Um Café na Internet
Katherine Mansfield nasceu a 14 de Outubro de 1888 na Nova Zelândia. Estudou em Londres, no Queen’s College, até aos dezoito anos. Embora não fosse uma estudante extraordinária, tornou-se uma violoncelista notável, e começou as suas tentativas na literatura. Regressou entretanto à Nova Zelândia, onde entrou em conflito com a família. Parece também que, embora o ambiente na sua terra, à época, fosse de franca abertura ao progresso em vários aspectos , que Katherine ficou muito impressionada com a situação dos Maori. Regressou entretanto a Londres, onde por algum tempo teve uma vida de algum desequilíbrio, mesmo afectivo. Apesar dos conflitos, continuou a relacionar-se com a família, tendo ficado profundamente chocada com a morte do irmão na I Grande Guerra. Na altura (1911) já tinha sido publicado o seu primeiro livro, Numa Pensão Alemã. Nele começou a revelar-se o seu génio. Mas entretanto o seu estado de saúde agravou-se e declarou-se-lhe a tuberculose, que havia de a levar.
Katherine Mansfield (o seu nome verdadeiro era Kathleen Beauchamp) faleceu aos 34 anos, prematuramente, acabando assim, logo no início, uma brilhantíssima carreira de escritora. João Gaspar Simões, na sua introdução ao volume Garden Party, publicado na colecção Os Contos Universais, da Portugália Editora, assinala o papel fulcral que a escritora desempenhou no reconhecimento do conto como forma maior da literatura. Neste capítulo só talvez Tchekov se lhe poderá equiparar. Katherine Mansfield, com certeza, foi influenciada por outros escritores, como Maupassant, Tchekov e Oscar Wilde, e, também, por Joyce. João Gaspar Simões assinala também que a escritora pertence à corrente realista, e refere a influência que sobre ela exerceu Elizabeth Gaskell (1810 – 1865), conhecida por Mrs. Gaskell, que descreveu de modo profundo e crítico os usos e costumes da época vitoriana.
Katherine Mansfield consegue a aproximação do conto à poesia, na medida em que utiliza uma psicologia muito fina para descrever ao leitor os personagens das suas histórias e os seus sentimentos. E deste modo dá-nos uma descrição muito transparente da realidade, do que é a sociedade e dos problemas das pessoas.
Na próxima segunda-feira, no nosso blogue, vamos iniciar a publicação do conto O Garden-Party.
O Primeiro de Maio
Vão pela rua larga, a dar a curva
Um homem alto, uma mulher baixa
Uma linda rapariga, que a vista não turva
Uma senhora gorda, o braço nela encaixa
Lado a lado marcham e cantam alto
Amanhã vou para o trabalho
Que é verdade que nunca falto
Mas um dia vão saber quanto valho
Comigo somos mais de um milhão
Hoje aqui contentes, alinhados
Ouçam todos bem a nossa canção
E lembrem-se que num dia então
Havemos de ficar todos parados
À chuva, ao sol, com vento agreste
A nossa marcha faz girar o mundo
Por todo o firmamento celeste
E navegar pelo mar sem fundo
Ouçam lá nos vossos altos impérios
Como é forte o som da nossa marcha
Ponham os vossos semblantes sérios
Que não paramos do Marquês até à Baixa!
(Desenho de Dorindo Carvalho)
É óbvio que o quinteto Passos/Portas/Gaspar/Cristas/Álvaro, e mais alguns, não acabou com o feriado 25 de Abril por temer uma reacção forte de vários quadrantes. Essa reacção talvez dificultasse que lá fora continuassem a dizer que em Portugal todos concordam com as “reformas”, tal como fez o digno comissário europeu OliRehn, na sua última visita ao nosso país. Assim o feriado mantem-se, por enquanto.
O pior é que as melhorias introduzidas graças ao 25 de Abril estão a desaparecer uma a uma. Já não restam muitas. Entre elas ainda se conta a liberdade de dar a público um blogue como A Viagem dos Argonautas. Na altura do 25 de Abril nem se sonhava com blogues, e a internet estava nos primórdios. Assim, continuamos a falar…
Há quase um ano, o quinteto acima referido, e mais alguns,ganhou a maioria absoluta numas eleições disputadas sob o signo de uma grave crise que assola a Europa e, em particular, os seus países periféricos, isto é, os países da Europa com menor poder económico.
Quando, há vinte e seis anos, Portugal entrou para a então CEE, o nosso rumo ficou traçado. A nossa oligarquia nacional respirou fundo, e aliou-se á burocracia de Bruxelas para perpetuar o seu poder. Levanta-se agora uma grande questão: será que o destino de Portugal é indissociável da Europa? E essa questão está intimamente, inexoravelmente, ligada a outra: qual o futuro da Europa?
Os governantes da União Europeia são os representantes das oligarquias dos países membros. Ao lado montou-seuma administração muito poderosa e implacável, que obedece cegamente à ideologia dos mercados. O Parlamento Europeu, com poderes limitados, e muito vigiado pela Comissão Europeia, é o único órgão directamente eleito pelos cidadãos dos vários países. Mas tem as limitações próprias da democracia representativa, e está sob o controlo do aparelho burocrático da UE.
As reacções de Merkozy, quando Papandreou se atreveu a propor um referendo no seu país sobre as medidas que lhe queriam impor, deixaram bem claro que a independência dos chamados países periféricos chegou ao fim. A Grécia obedeceu apesar da revolta do seu povo. Em Portugal todos sabemos que não será a dupla Passos/Seguro que irá enfrentar nem a oligarquia nacional, nem a burocracia de Bruxelas.
A Europa, após o erro que foi a reunificação alemã (sobretudo, da maneira como foi feita), nunca será a Europa dos cidadãos. A este respeito, recorde-se o que dizia um homem de direita, o General de Gaulle, que preferia atrair a Rússia á Europa, prioritariamente à reunificação alemã. Ou as reticências deGuntherGrass na altura. Portugal aderiu apressadamente à Europa, sem sequer permitir uma reflexão a este respeito, invocando os responsáveis da altura a necessidade de consolidar a democracia. O fantasma de Salazar e o papão do comunismo terão pesado na cabeça de muita gente, na altura. Mas como podem os responsáveis da altura manifestar surpresa pelo estado actual de coisas?
