Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
A crise na Europa, a crise em Madrid, a crise de um sistema: olhares sobre Espanha

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

11. A reforma do mercado de trabalho em Espanha

 

Que esconde a reforma do mercado de trabalho aprovada pelo Governo espanhol em 10 de Fevereiro?


O seu objectivo bem evidente é o de  reduzir os custos de despedimento contra  a utilização  excessiva de contratos temporários, que afecta 30% dos trabalhadores espanhois  e contra o "medo de contratar", que estaria a  paralisar os dirigentes das  empresas.


Com esta reforma também se defende uma maior flexibilidade dos trabalhadores para evitar o recurso aos despedimentos em massa em tempos de crise e privilegiar os ajustamentos internos, em termos de tempo de trabalho e de funções.

 

Um objectivo fundamental num país que perdeu 2,7 milhões de postos de trabalho desde o início da crise e onde a taxa de desemprego subiu de menos de 8% a 23% da população activa.

 

Por trás desses princípios de boas intenções, "estamos face ao maior ataque contra os direitos dos trabalhadores nos últimos trinta anos," diz o advogado especializado em direito do trabalho Aragones Vidal, membro do colectivo Ronda, especializado na defesa dos trabalhadores.

 

"Esta reforma está mais perto do modelo americano de despedimento livre (employment at will),  um modelo onde o Estado Providência  deve ser reduzido, porque nós não nos podemos permitir  assumir o custo", argumenta o economista Rafael Pampillon, Professor na IE Business School..

 

Enfraquecer o papel dos sindicatos

 

Que diz a reforma? Em primeiro lugar, as indemnizações por despedimentos "injustificados" passam de 45 para 33 dias por ano trabalho com um máximo de 24 pagamentos mensais em vez de 42.

 

Mas, acima de tudo, os despedimentos por razões de ordem económica, indemnizados à razão de  20 dias por ano de  trabalho realizado  com um máximo de 12 mensalidades, são facilitados. Para o despedimento basta que a empresa justifique três trimestres consecutivos de diminuição das vendas, mesmo se tem sempre lucros, para assim poder despedir. 

 

Por outro lado, para poder efectuar despedimentos colectivos, a reforma suprime a exigência de autorização administrativa prévia, o que irá facilitar os encerramentos e enfraquecer o papel dos sindicatos nas negociações.

 

Finalmente, as empresas podem impor reduções unilaterais dos salários após dois trimestres de queda de vendas por razões de “competitividade, de produtividade ou de organização técnica do trabalho na empresa”. Se o empregado se recusa a aceitar no prazo de 15 dias, este  perderá o seu emprego.

 

Esta reforma seria ela indispensável?

 

O governo argumenta que o único direito de trabalhadores que é defensável é o de ter um emprego. Mas a qualquer preço? Sim, afirma Pampillon: "a forte inflação que a Espanha tem tido nestes últimos anos fez-nos perder competitividade." As empresas devem reduzir os seus custos. Se ainda tivéssemos a peseta, seria suficiente a desvalorização mas, no quadro da zona euro, temos de fazer uma desvalorização a frio, através da redução dos salários. A reforma conduzirá a uma diminuições dos salários e, como primeiro passo, as empresas vão, sem dúvida, despedir para voltar a empregar mas agora a salários mais baixos."


"Esta reforma não irá gerar mais empregos mas sim empobrecer os trabalhadores, corrige Aragones . O governo aproveitou-se de uma situação de crise para impor uma visão mercantilista que faz com que o empregado seja uma mercadoria de que pode dispor à sua vontade."


Os sindicatos colocaram centenas de milhares de pessoas nas ruas em 19 de Fevereiro e ameaçam com uma greve geral se o governo não corrigir o tiro.


Sandrine Morel, La réforme du marché du travail en Espagne, Le Monde, Economie, 27 Fevereiro de 2012 



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Sábado, 5 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

12. E por aqui também passa a globalização, a desindustrialização

 

Não é de modo nenhum necessário ser professor de economia para compreender que uma moeda comum só tem verdadeiramente significado se esta está apoiada em políticas fiscais e orçamentais nacionais que sejam pelo menos convergentes.

 

A um nível ainda mais elevado, devemos criar uma nova política global que combine a elevação do nível de vida dos países emergentes e dos países pobres com uma política de re-industrialização da França que deve, como a Alemanha, exportar mais produtos industriais para os países em crescimento

 

François Hollande  é um novos valores  da  esquerda reformista

 

Alain Touraine, sociólogo


A campanha presidencial, cujo resultado era previsível desde o discurso de  François Hollande pronunciado a 22 de Janeiro em Le Bourget, demonstrou que o seu sentido  não  se baseava na opinião publica. Desta vez, porém, foi mais complexo  do que na maior parte  dos casos anteriores, porque não se trata de escolher uma posição numa linha do tipo direita-esquerda, rico-pobres, etc. Porque o sentido da campanha actual combina dois eixos.


O  primeiro  é a construção e depois o resgate da Europa ou mais precisamente da zona  euro. O segundo é mais classicamente social:  devemos nós  continuar a deixar-nos ser comandados por  um capitalismo especulador ou devemos nós inverter  a repartição  do rendimento  nacional  a favor dos trabalhadores que têm estado a perder muito terreno desde o triunfo do neoliberalismo na década dos anos de 1970 e especialmente desde as crises financeira, económica e monetária que de forma  encadeada se têm estado a verificar   desde 2007.


A observação da Grécia, de Portugal, da  Itália, da Espanha e da própria França mostra claramente que a dimensão europeia, porque ela comanda  a economia, determina o nosso futuro de uma forma mais imediata do que a dimensão social nacional. No entanto, subjectivamente, é a dimensão social e económica  que prevalece, que controla mais directamente a opinião pública.


As duas dimensões são também igualmente necessárias, mas não são da mesma natureza. A dimensão social está  mais presente na cabeça das pessoas  o que é um progresso depois de 10 anos de governo de direita, mas a dimensão europeia é pelo menos tão decisiva como a dimensão social.


François Hollande é o único candidato elegível que defende simultaneamente a construção europeia e a política social de esquerda, a favor sobretudo dos mais ameaçados. É esta dupla resposta positiva para as duas questões mais importantes para a França e para os franceses que torna a sua eleição lógica e desejável. A sua posição era difícil, porque há ainda importantes sectores do eleitorado de esquerda que consideram que o projecto europeu é antagónico com uma política social de esquerda.

 

Esta última posição, que é a de Nicolas Sarkozy como é também a de  Marine Le Pen e de Jean-Luc Mélenchon, não compreende  a existência dos  dois eixos da decisão. A grande novidade da posição de François Hollande é a de ter  na verdade  compreendido que a dimensão nacional e a dimensão internacional das nossas escolhas são separadas uma da outra [mas ligadas]. Uma política capaz de restabelecer  o nosso crescimento e de reduzir as desigualdades deve combinar dois e não só um único eixo de decisão.


 

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DIÁRIO DE BORDO, 5 de Maio de 2012

 

No próximo domingo vai decorrer a segunda volta das eleições presidenciais francesas. Frente a frente estarão Nicolas Sarkozy e François Hollande. Parece que as sondagens dão vantagem ao segundo, mas o resultado final é muito duvidoso. Entretanto, há que referir que os poderes do presidente francês são mais alargados do que os poderes do presidente português (embora,  no caso de Cavaco Silva, este consiga  bastantes vezes dar azo a que se diga que está por aqui a mais). A questão que se põe é a de se há realmente vantagem na eleição de um ou de outro. Sobre Sarkozy já se sabe que é mau. É o preferido dos bancos e da finança; péssimo sinal. Promete ordem, realismo, por aí fora. É o caos garantido, e o desastre para os cidadãos franceses.


François Hollande tem por si realmente o facto de a banca e a finança em geral não gostarem dele; mas a partir daí? Realmente ter contra si os grandes responsáveis pela crise e insegurança generalizadas em que se vive em França quer dizer alguma coisa, mas será que Hollande poderá remar contra esses poderes? Será que realmente o pretende? Talvez, mas terá de pôr de parte aquelas convicções fantásticas de que é possível ter capitalismo e socialismo ao mesmo tempo, convicções que enterraram as populações da maior parte do mundo em crise muito sérias, de que as oligarquias se aproveitaram para nos porem na situação actual. Caso ganhe, terá de evitar os caminhos que seguiram Mitterand e Tony Blair, que deixaram muitos espíritos mergulhados na confusão, e contribuíram decisivamente para disseminar o sentimento de não haver alternativa às políticas de austeridade e empobrecimento, e para o actual avanço da extrema direita por toda a Europa.


O Le Monde, no seu editorial de ontem, afirmava que, para os franceses viverem uns com os outros, será indispensável, sem distinção de origem, de raça ou de religião, beneficiarem de um mínimo de prosperidade. E que ninguém, num país tão rico como a França, no princípio do século XXI, tenha dificuldade em aceder ao emprego, à educação, à habitação, aos cuidados de saúde, à reforma. É um apelo claro ao voto em Hollande. Nós já ouvimos isto, cá em Portugal. Os que ainda temos esperança de acabar com o jugo a que estamos sujeitos, sabemos que não basta ganhar eleições, é preciso mais: uma embalagem que nos dê acesso (e aos franceses, lá em França) a esse mínimo de condições, e que depois não dê margem a uma contra-reforma como a que estamos a sofrer.



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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

10. O sector foltovoltaico: a oferta é o dobro da procura

 

Entrevista a Paolo Frankl," da Agência Internacional da Energia

 

 

 

 

É de novo os ventos do desespero que se abatem  de novo sobre a indústria solar europeia: o fabricante alemão de células fotovoltaicas Q-Cells, líder no seu sector de na Alemanha, anunciou que apresentaria na terça-feira, 3 de Abril o seu pedido de declaração de falência. Esta falência é parte de uma série negra no mercado de energia fotovoltaica na Alemanha, mas também na Europa em geral. Na semana passada, foi o francês Evasol que estava à beira da falência na sequência de desgraças da emblemática jóia da coroa do sector a empresa antiga Photowatt.


Este marasmo no entanto não corresponde à imagem da indústria, tanto o crescimento se mostra forte na China. Um  último acto a prová-lo: a empresa chinesa Fire Energy, distribuidor de equipamentos fotovoltaicos, deve  adquirir  até ao final do mês uma base militar abandonada de Châteaudun (Eure-et-Loir) para  aí desenvolver um parque industrial, incluindo uma unidade  de montagem de painéis fotovoltaicos e uma fábrica  para a fabricação de LED, de acordo com Les Echos. Paolo Frankl, chefe da divisão de energias renováveis na Agência Internacional de Energia, analisa a  evolução recente do mercado solar.


Por que razão Europeia o solar europeu atravessa uma situação tão má?


R de Paolo Frankl: Esta derrocada europeia - com a situação de falência ou de dificuldade da empresa alemã Q-Cells, Solarhybrid, Solar Millennium, Sólon e dos franceses Evasol e Photowatt é explicada por duas razões que são: a forte concorrência de fabricantes chineses a preços muito mais baixos e a redução dos subsídios nos principais mercados-chave europeus.

 

A situação mudou totalmente em 2007 quando os chineses fizeram a aposta de investir fortemente nessa tecnologia. Ao produzirem em grandes quantidades, estes dramaticamente fizeram aumentar um mercado até então limitado, na medida em que a oferta é agora duas vezes superior à procura: a capacidade de produção atingiu 50 gigawatts (GW) em 2011 para uma capacidade de instalação estimada em 27 GW.. Consequência: este excesso de produção, a baixo custo pelo lado chinês, provocou uma queda dos preços, até 75% em três anos nalguns países. Actualmente, o módulo fotovoltaico [painel solar] vende-se à volta de 1 dólar por watt gerado e o sistema fotovoltaico [módulos, suporte, bateria, cabos, etc.] 2 dólares por watt, contra quase o dobro de há três anos atrás.


