navios, grandes e pequenos, tudo... Era infalível. Pó de carvão, berros, obscenidades. Desiludiu-se. E eu deixei a Alfândega e arranjei um lugar de convés, no «Zoavo», um petroleiro que andava na carreira da Venezuela. Tinha uma farda e fiz os meus negócios... Atirei-a para o luxo. Evitar as distâncias... Bem sabia o perigo, bem sabia... E contava-lhe histórias. Histórias com moral...
Eu observava-o com atenção, com a curiosidade que pode despertar uma figura estranha, que nos vem contar uma história extravagante. Puxou-me pelo braço e indicou, ao longe, um ponto no meio do rio:
- O passeio de barco. Era um simples passeio por causa do calor. Agradável... «Aqui sou eu o "capitão!"», berrei. E pus-me em pé no barco. Deu um grande balanço e ela começou a gritar. É negra, a água do rio... Se eu não tivesse caído de costas no meio do barco, talvez não tivesse acontecido mais nada. Mas levantei-me, furioso. Quer dizer, fiquei de joelhos, a bater no peito com o punho fechado e a gritar «O "capitão" sou eu! Aqui sou eu!»...
Vi-lhe os olhos vidrados de lágrimas. E batia no peito, com murros que soavam a oco. De repente passou-lhe aquele ataque de fúria e, olhando para mim, com uma expressão de humildade, disse numa voz doce:
- Choro com facilidade... Não quer dizer nada... Porque é que fiquei ali de joelhos, diante dela, a chorar? Para lhe provar a minha autoridade e a minha força, meti-lhe medo e fiz-me ridículo... Nem tinha provas de que ela fosse amante do tal capitão... Mas nunca mais podia ser o mesmo homem que tinha sido até ali. E quando me pus em pé o barquito virou-se...
Com as duas mãos enclavinhadas na grade do jardim, olhava lá para baixo como se estivesse agarrado à borda do barco que se virava. Depois de um longo silêncio, apontou para o cais onde formigavam homens que deixavam o trabalho, camiões e bicicletas, e com o dedo, numa voz natural, como se eu dali pudesse distingui-lo:
- O Rola... Anda no «Guiné»...
E piscou-me o olho, como quem sabe coisas. Ainda tinha na mão o cachimbo apagado. Meteu-o entre os dentes e rosnou:
- Tem um fósforo?
Dei-lhe a caixa e enquanto, com a mão, protegia a chama e puxava as primeiras fumaças, ia resmungando:
- Então o senhor também gosta de navios... (Lá. vem o Rola... Já traz a «coca»...) Também gosta de navios... Faz bem à alma... faz bem...
(in Rio Turvo, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 1997, l.a ed. 1945.)
António Gedeão Calçada de Carriche
.
(Adão Cruz)
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
|
leva a lancheira desengonçada. Anda Luísa, Luísa sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. |
|
Luísa é nova, desenxovalhada, tem perna gorda, bem torneada. Ferve-lhe o sangue de afogueada; saltam-lhe os peitos na caminhada. Anda Luísa, Luísa sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. |
|
Passam magalas, rapaziada, palpam-lhe as coxas, não dá por nada.
|
António Lobo Antunes «A cultura é perigosa e assusta o poder»
O escritor António Lobo Antunes considera que os portugueses têm tido uma
paciência «inexcedível» para suportar a actual situação
(estas declarações foram publicadas em 21 de Novembro de 2011 na tvi24 online mas, por serem tão actuais, vale a pena relê-las)
António Lobo Antunes fez este sábado um «acto de protesto» ao estado da cultura em Portugal, traduzido numa conversa com leitores, a propósito do seu último livro «Comissão de Lágrimas», refere a Lusa.
«Numa altura tão difícil e injusta, que os portugueses têm aguentado com uma paciência que eu considero inexcedível, em que vivemos num neofascismo capitalista, que afasta ainda mais as pessoas da cultura e dos livros, estar aqui hoje é, também, um acto de protesto», disse António Lobo Antunes, na livraria Pátio das Letras, em Faro.
Num registo informal, perante uma sala lotada, com perto de uma centena de pessoas, o escritor respondeu às várias questões colocadas pela assistência, falou do seu último livro e teceu críticas ao estado da cultura em Portugal, alertando para o excesso de lixo televisivo, a falta de programas culturais e a inexistência de bons livros.
«Tudo isto é altamente conveniente para o poder político, que, na realidade, é o poder económico, porque um povo culto não consente este tipo de existência que vivemos agora, e começa a exigir. Por isso, a cultura é perigosa e assusta o poder», concluiu o escritor.
A última obra de Lobo Antunes é um romance «denso e sombrio» sobre os acontecimentos ocorridos em Angola depois da independência, e parte «do delírio de uma pessoa», para falar sobre a culpa, a vingança e a inocência perdida, explicou o autor.
Apesar de ter combatido na guerra colonial, Lobo Antunes nunca esteve na «Comissão das Lágrimas», nome dado ao tribunal por onde passaram suspeitos de estar envolvidos no golpe de Estado de 1977, em Angola, por isso, o que fez foi «uma mentira para poder contar uma verdade», admitiu.