A economia portuguesa tem de passar a ser a economia de todos, o meio pelo que sobrevivemos, em condições de igualdade. Ser aquilo que o 25 de Abril não conseguiu até agora, a economia para todos, a democracia económica. Deixar de estar sujeita a malabarismos financeiros, de apostar em hipotéticas exportações, como outrora se apostava em minas de ouro, e organizar a produção de modo a enfrentar as necessidades prioritárias, de modo equilibrado. Portugal, como qualquer outro país, não pode viver em autarcia. Mas tem dar prioridade aos interesses do seu povo, não dos exportadores/importadores, ou da banca, ou do lobby da construção civil, ou de oligarcas à procura de um emprego em Bruxelas ou em Berlim, ou que aspiram a um curso na Sorbonne.
Simbolicamente, acabaram com o feriado no Primeiro de Dezembro, e o 25 de Abril está muito ameaçado. Continuamos a ser uma República, apesar de também terem acabado com o 5 de Outubro. Mas para os portuguesesnão serem, como já foram no passado, um povo de párias, é essencial a recuperação dos elementos que lhe estão associados. Quanto ao patriotismo, que é um sentimento que para alguns assenta em ideias de exclusivismo, deve, é certo, passar a ser visto numa base de solidariedade com todo o nosso povo, e não de aclamação de algumas figuras ilustres, ou de celebração de acontecimentos passados. O nosso povo precisa de acreditar em si, e de representantes que o respeitem, e não tratem os cidadãos como mero figurantes, ou mesmo como empecilhos, a quem se recomenda que emigrem.

VAMOS AO CINEMA
Fui ver há dias este filme argentino, estreado no seu país de origem em Agosto de 2009. Em Portugal estreou em Maio de 2010. Foi realizado por Juan José Campanella, realizador, argumentista e produtor (também foi actor) argentino de cinema e televisão, com grande experiência de trabalho, no seu país e nos Estados Unidos (chegou a trabalhar na série Dr. House).

VAMOS AO CINEMA
O escritor fantasma, de Roman Polanski. Fui ontem ver este filme. Muito certinho, mas não é o melhor de Polanski. Gira à volta de um tema muito actual. Imaginem um escritor habituado a escrever sob o nome de outros, ou sob a capa de personagens especiais. Daí o título do filme, Ghost Writer, que deve ter um equivalente em português, que não me lembro qual é.
Entretanto o nosso homem é contratado, um bocado contrariado, para escrever (como Ghost Writer, claro) uma autobiografia, precisamente a do ex-primeiro ministro inglês. Para o efeito tem de ir para os Estados Unidos, para uma ilha, para, em máxima segurança, executar a tarefa de que o incumbiram. Entretanto, fica a saber que está a continuar o trabalho de um assessor do ex-primeiro ministro, que apareceu morto. O filme então arranca como uma história policial, com bastante suspense.
O ex-primeiro ministro inspira-se, obviamente em Tony Blair, e nas suas ligações aos norte americanos. É um tema de grande actualidade, sem dúvida, mas a transformação do escritor em detective não é muito convincente. Aí o Roman Polanski não mostrou o seu grande talento. Embora o enredo tenha alguma verosimilhança, penso que o rancor aos Estados Unidos tê-lo-á feito perder algum engenho. As tonalidades estão lá, a fúria securitária, a voracidade da comunicação social existem na vida real, assim como o cabotinismo e a duplicidade dos políticos, mais as atitudes quase demenciais das pessoas que os rodeiam. O que não consigo é imaginar um escritor profissional, muito bem pago, de repente virar detective, e enfrentar tudo e todos, incluindo perigos muito evidentes de um modo tão directo. Claro que há pessoas com princípios, mas não parecia ser o caso do nosso herói, que até era um homem que não se interessava por política. Permito-me uma comparação: Manuel Vázquez Montalbán aborda um tema parecido de um modo brilhante em Galíndez, que decorre, é verdade, em meios muito diferentes. Conta a história de um crime cometido para encobrir outros, de natureza política, analisando detidamente as motivações dos vários personagens, o que Polanski faz apenas muito ao de leve. Mesmo tendo em conta as diferentes possibilidades de narração entre um filme e um romance, acho podia ter ido mais longe neste campo.
Os filmes de Roman Polanski que vi podiam-se arrumar em diferentes géneros cinematográficos, policias (como Chinatown), de terror (como Rosemary’s Baby), ou de vampiros (como The Fearless Vampire Killers, em Portugal Por Favor Não me Mordam o Pescoço). Contudo todos tinham um toque muito pessoal, que contribuía decisivamente para cativar o público. Ghost Writer também prende a atenção, mas não é tão convincente. Os actores são muito bons, o enredo é que não foi bem desenvolvido.

Este quadro de Dorindo Carvalho
inspirou a João Machado este poema
Malhoa, pintor consagrado
Tuas história, vida, arte,
Vão caber num quadrado
E ser vistas em toda a parte.
Dorindo, mestre, amigo
Traços e cores de maneira
Com a tua mão certeira
Malhoa revive contigo.
Fado, varinas, Lisboa
Meninos, velhos, novos,
A memória dos povos
Vossa pintura ecoa.