No entanto, enquanto que os preços dos equipamentos desciam  drasticamente, os preços de venda  de electricidade não diminuíram na mesma proporção. Houve um desfasamento, portanto: alguns produtores fizeram lucros demasiado onerosos para os consumidores. Com isto criou-se então  uma bolha, com um risco de colapso do mercado, especialmente em 2012 e 2013. Eis porque é que alguns países, como a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha ou a República Checa, reduziram as tarifas  garantidas de compra  aos  produtores de electricidade de origem fotovoltaica. Por exemplo, a Alemanha compra, desde o 1 de Abril a electricidade das  grandes instalações a 16.5 cêntimos  por quilowatt-hora e a 19,5 cêntimos a das  pequenas instalações contra respectivamente 18 e 24 cêntimos  no ano passado.


Como conseguiu a China levar os preços dos painéis fotovoltaicos a uma tão grande descida?


A China investiu maciçamente no sector fotovoltaico, à custa de dezenas de milhares de milhões de euros. Isso permitiu-lhe criar enormes economias de escala e, por conseguinte, reduzir os custos de fabricação. O custo do trabalho, muito baixo também, permitiu-lhe baixar o preço. Finalmente, as empresas chinesas desfrutam de um contexto muito favorável, os bancos do Estado permitem-lhes contrair empréstimos a taxas de juro interessantes, enquanto as autoridades locais vendem-lhes as suas terras a preços muito baixos. Alguns fabricantes europeus e americanos asseguram também que o mercado chinês beneficiou de subvenções estatais irregulares. Isso não está provado.


No final, a China tornou-se o primeiro produtor do mundo de painéis ao fabricar mais de metade dos módulos comercializados no planeta. E nos dez maiores fabricantes de painéis solares, cinco deles são chineses. A estratégia de Pequim foi, portanto, em grande medida benéfica para as empresas chinesas mas também para os americanos, em menor medida, também. Só os europeus viram a sua pressão aumentar.


À escala planetária  o sector de energia fotovoltaica vai, portanto, bastante bem?

 

Em todos os sectores industriais, houve sempre uma fase de consolidação da indústria, o que significa que ela se torna mais madura. Esta é a situação actualmente da fileira fotovoltaica. Assim, se algumas empresas encontram dificuldades, não acontece oi mesmo para todo o sector. O mercado de facto aumentou exponencialmente nos últimos anos: a capacidade de instalar assim foi estimada em 17 GW em 2010 e 7 GW em 2009, contra 27 GW em 2011.


Além disso, se alguns governos reduziram as suas tarifas de compra de electricidade, nenhum deles diminuiu os seus objectivos em termos de quota das energias renováveis na produção de electricidade. A União Europeia deseja manter o seu objectivo de alcançar os 20% de energia renovável até 2020.


Como pode a Europa relançar o seu mercado?

 

O desafio para a indústria europeia é primeiramente encontrar novos mercados na América do Sul, no norte da África, no Oriente Médio, na Índia ou mesmo nos Estados Unidos e Japão, que têm principalmente uma ponta, um pico, de consumo de electricidade no decorrer do Verão devido os utilização de sistemas de ar condicionado. O recurso solar está agora por toda a parte no mundo: hoje, cinco mercados são maiores do que 1 GW e quinze mercados são superiores a 100 MW no planeta; em 2015, haverá pelo menos quarenta mercados superiores a 100 MW. Os produtores europeus terão de se renovar  e produzir num ambiente menos confortável, com menos subsídios dos respectivos governos.


O mercado europeu, em seguida, pode diferenciar-se através ao seu valor acrescentado, em termos de aplicação dos sistemas fotovoltaicos e de integração nos edifícios. Finalmente, hoje, Europa e os Estados Unidos mantêm uma vantagem sobre a produção de silício multi-cristalino de  que são compostos as  células.

 

Como poderia ser a evolução do sector fotovoltaico nos próximos anos?


É difícil estabelecer previsões na medida em que o mercado está a evoluir muito rapidamente, em função simultaneamente de decisões políticas e de progresso tecnológico. Mas é certo que em três anos, a situação será muito diferente da que vivemos actualmente. A China não deverá aumentar a sua oferta, já muito forte, mas a sua procura, com o desenvolvimento do mercado interno, tem um  enorme potencial.


Passando de  1,5 GW este ano para 10 ou 15 GW até 2015, ela reforçará  a sua  posição dominante de modo considerável  no mercado de energia solar – na condição de que a capacidade instalada seja  compatível com a capacidade eléctrica do país. Ao mesmo tempo, isso poderia permitir deixar de estar a pressionar os Estados Unidos e a Europa, especialmente nos  outros mercados.


Entrevista a Paolo Frankl, Photovoltaïque: "L'offre est aujourd'hui deux fois supérieure à la demande", conduzida por Audrey Garric, Le Monde, | 03.04.2012  


Paolo Frankl, responsável da Divisão Energias Renováveis na Agência Internacional da Energia 



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Domingo, 29 de Abril de 2012
A crise na Europa, a crise em Madrid, a crise de um sistema: olhares sobre Espanha

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

5. Uma maré humana desfila na Espanha em greve.

 

 

A Espanha viveu como em câmara lenta na  quinta-feira, 29 de Março, devido a  uma greve geral contra a reforma do mercado de trabalho e contra a austeridade do governo de direita, que nesta sexta-feira apresenta um orçamento para 2012 marcada por novos cortes, sob o olhar  preocupado de Bruxelas. A greve geral, o apelo dos principais sindicatos, Comisiones Obreras (CO) e UGT, foi pontuado por manifestações em toda a Espanha. 


Muitos pequenos cartazes onde estavam desenhados tesouras, aqui a ser o símbolo das reduções orçamentais, cem mil manifestantes pelo menos percorreram as avenidas no centro de Madrid. Os sindicatos anunciaram quase um milhão de pessoas, o diário El Pais fala em cento e setenta mil pessoas .

 

No cortejo, José Luis Rodriguez, empregado do sector comercial automóvel, de 35 anos explicou que tinha feito a escolha de perder um dia de salário  para defender os seus direitos,  fazendo  greve pela primeira vez na  sua vida. " Este dia vai- me custar 60 euros, é pouco quando comparado com o que eles me podem  levar amanhã com a reforma, pois podem-me atirar para a rua", disse ele. "Eles estão  a atacar  os direitos dos trabalhadores, e  se nós não saímos nas ruas, eles não saberão que nós somos contra a reforma."


Violências em Barcelona


Os manifestantes, estimados em oitocentos mil pelos sindicatos, e em  dez vezes menos pela polícia, também desfilaram em Barcelona, a segunda cidade do país, onde a violência eclodiu entre grupos de polícia e  a juventude. "A polícia teve que intervir e usou  balas de borracha" face a  "grupo bastante importante”  que  provocou  " incidentes violentos", declarou  um porta-voz do Ministério do Interior regional. As imagens da televisão catalã mostraram jovens a queimar  contentores de lixo e a enfrentarem a  polícia de choque, com máscaras. Estes  último  dispararam  várias balas de borracha para o chão.

 


 

Os incidentes de Barcelona foram os mais violentos, mas também houve confrontos noutras cidades como Sevilha e Madrid durante as primeiras horas da greve. No total, 160  pessoas teriam sido detidas, cinquenta e oito policias e quarenta e seis manifestantes ou grevistas foram feridos em todo o país, de acordo com o Ministério do Interior.

 

Por todos os outros lugares, a mobilização foi forte, com cinquenta mil pessoas em  La Coruña, segundo a polícia, vinte - cinco mil em  Santiago de Compostela, de acordo com os sindicatos, entre setenta e dois mil e quatrocentos mil em toda Andaluzia, entre trinta e cinco mil e duzentos mil em Valência, de acordo com estimativas.


Acenando bandeiras vermelhas e cartazes com as palavras "reforma do trabalho, não", os grevistas tinham-se instalado  no início da manhã às  portas  das fábricas e dos mercados grossistas de Madrid e Barcelona, junto dos bancos e das  estações de  transportes colectivos, distribuindo folhetos a anunciar : "Fechado devido à greve". "Espero que esta manifestação  servirá para alguma coisa, que a reforma venha a ser  modificada, uma vez que hoje o despedimento é quase livre", indignava-se Maria José Velasco, uma vendedora de 38 anos no desemprego.

 

 

 Em frente  ao Ministério das Finanças, uma mobilização do sindicato dos trabalhadores USO  (fotografia s.f. / World)

 

Os  sindicatos denunciam esta reforma aprovada em 11 de Fevereiro pelo governo e segundo este destinada a combater o desemprego recorde, 22.85% dos activos. Para os sindicatos, esta só vem exacerbar esta enorme chaga social, enquanto o próprio Governo prevê a destruição de postos de trabalho de mais 630 000  em 2012 e com o desemprego a subir para 24,3% no final do ano. "Esta é a resposta certa para uma reforma brutal do nosso mercado de trabalho", disse Ignacio Fernandez Toxo, secretário geral das   CO.

 

 

Esta greve  geral é a  sexta  desde a restauração das liberdades sindicais, em 1977. A última realizou-se a  29 de Setembro de 2010, sob o governo socialista.

 

 

ALUNO TURBULENTO DA ZONA EURO

 

 

O  impacto da greve parece  ter sido limitado pelo acordo de serviço mínimo celebrado entre os sindicatos e o governo, para já não mencionar a preocupação de muitos espanhóis em não perder a  remuneração de um dia de trabalho num contexto de grande rigor. Em Madrid,  circularam em média 30%  das composições de metro e de autocarros. No resto do país, estavam previstos 30% dos comboios regionais  e 20% dos comboios nacionais.

 

 

As companhias  aéreas  Iberia, Air Nostrum e Vueling reduziram  uma média de 60% dos seus voos. Para além dos serviços públicos, as indústrias metalúrgicas e do sector automóvel  pareciam ter sido as mais afectados pelas  paragens de trabalho. Os lugares turísticos, como a Alhambra de Granada ou o Museu Picasso Barcelona, permaneceram  fechados.

 

 

Cem dias após a chegada ao poder do governo de Mariano Rajoy, as nuvens negras amontoam-se sobre no céu de Espanha, que agora é o aluno  turbulento da zona  euro: retorno à recessão, crescente exasperação  social, derrapagem orçamental com altos riscos  e desemprego galopante. 

 

 

A greve acontece pois no pior momento para o Governo: sob o olhar  dos seus parceiros europeus, preocupados com o estado das finanças públicas do país, o Conselho de Ministros deve apresentar na sexta-feira o orçamento de 2012, marcado por severos cortes. O objectivo deste orçamento, descrito como "austero" pelo próprio  Mariano Rajoy, ele próprio, é o de reduzir o défice  público para  5,3% do PIB no final do exercício depois da derrapagem para  8,51% em 2011, mas ao  custo de pesados sacrifícios sociais.

 

 

Editorial, Le Monde, 29 de Março



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Sábado, 28 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

9. O fotovoltaico alemão em plena derrota    

 

Cécile Boutelet

 

 

 

É uma hecatombe que atinge a indústria  alemã  do fotovoltaico. A firma Q - cells, outrora  o primeiro fabricante de painéis solares no mundo, ira apresentar o seu pedido de declaração de falência  na  terça-feira, 3 de Abril. Desde há algumas  semanas, a empresa, que perdeu em 2011 quase 850 milhões de euros com um volume de negócios de mil milhões de euros, estava a  tentar  rectificar  as suas contas.


A falência de W-Cells acontece depois da  das empresas Solarhybrid, Solar Millennium, Solon, três outros pesos pesados alemães a indústria alemã do fotovoltaico. No entanto, a procura de  painéis solares nunca foi tão alta na Alemanha.


Mas os industriais estão encurralados entre duas grandes mudanças. Por um lado, a concorrência da China, que produz os painéis a um preço mais baixo e de qualidade equivalente, provocou  uma quebra brutal  dos preços nos últimos anos. Por outro lado, o Governo alemão, pela explosão de instalações, cortou duramente  nos subsídios para a electricidade de origem solar que absorvem, só para esta indústria, cerca de metade do envelope dado por Berlim para as  energia renováveis.


