Terça-feira, 10 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 76. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China: um olhar anacrónico

 

 

        É o ziguezague deste muro através das dez folhas que estrutura o jardim numa sucessão de pátios, multiplicando as possibilidades de circulação e fechamento, consoante o estatuto de cada um, através de portas com telheiro simples ou duplo. A entrada na propriedade dá acesso a um local onde circulam homens e cavalos, a segunda e terceira portas, com duplo telheiro, conduzem ao adro do Senhor e, a quarta, com telheiro simples, ao espaço feminino, controlado pela Primeira Esposa. A seguir não há um quarto pátio mas um lago, à volta do qual se dispõem edifícios, terraços e uma ponte. Mas não vemos tudo... O pintor mostra apenas os pontos de articulação na hierarquia do poder e o enquadramento da imagem deixa assim de fora uma diversidade de outros pátios e edifícios, sugerindo todavia uma propriedade muito vasta. Por exemplo, entre o pátio da Primeira Esposa e o espetador, há o duplo telheiro da porta, uma árvore e um rochedo: fica a imagem de um prolongamento. Também no extremo esquerdo da propriedade vemos um terraço e, aquém dele, uma porta circular que abre para este lado.


        O muro não serve apenas de proteção (do mundo exterior) e de contenção (do mundo feminino), concilia a robustez com o luxo, metamorfoseando-se em elemento decorativo através da base de pedra cor-de-rosa e da parede pintada com duas cores principais, para além de outras nos pormenores: a moldura rosada e a parte central azul, por exemplo. No prolongamento dos telheiros por cima das portas, este muro é rematado com duas águas de telhas azuis vidradas as quais, para além do incontestável efeito estético, contribuem para dificultar a escalada...


        Das portas, janelas, colunas, paredes, corrimãos até aos telhados, toda a superfície visível dos edifícios, pátios e beira do lago é profusamente pintada, colorida, esculpida; os objetos porém são raros. No pátio de entrada há uma bandeira, pedras, arbustos e a escultura de um leão. Ao lado do Senhor aparecem, em cima de uma mesa de laca, uma caixa dourada e uma jarra com flores. Por detrás de um miúdo, no interior de um edifício, vemos um banco de laca. Mais adiante surgem dois vasos com pedras e plantas. Uma criada traz uma taça, outras transportam oferendas. Duas grandes pinturas murais servem de cenário aos donos da casa, o fragmento de uma terceira aparece no interior de um edifício, junto dos rapazes que brincam com o caranguejo. Tudo isto compõe um espaço refinado e luxuoso.


      A elipse e a sinédoque são figuras recorrentes na arte chinesa. O enquadramento do pintor não privilegia a representação das plantas, vemos contudo quatro grandes árvores, entre as quais um elegante pinheiro, diversos conjuntos de flores ou arbustos com pedras esculturais, sugerindo outros, tal como o complemento que são os insetos e os pássaros. No lago flutuam folhas de lótus, nadam patos visíveis e invisíveis peixes; carpas, talvez.


        O conceito de jardim varia consoante as épocas e as culturas. Habituados à profusão ocidental no nosso tempo, parecer-nos-á que faltam aqui flores; o jardim chinês desta época não assentava na quantidade mas em cores, valores e funções codificados.


        O mais singular nesta propriedade é uma arquitetura paradoxal que permite o fechamento das mulheres num espaço aberto ao ar, ao luar e ao canto dos rouxinóis; e, tal como os pássaros que poisam nas mãos dos rapazes, elas foram educadas para não fugirem deste jardim dourado. Mesmo lembrando que no século XVII as mulheres na Europa não beneficiavam de estatutos invejáveis, a visão de tantas portas e muralhas não deixa de produzir algum mal-estar no espetador. Somos ocidentais, somos europeus, somos do século XXI. O artista – anónimo – desta crónica de uma família ideal num espaço perfeito decorou um objecto de mobiliário exprimindo a ideologia da sociedade chinesa da época, à qual não nos sentimos na obrigação de aderir, não obstante a virtuosidade técnica a isso nos convidar...



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 75. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China: as mulheres

 

 

      Diante do Senhor, embora no exterior do edifício e num tapete poisado no chão, dançam duas bailarinas ao som da música tocada por três mulheres. Estas artistas remuneradas, exteriores à vida familiar, servem de transição entre o espaço masculino e o feminino.


     Quatro degraus acima delas, à esquerda do Senhor, provavelmente atrás dos homens da família, encontram-se algumas criadas e, do lado esquerdo, aproximam-se outras, transportando objetos rituais, bandejas com frutos, uma jarra com flores, pivetes de incenso... O movimento dos homens é da direita para a esquerda, pois penetram na casa, o das mulheres é da esquerda para a direita, pois saem do espaço feminino.


      No pátio seguinte descobrimos outra figura importante: a Primeira Esposa. Senta-se numa alta cadeira dourada, à frente de uma pintura mural porém, para chegar junto dela, cumpre subir dois degraus apenas. No espaço do Senhor, o tapete assinala a natureza do poder: intocável, inacessível, inviolável. Nada vemos de equivalente no espaço da Primeira Esposa. Ao lado dela encontra-se uma adolescente – filha, talvez – e, pouco mais adiante, uma criada.


       Neste pátio vemos duas mulheres sentadas. A Primeira Esposa recebe a visita de uma dama cujo estatuto é sublinhado, não apenas pelo vestuário e penteado, mas também por ter os pés atrofiados, uma mutilação com conotações sexuais, sociais e estéticas; é levada por um criado numa cadeira de rodas. Embora a visitante venha da direita e possa até chegar do exterior: não é um elemento ativo. De joelhos, com grandes movimentos de mangas, um rapaz faz-lhe uma vénia e, à direita, duas damas ricamente vestidas, talvez as outras esposas, preparam-se para lhe render homenagem, enquanto à esquerda mais duas senhoras, com estatuto menos importante, a julgar pelo trajo e posição, esperam a sua vez; quem possui legitimidade para primeiro saudar esta visitante é, mesmo dentro do espaço feminino: um homem.