(inédito)

VAMOS AO CINEMA
Rocco e seus irmãos (Rocco i suoi fratelli), de Luchino Visconti - por João Machado
Sexta-feira passada, fui ao cinema, à sessão habitual das sextas-feiras, na sede do meu partido, o Bloco de Esquerda, aqui em Vila Franca de Xira. Fui ver outro filme do ciclo de Luchino Visconti (1906 – 1976), Rocco i suoi fratelli, intitulado Rocco e seus irmãos em Portugal. É um filme de 1960. A crítica aponta-o como um regresso do realizador ao neo-realismo. Digo um regresso, e não o regresso, porque, do pouco que conheço da sua obra, vem-me a impressão que Visconti escolhia o estilo a imprimir ao filme conforme o argumento. E que procurava sempre enquadrar os fortes dramas individuais num pano de fundo devidamente caracterizado, política, social e culturalmente. Nem mesmo em Il Gattopardo, apresentado apenas três depois de Rocco i suoi fratelli, Visconti deixa de o fazer. Os seus filmes são minuciosamente preparados e estudados, e assentes em argumentos que incluem dramas individuais muito fortes, enquadrados num ambiente histórico bem caracterizado. Procurarei voltar a este ponto no futuro, com um melhor conhecimento da obra. Para já acho que Visconti nunca se afastou do neo-realismo. E neste filme ele debruça-se directamente sobre os problemas das classes mais desfavorecidas, ao contrário de outros filmes.
Rocco i suoi fratelli conta-nos a história de uma família do Sul de Itália que vai para Milão para encontrar trabalho. Vêm a matriarca da família Parondi (um belo trabalho da actriz grega Katina Paxinou) mais quatro filhos. O mais velho dos irmãos já se encontra na grande cidade. A seguir é a análise dos diferentes caminhos que seguem os irmãos. Aqui, na minha opinião, Visconti carrega talvez um tanto excessivamente no conflito entre os irmãos Simone e Rocco, por causa de Nádia, uma prostituta que se envolve com Simone, primeiro, e depois com Rocco. Simone entra em queda livre, enquanto que Rocco triunfa no boxe. À volta de um violento drama, Visconti procura mostrar que, se um indivíduo mal encaminhado como Simone é um problema para a família e para todos em geral, também Rocco, que segue os melhores princípios, e dá tudo pela família, também não consegue superar os problemas criados pelo irmão desencaminhado. Será Ciro, o irmão operário, que acaba por mostrar o caminho. Para além de outros aspectos, a intensidade do conflito entre Simone, Nádia e Rocco, esconde um tanto a restante problemática. Hei de rever o filme, para ver se confirmo esta minha impressão.
Os actores vão soberbamente. Alain Delon faz de Rocco, Renato Salvatori de Simone, e Annie Girardot de Nádia. Estão muito bem. Talvez Salvatori e Girardot ainda melhor que Delon. As cenas, os ambientes, tudo muito bem preparado. A música de Nino Rota vai muito bem com o conjunto. Vão ver que o filme é muito bom. Não será perfeito, mas vale a pena. E filmes perfeitos, não há, pois não? É como na vida.
Ilustração de Jean-Paul Renaud
Ma Bohême
Je m’en allais, les poings dans mes poches crevées,
Mon paletot aussi devenait idéal.
J’allais sous le ciel, Muse, et j’étais ton féal :
Oh là là, que d’amours splendides j’ai rêvées !
Mon unique culotte avait un large trou.
Petit-Poucet rêveur, j’égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou.
Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur ;
Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied contre mon cœur !
A Minha Boémia
Ia eu, as mãos soltas nos bolsos rotos
O meu casaco, era preciso imaginá-lo.
Sob o céu, Musa, era teu vassalo:
Amores esplêndidos em sonhos remotos!
As minhas calças com um grande buraco.
Pequeno Polegar, no caminho trauteava
Rimas mais rimas. Na Ursa Maior habitava
As estrelas sussurravam no céu opaco.
Escutava-as, sentado na beira do caminho,
As noites de Setembro em que como vinho
Sentia o orvalho na fronte, a revigorar-me;
Rimando por entre vultos fantásticos,
Tal como a liras, puxava os elásticos,
Aos sapatos cambados, pé junto ao coração!

VAMOS AO CINEMA
Violência e Paixão
Ontem à noite fui ver um filme na sede do meu partido, aqui em Vila Franca de Xira. Deixei-me dizer-vos, em primeiro lugar, que no concelho de Vila Franca de Xira, neste momento não há uma única sala de cinema a funcionar. O concelho tem 150.000 habitantes. É como vêem. É verdade que noutros concelhos da Grande Lisboa a situação é a mesma. Falaremos mais disto noutra ocasião.
O filme é, para classificar numa frase curta, bastante bom. Conheço mal a obra de Luchino Visconti (1906 – 1976), mas julgo não exagerar ao dizer que não será o melhor filme o dele. Contudo atinge uma craveira muito razoável. É de 1974. Os filmes mais famosos
O argumento é simples. Um professor (Burt Lencaster), já idoso, vive só, dedicando-se aos seus estudos. Após uma vida, que se entrevê ter sido com muitas contrariedades, dedica-se, como ele próprio diz, a estudar as obras do homem mais do que o próprio homem. Um belo dia, uma aristocrata (Silvana Mangano), frívola e corrompida, entra-lhe pela casa dentro e consegue alugar-lhe um apartamento no andar de cima, onde instala o amante (Helmut Berger), um jovem que vive à sua custa.
No esquema entram também a filha (Cláudia Marsani, salvo erro) e o namorado desta. Ao longo do filme vão aparecendo os conflitos sócio-políticos italianos, incluindo referências a situações ocorridas na altura. Envoltos por esta cena, os personagens vão evoluindo mostrando as suas facetas humanas, com destaque para as suas fraquezas, e a indiferença pelo mundo real, onde circulam a maioria das pessoas, que não são privilegiadas. Simpatizam à sua maneira com o professor, que lhes retribue, também a seu modo.
A parte técnica está muito boa. Colorido excelente. Os actores, de primeira categoria (ou Luchino Visconti não os quereria). Vale a pena verem. Há versões em inglês eem italiano. Naprimeira parece que houve cortes por causa da linguagem, na segunda alguns actores (Burt Lencaster?) teve de ser dobrado.