Os fabricantes não foram capazes de reestruturar os seus custos a tempo. "Os industriais  acreditavam que os consumidores estariam dispostos a pagar mais caro pelo “made in Germany”  pensa  Wolfgang Hummel, da Escola Técnica Superior de Berlim. "A indústria solar alemã conheceu  um crescimento extremo nos últimos anos, a bolha  está em vias de estourar," diz Claudia Kemfert, uma perita em energia especializada pelo  Instituto Económico de Berlim, "Penso que vai aí  haver  fusões e aquisições, devem-se esperar ainda mais falências ".


2 200 empregos ameaçados


Mas o investigador não prediz o fim do fotovoltaico alemão: "a procura global para painéis solares irá aumentar, é importante que as empresas sólidas alemãs fortes estejam posicionadas neste mercado." Assim, o grupo Bosch Solar Energy Group continua a investir numa actividade considerada promissora a longo prazo, apesar de uma perda de 500 milhões de euros em 2011. Em meados de Março, a Bosch abriu uma fábrica para a produção de painéis perto de Lyon e planeia abrir outra na Malásia.


Q-Cells espera com a apresentação do seu pedido de declaração de falência , melhorar a sua situação financeira  antes de negociar um acordo com os seus credores. " Q-Cells ainda tem um futuro," quer acreditar Sylke Teichfub, do sindicato IG A.C. A empresa fundada em 1999 foi durante muito n tempo a estrela de TecDAX, o índice alemão de valores tecnológicos. No final de 2007, o seu valor estimado em 8 mil milhões de euros, ela esperava entrar para o DAX, o índice  de referência de Frankfurt.

 

Q-Cells, 2 200 empregos estão ameaçados, mas é toda uma região que olha  com ansiedade a evolução da situação da empresa. Porque Q-Cells forma o núcleo do "Sollar Valley", o vale do sol, uma zona industrial criada numa região da Alemanha sinistrada pela reunificação, que tinha apostado no desenvolvimento do fotovoltaico alemão.


Cécile Boutelet,  Le photovoltaïque allemand en pleine déroute, LE MONDE,  03.04.2012 



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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

8. A fileira solar europeia na tormenta

 

Jean-Pierre Stroobants (Bruxelas)

 

 

A empresa alemã Q-Cells, outrora a n ° 1 mundial em células fotovoltaicas, apresentou o seu pedido de declaração de falência na terça-feira, 3 de Abril e é  agora todo o sector europeu da energia solar que se interroga sobre o seu próprio futuro, exactamente agora que espera vir a desempenhar  um papel-chave. Os planos dos 27 para as questões climáticas em que se  prevê  uma redução progressiva das emissões de gases com efeito de estufa e a renovação das fontes de energia, dependem  de facto e em  grande parte do sucesso da indústria do fotovoltaico, considerado  também contribuir para o crescimento e o emprego. A União Europeia tenciona produzir 20% de sua energia a partir de  fontes renováveis até 2020.


A indústria do  fotovoltaico europeu  também está a sofrer com as  medidas de redução dos subsídios governamentais e com as reduções de vantagens decididas um pouco por todo o espaço europeu, devido às políticas de austeridade seguidas. Um efeito directo da crise, mas também uma consequência do sucesso um pouco descontrolado dos  dispositivos de apoio muito generosos. Vários países, incluindo a Alemanha, reduziram significativamente o preço de compra garantido aos produtores de electricidade   de origem fotovoltaica.

 

Antes de  Q-Cells, outras empresas alemãs que operam num mercado estimado em cerca de 25 mil milhões de euros ficam viradas do avesso, vítimas da concorrência  desenfreada da China e de Taiwan  que levou os preços a descerem fortemente . "Alguns dirigentes de empresas apontam a dedo os seus concorrentes chineses, que beneficiaram de empréstimos dos bancos semi-públicos e de ajudas directas do Estado." "Até agora não recebemos qualquer queixa, mas se os industriais formalizarem uma  queixa nós poderemos iniciar uma investigação ", indicou, na terça-feira, 3 de Abril, um porta-voz da Comissão em Bruxelas.


Fragilidade

 

A França decidiu, de Dezembro de 2010, uma moratória sobre as ajudas públicas à  energia solar. O Ministro da Ecologia, Nathalie Kosciusko-Morizet sublinhou , na época, que 90% dos painéis instalados no país vinham da  China. Desde o início de 2012, ela estimava que os objectivos de potência instalada  foram alcançados, mas não os da criação de empregos  ou de reestruturação de um verdadeiro sector industrial. "Modificámos as ajudas públicas para as encaminhar para concursos muito tecnológicos  em apoio das diversas fileiras industriais  francesas," afirmou o ministro. É necessário que os apoios financeiros sirvam  para criar postos de trabalho em  França e não na China ". Por último, a aquisição da empresa  pioneira da energia fotovoltaica na França pela EDF em Fevereiro de 2012, a  Photowatt  de Bourgoin-Jallieu (Isère), colocada em liquidação judicial, terá especialmente demonstrado a grande fragilidade do sector.


Na Grã-Bretanha, o governo anunciou, no final de 2011, a baixa  de subvenções e a redução da tarifa de aquisição da electricidade de origem solar pela rede de distribuição nacional. O grupo de engenharia Carrion (4500 empregos) evocava  imediatamente um projecto de reestruturação. O conjunto da fileira britânica, composta  principalmente por pequenas e médias empresas, emprega cerca de 30000 pessoas.


Na República Checa, um generoso sistema de subvenções  também foi abandonado, como na Itália ou na Bélgica. Neste último país, a  empresa  Bekaert, líder mundial em fios de aço (usados em especial  nos painéis fotovoltaicos) está- se a preparar  para fechar as unidades de produção na Bélgica e na China: ela  já não consegue competir com as empresas chinesas no sector.


A necessidade de uma coordenação europeia

 

A Espanha já se via  líder mundial em energia solar. No entanto, em Janeiro de 2011, um decreto reduziu de cerca de 30% os subsídios para a indústria fotovoltaica e limitou o número de horas dando direito a um subsídio. O objectivo era economizar 2.2 mil milhões de euros em três anos. O novo governo conservador já anunciou a supressão dos subsídios para  novas instalações.


A Grécia também ela apostou na energia solar a partir de 2011, com a esperança de rentabilizar no máximo a sua taxa de exposição à  luz do sol, superior em 50% à dos países do Norte da Europa. Um gigantesco projecto exigindo um investimento de 20 mil milhões visa alcançar, a  prazo, os 10000 megawatts (MW) de potência instalada. Para atingir o seu objectivo - vender electricidade solar para a Alemanha-, o país terá no entanto necessidade de um apoio europeu e dos investidores assim como uma melhoria das redes de transporte previstas pela Comissão Europeia.


Esta  última recusa centrar-se nas dificuldades actuais, que julga transitórias. "Estamos convencidos que o sector fotovoltaico permanece como promissor e não é afectado no seu conjunto", diz Karolina Kottova, porta-voz da Comissão. De resto, disse um especialista, são os Estados-Membros que decidem a sua própria política e devem assumir os seus erros. A este respeito, o caso alemão é descrito como "exemplar": o sistema de subsídio para a instalação dos painéis tem sido  financiado por uma sobretaxa na factura dos consumidores e beneficiou sobretudo os painéis chineses. Daí, sem dúvida, a imperativa necessidade de uma efectiva coordenação europeia.


Jean-Pierre Stroobants (Bruxelles, Bureau européen),  La filière solaire européenne dans la tourmente, LE MONDE,  04.04.2012 



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A crise na Europa, a crise em Madrid, a crise de um sistema: olhares sobre Espanha

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

 

3. Os espanhóis em greve geral contra a reforma do mercado de trabalho

 

Nota de leitura

 

Um pequeno texto sobre o mercado de trabalho, sobre a liberalização do mercado de trabalho em Espanha, um pequeno texto que dedico a dois antigos alunos, um deles, é um dos alunos mais inteligentes que tive recentemente, e o outro dedico-lhe pela razão simétrica. E então a razão destas duas dedicatórias?


A primeira porque se trata de um aluno que muito estimo e a este vi-o defender a liberalização do mercado de trabalho, porque segundo ele é a rigidez do mercado de trabalho que leva a que os jovens não tenham emprego, porque é essa rigidez que impede o crescimento! Dois exemplos de contraditório: a flexibilidade reduz o custo salarial por unidade produto, para a mesma produção, reduz o poder de compra para o mesmo valor produzido, reduz então a procura, reduz depois a produção, reduz então o emprego! Simples, portanto. Segundo: desde David Ricardo e cito de memória, o salário é um dado, variável no tempo e no espaço e mesmo se  lentamente quando se fala de evolução no mesmo espaço, quando se fala da evolução no tempo, esta evolução é no sentido oposto ao que agora se pretende com a flexibilização que agora se defende. Foi assim que o capitalismo se transformou numa maquina de produção gigantesca, foi assim que se criou os mecanismos sociais de estabilidade que agora com essa flexibilidade e o desemprego de massa se está a destruir e a querer voltar aos tempos de antes de Ricardo, até. Para um aluno inteligente como ele, dá para entender.  


Quanto ao segundo aluno, a história é simples: numa aula perguntei o que ouvia, ao entrar num táxi e sem falar com o motorista? As comunicações contínuas entre o motorista e a central. Quantas horas de trabalho a fio? Pelo menos 4 horas e sendo sem nenhum intervalo então a telefonista corriam o risco de ficar mais cedo ou mais tarde com as cordas vocais estoiradas. E a que salário? Ao salário mínimo nacional e que por este caminho também irá desaparecer. E o nosso aluno nada inteligente responde: então, se há tanto desemprego porque é que não há-de ser assim! Passados anos, reveja-se ele agora neste texto e espero que já tenha ganho a maturidade para ser capaz de compreender!


Júlio Marques Mota

 

Os espanhóis em greve geral contra a reforma do mercado de trabalho

 

Sandrine Morel

 

A Espanha vai enfrentar, na quinta-feira, 29 de Março, a sua sétima greve geral em 30 anos de democracia. Neste país onde ainda domina a paz social, apesar duma crise sem precedentes, os dois sindicatos maioritários, a União Geral dos Trabalhadores (UGT) e as Comissões de Trabalhadores (CCOO), apelaram finalmente para se protestar contra a reforma do mercado do trabalho aprovada a 10 de Fevereiro pelo governo conservador de Mariano Rajoy.


Esta reforma entrada em vigor desde 12 de Fevereiro, facilita e torna os despedimentos menos custosos para as empresas, impõe mais flexibilidade para os assalariados em matéria de funções, de horários e de salários e reduziu o peso dos sindicatos na negociação colectiva e nos planos sociais.


De acordo com o governo, a reforma deve levar a que os empresários percam o medo de empregar e assim aumentar a produtividade e a competitividade da economia espanhola. Mas para os sindicatos, esta reforma destrói o direito ao trabalho e as conquistas sociais. "A greve geral é a única opção que nos deixou o governo depois de ter agido por decreto-lei sem qualquer diálogo," sublinhou o Presidente da CCOO, Ignacio Toxo, na terça-feira, numa reunião no país basco.


Em pouco mais de um mês, a reforma do mercado de trabalho já teve repercussões ao nível do emprego, de acordo com a antena da UGT na Andaluzia. Entre 13 e em 29 de Fevereiro, identificaram-se 13000 novos despedimentos na região, oito vezes mais do que em 2011 na mesma data. A mesma observação na Catalunha, onde a UGT disse que havia três vezes mais despedimentos entre 13 e 29 de Fevereiro do que entre 1 e 13 de Fevereiro.


"Muitas empresas estavam à espera desta reforma para despedir com vinte dias de indemnização por ano de trabalho em vez de trinta e três ou 45 dias, consoante o caso", disse o advogado no direito do trabalho Jordi Vidal, do colectivo jurídico Ronda, uma cooperativa de Barcelona. "Outros parecem considerar que a taxa de desemprego de 23% justifica uma redução automática dos salários." "Três dias depois da reforma, eu tive o caso de um informático a quem uma empresa queria impor 700 euros de corte de salários mensal."