      A Primeira Esposa e a Grande Dama distinguem-se ambas pelos toucados de ouro e, enquanto a maioria das figuras (mais de quarenta) participa na encenação do poder masculino, centrada no corpo do Senhor, aqui o centro das atenções nem sequer é a Primeira Esposa... Esta cena não passa de um complemento feminino da cerimónia oficial – que é masculina.


      Quatro mulheres assistem de uma varanda à chegada da Grande Dama, ainda que uma lhe vire costas, a segunda e a terceira não olhem e a quarta pareça apontar: atitudes de despeito por não participarem na cerimónia?


      Para além deste pátio, isto é, mais à esquerda e, portanto, mais para o interior da casa, nas traseiras deste conjunto de edifícios, vemos terraços e um passadiço à volta de um lago. Por ali andam figuras femininas com estatutos diversos, umas criadas, outras familiares, concubinas do Dono da Casa; estas olham ou conversam.


      Na parte visível da propriedade não se lava roupa, não se faz comida, não se varre o chão, não se pinta, nem lê, nem escreve... Para além das músicas e dançarinas, artistas com estatuto marginal, da Primeira Esposa e das senhoras que recebem uma visita, as mulheres da família nada fazem. E até as criadas parecem limitam-se a trajar roupa elegante e levar oblatas – do Senhor – aos deuses protetores. O fazer, base do poder, é masculino. As mulheres não têm estatuto por si mesmas: a beleza, as atitudes, o refinamento dos penteados, o comprimento das mangas de seda, os leques e varinhas com pompons, compõem um ambiente de luxo, contemplação e ociosidade que revela o poder do Dono da Casa num mundo ao qual elas não têm acesso: para além dos muros da propriedade. 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Domingo, 8 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 74. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China: as crianças

 

 

        Dois rapazes brincam com pássaros, que lhes poisam nas mãos, enquanto o terceiro traz uma gaiola; mais adiante dois outros miúdos aproximam-se das flores – terão visto uma borboleta? Noutro grupo os pequenos divertem-se com um caranguejo enquanto o terceiro, mais crescido, observa a brincadeira. À beira do lago, abre-se uma porta, duas mulheres espreitam e, junto delas, um menino cuja mão esquerda está oculta no interior da longa manga.


        Estes rapazes usam roupas coloridas, calças largas e compridas, casacos que lembram roupões, sapatos que parecem de pano preto ou vermelho. O mais estranho é o penteado: a cabeça encontra-se totalmente rapada mas deixaram-lhes uma mecha de cabelo comprido no cimo da testa, enrolado numa espécie de carrapito preso por uma fita.


     Exceto o mais pequeno, acompanhado por duas mulheres, os miúdos prosseguem os seus jogos enquanto a maioria dos adultos, amos e criados, participa numa cerimónia pomposa. Os rapazes parecem dispor de liberdade nos interstícios desta casa labiríntica e, por serem crianças, não respeitam a separação dos espaços masculino e feminino; alguns aparecem do lado esquerdo do biombo. As brincadeiras relacionam-se com o lugar onde vivem: o caranguejo talvez venha do lago, os pássaros, mesmo amestrados, são um complemento das árvores onde, sem dúvida, em dias de menos tumulto, outros pássaros cantam.


      Distinta é a situação das raparigas: não vemos nenhuma a brincar. Aliás identificamos inequivocamente apenas uma; de pé, junto à Primeira Esposa, representa um papel neste evento social.


       As esposas, as concubinas, as criadas são necessárias, quantas mais, melhor, realçam o estatuto de uma alta personagem, em contrapartida as filhas em nada contribuem para engrandecer o Senhor, pois terá que pagar um dote para as casar numa família que o dignifique. Podemos portanto concluir que a circunstância de haver aqui numerosos rapazes e poucas raparigas sublinha não só o poder do Dono da Casa mas até a proteção divina de que ele beneficia.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 7 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 73. Por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China: os homens

 

 

Um biombo chinês é como uma manga, lê-se da direita para a esquerda. Por isso aqui o elemento ativo, masculino, se situa do lado direito, sendo introduzido pela entrada de um cavaleiro numa propriedade, antecedido pelos peões e tambores que o anunciam, pelo palafreneiro conduzindo outro cavalo à rédea, acompanhado pelo seu séquito e por um peão porta-estandarte. Músicos tocam no coreto e criados ocupam-se de dois cavalos.


O centro dos acontecimentos situa-se no pátio seguinte, após uma porta realçada por duplo telheiro azul com esculturas nos ângulos. Por os chineses não engraçarem com a simetria, este centro não se situa no centro do biombo, mas um pouco deslocado para a direita, isto é, para a parte masculina do espaço, ocupando portanto a quinta e a sexta folhas.


Com armas e couraças, quatro guardas vigiam, encostados à parede. Num pórtico onde se penetra subindo quatro degraus, diante de um mural representando o combate de dragões, na zona delimitada por um tapete com barra vermelha, o Senhor mostra-se numa cadeira de aparato: acima dos que o rodeiam. Usa um chapéu honorífico e segura um ceptro. O seu corpo é uma forma oval, vermelha a cor do seu trajo com dragões. O sorriso do Senhor, a forma e a posição do corpo fazem lembrar algumas imagens de Buda. A cor estabelece uma continuidade entre as colunas, o friso do edifício e o corpo da personagem, por consequência os visitantes, subindo os quatro degraus, são admitidos no corpo simbólico do Senhor.


Todas as outras personagens se encontram de pé. Um homem fala em postura de grande respeito. Do lado direito vemos um grupo, personalidades oficiais ou poderosas, rica e coloridamente trajadas, ventres proeminentes, atitude orgulhosa, atenção variável; não olham todos na direção do Senhor. Do lado esquerdo aparecem homens que, pela posição, podem ser da família, com aparência refinada, ricamente vestidos, subtilmente coloridos, entre os quais três jovens e um pequeno adolescente – este com trajo vermelho.