O livro é também uma homenagem «não a um país mas a um estado de alma», e a uma parte da vida do autor, em que perdeu camaradas, «e de onde ninguém regressa igual, porque ninguém desce vivo de uma cruz», afirmou Lobo Antunes.
Nota: O último livro de António Lobo Antunes é actualmente "Sôbolos Rios Que Vão" tendo saído, também, o seu "Quarto Livro de Crónicas", ambos editados pela Dom Quixote.
Durante as Correntes d'Escrita que se realizaram na Póvoa do Varzim, entre 23 e 25 de Fevereiro, a revista LER, no ano do seu 25º. aniversário, convidou alguns dos autores presentes a responderem à pergunta "O que é ler?". Apresentamos hoje o primeiro lote de respostas. Nos próximos dias aqui teremos os outros dois grupos que responderam à questão. A diversidade e a riqueza dessas declarações traduzem bem a importância da leitura nas nossas vidas.
Manuel António Pina Hoje, 24 de Abril
(Escola da Fontinha)
publicado no Jornal de Notícias em 24/4/2012
As imagens que circulam na Net de funcionários municipais a lançarem das janelas da Escola da Fontinha livros escolares para a rua representam de forma expressiva a gestão autárquica de Rui Rio, a sua arrogância obscurantista, a sua insaciável sede de "autoridade" e a sua aversão a tudo o que lhe cheire a cultura e a autonomia cidadã; só faltou, à intolerante " Bücherverbrennung " do Alto da Fontinha, a fogueira.
A História do século XX ensina-nos que o facto de um indivíduo ser eleito democraticamente não faz dele um democrata. A História do Porto nos anos de Rio - já é possível avaliá-la, agora que esses anos se aproximam do fim - é disso um bom exemplo.
Rio herdou a cidade num momento em que, na sequência da Capital Europeia da Cultura e da classificação do centro histórico como Património Mundial, ela fervilhava de animação e criação culturais, de multiplicação de iniciativas, de participação colectiva. Deixa-a com a ocupação policial de uma escola e centro cultural numa zona carenciada e a destruir livros e material escolar.
Pelo meio ficaram, entre outros, casos como a descaracterização, com recusa de qualquer diálogo com a população, da Avenida dos Aliados ou a proibição de as associações apoiadas pela autarquia criticarem a Câmara, o que, na prática, significou a compra com dinheiros públicos do silêncio crítico sobre a sua gestão.
Hoje, 24 de Abril, é o dia apropriado para evocar tudo isso.
(Queima de livros durante o III Reich. Ainda bem que há testemunhos destes miseráveis actos)
Afonso Aguiar Doce e pura inocência
(Adão Cruz)
Doce e pura inocência refletia-se nos olhos jovens, durante aquele Verão.
Ah, saudades desses tempos misteriosos, em que um olhar significa tudo e um sorriso muda o mundo e se vislumbra um futuro, almejando-o, embora este pareça distante e utópico, como um sonho de criança grande, único e inatingível... Mas não é sonho, é real! De tal forma real que, quando damos conta, a luz já se apagou, o mistério já se perdeu e o futuro distante, desejável e ilusório transformou-se no presente e… Crescemos.
Quem conseguisse mergulhar naqueles olhares entenderia que os dois viviam cada momento como se fosse o último, como se aquele instante fosse a coisa mais importante do mundo e foi naquele acaso que lhes pareceu destinado que os seus olhares se atraíram e os sorrisos brotaram!
Enquanto a viveram, a noite soube a eternidade, porém quando acabou e as palavras não se soltaram, o eterno e extasiante momento tornou-se curto e frustrante. No dia seguinte reencontraram-se ao largo da piscina. Não demorou muito até que “acidentalmente" esbarrassem um no outro e, finalmente, falassem. Nunca lhes custara tanto proferir uma palavra. Seguiu-se uma inmesurável sensação de alívio pelo simples facto de a fala se soltar. E foi sem surpresa que o mais difícil, o muro da ingenuidade, fora transposto.
Nessa tarde, os sentimentos já mais do que definidos antes sequer de se falarem, tornaram-se demasiado percetíveis para os poderem negar.
“Então era aquilo o tal amor? Aquela sensação fresca e ao mesmo tempo quente que subia da barriga ao coração, reconfortante quando pensavam um no outro e inquietante quando estavam lado a lado... aquela força que os obrigava constantemente a olhar um para o outro, aquele êxtase que sentiam por um sorriso que não era o seu... Então era aquilo o tal amor!”
Os momentos de contentamento indizível foram enchendo de vida o dia a dia de cada um e, como tudo o que se vive intensamente passa a grande velocidade… o fim das férias estava à porta!