Mostramos alguns dos momentos do filme:
Resposta ao comentário de João Machado ao meu GDH “EU SOU GREGO:
Os comentários de João Machado são, obviamente, pertinentes. Mas as minhas respostas só poderão ser cautelosas:
1. A Grécia vive já uma situação pré-insurreccional que é sempre potenciadora de golpe de estado. Nomeadamente de golpe de estado militar até porque as forças armadas gregas parecem manter-se como uma estrutura à margem do caos que ameaça o país. Seria trágico internamente e levantaria muitas questões externas. Como é que a UE – que se pretende paradigma da democracia representativa – reagiria a um golpe militar num seu Estado membro? Seria um pretexto para o afastamento da Grécia, ou a própria UE apadrinharia o golpe com solução “temporária”? A verdade é que a actual liderança “mercozy” da UE já apoia (ou patrocina) soluções governativas na Grécia e Itália que subvertem a democracia representativa. A “realpolitique” e a hipocrisia têm andado sempre de mãos-dadas.
2. Quanto aos cenários previsíveis em caso de divisão da UE, confesso-me pouco à vontade nesse tipo de previsões. A verdade é que a UE já está dividida: pelo euro, sul-norte, eurocrentes-eurocépticos, atlantistas-europeístas, federalistas-nacionalistas, etc. Provavelmente a sua questão dirige-se mais à possibilidade de haver uma divisão na “zona euro”, pela saída (ou expulsão) de um membro. A previsão das consequências, que começarão por ser financeiras e económicas (na sua sequência, políticas e sociais) ultrapassa-me completamente.

Este quadro de Dorindo Carvalho inspirou
João Machado a escrever o poema AQUELA BELA
Aquela bela, que quer ficar bem na tela
Lança cabelo ao vento, deita roupa ao lado
Quer mostrar que ninguém fascina como ela
A não ser talvez o retrato quando acabado.
Vezes sem conta estuda o que vê ao espelho
Molda o sorriso, pinta os lábios e o rosto
Mistura com o azul, o branco, o vermelho
Para conseguir que o seu seja o nosso gosto.
Traços largos, riscos vincados, formas torcidas
Juntos numa geometria rigorosa e severa
A bela na tela treme em cores esmaecidas
Até ver que a mão do pintor chega e impera.
(Inédito)
Charles Dickens (1812 - 1870) foi sem dúvida o maior famoso escritor inglês do século XIX. Para Walter Allen (1911 – 1995), escritor, ensaísta e crítico literário, autor de The English Novel, ele foi o maior romancista inglês de sempre. Georges Orwell (1903 – 1950) achava que ele não tinha uma ideia clara sobre o funcionamento da sociedade, e descrevia as pessoas e as situações de modo a cativar o lado sentimental das pessoas, transmitindo apenas uma percepção emocional dos vícios da sociedade. Contudo reconhecia-lhe uma capacidade excepcional de cativar o lado humanitário das pessoas de todos os meios e de todas as classes sociais, e que assim contribuiu poderosamente para generalizar o conhecimento do que foi a realidade social inglesa sob a Revolução Industrial, com relevo para o sofrimento da população mais pobre.
O grande sucesso de Dickens deve-se sem dúvida a que conseguiu ser simultaneamente um escritor sério e um escritor que entretinha o público, como também assinala Walter Allen. Começou a sua carreira a escrever histórias curtas para revistas. A Dinner at Poplar Walk sai em 1933, numa revista. O seu sucesso foi rapidíssimo. O seu primeiro romance, The Posthumous Papers of the Pickwick Club, foi publicado em 1837, mas tinha saído anteriormente em fascículos numa revista, o Monthly Magazine, durante os doze meses anteriores. A sua popularidade atravessou logo o Atlântico. Os fascículos de The Old Curiosity Shop (1841) eram aguardados em Nova Iorque por multidões no cais. As pessoas em terra perguntavam para o navio se a heroína, a Little Nell, já tinha morrido. Dickens escreveu ao todo quinze romances, o último dos quais, The Mystery of Edwin Drood (1870), não conseguiu acabar, tendo sido publicados apenas seis dos doze fascículos previstos. De salientar que Barnaby Rudge (1841) e Tales of Two Cities (1859) são romances históricos.
Para além das histórias curtas e dos romances, Dickens também escreveu para o teatro, inclusive para o teatro musicado. São referidas influências do teatro na sua obra, resultantes sem dúvida de uma tentativa, na sua juventude, de participar numa peça de teatro, de que teve de desistir por motivos de saúde.
Todos os romances de Dickens foram previamente publicados em fascículos, o que permitiu que fossem lidos por largos sectores do público, parte dos quais não lhes conseguiria ter acesso de outro modo. Alguns críticos referem que era obrigado a planear as suas obras (ele fazia-o com grande cuidado) levando em conta esse facto, e assim tinha de moldar o enredo de modo a, em cada fascículo, o leitor encontrar como que um enredo menor que encaixasse no mais geral. Mas o mais notável da sua obra, são os personagens. Mesmo os que nunca o leram, ouviram falar de Scrooge, personagem que parece tirado do imaginário popular (provavelmente, foi). T. S. Elliot (1888 – 1965) afirmou que os personagens de Dickens eram tão reais por serem únicos.
Dickens foi sem dúvida muito influenciado na sua obra pelos problemas da sua infância. Em David Copperfield (1849), talvez o seu romance mais famoso, fez um pouco a sua autobiografia. Leitor entusiasta, tem também a influência de escritores britânicos do século XVIII, como Defoe (1660 - 1731), Fielding (1707 - 1754), e Smollett (1721 - 1771). E mais, os críticos assinalam a influência de Cervantes nos Pickwick Papers. Não cabe numa simples crónica um resumo do rasto que deixou, não só na literatura, como no cinema e no teatro, e em todo o mundo das artes. E no mundo em geral.
Os meus cumprimentos a João Machado e agradeço as pertinentes questões que colocou. No entanto, particularmente a primeira questão, não permite uma resposta linear.
