«Ambrizete foi a última localidade onde pernoitámos antes de seguir para o Lufico. A viagem até aí não se me havia apresentado carregada de perigos. Eram os benefícios da ignorância, apesar de tudo.
Mas foi na missão de Ambrizete que um dos oficiais, já com a sua farda amarelada indiciadora da sua veterania, melhor dizendo, do fim da sua comissão de serviço, ao saber do meu destino, me deu uma pancadinha nas costas e desejou-me muita sorte. Aí, aqueles meus apêndices esféricos que nos homens são referências de masculinidade e "portanto" de fortaleza, reduziram-se à sua ínfima dimensão. Não sei se inconscientemente levei as mãos ao sítio para comprovar a situação.
Dia seguinte, depois de organizada a coluna na qual se incorporavam alguns elementos da população civil, mormente mulheres e crianças, lá seguimos. A presença daqueles civis proporcionou-me alguma calma. Com os diabos: se eles ali iam, até bem-humorados alguns...
Mas em Ambrizete, por muito curta que tenha sido a paragem, tinham ficado os meus olhos e a minha ilusão. Em Luanda já me tinha apercebido da força telúrica de África, porém a pequenez daquela povoação à beira Atlântico e a promessa de uma vida calma ao compasso da natureza, deixou-me completamente subjugado. Até a sonoridade do seu nome; Ambriz já soava bem, mas Ambrizete, nome de mulher, um regaço tranquilo, uma promessa de amor na praia, uma refeição de marisco ou peixe, eu sei lá. Seria o meu espírito a querer esconjurar os medos que trazia comigo?
Durante a comissão passei em Ambrizete não mais do que três vezes. Numa delas instalei-me no hotel. O quarto em que pernoitei tinha uma imprescindível, estética e ecológica rede mosquiteira. Desfrutei de um belo passeio à beira mar e da comida do hotel.
Havia uma peculiar atmosfera social naquele hotel. Creio que todos os quartos se situavam no andar superior e no rés-do-chão o salão do restaurante e bar. Uma senhora já na terceira dezena de anos vividos, que creio era a dona, deambulava pelo salão dando as boas vindas aos comensais, quase todos militares vindos do "puto", deslocados do seu habitual meio social. Creio que era apelidada de "madrinha", provavelmente à semelhança das madrinhas de guerra que apoiavam muitos dos militares em comissão de serviço naquelas e outras paragens de África. Entravam e saíam fardas. Além de hotel era também o clube social do sítio.
Um encontro com dois agentes da PIDE que tinham estado no Lufico, sem que eu me tivesse apercebido da razão da sua estada, conduziu-me às instalações daquela polícia. Aí compreendi a razão do convite: apresentaram-me um farrapo humano correspondente ao que tinha sido um assalariado na nossa companhia no Lufico. Tinha a alcunha de Kit Carson. Tinha sido relacionado com uma emboscada, ocorrida, salvo erro, num troço da estrada entre Ambrizete e Ambriz, a uma brigada da Junta de Estradas. Para lhe sacar informações tinham-no deixado de rastos. Eu, naquela situação teria confessado que o sol é quadrado e que o Papa era uma mulher... Agarrou-se a mim como se eu fosse o Cristo e ele o paralítico do episódio bíblico. E eu nada fiz, senão estender-lhe a mão.
Paralisei. Nem me lembro se equacionei os benefícios que eu próprio poderia sacar da actividade policial, na medida em que as hipóteses da minha intervenção bélica ficariam bastantes reduzidas.
Aos agentes interessava que eu registasse a eficiência da acção da polícia para segurança das forças armadas portuguesas em luta contra as forças independentistas, na época simplesmente apelidadas de terroristas. Registada ficou. O que não apurei foi se o Kit Carson realmente estava implicado na emboscada ou se os agentes tiveram necessidade de apresentar serviço»
João Rego
HISTÓRIAS DA GUERRA
«Fonseca aproximou-se da sentinela com a mesma facilidade com que um felino fila a presa que pretende caçar. Oprimiu a respiração, estava a dois passos do sacana. Num salto certeiro, a arma agarrada com as duas mãos, deu com o topo da coronha na nuca do bandido, que caiu como um tordo! Com o punhal, deu o golpe final àquele desgraçado. Os homens da secção seguiram atentamente os seus últimos gestos e avançaram no envolvimento das duas palhotas da entrada do acampamento inimigo. A surpresa foi fatal para os restantes quatro bandidos que tentaram fugir em tronco nu. Não deram sinal de rendição e os homens das secções posicionadas no enfiamento do trilho de acesso, dispararam as balas mortíferas que varreram tudo, com a rapidez de um relâmpago, perfuraram os corpos que foram caindo junto às palhotas.
A densa vegetação que ladeia as palhotas prejudicava a vigilância, e os bandidos das palhotas do fundo fugiram para a mata. A experiência de outras situações semelhantes não aconselhava a perseguição no "escuro". E os pára-quedistas tomaram precauções... mas o capitão ordenou à secção do sargento Assis:
- Manda três homens vigiar a mata por detrás das palhotas, que nós vamos dar duas rajadas de aviso aos que fugiram, só para saberem que contamos com eles para a festa da noite...
À ordem do comandante, as rajadas cortaram as folhas e assustaram os homens do pelotão do alferes Oliveira que estavam nas palhotas do fundo. O capitão conferenciou com os outros oficiais e comentou:
- Os que fugiram não nos devem inquietar mais; mas vamos andar com redobrada atenção.
Era admirável a paciência daquele pessoal. Setenta homens de mochila às costas, com a fome a roer o estômago, e ninguém aproveitou para tirar uma ração e comer!
Esta é uma guerra donde até os animais fogem... só ficaram as hienas e alguns mabecos para limparem o terreno de carne podre!
Nos locais de perigo eminente, as probabilidades de ataques não deixam espaço para distracções e ninguém adormece; mesmo quando comem as suas rações, continuam vigilantes.
- Os presos só dão chatices. – diz o Serôdio, enquanto abria a lata de atum.
Ainda não esqueceu o dia em que teve à sua guarda um prisioneiro que tentou fugir e o fez andar ligeiro da perna... dando-lhe com o capacete nos olhos para o acalmar!
Se não era o sol escaldante a tolher a vida à malta do capim, eram as trovoadas com chuva de afogar os animais de perna curta. Mesmo assim, a fila de pirilau avançava no lamaçal e as botas afundavam-se nos sulcos escondidos na água lodosa que as enxurradas descarregavam para a picada. E quando os raios de sol começavam a secar os camuflados, saíam névoas de fumaça como se os corpos fossem tochas sem chama. Dois sons estridentes de um apito, saídos do meio da mata, puseram todo pessoal em sobressalto! Logo tomaram posições defensivas e vigiaram as árvores e os pontos mais sensíveis às emboscadas. Os minutos alongaram-se sem que se vislumbrasse qualquer movimento. Esta nova forma de comandar espantou os homens do capim; perceberam que os bandidos andariam à ordem do apito do chefe, uma novidade. Mas o som infiltrado na mata não abrandou a continuação da missão bem no meio da guerra, nem esmoreceu a vontade de vencer os obstáculos até ao regresso a Luanda.
O grupo rompeu mata dentro, atravessando as linhas de água, simples ribeiras ou riachos. Umas a vau, deixando as botas a espichar, outras por cima dos troncos de árvores arrastados e atravessados nos riachos. Depressa apareceu o capim a ladear a vegetação rasteira e, algumas vezes, com clareiras alongadas. Foi curto o tempo para apreciar essas clareiras... as balas pareciam saraiva a bater nas árvores marginais à picada. Não fora a rapidez com que os homens da frente se abrigaram e o desastre seria bem maior do que na picada de Quicabo para as sete curvas.
De repente, um gemido... e o Carmo contorcia-se com dores – fora atingido por duas balas. Duas secções fizeram o envolvimento pelo flanco mais arborizado, para recuperarem a acção de fogo da malta que ficou à mercê das balas inimigas. Os homens da secção do Abrantes rastejaram até à posição frontal para bater os terroristas. Mas o Vilela ficou ferido com uma bala no braço esquerdo, arrastou-se para um sulco do terreno e continuou a fazer fogo. O Carmo, com as calças ensopadas em sangue, virou-se de costas, ficando mais protegido, e o enfermeiro atendeu aos gemidos. Coisa grave, uma bala arrombou o escroto e os tomates ficaram desfeitos! Já em fase de acalmia, o capitão aproximou-se e, desagradado pelo poder de fogo do inimigo, murmurou:
- Há nove ou dez meses atrás, estes sacanas atiravam-se contra as balas e morriam às centenas; não encontrámos nem uma automática nos despojos dos mortos! Nos ataques que fizeram, durante dias a fio, contra a Damba, Quitexe, 31 de Janeiro, Bungo e outras povoações, foram recebidos a fogo duro e morreram aos magotes. Agora é isto... estão bem abastecidos! Virou os olhos para o tenente Aleixo, que entendeu a mensagem.
- Vamos acabar com eles... e é para já. – exclamou o tenente, de semblante tenso.
Fez um sinal bem pronunciado ao sargento Ferraz para mandar contornar a pequena elevação de terreno e tentar apanhar os terroristas por trás... Enquanto a secção do Saldanha tomava uma boa posição de fogo e corria com os bandidos que restavam; e os gajos perderam a força e a graça das novas armas, dando uns tiros espaçados e à distância.
Mais de sessenta homens habituados a bater trilhos e picadas no meio das densas matas dos Dembos, Sacandica, Quimbele, serra de Mucaba e Inga, ficaram admirados com as novidades que os terroristas da UPA apresentaram.
Ao contrário do que pretendem insinuar os chefes dos gabinetes do ar condicionado, que vão perdendo o aprumo, a guerra existia e com melhores meios para o inimigo! Sinal de que estava para durar...
O pelotão do tenente Aleixo ficou a proteger o pessoal na prestação de socorros aos feridos. O caso mais complicado era o do Carmo; mas o enfermeiro conseguiu estancar a hemorragia, injectando coagulantes. Foi bem atado com ligaduras a contornar a gaita... que ficou com um volume descomunal! O facto serviu para alguns comentários irónicos, uns mais pessimistas e outros menos. A malta sempre foi propensa a levar as coisas pela positiva, onde se destacavam os reguilas das bandas do Tejo a analisar a situação.
- Eh pá, como é que o Carmo se vai safar com a gaja que deixou lá na terra? – indagou o Cacela, com toda a seriedade.
- Lá terá de se mandar fora, ou arrisca-se ao tormento da cornadura sem conta e medida. – sentenciou o Baleia.