Ao reconhecer a iminência da separação, numa noite, antes dos pais a chamarem, ele puxou-a e sentaram-se ao fundo das escadas. O tempo abrandou, o silêncio fez-se ouvir e, por momentos, os corações adiaram-se até se fazer ouvir a palavra que lhes estava presa na garganta. Os seus lábios uniram-se uma e outra vez, as línguas tocaram-se e, de repente, o mundo deu uma volta completa - tudo fez sentido - as suas mãos moveram-se sem saberem muito bem o que fazer. Depois afastaram-se. Ele levantou-se e distanciou-se apressadamente, enquanto um sorriso lhe rasgava a boca ainda anestesiada pela outra. Ela encolheu-se sobre si própria, aprisionando aquele momento no aconchego do seu peito e reviveu-o repetidamente.
O último dia passou-se num ápice e a despedida impôs-se. Com as lágrimas marejando-lhes os olhos e os corações ameaçando sucumbir abraçaram-se e beijaram-se pela última vez. Embora ainda jovens e sonhadores, empenhados em manterem o contacto, lá no fundo sabiam que só passados muitos anos voltariam a encontrar-se e, por isso, tinham de aproveitar aquele momento e desfrutá-lo por inteiro.
As primeiras semanas foram cruéis. Viviam no limiar da tristeza, num vazio emocional, náufragos num meio de incompreensão. Tinham os amigos, mas não era o mesmo, pois estes viviam felizes e inocentes, sem compreenderem aquele sofrimento, sem perceberem o que era perder um amor daqueles.
Com o passar do tempo, a mágoa e a tristeza esbateram-se transformando aquelas férias em meras recordações.
Os anos voaram e o futuro distante, desejável e ilusório tornou-se o presente que eles ambicionavam. Haviam crescido!
Passados muitos anos, num daqueles domingos de passeio em família, os olhares reencontraram-se, os corações aceleraram, os rostos coraram, o mundo tornou-se excitante e deu a mesma volta de há anos. Sentiram algo fresco e ao mesmo tempo quente a subir da barriga para o coração e as gargantas secaram mal lhes permitindo falar. Com um enorme esforço sorriram um ao outro e retiveram o olhar. Depois, tudo voltou ao normal e seguiram em frente.
Os caminhos haviam-se separado e os sentimentos haviam mudado, mas para sempre veriam um no outro,
A sua doce e pura INOCÊNCIA!
Maria Velho da Costa Levantamento da cidade de Lisboa
(Queremos lembrar hoje aqui o homem digno, o político sério que foi Miguel Portas. Deixou-nos um legado que é preciso não perder)
'E as moças, sem nenhum medo,
apanhando pedras pelas herdades,
cantavam, altas vozes, dizendo:
Esta é Lisboa prezada,
mirá-la e deixá-la'.
FERNÃO LOPES.
CERCO DE LISBOA
'Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós'.
FERNANDO PESSOA.
MENSAGEM
Vocês pagam. Os meus melhores filhos novos foram levados a sujar-se sem honra, ao engano. As minhas ruas foram silenciadas, os meus emissores de som e imagem, boca e olhos de ouvir-me, trocados pelos vossos. Abrigo há gerações o que vocês não podem nem querem — faquistas e ciganos e prostitutas velhas, marítimos e crioulos fugidos à fome. Tudo acoitei na minha barriga de ruas salitrosas, calçadas pretas. Vocês pariam padres e freiras, embiocavam misérias, faziam seguir comboios de sobras de gente, e barcos, conservaram sem brio solares e feitorias de família, encostados ao meu bojo fecundo, amolecida, que nada vos negava. Resisti e abrigava, focos de clandestinos, de inteligência, passagens, de pátria aventurosa. Vocês tomavam chá e a bolsa, a terra feita coisa de quintal, o ânimo um bafo de pipa em trânsito. Vocês pagam. Semearam entre os meus soldados jovens a discórdia, pior, a indecisão e a culpa. Negociaram por cima da minha cabeça os vossos ajustes de vinhateiros, negreiros, chulos da rameira que eu vos fui, deixando as minhas artérias latir do vosso berreiro de vitelos de oiro, o meu rossio airoso, as minhas flores e jorros de água cobertos da baba de quem não soube sequer defender o roubado. Vocês pagam. Tomaram-me por fácil, aberta de todos, as ruas desertas de espanto, os meus operários da minha cintura garrida aterrados do silêncio sofrido dos mestres, sem ter onde bater, a quem pedir contas ou acudir. Os meus soldados sem saber de quem. Besta vendida que fui, agachada e de pernas abertas às portas de Belém, enfeitada como a rameira que sou, mas ida por bem, confiada, levando no avental acudido à pressa o meu melhor, a gente do trabalho a enxugar as mãos pelo caminho, os filhos do sul que me sagraram há centenas de anos cabeça da grei, desmiolada mas liberta, mas santa, mas pronta para toda a alegria, a novidade. Vocês pagam. Tremeram de me ver nua finalmente, coberta de panos vermelhos, a minha gente desfilando com as cabeças martelos de aço colorido, o punho no .ar, o meu braço faquista finalmente ao léu. Vocês tremeram, daqui ao Oriente que a minha virtude de arejar vos abriu. Vocês tremeram quando os meus filhos de salário de fome e os meus mulatos vos mijaram em foice os palácios que vocês mandaram construir para as vossas visitas de provincianos ricos. Um por um vocês hão-de pagar um só cabelo que ousarem tocar dos que levantaram as mãos a saudar-me, a libertar-me a ventura. Vocês cortaram-me da ala que me fazia com cantos e gritos a limpa namorada da vida reavida.