1) Historicamente a geoestratégia e a política externa dos EUA tem alternado segundo dois eixos: intervencionismo v. isolacionismo (maior ou menor tendência para participar além fronteiras na resolução das crises internacionais) e multilateralismo v. unilateralismo (maior ou menor tendência para partilhar decisões com os seus parceiros nas instâncias internacionais).
Alguma atracção para catalogar esquematicamente os democratas como mais intervencionistas e multilateralistas e os republicanos como mais isolacionistas e unilateralistas não resiste a uma análise descomprometida. É certo que, vistas as experiências mais recentes, foram os democratas que levaram ao lodaçal do Vietnam e acabaram por ser os republicanos que lhe puseram termo, mas apesar das proclamações isolacionistas de W. Bush (republicano) na sua primeira campanha eleitoral contra as intervenções de Clinton (democrata) nos Balcãs, acabou por enterrar os EUA nos pântanos do Iraque e do Afeganistão, contra as demarcações dos democratas que, para já, encerraram a intervenção no Iraque e anunciam a saída do Afeganistão.
Já quanto ao eixo multilateralismo v. unilateralismo diria que tem sido mais constante a maior vocação multilateralista dos democratas e a maior vocação unilateralista dos republicanos, bem expressa, por ex., nas grandes directivas estratégicas da casa Branca das presidências W. Bush e Barack Obama.
O que tem determinado as opções é fundamentalmente o poder relativo dos vários lobbies (caucus), industrial-militar, judaico, petrolífero, árabe-saudita, afro-americano, etc., etc. em cada momento ou perante cada conjuntura. Mas há uma questão que, a mim me leva, apesar de tudo, a desconfiar mais de uma administração republicana: é que o mal-digerido fracasso da administração W. Bush precisa de ajustar contas e os neoconservadores republicanos têm uma perspectiva mais hard do império mundial liderado por Washington, contra a perspectiva mais soft dos democratas.
2) Sabe-se como sempre as situações de crise geram tentativas de encontrar inimigos externos que desviem atenções, transfiram tensões e possam apelar a falsos unanimismos internos. Se extrapolarmos esta constante dos velhos Estados-nações europeus para o actual espaço político mais amplo que é a UE, justifica-se que estejamos alerta. Tanto mais que já alguns petits Bonapartes como Sarkozy engrossam a voz face ao Irão e continuam em cargos de responsabilidade homens como Durão Barroso e Paulo Portas que recorreram à fraude e à mentira deliberadas para envolverem Portugal na guerra de agressão ao Iraque.
(Conclusão)
Os políticos e o poder passam por cima de tudo. Há liberais, cegos pelo facciosismo partidário, que ainda acreditam que a administração Bush se sobrepunha à lei, mas que os Democratas são exemplares no tratamento das normas. Se não levarmos em conta a retórica de cata-vento de Obama, a sua administração neste momento em pouco difere da do seu predecessor. Ignorem, só por um momento, o poder dos políticos e propagandistas de impor os seus tabus e os seus preconceitos à sociedade americana como um todo, um poder usado muitas vezes desregrada e vingativamente para silenciar a oposição que vem de todos os lados – Bradley Manning, Thomas Drake (libertado após um forte protesto nos meios de comunicação liberais), Julian Assange, Stephen Kim, que neste momento estão a ser tratados como criminosos e inimigos públicos, conhecem isto melhor do que a maioria das pessoas.
Nada descreve melhor esta aviltação do que o assassinato de Osama Bin Laden em Abbotabad. Podiam tê-lo capturado e levado a julgamento, mas nunca tiveram essa intenção. A maneira de ser dos liberais foi evidenciada pelos cânticos ouvidos em Nova Iorquenesse dia: E-U-A, E-U-A, o Obama apanhou o Osama. O Obama apanhou o Osama. Não nos conseguem vencer (aplausos) Não nos conseguem vencer. Dêem cabo do Bin La-den. Dêem cabo do Bin La-den.
Os líderes da Europa, parceiros menores da família imperial das nações, incapazes de terem ideias próprias, numa linguagem mais diplomática, fizeram eco a esses cânticos. As frases feitas e a hipocrisia tornaram-se a marca da cultura política.
Vejam o caso da Líbia, o exemplo mais recente de uma “intervenção humanitária”. A intervenção dos EUA e da NATO na Líbia, com a cobertura do Conselho de Segurança da ONU, faz parte de uma resposta orquestrada para exibir apoio a um movimento contra um determinado ditador, e deste modo contribuir para pôr fim às rebeliões árabes impondo o controle ocidental, usurpando o seu ímpeto e espontaneidade daquelas, e tentar repor o statu quo anterior. Como agora se vê os britânicos e os franceses gabam-se de sucesso e de que vão controlar as reservas líbias de petróleo como pagamento pela campanha de seis meses de bombardeamentos.
Entretanto os aliados de Obama no mundo árabe têm trabalhado intensamente a promover a democracia. Os sauditas entraram no Bahrein, cuja população está a ser tiranizada e há detenções em grande número. Sobre isto pouco se fala na Al-Jazeera. Pergunto a mim próprio porque será? Esta estação de televisão parece ter sido levada a mudar as suas orientações e voltar a obedecer às orientações políticas dos seus fundadores. Tudo isto com o apoio activo dos EUA. O déspota do Iémen, detestado pela maioria do seu povo, continua a matar por controlo remoto a partir da sua base saudita. Nem sequer lhe impuseram um embargo de armamento, ou uma zona de interdição de voo. A Líbia é outro caso de vigilância selectiva por parte dos EUA e dos seus cães de guerra ocidentais. Que os Verdes Alemães, que estão entre os europeus que mais ardentemente defendem o neo-liberalismo e a guerra, tenham querido participar deste assalto revela mais sobre como têm evoluído do que os méritos ou deméritos da intervenção em si.
Os limites do esquálido protectorado que o ocidente se prepara para criar estão a ser determinadosem Washington. Mesmoaqueles líbios que, em desespero de causa, apoiaram os bombardeamentos da NATO, poderão – tal como os seus equivalentes iraquianos – viver o suficiente para lamentarem a opção que fizeram.