 

Uma taxa de desemprego de 23 %

 

A nova lei prevê, de facto, que as empresas possam impor unilateralmente cortes salariais depois de dois trimestres de baixa no volume de vendas e possam proceder a despedimentos económicos depois de três trimestres consecutivos de redução de lucros. Ora, num país em recessão, com a previsão de crescimento para 2012 a ser de (-1,7%, ) a maioria das empresas estará  a ver desde há muito tempo os seus resultados em queda.


Nos escritórios de advogados especializados no direito do trabalho, desde há um mês, o telefone não deixa de tocar. "As pessoas contactam-nos principalmente porque lhes impuseram uma redução de salário que eles tiveram que aceitar sob pena de serem despedidos," afirma Javier Blanco, advogado de Adeia, uma cooperativa jurídica de Madrid. Em geral, trata-se de reduções de 100 ou 200 euros mensais, mas eu também tenho o caso de um empregado de uma empresa têxtil cujo salário passou de 1 500 para 1 000 euros. "Ela hesita em reclamar, com medo de perder o seu emprego."


Com uma taxa de desemprego de 23% da população activa, a mais alta da zona euro e enquanto o governo anunciava 630.000 novas destruições de postos de trabalho em 2012, ter um emprego parece ser cada vez mais como um privilégio. "Esta reforma tem um efeito psicológico: aumenta o sentimento de medo nos assalariados que aceitam uma perda do seu poder de compra, leva a aumentos da sua jornada de trabalho  ou uma degradação das relações laborais na esperança de não perder o emprego", disse Javier Blanco. O Ministro da Economia, Luis de Guindos, advertiu que os efeitos da reforma do mercado de trabalho só serão visíveis a "médio prazo", no melhor dos casos no início de 2013, e que numa primeira fase, o desemprego vai continuar a aumentar.


"Com esta reforma, os trabalhadores que custam caros serão despedidos e em contrapartida irão ser substituídos por trabalhadores a menor custo, por jovens mais motivados " reconheceu José Navarro, director financeiro da empresa de consultores sobre o imobiliário, Savills, que acaba de demitir seis funcionários, confirmando os temores dos sindicatos.

 

De acordo com uma sondagem do Instituto Metroscopia publicada no diário El Pais, 30% dos espanhóis que têm emprego tinham a intenção de participar na greve geral de quinta-feira. Mas 67% temem que isso "prejudique a situação económica". Na sexta-feira, apresentando o seu orçamento para 2012, o governo deve anunciar um novo pacote de medidas de austeridade de 30 mil milhões de euros.

 

Sandrine Morel, Les Espagnols en grève générale contre la réforme du marché du travail, Le Monde, 28 de Março de 2012.



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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

7. Berlim corta nas subvenções ao fotovoltaico

 

 

 

 

"Os ministérios alemães da economia e do ambiente anunciaram, quinta-feira, 23 de Fevereiro, uma muito forte redução do preço de compra garantido aos produtores de electricidade fotovoltaica, suscitando vivos protestos .""Esta adaptação  teve sobretudo como objectivo  estabilizar o sobre-custo para os consumidores de electricidade e de manter a grande adesão da população à energia solar," comentou o Ministro do Meio ambiente, Norbert Röttgen.

 

A energia fotovoltaica é financiada na Alemanha pelos consumidores, que pagam uma sobretaxa nas suas facturas  e  que representa a diferença entre o preço garantido aos proprietários de painéis solares e o preço do mercado, muito inferior. Este sistema, juntamente com a forte descida dos preços dos painéis solares, agora frequentemente importados da Ásia, levou a uma explosão de instalação de painéis solares na Alemanha.


FORTES PROTESTOS NO SOLAR

 

Em termos práticos, o preço garantido aos produtores de electricidade fotovoltaica vai sofrer um novo corte a 9 de Março, variando entre  20% e 29%, dependendo do dimensão das instalações, que vai desde o painel solar  familiar ao campo reconvertido em central por um agricultor. A redução do preço garantido continuará em várias fases até 2016. Uma outra decisão , o preço garantido não se aplicam mais aos 100% da electricidade gerada mas  apenas a valores entre  85 e 90%, com o objectivo de encorajar  o  consumidor pessoal em detrimento da revenda.


Esta reforma gerou fortes protestos entre os industriais do sector, que já têm dificuldade em  sobreviver contra a concorrência asiática, e que tinham organizado um dia de acção na quinta-feira, com  manifestações de diversas fábricas . A Federação do sector, BSW, calculou  em  "alguns milhares". o número de manifestantes  em toda a Alemanha.  "O que se está já à espera  é nem mais nem menos do que um acto de abandono da energia solar", disse o director da BSW, Carsten Körnig. "O governo brinca  de modo muito inconsciente  com os postos de trabalho na indústria solar," afirmou a União dos Sindicatos IG Metall Union num comunicado denunciando  medidas "populistas" e acusando Berlim de  ser "refém dos operadores de centrais eléctricas alimentadas a energia fóssil ".


Na França, o governo também determinou uma travagem  para impedir o rápido crescimento do  fotovoltaico destes s últimos anos, estabelecendo em Março o preço de compra em cerca de 20% inferior à taxa que tem estado em vigor.


Berlin taille dans les subventions au photovoltaïque ; Le Monde com  AFP,  23.02.2012 



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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais   sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

3. A Alemanha, os Estados Unidos e a China na economia global

 

 

 

3.2 Nos Estados Unidos, os símbolos Levi’s, Converse...são frequentemente « made in algures”

 

Claire Gatinois, Le Monde,  26.03.2012

 

O senhor e a senhora McKenzie são bons cidadãos americanos. Moradores nos subúrbios de Nova Iorque, eles acreditam que comprar produtos locais é uma acção patriótica. O Buy American Act of 1933 não obrigava ele o Governo Federal a privilegiar o "made in EUA."? Isto cai bem, desde a toranja da Flórida ao petróleo do Texas, passando pelo algodão de Louisiana e pela alta tecnologia de Palo Alto, a primeira economia mundial está cheia de recursos.


No entanto, as marcas mais emblemáticos são muitas vezes "made in algures ". O boné dos Yankees do senhor McKenzie?  Fabricado na China. O casaco da Universidade de Nova York, vendido na sua loja oficial? Vindo da República Dominicana. Os jeans Levis? "Feitos no Paquistão". O par de sapatilhas Converse? Chegado directamente do Vietname...


É que, nos Estados Unidos é impossível fazer batota. As roupas são sujeitas ao Textile and Wool Acts: só aquelas "inteiramente ou quase inteiramente" feitas no país podem reivindicar o rótulo de "Estados Unidos". Se o produto é somente montado nos Estados Unidos, a partir de peças importadas, a marca deve especificar esse facto.


Mas as empresas assumem. Como Nike, que trabalha com 900 fabricantes na China, no Vietname ou na Indonésia. O que não impede que o grupo empregue 23.000 pessoas nos Estados Unidos para projectar a próxima "Nike air", que os filhos McKenzie  bem disputam. Além disso, 70% dos 135 milhões de "airbags" - acessórios de algumas solas de sapatos – continuam a ser fabricados além-Atlântico.


Em Nova Iorque o chique impõe muitas vezes comer de modo cosmopolita e beber vinho de Bordéus. No entanto, a Califórnia está cheia de vinhos muito elogiados pelos enólogos. Nada grave, McKenzie preferem mesmo assim comer no McDonald, onde os hambúrgueres são preparados com carne de Texas, do Nebrasca, Kansas ou do Colorado e as batatas para fritar vêm do  Maine. Com a condição de esquecer a dieta, eles também podem se oferecem um Donut Dunkin ' onde "a maioria dos ingredientes é de origem local".


O caso exemplar de General Motors


Para mobiliar interiores o seu primeiro impulso foi dirigirem-se ao Ikea de Brooklyn, onde a maioria dos móveis vêm da Ásia. Mas ocasionalmente eles navegam no site Americansworking.com, que lista os produtos americanos, como os móveis "Amish fourniture", feitos com madeira de Ohio ou de Indiana. O objectivo? "Preservar o emprego nos Estados Unidos", explica David Riley, fundador do site. O seu sucesso continua a ser modesto: 2,5 milhões de pessoas visitaram-no no final de 2011. Mas recebe 25-30% mais visitantes por ano, disse.


Para os electrodomésticos, os McKenzie no entanto não precisam de ajuda. Na Frigidaire, podem encontrar uma máquina de lavar roupa, um forno ou uma máquina de lavar louça orgulhosamente fabricada na América: o design e a concepção  são americanos.


Na electrónica, as coisas vão mal: o iPad último grito, que os McKenzie acabam de comprar na Apple Store da Fifth Avenue é fabricado pela empresa chinesa Foxconn com componentes frequentemente japoneses. Mudar de marca? O seu computador HP também é projectado nos Estados Unidos mas montado na Ásia.


O balanço é mais favorável para os carros: os McKenzie optaram por um  Silverato da General Motors (GM), saído das fábricas de  Fort Wayne (Indiana), Flint (Michigan) e Silao México, sendo 62% americano. E GM é, aos seus olhos, exemplar: o Chevrolet Sonic agora é fabricado nos Estados Unidos e não na Coreia. O que faz crescer a indústria americana, que representa 22,1% do PIB do país, segundo Natixis, contra 18,6% em França.

 

Claire Gatinois



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Terça-feira, 17 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização - 4ª Série
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais   sobre a globalização, sobre a desindustrialização

 

 

3. A Alemanha, os Estados Unidos e a China na economia global

 

3.1 Na Alemanha, as marcas Adidas, Hugo Boss, as marcas como Grundig ou Porsche deslocalizaram desde há muito tempo a sua produção.


Cécile Boutelet, Le Monde,  26.03.2012  

 

Para Gudrun e Jürgen Schmitt, o "made in Germany" afirma-se por si-mesmo e desde há muito tempo. Jürgen gosta de contar aos seus dois filhos como o seu pai lhe explicou que consumir alemão era a melhor maneira de reconstruir o país no pós-guerra. A única forma de patriotismo ainda aceitável após o trauma do período nazi. E, em seguida, os produtos alemães não são eles considerados no mundo como uma garantia de qualidade e de fiabilidade?


Contudo, Gudrun tem dúvidas. Há alguns meses atrás, aprendeu que o rótulo "made in Germany" não tinha nenhuma definição legal! O critério é atribuído a partir da " última etapa importante da transformação", o que quer dizer que um produto fabricado a 90% no estrangeiro pode reivindicar o rótulo made in Germany... Especialistas e as associações de consumidores regularmente denunciam esta falta de transparência. Cerca de 57% dos alemães consideram também que isso já não representa nenhuma garantia de origem nem de qualidade.


Em seguida, com a ajuda de alguns sites especializados, na Internet como, por exemplo,  Verbraucherportal Deutschland ou Ja zu Deutschland, que identificam os industriais que têm mantido pelo menos metade da sua produção na Alemanha, os Schmitt tentam então orientar-se por aí.


Em primeiro lugar, a roupa. A nossa família já exclui da sua lista de compras a Adidas, Puma e outros como Hugo Boss, que deslocalizaram a sua produção desde há muito tempo. Por sorte, eles ainda podem contar com um defensor de "100% Alemão ": a marca de têxteis Trigema. Algodão normal ou bio, fabrico alemão, empregos garantidos, com o custo de  39 Euros o pólo de senhora e 44 euros o par de Bermudas homem,  o casal pode comprar roupas em boa consciência nas lojas do grupo.


Quanto a sapatos, a família calçará Birkenstock (a partir de 39 euros) no Verão. No Inverno, optam pela marca Joseph Seibel ou outros pequenos produtores como Jomos. Mesmo se a esposa refila um pouco. São na verdade sapatos confortáveis, mas muitas vezes concebidos para pessoas com mais de 50 anos. Difícil de estar na moda e continuar a ser patriótico...


Ao nível da alimentação, o nosso casal teve que fazer bem as contas para se situar dentro do  seu orçamento. a carne alemã com grande desconto e a carne  bio local muito cara, é necessário saber combinar: no país de Aldi, há pouco espaço para o mercado de gama intermédia. Há é certo, Dr. Oetker, que produz as suas pizzas supercongeladas em Wittenburg, na Alemanha, mas isso não faz sonhar Gudrun.