O Sousa não gostou do que acabava de ouvir, recordando as palavras do enfermeiro Pena, que enrolou as ligaduras à volta dos tomates do rapaz, deu o seu palpite:
- Se o Pena deixou a pichota do Carmo fora das ligaduras é porque a coisa ainda funciona; o que é bom para a saúde mental do moço. A malta deve animá-lo; se é grande a dor do ferimento, quanto mais não será o desgosto de saber que lhe romperam o saco dos colhões – um autêntico desastre!
O pelotão do alferes Oliveira contornou o morro, à procura de indícios dos terroristas. A mais de duzentos metros da encosta, descobriram um esconderijo com água e alimentos guardados. Fizeram de conta... seguindo morro acima, até à segunda surpresa do dia: uma gruta com pouco mais de um metro de altura na entrada... donde saíam sons sibilantes de palavras. O sargento Pereira fez sinal de silêncio e recuou. Dispôs o pessoal de um só lado da gruta, prontos a disparar contra qualquer bandido. Os homens das outras secções afastaram-se do campo de tiro e tomaram a posição deitados. O alferes puxou a cavilha à granada que atirou para dentro da gruta... seguiu-se uma explosão abafada e uma nuvem de fumo espalhou-se morro acima. Poucos minutos após, cinco negros vestidos de caqui saíram disparados como um vendaval. As balas de raiva soltaram-se das armas e dizimaram os bandidos que tombaram morro abaixo. Com os olhos vidrados, a lacrimejar, ali ficaram estendidos à mercê das hienas...
As tentativas para entrar na gruta saíram frustradas, porque o fumo não permitia ver os contornos do esconderijo. Antes de ser armadilhada a entrada da gruta, o sargento Ferraz atirou mais uma granada bem para o fundo, na tentativa de destruir quaisquer armas que os bandidos tivessem deixado!»
João Rego
LUANDA
A chegada a Luanda aconteceu, naturalmente e no meio de grande expectativa.
Uma grande parte da cidade era visível do "Vera Cruz", e já na altura, era uma cidade que se apresentava com grandes edifícios e a sua linda marginal e a ilha (restinga) com praia para o lado da marginal e para o Atlântico, lindíssima e de águas quentes.
Durante a viagem e durante a noite fomos tomando consciência de que o primeiro homem tinha chegado à Lua.
Assim, ficará como marca, para sempre na nossa memória a nossa chegada a Luanda e o primeiro homem à Lua.
Pela manhã do dia 21/07/1969 o "Vera Cruz" encostou o seu casco de aço, já com alguns anos de viagens por esses mares de África, no porto da então Luanda.
Ao colocar o pé em terra de Angola, era dado o sinal de partida para uma longa e penosa maratona de 2 anos consecutivos nas matas do Norte de Angola.
Seguiu-se o desembarque, a ida para o Grafanil, um imenso e complexo campo militar, que servia acima de tudo como local de chegada e partida das diversas unidades militares que passavam por Angola.
Foram as vacinas, contra a doença do sono, dadas em quantidade e em função do peso de cada um de nós, e, curiosamente, à sombra de um enorme embondeiro.
O desembarque, a ida para o Grafanil em comboio, tal qual como na 2ª guerra, para um campo militar que servia de "campo de expedição" de todas quanto chegavam a Angola e por aí aguardavam uns dias até à sua saída para os aquartelamentos onde muitos chegavam e também muitos não regressavam.
Recordemos o transporte efectuado em camiões de transporte de mercadorias, com enormes taipais, com os militares dispersos por entre as suas bagagens.
Primeira paragem em Ambrizete, com uma bela praia e o célebre Brinca na Areia, depois Tomboco, onde deixamos parte dos companheiros da CCS e da CCaç 2542 que seguiu a caminho do Norte, para o isolado acampamento do Lufico.
Todos os outros foram seguindo, picada fora, até Quiximba, ai ficou a 2541, outros para Zau Evua, o Comando do Batalhão e parte restante da CCS e a CCaç 2543.
Assim ficou distribuído nesta fase inicial o BCaç 2877: ZAU ÉVUA, TOMBOCO, LUFICO, QUIXIMBA, QUIENDE.
Batalhão de Caçadores 2877
ANGOLA
1969-1971
Na manhã de 12 Julho de 1969 as subunidades do BCaç 2877 deslocaram-se para o Cais da Rocha de Conde de Óbidos onde se efectuou a concentração do Batalhão. Após formatura, juntamente com o BCaç 2878, à qual foi passada revista pelo Exmº Chefe do Estado-Maior do Exército que proferiu uma alocução de exortação às forças em parada, procedeu-se ao embarque no paquete "Vera Cruz" com destino à Região Militar de Angola.
OS PRIMEIROS MOMENTOS DA VIAGEM
Após o desfile militar e o regresso ao navio, onde já tínhamos estado para saber do local de alojamento e colocar as bagagens, a amurada do "Vera Cruz", nos seus diversos níveis, ficou repleta.
Foram as derradeiras despedidas, com o barco a largar os cabos e a fazer soar a sua potente ronca, sinal que zarpava definitivamente a caminho do desconhecido.
Aqui vamos nós a caminho de Luanda.
Nestes primeiros momentos da viagem, a novidade e a curiosidade pela viagem por mar, num paquete de grandes dimensões, sobrepunha-se, naturalmente, ao receio da guerra.
Uma passagem pelo Funchal para embarcar mais militares que aí se aprontaram para a ida para o teatro de operações da guerra de Angola, dava também, mais alguma folga aos principais temas dos nossos pensamentos – Angola, Guerra, etc.
Para alguns de nós, a possibilidade de desembarcar no Funchal, para dar uma olhadela aos principais pontos de interesse da cidade e arredores mais próximos, a compra dos típicos chapéus de palha e, umas garrafas do afamado vinho Madeira, serviram para amenizar a tensão própria da viagem.
Meia dúzia de horas, não foram muitas, mas o suficiente para conhecer a baixa da cidade do Funchal e alguns locais de interesse na periferia mais chegada do porto onde se encontrava acostado o "Vera Cruz".
Regresso a bordo e a viagem a prosseguir, agora sem qualquer outra paragem até Luanda.
Para os Sargentos e Furriéis, assim como para os Oficiais, havia uns tanques a que pomposamente chamavam piscina, onde se podia passar um pouco do nosso tempo, amenizando um pouco a experiência da viagem.
E assim íamos a navegar, muitas horas seguidas, ou quase sempre, com o "Vera Cruz" adornado para bombordo aproveitando a ajuda dos ventos alísios que se faziam sentir no oceano Atlântico Sul. Alguns exercícios de treino para situações de emergência a bordo, também foram efectuados.
De resto, o tempo sempre se ia passando.
Porque esta viagem se estava a tornar monótona, sempre alguns foram experimentando umas jogadas de cartas: Sueca, King e Lerpa.
Estes eram os jogos mais difundidos.
Acontece que a tripulação do "Vera Cruz", habituada que estava ao transporte de "maçaricos" de e para Lisboa, sempre foi aproveitando para fazer as suas negociatas de contrabando.
Os relógios e outros apetrechos "made in Japan" eram a mercadoria que frequentemente era comercializada.
Recordo os relógios marca Seiko e Orient, muito vendidos durante toda a viagem.
E Assim ia decorrendo a viagem, felizmente sem quaisquer contratempos meteorológicos.
O tempo foi-se mantendo sempre de feição, sem nuvens, sem "mareta", tendo ocasionado uma viagem sem balanços e sem os habituais "enjoos" de quem tem "medo" do mar.
De quando em vez, os peixes voadores iam acompanhando o "Vera Cruz" na sua viagem.
Estes peixes, aproveitando a aerodinâmica das suas barbatanas dorsais, faziam longos voos por cima da água, como se pássaros fossem, ocasionando o espanto da grande maioria de nós.
Durante o mês de Outubro de 1969, apresentaram-se às nossas tropas as restantes populações civis fugidas, lideradas pelos sobas Zôvo e Tximinha.
Procedeu-se a mais uma alteração no Comando da Companhia, com a transferência para o Quartel-General (QG) da Região Militar de Angola (RMA) do capitão de Artilharia José Henrique Rola Pata, sendo substituído pelo capitão de Infantaria Manuel Óscar de Barros Rosário.
Conforme o sucedido em anteriores alterações, a Companhia, após um período inicial de adaptação, reagiu bem ao novo comandante, continuando a demonstrar a sua operacionalidade. Acentuou-se neste período a melhoria da alimentação referida em anterior relatório.
No decorrer do mês de Novembro de 1969, operou-se uma nova intensidade operacional, com constantes patrulhamentos em toda a zona de acção da CCAV 2332. Apoiados pela colaboração da PIDE/DGS e uma forte rede de informações, foi lançada a operação «FLORBELA» em que as nossas tropas (NT) empenharam um Grupo de Combate (GC) e interceptaram na zona de Caúngula, um grupo inimigo (IN) causando-lhe algumas baixas e apreensão de diverso material.
Regista-se que em Dezembro de 1969, houve a preocupação de realizar melhoramentos nos diversos locais da Sede. A moral dos militares elevou-se com as obras no Refeitório, na inauguração da Cantina/Sala do Soldado «Tarata Bar» e ainda com melhorias no Parque-Auto.
Reporta-se que devido à grande pluviosidade, registaram-se estragos muito consideráveis nas picadas da nossa Zona, contribuindo para um desgaste de pessoal e material.
O Quadro Orgânico da Companhia sofreu nova alteração, havendo a referir a transferência para o Hospital Militar de Luanda (HML) do Alferes Miliciano Médico Luís Filipe Flores Mourão, sendo substituído pelo Alferes Miliciano Médico Rodrigo Dias Guerreiro Boto.
No dia 27 de Janeiro de 1970, conluiem-se dois anos de Comissão.
A CCAV 2332, não abrandou a sua presença na zona de acção, prestando aos diversos serviços de apoio aos aldeamentos entretanto recuperados (transporte de água potável, lenha e mandioca proveniente das lavras), prestando ajuda médica e fiscalizando os procedimentos de auto defesa das aldeias, quer criando abrigos, quer instalando torres de vigilância na periferia.
Durante o período compreendido entre Fevereiro e Março de 1970, a Companhia não reduzindo a sua capacidade operacional, começou a preparar a sua substituição.
Regista-se nesta fase, nas diferentes áreas de serviço da Companhia, a conferência de todo material militar a transferir para a nova unidade.
Em Abril de 1970, chegou ao Camaxilo a Companhia de Artilharia 2672 que ostentava o lema (TIGRE - Não Tememos. Ousamos).
Esta unidade irá assumir em breve, a zona de Intervenção deixada pela CCAV 2332.