Tudo isto vai levar a uma terceira fase: um furor nacionalista crescente que se vai espalhar e chegar à Arábia Saudita, e aqui, não duvidem, Washington fará tudo o que for necessário para manter no poder a família real saudita. Perder a Arábia Saudita é perder os estados do Golfo. O assalto à Líbia, muito facilitado pela imbecilidade de Khadafi em todos os aspectos, foi estudado para obstar à iniciativa que constituíam as manifestações de rua ao aparecer como feito pelos defensores dos direitos humanos. Os bahrainitas, egípcios, tunisinos, sauditas, iemenitas não estão convencidos, e mesmo na Europa-América há mais quem se oponha a esta última proeza do que quem a apoie. Os conflitos não terminaram, de modo nenhum.
O poeta alemão do século XIX Theodor Däubler escreveu assim:
O inimigo é a nossa própria insegurança encarnada
E acossar-nos-á, e nós acossá-lo-emos perseguindo o mesmo alvo
O problema hoje em dia com esta maneira de ver as coisas é que quem é o inimigo muda demasiadas vezes, ao sabor das necessidades da política norte-americana. Ontem Saddam e Khadafi eram amigos, e os serviços secretos ocidentais ajudavam-nos regularmente a lidar com os seus inimigos. Estes últimos passaram a ser amigos e os primeiros tornaram-se inimigos. E deste modo continua a confusão ao nível planetário. O assassinato de Osama Bin Laden foi saudado pelos líderes europeus como se o mundo tivesse ficado mais seguro. É uma história da carochinha.
O ultimo livro de Tariq Ali “The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad’ foi publicado pela Verso.
* Sociólogo
Vasco Lourenço começa por recusar o actual estado de coisas em Portugal, afirmando claramente eu não quero esta democracia. E diz ainda que, como militar de Abril, se bateu pelo aprofundamento da democracia, pela conjugação da democracia representativa pela democracia participativa. Refere a necessidade de acabar com a enorme separação, a enorme distância a que os eleitos se colocam dos eleitores, para conseguir daqueles uma maior responsabilização. É necessária uma participação a todo o tempo. E Vasco Lourenço chama a atenção para que a legalidade do poder não é suficiente, é preciso legitimidade para o exercer. Apela à participação nas organizações de base, de molde a que estas não sejam monopolizadas pelas organizações políticas, que só justificam a sua existência no campo da democracia representativa. Termina chamando a atenção para a necessidade da transformação da justiça em Portugal.
Pessoalmente, compreendo a preocupação de Vasco Lourenço, um dos obreiros do 25 de Abril, com a situação em Portugal. Na verdade, é impensável que o actual estado de coisas no nosso país fosse desejado por alguém, defensor da democracia e do bem-estar dos portugueses, assim como da imagem do nosso país. Vasco Lourenço aponta, e bem, que houve uma paragem no processo de democratização do nosso país. É que a democracia é um processo dinâmico, e não uma situação estática, que uma vez alcançada, cada um regressa à sua concha, e retoma o ritmo casa-trabalho-casa-televisão-cama.
Haveria que, em continuação, fazer uma reflexão sobre o processo histórico do após 25 de Abril, e como chegámos aqui. E outra reflexão sobre os diferentes poderes em Portugal, quais são as grandes influências que se exercem sobre a sociedade portuguesa. Porque é que a estratificação social portuguesa não sofreu grandes alterações, pelo contrário está a regredir para situações idênticas, ou talvez ainda piores, do que anteriormente. Porque é as melhorias na vida dos portugueses, que inegavelmente as houve no pós-25 de Abril, estão a ser tão ameaçadas.
Tenho a certeza que Vasco Lourenço gostará de dar o seu contributo para estas reflexões.
Comentário de Josep Anton Vidal* ao depoimento de Paulo Ferreira da Cunha
*escritor, editor e pedagogo catalão
É meritório o esforço para cozinhar pratos deliciosos. As salas de aula são espaços abertos à criatividade dos professores, mesmo com um mau sistema educacional. Eu sempre acreditei que a sala de aula é - talvez não totalmente, mas substancialmente - uma realidade separada do sistema educacional. Em qualquer sistema de ensino, os professores podem preparar lições suculentas, como o chef pode preparar pratos deliciosos.
Mas o nosso problema hoje não é a qualidade do menu, mas a falta de fome. Nada é bom para aqueles que não estão com fome. Se queremos uma sociedade melhor, um melhor sistema de educação, melhor consciência democrática, uma maior participação social ... temos de aprender e ensinar a fome: a fome de solidariedade, para melhorar a nossa sociedade; fome de cultura (curiosidade), para melhorar o aprendizagem; fome de justiça, para melhorar a vida democrática; fome de progresso, para orientar e melhorar o nosso trabalho; fome de convivência, para melhorar o diálogo, o respeito, a participação; fome de pensamento, para aprofundar nosso critério, para construir solidamente os nosos argumentos...
Quando estávamos com fome, nós pedimos – exigimos - à sociedade pratos suculentos. Quando, com muito esforço, finalmente conseguimos pôr a mesa, em vez de pratos suculentos, empanturrámo-nos com forragem (consumismo, televisão embrutecedora, indiferença social, valores hedonistas, egocentrismo ...). E temo que hoje, quando parece que ressurge novamente a fome, só saibamos pedir forragem. Por esta razão temos que "educar" a fome. Acho que este deve ser o primeiro e principal trabalho dos professores e o empenho das pessoas conscientes da sua responsabilidade política.
Publicado em Estrolabio
É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.
Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.
A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.
O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.
O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.
Quinta-feira à noite fomos ao Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II). Éramos cerca de quarenta, de Vila Franca de Xira, numa deslocação organizada pela Cooperativa Alves Redol. A maioria viajou numa camioneta cedida pela Câmara Municipal, alguns de automóvel.