Felizmente, para a casa, o casal Schmitt pode contar com a marca Miele, que lhes fornece aspirador, máquina de lavar e secar assim como os seus grandes aparelhos de cozinha. Apesar da forte concorrência, a marca resiste à deslocalização e ainda realiza a maioria de sua produção na Alemanha. Mas para o casal, a soma é incómoda: os aparelhos Miele custam o dobro da concorrência. "Mas os electrodomésticos Miele são concebidos para durar 20 anos, o investimento rentabiliza-se por si-mesmo ao longo do tempo," garante a marca, fundada em 1899.


Quanto a material electrónico, é difícil encontrar produtos destinados ao consumidor que sejam produtos "made in Germany". Para o registo as suas contas Gudrun utiliza dictafones de Grundig Business Systems, um ramo do grupo Grundig a fabricar ainda na Alemanha, em Bayreuth. Jürgen sonha ainda em comprar uma TV da marca Loewe, feita parcialmente em Kronach, na Baviera mas, a mais de 1 200 euros na entrada da gama baixa, terá que esperar um pouco.


Quanto a comprar carro, os Schmitt podem suspirar de alívio... Pelo menos é o que eles pensam. Porque o automóvel alemão é um complexo entrelaçado de peças fabricadas parcialmente no exterior. O famoso Porsche Cayenne, de que o motor é feito em Leipzig, é assim montado em grande parte em Bratislava, na Eslováquia! A fábrica também produz peças para a Volkswagen, cuja produção beneficia desde há muito tempo dos salários do leste europeu...


Cécile Boutelet




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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
A crise na Europa, a crise em Madrid, a crise de um sistema: olhares sobre Espanha

1. Porque é que a  Espanha inquieta  tanto a zona euro

 

 

Clément Lacombe e  Sandrine Morel (em Madrid)

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

 


 

Acalmado o psicodrama grego, a Itália tomada em mãos por Mario Monti, é agora a Espanha, que se tornou a preocupação número um da zona euro. Recessão, finanças públicas distorcidas, clima social hostil, o governo conservador de Mariano Rajoy atravessa uma situação difícil.


A prova aí está: hoje, ao contrário de há três meses atrás, Madrid pagou mais caro que  Roma para contrair empréstimos na sua ida aos  mercados. Apesar da pilha de dinheiro disponibilizada  pelo Banco Central Europeu (BCE) para acalmar a zona  euro, as taxas de juro para Espanha só desceram  muito ligeiramente enquanto  que as taxas de italianas, tiveram uma considerável descida.


Os decisores políticos europeus não escondem a sua muito grande preocupação. Tanto mais que o governo de Rajoy se prepara para enfrentar uma sequência delicada, com uma greve geral na quinta-feira, 29 de Março contra a austeridade e contra a reforma da legislação laboral e, em seguida, terá a apresentação do orçamento de 2012, na sexta-feira, dia 30 de Março.


Uma transparência na questão. A publicação do défice de 2011 muito mais elevado do que o esperado, após a chegada no final do mês de Dezembro ao poder de  Rajoy, resfriou os investidores. Inicialmente previsto a 6% do produto interno bruto (PIB), este agora calculado em 8,51%. A culpa, em grande parte, deve-se às contas das 17 comunidades autónomas.


Esta análise levou alguns especialistas a questionar as contas do país. Calculada em 68,5% do PIB no final de 2011, a dívida pública espanhola quase que duplicou desde 2007, mas continua a ser um dos valores mais baixos na zona euro. De acordo com o economista independente Edward Hugh, a viver em Barcelona, "a dívida é realmente superior, mas a questão é a de saber em quanto?  


Com base nos seus cálculos, o montante de facturas não pagas pelo Estado central, pelas regiões autónomas e pelos municípios - "que não são considerados como dívida até à sua liquidação" – aumentam a dívida pública em cerca de 7 pontos do PIB. Na zona  euro, esta situação  não é específica da  Espanha mas,  no entanto, avisa contudo Edward Hug, a esta acrescenta-se ainda a dívida das empresas públicas, que representa 5,2% do PIB de acordo com o Banco de Espanha, assim como se acrescentam também as obrigações detidas pelo  Fundo de pensões do Estado. Face a estes valores em dívida Rajoy indicou, a 9 de Março, que seria posta em funcionamento uma linha de crédito de 35 mil milhões de euros - o equivalente a 3, 3% do PIB  e que estaria à disposição das colectividades  locais para pagamento às  farmácias, aos fornecedores de energia eléctrica ou às empresas dos serviços de limpeza...

 

Trata-se de objectivos delicados. Em Bruxelas a situação é seguida com atenção: se a Espanha está a enfrentar o aumento da pressão dos mercados, ela só o deve apenas a si-própria e às suas reviravoltas nas suas previsões de défice para 2012, que colocam em questão a seriedade das suas posições, a sua credibilidade. Ainda mal o Pacto Europa estava aprovado e já Rajoy indicava, em 2 de Março, que procurava construir o seu orçamento com um défice de 5,8% do PIB, em vez dos esperados 4,4% para 2012. Depois de um braço de ferro com a Comissão, Madrid concordou em levar a previsão do  défice a 5,3% do PIB em 2012 e a 3% em 2013.


Após uma primeira componente de 15 mil milhões de reduções anunciada  no final de Dezembro,  Rajoy vai anunciar, na  sexta-feira novas medidas de rigor. De acordo com analistas de Crédit Suisse, alguns 2 mil milhões de euros de poupanças adicionais devem ser determinadas para alcançar o novo objectivo. E para alguns, como Thibault Mercier economista de BNP Paribas, será necessário bem mais do que a poupança de mais de 20 milhares de milhões para respeitar as previsões do défice, tendo em conta os efeitos recessivos da austeridade e das menores receitas  esperados.


A conjuntura faz com que qualquer projecção seja delicada. Na terça-feira, o Banco de Espanha oficializou a entrada do país em recessão, de que teria saído há já dois anos atrás: o PIB contraiu-se no primeiro trimestre depois de uma queda de 0,3% nos últimos três meses de 2011. Madrid também prevê uma recessão de 1,7% para todo o ano. "Como nós só prevemos o retorno do crescimento em 2014, acreditamos que o défice não descerá abaixo dos 3% do PIB  antes de  2014", observaram  os analistas do Bank of America Merrill Lynch.


As comunidades comunidades autónomas estão exangues. Entre 2007 e 2011, a dívida das dezassete comunidades autónomas foi multiplicada por 2.3 e é agora de 13,1% do PIB. "As receitas fiscais das regiões dependem fortemente dos impostos imobiliários." Estas receitas diminuíram, portanto, muito fortemente com o colapso do mercado, nota Danielle Schweisguth, Observatoire français  des Conjonctures Èconomiques (OFCE). Problema, estas receitas "em parte não perenes, têm geralmente por principais competências o campo da saúde, da educação, das transferências sociais, de competência do núcleo explica Jesus Castillo, economista no banco Natixis." "As despesas mantiveram-se estáveis ou até mesmo tiveram tendência a aumentar por causa do desemprego", que afecta 23 por cento da população activa, um recorde na zona do euro.

 

Está em curso uma reforma para limitar drasticamente os défices das comunidades autónomas. Há ainda a questão do apoio político ao nível local: se a maioria destas regiões é controlada pela direita, esta não conseguiu conquistar Andaluzia, a mais populosa delas, no domingo, 25 de Março.


O imobiliário e o sistema financeiro estão sob tensão. Em 2007, cerca de 750.000 casas foram começadas a construir em Espanha, um valor hoje dificilmente a atingir os 100 000... Os preços, eles, caíram cerca de 26%, de acordo com a agência especializada Tinsa, uma baixa ainda modesta em comparação com a queda de 50% verificada na Irlanda. "O ajustamento é feito principalmente sobre as quantidades, o número de começos de construção foi dividido por sete em quatro anos." "No entanto, calcula-se muitas vezes que cada construção gera dois a três empregos", observa. Castillo. E acrescenta: "Sabe-se que a economia espanhola não sairá para a retoma através da construção".


Além disso, a explosão da bolha enfraqueceu fortemente o sistema financeiro espanhol. Madrid claramente promoveu uma cascata de aproximações entre bancos e terá forçado essas instituições a tomarem mais provisões mas subsistem muitas incertezas. A taxa de créditos de cobrança duvidosa, principalmente de créditos imobiliários susceptíveis de não serem reembolsados, atingiu, assim, em Janeiro 7,91% do total das dívidas, ou seja, um montante de 140,03 mil milhões de euros, um recorde desde 1994...


Como resultado, os bancos preferem mais limpar as suas contas do que conceder novos empréstimos às famílias e às empresas. Daí o ter-se começado a diminuir a enorme dívida do país, de 226% do PIB em 2010 para 217% em 2011. Mas isto é também menos apoio ao investimento e ao consumo, alimentando ainda mais o espectro de um crescimento duravelmente fraco.


Clément Lacombe e  Sandrine Morel (em Madrid), Pourquoi l'Espagne inquiète tant la zone euro, Le Monde, 29 de Março de 2012.



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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
Globalização e Desindustrialização-4ª Série.

 

 

Capitulo III.  Alguns retratos mais sobre a globalização, sobre a desindustrialização 

 

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

 

1. Será que se pode na verdade consumir produtos que sejam 100 % francês?

 

Dominique Gallois et Cédric Pietralunga, Le Monde  26.03.2012

 

De regresso de Londres, Virginia e Philippe – o nosso casal fictício que passou a viver numa pequena vivenda fora de Paris – tinham estabelecido uma prioridade, neste ano de eleições: comprar apenas produtos franceses, fazer activismo económico. Um desejo muito em voga, enquanto a crise e o desemprego fazem ganhar consciência dos danos causados por uma desindustrialização que começou na década de 1980 e que não deixa de continuar a aumentar.


A França perdeu mais de um quarto dos seus empregos industriais desde 1991, de acordo com a empresa Roland Berger. De repente, o "made in France" está no centro dos debates das eleições presidenciais e será sem dúvida evocado no Salão da Indústria a realizar-se de  26 a 30 de Março no Parque de Exposições de Villepinte Paris.


Hoje, quase que dois em cada três franceses estão dispostos a pagar mais caro por produtos feitos em França, de acordo com o Centre de recherche pour l'étude et l'observation des conditions de vie (Crédoc),, contra menos de metade há cinco anos. Desde que o aumento não exceda 5%.


Mas para tal é ainda preciso saber identificar o que é "made in France"! Qualquer produto pode assim ser considerado se uma parte de seu processo de fabricação tiver sido realizada em França. "Hoje, o consumidor só pode andar a tactear." Não há nenhuma norma própria, com um caderno de encargos que seja claro, reconhece Edouard Barreiro, chefe de estudos em UFC – Que choisir. "Com exclusão dos vinhos AOC e dos queijos ninguém pode estar seguro de estar a comprar puramente francês."


Virginia deu-se conta desta realidade quando andou por diversas lojas de móveis. Em um sector em que dois terços dos equipamentos são importados, "os franceses estão na produção ou de produtos baixo de gama, com mobiliário proposto em kit pela grande distribuição, ou então estão no topo de gama", explica Christophe Gazel, director-geral do l'Institut de prospective et d'études de l'ameublement (IPEA).


No primeiro caso, o custo do trabalho é baixo, entre 4% e 10% do preço de fabricação dos painéis em aglomerado, é melhor produzir localmente, em vez de pagar custos significativos em termos de logística. No segundo caso, existe o saber-fazer francês... que não preço, é bem conhecido.


Os sofás Duvivier são assim fabricados em Poitou e os do grupo Roset (marcas Roset e Cinna) em Ain. Mas a concorrência também pode ser intensa na gama mais baixa. O francês Green Sofa Dunquerque foi agora colocado colocada sob administração judicial, depois da saída do seu principal cliente, a firma sueca Ikea.


 

Ver mais... )

 



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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
O MEE não é um mecanismo de solidariedade europeia. Le Monde.