Os homens têm acesso ao mundo exterior, ocupam cargos administrativos e, mesmo em posição subalterna, desempenham funções variadas (guarda, músico, palafreneiro, porta-estandarte...): o poder e o fazer são aqui masculinos. Continuando para a esquerda, entramos no espaço feminino. 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 6 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 72. Por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Num Jardim da China: crónica da vida familiar


          O museu Calouste Gulbenkian expõe um biombo chinês de finais do século XVII com doze folhas. A primeira e a última, em madeira lacada, constituem de certo modo as capas deste livro de imagens; as folhas interiores possuem igualmente uma estrutura em laca que serve de base e moldura a dois painéis de papel, um grande e rectangular e, por cima deste, um pequeno círculo. Todas as partes são pintadas, as de laca com fundo preto, as de papel com fundo branco.


       A parte preta narra episódios da gesta de personagens, históricas ou romanescas, sem dúvida identificáveis pelo público chinês em finais do século XVII, mas nós limitar-nos-emos a ver uma família poderosa numa propriedade rodeada por altos muros. Observaremos mais em pormenor:


1. Os homens

2. As crianças

3. As mulheres

4. O jardim


           A ordem dos três primeiros elementos não é arbitrária, revela a maneira como os chineses hierarquizavam a humanidade: o Senhor dominava o microcosmos familiar e considerava as crianças, isto é, os filhos de sexo masculino, mais importantes do que as esposas.


       (Lembremos que os inventores da democracia, isto é, os gregos da Antiguidade, não consideravam as mulheres como cidadãs. E em Portugal só após a revolução de 25 de abril de 1974 elas ganharam estatuto legal equivalente ao dos homens e mesmo hoje, na prática, nas imagens, não é assim sempre... embora para lá nos encaminhemos.) 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 3 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 71. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China (continuação)


O eremita era uma figura canónica da cultura chinesa. Cansado de viver na Corte, isolara-se na província, enriquecia-se com sensações: a música do vento, o canto do rouxinol, os perfumes da brisa, a queda de uma pétala, o som da chuva nas folhas da bananeira, os reflexos da lua na água de um lago... Jacques Pimpaneau cita vários poemas de Xie Lingyun que falam do retorno à liberdade. Tomemos como exemplo este, que traduzo da versão francesa de Claude Roy esperando que algum parentesco guarde com o original chinês do século V:


Jovem, eu não prezava a agitação

crescera amando as montanhas

entrei por engano na vida mundana

perdi treze anos da minha vida.

Na gaiola o pássaro sonha com os bosques

no tanque o peixe sonha com a ribeira

por isso voltei para o Sul.

Cavo a minha horta, cultivo os meus campos

pouco terreno possuo, dez escassos mus.

A casa é pequena

um olmo e um salgueiro fazem-me sombra

há em frente pessegueiros e damasqueiros.

Avisto ao longe casas de camponeses

fumegam as chaminés no céu calmo.

Um cão ladra

um galo canta na amoreira.

O silêncio habita comigo.

Tenho espaço, tenho tempo.

Vivi demasiado numa gaiola

eis-me agora a mim devolvido.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 2 de Abril de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 70. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num Jardim da China


          Há livros que nos transformam. Não somos os mesmos após a leitura, crescemos, tornámo-nos mais justos, mais inteligentes, percebemos que, até ali, não percebíamos... Li recentemente um destes livros. “Dans un jardin de Chine” (“Num jardim da China”) foi publicado em França pelas edições Picquier no ano 2000 e faz a síntese de um saber que Jacques Pimpaneau construiu ao longo de décadas no estudo dos textos clássicos.


           Até aqui eu arrumava os objectos chineses da colecção Calouste Gulbenkian numa banalidade da qual a passagem por Macau, Hong Kong e China me saturara, de que as lojas me haviam definitivamente afastado ao ponto de, quando visitava o Museu, atravessar a sala com paragens apenas nas vitrinas de objetos japoneses, vendo no resto a única falta de gosto cometida pelo esteta arménio. No Museu Guimet de Paris, perante muito maior diversidade, eu seleccionava o verde céladon, as figuras funerárias, enfim, tudo o que, para mim, escapava aos estereótipos...E não atentava no resto.


        Havia contudo lido alguns textos clássicos, visitara os jardins de Suhzu e Hangzhu, vira as proeminências rochosas de Guilin e Yangshuo, sem que tudo isto se aglomerasse na evidência: para além de constante nas artes decorativas, o jardim é um pináculo na arte de viver. Este jardim pode aliás, numa sinédoque, reduzir-se a um vaso, a uma pedra mas, quando pertencia a magistrados, aristocratas, grandes proprietários, tornava-se um espaço rodeado por altos muros dentro do qual se concentrava a Natureza ideal, constituída por lagos, rochedos, flores e plantas com valor simbólico, árvores anãs ou de tamanho natural, todas podadas com formas e proporções rigorosas... Pequenos edifícios com terraços, varandas, vestíbulos, amplas aberturas, ligados por pátios, pontes, portas, permitiam a fruição simultânea do ar livre e de todo o conforto. O jardim era o espaço da vida familiar, era o referente da poesia e da pintura, era ponto de encontro entre estetas que ouviam o jardim, olhavam o jardim, partilhavam poemas ou pinturas sobre o jardim... Era o espaço da perfeição. 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 23 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 69. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vácuo radiofónico

 

 

         Em Lisboa começo o dia, geralmente às sete horas, com o “Programa da Manhã” apresentado por António Macedo: é uma sanduíche com boas rodelas de informação ou crónica, entremeadas com os obsessivos 3 T, Taças, Tempo e Trânsito. Quando o apresentador é António Macedo, um profissional com voz, humor, profissionalismo, o pão tem odor, gosto e consistência por isso, alternando com rodelas saborosas, os 3T acabam por passar... Quando António Macedo fica de férias, calha-nos um locutor jovem, talvez nem seja sempre o mesmo, o que pouco importa, pois todos saem da mesma fábrica; logo, com iguais ingredientes, menos o António Macedo, o “Programa da Manhã” esvazia-se, serve uma sanduíche com ar e glúten, a informação e as crónicas não tapam os 3T – não, obrigada. (Acompanho o pequeno almoço com programas de conserva no MP3.)


