O Fim Tragi-Cómico do Fascismo
Em Agosto de 1968, o ditador Salazar estava de férias no Forte de S. António no Estoril.
No dia 3 foi para o terraço e dirigiu-se à sua cadeira de lona, local preferido para apanhar sol. Sentou-se e a cadeira partiu-se.
Desamparado, bateu com a cabeça no cimento. Foi socorrido, e facilmente recuperou do que se julgou não passar de um susto.
Dias depois, sentindo fones dores de cabeça, foi levado de urgência para o Hospital da Cruz Vermelha, onde foi diagnosticado um hematoma no hemisfério esquerdo do cérebro o que obrigou a intervenção cirúrgica.
A operação durou duas horas e o boletim lido aos microfones da Emissora Nacional declarava, para não alarmar a população, "O presidente do Conselho de Ministros foi operado esta noite a um hematoma, com anestesia local, e encontra-se bem".
No dia 16 de Setembro, novas dores de cabeça, novo derrame cerebral, desta vez no hemisfério direito. O dr. Vasconcelos Marques, chefe da equipa encarregada de vigiar a saúde de Salazar, foi categórico: "O Presidente do Conselho, ou não sobrevive, ou fica. inválido".
No dia 26 de Setembro, O presidente Américo Tomás leu um comunicado em que reconhecia "os sentimentos afectivos e de gratidão" que o uniam a Salazar, mas devido ao seu estado de saúde seria "exonerado do cargo", e para o substituir nomeava "segundo os preceitos constitucionais, o Doutor Marcelo José da Neves Alves Caetano". Tudo se resolvia na paz e sossego da camarilha fascista, longe do povo e de qualquer força oposicionista.
Mas aconteceu que o ditador recuperou pane da sua lucidez!
E então, começou a grande farsa política digna desta ditadura de quase meio século. Alguns ministros iam ao palácio de S. Bento reunir com Salazar, apesar do chefe do Governo já ser Marcelo Caetano, e uma amiga lia-lhe os jornais "seleccionando os artigos e as notícias de maneira a ocultar-lhe a realidade polírica de POrtugal"; e chegaram a fabricar transmissões de televisão em circuito fechado para que Salazar tivesse a impressão de que continuava como chefe do Governo!
E a cereja do bolo foi conseguida pelo jornalista Roland Faure do diário Francês L'Aurore. Entrevistando Salazar e perguntando por Marcelo Caetano, o ditador respondeu: "Faz mal em não querer trabalhar no Governo, do qual, como sabe, ele não faz parte"!
Esta farsa triste de fim de regime é bem elucidativa do carácter e da ética dessa gente que oprimiu Porrugal durante dezenas de anos. Uns sabujos que nem tiveram vergonha de humilhar o homem - involuntariamente diminuído, note-se -, por quem rastejaram toda a vida. Gente sem espinha vertebral para defender as suas ideias e morrer por elas, como Mussolini, Hitler, e os Franquisras Espanhóis.
Aliás, o 25 de Abril demonstrou bem que esse bando não passava de um grupo de cobardolas que só pensou em fugir e virar a casaca quando alguém se levantou contra eles.
Fascistas? Sim, mas fascistas de meia tigela. Digamos que foram ladrões de colarinho branco com as mãos sujas de sangue. Esra é uma herança que pesa. A herança de não ter coragem para assumir opiniões e decisões. Que resulta, evidenternenre, num jogo de embuste, de logro, de falsificação. A esperteza parola com que essa gente tenra falsificar a história!
Há anos dirigi um espectáculo, "O Baile", narração da História de Portugal, em dança e sem palavras, de 1930 aré 1988. A chegada do 25 de Abril foi simbolizada com uma actriz invadindo o espaço com a bandeira portuguesa e varrendo para fora de cena um Pide. Uma dita extrema - esquerda e gente da direita criticou a cena por esse acto ter sido praricado com a bandeira portuguesa. A paranóia dessa dita esquerda não tem importância; mas o facto de a direita me ter sugerido e exigido que a bandeira devia ser vermelha porque se tratava da revolução comunista, já tem a sua graça.
O 25 de Abril que foi uma virória sem um tiro dos militares ou de qualquer civil, uma data que ficou marcada pelos últimos assassinatos cobardes dos Pides na ntónio Maria Cardoso, um golpe militar que elucidou sem margem para duvidas que o regime estava podre e que ninguém o apoiava, passava a ser uma revolução dos perigosos e implacáveis "comunas"! A versão tem graça porque essa gente continuará sempre a fechar os olhos à realidade e a odiar o novo Portugal que se tenra construir.
São esses que dantes diziam que Portugal era "a nação orgulhosamente só" e depois só tinham reverências e beija-mão para os patrões internacionais, são os que afirmam que são patriotas mas fogem com capitais para off-shores, são os que lamentam não ter nascido noutro país "porque ai é que me davam valor" ... são os que vão para a política para terem imunidades e impunidades e assim fugirem à justiça, são os falsificadores e pusilânimes de sempre.
São os que sempre adoraram "minorias absolutas" - ou seja, ditaduras em que só eles e os seus esbirros mandam -, e que hoje fingem gostar do voto do povo; são os que apelam ao fim da abstenção e ao mesmo tempo lançam boatos e campanhas de desprestigio contra a classe política para o povo morder a isca, dizer que "afinal, é todo farinha do mesmo saco", e deixar de votar.
Porque a verdade é que essa gente não perde um voto; a avó entrevada, O doente da família, o marginal drogado e odiado, nesse sacrossanto dia do voto é arrastado para pôr o papelinho na urna para salvar a honra do velho mundo do privilégio e da diferença.
São os que imaginaram o logro a Salazar, hoje continuam a ludibriar o povo português, e continuarão eternamente a fazer o mesmo.
Até porque não sabem fazer mais nada.
Maio 68, Viagens, Exílios - II
A França era uma sociedade democrática que possibilitou a mais de um milhão de portugueses emprego, estudos, amores, e até actividade política e social.
E se formos ver caso a caso, é evidente que o trabalhador explorado em Portugal achou uma benesse divina o dinheiro que ganhou em França, porque lhe permitiu em muitos casos voltar à terra, comprar casa, montar uma forma de ganhar a vida. Nos casos de activistas políticos, foi a fuga à prisão, a oportunidade de adquirir conhecimentos e de se desenvolver maior capacidade intelectual.
Para muitos que abandonaram o país por questão de postura profissional Universitária, também foi uma esplêndida oportunidade de enriquecimento. E como vantagem comum, a não esquecer, a verdade é que toda essa gente foi poupada a sofrer alguns anos a mediocridade fascista, e a não participar na crimi¬nosa e genocida guerra Colonial.
Mas então, isso quer dizer que não houve exílio?
Houve sim senhor, e é imperdoável e nunca recuperáveis os anos que o fascismo obrigou tanta gente decente a sair da sua Pátria.
Mas convém que não empolemos com cargas de sofrimento demagógico situações que foram benéficas em inúmeros casos.
E foi durante esses anos de boa memória que aconteceu Maio 68.
Era 3 de Maio, três da tarde. Estava eu a tomar uma bica com uns amigos no Boulevard 5 Michel, quando começou a descer uma manifestação de estudantes.
- Olha, mais uma!
- E os chuis? - Devem estar a chegar. Claro que já lá estavam, sabiamente escondidos à esquina da ponre, e passados uns segundos começaram a mostrar-se.
Pausa, silencio, só falrava a música do Morricone para recordar "Era uma vez no, Oeste".
E nisto, a manifestação começou a avançar.
- Eh pá, os gajos estio a andar.
- Pois é. O que é isto?
- Isto hoje ...
E, de repente, a manifestação desatou a correr.
Mas, oh milagre do inesperado, a correr em direcção à polícia! E a polícia, surpreendida com tal prova de afecto, recuou e entrincheirou-se. .Algum garboso centurião terá apelado ao nobre sentido cívico dos CRS, e ei-los que desembolaram enraivecidos.
Começaram a voar pedras, lixo, chávenas e cadeiras dos cafés.
- Vamos?
- Que remédio!
- Até parece mal se a gente não dá uma ajudinha.
Esta conversa e a descrita "perturbação da ordem pública" passaram-se nos primeiros minutos da primeira manifestação que lançou o Maio de 68.
A seguir, já se conhece a história toda: estudantes, trabalhadores, intelectuais, afir¬mavam que esta civilização não servia. O quê em troca? Não se sabia. Mas muitos milhares não pouparam esforços - bonitos e generosos, diga-se de passagem - a tentar descobrir caminhos para o futuro.