A peça foi encenada por Ana Luísa Guimarães, que também traduziu, em conjunto com Miguel Granja. Os actores são Maria João Luís (Martha), Virgílio Castelo (George), Sandra Faleiro (Honey) e Romeu Costa (Nick). Dizer que o nível geral do espectáculo é muito bom é pouco. Será melhor usar uma expressão como: puseram tudo em palco. Os quatro actores terminam com certeza o espectáculo exaustos. A peça estreou em 26 de Novembro.
Quem tem medo de Virginia Woolf? (1962) é a obra emblemática de Edward Albee (1928 - ). Ele próprio diz (Stretching My Mind , Nova Iorque, 2005, citado no livrinho de apoio da peça, vulgo programa, à venda no TNDM II) que a tem pendurada ao pescoço, como uma espécie de medalha reluzente. Acha muito bom, embora um pouco pesado. Recorda que outros dramaturgos também são conhecidos por uma só peça, normalmente das primeiras, e nem sempre a melhor. Sem contar com as obras da juventude, Albee escreveu Zoo Story (1959), The Death of Bessie Smith (1960), The Sandbox (1960) e The American Drama (1961), que estrearam antes de Quem tem medo de Virginia Woolf? Mais tarde estrearam The Ballad of Sad Café (1963, adaptação da novela de Carson Mc Cullers), Tiny Alice (1964) e numerosas outras como Three Tall Woman (1994), que foi apresentado no TNDM II em 1996. Entretanto Albee encenou peças suas e de outros autores e dá aulas de dramaturgia.
Quem tem medo de Virginia Woolf? foi um êxito comercial desde a primeira hora. A crítica dividiu-se e Albee não foi nomeado para o Pulitzer de teatro. A peça aguentou-se em cena na Broadway até 1964. Em Portugal foi representada pela primeira vez em 1971, numa produção de Vasco Morgado.
A trama tem influência da vida pessoal do autor. Albee foi adotado com duas semanas de idade por um casal abastado. As tensões entre os dois casais giram à volta da ausência do filho, no caso do casal mais velho, e de uma gravidez histérica, no caso do casal mais novo. Há também o peso destruidor do pai de Martha, que esta contrapõe ao marido. E os personagens mostram-nos as suas vidas através de assaltos mútuos e cruzados, em que cada um se procura superiorizar aos outros, ou talvez, pura e simplesmente sobreviver. Assim o primeiro acto denomina-se Divertimento e Jogos, o segundo A Noite das Bruxas e o terceiro O exorcismo. A dúvida é, após o cansaço do esforço sem tréguas de arrancar as máscaras e destruir as ilusões, o que fica?
Vão ver, que não perdem tempo. Trata-se sem dúvida de uma obra-prima, em que mesmo o mais blasé encontra algo que lhe diz respeito. E muito bem tratada, pela encenadora, actores, técnicos. Tem nota alta.
António Osório
(Setúbal, 1933)
PESO DO MUNDO
A poesia não é, nunca foi
uma enumeração ou composto
de exuberância, bondade,
altitude, nem arado
ou dádiva sobre chão
prenhe de mortos.
Nem o arrependimento
de Deus por ter criado o homem
com o rosto da sua memória,
ao lado dos seus vermes.
Tão-pouco fôlego dos que amam
abrindo a porta límpida
do corpo e chovendo sobre a terra,
ou carregam como tartarugas
o peso do mundo.
Nem reverência por um tigre,
pela leveza maligna de todas as patas,
pela sonolência junto à estirpe
aprisionada também
na dureza de ser tigre.
É o milagre de uma arma
total, de uma só palavra
reduzindo o átomo à completa inocência.
(A Ignorância da Morte)
João Machado
(Lisboa, 1943)
SOBRE UM MAU POETA
Vou contar-vos uma tragédia
De um senhor que queria ser poeta
Fazer lindos versos tinha por meta
Resultava sempre uma fraca comédia
Rimas pobres era uma praga
Pontapés na gramática em cada linha
Pois a falta de talento esmaga
Quem tem pouco juízo na pinha
A poesia é a arte de comunicar
De quem tem o sentimento, a excepção
Com quem vive o dia banal, o vulgar
Transmitir o fogo, a modulação
De querer, sofrer, lutar, amar
Sem dos medíocres vir atrapalhação
___________________________
Vasco Graça Moura
(Porto, 1942)
As palavras estão presas ao real. Não há praticamente nenhuma poesia, nenhuma literatura, que sobreviva se não houver uma especial coerência entre elas e a realidade. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a todas as outras artes, sendo certo que, na música, estas coisas se põem em termos qualitativamente diferentes (provavelmente na música, e no Ocidente, o sistema tonal tende a exercer a mesma força de atracção que o real). Estas coisas para mim põem-se em termos de uma extrema simplicidade, sem altos voos filosóficos, num plano prático e corrente dos significados. É claro que a espessura do real é múltipla: tanto inclui o onírico como o pensamento abstracto. Eppure... é sempre o real. Hoje, assim como nas artes o fim do século XX parece ter ficado assinalado por um "neo-figurativismo" (outra vez o real...), também na poesia se regressa ao real (subjectivo e objectivo) em muitas modalidades. O escritor é um ser humano que utiliza as palavras com um certo nível de exigência qualitativa. Capturar o real, mesmo que seja para fazê-lo "inflectir", é um dos seus objectivos. É provável que o cinema e a fotografia tenham contribuído para acentuar essa necessidade. Não penso que se trate de um vício, mas de uma condição inelutável. A literatura é uma forma de criação artística pela palavra, mesmo quando tenta convocar outras áreas (veja-se, por exemplo, a ekphrasis). A sua relação com o real decorre naturalmente desta condição verbal.
(em entrevista a João Luís Barreto Guimarães)
Ilustrações de Adão Cruz
Samuel Langhorne Clemens nasceu em 30 de Novembro de 1835 em Florida, no estado do Missouri. Cresceu em Hannibal, também no Missouri, mesmo junto ao rio Mississípi. Trabalhou como tipógrafo e jornalista, e também a bordo de embarcações, chegando a ser piloto. Começou a assinar os seus escritos como Mark Twain aos 27 anos, quando se tornou jornalista profissional, adoptando o grito dos barqueiros do rio, ao encontrarem águas seguras para navegar. Para eles mark twain queria dizer: encontrei duas braças de profundidade (two fathoms). Pode-se dizer que, deste modo, um grito deu a volta ao mundo, muito mais que duas braças.