        Às treze horas costumo ouvir “Portugal em Direto” porém, a partir das catorze, a Antena 1 torna-se um vazio que os 3T, uma ou outra crónica (por exemplo, “Janela Indiscreta”, sempre interessante) e a música de plástico não chegam a preencher, relevando-se dois debates, à quinta e à sexta, entre as dezanove e as vinte horas, quando não há futebol: “O esplendor de Portugal” e “Contraditório”. (Interrompidos às dezanove e trinta pelo “estado do trânsito”.)


         Ao sábado, das oito às nove, oiço “A Ilha dos Tesouros”. Júlio Isidro evoca ambientes musicais dos anos sessenta com humor, elegância, música não anglo-saxónica e até, prodígio dos fenómenos: num português escorreito. O programa tem a estrutura que pedimos ao profissional e a subjectividade o que esperamos do criador. Uma boa hora de rádio. Das nove às dez surge “A Vida dos Sons” de Ana Aranha e Iolanda Ferreira que, através de arquivos sonoros, reconstitui os eventos de um ano; vai em 1958. Outra boa hora de rádio. Enquanto almoço, “Este sábado” analisa as informações da semana, transmite entrevistas e reportagens, mais tarde há o programa do provedor do ouvinte, Mário de Figueiredo; mas, dali a pouco, entra-se no vazio do fim de semana com os tais locutores que se limitam a abrir a torneira da play list.


          Não nos falem de serviço público... Onde está o teatro radiofónico? (Nem que seja em redifusão ou mesmo através de audiolivros...) Quais são os programas literários? Quando transmitem as entrevistas – de uma hora – a personalidades da cultura portuguesa? Quem recolheu as memórias radiofónicas de Vasco Lourenço? Quem fala de Maria Lamas? E de Maria Ondina Braga? Depois de escrever ao (precedente) provedor e de ler a resposta dele, compreendi que venho de outro planeta, isto é, de uma rádio que não é feita para matar tempo: a rádio de que falo sublima o tempo. Não, não se desculpem com a crise, esta rádio não é mais cara, mas é muito mais exigente.


         Eu agora já não me amofino: oiço programas franceses. Imagino que os outros auditores farão algo de equivalente. Não nos venham um destes dias pedir que choremos a morte da rádio pública em Portugal.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 22 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 68. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A paixão da rádio

 

 

          O que incomoda na televisão é a imagem, oiço às vezes dizer e não me parece errado. De facto, no que me diz respeito, não tenho sete vidas para me sentar à frente do ecrã sem fazer mais nada, nem de uma vida disponho, na melhor das hipóteses, resta-me talvez metade por isso, cada dia, sabendo que não escreverei todos os textos que gostaria de escrever, não lerei todos os livros que gostaria de ler, não verei todos os filmes, nem museus, nem paisagens, não participarei em todas as conversas que me teriam interessado, enfim, os leitores compreendem: escolho a melhor maneira de usar o meu tempo.


          E na verdade estar informada é importante. Sido, a mãe da escritora Colette, costumava dizer que, enquanto limpava o pó, se sentia envelhecer. Eu também oiço a contagem decrescente dos meus minutos nas tarefas domésticas, por consequência aproveito para, ao mesmo tempo, me informar, aprender, refletir... Logo: oiço rádio várias horas por dia, enquanto tomo duche, almoço, janto, cozinho, lavo loiça, estendo roupa... A rádio não exclui a simultânea concentração nestas actividades. Calha bem.


          Em França o meu problema foi, durante anos, ouvir a France-Culture e, ao mesmo tempo a France-Inter, a France-Musique, pois havia não raro em simultâneo dois ou três programas que queria não perder. Ou nas férias... Tenho amigos com quem me associava para, enquanto uns estavam de férias, os outros gravarem os programas: por exemplo as conferências de Michel Onfray. A própria France-Culture chegou a ter um programa que permitia a quem procurava tal emissão de tal ano poder entrar em contacto com quem a gravara. É que na França, como na Inglaterra, a rádio, por ter qualidade, tem taxas de audição muito elevadas...

 

          Estas complicações desapareceram com os MP3: passámos a gravar pela Internet. Neste momento disponho de uma centena de dias de gravação... E continuo a gravar.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quarta-feira, 21 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 67. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A História deixou aí imóveis fantásticos”

 

 

         Segunda-feira, 19 de março de 2012, pouco antes das sete horas, eu lentamente comia flocos de aveia e vagamente ouvia a Antena 1. O locutor entrevistava pelo telefone uma madeirense residente na Grécia, primeiro a crise, segundo a crise, terceiro a crise, porém a transmissão da fala da senhora, sendo incompreensível, só dera para perceber que casou há vinte e cinco anos com um grego. De súbito o entrevistador lança com um sorriso de orgulho na voz:


            - A História deixou aí imóveis fantásticos. Já os visitou?


          Nada conheço da Atenas do século XXI, embora tenha visto imagens, ouvido falar do tráfico, da poluição... Imagino a Amadora com, por cima, a Acrópole mas, há mais de oito horas, lamento não ter visitado a Grécia. Lisboa tem ruínas romanas, tem monumentos manuelinos, tem a Igreja de S. Roque, tem a Viúva Lamego, tem às vezes calceteiros – não lhe conheço “imóveis fantásticos”. Passei aliás a manhã às voltas com as definições de “imóvel”, de “fantástico” e de “imóvel fantástico”.