Mais do que um acto puramente político ou partidário, tratou-se de uma rejeição de um modelo de vida e de sociedade.
Talvez seja por isso que alguns cronistas e opinion makers despejam tanto ódio contra os soixante-huitards, contra essa geme e esse movimento indisciplinado, li¬bertário, afectivo, inimigo do PRECONCEITO, esse cancro ideológico que corrói as relações humanas, com a coragem de ressuscitar a UTOPIA, e a determinação de se entregarem de corpo e alma ao parto de uma sociedade nova.
Ainda não se conseguiu?
Há-de vir.
Aliás, foi essa a ideia daquela batida que marcava essas célebres manijestaçôes e que rezava
"Ce n'est q'un début, continuons le combat". !
Maio 68, Viagens, Exílios - I
Nesta vida em bolandas que tenho levado, Deus ou o Destino, presentearam-me com alguns bons momentos.
Por exemplo: estava em Moscovo em Janeiro de 1989 convidado pelo Sindicato dos Actores para um congresso sobre Stanislawsky, na precisa altura em que o regime Soviético anunciava a sua queda eminente, apesar de tímidas aberturas (regresso de Vassiliev, reposições no teatro Taganka); estava em Cuba, quando pela primeira vez um ex-presidente Narte-Americano, o democrata Jimmy Cárter se dignou visitar o "inferno Castrista" segundo os democratas rapazes de Miami; estava em Milão no dia 15 de Agosto de 1970, quando senti na pele a grande golpada da inconvertibilidade do dólar maquinada pelo Nixon, o "Tricky Dicky", pois precisava de trocar dinheiro e tudo fechou para novas contas devido à "habilidade" curiosamente sempre impune do tio Sam, o tal que se quer fazer passar pelo" tio da América" afectivo, terno e generoso.
Em 1983, em Lima, apagão pelas 8 da noite e no alto da montanha archotes' escreviam a palavra Sendero aterrorizando a então (e espero que tenha mudado), miserável e imunda capital do Peru.
E estava no Brasil a encenar "O. João VI", a peça com o inesquecível trabalho de Mário Viegas no papel do Rei timorato e infeliz mas "uma das melhores pessoas do seu tempo" segundo Raul Brandão, com a companhia "Ensaio Aberro" no centro Cultural do Bando do Brasil. Esse trabalho começou em Outubro de 2002 e ¬outra dádiva do Destino -, assisti a roda a campanha e investidura do presidente Lula, um terramoto a nível Brasileiro e mundial das campanhas eleitorais.
Recordo também um pequeno-almoço em 1981 com o Reitor de Harvard em Providence, na sequência de espectáculos que A BARRACA tinha dado nesse cir¬cuito Universitário que englobava ainda Cambridge e Brown.
Comecei por dizer que nós, na Europa, não tínhamos percebido como tinha sido possível o Reagan ter chegado a presidente dos USA.
Ele era um senhor de idade, com barba, ar sóbrio e elegante.
Parou os gestos, correram duas, três lágrimas pela face:
- Nós também não percebemos. Depois
Contou-me que a primeira decisão de Reagan tinha sido abolir o copo de leite obrigatório que era dado nas escolas a rodas as crianças.
- Sabe o que vai ser este país? Analfabetismo, culto da guerra, da violência ... uma fábrica de mercenários ...
Claro que também não foi por acaso que a máquina de Hollywood da era Reagan começou por apresentar o delicodoce "Oficial e cavalheiro" glorificando a carreira militar e o amor bem comportado da noiva com flor de laranjeira, a que se seguiu a heróica série do Rambo ...
O velho Reitor tinha acertado na "rnouche". Bem, houve um momento que eu falhei. Foi o 25 de Abril, estava em Paris, na tal situação de exilado, momento da minha vida que eu prefiro apelidar de "bolseiro de Salazar".
O que me valeu a grande sorte de estar no Maio de 68.
Antes de falar deste movimento, aproveito para falar um pouco do exílio. Devo dizer que considero o termo exílio muito forte para a situação em que nos encontrávamos.
Exílio é uma palavra que se costuma recordar nas situações de ostracismos das tragédias gregas, dos exilados liberais de 1820, dos desterrados para ilhas desertas e longínquas, Timores, costa de Africa e outra família do mesmo género.
Teatro e animação cultural II
Essa concepção de o teatro se afastar de uma "feira de vaidades" já vinha do trabalho com Luís de Lima no CITAC, e da participação nas lutas estudantis.
Obrigado pelo inspector Saccheti a zarpar para Lisboa na sequência das lutas de 62 em Coimbra, rapidamente me integrei num, digamos "grupo de opinião", que juntava uma agradável mistura de estilos e experiências de malta de Lisboa e Coimbra. Uma das primeiras acções foi preparar uma edição do "Quadrante", o jornal da Faculdade de Direito. Eu e o Rui Namorado escrevemos o artigo da capa: "Da Universidade caduca à Universidade nova", convenientemente ilustrado com um desenho do Bordalo Pinheiro que retratava um lente com orelhas de burro, e entre outros artigos, nas páginas centrais uma verdadeira bomba, "Autópsia do ensino" de Almeida Faria e Nuno Brederode Santos. A edição foi um êxito, o director do jornal, o Domingos Almeida Fernandes foi suspenso, e o " Quadrante" foi proibido ad eternum... '
Tempos depois falou-se em reanimar o Cénico de Direito. Fernando Gusmão assumiu a direcção artística, houve muitas adesões de alunos de várias Faculdades e assim recomeçou a luta de tornear a Censura.
Tivemos a felicidade de recebermos convites para o Festival mundial de teatro Universitário de Nancy e Festival de Lyon da UNEF no ano do nosso recomeço em 1964, o que nos possibilitou um contacto inestimável com o "outro teatro" que estava a nascer internacionalmente. E em 1966, com "Os Raros", peça de Alexandre Oliveira e Almeida Faria, ganhámos uma menção honrosa na modali¬dade "tema imposto".
A apresentação dessa peça foi um êxito extraordinário e dias depois eu fui chama¬do para uma reunião com o júri do Festival. Grandes nomes da intelectualidade Europeia da época, Paolo Grassi da RAI, Guy Dumur, Robert Abirached do " Nouvel Observateur", elogiaram-me o nosso trabalho e anunciaram-me que tinha decidido dar-nos o Grande Prémio do Festival. Aflito, respondi que isso não era possível porque um êxito assim nos obrigaria a mostrar a peça em Lisboa o que nos causaria inevitáveis problemas com a polícia.
- Com a polícia? Mas porquê? Perguntou alguém, candidamente.
- É que os autores da peça apresentaram um texto para ser aprovado pela Censura que não tem nada a ver com este.
-Ah, bom.
E assim tivemos uma menção honrosa repetida no ano seguinte com "Auto de Natal" da Fiama e direcção de Luís de Lima.
É de notar que alguns elementos do grupo acabaram por seguir carreiras profis-sionais - Cármen Santos, Eduarda Pimenta, Manuela de Freiras, José Gomes, Melim Teixeira, Francisco Pestana -, participando assim na progressiva valorização do nosso mundo teatral.
Todo este trabalho criava uma progressiva consciencialização política, baseada essencialmente, convém não esquecer, no culro da Liberdade e no direito à polémica e confronto de opiniões. Ideias que se cultivavam entre nós e que tentávamos transmitir para fora da Universidade.
No Cénico de Direito vários dos elementos participaram em sessões de poesia na margem Sul - Moira, Baixa da Banheira - e em várias colectividades de bairros populares em Lisboa.
Foi esta procura da relação com o publico e dos temas que interessam à sociedade e ao mundo em que se vive que nos levou à definição de uma estética e à compreensão do trabalho de actor, consciente do que vai fazer para ser credível na sua comunicação.
É essa linha de trabalho que me convenceu, desde sempre, que a animação cultural só será verdadeiramente conseguida com a integrame teatral. Porque o grupo de teatro não está a criar exclusivamente actores, técnicos, encenadores ou dramaturgos. Antes de mais, está a criar pessoas com disponibilidade e curiosidade cultural.
Está a criar cidadãos de corpo inteiro.
Teatro e animação cultural- I
Sobre teatro, há mil histórias para contar.
A minha estreia como encenador, sem saber bem o que isso era, deu-se em Grândola, na terra onde nasci.
Foi em 1964, na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (nome suspeito para a época, e talvez ainda hoje), mais conhecida por "Música Velha" . Nessa época, o país andava em polvorosa e percebe-se bem porquê.