Claude Debons, Jacques Généreux, Janette Habel, Jean-Marie Harribey, Pierre Khalfa, Marie-Christine Vergiat e Francis Wurtz

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

 

Num artigo publicado no Le Monde de 25 de Fevereiro  e como sendo um ponto de vista intitulado ("o mecanismo de europeu de estabilidade: o erro histórico da esquerda"), os deputados europeus ecologistas e os economistas que deles estão muito próximos criticam aqueles que, à sua esquerda, se opõem ao mecanismo europeu de estabilidade (MEE).


Passemos sobre a simplificação de retórica que consiste em comparar esta oposição à dos membros da direita sobre a lei Veil instaurando o direito ao direito ao aborto e vamos aos factos. O MEE seria "um primeiro passo rumo a uma Europa federal com o seu próprio Tesouro Público e, por conseguinte, com um consequente orçamento". Para além do facto que seria necessário discutir precisamente os fundamentos, os princípios de uma tal Europa federal, e então se  se tratasse de um "fundo de solidariedade", como eles o afirmam, opor-se ao MEE seria pois "um erro histórico". Infelizmente, como aquando do debate sobre o Tratado Constitucional Europeu (TCE), os nossos amigos tomam os seus desejos como sendo a realidade.


Um Tesouro público europeu teria como objectivo financiar as políticas públicas europeias. Nada disso é o que nos é apresentado com o MEE. O MEE não tem nenhuma vocação para conduzir as políticas públicas de investimento a nível europeu, o que, no entanto, seria muito útil, nem mesmo tem vocação para contribuir para a convergência das trajectórias económicas e sociais dos Estados-Membros. E sobretudo, longe de permitir à União Europeia União Europeia que se emancipe de todo o poder dos mercados financeiros, o MEE, antes pelo contrário, consagra a dominação dos mercados financeiros.


O MEE visa simplesmente financiar os Estados que tenham dificuldade de contrair empréstimos nos mercados financeiros. Como é que isso se passa? Em primeiro lugar, os Estados-Membros contrairão empréstimos nos mercados financeiros para constituir o capital próprio do MEE, várias centenas de milhares de milhões de euros. A Alemanha levantará fundos nestes mercados a uma taxa um pouco menos que  3%, a França a um pouco mais e os outros países a taxas muito mais altas. Como primeiro resultado, a dívida pública crescerá.


Mas é muito provável que estes fundos possam ser insuficientes no caso do aprofundamento da crise.


 

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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012
A infância de Nápoles ao trabalho, por Cécile Allegra.

Le Monde daté du 28 mars 2012 

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Jovens empregados de pequenas lojas, de cafés ou  empregados distribuidores de porta a porta, na capital da região da Campânia, milhares de crianças abandonaram a escola e trabalham  ilegalmente para poderem satisfazer  às suas necessidades básicas assim como as das suas famílias. E tudo isto perante uma indiferença quase geral.


São sete horas da manhã. Em San Lorenzo, no coração de Nápoles. Um miúdo parece vaguear no labirinto de ruas molhadas, com uma caixa de conservas nos braços. Vestido com roupa já desbotada, com um capuz na cabeça e com sapatilhas de ténis já rotas, o pequeno Gennaro começa o seu dia de trabalho. Ninguém fica surpreendido de o ver aparecer a uma hora ainda tão cedo para uma criança. Em Setembro de 2011, Gennaro foi contratado para trabalhar numa mercearia. Seis dias em cada sete, dez horas por dia, ele reabastece as prateleiras e as bancas, descarrega as caixas e vai fazer a entrega de compras ao bairro, porta a porta. Gennaro sonhava em se tornar um bom técnico  em computadores, mas é um marçano numa pequena mercearia, a profissão mais comum entre os filhos de trabalhadores de Nápoles. Eles trabalham ilegalmente, e por menos de 1 euro por hora e ganha, na melhor das hipóteses, 50 euros por semana. Gennaro acaba de fazer 14 anos de idade.


Nunca Paola Rescigno, a mãe de Gennaro, teria acreditado ter que o privar da escola alguma vez na vida, nunca na vida seria capaz de pensar tal coisa. Desde há vinte anos, ela vivia com o seu marido, nuns 35 metros quadrados nas traseiras de um prédio no bairro de San Lorenzo, a zona  mais obscura do centro da cidade. Depois, o pai morreu, levado por um cancro repentino e fulminante. Paola Rescigno agora vive de expedientes. Ela organizou um mini-empresa de trabalhos de limpeza e partilha o trabalho com os outros desempregados seus vizinhos. Ela ganha 45 cêntimos do euro por hora, 35 euros por semana, menos do que o salário do seu filho.


É ela que, todas as manhãs, pelo amanhecer, acorda Gennaro para que este chegue a horas à mercearia. A sua filha mais nova, tem 6 anos e, então ela teve que escolher:  "Eu não tenho meios para pagar os livros aos dois." Seria a um ou ao outro. "Na mesa da cozinha," um pão de oito dias", uma bola de 3 kg, um pão de centeio, que se conserva durante muito tempo e custa apenas 5 euros." O produto de referência dos anos de fome do pós-guerra italiano.


Em Nápoles, milhares de crianças como Gennaro são assim levadas a trabalhar. São cerca de 54 000 em toda a Campânia, a região de Nápoles, a terem abandonado o sistema escolar entre 2005 e 2009, de acordo com um relatório alarmante publicado em Outubro de 2011 pela Câmara Municipal; 38% deles têm menos de 13 anos de idade. Empregados de pequenas lojas, empregados de café, distribuidores de lojas no porta-a-porta, aprendizes de cabeleireiro, pequenas mãos a trabalharem as peles nas unidades artesanais e nas unidades que trabalham para as grandes marcas, " homens de todo o serviço " para os mercados, eles são visíveis por toda a parte, a trabalharem em plena luz do dia, na indiferença quase geral.


"Claro, nós sempre fomos a região mais pobre da Itália." Mas isto, isto é um nunca visto desde o final da Segunda Guerra Mundial ", disse Sergio D'Angelo, vice-prefeito de Nápoles". Apenas com 10 Anos, essas crianças já estão a trabalhar doze horas por dia, uma verdadeira negação do seu direito a crescerem. "Os pais vivem na ilegalidade e serviços sociais podem em qualquer momento colocar os seus filhos numa família de acolhimento, num orfanato."


 

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Segunda-feira, 26 de Março de 2012
Aos leitores de A viagem dos argonautas, sobre um suicídio, sobre requalificações de responsabilidades

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

 

Numa empresa pública os suicídios sucedem-se, a lembrar os tempos terríveis de France Telecom, mas agora nos Correios em França. A mesma lógica implacável, as restruturações, o mesmo desprezo parece pela condição humana, a mesma importância à redução dos custos em que cada funcionário parece ser sobretudo um ser descartável.


Talvez este acidente venha a ser requalificado como acidente de trabalho e uma indemnização seja imposta à empresa. Tudo isto se passa bem perto daqui. Tudo isto se passa afinal bem perto de um outro sítio, agora Portugal, onde há vítimas da política de austeridade imposta pela Comissão Europeia, pela Tróica, com os seus altos funcionários todos eles bem pagos, a exigirem uma pauperização extrema a quem já não tem para sobreviver, onde há vítimas a cair mortas por resultado de uma crise e de uma política de que não são responsáveis. Não será que o Governo actual de Passos Coelho e a União Europeia não possam ser levadas a Tribunal da Ética e da Responsabilidade perante estas mortes da precariedade e condenadas a fortes indemnizações morais? Não será que possa ser levantada uma acção colectiva em tribunal contra estas situações bárbaras a que um povo está a ser condenado. A requalificação das causas das mortes pela precariedade impõe-se, um julgamento moral, exige-se, a destituição de todos estes líderes ao serviço dos mais direitos a adquirir pelos grandes capitais, é então um imperativo. E as masmorras do respeito que sejam então impostas a todos aqueles que pela condição humana não têm nenhum respeito.   


Um texto sobre um suicídio, um texto sobre imputação de responsabilidades é o que aqui vos deixo.

 

Júlio Marques Mota 

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O suicídio do quadro dos correios poderá ser requalificado de acidente de trabalho

 

 

Anne Michel

 

Esta pretensão emana da Direcção dos Correios Oeste Bretanha  e dos sindicatos.


A direcção dos  correios da zona da Bretanha  informou que iria solicitar , quarta-feira, 14 de Março, que se reconhecesse o suicídio Bruno P, domingo, 11 de Março em Trégunc (Finisterra), como um acidente de trabalho.


Uma reunião do Comité de saúde ocupacional, segurança e condições de trabalho reuniu-se em Vannes (Morbihan), para tentar esclarecer as razões para o gesto deste quadro de 43 anos, o terceiro no prazo de seis meses nesta  empresa pública.


Enquanto que as investigações e as peritagens continuam em curso , este pedido de requalificação como acidente de trabalho é apoiado  por todos os sindicatos dos trabalhadores dos correios. Eles votaram-no por unanimidade quarta-feira.


Todos estão convencidos de que esses dramas têm como base  a  organização de trabalho esgotante para estes  trabalhadores dos correios e o seu próprio enquadramento, postos sucessivamente  em dificuldade pelas reestruturações  permanentes  do operador postal desde há quinze anos  e que  se  aceleraram  nos últimos dois anos.


Quinta-feira, 15 de Março, devia também ser  um dia de greve nacional contra as reorganizações na rede dos correios. O apelo foi lançado pelos sindicatos (CGT, Sul, FO e CFDT) antes do suicídio da Bretanha.

 

O pedido de reconhecimento de suicídio de acidente de trabalho deve ser examinado   pela Comissão de reforma, comissão próxima da direcção dos Correios, a instância  de decisão para os funcionários. Na expectativa,  a direcção oeste-Bretanha  dos Correios  também decidiu congelar as reorganizações  em curso, até às  conclusões das investigações.


Os sindicatos difundiram , quarta-feira, folhetos escritos pela  mão de Bruno P., mostrando que ele tinha preparado o seu acto e assumia a  empresa como  responsável pelo seu mal-estar  e pela  sua "perda de pontos de referência”...


Entre estes documentos, deixados  antes de sua morte por ele mesmo no seu domicílio  e destinados ao cuidado dos  sindicatos, há  um e-mail datado de 11 de Março, destinado ao Presidente da Direcção dos Correios, Jean-Paul Bailly, que nunca foi enviado.


Nesta mensagem, intitulada "SOS", o  jovem  quadro, que se sentia  sob a pressão dos seus superiores desde há três anos e considerava  "a hierarquia dos Correios  (a todos os níveis) como estando na origem da [sua] perda de pontos de referência", dizia  que se sentia encostado contra a parede . Ele considera  ter preparado o seu acto último  e pede  assistência ao seu director.

 

« Acreditem-me ou não... »

 

"Hoje, encontro-me de novo a dirigir-me a si  pela terceira vez em menos de seis meses e sinceramente, eu estava convencido de que nunca mais  precisaria de o procurar, escreve Bruno P.  " Faço-o, no entanto, mais uma vez... e esta será a última (...) À luz dos acontecimentos mais recentes, considero que  a minha carreira na estação dos Correios terminou. Por razões que me escapam, a minha  hierarquia quer livrar-se de mim (...) Acreditem-me ou não,  mas isto faz  duas vezes em menos de seis meses que eu preparo o  meu suicídio (...) Talvez com o apoio dos  Sindicatos a  minha família poderá beneficiar de  uma pensão após a requalificação do meu acto  em  acidente de trabalho (...) Mas eu também tenho necessidade de  ver crescer os meus filhos (...) Então, espero a sua proposta até  quarta-feira, Março 14-17 horas. »

 

P. Bruno acabou com os  seus dias depois de escrever esta carta, este email,  nunca enviada . De acordo com fontes próximas da  investigação, este quadro  dos Correios  temia ver  escapar-lhe a  posição de chefe de recursos humanos em  Rosporden. Trata-se de um cargo que devia ocupar a 25 de Março e este cargo  tinha-lhe  sido prometido após diferendos  com os seus superiores mais próximos e depois de uma primeira arbitragem de M.  Bailly.