Clemens viveu numa época de grande evolução política e social, com enormes contradições, que a sua obra reflecte de vários modos. Por isso, Mark Twain é tido como o pai do realismo americano. O humor que impregna os seus escritos, a cor local que conseguia transmitir, fez com que alguns achassem que não era um escritor muito sofisticado. Contudo, o seu estilo simples e directo permitia-lhe transmitir aos leitores a essência dos dramas da vida do tempo. No Huckleberry Finn (1884), talvez o seu livro mais famoso, e sem dúvida uma obra prima, a solidariedade de Huck com o escravo Jim (talvez o verdadeiro herói do livro), mantida no meio de situações muito complexas, retrata bem a sociedade (incluindo os estilos de vida e os modos de falar) da região do Mississípi, e a iniquidade do problema da escravatura. A importância desta obra fez com que um crítico literário como Walter Allen (1911 – 1995), em The English Novel (1954), afirmasse que libertou a ficção americana do domínio da literatura especificamente inglesa.
Mas Mark Twain escreveu uma obra vasta, que inclui a sátira social, como é o caso de The Gilded Age (1874, em conjunto com Charles Dudley Warner), o romance histórico, como The Prince and the Pauper (1881), A Connecticut Yankee at King Arthur’s Court (1889), Personal Recollections of Joan of Arc (1896), contos, e até incursões no campo da filosofia. A sua popularidade foi grande, até porque o seu estilo pessoal, despretensioso, irreverente, com um bom humor constante, com muita iniciativa, enfrentando com valentia as agruras da vida, caía bem entre os seus compatriotas. Nos meios académicos já não seria tão bem considerado, mas, ao que parece, isso não o preocupava muito. E muitos escritores do século XX consideram-no como uma influência marcante, a começar por Hemingway. Por seu lado, Mark Twain, desdenhava os românticos, incluindo Walter Scott, Fenimore Cooper e Byron, ao que nos informa N. Foerster, na sua Image of América (1962), preferindo os humoristas ingleses do século XVIII, como Henry Fielding, Tobias Smollett e Oliver Goldsmith.
Este texto já foi publicado no Estrolabio em 4 de Fevereiro de 2011. Reproduzimo-lo hoje, com pequenas alterações.
Um café na Internet
Julgo que nos anos quarenta, William Somerset Maugham (1874-1965) escreveu um romance tendo Maquiavel (1469-1527) como personagem central, inspirado na peça que este escreveu, La Mandragola. Partindo do enredo da peça, Somerset Maugham por seu turno tece um enredo, em que Maquiavel tem um papel central, o do pretendente a sedutor de uma bela jovem casada com um senhor opulento mas pouco inteligente. Dá à história um tom humorístico, pondo o cínico e experimentado florentino a ser ultrapassado na recta final de um modo divertidíssimo, por outro candidato, muito mais jovem. Este romance que, vocês têm de ler se ainda não o fizeram, foi traduzido para português por Erico Veríssimo, em 1948. Em Portugal saiu na colecção Miniatura, em data que não consigo precisar. Também não consegui descobrir o título em inglês (terá sido Then and Now? Este romance foi publicado em 1946, e nunca o encontrei).
Somerset Maugham foi um autor extremamente prolífico, que escreveu peças de teatro, romances (os mais famosos foram Of Human Bondage e The Razor’s Edge), e contos. Nesta última modalidade foi um mestre, e deixou centenas deles, alguns deles muito famosos como The Lunch. Colaborou em jornais, revistas, etc. Foi sem dúvida um escritor de grande talento, que dominava as melhores técnicas da sua arte. Muito observador e perspicaz, chegou trabalhar com os Serviços Secretos do seu país, tendo escrito Ashenden, com base nesta experiência. Como curiosidade, já li uma referência sobre a influência que este trabalho terá tido sobre Ian Fleming, o criador de James Bond. Mas alguns opinam que Somerset Maugham, culto e talentoso como era, no seu trabalho não foi um escritor original, inspirando-se por vezes na obra e no estilo de outros autores, como Dickens e Wilde.
De qualquer modo, este romance, Maquiavel e a Dama, é extremamente agradável e lê-se com grande facilidade. Um aspecto de grande interesse é a reconstituição do ambiente e da vida da época que o autor nos oferece, acompanhada de elementos históricos importantíssimos, nos quais o enredo se encaixa facilmente. Consegue-se ter uma imagem de Maquiavel muito verosímil, dando-lhe uma faceta humana, sem de modo nenhum o querer transformar num bom rapaz (que ele realmente nunca deve ter sido). A propósito, recordo-lhes que La Mandragola é tida como uma das melhores comédias escritas no século XVI, e que o ensaísta inglês Macaulay (1827) chegou a opinar que Maquiavel, se se tivesse dedicado ao teatro, poderia ter sido um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Terá exagerado, na medida em que Maquiavel fez outras incursões no teatro, que não foram tão felizes. Mas ele dedicou-se foi à política. Ainda, a propósito, para os que gostam, descubram o que o historiador inglês Lorde Acton (1834-1902) escreveu sobre Maquiavel, na introdução a uma edição de Il Principe, de 1891, da Clarendon Press, Oxford.
É preciso lembrar que Maquiavel foi o primeiro pensador que analisou a política e os fenómenos sociais, sem se apoiar na ética ou na jurisprudência. Foi contra os princípios aristotélicos dominantes na altura em que viveu, segundo os quais a política era uma mera extensão da ética. Acho que o Somerset Maugham, de um modo afável e divertido, nos dá neste romance uma ideia muito razoável do homem e da época.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
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José de Brito Guerreiro
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José Magalhães
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Luís Rocha
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