Ainda em Abril de 1970 (dias desconhecidos), foi efectuada a sobreposição e a rendição da CCAV.2332 pela nova unidade.
No dia 10 de Abril de 1970 (data não confirmada) com partida do Camaxilo, iniciou-se (em coluna militar composta por 10 viaturas civis fretadas) o regresso a Luanda, via Malange.
Em 12 de Abril de 1970 (data não confirmada), a coluna chegou a Luanda e ficou instalada no Campo Militar do Grafanil (nos arredores da capital).
Em 14 de Abril de 1970, no Cais de Luanda, a Companhia embarcou a bordo do navio « Uíge» para a viagem de regresso com destino a Lisboa.
No período entre 14 e 26 de Abril de 1970, foi efectuada viagem a bordo do navio «Uíge» sem incidentes a registar, referindo-se apenas a incerteza do navio ter necessidade de aportar a Bissau para evacuar um militar embarcado (de uma outra Companhia) que foi acometido por uma peritonite. Infelizmente tal desvio não foi necessário, pois o referido militar não resistiu e faleceu durante a viagem.
Finalmente, pelas 04h30 da madrugada de 26 de Abril de 1970, o navio «Uíge» parou máquinas e fundeou ao largo da barra de Lisboa (viam-se a luzes da cidade), ficando a aguardar instruções para atracar.
De manhã pelas 08h00, o navio entrou no Tejo e acostou às 10h00 no Cais da Rocha Conde de Óbidos, onde uma multidão aguardava e acenava aos militares.
De imediato os militares se dirigiram ao Regimento de Cavalaria 7, onde levantaram as suas licenças de desmobilização.
No dia 27 de Maio de 1970, todos os elementos do Quadro Complementar, passaram à situação de disponibilidade (Conforme averbamento na Caderneta Militar).
Documentos recolhidos por Luís Sousa e Faro
http://sites.google.com/site/ccav2332/CC
A seguir: Batalhão de Caçadores 2877
Houve alterações no Quadro Orgânico, com a evacuação para a Metrópole do 1º Sargento de Cavalaria João Pereira e do 1º Cabo Atirador Vasco Manuel Moreira Pestana, ambos por motivo de saúde.
No decorrer do mês de Abril de 1969, após obtenção de informações fornecidas pela PIDE/DGS, apresentaram-se à nossa Companhia na zona de Caúngula (Xinganhima), os primeiros elementos inimigos do grupo «Noé», com o respectivo material de guerra, que incluíam um lança-granadas foguete, espingardas automáticas e diversas granadas de mão e munições.
Dado o mau estado das picadas para Henrique de Carvalho, verificaram-se irregularidades nos abastecimentos de géneros, com consequentes prejuízos para a Companhia.
Contrariando todos esses problemas, o pessoal da unidade, por força do seu esforço físico e empenho demonstrado em diversas operações, foi-se aureolando de boa fama pelas forças militares vizinhas e também pelas populações civis.
No mês de Maio de 1969, há a registar a apresentação de mais um elemento da UPA vindo de Shauianga, trazendo consigo duas granadas de mão ofensivas e algumas munições. Como reflexo da nossa acção psico-social junto das populações, apresentou-se o «soba» do aldeamento Funda que anteriormente havia fugido com toda a sua família para a República Democrática do Congo e também se regista o regresso dos primeiros habitantes do aldeamento Zôvo, estes sem o seu «soba». As nossas tropas deram o seu apoio a populações em assistência sanitária e no transporte de adobo, água potável e mandioca para os aldeamentos da região.
Durante o mês de Junho de 1969, manteve-se a operacionalidade dos meses anteriores. Entretanto a Companhia efectuou melhorias nas condições internas, com obras nas casernas e principalmente na cozinha e refeitório das praças, onde se conseguiu um razoável bem-estar e condições satisfatórias de higiene.
Efectuados também melhoramentos nas vias de comunicação da zona de intervenção da Companhia.
De referir que, neste mês, houve a promoção a tenente do Alferes Miliciano Médico Jorge Henriques Simões Abrantes Frazão de Aguiar, que entretanto foi substituído pelo capitão Miliciano Médico João Carlos Frota Matos Moreira.
Em Julho de 1969, a Companhia continuou com constantes e intensos patrulhamentos, a exercer o domínio completo e total de toda a sua zona de acção, reforçando o apoio às populações civis, controlando bem as apresentações das populações fugidas. Também foram fiscalizados o retorno de civis que se movimentavam na área, após o final de contrato com a Companhia dos Diamantes de Angola (Diamang).
O mês de Agosto de 1969, trouxe a apresentação de ex-combatentes do grupo «Noé» trazendo uma pistola-metralhadora, diversas granadas de mão ofensivas, munições e propaganda subversiva. Para a sanzala Zôvo, foi destacada uma secção reforçada das nossas tropas, que manteve a sua presença no aldeamento, a fim de proteger a população civil de eventuais represálias do inimigo. Nesta protecção destaca-se o apoio do Destacamento de Caúngula.
Neste período, efectivou-se a transferência para o Hospital Militar de Luanda (HML) do capitão Miliciano Médico João Carlos Frota Matos Moreira, sendo substituído pelo Alferes Miliciano Médico Luís Filipe Flores Mourão.
Finalmente em Setembro de 1969, houve uma grande melhoria no abastecimento de géneros para a nossa Companhia, pelo facto de ter sido alterada a sua proveniência. Em vez de sermos abastecidos pelo Pelotão de Intendência (P.INT) de Henrique de Carvalho, passámos a ser abastecidos pelo Pelotão de Intendência (P.INT) de Malange, que estava sempre muito mais abastecido e com melhores acessos rodoviários. Deste facto resultou uma natural satisfação do nosso pessoal, sendo a sua alimentação bastante melhorada.
Na acção psico-social e reordenamento das populações, a acção das nossas tropas foi relevante, conseguindo-se resultados muito positivos com o regresso das populações, excepto à do Zôvo, Funda e Tximinha (região de Caúngula). De salientar a captura na mata de diversos elementos civis pertencentes ao Congo (Kinshasa).
Notou-se também uma melhoria nos abastecimentos de material e géneros frescos à nossa companhia pelo P. INT (Pelotão de Intendência) e FAP (Força Aérea Portuguesa) elevando os níveis do moral dos nossos militares.
Registou-se também uma baixa no Quadro Orgânico da Unidade, o 1ºCabo António Joaquim da Silva Carvalho, motivada por desastre em serviço numa escolta, tendo sido evacuado para o HMP.
Efectuaram-se diversas inspecções de Contabilidade e outros assuntos de Secretaria, assim como várias visitas do tenente-coronel de Infantaria Segismundo da Conceição Revés, comandante do Batalhão de Caçadores 1982.
Durante o mês de Setembro de 1968, houve um reforço dos patrulhamentos, destacando-se o bom empenho no controlo das populações civis e a obtenção de informações pelas secções do Destacamento do Cuílo sob o comando do Alferes Miliciano de Cavalaria António Abreu Pires Pereira, que se reflectiu na resposta enérgica da sanzala Caúngula (Cuílo Velho) repelindo um ataque dos bandoleiros do grupo «Noé» provocando dois mortos e dois feridos nas hostes inimigas, fugindo os restantes elementos para os seus santuários na República Democrática do Congo.
Numa operação secreta, para o ataque a Shauianga onde se localizava o acampamento base do inimigo em território da República Democrática do Congo, um avião de transporte militar (Nord 2501-F Noratlas com o registo de matrícula nº. 6404) da Força Aérea Portuguesa (FAP), aterrou ao final da tarde na pista do Aeródromo de Manobra (AM42) no Camaxilo, e desembarcou um contingente de tropas «fiéis» catanguesas, que de imediato foram transportadas em viaturas Unimog para a parada da nossa unidade e posteriormente encaminhados para o refeitório, onde lhes foi servida uma refeição quente. Equipados com fardamento, armamento e munições não usadas pelas tropas portuguesas, foram pela calada da noite, acompanhados por elementos da PIDE/DGS e com escolta de dois grupos de combate das nossas tropas, deixados na fronteira com a República Democrática do Congo. As nossas tropas (NT), fazendo cobertura de apoio ao regresso aos elementos catangueses, posicionaram-se na fronteira, emboscando trilhos pedonais usados habitualmente pelos bandoleiros. O relatório da operação, refere inúmeras baixas causadas ao grupo da UPA.
No mês de Outubro de 1968, a Companhia continuou a patrulhar a zona fronteiriça, desta vez com duas secções e elementos fiéis da população civil da região de Caúngula, tendo havido reencontros com o inimigo, causando-lhe baixas e destruindo o seu acampamento.
Houve neste período mudança no comando da Companhia, ocasionando oscilação no seu modo de actuar no terreno. O pessoal rapidamente se adaptou, contribuindo para mais alguns êxitos operacionais neste período.
A Companhia, deixou de ser comandada interinamente pelo Alferes Miliciano de Cavalaria Hernâni Duarte da Silva Rodrigues, passando o comando a ser exercido também interinamente pelo capitão de Infantaria Luís Armando Florenço Tovar de Lemos.
No início de Novembro de 1968, novas operações com a colaboração de elementos fiéis da população civil, registaram êxitos na zona anteriormente referida e agora também em Canzage.
Nova alteração no comando da Companhia, saindo o capitão de Infantaria Luís Armando Florenço Tovar de Lemos por impedimento psíquico, e entrando o capitão de Infantaria Manuel Carreiro Barbosa. Apesar do curto espaço de tempo que este oficial comandou a unidade, conseguiu implementar aos seus subordinados, um espírito de trabalho, disciplina e moral, proporcionando mais regalias (alimentação e viaturas) do Comando do Batalhão, Intendência e Comando da Zona Militar Leste (ZML).
Mais uma vez houve alteração no comando da unidade, motivado pela transferência capitão de Infantaria Manuel Carreiro Barbosa para uma outra unidade, tendo sido nomeado o capitão de Infantaria Rui Fernando Leal Marques que alegando também impedimento psíquico, foi de imediato substituído pelo capitão de Artilharia José Henrique Rola Pata.
De notar que neste período, registaram-se algumas baixas no Quadro Orgânico da Companhia, com bastantes militares em consulta externa.
Começou, nos inícios de Dezembro de 1968, a Companhia a adaptar-se aos procedimentos do novo comandante que, apoiado pelas informações da PIDE/DGS e pelas informações militares, implementou uma maior dinâmica operacional, dando uma maior visibilidade do nosso empenho junto das populações civis, ajudando-os na reconstrução de sanzalas e prestando o apoio psico-social.