Vocês calaram-me as vozes, cortaram-me os acessos com mercenários azedos, prometeram-me em falso. Fui posta numa grande noite de quietação e vergonha e palavras ríspidas, sem que nenhum homem se levantasse a dizer-me, 'Louvada sejas, cidade, pela tua crença e hospitalidade sem raias'. Sem que nenhum homem abrisse o peito a dizer-me, 'Foste traída, cidade, toma o meu corpo, para que possas ao menos vestir-te de vermelho diante do riso dos povos'.
Porque vocês tombaram Santiago e Madrid no sangue e na agonia. A mim querem guardar-me na memória dos meus ridícula e indecisa, lembrada como fácil e tacanha, cidade sem tino e lorpa, cantadeira só. Vocês pagam, que a revolução que eu trazia não era só a da justiça.
Todos, todos se calaram perante a minha miséria miúda, a minha crença mentida, os meus flancos de rio industriosos estancados, o tolhimento dos meus bairros de lata, as minhas veias cortadas a doer-se para o sul, traídas, traídos, porque eu, posta como estava na minha festa tonta, nas minhas renovadas alegres forças, deixei que vocês viessem pela calada esquartejar uma por uma as minhas cabeças de prata, os meus melhores filhos tresloucados de uma outra razão e audazes. Vocês pagam. Tenho os olhos enxutos para ver os conluios secretos para silenciar-me. Tenho os olhos enxutos para guardar na memória os que traíram como para salvar-me. Conheço essa palavra e essa lei de ordem. Meio século é quanto basta. Guardarei um por um os nomes dos que fecharam as portas das minhas ruas, das minhas casa, das minhas noites. E tardarei menos, porque estava pronta quando vieram estorvar-me.
Eu sou aquela assente sobre rocha preta, chão de convulsões. Eu sou aquela que gerações de homens sem terra pagaram com sangue para consolidar. Não foram ingleses e lojistas e feirantes os que me erigiram assim airada e vulnerável por cima de colinas. Fêmea serei, mas em cada uma das minhas vielas há duas mil facas e línguas com lembrança. Mãe desleixada serei deles, mas os braços pretos que me levantam novos bairros e me pintam com roupas os jardins de domingos hão-de saber mandar recado aos seus do que em mim lhes é desfeito. Madrasta serei dos que me moram nas bermas, mas ai dos tetos das vossas casas quando eles vos pedirem contas da mordaça na minha boca. Mãe escassa serei dos que me atam a nova cintura de vermelho vivo, mas ai de vós quando esses me vierem enxugar a cara das lágrimas de alegria que vocês me estancaram de luvas e que hão-de correr de novo à vossa queda debaixo destes pés. Rameira serei de todos os portos, mas esperem pela volta da navegação que de outras paragens aqui trazia recados da esperança, esperem pela cólera desgovernada.
Porque eu dormia e vieram cantar-me que tudo era possível, já. Porque eu sonhava e vieram dizer-me a liberdade, já. E quando acordei da madrugada, dizem — mas pouco, mas nada.
Foram longe de mais e muito curto. Clamei por mestres meus e só achei inocentes desavindos e emissários tristes. Vocês pagam, que já está pronto o tempo para o que venha do meu corpo, em nome meu, ganha a paixão e a manha. Eu sou a bem amada de quem não tem a perder mais que a alegria duma pátria-ponte, duma cidade aberta, capital improvável.
Forarn longe de mais. Nem um mês, nem um ano, nem um século decorrerão sem que vos roa um a um as entranhas e pague com a pior peste a ousadia de cercar-me à traição, de limitar-me a voz, os acessos, a vida. Pela voz de todos os que aqui feneceram de excessos e ardores, os meus poetas, os meus desmesurados de sempre, os meus cidadãos da aventura, os grandes viajantes, eu vos amaldiçoo. Um por um vos hei-de corromper do desastre lento, da aventura adiada. Eu não sou a cidade de origem, eu sou a tomada na ida, a reconquistada dez mil vezes com um farnel e um saco de pano, a donde se vem a mudar vida, a nossa. Vocês pagam. Esta é uma maldição lançada aos reles da ressurreição da minha história. As minhas janelas hão-de abrir-se de novo a escarnecer usurpadores a soldo, a cuspir-vos para esse país exterior de rezas e mezinhas sem luz nem ar onde conservais os vossos trastes e cagais sentenças e ditadores em nome do bom senso. Eu sou a cabeça da terra dos que mais tentam a morte que tal sorte. Eu duro na aventura desventurada, o menor mal. Vocês pagam.