         “Fantástico” vem da palavra grega “phantasticós” e etimologicamente significa “visionário”: o fantástico resulta de um cérebro, de um olhar alucinado. Se Van Gogh fosse arquiteto, talvez construísse “imóveis fantásticos”; e as criações de Gaudi, em Barcelona, poderiam também ser designadas como “imóveis fantásticos”, embora não tenham sido lá deixadas pela História (daqui advindo, por exemplo, entre outras consequências, as dificuldades para a Sagrada Família ser concluída). Não consigo imaginar a História como tia solteirona que lega os bens imóveis, por conseguinte não me parece mais adequado dizer que a História deixou em Tomar uma janela, a qual em contrapartida não hesito agora em qualificar como “fantástica”.


       Os leitores mais viajados saberão sem dúvida descrever-nos os “imóveis fantásticos” que a História deixou na Grécia. Resta-nos esperar, agradecendo às escolas de jornalismo e à Antena 1, que formam e dão a ouvir estes profissionais alucinados cuja vacuidade linguística – e não só – acaba por nos encher as cabeças.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Terça-feira, 20 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 66. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedestria itinera

 

 

          O leitor pergunta mais uma vez, que Caminho de Santiago é esse? Vai, repete, reitera... (Tem razão: “reiterar” é “repetir a caminhada”.) Voltei a caminhar das Milhariças a Caxarias, voltei a caminhar do Porto a Mós, voltei a caminhar de Santarém à Golegã. Gosto na verdade de passar nos mesmos caminhos, quando os ditos merecem este retorno e, como os leitores bem repararam, cada passagem é distinta da precedente, por ser noutra época, por ser feriado ou dia de trabalho, por – como sabemos – a mesma água não correr duas vezes por debaixo da mesma ponte.


          Estas “Novas Viagens” permitem-me, tanto pela caminhada como pela escrita, aprofundar a descoberta da minha terra. E a segunda passagem pelos mesmos sítios corrige um pouco o carácter aleatório da primeira; a perceção será – é inevitável – sempre subjetiva.


           Alguns leitores têm inquirido: para quê teimar no Caminho de Santiago? Por que não escolher outros itinerários? No Cabo da Roca. Na Arrábida. Na costa vicentina. Poderei na verdade descobrir alguns, quando a oportunidade se apresentar, mas – por ora – prossigo o de Santiago, pois não esgotei a sua complexidade. Em primeiro lugar, posto que as paisagens da minha terra mereçam todas ser vistas, gosto que o caminho atravesse terras habitadas, pois gosto de ver como as pessoas vivem e reagem, embora conhecendo os limites desta observação, sempre curta, exterior e ocasional... Em segundo lugar, o Caminho de Santiago é o único itinerário que beneficia de albergues distribuídos em função das distâncias que podem cada dia ser percorridas a pé. Em terceiro lugar, este Caminho tem uma tradição milenar, atrai um número razoável de peregrinos, permite a participação, sobretudo a partir do Porto, numa aventura coletiva; interessa-me entrar neste movimento e perceber – do interior – as imagens de Portugal que se vão construindo.


         Gostaria de percorrer o Caminho Português, caso exista, o que ainda não pude verificar, de Faro a Lisboa, de Évora, pelo interior, a Chaves, de Coimbra a Lamego, mas ignoro se darei conta destas andanças aos leitores. “Novas Viagens na Minha Terra” é uma obra aberta, é um trabalho em progressão: sigo – até onde me levarem – as setas amarelas da vontade de escrever.


             E espero que os leitores continuem a acompanhar-me.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 19 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 65. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Retorno à planície (continuação III)

 

 

         Entro na Azinhaga e quase não acredito: noventa minutos antes da precedente hora de chegada. Não há dúvida de que o calor pesa muito... Agora faz menos vinte graus do que em outubro, por isso não só avancei depressa, mas sobretudo caminho com prazer. Não me sinto cansada.


           Ao lado do Escritor conversam hoje dois homens, um dos quais é dono da bicicleta apoiada no passeio. Sento-me noutro banco e devoro a salada de massa com queijo, salmão, legumes... Sabe-me deliciosamente.


         Dez minutos depois, volto a pegar na mochila, cada vez mais leve – tanto objetiva com subjetivamente. Os sete quilómetros que separam a Azinhaga da Golegã são percorridos à beira da estrada e várias vezes me assusto com a deslocação de ar causada por carros que teoricamente circulam na outra faixa, embora demasiado perto e depressa... Passo a Quinta da Broa, passo o Palácio da Broa, passo o rio Almonda. Alverca do Campo é agora um lamaçal... Em outubro vi pescadores com água até ao peito! Sento-me na zona das merendas, como a última pera, como a última laranja, como os últimos damascos, encho de água uma garrafa, prossigo na direção do Entroncamento. Vejo-me de novo exposta ao incivismo dos automobilistas, quase sou deitada ao chão por camiões a alta velocidade; e os camionistas não são os piores condutores. Consigo enfim chegar à estrada de Casais, onde volto a caminhar com calma e prazer.


        Apanho no Entroncamento o comboio das dezassete e trinta e um para Tomar. Levei oito horas a percorrer perto de quarenta quilómetros. A planície merecia esta caminhada. 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Domingo, 18 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 64. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Retorno à planície (continuação II)

 

 

          Antes de chegar a Vale de Figueira cumpre, durante vários quilómetros, caminhar à beira de uma estrada sem berma que, por ser feriado, em outubro não me deixou qualquer recordação. Hoje os automobilistas não abrandam quando veem peões – apitam!


              Passo outra vez junto à Quinta Cruz da Légua, aproximo-me para espreitar, o edifício parece de facto abandonado, mas os terrenos estão cultivados. A decadência destes edifícios agrícolas manifesta decerto apenas uma mudança no modo de produção.


          Em Vale de Figueira as casas continuam bem pintadas e a rua ainda mais animada do que na precedente passagem por aqui. Os homens aglomeram-se à entrada dos “Petiscos e Companhia”, as mulheres junto às camionetas que vendem peixe, fruta, pão, legumes e mercearia. Passam ciclistas. E, o que é mais agradável, os habitantes mostram-se sorridentes, brincam, pedem que lhes tire uma fotografia, fazem pose, perguntam de onde venho... Sabe bem encontrar gente bem disposta. Eu tiro a camisola, volto a molhar-me no repuxo, inutilizável para beber, saboreio três laranjas, converso, também me rio, tiro fotografias e acabo por me despedir.