Neste período, com reforço de pessoal da Companhia de Caçadores 205 (sediada no Lubalo), elementos do Batalhão de Caçadores 1920, Companhia de Cavalaria 2331 e Apoio Aéreo da FAP, efectuaram-se mais duas operações, com população fiel na região de Caúngula, de que resultaram êxitos semelhantes aos anteriores, com inúmeras baixas ao inimigo.
Regista-se a má qualidade da alimentação na sede da Companhia no Camaxilo e no destacamento de Caúngula, reflectindo-se na festa de Natal.
Acresce ao Quadro Orgânico da Companhia o Furriel Miliciano SAM – José Manuel Rosado Pinto preenchendo a vaga deixada pelo Furriel Miliciano SAM – Arlindo da Silva Miguel.
Impulsionados pela dinâmica operacional do comando, iniciamos o mês de Janeiro de 1969 com redobrada movimentação nos patrulhamentos (operações de quadrícula), reflectindo-se finalmente com a retirada de «Noé» e do seu grupo, calculados em cerca de 300 elementos UPA para outras zonas, já relativamente distantes da região do Zôvo ( Caúngula).
No mês de Fevereiro de 1969, não se reduziu a actividade das nossas tropas mantendo-se estreita vigilância sobre a zona fronteiriça, colaborando com as populações civis. Neste mês, a Companhia completou o seu primeiro ano, na sua zona de intervenção.
De referir que, o Furriel Miliciano SAM – José Manuel Rosado Pinto por terminando a sua comissão de serviço, foi substituído pelo Furriel Miliciano SAM – Carlos Manuel Ribeiro Ferreira.
Durante o mês de Março de 1969, a Companhia, apoiada por uma importante rede de informações, continuou com frequentes patrulhamentos na totalidade da sua zona de intervenção, contribuindo para que a população civil se sentisse segura em relação aos bandoleiros da UPA.
Quanto aos assuntos internos da unidade, o problema das instalações, da alimentação, do mau estado das picadas e pontões, não ficaram de acordo com os desejos e necessidade do pessoal.
A Zona de Intervenção (ZI) abrangia uma área aproximada de 30.000 Km2, com uma grande extensão de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC). No Camaxilo, além da nossa unidade militar, existia o Aeródromo de Manobra nº 42 (AM.42) da Força Aérea Portuguesa, com um pequeno grupo de militares especialistas, sob o comando de um Alferes. Semanalmente, invariavelmente ás quartas-feiras aterrava um avião da FAP (DO.27 ou PV-2) trazendo-nos correio, e géneros frescos (carne e peixe) transportados em caixas isotérmicas. Para que conste, na maior parte das vezes, os ditos «géneros frescos» eram de imediato incinerados e elaborado autos de abate e destruição. Na Sede da Companhia e nos respectivos Destacamentos, sempre que fosse necessário, o pessoal socorria-se com o abate de algumas espécies da fauna local (cabras de mato e palancas) para melhoria do rancho geral.
Em Março de 1968, integraram o quadro orgânico da Companhia, preenchendo vagas em aberto, o 1º Sargento de Cavalaria João Pereira, o 2º Sargento de Cavalaria José Canhão Grenho e o Furriel Miliciano Manuel Carrapichano de Oliveira que foi ocupar a falta existente no 4º Grupo de Combate (GC).
No mês de Abril de 1968, efectivou-se a substituição do capitão Miliciano Médico Duarte Henrique Marques pelo Alferes Miliciano Médico Jorge Henrique Simões Abrantes Frazão de Aguiar.
Ainda neste mesmo mês, o comandante da Companhia, capitão Miliciano de Artilharia Narciso Júlio Loureiro de Sousa foi exonerado do comando da unidade pelo comandante do Batalhão de Caçadores 1892 tenente-coronel de Infantaria Segismundo da Conceição Revés.
Interinamente, assumiu o comando da unidade, o Alferes Miliciano de Cavalaria Hernâni Duarte da Silva Rodrigues, por impedimento médico do então nomeado capitão Rui Fernando Leal Marques. Também, ocorreu a exoneração do Furriel Miliciano do SAM Arlindo da Silva Miguel.
Durante o período compreendido entre os meses de Março e Abril, a Companhia preocupou-se em reconhecer a sua zona de intervenção, patrulhando intensamente a área, quer em viaturas, quer apeada com uma secção ou um grupo de combate, percorrendo picadas e controlando a região junto à fronteira com a República Democrática do Congo. O terreno, uma região planáltica, não apresentava de uma maneira geral grandes relevos, excepção feita à zona do Zôvo (Mabetes) que era recortada por inúmeros braços de rio, alguns de forte caudal, correndo de Sul para Norte. Os meios de comunicação eram péssimos, devidos ao mau estado das picadas, da natureza arenosa e a existência de inúmeros pântanos. Abundantes pontes, feitas com troncos de árvores em péssimo estado de conservação, cuja passagem era sempre arriscada. Na zona do destacamento do Cuílo, era necessário atravessar o rio numa jangada composta por várias canoas ou pirogas indígenas interligadas entre si, sustentando um pranchamento onde embarcavam as viaturas e o respectivo pessoal. A vegetação de uma maneira geral era aberta, excepção feita à zona do Zôvo e num determinado local da picada Camaxilo/Cuílo onde a mata era muito alta e fechada.
Em Maio de 1968, a Companhia continuou a preocupar-se com o reordenamento das populações civis, agrupando-as em grandes aldeamentos (sanzalas), tornando mais acessível o seu controle pelas nossas tropas (NT), facilitando às populações o acesso às lavras de mandioca e ao abastecimento de lenha e água, e principalmente à sua auto defesa.
No dia 13 de Maio de 1968, apesar das constantes patrulhas efectuadas pelas nossas tropas (NT), um grupo do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) entrou em (TN) Território Nacional na zona de Caúngula e atacou uma viatura civil (Land-Rover) matando dois civis (um branco e um negro) no itinerário Caúngula/Camaxilo, tendo a nossa companhia reagido prontamente, embrenhando-se na mata e controlando os itinerários principais, capturou diverso material subversivo e munições, conseguindo o inimigo (IN) atravessar a fronteira para a República Democrática do Congo e alojar-se no quartel fronteiriço de Shauianga.
No mês de Junho de 1968, a unidade preocupou-se em recuperar elementos da população civil que tinham fugido para a República Democrática do Congo (RDC) por aliciamento da UPA (União dos Povos de Angola), ajudando-os na reconstrução dos aldeamentos e na acção psico-social. Esse procedimento, obrigou as nossas tropas (NT) a um constante vai e vem nas zonas afectadas.

Contudo, um grupo do inimigo (IN) sob o comando de «Noé» (guerrilheiro da UPA) voltou a atacar (na zona da primeira emboscada), uma viatura da PIDE/DGS, tendo ferido ligeiramente um dos elementos «Flechas», utilizando no ataque lança granadas foguete, espingardas automáticas e granadas. As nossas tropas (NT) reagiram prontamente, tendo interceptado parte do grupo inimigo (IN) capturando diverso material subversivo e ferindo gravemente um dos comandantes do inimigo (IN). Outra parte do grupo inimigo conseguiu fugir para a República Democrática do Congo, tendo raptado a população do Muazanza e destruído os seus haveres.
Em Julho de 1968, a Companhia redobrou a sua acção operacional, tendo novamente o grupo do «Noé» sublevado a sanzala Funda (perto do Zôvo) ameaçando e obrigando a população a fugir para a República Democrática do Congo, tendo levado guias com a mesma finalidade para a sanzala Monamena (itinerário Caúngula-Zôvo). Contudo, a população deste último aldeamento comportou-se dignamente, seguiu bem as instruções dadas pelas nossas tropas, quer refugiando-se nas matas, quer avisando o nosso destacamento militar de Caúngula, conseguiu pôr em debandada o inimigo que conseguiu atravessar a fronteira.
No início do mês de Agosto de 1968, um grupo inimigo da UPA (União dos Povos de Angola) constituídos por cerca de 30 a 40 elementos sob o comando de «Noé» saindo do seu aquartelamento em Shauianga na RDC (República Democrática do Congo) entrou em Território Nacional utilizando trilhos pouco usuais, caminhando ao abrigo da noite, instalou-se numa colina com uma cota superior á do nosso aquartelamento do Camaxilo, e flagelou sem consequência a nossa unidade, a zona comercial (Teixeira & Lemos) e posto administrativo com granadas de morteiro 82mm de origem chinesa. Perante a ousadia do acto, as nossas tropas correndo para os abrigos, responderam ao fogo com rajadas de metralhadoras MG34 (Dreyse) e Breda e tiros de morteiro 60mm.
Foi lançada inadvertidamente uma granada iluminante very-light que, por arrastamento do vento veio a posicionar-se à vertical da nossa unidade.
Felizmente, mais tarde ao serem aprisionados e interrogados pela PIDE/DGS, alguns elementos do inimigo confessaram ter interpretado o lançamento do very-light como um sinal para as nossas tropas no exterior e na proximidade do local de ataque, o que originou de imediato a sua fuga em direcção à fronteira, enterrando os pratos de apoio dos morteiros para agilizar a fuga. Nesta operação, os elementos confirmaram à PIDE, o ferimento do chefe do grupo «Noé».
Companhia de Cavalaria 2332
ANGOLA
1968-1970
A partir de 19 de Junho de 1967, militares procedentes de vários locais da Metrópole (predominantemente da área da Grande Lisboa) começaram a apresentar-se no Regimento de Cavalaria 7 aquartelado na Ajuda em Lisboa.
Houve militares que, por razões da sua especialidade, se apresentaram mais tarde.
Em finais de Agosto de 1967, com destino ainda desconhecido, foram oficialmente constituídas no Regimento de Cavalaria 7 (unidade mobilizadora) três Companhias de Cavalaria, a saber:¬
CCAV. 2331 «Os Invencíveis» – CCAV. 2332 «Os Milhafres» – CCAV. 2333 «Os Lidadores».
No período compreendido entre os meses de Agosto a Outubro de 1967, o pessoal interessou-se pelas diversas fases da formação da unidade, tais como a Escola de Quadros, Escola de Cabos e instrução complementar, começando a criar espírito de corpo entre todos os elementos da Companhia, sob o comando do capitão Miliciano de Cavalaria Joaquim Peixinho.
No início de Novembro de 1967, a Companhia efectuou várias deslocações ao Campo de Tiro na Serra da Carregueira, para a prática de tiro real.