Eu sou feita de tantas raças, eu podia abrir aqui uma porta de sorrisos do mundo e paz travessa, se me houvésseis sustentado de cravo sem sangue a rosa de todas as brisas, de todos os mares. Eu podia, eu, arma branca. Estenderei do meu bolbo de rocha preta um coágulo onde atolar-vos e à vossa pouca fé, pequenos europeus, corte final de eunucos. Vocês pagam.
Dezembro 1975
(in Maria Velho da Costa, Cravo, Moraes Editores)
Informação: por ausência dos seus responsáveis na próxima semana não se publicarão as rubricas "Estuário", "Jardim das delícias" e "Terna é a noite". O "Estuário" retomará a publicação no próximo dia 30, as outras duas rubricas no dia 2 de Maio.
Adão Cruz A minha música
.
(Adão Cruz)
Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie.
Como foi possível parecerem-me tão semelhantes?
Que percebe de sons este monocórdico espírito?
Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.
Como vou misturar é quase certo que nada existe nada está perto nem eu estou triste com Embryons desséchés e Peccadilles importunes?
Eu próprio me sinto mistura de contradições e acasos harmonia de contrastes santidade e pecado.
Nada percebo de música mas quero que a música seja ar chuva ou vento olhos boca sustento febre delírio amor e tormento.
Não sei onde fica a música nem a terra onde ela conduz sei apenas que é de sol e de luz ar puro e perfume o caminho da música para o alto dos montes.
Augusta Clara Antero de Quental e as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (II)
Casino Lisbonense, onde se realizaram as "Conferências Democráticas"
(Conclusão)
A política centralizadora da monarquia absoluta que tolhera liberdades anteriormente existentes;
Antero tinha razão ao fustigar assim a igreja porque a influência jesuítica não se restringiu ao meio religioso mas dominou, também, o ambiente político.
Ouçamos o que ele disse: “Essa funesta influência da direcção católica não é menos visível no mundo político. Como é que o absolutismo espiritual podia deixar de reagir sobre o espírito do poder civil? O exemplo do despotismo vinha de tão alto! Os reis eram tão religiosos! Eram por excelência os ‘reis católicos, fidelíssimos’. (…) A teocracia dava a mão ao despotismo”.
Até ao século XVI o poder da monarquia era equilibrado pela vida política local: os municípios, as instituições populares, as comunas, ao mesmo tempo que os privilégios da nobreza e do clero atenuavam o peso da coroa. Para assuntos de suma importância reuniam-se as Cortes. “A liberdade era então o estado normal da Península”.
A partir daí, a monarquia absoluta sufocou o poder local.
A reis como D. João III “fanático e de ruim condição”, D. João V, D. Afonso VI, “devassos uns, outros desordeiros, outros ignorantes e vis (…) A tais homens, sem garantias, sem inspecção confiaram as nações cegamente os seus destinos! (…) Se D. Sebastião não fosse absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as últimas esperanças da pátria”.
Anulou-se a classe dos pequenos proprietários, governava-se para a nobreza, criaram-se grandes propriedades e impediu-se “o desenvolvimento da burguesia, a classe moderna por excelência, civilizadora e iniciadora, já na indústria, já nas ciências, já no comércio”.
As monarquias absolutas habituaram o povo a servir, à inércia, esperando o que lhe vinha de cima, transformado em prisioneiro, sem iniciativa, sem evoluir, preso à tacanhez dos costumes, sem liberdade. "(…) quando mais tarde lhe deram a liberdade, não a compreendeu; ainda hoje não a compreende, nem sabe usar dela. As revoluções podem chamar por ele, sacudi-lo com força: continua dormindo sempre o seu sono secular!”
Isto foi afirmado em pleno século XIX. Mais de um século depois estará esta afirmação assim tão desactualizada?
Nos países que cresciam, os que tinham aderido à Reforma do catolicismo, assistiu-se à “elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou”
A economia baseada na riqueza acumulada à custa dos territórios descobertos e conquistados em África e no próprio Brasil.
Aquilo que sempre celebrámos como a nossa glória máxima enquanto país, os Descobrimentos, foi apontado por Antero de Quental como um dos motivos para a nossa progressiva decadência. “Embalaram-nos com essas histórias: atacá-las é quase um sacrilégio”, afirmou ele.
Acrescenta, no entanto: “A moralidade subjectiva desse movimento é indiscutível perante a história: são do domínio da poesia, e sê-lo-ão sempre acontecimentos que puderam inspirar a grande alma de Camões. A desgraça é que esse espírito guerreiro estava deslocado nos tempos modernos: as nações modernas estão condenadas a não fazerem poesia, mas ciência”.
Um pouco exagerada esta última afirmação de Antero de Quental. Mas entende-se o sentido em que a fez: as coroas depositaram a educação nas mãos dos jesuítas “cujos métodos de ensino, ao mesmo tempo brutais e requintados, esterilizam as inteligências, dirigindo-se à memória, com o fim de matarem o pensamento inventivo, e alcançam alhear o espírito peninsular do grande movimento da ciência moderna essencialmente livre e criadora”.