         O caminho permanece enrolado em algodão de bruma. Vejo bonitos sobreiros, seguem-se os eucapliptos, chego ao caminho branco que hoje, com menos luz, não parece faíscante. Não me deixo enganar pela aparência. Conheço o brilho tenebroso desta brancura, piso com rancor a quase lama, sabendo-a capaz de, apenas a humidade diminua, se entranhar nos olhos, cabelos, gargantas e pulmões de todos os caminhantes. As recentes geadas enrubesceram as silveiras, terreia uma colina que em outubro verdejava, estas árvores perderam as folhas, brancas de pó no outono, descubro um riacho, decerto muito poluído, lembro-me de passar na ponte, cega de luz, morta de sede, não me recordo de ver a água, talvez as árvores e arbustos tapassem a vista. Caminho à beira de um campo que tinha milho e está agora a ser lavrado, as íbis-carraceiras acompanham o condutor nas suas idas e voltas. Avanço rapidamente. Bebo chá, como outra sandes, saboreio um pedaço chocolate, uma iguaria que a caminhada exalta... Passo ao lado de Pombalinho e prossigo desta vez para a Azinhaga. 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 17 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 63. Por Manuela Degerine

Um Café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Retorno à planície (continuação)


          Recuei no tempo. Em Lisboa há flores nas árvores e canteiros, aqui atravesso outra vez o inverno. A vinha perdeu a folha, os campos de milho são agora terra lavrada ou por lavrar, as poucas árvores mostram-se nuas e reduzidos os arbustos à sua seca aparência, bagas, cápsulas, espinhos: uma beleza estreme e austera. Gosto desta paisagem, rigorosa nas linhas paralelas das rodas de tractor como nas linhas paralelas da vinha podada, estas com um pouco de relva entre as cepas, formando riscas verdes que alternam com as castanhas, uma paisagem útil, laboriosa, sem vulgaridade... Amo esta paisagem. Céu, terra e cepas sublinham as distâncias, sinto-me agora mais pequena do que no outono. Mas vou avançando.


          A planície é um deserto muito habitado. Passo por sucessivos grupos que podam a vinha ou fazem queimadas, por tratores que lavram (seguidos por bandos de íbis), por camionetas que circulam dali para aqui... Tudo isto enrolado na bruma. Por vezes apenas oiço as vozes, os risos de quem trabalha. Lembro-me de “Gaibéus” de Alves Redol.


            Não me doem os pés, não me doem as costas, não me sinto cansada. Apetece-me cantar. (A frescura e o movimento abrem o apetite: já comi uma sandes, uma maçã, duas laranjas, damascos secos, uma tira de chocolate...) Cai-me na pele, de vez em quando, uma pinga e, se toco no cabelo, sinto-o húmido. Não chove, não... Atravesso uma planície de nevoeiro.


           Quando aqui me arrastava, esmagada pelo calor, interroguei-me, para me refrescar, por que razão em “Húmus” de Raul Brandão a chuva, o bolor, a humidade, a podridão são recorrentes, sendo Portugal caracterizado por secas, canículas e incêndios calamitosos. (O texto não narra a realidade meteorológica: metaforiza a podridão da sociedade.) Agora não choveu no outono de 2011, não chove no inverno de 2012, há incêndios, há falta de pastagens, há falta água na agricultura... Faltará daqui a pouco água para homens e animais beberem. Por todo o país o povo pede chuva em novenas e procissões... Por enquanto não houve milagre.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 62,

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Retorno à planície

 

 

          Em outubro o calor estragou-me a etapa de Santarém à Golegã, por isso volto a percorrê-la dia 28 de fevereiro de 2012. A meteorologia prevê para hoje uma temperatura máxima de dezoito graus mas, quando chego a Ribeira de Santarém, há oito apenas e um nevoeiro opaco. Trago uma mochila com duas garrafas de chá, duas sandes, alguma fruta, uma salada de massa, chocolate, três ou quatro objectos necessários... Isto é: quatro quilos. E o meu bordão.


          Em Ribeira de Santarém avisto, um após outro, quatro moradores, cujos olhares plangentes atravessam golas, gorros, capuzes, cachecóis, xales sobrepostos... Os naturais da terra pareciam mais à vontade no outono, mas eu saboreio uma frescura em Portugal tão rara, nem blusão levo, apenas uma camisola de algodão e outra de fibra fina; não sinto frio.


          - Bom dia!


          Digo eu ao passar.

 

          - Bom dia...


          Fitam-me com perplexidade. Uma vez mais. Em outubro uma senhora – muito intrigada – perguntou-me aqui como conheço o caminho, expliquei que vou atrás das setas amarelas, mostrei-lhe algumas em que nunca reparara, agora os poucos caminhantes com quem me cruzo pensam sentir demasiado frio para fazerem perguntas.

 

         Atravesso a ponte de Alcorce, prossigo à beira da estrada, viro à esquerda para um caminho de terra. Não obstante o nevoeiro que tapa a planície, consigo ver as setas amarelas e rapidamente noto que, sem as folhas de vinha e outra vegetação, os sinais se encontram bem aparentes – e a sinalização é perfeita. Em outubro fui portanto injusta quando deduzi que não havia aqui as indispensáveis indicações... Estavam escondidas. (E de novo me sinto grata aos voluntários que puseram pernas ao Caminho com uma lata e um pincel para que, depois deles, outros o pudessem seguir.) 



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra. Série II. Capítulo 61. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mal-entendido


Tomar distingue-se por uma utilização bizarra das setas amarelas. Receio que esta parte do Caminho Português fique nas memórias de peregrinos do mundo inteiro, mas como má recordação. Há um circuito amarelo que conduz até ao Convento... Ida e volta. Inúmeras vezes imaginei a minha cólera se, após uma tão longa etapa, com uma mochila carregada de chumbo, me fizessem ainda subir a encosta – para nada! Não há alojamento para os peregrinos no Convento de Cristo, pois não?