No período compreendido entre 20 e 28 de Novembro de 1967 a unidade efectuou a semana de campo na Fontes da Telha (Costa da Caparica). Foram realizados exercícios para o apronto operacional da unidade. Registamos que, enquanto estivemos acampados, mais precisamente no dia 26 de Novembro, fomos surpreendidos por um temporal com níveis anormais de pluviosidade, originando inundações em toda a bacia do Rio Tejo, provocando cerca de 500 mortos, segundo a imprensa da época.
Durante o mês de Dezembro de 1967, a unidade recebeu o I.A.O na Fonte da Telha (Costa da Caparica) reforçando a sua operacionalidade.
Nessa ocasião, aconteceu a primeira «baixa» da unidade. Por motivos médicos, o seu comandante, o capitão Miliciano de Cavalaria Joaquim Peixinho foi substituído pelo capitão Miliciano de Artilharia Narciso Júlio Loureiro de Sousa, que pretendendo implementar incentivos operacionais em moldes bastante diferentes do anterior comando, originou um certo resfriamento aos seus subordinados.
No quadro orgânico, houve também baixas de pessoal, com desmobilizações por motivos médicos, transferências para Unidade de Comandos e outras Companhias.
No início de Janeiro de 1968, a Companhia foi oficialmente informada que tinha sido nomeada para servir no Ultramar, na Região Militar de Angola (RMA). A Companhia foi então transferida do Regimento de Cavalaria 7, para umas instalações militares de Artilharia Anti-Aérea Fixa localizada em Murfacém (Trafaria), onde ficou a aguardar o embarque para o Ultramar.
Neste período, houve mais duas baixas ao quadro orgânico, com o impedimento do 1º Sargento de Cavalaria Marques dos Santos, que deu entrada na Escola de Quadros Regimentais, e do 2º Sargento de Cavalaria Laranjeira, por motivo de desastre de viação.
A CCav 2332 ficou então constituída pelo seu comandante capitão Miliciano de Artilharia Narciso Júlio Loureiro de Sousa, 4 Oficiais Milicianos Atiradores de Cavalaria, 14 Sargentos, 33 Cabos e 102 Soldados, totalizando 154 militares.
Em 27 de Janeiro de 1968 no Cais da Rocha de Conde de Óbidos, em plena formatura, os militares foram abordados por elementos do Movimento Nacional Feminino (MNF) que distribuíam aerogramas (vulgo «bate-estradas») e maços de tabaco.
De seguida, numa cerimónia de despedida, efectuou-se um desfile militar, sendo prestada a continência e devidas honras militares ao Excelentíssimo Oficial General, em representação de Sua Excelência o Ministro do Exército, a Companhia embarcou pelas 12h00 no navio «Uíge» com destino a Luanda.
No período entre 27 de Janeiro e 08 de Fevereiro, foi efectuada viagem a bordo do navio «Uíge» sem incidentes a registar.
No dia 08 de Fevereiro de 1968, chegada a Luanda, desembarque do pessoal e transporte em caminho-de-ferro para o Campo Militar do Grafanil (Campo Militar de apoio logístico nos arredores da capital).
A 09 de Fevereiro de 1968, a Companhia participou numa parada militar a que assistiu Sua Excelência o General comandante da Região Militar de Angola, que dirigiu palavras de encorajamento para todos e bons êxitos no dever da missão incumbida.
Na parada do aquartelamento e em plena formatura, sob um calor tórrido, houve elementos das várias Companhias que perderam os sentidos e tiveram que ser assistidos.
No período compreendido entre 09 e 15 de Fevereiro de 1968, no Grafanil, a Companhia procedeu ao levantamento de diverso material necessário para a sua missão.
Em 16 de Fevereiro de 1968, a unidade recebeu ordem de marcha para a sua Zona de Intervenção (ZI), tendo-se deslocado via Malange, em coluna militar composta por 10 viaturas civis fretadas.
No dia 18 de Fevereiro de 1968 a coluna militar, chegou ao seu primeiro destino Caúngula, onde pernoitou. Desde logo tomando posse desse destacamento, ficou na povoação um Grupo de Combate (GC) sob o comando do Alferes Miliciano de Cavalaria Vasco Ferraz Figueiredo.
Em 19 de Fevereiro de 1968, os restantes elementos da Companhia, chegaram à sede da unidade no Camaxilo.
No dia seguinte, 20 de Fevereiro de 1968, efectuou-se a partida de um Grupo de Combate (GC) com destino ao Cuílo para assumir a posse desse destacamento sob o comando do Alferes Miliciano de Cavalaria António Abreu Pires Pereira.
Durante a semana de 20 a 27 de Fevereiro de 1968, foi efectuada a sobreposição e a rendição da Companhia de Caçadores 1519 comandada pelo capitão de Infantaria Salcedas da Cunha.
A organização da CCav 2332 ficou composta pela Sede localizada na povoação do Camaxilo, onde estavam dois Grupos de Combate (GC), o Comando e Serviços da Companhia, e pelos Destacamentos de Caúngula e Cuílo que distavam 40 e 140 km respectivamente do Camaxilo.
8. ACÇÕES MERITÓRIAS
É digno do maior realce o procedimento do Furriel Miliciano 1820865 Henrique da Silva Oliveira, que vendo duas praças da sua secção gravemente feridas permaneceu junto delas fazendo fogo a peito descoberto evitando assim que aqueles fossem mais atingidas pelo IN e que este se apoderasse do seu material. Além do mais colaborou intensamente como sargento mais antigo do grupo com o Cmdt deste, mostrando uma calma invulgar e excelentes qualidades de comando em momentos difíceis. É de salientar também a acção do 1ºCabo Atirador nº 5377866 José Fernandes Vieira que utilizando a sua espingarda automática FN de cano reforçado bateu sistematicamente os locais por onde o inimigo tentava romper expondo a sua vida ao perigo sem que este lhe causasse qualquer impressão aparente. Como auxiliar da secção colaborou extraordinariamente na organização do envolvimento dos pontos primordiais do local da acção. Também digno de louvor o procedimento do Soldado At. Nº 60701415 Mateus Francisco Monteiro que na qualidade de enfermeiro maqueiro, já que o grupo não possuía outro com essa especialidade, acorreu prontamente a todos os locais em que era solicitado. Esteve no local que se combatia corpo a corpo retirando para locais mais afastados os gravemente feridos e voltava sempre em seu auxilio mostrando calma, companheirismo espírito de sacrifício, desprezo pela sua integridade física, dignos de admiração e louvores.
9.VESTIGIOS DEIXADOS PELO IN ENCONTRADOS NA BATIDA FEITA AO LOCAL
Na batida ao local da emboscada foi encontrado o seguinte material pertencente ao IN: 1Carregador de pm FBP. Sabre de Espingarda Mauser-1 Punhal-1Empenagem de Granada Bazuca; 1 Cinturão de Lona – 1 Mola recuperadora de espingarda FN – 1 Pedaço de madeira de coronha da espingarda FN; 2 Alavancas de segurança de granadas de mão – 2 Cavilhas de segurança de granada de mão – 1Pente de alumínio; Munições: 3 de cal. 7,9 – 1 de fabrico nacional – 2 de fabrico desconhecido – 2 de cal 7,9 fabrico nacional; Invólucros: de cal 7,9 – 94 cal 7,62 – 71 cal 9mm – 50 de diversos fabricos – 1 calibre desconhecido. 1 garrafão contendo líquido não identificado (malavo?) – 2 panelas de barro – 1 par alpergatas ensanguentadas; 18 pratos esmaltados. Cópia integral do relatório feito pelo Alferes Miguel, Cmd do 3º Grupo de Combate que foi emboscado no dia 23 de Setembro de 1967 no Rio Lifune no local da Mimbota, região dos Dembos, Norte de Angola, na qual a CCaç 1678 estava no aquartelamento de Balacende. Esta cópia só foi possível porque o "nosso" Victor Rodrigues figura carismática da CCaç 1678 conhecido por "seringas" (desempenhou as funções de maqueiro) e que na altura era "escriturário" na secretaria da Companhia e ficou com uma cópia que guardou religiosamente estes anos todos.....
ADEUS A BALACENDE
No dia 9 Maio 68 pelas 6 horas da manhã, em coluna auto a CCaç 1678 rumou a Ambriz aonde chegou ao fim da tarde, para o cumprimento da 2ª parte da comissão. Balacende não deixou saudades porque foi "duro" muitas escoltas, muito pó na picada, operações, emboscadas, quatro mortos, seis feridos, paiol das munições que foi pelos ares e que felizmente não causou danos no pessoal, uma etapa da vida que ainda hoje recordamos... No dia 29 Junho de 1969 regresso da CCaç 1678 ao Regimento de Infantaria de Abrantes e passagem à disponibilidade, depois de mais de dois longos anos por terras de Angola (Norte/Dembos) aonde houve alegrias, tristezas, dor, lágrimas, mas ficou para SEMPRE entre todos uma eterna amizade, que NUNCA vamos esquecer até ao dia que teremos que partir para outra "guerra". http://dembos-balacende.blogspot.com/
A seguir - Companhia de Cavalaria 2332
RELATÓRIO DE UMA EMBOSCADA AO 3ºGRUPO DE COMBATE DA CCaç 1678
Reacção a uma emboscada feita pelo inimigo à coluna de reabastecimento de água em 23 de Setembro de 1967.
1. MISSÃO 1
Grupo de Combate tinha por missão fazer o abastecimento de água no Rio Lifune no local de coordenadas (135600.081830)
2. COMPOSIÇÃO da FORÇA
O Grupo de Combate constituído por: 1 Pelotão de Atiradores da CCaç 1678, reforçado com uma secção de atiradores, elementos de transmissões, serviço de saúde condutores auto, um mecânico, no total de 34 homens.
3. ARTICULAÇÃO da FORÇA
1ª Viatura-GMC 1 Furriel Miliciano com 10 homens, incluindo o C.A. 2ª Viatura-Jeep O Cmdt da Coluna com 4 homens e C.A. 3ª Viatura Unimog 411 Diesel com 8 homens. 4ª Viatura Unimog 411 Diesel com 9 homens, estas duas últimas viaturas sob o comando de Furriel Miliciano.
4.EXECUCÃO
Quando a força regressava do local de coordenadas (135600.081830) com articulação mencionada em 3 e chegou ao local de coordenadas (135530.081830) designado por Mimbota, eram cerca de 10h 20m Neste momento com as viaturas a cerca de 40 a 50 m uma das outras, o inimigo desencadeou intenso tiroteio e acto contínuo saltou à picada articulado em pequenos grupos de assaltos a fim de apoderar de material. A reacção das N.T foi tão rápida que o IN só conseguiu aproximar-se da 1ª viatura pois nesta haviam sido mortos o Cmdt da viatura, o operador de transmissões e um atirador aos primeiros tiros.