Em 1958 o general Humberto Delgado tinha abanado o regime com a célebre frase dedicada ao inamovível ditador Salazar: (se eu ganhar as eleições), "Obviamente, demito-o!"
Depois, houve o assalto ao quartel de Beja, o rapto do Santa Maria, a crise estudantil de 61, o início da Guerra Colonial, as lutas dos camponeses no Alentejo ... A contestação à ditadura alastrava e abarcava todos os campos da sociedade.
As sociedades de recreio eram espaços naturais de convivio, debate, e de formação cívica. Aliavam o lúdico à formação e instrução, ensinando musica, organizando escolas nocturnas, formando grupos de teatro, convidando escritores para lança-mento de livros, exposições de pintura, ciclos de cinema, e rudo o que mais se inventasse para provocar o encontro da Cultura com as massas populares.
Em Grândola, a acção da Musica Velha era exemplar.
Foi visitada por inúmeros escritores, actores, cantores e grupos corais, de que cito ao acaso, Romeu Correia, Antunes da Silva, Lopes Graça, Sá Nogueira, Adriano, Rui Mingas, o Cénico de Direito, Grupo de Campolide, Armando Caldas, Ivone Chinira, José Saramago (muitíssimo antes do Nobel.;.), etc.
E" destaquemos, porque é justo, uma sessão memorável e luxuosa com Carlos Paredes na P parte, e José Afonso, na la, a encerrar uma noite cantando inéditos (Catarina, coro da Primavera ... ) perante um público que encheu a colectividade e a rua, devidamente enquadrado por atenciosos guardas Republicanos.
A vinda do Zeca era muito especial, porque era a sua estreia perante uma assistência não estudantil. Eu conhecia o Zeca de Coimbra, recordo ainda uma das minhas primeiras noites de caloiro em que ouvi uma voz lindíssima entoando uma balada sobre o Choupal e amores de estudantes. Fui, fomos à janela, e sozinho na noite, caminhando em direcção à Sé Velha, o trovador de cabelo desalinhado desafiava o silêncio.
- É o Zeca Manso, o gajo canta bem que se farta, sentenciou um veterano. Tempos depois o conhecimento deu-se, por vezes dormia na Pra-kys-tão, outras vezes na Ras-te-parta, chegou a ser gozado porque começava a alinhar as primeiras notas de "O meu menino é d'oiro", e subitamente deixou de ser um ídolo do canto e da poética para se transformar num símbolo de resistência e dignidade. Eu conto.
Na crise de 62, o luto Académico dominou a cidade. A Universidade parou, e a cidade foi solidária com os estudantes.
Nisto, vem um convite para o Orfeon ir aos Estados Unidos. O apelo do tio Sam foi mais forte do que o luto Académico, e muitos cederam (na altura dizíamos traíram, mas como essa palavra parece hoje muito radical e esquerdista, corrigi o que me ia na alma).
E o Zeca foi convidado para ir, dado o cartaz especial que a sua participação pres¬supunha. Ofereceram-lhe molhos de notas, mais a garantia da edição de dois dis¬cos, e o Zeca, eternamente teso, que nos aconselhava a comer bolos com Creme porque tinham mais vitaminas, recusou essa oferta "Divina".
Foi esse Zeca que se entusiasmou com o convite para ir à Música Velha, que ficou abismado com o ambiente que o recebeu e que agradeceu enviando a letra de "Grândola, vila morena" ao José da Conceição, director da colectividade, com o inesperado resultado histórico de se vir a transformar na canção do derrube do fascismo.
E foi nesse caldo de Cultura e agitação, que se organizou um grupo de teatro, com a gente da terra, empregados de comércio, operários da cortiça, ferreiros, electricistas, costureiras, e um ou outro estudante.
Como eu tinha a paixão pejo teatro, tinha estado no CITAC em Coimbra e nesse tempo pertencia ao Cénico de Direito, convidaram-me para fazer uma peça. Propus "Gota de mel" de Leon de Chacerel, uma peça curta do estilo coral, a favor da Paz.
A peça foi feita, no fim o público pediu "bis", os actores disseram que sim e repetiram a peça! Com este êxito, foram convidados para outras terras, e depois, logicamente, a peça foi proíbida. Nem outra coisa seria de esperar de uma peça que estava contra a guerra, na altura em que o decrépito regime através do seu porta-voz Salazar ordenava: para Angola, rápidamente e em força! É desse tempo e dessa experiência que eu guardei uma lição para a vida. Foi a certeza de o teatro ser uma arma fantástica de comunicação, que convém tratar com delicadeza e sem ambiguidades.
Uma conversa entre pai e filho
Não, meu filho, abre os olhos.
É evidente que temos de continuar a amaldiçoar o 25 de abril, por uma questão de tradição e até de respeito por nós próprios e pelos nossos avós e bisavós., pessoas simples, mas obedientes e tementes a Deus.
E a verdade é que esses malandros que estragaram este país também nos queriam prejudicar, e se não nos fizeram pior foi porque eu me fiz amigos deles, passados uns tempos já havia aquela conversa "o que lá vai, lá vai", "somos todos portugueses", "temos é de olhar para o futuro ".... como se essa gente tivesse esperteza para ter algum futuro!
Eu é que percebi logo que a liberdade e essa coisa da democracia que eles andavam para aí a apregoar era para quem tivesse unhas para tocar guitarra, e que eu saiba, ainda ninguém me bateu a cantar o fado.
Claro que eu gosto que tu tenhas essas ideias, mas tens de abrir bem os olhos, para veres como é que hás de ganhar, ganhar sempre.
Olha que a nossa vida antigamente, e até eramos dos mais ricos, era uma miséria: sopas de pão com leite ou café, um peixe frito, um naco de carne de porco, um pêro e pouco mais. O ano inteiro. O dinheiro servia para juntar, para guardar, porque "nunca se sabia o dia de amanha", podia haver uma doença, um azar na vida, um parente que nos roubasse ou enganasse, era uma vida desgraçada.
Tu nem podes imaginar o que a geme penava. E depois, nunca saíamos daqui, não conhecíamos o mundo, passávamos a vida com inveja da vida dos reis e princesas do Estoril, o nosso dinheiro nunca crescia coisa que se visse.
Hoje, tudo é diferente. Nunca ganhei tanto, nunca fui tão rico, nunca gozei tanto como agora. Assim está bem, assim é que é vida.
E também é bom que haja estes governos que acham que têm de ajudar toda a gente. Temos é de ter os olhos bem abertos para também nos calhar algum. Tu estudas, ou finges que estudas que é a mesma coisa, felizmente nunca hás de precisar dessa porcaria desses cursos para nada, comprei-te um Ferrari para fazeres figura lá na Faculdade, e não pagas propinas ... julgas que isso cai do Céu?
É preciso conhecimentos, bons conhecimentos, e dinheiro, está claro, que isto hoje ninguém faz favores a ninguém, para os gajos do fisco não nos apanharem. Também nos ajudam na saúde, na crise das fábricas, nas reformas.
Achas mal?
Ah, achas que é dinheiro mal empregado para chulos, pretos, ciganos, gajos que não trabalham ... Oh rapaz, isso é conversa que a geme diz para enganar os paro¬los ... as boas ajudas vêem para a gente e não para essa gentalha ... para esses vão umas migalhas, e ficam logo todos satisfeitos a votar onde nós dissermos.
Bem,.também é preciso dizer que a vida antigamente era uma desgraça completa, e eu não gosto de ver gnte na miséria.
Nem na miséria, nem bem desafogados.
Nem oito, nem oitenta.
O que é bom é tê-los na mão. Para eles perceberem que sem a gente, nunca se safam. Quando estão com a corda na garganta, dá-se lhes uma ajudinha, eles ficam todos comentes, calam-se, e até agradecem a Deus por nós sermos tão boas pessoas. Agora, outra coisa: claro que não podemos ficar parados só à espera do que a gente saca a esses palermas do Governo.
Também temos de fazer pela vida.
Olha para o teu avô. Como sabes, todos os dias de manhã o levo para pedir esmola à freme daquela charcutaria fina. Não custa nada. Paro o Audi, abro a mala, tiro o banquinho, ele senta-se, põe aquele ar de boa pessoa, e é só estender a mão.
Por volta da uma hora vou buscá-lo, come qualquer coisa, pouco, que ele nunca foi homem de grandes cornezainas -,e muitas vezes volta para o seu posto.
Eu até lhe digo que ele gosta de trabalhar por rumos ... ah, ah, ah ... bem, tira uma média de 100 contos por dia, mesmo esta porcaria estando em crise. Já fizeste as contas? 500, 600 contos por semana, sem impostos, retenções na fonte, Ivas, essas vigarices todas!