E, na esteira desse grande pecado jesuítico, Portugal só, pouco a pouco vai saindo desse atraso científico em que tem vivido desde então. Em pleno século XX, os governantes portugueses, manifestamente sem a clarividência de Antero, continuavam a manter que não podíamos investir em investigação fundamental – sem a qual sempre dependeremos, até mesmo nas aplicações, dos países que a ela se dedicaram - por sermos um país pobre.
Contentámo-nos, de facto, com as riquezas trazidas dos territórios de além-mar e descurámos o desenvolvimento da indústria. E esse erro estratégico levou ao empobrecimento do país à medida que o ouro do Brasil e os outros bens se foram esgotando. Para já não falar no modo como o fausto da corte e dos que a rodeavam se foram apropriando do espólio dessa rapina.
O que aconteceu nos países que cresciam foi precisamente o desenvolvimento da “indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às Nações uma concepção nova do Direito, substituindo o trabalho à força, e o comércio à guerra de conquista”.
No entanto, a evolução de Portugal até ao século XVI tinha sido bem diferente e vale a pena ler a descrição : “No reinado de D. Fernando era Portugal um dos países que mais exportavam. A Castela, a Galiza, a Flandres, a Alemanha forneciam-se quase exclusivamente de azeite português. (…) No século XV vinham os navios venezianos a Lisboa e aos portos do Algarve, trazendo as mercadorias do Oriente, e levando em troca cereais, peixe salgado e frutas secas, que espalhavam pela Dalmácia e por toda a Itália.(…) As classes populares desenvolviam-se pela abundância e o trabalho, a população crescia. No tempo de D. João II chegara a população a muito perto de três milhões de habitantes…Basta comparar este algarismo com o da população em 1640, que escassamente excedia um milhão, para se conhecer que uma grande decadência se operou durante este intervalo!”.
Foram muitos os que deixaram as suas actividades para se tornarem soldados nas conquistas de além-mar. A população abandonou os campos, vindo para as cidades na mira das riquezas trazidas nas naus, mas o resultado foi o contrário e a miséria citadina aumentou e a agricultura degradou-se. A partir daí tudo só podia evoluir para pior: grassa a fome e a mendicidade aumenta. Camões, o grande poeta da epopeia, mendigando na velhice, é a triste imagem do estado a que a nação chegara.
A situação invertera-se de tal modo que, de exportadores de produtos agrícolas, e sem indústria, passámos a importar tudo: sedas, veludos e massas de Itália, vidro da Alemanha, panos de França, cereais, lãs e tecidos da Inglaterra e da Holanda. Tudo à custa do ouro da rapina e em favor da opulência da nobreza e da coroa. Até o ouro acabar. E o resto já todos sabemos.
Eça de Queiroz na época das Conferências
Epílogo
De facto, não há como fugir ao tema religioso no resumo desta Conferência porque Antero de Quental, embora não isentando o poder político das responsabilidades nefastas para a queda da posição preponderante que Portugal tinha no mundo, atribui à igreja católica, nas mãos dos jesuítas, uma grande responsabilidade, a montante, por todo este desastre.
“Essa transformação da alma peninsular fez-se em tão íntimas profundidades , que tem escapado às maiores revoluções (…) Há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, (…) um beato, um fanático ou um jesuíta! Esse moribundo que se ergue dentro de nós é o inimigo, é o passado. É preciso enterrá-lo por uma vez, e com ele o espírito sinistro do catolicismo de Trento”.
E, ainda, uma última frase de Antero: “A nossa fatalidade é a nossa História”.
De muito mais consta a conferência de Antero de Quental, uma peça literária imprescindível para compreendermos o Portugal de hoje e repensarmos o futuro.Por agora, fiquemos por aqui.
Um mês depois, a Sala das Conferências democráticas foi encerrada, o que deu origem a um ao protesto assinado em 26 de Junho de 1871 pelo próprio Antero de Quental e por Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis, Salomão Saragga e Eça de Queiroz.
O texto rezava assim:
PROTESTO
Contra o Encerramento da Sala das Conferências Democráticas
Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade de palavra, da liberdade de reunião, bases de todo o direito público, únicas garantias da justiça social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a portaria que mandou arbitrariamente fechar a sala das conferências democráticas. Apelamos para a opinião pública, para a consciência liberal do país, reservando-nos a plena liberdade de respondermos a este acto de brutal violência como nos mandar a nossa consciência de homens e de cidadãos.
.
Augusta Clara Antero de Quental e as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (I)
(evocando a data do nascimento de Antero de Quental - 18 de abril de 1842 - voltamos a apresentar um texto publicado no Estrolabio em 16 de Novembro de 2010)
O que pretendeu Antero de Quental com o seu discurso proferido no dia 27 de Maio de 1871, na 1ª. Sessão das Conferências Democráticas, realizadas no Casino Lisbonense? Nada mais, nada menos do que explicar o atraso registado pelos dois países da Península Ibérica, Portugal e Espanha, desde o século XVII. Numa altura em que não só Portugal e Espanha, mas toda a Europa vive uma crise profunda dos seus valores e o projecto político e cultural da União Europeia cada vez se nos afigura mais adulterado, faz sentido relembrarmos essas causas de decadência que Antero apontou no século XIX e reflectir como certos atavismos podem infiltrar-se no tempo e corroer realidades aparentemente bastante diferentes.