O pessoal das 3 últimas apercebendo-se imediatamente do que se passava, articulou-se de maneira a proteger a 1ª viatura e a cobrir pelo fogo o auxílio aos feridos e mortos. Isto não obstou que o IN se apoderasse de algum material e fardamento de dois mortos. A 1ª viatura que seguia à frente por transportar a água e ser a mais lenta, ficou com os dois pneus frente furados e que dificultava a sua retirada da zona de morte. Desta forma as últimas viaturas tiveram que ser paradas no local de acção. Destas exceptua-se o jipe cujo condutor também ferido perdeu o seu controle e saindo da picada veio embater num obstáculo do lado oposto àquele aonde se encontrava o IN.
Os homens da 2ª viatura tentaram imediatamente socorrer os feridos e mortos a fim de evitar que o IN se apoderasse de maior número de material. Os homens da 3ª viatura protegeram o trabalho de auxilio aos sinistrados, evitado por meio de fogo que o IN se lançasse à picada e abatendo vários que o tentaram fazê-lo. Os homens da última viatura movimentaram-se de modo a contra-atacar e a ocupar os pontos principais para envolvimento. Todos estes movimentos das NT eram feitos debaixo de fogo intenso e a peito descoberto e sem possibilidade de utilizar abrigos naturais ou máscaras já que o capim deste lado estava queimado.
Passados cerca de 25 minutos do início da emboscada o IN retirou desordenadamente soltando gritos de angústia dando a ideia de desespero. As NT capturaram 1 elemento já morto e todo o seu material e só não capturaram mais dada a rapidez com que o IN retirava do nosso alcance os seus feridos e mortos. Organizada no quartel uma coluna de 1 grupo de combate esta seguiu para o local da emboscada onde a situação já estava normalizada. Este auxílio foi um pouco tardio pelo facto de não possuirmos material de transmissões pois morto o operador rádio foi-lhe capturado todo seu material, como anteriormente se disse. O IN utilizava pistolas, espingardas automáticas, ML, pistolas-metralhadoras, granadas de mão e uma bazuca com a qual tentou alvejar por duas vezes a última viatura errando o alvo.
OPERAÇÃO 1ª DANÇA-DEMBOS
A CCaç 1678 participou nesta operação com 4 Grupos de Combate de 14 a 18 Janeiro de 1968, na Região da Fazenda Maria Fernanda (CCaç 1680), foi um tanto ou quanto duro, chuva, muita com frio, e foram 4 dias a ração de combate (não completa) porque o pessoal para aliviar peso deixava metade no aquartelamento e como tal também alguma "fome".
Resultados da mesma: 3-Flagelações, 1-Emboscada conjugada com uma mina antipessoal (cerca de 50 minutos debaixo de fogo) a qual causou uma "baixa" (um militar não da nossa companhia) e guia civil ferido qual foi evacuado de helio ao qual fizemos a necessária protecção para a evacuação.
A referida operação foi comandada pelo Capitão Miliciano Roberto Pacheco.
RECUPERAÇÃO DO CORPO DO PILOTO DO T6
Nos finais de Setembro/67 a cerca de 10 km (?) de Balacende despenhou-se um T6 e foram dadas ordens para se ir "recuperar" o corpo do malogrado piloto. Saiu do aquartelamento um grupo de combate para a dita missão, que no meio do percurso foi apoiado por um helicóptero que transportou o referido grupo até a um local perto aonde estavam os destroços do T6. Ao chegarem, estavam partes do avião numa área razoável, aí o soldado Godinho (era o mais velho do grupo com cerca de 26 anos) com determinação foi "apanhar" os bocados carbonizados do corpo do piloto e "embrulhou" num lençol, ali todos tinham coragem mas ao verem aquele "cenário" ficaram todos como tivessem levado um murro no estômago, mas estava lá o "velho" Godinho". A partir dessa data os T6 quando sobrevoavam o nosso aquartelamento abanavam as asas em sinal de cumprimento e agradecimento pelo nosso "trabalho".
No dia 22 de Julho/68 depois de mais uma escolta a viaturas civis a Mussera no regresso antes de Freitas Morna vimos ao longe sobre o capim que naquela altura estava bem alto, algo a mexer-se/andar e paramos as viaturas e o pessoal salta imediatamente das viaturas, ficando o apontador da metralhadora pesada (soldado Pinto) atento aos movimentos e julgo que também o homem da bazuca, enquanto o comandante do grupo Alferes Pereira decidia o que se devia fazer há um jovem mais "nervoso" que faz uma rajada, e deixamos de ver o que se mexia. Depois fizemos a progressão com três secções cerca de 300 a 500 mts e encontramos cerca de 80 kg de alimentos, (farinha, sal, etc.) abandonados no chão, e os carregadores bem longe, deviam ter vindo ao Ambriz fazer o seu abastecimento.
FEIJÃO MALUCO
O Furriel Cardoso era o homem responsável pelas transmissões como tal era muito "raro" sair do aquartelamento, mas como era um "rapaz" de Lisboa gostava de brincar/gozar com o pessoal: Quando chegávamos da picada como dizíamos na gíria (escoltas) ou de operações na mata, lá aparecia ele a dizer: então vêm cansados? comeram muito pó? calor? etc. e com ar de "gozão", um dia pensei para os meus botões tenho que pregar uma partida a este "artista". Um dia numa operação (na mata) quando ia afastar um arbusto, diz-me o soldado Lourenço (nativo de Angola) furriel não mexe aí que isso é feijão maluco (do qual eu sabia o efeito, mas não conhecia) perguntei como podemos levar um pouco sem problemas? Ele sacou do maço de tabaco, tirou os cigarros, e apanhou um pouco do dito, e embrulhou bem e deu-me, quando chegamos ao aquartelamento lá estava o Cardoso à nossa espera com os seus ditos, pensei é hoje que vais ter o sabor da mata.
À noite na nossa camarata (aonde dormíamos os furriéis) fui à cama dele e espalhei o feijão maluco, quando ele se foi deitar, passado pouco tempo, levanta-se e vai tomar banho (tal era a comichão) deita-se e passado alguns levanta-se e vai outra vez para o banho, e repete e cena mais uma vez, até que o Furriel diz: porra deixa o pessoal dormir, muda mas é os lençóis porque isso é feijão maluco que te puseram na cama, aí o Cardoso virou fera pegou na FN e diz se eu sei quem foi o filho da..... e dou-lhe já um tiro e disse mais um chorrilho de asneiras, e o Cruz calado que nem um rato e a fingir que dormia.
Passado uns tempos o Cruz informou-o que tinha sido ele o autor, respondeu: eu desconfiei de ti mas como não tinha a certeza.... Obs: É uma planta relativamente alta que tem uma vagem cheia de picos, tipo alfinete, e quase imperceptíveis a olho nu. À sua passagem, na sequência do movimento e abanar da planta, os picos das vagens começam a voar em todas as direcções penetrando a roupa e a pele em todo o corpo. A consequência imediata é uma irritação cutânea de grandes proporções fazendo-nos coçar até não poderemos mais. Daí os nativos terem dado o nome de maluco.
Companhia de Caçadores 1678
ANGOLA 1967-1969
MOBILIZAÇÃO
O processo que levava um jovem militar até Angola iniciava-se habitualmente logo após o final da instrução da especialidade, para um atirador, e tanto fazia sê-lo de infantaria, cavalaria ou artilharia, após ser dado como pronto vinha a ordem de mobilização. O caso mais vulgar e típico era o de o militar pertencer a uma companhia e esta a um batalhão. A ordem de mobilização originava a guia de marcha para a unidade mobilizadora, (neste caso Regimento de Infantaria de Abrantes). Aí se juntavam os militares vindos dos vários centros de instrução, os graduados e os comandantes.
A Companhia (CCaç 1678) e o Batalhão (BCaç 1910) já tinham um número de código atribuído e, aos poucos, surgiam os especialistas diversos, os condutores, transmissões, enfermeiros e cozinheiros, de modo a que se preenchesse o quadro orgânico respectivo. Enquanto se formava a unidade, realizavam-se os exercícios de instrução, IAO, (instrução de aperfeiçoamento operacional), com os conselhos sobre o que fazer em Angola, para sobreviver, recebiam-se as vacinas, o camuflado e, por fim, a unidade estava pronta. Chegava a ordem de embarque e então o contingente formava em parada no quartel.
Nos primeiros tempos, o capelão rezava uma missa campal, que depois caiu em desuso; o comandante da unidade mobilizadora, um coronel, proferia umas palavras alusivas à missão e entregava o guião ao comandante do Batalhão mobilizado, um tenente-coronel; as tropas desfilavam ao som da música, era concedida a licença de dez dias antes de embarque e pagas as ajudas de custo. Neste momento, o militar era um mobilizado, ia a casa, despedia-se da família, fazia umas asneiras por conta, arranjava umas correspondentes para lhe escreverem, ou umas madrinhas de guerra, e voltava à unidade mobilizadora para daí iniciar verdadeiramente a viagem.
"VERA CRUZ"
Foi neste navio "Vera Cruz" que a Companhia Caçadores 1678 (BCaç 1910) embarcou no Cais de Alcântara (?) no dia 17 de Maio de 1967 pela manhã com destino a Angola, aonde chegou ao porto de Luanda no dia 27 de Maio, e depois de comboio cerca de 10 km para o Campo Militar do Grafanil. Aí as primeiras "desilusões e tristezas " para 10 praças, que foram retirados da Companhia e enviados para uma Unidade do recrutamento de Angola, os mesmos foram substituídos por 10 praças nativos da Província, assim como 4 Furriéis Milicianos para completar o quadro da Companhia. No dia 2 Junho/67 pela manhã saída para Balacende aonde se chegou no mesmo dia.
AQUARTELAMENTO DE BALACENDE.
Foi nestas "belas instalações" que a CCaç "viveu" de 02Jun67 a 09Maio67, população civil não havia, água potável também não, enfim nada de mordomias, também não estávamos ali para férias. Luanda ficava a cerca de 95 km, Quicabo (Sede do Batalhão 1910) a 15 km e Nambuangongo a 40 km.
(Já publicado no Estrolabio)
Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. À época, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado era também o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.
Como já se tornou praxe, os jornais patronais chamavam os líderes operários de preguiçosos e canalhas que buscavam criar desordens. Uma passeata pacífica, composta de trabalhadores, desempregados e familiares silenciou momentaneamente tais críticas, embora com resultados trágicos no pequeno prazo. No alto dos edifícios e nas esquinas estava posicionada a repressão policial. A manifestação terminou com um ardente comício.
No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra um grupo de operários, matando seis, deixando 50 feridos e centenas presos, Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma.