É isto que tens de meter na cabeça: há muito dinheiro a ganhar, é preciso é inteligência.
O senhor de roupão amante dos pássaros
Manhã cedo, sobem as persianas, ouve-se correr o reposreiro, abre-se a porra-janela e ele surge na varanda.
Totalmente calvo, de olhar inquieto e frio, este velho com ar de velho, enfarpela¬do num roupão beije com lencinho branco na algibeira, usando um eterno lenço azul de seda ao pescoço, tresandando a perfume a quilómetros de distancia, despertava a curiosidade das várias gentes que - já era a força do hábito -, costu¬mavam espreitá-lo e gasravam horas a imaginar quem seria aquela pouco tranquilizante personagem.
- "Vê-se logo que é pessoa fina!"
Um jovem estudante, ainda por cima cinéfilo, refilava: com aquele estilo, parece um oficial nazi.
- Se calhar, nem é português!
O homem respirava o ar puro, via-se que tinha um cerco bom gosto ecológico, per-corria vagarosamente a rua e o parque com o olhar, voltava para dentro de casa, e reaparecia minutos mais tarde com uma gaiola onde um lindíssimo canário solta¬va trinados de fazer inveja ao Pavarotti.
O homem espalhava bocadinhos de pão ao longo do parapeito, deixando ao cen¬tro uma pequena clareira onde pousava delicadamente a gaiola.
Começava então um ritual estranho: aterravam na varanda pombos, pardais e outra passarada de mais difícil identificação, e debicavam ° pão generosamente oferecido pelo homem. Mas este quadro idílico e pastoral tinha um contraponto terrível: dentro da gaiola, o pobre canário, lutando por conquistar também a sua migalha, atirava-se violentamente contra as grades da gaiola e piava com aflição. Perdia o belo canto e ganhava a dor e a revolta.
Este ritual durava vários minutos. Até ° pão acabar no parapeito, e as aves esvoaçarem de novo alegremente.
Nessa altura, exausto e, com certeza indignado, o canário acocorava-se na base da gaiola.
O homem, satisfeito, sorria e levava o seu pássaro de estimação para dentro de casa.
- Curioso, parece que ele está a ensinar qualquer coisa ao pássaro!
- Coitado do canário, deve estar cheio de fome!
- Isso não acredito. O senhor deve dar-lhe boa comida. Tomara eu.
- Olha, se calhar isto é para o canário perceber que há pássaros que não são tão felizes como ele, e por isso deve portar-se bem.
- Pode ser, o senhor deve ser boa pessoa e está a preparar o canário para a vida.
- Nunca se sabe o dia de amanhã.
E assim continuavam as conversas e as mais variadas sugestões, que, como vimos, provinham de diferentes campos ideológicos, o que só abona em favor da democracia.
Anos mais tarde, o senhor morreu.
O velório e o funeral foram discretamente concorridos, mas quem lá estava era gente da mais fina água: o bispo, uns padres, altos dignitários do antigo regime, industriais, oficiais do Exército com brilhantes condecorações da guerra colonial, cavaleiros rauromáquicos, umas viúvas, e alguma "gente anónima" mas que, curiosamente, não parecia povo.
Pelo menos, não era o tal "povo humilde" tão generosamente cantado pela fadis-tagem de antigamente.
AJguém informou mui lacrimejante, que o senhor tinha sido um digno reformado da função pública. De brilhante folha de serviços como célebre director da Pide.
Percebeu-se então o motivo do esrranho ritual do pão e dos pássaros. Como funcionário digno e íntegro, é evidente que o senhor não queria perder o hábito e o prazer de torturar. É mesmo possível que ele pensasse que o país pode¬ria voltar a ser aquele, já longínquo, que ele sempre tinha idolatrado e defendido, e, quem sabe? poderiam precisar outra vez dele ... por isso, não havia como conri- nuar a praticar a sua reconhecida e respeitada especialização policial.
E o canário?
Dizem que alguém abriu a gaiola e o deixou voar.
Finalmente, em liberdade.
Lá estava ele, a engraxar os sapatos e de óculos escuros, com tal postura que se eu não o conhecesse diria que era um gajo da Pide.
- Eh pá, aconteceu uma coisa chata. Tive um acidente com o carro, não te pude trazer a mala. Convenci os gajos da Pide a deixarem-me vir comprar caramelos e chocolates, só para te avisar.
- Afinal, até há gajos porreiros na Pide. Não te esqueças de lhes dar uns rebuçados e Uns brinquedos para os meninos.
Uns últimos copos, mais abraços e os velhos conselhos para termos cuidado, até breve e boa viagem.
Faltava tempo para o comboio, fui comprar pasta de dentes, um pente, e coisas para a barba, distrai-me numa livraria e numa feira com o olhar e a conversa com uma bela menina, quando cheguei à estação já a máquina tinha arrancado.
- Merda, que chatice, nem nestas alruras tenho juízo!
Depois desta auto-crítica, que eu tentei que fosse o mais sincera possível, tinha de arranjar onde dormir algumas horas porque o próximo transporte era um autocar¬ro para Madrid às 5 da manhã. E este não podia falhar, porque era evidente que Badajoz não oferecia segurança nenhuma, dada a conhecida colaboração entre as polícias porruguesas e espanholas.
Claro que os hotéis estavam à cunha, e tive de recorrer à velha saída que eu já tinha experimentado noutros países: nos bairros de prostituição tem sempre de haver camas porque senão o negócio ia abaixo, e com o comércio da ternura sexual não se brinca.
Lá dormi como pude, até o despertador horroroso me expulsar da cama. Em Madrid gastei umas pesetas no barbeiro e numa camisa, e instalei-me no com¬bóio para Madrid.
Está quase, pensava eu, enquanto ia tentando descobrir patrícios portugueses. Parece incrível, mas o combóio ia cheio de Argelinos e Marroquinos, e de Portugueses só viajava a minha miserável espécie.
E agora? Único passaporte português, sem mala, com um ar que não tem nada de emi¬grante, como é que vai ser?
Felizmente, os companheiros de viagem eram pessoas habituadas a sofrer e ao auxílio mútuo. Deram-me comida e bebida - só água, é lá uma coisa deles - iam trabalhar para a Holanda em fábricas, e uma bela Marroquina ia ser ajudante de enfermagem num hospital para Arnsterdam. Quando chegámos à fronteira, levei uma das malas da minha companheira, por uma questão de cortezia e principalmente porque a polícia não gostaria de ver um português chegar a França só com uma pastinha e um jornal debaixo do braço. O polícia abriu o passaporte, viu os carimbos de passagem das anteriores fronteiras totalmente correctos, era mais uma habilidade do nosso grupo, folheou, carimbou' e deixou-me passar.
- Já cá estou!
Sim, mas ainda faltava outro roque anedótico nesta quase odisseia. A minha companheira pediu-me a mala para tirar uma coisa de que precisava. Abriu e, é claro, a mala estava cheia de roupa interior feminina.
E se o polícia me tivesse pedido para abrir a mala? Como é que eu explicava aquela roupa? Dizia que a mala era da minha mulher? E se ele quisesse ver a mala da minha mulher? E se a mala dela tivesse as mesmas coisas, ou ainda pior. .. hachiche, coisas assim, com marroquinos nunca se sabe ... E se ela dissesse que não era minha mulher? E se eu dissesse que era travesti, ou artista de variedades? Não, para a outra vez não car¬rego mala de mulher. Peço a um homem para lhe levar a mala ... porra, isso ainda é pior, o que é que o gajo vai pensar?
Estava eu nestes pensamentos confusos, e sem saída à vista, quando fui interrompido por um beijo. Nada de alegrias excessivas, era um último beijo de despedida, boa sorte para ti e para ti também.
Paris, Austerlitz.
Outra vez, mas agora já não era a chegada ou o ponto de passagem de turismo ou de participação em Festivais Internacionais de Teatro.
Telefonei para vários amigos Franceses e portugueses, e ninguém atendeu. Era natural, - 17 de Agosto, férias -, fui para o Quartier Latin, para a Maspero, a livraria responsável pela divulgação de textos e formação de milhares de jovens nos anos 60.
Ia a chegar à livraria, e encontro o Idálio, um camarada que eu tinha ajudado a fugir um ano antes!
Grandes abraços, "afinal, Deus não dorme!", vais lá para casa, horas depois já tinha umas calças e umas camisas, há cá malta porreira, temos de fazer qualquer coisa, aqueles filhos da puta ...