Desenho de Raquel Santos - "As Conferências do Casino"
A confirmar esta suspeita, respiguemos algumas frases do Programa das Conferências Democráticas:
“Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social. (…) investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; (…) e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.
Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.
(…) Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que, ainda que não partilhem das nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções e o resultado dos seus estudos e trabalhos.”
A conferência de Antero de Quental, dentro do programa das Conferências Democráticas, só nos pode servir hoje de grande inspiração para as reflexões que temos de fazer sobre a sociedade portuguesa.
Antero apresentava três causas principais para essa decadência:
• A submissão da igreja católica portuguesa ao poder de Roma, integrada na Contra-Reforma, de acordo com as decisões do concílio de Trento;
Embora não fosse este ponto o que me interessasse particularmente referir, não posso deixar de o fazer porque Antero de Quental desenvolveu substancialmente as mudanças por que passou a mentalidade religiosa na Península e as consequências que essas mudanças tiveram em todos os outros domínios da sociedade.
A submissão das igrejas locais à Igreja de Roma trouxe consequências catastróficas, entre as quais se realça a perseguição aos judeus e aos árabes que, embora muito na sombra, como afirma Antero, viviam como “raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram, e cuja expulsão tem quase as proporções de uma calamidade nacional”.
Augusta Clara Um majestoso animal foi morto por outro, sua majestade o rei de Espanha
(autor desconhecido)
O rei de Espanha foi ao Botswana caçar elefantes. Juan Carlos é católico. Não sei se o Deus dos católicos gosta dos animais irracionais. Dos humanos já percebemos que não gosta mesmo nada, como muito bem explicou Mark Twain nas cartas que o Diabo enviou aos seus amigos anjos quando veio à Terra ver o que por cá se passava. Daí, esta fotografia poder muito bem retratar o desejo secreto que o assaltou ao ver aquele reizinho seu súbdito matar um animal quase sagrado no reino da Criação: inverter os acontecimentos e fazer esbarrar com a árvore o apêndice frontal de Juan Carlos e não o do elefante.
Mas não podia porque ele é rei e Deus não gosta especialmente é dos vulgares seres humanos, sobretudo dos pobres e dos muitos que vão a caminho desse estado. Aos poderosos abriu uma excepção e dedica-lhes uma afeição muito especial. Por isso, apenas para não dizerem que a sua condição de divindade não tem em conta a justiça, castigou-o: quebrou-lhe uma anca.
Esta poderia ser a fábula, já que aqui os animais falam, não fora tratar-se dum episódio verídico. Juan Carlos foi à caça em África e pecou de duas maneiras:
- gastou uma fortuna quando os súbditos do seu reino e os dos outros países circundantes, para já só nos referirmos ao continente europeu, estão maioritariamente a caminho de viver à míngua. Bem podem os meios de informação fiéis à coroa noticiarem que a caçada foi paga por um magnate saudita que vive há anos em Espanha, tem propriedades em Madrid e Marbella e, no país vizinho, costuma actuar como representante dos negócios da casa real da Arábia Saudita. Que diferença faz em que mãos anda o dinheiro por este mundo e como é empregue por caras ou coroas nestas obscenas actividades dos ricos enquanto o desemprego aumenta aceleradamente e os súbditos se vão tornando escravos mercê do medo instalado de, ao menor descuido, ficarem sem os meios necessários para terem direito de continuar a ser gente?
- demonstrou ser completamente indiferente ao que, com tanta tecnologia de informação, toda a gente sabe: que um elevadíssimo número de elefantes e de outros animais do continente africano tem sido dizimado, correndo o perigo de extinção, devido a múltiplas e consecutivas guerras civis, muitas delas incentivadas por países ocidentais na senda da apropriação das riquezas locais.
Temos como exemplo o Parque Nacional da Gorongosa. Filmes passados recentemente nas televisões atestam a devastação de um dos mais ricos redutos da fauna africana ao longo dos anos que durou a guerra civil em Moçambique. Curiosamente, aqui, outro magnate ocupou-se numa acção contrária à daquele que pagou a brincadeira de matar elefantes ao rei de Espanha: a recuperação do parque, repovoando-o com animais trazidos de outros países da região.
É uma questão de ética. Uns conhecem-na e respeitam-na, outros nem sabem do que se trata e usam o que é de todos a seu belo prazer.
Na verdade não nos devia espantar a insensibilidade de Juan Carlos quer numa quer noutra área. Não é mais nem menos do que a demonstrada quando conviveu pacificamente com Franco, ainda os opositores políticos ao ditador eram garroteados.