Os oradores alternavam-se; Spies, Parsons e Sam Fieldem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os brutalmente. Uma bomba estourou no meio dos guardas, uns 60 foram feridos e vários morreram. Entretanto, chegaram reforços e começaram a atirar em todas as direcções. Dezenas de pessoas de todas as idades morreram.
A repressão foi aumentando num crescendo sem fim: decretou-se “Estado de Sítio” e proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, criminosos e gangsters pagos pelos patrões invadiram casas de trabalhadores, espancando-os e destruindo os seus haveres.
A justiça burguesa levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou dia 21 de Junho e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas. A sentença foi lida dia 9 de Outubro, no qual Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte na forca; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.
Spies fez a sua última defesa:
"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário - este movimento de milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção – se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não poderão apagá-lo!"
Parsons também fez um discurso:
"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão". Fez um relato da acção dos trabalhadores, desmascarando a farsa dos patrões com minúcias e falou de seus ideais:
"A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objectivo do socialismo".
Em baixo: mártires de Chicago: Parsons, Engel, Spies e Fischer
foram enforcados, Lingg (ao centro)suicidou-se na prisão.
No dia 11 de Novembro, Spies, Engel, Fischer e Parsons foram levados para o pátio da prisão e executados. Lingg não estava entre eles, pois suicidou-se. Seis anos depois, o governo de Illinois, pressionado pelas ondas de protesto contra a iniquidade do processo, anulou a sentença e libertou os três sobreviventes.
Em 1888 quando a AFL realizou o seu congresso, surgiu a proposta para realizar nova greve geral em 1º de Maio de 1890, a fim de se estender a jornada de 8 horas às zonas que ainda não haviam conquistado.
Como nos Estados Unidos já havia sido marcada para o dia 1º de Maio de 1890 uma manifestação similar, manteve-se o dia para todos os países.
No segundo Congresso da Segunda Internacional em Bruxelas, de 16 a 23 de Setembro de 1891, foi feito um balanço do movimento de 1890 e no final desse encontro foi aprovada a resolução histórica: tornar o 1º de Maio como "um dia de festa dos trabalhadores de todos os países, durante o qual os trabalhadores devem manifestar os objectivos comuns de suas reivindicações, bem como sua solidariedade".
Como vemos, a greve de 1º de Maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos, não foi um facto histórico isolado na luta dos trabalhadores, ela representou o desenrolar de um longo processo de luta em várias partes do mundo.
O incipiente movimento operário que nascera com a revolução industrial, começava a atentar para a importância da internacionalização da luta dos trabalhadores. O próprio massacre ao movimento grevista de Chicago não foi o primeiro, mas passou a simbolizar a luta pela igualdade, pelo fim da exploração e das injustiças.
Muitos foram os que tombaram na luta por mundo melhor, do massacre de Chicago aos dias de hoje, um longo caminho de lutas históricas foi percorrido. Os tempos actuais são difíceis para os trabalhadores, a nova revolução tecnológica criou uma instabilidade maior, jornadas mais longas com salários mais baixos, cresceu o número de seres humanos capazes de trabalhar, porém para a nova ordem eles são descartáveis.
Neste sentido, naturalmente, a reflexão das lutas históricas passadas torna-se essencialmente importante, como aprendizagem para as lutas actuais.
MORTOS EM COMBATE
Estes nossos militares que eu refiro, tiveram a pouca sorte e um final triste. Foram dos que pagaram a Guerra com a própria vida. Só neste Batalhão foram quatro...
QUARTEL DO INGA
Subida e entrada para o acampamento do Inga, pelo lado norte, era a única via de acesso a este aquartelamento, e aqui terminamos a comissão de serviço militar obrigatório, algures no interior e norte de Angola.
O REGRESSO
Terminada a missão creio com o dever cumprido, estivemos três dias em Luanda à espera de embarque.
CHEGADA A LISBOA
Chegado ao cais de Lisboa a 9 de Maio, à minha espera estavam os meus Pais, uma irmã, uma prima, e uma filha desta – uma jovem bonita na altura com 20 anos que se correspondeu comigo todo o tempo de guerra.
Publicado por Joaquim Ângelo
http://angelotelhado.blogspot.com/
A seguir - Companhia de Caçadores 1678
A SERRA
Serra da Canhanga ZIN.
Estas letras querem dizer em bom português,"Zona Intervenção Norte": Um dia de manhã "montamo-nos" nas viaturas, sob o comando de um oficial com a graduação de alferes da companhia 1494. Saímos do nosso aquartelamento e lá vamos nós bater picada de terra batida poeirenta, porque era verão em Angola. O capim quase não deixava ver o rodado por onde as viaturas deviam passar.
Raramente sabíamos para onde íamos, e o nosso lema era "bico calado", até porque nas viaturas, no vidro da frente, tínhamos aplicado o desenho de um Mocho, ideia do Alferes Borges.
Feitos alguns quilómetros nas viaturas, eis que chegamos à zona do Songo mais propriamente com destino à Serra da Cananga. Santuário de Guerra, era no cimo desta serra que havia um agrupamento de voluntários, uma espécie de forte segundo disseram, todo armadilhado nas redondeza para que ninguém se aproximasse.
Ao sairmos das viaturas numa zona relativamente baixa, vale onde abundava quantidade de árvores de café, principiamos a nossa aventura. Ao prepararmo-nos, de repente sucede-se uma forte tempestade de tropical juntamente com relâmpagos, que durou todo o tempo até chegarmos ao nosso objectivo. Para subir esta Serra, já de noite íamos agarrados uns aos outros e só se vislumbrava algo, quando do clarão dos relâmpagos.
Nesta passagem pela mata, numa questão de minutos, formou-se um autêntico rio. A água dava-nos pelos ombros e alguns de nós tiveram de ser puxados uns pelos outros, a fim de não sermos arrastados pela corrente.
Chegados ao cimo da serra todos encharcados, os militares que aí estavam já nos esperavam.
Emprestaram-nos aquilo que puderam, a fim de passarmos a noite. A mim tocou-me o empréstimo de um cobertor. Enrolei-me nele e assim passei toda a noite em cima de um ordinário colchão de cimento, nu.
Outros soldados com menos sorte pernoitaram toda a noite em plena mata, encostados às árvores debaixo de uma tempestade tropical. Um deles, o José Godinho das quintas da Borralheira Telhado.
Na manhã seguinte toca a erguer que é dia. Como pequeno-almoço, uma bisnaga não sei de quê, vestimos o camuflado tal e qual o tínhamos tirado no dia anterior. Como o tempo melhorou, este secou no corpo e lá continuamos o patrulhamento pelas aéreas estabelecidas. Durante três dias alimentados a ração de combate, a água escasseava e não a encontrávamos.
Depois desta operação com nome que já não recordo, nada encontramos que estivesse relacionado com o inimigo. Apesar do segredo, eles mediam bem os passos que a tropa portuguesa dava.
Todas as saídas que nós tropa na altura fazíamos, eram sempre baseadas no mesmo sentido: encontrar o inimigo.
SOLIDARIEDADE
Em todas as saídas para os patrulhamentos, o oficial responsável tinha sempre a preocupação de qual o Enfermeiro que os acompanhava, e tinham o cuidado de ir ao posto de socorros perguntar.
Havia um relacionamento forte de camaradagem entre oficiais, sargentos, e soldados que ainda hoje se mantém. Podiam sair sem transmissões por falta de rádio, mas era indispensável numa saída haver ausência das transmissões e prestador de primeiros socorros.
Devido ao bom ambiente gerou-se sempre um ambiente de paz para com a nossa companhia, e porquê...?
Em parte porque as populações eram acarinhadas com assistência médica e os restos das sobras do refeitório eram distribuídos pelas crianças que nos visitavam todos os dias à procura de sobrevivência. Creio ser o motivo principal de termos passando uma comissão relativamente tranquila.
Entre nós soldados, já existia diálogo à nossa maneira.
Apesar de toda a zona ser de guerra, num belo dia as meninas do Movimento Nacional Feminino fizeram-nos uma visita ao nosso aquartelamento TOTO. E para dar ânimo às tropas, as suas visitas tinham tanto impacto na moral das mesmas, como receber um bilhete-postal.
Naturalmente, para qualquer soldado na guerra as visitas eram sempre de um certo agrado, devido ao isolamento e saturação a que eram sujeitos.
Num belo dia que não teve beleza nenhuma, foram à lenha para a cozinha, e já no regresso caíram numa emboscada, atacados de tal maneira que lhes queimaram três viaturas Unimogs.
Era uma guerra de sorte, porque sempre que saíamos do aquartelamento pensávamos para nos próprios..."que destino me estará reservado para hoje...?????? Será que volto tal e qual como sai????..."
Felizmente fui sempre dos que voltei. Perguntarão, houve mortos????... Claro que sim, e de horror...
O GUIA
Desta vez a ordem do capitão Almeida disse:"Quero toda a gente bem prevenida."
Tínhamos informação segura de que existia um acampamento nas margens do rio Loge. Eu sempre me fiz acompanhar da pistola Walter de 9 mm, arma de guerra. E felizmente, conforme a recebi assim a entreguei, sem nunca ter feito um disparo com ela.
Mas enfim ordens são ordens, e desta vez saí com a fabulosa costureirinha G 3, com seis carregadores, mais seis granadas defensivas, incluindo bolsa de primeiros socorros bem recheada com material, que pensei poder vir a ser útil, incluindo até soro, caso houvesse necessidade de transfusão. Em suma, preparado para qualquer eventualidade.
Na nossa companhia ia um indivíduo de cor como guia, caminhámos algumas horas debaixo de um sol abrasador, com dois grupos de combate cujo número de homens não me recordo, embora creia terem sido perto de cinquenta.
Depois de algum tempo houve uma pausa, com descanso junto à margem esquerda do rio. Nisto alguém notou um cheiro a fumo e ficámos alerta.
O oficial responsável pela operação, pede informação ao guia que nos acompanhava, simplesmente dizendo que não era possível estarem ali, mas sim mais à frente do nosso itinerário.
Já quase pôr-do-sol, o Alferes bastante carregado, pediu-me para permanecer ali com meia dúzia de soldados, enquanto eles fizeram mais alguns km. Regressaram já era noite e pernoitamos precisamente naquele lugar.
Mata serrada até de manhã, dias depois recebemos ordens para permanecer naquela zona durante alguns meses seguidos. Sucede que mais tarde viemos descobrir um acampamento abandonado, mas numa bela saída ainda fomos premiados com uma mina de fraca potência que não nos causou felizmente qualquer ferido.