Realmente, as coisas tinham dado uma grande volta.
A partir daqui, a história era outra.
E as coisas deram uma volta II
Bem, por enquanto estava a salvo mas o jogo começava a ser a sério.
As coisas estavam mesmo a dar uma volta, já nada seria como antigamente.
E aquilo deles partirem a mobília, olha se me tinham apanhado. Com o apoio dos amigos, passei por um período de máscaras, outro nome, um bigode, e estilo de bon-vivant, o que não deixava de ser natural em tempo de férias. E, além disso, era o que se casava mais com o nosso estilo de juventude radical (?) ou utópica pequeno-burguesa.
Depois de conseguir que enviassem de Paris uns postais escritos por mim para a Pide os apanhar e pensar que o pássaro tinha fugido, comecei a organizar a fuga, operação mais conhecida pelo "salto".
Restabelecidos alguns contactos, com coincidências inacreditáveis, de que cito o facto de ter estado numa casa ultra segura, de gente que não tinha nada a ver com acções clandestinas, de ter procurado algum livro para ler e só ter descoberto "Os subterrâneos da liberdade" do Jorge Amado! Enfim, ajudou a integrar-me melhor na minha nova situação. (Nunca perguntei, mas será que os meus amáveis anfitriões tinham decidido dar-me orientação pedagógica para ° meu futuro?)
O último "poiso" foi oferecido por um prestável e arnabilfssirno actor de teatro - é verdade, no teatro havia muita gente decente - que, finalmente, me levou ao ponto de encontro para a última viagem.
Estávamos em Agosto, o clima era insuportável e eu decidi fazer a saída no pino do calor com o argumento óbvio que os guardas estariam em casa a fazer a sesta, coisa que nunca seria garantida pela fresquinha ou durante a noite.
No caminho rimos o que pudemos, gozámos os Pides e contámos anedotas. E nada disso era forçado, pois a nossa acção anti-fascista tinha uma enorme componente lúdica assente na convicção de, mais cedo ou mais tarde, vermos a Revolução triunfar. E que outra coisa poderíamos pensar quando já tínhamos auxiliado a fuga de dezenas de camaradas das mais variadas tendências de esquerda, e víamos uma constante subida da consciência política a nível nacional?
A fuga foi bonita e digna das melhores tradições portuguesas: saí a nado pelo Guadiana, a alguns metros de um pacífico pescador (que podia ser um guarda, dizíamos nós, mas como o tempo passava atirei-me à agua e ele continuou à espera de o peixe morder o anzol).
Atrás de mim, outro camarada nadava empurrando uma bóia e uma prancha de madeira que albergava um saco de plástico com a minha roupa - fato, camisa, gra¬vata, sapatos - se um guarda me apanhasse, ia a Badajoz ver uma namorada ... Aliás, tínhamos o princípio de nunca fazer qualquer acção com blusões, jeans, nada de cabelos compridos, nada que alertasse os rapazes da prestimosa associação para as imagens cliché que eles perseguiam.
O outro camarada faria o habitual: passava a fronteira com o carro e entregava-me a mala para eu demandar terras de França. O resto estava em ordem: algum dinheiro em escudos, pesetas e francos, e pass-aporte "válido" com carimbos de salda de Porrugal e entrada em Espanha.
Depois de um magnífico e agradável "crawl", fato vestido e último abraço ao meu camarada nadador salvador, meti-me ao caminho a corra-mato, evitando a estrada e as poucas casas que polvilhavam a charneca desértica.
O sol não me poupava, e umas horas mais tarde parei cheio de inveja ao lado de um cavalo que se deliciava a beber água num tanque ao lado de um monte. Recebeu-me com um relincho, uma patada no chão e um brrrrrrr, que não perce¬bi bem se era irónico ou pelo prazer de ter um companheiro. Seja como for des- viou-se um bocadinho, tinha ar de ser um convite pata eu partilhar aquele pequeno oásis.
- Usted quiere agua?
Era uma camponesa de meia idade, que sorria à porta de casa. Lembrei-me da guerra civil de Espanha, da solidariedade entre os dois povos entalados entre o fran-quismo e o salazarismo, mas também de muita gente do povo se ter tornado denunciante e colaboracionista do fascismo. Pensei nisso tudo, mas não resisti.
- Sim, estou cheio de calor. Enquanto bebia, reparava que o lenço na cabeça, a blusa de flores discretas e a saia azul escura me aproximavam da imagem das mulheres Alentejanas, e apesar de ser uma parvoíce acreditar nos tópicos tradicionais, a verdade é que isso me tranquilizou.
- Si quiere, puede entrar, hay mucho calor.
- Gracias, tenho pressa. Falta mucho para Badajoz?
- No, es muy cerca. Por detras de aquellos arboles está el rio. Es seguirlo siernpre.
- Gracias,adiós. - Adiós.
Nos arredores apanhei um autocarro para o centro - boa ideia , a de ter pesetas ¬e mal pus o pé no passeio ouvi o assobio que tinhamos imaginado como sinal para as nossas acções.
E as coisas deram uma volta - I
Eram 19 horas, liguei o habitual número de telefone.
Pi - Pi - Pi - Pi - Pi ...
Que raio, porque é que o gajo não responde?
- Faz favor, quem fala?
- Quer falar com quem? Quem fala? Quem é você? Desliguei.
Se tudo batesse certo, isto queria dizer que o meu contacto tinha sido preso.
Nem podia ser outra coisa. Três ou quatro anos a fazer aquele telefonema, àquela hora precisa, chamando não importava de que lugar do mundo, ao segundo Pi-Pi ele levantava o auscultador, trocávamos uns monossílabos ou nem isso, e ficávamos descansados.
Desta vez, os espias tinham acertado. Que fazer? Como diria Lenine ... não pude deixar de rir ironicamente perante o absurdo que era recordar um guia para a organização revolucionária, quando o que me restava era salvar a pele.
Ser preso, não queria nem me apetecia.
Nunca tinha percebido a posição de um camarada que, tendo sido avisado da sua prisão iminente, tinha preferido entregar-se às mãos da Pide. Arroubo místico? Vocação de mártir? E que luta se fazia na cadeia? Porque é que qualquer preso só pensa em fugir?
- "Fugir já? Não é melhor esperar? Pode ser que ele não fale. Tem calma. Se calhar aPide deu um tiro no escuro e não descobriu nada".
Depois de duas ou três conversas, fiquei outra vez sozinho com as minhas interrogações. Aliás, com as minhas certezas, que incomodavam alguns camaradas:
- "A nossa posição tem de ser que camarada que vai preso fala sempre. Só assim estamos disponíveis mentalmente para preparar a nossa defesa. Se o camarada não falar, melhor."
A minha frente abria-se um caminho totalmente novo, as coisas tinham dado uma volta.
As desilusões começaram a surgir. - "Não, não podes ficar lá em casa, a família desconfia"; "se eu pudesse ajudava ... para a próxima, conta comigo; "bem, eu acho que as coisas não estão bem, mas também não tenho as vossas ideias",
afinal estávamos mais isolados do que julgávamos,
calma, todos os movimentos revolucionários começaram assim, olha o Lenine com a "União de Luta '; o Mao na China, o Fidel e a Sierra Maestra,
E foi então que decidi aproveitar o clima da época, era Verão, o melhor refúgio acabava por ser a praia, e assim juntava o útil ao agradável, até saber mais notícias da Excelentíssima Pide.
Um amigo albergou-me, passava o dia à beira-mar, nadando e interrompendo para ler textos de Ma1com X, Luther King e Black Power - além de ser a época do acor¬dar negro nos USA, esse tema era para nós muito importante porque se relaciona¬va directamente com o nosso objectivo imediato que era a luta contra a guerra colonial.
À noite saíamos e visitávamos as pistas de dança, tomávamos uns copos, e olháva-mos para as miúdas. Tudo o mais natural deste mundo, até porque havia sempre a secreta esperança de o preso não ter falado, o que nos fazia dizer o que é preciso é descontracção e estupidez natural pois era, o pior foi quando um amigo me viu na rua eh pá, tu estás aqui, olha a Pide foi ontem a tua casa, cercaram aquilo com 15 gajos de metralhadoras, partiram os teus móveis, levaram tudo, e prenderam um gajo que estava lá a dormir - obrigado, pá - não digas que me viste
porra, o gajo filou mas também não era preciso ter filado tanto. Cercarem a casa! Quer dizer que o gajo jà falou dos roubos de armas nos quartéis! Estou lixado.