A sua convocação a 26 de Março, perante uma Comissão médica, encarregada de  avaliar a capacidade dos agentes da função pública para o  trabalho, teria aumentado as dúvidas de Bruno P , enquanto ele estava com atestado de doença desde há três meses, à espera da sua nova atribuição.

 

Anne Michel, Poste pourrait être requalifié en accident du travail, Le Monde, 16 de Março de 2012



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Segunda-feira, 12 de Março de 2012
Apple, uma arrogância que exaspera. Por Sarah Belouezzane e Cécile Ducourtieux.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

 

 

 

Nota de leitura

 

Organizámos no dia 7 de Março um conjunto de textos  sobre a Apple sobre a Globalização.


Tratou-se de uma leitura sobre a globalização, sobre o lançamento de mais um produto Apple,   tratou-se de efectuar uma longa reflexão sobre a Apple não  a partir do  que nos mostra cada um dos seus aparelhos vistos de frente, extremamente elegantes, mas sim pelo  que nos   indiciam  quando os  olharmos pelo que nos dizem nas costas: “concebido na Califórnia, produzido na China”. A sobrecarga de textos  lançados  no dia 7 de Março  não  nos  permitiu que a peça fosse encerrada com o texto fundamental do New York Times, de Charles Duhigg and David Barboza e intitulado  Na China, Os Custos Humanos estão dentro de cada um dos  iPad fabricados “ pelo que voltamos ao tema com este texto   de alta qualidade que recomendamos a todos aqueles que se interessam pelas questões da globalização.


E como não podia deixar de ser, passado o dia 7, um pequeno texto de síntese feito por jornalistas do Le Monde, como texto de entrada.

 

Júlio Marques Mota 

 

 

Apple, uma arrogância que exaspera

 

 

Sarah Belouezzane e  Cécile Ducourtieux

  

Raramente uma empresa terá suscitado tanta admiração e tanta raiva entre os seus concorrentes. Para a maioria dos industriais das altas tecnologias, a Apple é um modelo imperativamente a seguir. De facto, os seus números fazem-nos andar as voltas, meio tontos: uma capitalização bolsista de um valor estratosférico (cerca de 500 mil milhões, ou seja, 380,9 mil milhões de euros), a primeira empresa  mundial, a par da Exxon Mobil, um volume de vendas astronómico (108 mil milhões em 2011), uma rendibilidade alucinante (quase 26 mil milhões de dólares). Os seus produtos estão entre os mais desejados pelos consumidores em todo o mundo. Estes agradam a toda gente, desde os adolescentes aos muito mais velhos, passando pelos quadros e pelos reformados … O iPad 3, a sua nova tablete digital, apresentada na quarta-feira, 7 de Março, deveria ter de novo feito disparar a histeria.

 

 

Co-fundada por Steve Jobs em 1976, o grupo americano esteve à beira da falência na década de 90, mas conseguiu tornar-se uma das empresas mais poderosas do mundo, dando início a um círculo virtuoso de que todos os concorrentes gostariam de um dia ter a chave. Produtos inovadores, uma qualidade perfeita, um design sem concessões, a adequação - o que é raro - entre uma promessa de marketing e a experiência dos utilizadores (máquinas simples para pessoas criativas)...


Mas a Apple exaspera e ao mais elevado nível: a sociedade não deixa para os outros, os seus concorrentes, nada a não ser as migalhas. O iPad representa 62% do mercado das tabletes informáticas. Mesmo em declínio, o seu iPod está no topo das vendas de aparelhos de música digitais, quase um em cada quatro smartphones vendidos do mundo é um iPhone...


A concorrência continua a ficar muito para trás. Mesmo quando ela tenta, por vezes, aparelhos menos dispendiosos com processadores mais rápidos, câmaras fotográficas de melhor resolução, ecrãs mais brilhantes, mais sólidos. Os consumidores nem lhe dão uma adequada atenção, excepto por uma franja de "neros" (fans de informática) principalmente porque motivados pelo desempenho técnico.

 

Na imprensa, as suas máquinas são principalmente citadas por aquilo que fazem a mais ou a menos relativamente aos produtos Apple. Somente o coreano Samsung vai-se livrando de dificuldades, com o seu telefone Galaxy SII, de que foi vendido cerca de 20 milhões de exemplares desde o seu lançamento em Abril de 2011.

 

A arrogância da Apple também não é bem suportada pelos operadores de telecomunicações. Também aqui a Apple exige que estes distribuam os seus produtos sem discutir, fixa ela própria o seu preço final, pede aos seus parceiros que  financiem as suas campanhas de publicidade que são elas mesmas  criadas pela própria Apple. Por outro lado faz com eles na verdade uma descarada concorrência distribuindo no lugar deles serviços sobre os seus iPhone e sobre os seus iPad - música on-line, vídeo, etc.

 

Quanto aos editores de conteúdo, se eles querem ter o privilégio de estarem nas lojas de aplicações da Apple, devem dar-lhe 30% das receitas geradas por esta rede de distribuição e o seu conteúdo pode mesmo ser censurado!

 

Pior ainda: a Apple continua a suscitar um elevado número de artigos da imprensa altamente laudativos, apesar da falta de respeito que a Apple tem demonstrado pelos jornalistas. Nestes artigos altamente elogiosos até se esquecem dos seus erros: o lançamento falhado da sua estação de publicidade iAd, as primeiras antenas defeituosas do iPhone 4, a bateria de fraca qualidade do iPhone 4-S, sem falar sequer do conceito vago de Apple TV.

 

Claro, a Apple tem destruído valor: por causa da Apple, uma música digitalizada custa apenas 99 cêntimos. Mas os seus concorrentes são, mesmo assim, de muita má-fé. Afinal de contas, a Apple tem feito arrancar mercados que vegetavam. No domínio da música: com os seus aparelhos IPod e a sua plataforma iTunes    foi a primeira a  colocar na moda a  compra  de   títulos na  Web, contribuindo  assim  para a luta contra o download ilegal. Sem a Apple, sites como o Deezer ou Spotify poderiam eles alguma vez existirem?

 

A Internet móvel? Antes do iPhone, lançado em 2007, toda gente falava mas quase ninguém falava e surfava através do seu telefone. Embora tenha havido houvesse tentativas: a Nokia tinha produzido vários aparelhos interconectáveis  mas eram de utilização muito complicada. A LG também tinha tentado com um ecrã táctil móvel, o "Chocolate".  No início dos anos  2000, só  havia a RIM, com os seus  BlackBerry, que propunha  um serviço de mensagens  electrónicas  pertinente.

 

 

 

  

Em quatro anos, a Internet móvel tornou-se um mercado de massa. Venderam-se  mais smartphones do que computadores em 2011. As redes móveis 3G dos operadores ficam saturadas  enquanto em meados da década de 2000 tinham-se investido milhares de milhões  em  infra-estruturas permitindo que os telefones acedessem à  Web e agora andavam desesperados para os rentabilizarem. Graças, em grande parte aos produtos da Apple, famintos  em débitos,  não deverão ter   muito difícil  ocuparem as  suas redes da próxima geração, os aparelhos  4G.

 

Quanto às  tabletes, no sector informático,  ninguém acreditava  no seu potencial. Eram gadgets para crianças ou  tabletes pouco atraentes destinadas aos  profissionais de distribuição  ou então  da  logística. Desde a chegada do iPad, na Primavera de 2010, criou-se um mercado de que já ninguém duvida: deste tipo de aparelho venderam-se cerca de  65 milhões de tabletes em todo o mundo em 2011, valor este visto como a soma de todas as marcas presentes no mercado. .

 

 Sarah Belouezzane e  Cécile Ducourtieux , Apple, une arrogance qui exaspère, Le Monde, 8 de Março de 2012.

 



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Quinta-feira, 8 de Março de 2012
Globalização e Desindustrialização-4ª Série

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Capitulo I. Retratos da Desindustrialização

 

1.1X  A última refeição em família das “raparigas” de Lejaby

 

Antonin Sabot.


YSSINGEAUX, enviado especial


Não haverá nenhum discurso longo nem nenhum derramamento de sangue, apenas algumas despedidas com aplausos para aqueles que não se amontoar nas instalações do comprador da fábrica Lejaby, Les Ateliers de Meygal. Na terça-feira, 28 de Fevereiro, as "raparigas" de Lejaby em Yssingeaux (Haute-Loire) reuniram-se para a sua última Assembleia geral enquanto que empregadas do fabricante de roupa interior Lejaby e para uma última "refeição em família". Depois de muitas passagens nas notícias dos jornais e dos telejornais, depois da visita de políticos, o site foi salvo. Oficialmente despedidos em 28 de Fevereiro, a maioria deles irá começar com uma formação num subcontratante da LVMH, a partir de quinta-feira 1 de Março, depois de um dia simbólico do desemprego.


"Uma vitória", sem margem para dúvidas, na opinião de Raymond Vacheron, do departamento da CGT. E também uma história de salvação como só nas campanhas presidenciais se podem oferecer. Mas as trabalhadores, elas não sabem ainda se se devem regozijar imediatamente por manterem um emprego ou preocuparem-se sobre as condições em que isso vai acontecer. "Bem, tudo isto vai muito rápido, não há sequer tempo para entender o que nos está a acontecer," diz-nos Chantal, de 48  anos "e 32 anos de fábrica", ao ouvir o seu delegado sindical evocar os pontos que levantam problemas nos contratos de trabalho que elas tenham recebido.


Quando evocam os meses de luta que as juntou e uniu e que agrupou muita gente à sua volta, todas elas têm os olhos a brilhar Mas elas receberam uma a uma por o seu novo patrão, mas nenhuma sabe realmente qual será o seu futuro trabalho ou quando é que na verdade vão começar. A fábrica, ainda vazia quando devem aí voltar na  quinta-feira, está fechada. Tudo o que elas sabem é que eles começarão por uma formação de cinco a nove meses, talvez "para costurar forros de sacos ou alças", imaginam algumas delas e  sem nenhuma certeza.

 

Enquanto isso, Vincent Rabérin - o comprador diz-se confiante do futuro do local – assegura ter um plano de trabalho e, portanto, assegura ter trabalho para as trabalhadoras, pelo menos durante três anos. Dois milhões de euros de ajuda foram-lhe oferecidos para a re-industrialização do site e fundos paritários vão pagar a formação das trabalhadoras.

 

Regresso ao relógio de ponto

 

À mesa, as discussões em curso sobre a famosa data de 1 de Março. "Quinta-feira fazemos o quê?" "Vamos trabalhar ou fazer o quê?" Depois da intensidade da luta, regressar à banalidade do relógio de ponto parece meter medo e a euforia do anúncio da retoma de actividade deu lugar a uma ligeira dúvida. Algumas das "raparigas" não sabem ainda sequer se desejam na verdade retomar a actividade ou não. Entre elas, há aquelas para quem o despedimento aparece como uma oportunidade para recomeçar "numa outra coisa". Mas na região, os empregos acessíveis às mulheres continuam a ser pouco numerosos. Uma delas brinda mesmo à saúde "daqueles que nos querem foder ".


Dany, que aqui começou com a idade de 17 anos, na Lejaby, questionou-se: "porque é que os políticas nos salvaram, a nós, e não aos outros?" Não será que deveria haver eleições todos os anos? "Como assim, toda a gente iria trabalhar."


Antonin Sabot, Le dernier repas de famille des "filles" de Lejaby, Le Monde, 29 de Fevereiro de 2012. 



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Quarta-feira, 7 de Março de 2012
O próximo Steve Jobs será ele chinês? Sylvie Kauffmann, Le Monde.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota


No mesmo dia em que o mundo perdeu Steve Jobs, em 5 de Outubro, o ministro indiano para o desenvolvimento dos recursos humanos, Kapil Sibal, apresentou triunfalmente em Nova Deli a última invenção local: Aakash, um Tablet PC a custar  30 euros. Depois do Tata Nano, o carro a  2.500 dólares (2000 euros), os indianos lançaram o iPad dos pobres. Uma bela maneira de homenagear o génio do criador da Apple, mesmo se Steve Jobs, o perfeccionista, teria provavelmente encontrado muito a criticar no design e no software deste produto indiano.