A GRANADA
O trilho armadilhado… esperteza de militar:
Estávamos na época das queimadas e como anteriormente disse, fizemos permanência em cima de um morro três meses seguidos.
Fazíamos patrulhamentos na redondeza e vestígios do inimigo, pouco.
Ora o oficial de comando Alferes se bem pensou melhor o fez...
Uma granada dentro de uma lata das que nos serviam o pequeno-almoço tipo embalagem Coca-Cola, tirada a cavilha, granada dentro presa por um fio atravessando o trilho, granada de um lado fio preso no lado contrário do trilho, fio camuflado a uma altura relativamente baixa. Durante a noite estávamos no acampamento quando se ouviu o rebentamento. Visitámos depois o local já de dia, demos com vestígios de sangue, e os indivíduos continuaram caminhada fora do trilho, notou-se porque se viram as pegadas na cinza.
Ao passar a perna o fio é puxado, a granada sai fora da lata e assim se provoca o rebentamento.
O ISOLAMENTO
Foi durante vinte e sete meses, que o pessoal da companhia 1494 composta por cento e tal homens, viveu numa determinada área com cerca de arame farpado, com postos de vigia em volta, a cinco metros de altura com sentinelas de dia e noite.
Composta pelo capitão Adelino F. Almeida, pelo tenente Médico Dr. Alonso, clínica geral e estomatologia, Alferes miliciano Ferrajota, Alferes miliciano Eleutério entretanto falecido, Alferes miliciano Tomé Macedo, Alferes miliciano Rui Borges Digníssimo juiz em Lisboa (o capitão segundo informações também já faleceu), quatro sargentos do quadro furriéis milicianos, e soldados.
O isolamento era total além do ambiente de boa camaradagem, cada um tentava passar o tempo da melhor forma uns ouvindo música, outros jogando futebol, escrevendo às famílias, às namoradas, e madrinhas de guerra, bebendo cerveja, etc.
Era muito difícil, e para alegrar as tropas tínhamos correio uma vez por semana.
Tivemos momentos de termos no quartel um único pelotão. Para os que nunca fizeram tropa, "pelotão" é um grupo de homens, poucos ao ponto de eu estar de serviço ao posto de socorros e cabo da guarda ao mesmo tempo, ao que também se pode chamar de crise.
SENTINELA
Em muitas das saídas que fizemos, o nosso capitão saiu muitas vezes para as operações com os seus homens e leal que era, não havia qualquer distinção. Na mata de noite, fazia sentinela tal e qual como o soldado. Ele próprio se oferecia para entrar na escala de vigia e dizia contem comigo.
Como já descrevi, o enfermeiro também não era bafejado pela sorte nas saídas para o mato, era um operacional a cem por cento. Tínhamos que participar em todas, e como carregados que íamos, o nosso capitão num patrulhamento bastante difícil e doloroso, vira-se para o pessoal e disse "o Enfermeiro não faz sentinela."
A PICADA
Para quem nunca esteve em Angola, "picada" significa uma estrada ou caminho de terra batida por donde naturalmente circulamos, todos os dias com um sol abrasador, outros com chuva e por vezes até cacimba (na gíria africana quer também dizer humidade, umas vezes cheia de lama outras cheia de pó).
O inesperado aconteceu, a companhia que estava no Inga e outras em redor, vinham-se reabastecer ao Toto.
E foi na estação das chuvas, que sucede que a um km do Toto, o motorista perde o controlo da viatura e então o inesperado acontece... Primeiras duas baixas do Batalhão...
Da mesma companhia, noutra operação no mato nas margens de um rio num laranjal, também foram surpreendidos pelo inimigo. Mais duas baixas consideradas em combate, portanto a qualquer momento poderíamos ser surpreendidos ou premiados com a pouca sorte.
RIO MABRIDJ
Foi no Triângulo do Rio Mabridje, entre as duas margens do rio com o feitio de um "V", desaguando num só, que permanentemente fazíamos espera ao inimigo... em termos militares: "emboscadas", durante três, quatro dias seguidos.
Numa ocasião, o inimigo foi interceptado no percurso e flagelado pelo fogo das armas dos nossos militares. Não estive directamente metido nesta operação, mas muitas vezes dormi lá nesse lugar aonde havia milhares de melgas, e alguns crocodilos.
Durante noite e dia, tínhamos que espalhar uma pomada no corpo para que as melgas não nos perseguissem continuadamente e dormíamos praticamente com os pés quase metidos na boca dos "amigos" répteis.
Determinado dia, estava eu lá directamente, quando somos surpreendidos pelo voar de dois Aviões Fiat, sobrevoando o local com duas voltas mesmo em cima das nossas cabeças, com um som estridente. E como não vimos más nem boas, tivemos que nos expor a fim de identificar que éramos tropa Portuguesa porque não tínhamos rádio para comunicarmos com eles.
Depois de verificarem bem lá seguiram viagem, porque aquele local era frequentemente bombardeado com bombas Napalm que até as próprias árvores ficavam completamente depenadas.
Fui um dos maiores sustos da minha vida porque se disparassem ali ficaria um grupo de combate completamente destroçado. AVIÃO CARREGADO DE BOMBAS METE UM SENHOR RESPEITO.
METRALHADORA BREDA
Esta metralhadora ligeira, geralmente era utilizada em colunas militarizadas em deslocações, e em bases tácticas, e em cada coluna de carros, geralmente ia montada na segunda viatura, e também na viatura que circulava à retaguarda. Podíamos utilizar esta arma duas ou três em cada saída, conforme a quantidade de carros que se deslocavam.
Montada em viaturas ligeiras, em cima de um tripé, fixo, e sempre e que estava estacionada, em bases estacionadas, mantinha-se montada em cima de um tripé fixo no chão. É uma arma com grande porte de fazer fogo, e para isso tinha que ser manuseada pelo apontador, e um auxiliar para carregar a mesma, carregamento de lâminas. Não me recordo quantos disparos faz por minuto, mas que era uma arma excelente é verdade!
No lado esquerdo, da arma pode verificar a lâmina carregada de munições. De momento não me lembro as munições que leva cada lâmina, depois de tantos anos a memória esqueceu.
GUERRILHA
O inimigo nestas guerras de África muitas vezes é invisível, devido ao acentuado privilégio de zonas geográficas de existência de capim extremamente alto, e às matas serradas. E isto nas guerras de guerrilha há momentos tanto se pode estar a conviver connosco, como de um momento para o outro, estar do lado oposto a fazer fogo contra nós, as circunstâncias assim o permitiam.
A guerra de guerrilha é isto mesmo, e bastam umas centenas de guerrilheiros para pôr todo um País em alvoroço. Era o caso das colónias.
A VIAGEM
Poucos dias de estadia no ordinário hotel chamado Grafanil de zero estrelas, nas redondezas de Luanda, o Batalhão 1875 arranca em marcha, rumo ao norte, distrito de Uíge, mais propriamente Cidade Carmona.
A marcha é logo de manhã, com primeira paragem em Úcua, cenário acentuado de guerra continuamos estrada fora, metidos em camiões descapotados sob as ordens e responsabilidade do tenente-coronel Júlio dos Santos Batel.
Em cima deste oficial recaía a responsabilidade de um bom punhado de homens, todos eles com pouca experiência de vida, embora na flor da juventude. Chegamos já noite à capital do Uíge, Carmona. De Luanda a Carmona, não sei dizer quantos km são, mas levámos um dia inteiro para fazer este trajecto com um piso de alcatrão extraordinário e a viagem correu extraordinariamente bem.
Pernoitamos nas redondezas da cidade, em cama de "cão", embrulhados num cobertor e toca a descansar uns em cima das viaturas outros, no chão.
Depois de uma bela noite de descanso...Acham?...Arrancamos viagem em direcção a Vila Nova de Caípemba, Vila do Songo, Vale Loge, onde ficou estacionado o comando companhia serviços.
A outra companhia foi para o Ingae, a 1494, na qual eu ia integrado sob o comando do graduado tenente Adelino Q. F. de Almeida – mais tarde promovido a capitão – desinibido homem alto, tipo militarista de carreira, mas amigo dos seus homens, depois direi porquê!...
A 1ª SAÍDA PARA O MATO – INAUGURAÇÃO
Chegado ao Toto, fomos recebidos pelos Veteranos mais velhos. Em Toto, local que foi durante 17 meses um lugar com óptimas condições em pleno centro de guerra, tínhamos lá estacionados manutenção de alimentos e oficinas auto.
Era aqui que muitas companhias vinham fazer reabastecimentos de toda a qualidade de mantimentos. Este local comandado por um oficial posto tenente, também tinha um Aeródromo à distância seguramente a 3 km. Neste encontravam-se dois rapazes do Fundão: o António Augusto e o Beleza, este último ainda o vejo com muita frequência.
A unidade que fomos render foi deslocada para o leste de Angola e creio terem terminado aí a sua comissão, nestas coisas em princípio não atribuímos certa e determinada importância, porque queríamos era dias passados. O Beleza e o António Augusto, eram rapazes da minha recruta do mesmo curso Batalhão Caçadores 6, Castelo Branco.
Na primeira saída para as operações, acompanhados ainda pelos veteranos mais velhos, não sei com quantos meses na altura, lá saímos para o mato. Mas ainda dentro da parada no momento de saída, quando mal dou por mim vejo um indivíduo a lutar com o tenente Almeida em cima da viatura...
Nunca cheguei a saber o porquê.
A inauguração da primeira saída foi para os lados do Rio Mabrites, alguns km depois, saímos das viaturas e continuamos o itinerário a pé.
Percorridos alguns km sobre intensa mata e debaixo de um calor infernal, fomos sendo dirigidos pelos soldados mais antigos conhecedores da zona. Nesta coluna penso ter ido um rapaz de Valverde, que me ajudou a atravessar um rio às costas.
Alguns km depois, as viaturas esperavam por nós a fim de regressarmos ao quartel, mas perante a primeira saída para a guerra, vi jeitos de deitar o estômago fora, devido ao enjoo, disse para comigo mesmo se isto continua assim como irei aguentar dois anos extremamente difíceis, não estando habituado a este tipo de alimentação, bolachas, ração de combate e água podre...
A primeira saída em contacto com a guerra, correu dentro da normalidade, embora com um esforço tremendo apesar da boa preparação física.
Mas noutras operações mais complicadas, vi colegas do pelotão de morteiros derramar lágrimas em plenas operações. Porque andar a carregar com a "Querida namorada costureirinha" (termo carinhosamente usado para apelidar a arma de guerra), mais munições, morteiro grande e respectivo prato, e ainda as granadas para o alimentar, chegámos a descer morros com o rabo de rastos.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
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José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
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