E depois comecei a rir, a pensar no ódio dos Pides quando entraram no meu quarto. Eu tinha preparado um cenário para lhes fizer perder a paciência. Em cima da secretária, um Livro aberto de Mao- Tsé Tõung sobre tácticas de guerra, e em cima do guardafato tinha posto um pacote com a indicação "não mexer ". Dentro do pacote estava um enorme caralho das Caldas, com um Lacinho cor de rosa ... coitados, é natural que me tivessem partido a mobília... um grupo de bons rapazes amantes da Pátria e tementes a Deus, católicos, apostólicos, Romanos, com certeza habituados a transportar o andor em Fátima, fUncionários da toda impune, poderosa e terrorífica Polícia de Investigação e Defesa do Estado, a serem gozados por um puto estudante de Direito.'
São coisas que acontecem às ditaduras e à canzoada ao seu serviço, são os tais ossos do oficio.
O benemérito - I
Vindo do nada, como ele gostava de dizer, tinha amealhado uma bela fortuna.
E como a vida lhe tinha ensinado que ostentação de riqueza era garantia para futu-ros bons negócios, comprava as ultimas marcas de carros e até tinha mandado fazer um de encomenda.
- Igual a este é que ninguém tem, e dava umas palmadas na carroçaria do "animal", como se fosse o velho burro com que calcorriara terras e casas perdidas vendendo peixe, linhas, dedais, cal, carvão, panos de Espanha, a seguir ouro, lotaria, batons e coisas da moda para as moças, bebidas esquisitas, fotografias de boas maganas para os moços se distraírem, seguiu - se o maná das fotografias pornográficas, depois também levava recados às escondidas entre amantes proibidos, alguém lhe deu a mão, meteu-se numa obra, depois noutra, vieram fábricas, as más línguas murmuravam que ele andava metido em negócios escuros - invejas, com certeza, não podem ver um pobre com uma camisa lavada - e foi o que se viu: a roda a andar e ele a rir, a comprar tudo, a vender este mundo e o outro.
- Alguma coisa aprendi enquanto andei por aí a penar, e ajustava a barriga no colete.
Tudo corria bem, mas a dada altura deu em ficar triste.
- Oh homem, o que é que se passa? Diziam os amigos da bisca de nove, à roda do tinto e do chouriço.
- É que a minha Josefina anda abatida e diz que esta riqueza toda ainda nos pode trazer alguma desgraça, que os homens se queixam que ganham mal, as mulheres andam a comprar tudo fiado, outros estão doentes, não sei o que hei-de fazer. - Bem, isso lá da tua mulher não ligues. Ela é Josefina, tens de ser o Napoleão.
- Mas eu só sou o Manel das berças.
- Mas afinal qual é o teu problema?
- Não gosto que digam mal de mim. Queria que esta gente percebesse o bem que lhes tenho estado a fazer. Isto é uma grande ingratidão, porque se não fosse eu, o que era feito destes desgraçados?
- Oh homem, ajuda à construção de uma nova igreja, o padre diz bem de ti na missa, o que é que queres mais?
- Não, isso não é boa ideia. Há aí geme que não gosta de igrejas, nem de padres, nem de procissões. Não, eu quero é uma coisa que ninguém possa dizer mal de muno
- Olha, ajuda o clube de futebol. Falam de ti na televisão, ficas um herói, ainda vais para presidente da Câmara.
- Era o que faltava. Aturar essa gente sempre a discutir comigo, gajos a impingirem-me jogadores, a gente a perder jogos e a dizerem que a culpa é minha! E julgam que eu tenho dinheiro para pagar aos árbitros? Vocês estão doidos! E depois também há para aí uns gajos que não vão em futebóis. Não, eu quero uma coisa em que ninguém possa dizer mal de mim.
O drama do Senhor Joaquim - II
Na grande cidade não perdeu tempo e foi ao escritório na Baixa.
- Não, o senhor Rolim não está, disse o porteiro.
- Eu preciso de falar com ele, vim de longe.
- Tem vindo cá muita gente, mas ele não está cá. Deve ter ido ao estrangeiro.
- Eu não saio daqui sem falar com ele. Estou desgraçado, tenho de pagar aos homens que trabalham comigo, o senhor Rolim conhece-me bem, ele gosta muito do meu Zé Luís, eu nem acredito no que se está a passar.
- Foi uma desgraça, suspirou o porteiro, quem havia de dizer ... uma casa destas! O senhor quer um cigarro?
- Não, obrigado, agora não me apetece. Mas não se pode dar um recado a alguém?
- Posso tentar telefonar para a secretária dele, mas aviso já o amigo que isto não vai dar resultado nenhum. Como é que o senhor se chama?
- Joaquim, diga que eu sou o Joaquim, o pai do Zé Luís.
- Um momento ... sim, olhe menina Felizbela, desculpe incomodar mas está aqui um senhor, diz que veio de longe, é o senhor ...
- Joaquim, pai do Zé Luís.
- É o senhor Joaquim, pai do Zé Luís. Está bem, eu espero.
- Esperamos um bocadinho, ela já diz qualquer coisa.
Trrim! Trrim!
- Já?! Sim, como? Ah, está bem.
O porteiro, surpreendido, desligou, e disse para o senhor Joaquim subir ao 7° andar.
- Oh senhor Joaquim, muito gosto em vê-lo, a senhora Idalina, o menino, esse malandro do Zé Luís, está bom?
- Tudo bem, graças a Deus.
- O senhor Joaquim vem por causa do dinheiro, não?
- É verdade, senhor Rolim, tenho de pagar aos homens, estava a contar que o senhor pagasse.
- Isto foi uma desgraça, foi uma desgraça.
- Senhor Rolim, não há negócio, paciência. Mas dê-me a cortiça outra vêz; eu vejo se a vendo noutro sítio.
- Oh senhor Joaquim, eu já não tenho a cortiça, foi lá para fora, não me pagam, o que é que eu hei-de fazer?
- Senhor Rolim, não me desgrace. Eu não posso acreditar que não tem dinheiro para me pagar aquela meia dúzia de tostões.
- Não tenho, não tenho. Desculpe, mas não posso fazer nada.
- Não me desgrace, disse o Joaquim apontando-lhe a pistola, não me desgrace, olhe que eu mato-o.
- Mate-me, mate-me, o que é que quer que eu faça? O senhor Rolim chorou, invocou a amizade que tinha pela família do senhor Joaquim, gritou contra a sua infelicidade, e o Joaquim saíu sem ouvir as últimas lamúrias.
- Foi assim, mulher, o que é que eu podia fazer?
- E agora?
- Agora vou vender a fabriqueta para pagar aos homens e vou fábrica grande, o que é que queres que eu faça?
- É preciso vender tudo?
- Se calhar, nem chega. Mas a televisão é que eu não vendo.
- Ainda bem. Olha, é a única alegria que nos resta desse tempo.
E o tempo passou, o senhor Joaquim foi para Outra fábrica, o Zé Luís foi trabalhar . porque era preciso ajudar a família, e assim se equilibrou aquela gente como foi possível.
Um dia, estavam a ver as notícias pela televisão.
Locutor
- Acabou de ser inaugurada no Algarve uma explêndida unidade hoteleira de propriedade do senhor Rolim, célebre industrial de cortiça.
- O quê? Eu mato esse malandro, eu mato-o.
- Locutor - a inauguração teve a presença do sr. Almirante Américo Tomás, excelentíssimo Presidente da República e ourras altas individualidades da vida política e empresarial Portuguesas.
- Desliga essa merda, ou eu parto isso tudo.
- Oh Joaquim, pronto deixa isso. Já passou. - Deixe isso, pai.
- Olha Zé Luís, abre os olhos, nunca te esgueças do que são estes malandros. Vou- me deitar.
........................................
O senhor Joaquim acabava de fazer a mala, e perguntou:
- Então, não se despacham?
- Para onde é que vamos?
- É surpresa
Longa viagem, chegaram ao Algarve, e dirigiram-se a um hotel magnífico.
_ Tem quartos? _ Com certeza.
- Um para mim e para a minha mulher, e outro aqui para o rapaz.
Passaram dias magnificos, praia, campo, grandes refeições no hotel.
- Bem, jd estou farto de férias. Vamos para casa, disse o senhor Joaquim.
- Já, oh pai, tinha combinado ir ao baile com a Isabel.
- Fica para a outra vez. Vamos embora.
Na recepção.
- Ora o senhor Joaquim tem aqui a sua continha, são ....
- Eu não pago. Ponha na conta do seu patrão, do senhor Rolim, desse malandro que me roubou e me pôs na miséria. Gritos, barafunda, polícia, confusão.