O equívoco por que vem pedir desculpa não tem pés nem cabeça. Equivocou-se como e em quê? Apanhou o avião errado e aterrou no meio dos elefantes? Só um débil mental se equivocaria desta maneira. De facto, os casamentos consanguíneos nas casas reais europeias tiveram consequências conhecidas ao nível da saúde de várias cabeças coroadas e sua descendência por gerações. Será este tipo de equívocos uma delas?
Sherry Turkle Ligados, mas sozinhos?
O que vamos ouvir dizer neste vídeo é não só assustador como é o que se está a passar num mundo em que o uso errado das tecnologias de comunicação substituem o contacto das pessoas entre si, ao convencê-las de que assim podem ser mais felizes, evitando conflitos, insucessos, reveses, normais no contacto directo. Protegendo-as da sua vulnerabilidade, do medo da intimidade, do confronto de olhos nos olhos, ou seja, colando-lhes uma máscara. Sherry Turkle alerta-nos para a falsidade das compensações que os teclados nos dão, cortando uma verdadeira ligação humana com os outros e de cada um consigo próprio. Mas mostra-nos que não é necessário rejeitarmos por completo esses dispositivos, apenas não permitir que se apoderem das nossas vidas.
Oiçam, pois, o que nos diz esta psicóloga porque vale a pena. Mais do que isso: não se deve deixar de ouvir.
(publicada no PúblicOnline em 9 de Novembro de 2004)
Remetente:
António Lobo Antunes
Alferes-médíco SPM 2676
Ex.mo Sr. Manuel Lobo Antunes
Travessa dos Arneiros, 14
Lisboa 4
Metrópole
Redação: A Sopa
27-04-1971, em Ninda
Querido Manuel,
Eu estou em Angola. Eu gosto muito de Angola. Eu vim para Angola num barco muito grande, com muitos soldados. Eu vou voltar de avião. Eu vou aí em Setembro. Eu tenho patilhas. Eu tenho cabelo rapado. Eu tenho muitas saudades de todos, tais como da Margarida. Angola é em África. África tem leões, macacos, gazelas, elefantes, pacaças, palancas e muitos pretos. Os pretos têm um cabelo com muitos caracóis e dentes brancos. Os pretos não falam português, falam preto. A gente não percebe os pretos a falar preto. Os pretos às vezes falam português. Os portugueses nunca falam preto. Em Angola há muito calor todo o dia. Eu tenho uma espingarda mas ainda não matei ninguém. Eu visto farda. Farda é um fato igual para todos. Eu como coisas que não gosto de comer mas como porque há muita gente com fome e não devemos desperdiçar. A colher fica em pé na sopa de tal maneira a sopa é grossa. A sopa serve também para pegar tijolos uns aos outros. Há casas que foram feitas graças à sopa. A sopa tem muitas coisas dentro, que a gente tem de mastigar, e às vezes corta-se a sopa com a faca. A sopa é mais dura do que um bife muito duro. As colheres de sopa caiem no estômago da gente com um barulho parecido com pedras a cair num poço. Eu não gosto de sopa. Eu nunca mais como sopa. Já me nasceram dentes na barriga para moer a sopa, e os meus intestinos, a fazerem a digestão da sopa, parecem mesmo um motor de traineira. Quando me sento à mesa e vem a sopa tenho medo porque a sopa parece cimento. Eu estou forrado de sopa por dentro. Quando me assoo sai sopa do nariz. Quando espirro espirro gotinhas de sopa. Outro dia tiraram-me sangue e um talo de couve saiu-me da veia e entupiu a agulha. De vez em quando, quando há feridos, fazem-se transfusões de sopa, e a gente vê o grão e o feijão da sopa a saírem de um para entrarem no outro. Quando há feridas é preciso desinfectar a sopa que sai da ferida. Se se espreme uma borbulha aparecem logo bagos de arroz de sopa. A sopa é o nosso pior inimigo, a espiar a gente do fundo das panelas duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, a sopa ataca-nos. A sopa já fez muitas baixas. Às vezes a sopa traz brindes como os bolos-reis tais como baratas, insectos, borboletas, que morreram envenenados pela sopa. De maneira que a gente vai começar a usar a sopa como remédio para os ratos. Os americanos já nos pediram para a gente mandar sopa para o Vietname, porque os comunistas morrem todos se a comerem. Eu gostava muito de dar sopa à sopa. Eu vou acabar. São horas de comer a minha sopa.
António Lobo Antunes
Vítima n° 07890263 da sopa
Morto no campo de batalha do refeitório com um ataque agudo de sopa
E, com letra de António Lobo Antunes e música de Vitorino, aqui temos o "Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto"
Maria do Rosário Pedreira Poema
(Adão Cruz)
O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.
O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.
O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.
(in Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
Vasco Lourenço
L'utilization des entités juridiques a des fins illicites (Relatório da OCDE sobre Paraísos Fiscais)
Arquivo
Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa
Histórias de suicidios famosos em Portugal
Livros Proibidos Nos Útimos Tempos da Ditadura
biografias
crónicas
livros
música
Património Imaterial da Humanidade
Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo
rubricas
Blogues
Amigos Maiores que o Pensamento
De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas)
Editoras