Saído dos cérebros do Instituto Indiano de tecnologia do Rajastão e desenvolvido pela empresa britânica DataWind, a tablete Aakash deve ser distribuída a um meio milhar de estudantes para começar e, então, se a experiência se mostrar bem sucedida, a tablete será comercializada para interligar dezenas de milhões de rurais, crianças e adultos, aos recursos do mundo moderno. A tecnologia indiana continua, no seu próprio caminho, o sonho de Nicholas Negroponte, o norte-americano que fundou o laboratório dos media do MIT (Massachusetts Institute of Technology), e este sonho era o de fornecer um portátil a cada criança no mundo.


Aakash atingirá, ao nível dos países emergentes, o sucesso fenomenal do iPad? Os especialistas ocidentais duvidam, com ou sem razão. Mas, o essencial, é que a aventura continue. A partir dos Estados Unidos, a revolução digital propagou-se por todo o mundo e, hoje, as potências emergentes querem-se transformar por suas vez em centros de investigação. "Não haverá outro Steve Jobs, comentava tristemente, depois do anúncio de sua morte, Fred Anderson, que foi ao seu lado o director financeiro da Apple. Pode-se também colocar a questão de uma outra maneira o próximo Steve Jobs será ele ainda americano?


Vários factores justificam que no país do Silicon Valley e da estrada 128e, o centro Tecnológico perto de Boston, esta pergunta não seja completamente patética. Uma atmosfera ambiente, em primeiro lugar, feito de cortes orçamentais e de ameaça de recessão, sobre os quais paira um constante perfume a cheirar a declínio. Os intelectuais têm medo, admitindo alguns um bloqueio na inovação no futuro, admitindo outros até mesmo "o fim do futuro. "


A falta de idealismo, talvez também o desaparecimento do desejo de viver a inquietação : qual seria o jovem norte-americano que teria coragem hoje, assim como a teve Steve Jobs, de abandonar ao fim de seis meses um lugar duramente adquirido numa boa Universidade, para ir fazer bricolage na garagem dos seus pais? Por fim, e acima de tudo, a ascensão dos países que mostram a sua vontade de produzir, por sua vez, a matéria cinzenta de qualidade mundial. A China, em particular, já não se satisfaz em ser a fábrica do mundo quer ser agora também o laboratório do mundo. E, no momento em que a crise da dívida reduziu os orçamentos dos Estados ocidentais, os chineses, eles, fazer regressar os seus cientistas formados nos melhores centros científicos americanos e investem fortemente na investigação. Em suma, o Império do Meio que já deu à Humanidade a bússola, a pólvora e a tipografia ameaça a supremacia intelectual e tecnológica ocidental.


Isto é para a "narrativa" sempre muito estimada pelas mentes simples, que gostam de ver o mundo em preto e branco. A realidade é um pouco mais matizada.


Um pequeno exemplo: três prémios Nobel em ciência (física, química e medicina) foram premiados nesta semana a sete premiados. Todos os sete são ocidentais. A China bem sonha, mas ainda não há nenhum prémio de Nobel, excepto aqueles atribuídos a emigrantes chineses no Ocidente.


A última publicação do painel de controlo que regularmente publica a OCDE sobre a indústria, a ciência e a tecnologia mostra que os Estados Unidos mantêm um amplo avanço no campo da inovação e da ciência, em termos de investimento, de tamanho e de objectivos. Em 2009, eles gastaram cerca de 400 mil milhões em investigação, ou seja cerca de 2,7% do PIB, muito à frente da China, que certamente chegou na segunda posição (se exceptuamos a União Europeia), mas com 154 mil milhões e 1,7% do PIB. Se olharmos para o ranking das universidades, publicados em revistas académicas e se olharmos ao número de patentes, os países ocidentais mantêm também uma vantagem confortável. Mas isto não os deve cegar: um estudo da Thomson Reuters prevê que em 2011 a China ultrapassará os Estados Unidos e o Japão no número de patentes apresentadas . Em algumas áreas, como a genética e a pesquisa farmacêutica, os chineses estão já muito avançados. Nenhum horizonte os irá fazer parar : eles já se aventuram no espaço e acabam de instalar uma base de exploração no Polo Sul.


Até agora, a China não foi capaz de reproduzir a receita do sucesso prodigioso de Silicon Valley - a coincidência, no mesmo local da matéria cinzenta, do capital e indústria – nem a riqueza que constitui, neste país, o tecido dos centros de inovação mais pequenos, geograficamente dispersos, de costa a costa nos Estados Unidos. Acima de tudo, a inovação também é uma cultura, uma filosofia. Ela mostra a sua verdadeira extensão a não  ser num clima de livre concorrência, de livre circulação de ideias, de livre confronto de ideias, de pontos de vista. E este não é o clima prevalecente hoje na China, e isto é sem dúvida a razão que nos leva a dizer que o próximo Steve Jobs não será chinês.


No país que produz o maior número de produtos Apple, alguns disseram-no alto e bom som, aquando da morte de Steve Jobs. "Quando é iremos ter o nosso próprio Steve Jobs?, perguntou o diário progressista chines, Nanfang Dushibao. É certo que, naturalmente, a China não tem uma tradição de criatividade, mas esta tradição não se herda, cria-se. "Se a China pode construir um ambiente político e cultural mais livre e mais aberto, ela terá um dia o seu grande criador." Um universitário de Hunan, Jiang Zongfu, lamentou no seu blog que a China teve Mão Tsé Tung mas não teve Steve Jobs. O nosso sistema educativo não teria gostado, não saberia apreciar um Steve Jobs. Se Steve Jobs tivesse nascido na China, ele teria trabalhado na linha de produção da FoxConn, ou ter-se-ia tornando num vadio das ruas ." No seu famoso discurso na Universidade de Stanford, em 2005, Steve Jobs tinha espicaçado os seus estudantes com a seguinte posição dirigida aos alunos: "Fiquem com fome, fiquem loucos, Stay hungry, stay foolish" . Com fome, os chineses já estão. Falta-lhes apenas a loucura.



publicado por João Machado às 22:00
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Será que, na verdade, Steve Jobs cria «empregos»? Carta de Wall Street, Le Monde. Por Sylvain Cypel.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota


Sim, ele era um "génio". "Um profeta laico", foi o título do suplemento de domingo do Wall Street Journal. Steve Jobs tinha "transformado a maçã de Eva, símbolo de uma humanidade pecadora num ícone para os verdadeiros crentes na tecnologia". Em Nova Iorque as montras do centro estão cobertas de Post-it com as palavras de amor; em frente, nos passeios, estão muitas velas acesas no formato de maças com uma dentada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Será que se pode decentemente depreciar o trabalho de um homem tão deificado quase sem correr o risco de desencadear a ira dos seus "crentes"? Mas contudo por muito excepcional que fosse a sua capacidade para "captar" esta alquimia complexa e em movimento que é a ligação entre inovação tecnológica e as expectativas dos consumidores e propor em seguida os "produtos" adequados, Steve Jobs simbolizava também um caminho para a economia americana quanto a postos de postos de trabalho que, de agora em diante, está em franco debate.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O jogo de palavras é fácil, mas Steve Jobs assumia ele bem o seu próprio nome? Em vinte anos, o fundador-fénix da Apple (despedido e depois reaparecido para salvar a empresa) fez de uma “maçã” à deriva a segunda capitalização bolsista à escala mundial, tão grande como a IBM e a Microsoft juntas.

 

 

Ao mesmo tempo, a empresa tornou-se o exemplo do que é cada vez mais sentido além- Atlântico como o fundamento de todos os males : a América já não produz mais! A parte dos bens que produz em relação àqueles que consome desceu dois terços desde os anos cinquenta. E o problema não é apenas válido para a roupa interior, para os sapatos, mobiliário para casa ou dos pequenos electrodomésticos. Esta evolução também atinge o coração do seu poder: a alta tecnologia. Apple é a encarnação desta realidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia 15 De Dezembro de 2010, o mesmo Wall Street Journal publicou um artigo intitulado "Made in China, na verdade?". O seu autor, Andrew Batson, explicava qual a parte de cada um país dos vários países na fabricação de um iPhone, até a inovação, se assim se pode falar. Com base em um estudo do l'Asian Development Bank Institute o autor mostrava que, neste produto emblemático as fábricas chinesas que trabalhavam para a Apple, apenas montavam as suas peças, e esta montagem representava apenas 3,6% do custo de fabrico. Conclui-se que a inclusão das iniciais "Made in " era enganosa (o Director-geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, tinha já observado que o critério "Made in " para avaliar as trocas comerciais se tornou "obsoleto").

 

Mas o interesse do estudo situa-se também noutros lugares. Se nos basearmos no valor dos componentes e no trabalho investido para produzir um iPhone, mostrava-se nesse estudo, o Japão está a contribuir com 34%, a Alemanha com 17%, a Coreia com cerca de 13%, o "resto do mundo," (uma dúzia de outros países) com 36%, incluindo os quais os Estados Unidos (incluindo a Apple) e apenas ... 6%, mais que seria a contribuição chinesa.

 

Na realidade, a parte da Apple resume-se à concepção e marketing, as duas funções nos extremos da cadeia de produção global e que são hoje, as mais lucrativas, mas que geram menos empregos "americanos" (e, para a distribuição, se bem que aqui são empregos muito precários). Em suma, mesmo na inovação tão querida a Barack Obama para relançar o emprego, a máquina americana já deixou de produzir. .

 

Tyler Cowen, professor de economia na Universidade George Mason (Virgínia), no início do ano propôs uma teoria mas iconoclasta num livro curto mas denso (100 páginas), difundido apenas pela Internet por $ 3.99 (2.99 EUR) e intitulado A grande Estagnação. O seu subtítulo fala dos receios de um declínio económico que inquieta ao país e que o sucesso da Apple não contrariou: como é que a América esgotou todos os frutos maduros da história moderna, ficou doente e conseguirá levantar-se . O livro provocou debates e polémicas. E o crítico da revista The Economist tem reflectido o sentimento mais difundido : "não estou de acordo com tudo o que aí está escrito, mas..." Mas o livro merece reflexão. Uma das ideias principais do livro é que não só os Estados Unidos, ao tornarem-se uma sociedade de serviços, comeram o que tinham de melhor do seu tecido produtivo com o desaparecimento das grandes indústrias em que assentava o seu poder desde 1870 a 1970, mas como o que fundamenta o seu actual poder – é a sua liderança tecnológica, a sua capacidade de inovação - está agora também ele em crise.

 

O seu elemento motor, o crescimento exponencial do sector comunicação-redes de ligação, destruiu muitos mais empregos do que aqueles que criou entre aqueles que promovem este sector. Nunca tanta gente esteve tão informada, nunca tanta gente ouviu tanta música, se bem que mesmo assim nunca os produtores de informações e de música estiveram empresarialmente tão perdidos como agora. De acordo com Tyler Cowen, essa revolução é "um mito". Inegavelmente ela melhora a existência, mas não revolucionou mesmo nada. " A electricidade, os esgotos, o automóvel, a rádio, a máquina de escrever" geraram uma educação de massas e inúmeros empregos directos e indirectos, nas nações que foram os iniciadores destes últimos progressos...

 

"Tome-se como exemplo o iPod omnipresente, diz-nos este autor, ele terá criado menos de 14 000 postos de trabalho nos Estados Unidos." "Google terá criado cerca de 20 000 postos de trabalho, Twitter, não mais de 300". E os "postos de trabalho" americanos do iPod são principalmente na distribuição. Uma maneira de dizer: uma piada, quando comparados com o impacto social que gerou a Ford Bell, General Electric ou até mesmo as grandes vacinas e os antibióticos. Em suma, a falsa "revolução" do virtual e do digital também seria ela uma fonte muito virtual de criação de emprego.

 

Numa América hoje ávida para reencontrar o caminho dos "bons empregos", não é ultrajante que é dessa economia, a economia da não criação de empregos, que Steve Jobs foi também  um génio.

 

Sylvain Cypel



publicado por João Machado às 20:00
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