O humor e a ironia II
A seguir ao 25 de Abril, também os inimigos do fim do fascismo perceberam a importância do humor. E houve a grande moda das anedotas de Alentejanos, que eram sempre broncos, preguiçosos, enfim com rodo um rol de "qualidades" que o tornavam pouco recomendável para qualquer convivência com as pessoas "sérias e de sucesso" deste país.
Essa acção sistemática a que podemos chamar de "agitação e propaganda" destinou-se a criar um clima de desprezo, cinismo e marginalidade em relação ao Alentejano.
Isso era necessário para o plano de destruição do Alentejo que foi posto em prática por vários Governos e que consistiu no roubo e deserção organizada da indústria corticeira, no aniquilamento do que restava de postos de trabalho e produção no campo, no pagamento de indemnizações milionárias aos agrários absentistas para que vá para a frente o grandioso plano de criar mato e coutadas.
Os custos sociais conhecem-se: desertificação do Alentejo, aumento do suicídio (porque, como é gente que não sabe "ficar na moda" roubando e vigarizando, tem vergonha e acaba com a vida), fuga para bairros da lata na grande cidade, regresso da procura das "terras de França".
É para ocultar estes crimes que as anedotas contra o Alentejo funcionam como capa prorectora contra a indignação que, logicamente, devia assaltar todos os portugueses. É uma velha táctica. Também Hitler e os seus nazis contavam anedotas sobre judeus antes de os fecharem em câmaras de gás.
Claro que, pouco a pouco, essas anedotas vão acabar. Quando o Alenrejo estiver destruído ou descaracterizado, elas desaparecerão como por encanto.
Não acreditam?
Lembram-se das anedotas sobre o Samora Machel? Assim que ele foi assassinado, não houve mais anedotas. Já tinham cumprido o seu papel.
Para terminar estas notas sobre humor e ironia, recordo um artigo publicado no jornal "Ecos de Grândola" para ajudar à campanha contra o plano governamental de colocar nessa região aterros de lixo tóxico. Uma região que, por ausência total de indústria, não produz um grama de lixo tóxico, uma região que qualquer Governo tem sempre considerado uma "jóia da Coroa do turismo português" ... O tal artigo para animar a malta e agradecer ao nosso querido Governo chamava¬se GRANDOLÂNDIA.
GRANDOLÂNDIA
Finalmente, boas notícias!
O plano de desenvolvimento da nossa região está em avançada fase de concretização. É com prazer que damos a conhecer alguns dos pontos mais interessantes. Também podemos informar que este projecto do Ministério do Plano conta com o entusiástico apoio do Banco Alemão, o que, como se sabe, é garantia absoluta para receber os necessários subsídios europeus.
Princípio geral
A região de Grândola será cercada de arame farpado e os seus habitantes beneficiarão do estatuto de reserva indígena. Este será o primeiro passo para criar a Grandolândia. E como se trata de uma experiência piloto, todas as medidas pre-vistas terão de ser executadas com o máximo rigor.
Agricultura
1 - A cortiça. É a maior riqueza deste concelho. Infelizmente como há cada vez menos tiradores de cortiça, o preço da tiragem é caro e principalmente porque as fábricas se deslocaram para o norte do país, deve-se proceder urgentemente ao arranque e transplantação dos sobreiros para essa região.
2 - Como a agricultura está em crise e é proibido produzir para que a Europa dê vazão à sua produção excedentária, deve haver grandes queimadas na serra (já limpa de ãrvores inúteis) para desenvolvimento de um turismo rural inovador: «escorregas» nas encostas para a juventude (talvez usando a água de uma fonte se possa fazer um «aqua-parque», quem sabe ... ), arranjo de grutas para a terceira idade, etc.
3 - Como o Alentejo se está a transformar em zona de lazer de fim de semana para os citadinos, aconselha-se a reparação de montes e currais para venda imediata.
4 - Repare-se no extraordinário incremento de novos empregos: incendiários legalizados, caçadores de lagartixas, pedreiros de fim de semana, polidores de grutas, etc.
Indústria
1 - O aterro. Sendo este projecto a grande esperança para o desenvolvimento da região, o governo não se poupou a esforços para a sua viabilização e maior aproveitamento das suas enormes potencialidades. Assim, decidiu:
a) Criar a UNIVERSIDADE DO LIXO, centro de estudos dos males necessários da nossa civilização: produtos estragados, dejectos, tóxicos, esterco, estrume, etc. b) Garantir a importação dos produtos mais perigosos a nível mundial, de forma a garantir alto nível de pesquisa da universidade do lixo de Grandolândia.
2 - A população indígena será utilizada na descoberta, recolha e investigação do lixo e servirá para experiências de laboratório destinadas a determinar o grau de perigosidade do aterro.
3 - Este último ponto foi bastante polémico, dado que vários ministros denunciaram que isso se tratava de um escandaloso favoritismo em relação aos indígenas de Grândola. Os representantes de Grândola nos centros de decisão política souberam defender os seus ditei tos, assim se garantindo outra fonte de emprego.
Turismo
- A orla marítima. Durante anos viveu-se no marasmo. Agora que toda a zona costeira já foi dividida pelos grandes investidores internacionais, pode-se olhar para o futuro com optimismo.
2 - Zona de tolerância sexual. O governo decidiu atribuir este privilégio à Grandolândia para garantir trabalho e um futuro promissor à juventude indígena. Serão aberras prosrfbulos, saunas, centros de massagens, cursos de prostituição masculina e feminina, erc. Clientela não falra. Sabe-se que a concorrência é terrível com os paraísos sexuais asiáticos, mas o encanto e a audácia dos grandolenses há-de vencer esta batalha.
3 - Droga. Sabe-se que se conseguiram grandes êxitos no consumo e disrribuição de droga. Mas o caminho a seguir é o da produção própria. Assim, o governo vai conceder à Grandolândia o estatuto DQPRD (droga de qualidade produzida em região demarcada). Trata-se de prestigiar a droga produzida pelo espírito inventivo dos grandolenses, o «piquinho»: pó de cortiça, concentrado de carqueja e uma pinguinha de azeite.
4 - O castelo. Uma questão rem inquietado os grandolenses desde sempre: se Alcácer do Sal, Sanriago do Cacém e Sines têm castelos, porque é que Grândola não rem? Atento a esta questão, o governo apoiou a pesquisa e descoberta do caste¬lo de Grândola. Esrudos realizados e fotos tiradas do satélite espião ZBX-23 (USA), indicam que o castelo está soterrado na serra da Penha. Já estão em organização brigadas de estudantes que, com martelos, escovas e ancinhos irão descobrir essa nova fonte de riqueza turística.
5 - As jaulas. Trata-se, talvez, do maior aliciante rurfstico e de incontestável sucesso.
a) Dentro da reserva haverá lima ZOna fechada com jaulas, onde estarão grandolenses que foram comunistas, socialistas, democratas ou simplesmente contra o antigo regime ilegalmente deposto pelo 25 de Abril.
b) Numa jaula especial estarão os católicos amigos do actual Bispo de Setúbal. c) O cicerone previsto para guiar os turistas é Herman José, dada a sua habilidade para divertir as pessoas e contar anedotas sobre aJentejanos. É muito caro, mas é um investimento que vale a pena.
d) Na zona das jaulas poderá ouvir-se constantemente «Grândola Vila Morena» para que, juntamente com o terror que essa canção inspira, se instale o prazer de ver os seus fanáticos admiradores na prisão.
E por hoje é tudo. Sei que não é muito, mas espero que este plano deixe os meus conterrâneos mais optimistas em relação ao futuro.
Aconselho-vos calma. Nada de precipitações. E, já agora, enviem uns milhares de postais de agradecimento ao nosso querido e amado governo.
O humor e a ironia- I
Nem só de lágrimas vive o homem.
E não há melhor resposta contra a repressão, de ontem e de hoje, que usar o riso e a ironia para ridicularizar a prepotência e forçar à mudança de "costumes e ideias feitas".
Claro que a Censura estava atenta e nunca deixou de punir com o lápis azul e outras medidas de carácter económico os que se arriscavam a rir do chicote fascista. Foi assim que terminaram "Os Ridículos" e o "Sempre Fixe", para citar os órgãos de imprensa humorística que marcaram época.
E é nessa prática e nessa auto-defesa que se encontram as razões do êxito da revista à portuguesa com as piadas e os sub-textos referentes ao Santo Antoninho, às abóboras (lembremos que a alcunha do inenarrável Américo Tomás, último Presidente da República do fascismo era o "cabeça de abóbora), e mil e outras referências.