(Não quero com isto dizer que os caminhantes não devam visitar o Convento, claro que devem, se puderem e, caso não possam, cumpre voltarem a Tomar pois, para além do Convento, uma maravilha de Portugal, dos arredores, que proporcionam passeios, paisagens, panoramas, toda a cidade, embora muito desmazelada, merece bem a visita; digo é que não se faz turismo com setas amarelas, já que esta sinalização serve exclusivamente para conduzir o peregrino a Santiago de Compostela. Tudo o que não é Caminho de Santiago deve utilizar os códigos internacionais de grande e pequena rota.)


Nos arredores de Tomar também encontrei setas amarelas em zonas alheias ao percurso que vem da Golegã e vai para Alvaiázere, isto é, fora do Caminho de Santiago, durante vários quilómetros. Houve um evidente mal-entendido: quem marcou o Caminho na região de Tomar ignora de onde ele vem, para onde vai e com que objetivo, ignora sobretudo que as setas amarelas são seguidas com uma mochila que contém o indispensável para numerosos dias de viagem, roupa, saco-cama, produtos de higiene, roteiro, dicionário, no caso dos estrangeiros, entre muitos outros necessários pesos. Importa não amargurar com desvios, fantasias, incoerências, leviandades as jornadas que separam a Golegã de Alvaiázere, até por existir outra variante do Caminho de Santiago e os guias estrangeiros advertirem os caminhantes – os quais evitam passar por aqui.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Segunda-feira, 5 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra. Série II. Capítulo 60. Por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tomar

 

 

                Entro em casa, largo a mochila, tomo um duche e fico o resto da tarde, quase às escuras, a ler um livro de Guy de Maupassant, “La Vie Errante”, que conta uma viagem por Itália e pela Sicília. As minhas parecem mais modestas, mas não me sinto descontente com estes dois dias pois, numa área tantas vezes atravessada de carro, de comboio, até de avião, por eu mudar o ritmo, o ponto de vista, a experiência física, consegui percorrer outro Ribatejo. Como Alberto Caeiro, “sou do tamanho do que vejo”; e estes sessenta quilómetros fizeram-me crescer. Nasci numa sociedade que tem o mundo para descobrir ao ritmo da marcha humana... (Exprimo aliás – por razões inversas – a surpresa que, no fim do século XIX, com o comboio e os primeiros automóveis, os nossos antepassados manifestaram.)


               Lamento que a sinalização do Caminho de Santiago, por ser às vezes inexistente e, nos arredores de Tomar, se tornar irritante, tenha acrescentado um stress ao calor excessivo e ao cansaço de duas etapas muito longas – sobretudo entre a Golegã e Tomar. É difícil percorrer etapas longas com uma mochila, é muito difícil percorrê-las com calor porém se, mesmo a sinalização, em vez de nos ajudar, nos complica a rota, o Caminho torna-se impossível.


              Continua a doer-me a perna direita, por conseguinte adio a etapa de Tomar a Alvaiázere, cujos primeiros dez quilómetros percorri aliás em diversas ocasiões. Não obstante ser mais prudente eu absorver líquidos e passar o dia ao fresco, tendo marcado encontro com José Arocena, ponho o despertador a tocar para as seis e decido acompanhá-lo durante os primeiros quilómetros, à beira do Nabão, para lhe evitar o Caminho marcado com setas amarelas, talvez o mesmo que o GPS segue, o qual conduz os andarilhos pela ponte velha além do rio, numa direção oposta ao Caminho de Santiago, os faz subir a uma feia urbanização, para depois voltarem a descer, ziguezagueando por zonas sem encanto – quando o caminho pela beira do Nabão é muito mais curto! E sublime. (Mistérios do Caminho de Santiago.)



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Domingo, 4 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra. Série II. Capítulo 59. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Golegã a Tomar (continuação V)

 

 

         Os cérebros que cogitaram este Caminho de Santiago, talvez para evitarem a marcha à beira da estrada nacional, conceberam um percurso aberrante. Uma certeza: não traziam uma mochila às costas e trinta quilómetros nas patas. A verdade é que, quando cumpre afastar-se da linha do comboio, o Caminho começa a fazer ziguezagues, a subir, a descer, a aproximar-se, a distanciar-se de Tomar, Casal do Marmelo, Casal das Bernardas, Alto do Piolhinho... Perto de S. Lourenço caminhamos à beira de uma estrada sem berma, secundária mas com muita circulação, camionistas, automobilistas que, em excessiva velocidade, não abrandam nem se afastam dos peões – um grande perigo.


         Rogo mais pragas aos espíritos tortuosos que desenharam – no mapa – este percurso. Venho da Golegã, caminho há oito horas, trago uma mochila pesada, faz mais de trinta graus, aqui não há sombras, não há fontes, tenho calor, tenho sede, não percebo por que razão, em vez de me dirigir para Tomar, ando há uma hora a subir e descer encostas. Claro que caminhar à beira de uma estrada nacional nunca é um prazer mas, no fim de uma etapa tão comprida, entre uma e outra opção, visto que esta também nos obriga a seguir estradas perigosas, acho preferível a marcha à beira da nacional, claro: o mais curta possível. Há um respeito pelo caminhante que é necessário nestas opções. E aqui falta... Parece-me.


        Vou no Alto do Piolhinho quando começa a doer-me a perna direita e cada passo se torna uma tortura. (Deve de novo ser consequência da desidratação.) Ignoro ao fim de quanto tempo as setas amarelas me conduzem enfim à estrada nacional, junto à ermida que assinala o encontro entre os exércitos do Mestre de Avis e de Nuno Álvares no dia 11 de Agosto de 1385. E a coxear pela beira da estrada entro enfim em Tomar.



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sábado, 3 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra. Série II. Capítulo 58. Por Manuela Degerine.

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Golegã a Tomar (continuação IV)

 

 

           A Asseiceira transformou as ruínas da Igreja da Misericórdia num espaço público. Ignoro o que pensam os arqueólogos, eu, não sendo especialista, prefiro vê-la assim do que rodeada de lixo. Passo por romãzeiras carregadas de frutos, imobilizo-me para admirar, logo surge um cão, o acolhimento é pouco amigável. Passo por uma casa branca com uma parreira, que expõe potes, bilhas e vasos; a olaria é uma das actividades desta terra. Passo por um grande marmeleiro cujos frutos douram a berma e a valeta... O percurso não é grande coisa para os peões, sejam eles habitantes ou peregrinos, pois não há passeios e circulam muitos carros, mas percebe-se quão agradável será viver aqui perto com a horta, a figueira, a nogueira, a laranjeira, a romanzeira...


         Converso com um ciclista no cimo da encosta; tem mais de oitenta anos. Queixa-se que já não sobe como antigamente, rio-me, eu era incapaz de vencer o declive com aquela bicicleta, ele mira a bicla com perplexidade, sem dúvida nunca a achou pesada.


         Prossigo a rota à beira de diversas estradas, algumas fábricas e vários lugares malcheirosos, chego enfim a um caminho bonito, paralelo à linha do comboio, do outro lado há uma zona semirrural com casas, quintais, estradas, hortas, milho verde, milho seco, aqui há sobreiros, murtas, medronheiros, muitas flores amarelas... Dois quilómetros mais adiante surgem algumas moradias, uma das quais com canteiros e numerosos vasos, tudo bem muito regado e cuidado: um bonito jardim.


           A mochila atingiu um peso megalítico, a sede recomeça a atormentar-me, doem-me os pés, doem-me as costas, dói-me o pescoço.


             Mas, até aqui, tudo bem...



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Sexta-feira, 2 de Março de 2012
Novas Viagens na Minha Terra, Série II, Capítulo 57. Por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Golegã a Tomar (continuação III)

 

 

          Faz tanto calor que, ao chegar a Grou, bebi – e transpirei – toda a água. Vejo outro homem num pátio, este muito torto e idoso, aproximo-me e, a um metro de distância, começo a falar.


           - Boa tarde...


           O homem conversa com o gato. Falo mais alto.


           - Boa tarde.


           Ainda não ouviu. Grito.


           - Boa tarde!


           O portão está aberto. Aproximo-me, não demasiado, não o quero assustar, continuo aos berros.


           - Boa tarde! Faz favor!


            Até que ele se volta e me vê. Mostro a garrafa.


            - Não preciso de nada!


            Tiro a tampa, viro a garrafa, aponto para a torneira. Ele teima:


            - Não quero nada!


            Aproximo-me, toco na torneira, faz-se então luz...


            - Ah, tem sede?... Encha, encha! Quer um diospiro?


            Mostro que trago três laranjas, explico que a mochila está pesada.


            - De onde vem?


            Berro movendo os lábios de maneira enfática.


            - Lisboa!


         - Lisboa? Isso está mau por lá! Por aqui também... Está mau por todos os lados. Sente-se aqui ao fresco...


          Agradeço a água e a companhia, apresso-me contudo a partir, com pena de não ficar, incapaz de conversar com o simpático senhor. Sem dúvida a pensão não lhe permite comprar um aparelho que, para mais, gasta pilhas caras... E a surdez impede-o de comunicar com os outros.  


           A solidão de um homem que toda a vida trabalhou, basta ver-lhe as mãos para o saber, causa-me um mal-estar intenso durante os quilómetros seguintes. Num país com tantos estádios... Então a segurança social não paga um aparelho auditivo a este homem?



publicado por João Machado às 15:00
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

ARGONAUTAS

Adão Cruz

Afonso da Rocha Aguiar

Aleksandra Serbim

Álvaro José Ferreira

Amadeu Ferreira

Ana Afonso Guerreiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Mão de Ferro

António Marques

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Dorindo Carvalho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Pereira Marques

Francisca da Rocha Aguiar

François Morin

Hélder Costa

João Brito Sousa

João Machado

João Vasco de Castro

Joaquim Magalhães dos Santos

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Goulão

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Peres Lopes

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Margarida Antunes

Margarida Ruivaco

Maria Inês Aguiar

Mário Nuti

Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)

Moisés Cayetano Rosado

Octopus

Paulo Ferreira da Cunha

Paulo Rato

Paulo Serra

Pedro Godinho

Pedro de Pezarat Correia

Raúl Iturra

Roberto Vecchi

Rui de Oliveira

Rui Rosado Vieira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Vasco Lourenço

pesquisar neste blog
 
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

Novas Viagens na Minha Te...

últ. comentários
Óptimo texto do Álvaro José Ferreira sobre o Berna...
Amigo Josep,O teu português é excelente e a anos-l...
Na ex-Jugoslávia, nenhuma etnia está isenta de cul...
Quanto mais não fosse, ficar-lhe-ia para sempre gr...
Carlos Leça da Veiga pede que coloquemos este seu ...
Caro amigo, peço-lhe desculpas pelo meu português ...
Amigos Josep e Carlos,A teologia sempre foi uma ár...
Este Estuário ficou lindíssimo. Posso afirmá-lo po...
Ser mãe é ser pedra, muro, ser a mão que nos agarr...
Obrigada pela dica no facebook, Augusta, belíssimo...
Muito obrigada por publicar a notícia. Lá imos hoj...
É ver por que cartilhas andam os nossos dirigentes...
Estou inteiramente de acordo com o teor deste comu...
Baseado na experiência inglesa, Jean-Jacques Rouss...
I és clar que és una nota d'humor. I així l'he lle...
Pentacórdio (agenda cultural)
14 a 20 de Maio - Parte I

14 a 20 de Maio - Parte II

14 a 20 de Maio - Parte III

arquivos

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

todas as tags

participar

participe neste blog

Posts mais comentados
subscrever feeds
Economia
links