As anedotas, arma popular por excelência, nasciam como cogumelos, exercendo a sua função pedagógica de libertar o espírito, limpar as teias de aranha e o medo, e consequentemente preparar a disponibilidade para uma acção mais enérgica contra a decrépita e vergonhosa ditadura, a mais antiga da civilizada Europa.
Uma das mais célebres, rezava assim: De noite, um bêbedo muito bêbedo ia pela rua aos trambolhões, de vez em quan-do parava e começava a gritar:
- Eu, se tivesse cinco tostões comprava o Salazar! Eu, se tivesse cinco tostões comprava o Salazar!
Claro que ao fim de um bocado foi preso, e no dia seguinte foi apresentado ao tribunaL. O juiz - o senhor praticou um acto gravíssimo. Lembra-se?
O bêbedo - oh senhor doutor juiz, eu estava um bocado bebido, sabe ...
O juíz - isso não é desculpa. O senhor andava a dizer que se tivesse cinco tostões comprava o Salazar!
O bêbedo - oh senhor doutor, nem me diga isso. Um homem quando está bêbedo lembra-se de comprar cada merda!
Quando morreu o marechal Oscar Fragoso Carmona, Presidente da República do primeiro consulado fascista com Salazar em Presidente do Conselho de Ministros, estava em voga uma canção brasileira que Começava "Tomara que chova três dias sem parar ... ", e no dia do funeral já se cantava
Tomara que chova três dias sem parar
Lá se foi o Carmona
Já só falta o Salazar
E ainda; Dois Alentejanos passeiam pela aldeia, e vão falando.
- O compadre, há uma coisa que eu não percebo. À porta do barbeiro está pendurada uma navalha, o sapateiro tem lá um par de botas, e ali no quartel da guarda não está nada a indicar o que eles são ...
-Mas o que é que o compddre queria que lá estivesse?
- Pendurava-se um guarda Republicano e sabia-se logo.
- Ó compadre, o homem depois começava a cheirar mal ...
- Mudava-se todos os dias!
O humor constituia uma forma fantástica de auto-defesa Contra qualquer derrotismo. A título de exemplo, recordo como foi tratada uma situação extremamente grave com um colega que tinha sido preso. Ele usava óculos e não resistindo a interrogatórios e torruras de sono, partiu as lemes e ingeriu os cacos de vidro. Esta tentativa de suicídio, felizmente não resultou, mas esse caso emocionou especialmente a massa estudantil e a população cm geral. Quando ele voltou, e depois dos abraços e da alegria, tinha à sua espera duas anedotas; Ele saiu da cadeia e, evidentemente, tinha de ir comprar óculos. Dirigiu-se a um oculista, e, como era conhecido, o empregado perguntou-lhe:
- Ah, é o senhor, quer outros óculos, claro! Diga-me, é para embrulhar ou come já?
E a seguir, havia outra. Ele ia ao oculista, o homem perguntava-lhe que tipo de ôculos é que queria, e ele respondia:
- Desta vez quero experimentar Llntes de contacto.
- Ah, o senhor anda a fazer dieta!
o Soldado
Qual era o problema n? 1 da nossa juventude, nessa época?
Sem dúvida nenhuma, a Guerra Colonial.
Centenas de milhares de famílias tinham fugido para a emigração para salvar os fi¬lhos da ida para a guerra, e contavam-se por milhares os refractários e desertores que procuravam asilo por toda a Europa.
Era evidente que tínhamos de tocar esse tema, e foi o nosso trabalho seguinte. O sistema foi o mesmo - investigação, leitura atenta dos magníficos textos racistas de Kaulza de Arriaga, consulra de documentação dos movimentos de libertação, particularmente da Mensagem aos Soldados Portugueses de Samora Machel, texto do Manifesto dos Soldados Portugueses (apelando à deserção com armas), ampla¬mente distribuído nos quartéis em POrtugal e Colónias, e testemunhos ao vivo dos que tinham tido as experiências de deserção ou de guerra.
Com esta peça deu-se mais um avanço na recusa do carácter propagandístico e na forma naturalista; fomos percebendo que o público popular era extremamente inteligente na percepção das contradições, e sensível e aberto à inovação estética. (Claro que não era por acaso que Rosa Ramalho e ceramistas do Norte cultivam o fantástico, que António Aleixo consegue infiltrar filosofia no enquadramento da quadra, que a Arte Africana influenciou Picasso ... que ... que ... ).
E assim, com estas experiências bem práticas e bem vividas, fomos aprendendo a perceber a diferença entre o popular e o populismo, e a arriscar cada vez mais numa linha depurada de espectáculo, leve, sem maquinaria excessiva, investigando a metáfora popular, assente no humor e na sátira.
"O Soldado", estreado no dia 25 de Dezembro de 1972 na Maison des Jeunes et de la Culture de FRESNES, teve uma carreira brilhante por toda a França e deslocações a Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca e Suécia (onde as rádios e tele¬visões assinalaram a nossa passagem com entrevistas e gravações).
Com o "milagre de Abril", muitos voltaram para casa, para continuar a luta pela liberdade e pela democracia.
Mas os que ficaram ainda mamaram a peça que estava em ensaios desde 1973: "A terra a quem a trabalha!". Que raio este Teatro Operário! Parece que adivinhava as lutas que se iriam passar no nosso meio rural!
Termino citando um excerto de um texto que escrevi para introdução de uma edição da Centelha sobre o "Teatro Operário";
( ... ) saber divertir e saber fazer rir, tem a ver com a procura de uma técnica emo-cional. Mas nós não queremos que o nosso público esteja perante os nossos espectáculos como se estivesse a ouvir anedotas. ( ... ) excluídos o slogan e o discurso, a lição' professoral e enfadonha, a angustia, o pessimismo e o derrotismo, temos de saber comunicar de forma dialéctica e contraditória os dados, informações e emoções indispensáveis para que os cérebros e sensibilidades se abram ao que propomos. ( .... )
Como? Talvez seguindo uma opinião de Brechr: "Se o actor não quer ser nem um papagaio nem um macaco de imitação, precisa de assimilar os conhecimentos da sua época sobre a vida social participando na luta de classes".
O Teatro Operário de Paris II
18 de Janeiro de 1934
Este foi o título do 2° espectáculo, já seguindo a linha da tentativa de criação colectiva.
Porquê procurar a "criação colectiva"? Porque nenhum de nós tinha experiência suficiente para definir uma linha dra-marúrgica ou estética, e fundamentalmente porque o trabalho no teatro tinha tam-bém objectivos pedagógicos (melhor dizendo, de politização, de tentativa de criar futuros militantes anti-fascistas).
E foi assim que se escolheu estudar essa data do movimento revolucionário por-tuguês, um acontecimento único: os operários da Marinha Grande, reagindo con-tra a fascização dos Sindicatos ordenada por Salazar, prenderam a Guarda Republicana e o chefe dos Correios, e durante algumas horas implantaram o sovite da Marinha Grande!
A repressão foi implacável, e muitos terminaram os seus dias no Tarrafal.
Como se depreende pelo tema e seu resultado, não poderia haver a glorificação cega da acção; mas era necessário, nesses tempos de absoluta passividade partidária e cívica, dar a conhecer marcos da luta popular para que as massas se mobilizassem e começassem a criar a consciência da necessidade da revolta. Mesmo que fossem derrotas.
Começou-se pelo princípio: recolha dos documentos da época, tanto de militantes que tinham participado, como de textos oficiais do Governo, discursos de Salazar, etc.
Seguiu-se a sub-divisão do grupo em pequenas equipas, responsáveis pela escrita de cenas previamente discutidas e seleccionadas.
E depois, os ensaios, onde tudo era re-discutido e posto em causa ... até à gloriosa estreia em 1971, num centro de apoio ao bairro de lata de Nanterre (Paris).
Nessa altura, já começávamos a ter uma espécie de rede por onde circulávamos com as peças: foyers, casas de cultura, clubes portugueses (que ajudávamos a construir e que, em muitos casos, estavam ligados a igrejas católicas ou protestantes), sindi¬catos ...
Com o 25 de Abril, esta peça teve ampla divulgação com várias montagens em meios Universitários e Associações populares, o que demonstra a verdade do que julgávamos importante: divulgar momentos da História que foram sempre oculta- dos pelo fascismo.
Teatro Operário de Paris - I
Paris, fim dos anos 60. Um milhão de portugueses, fugidos à fome, à Pide, à guerra colonial, e também alguns que, muito simplesmente, procuravam a liberdade de viver e de pensar.
A interrogação para os que já tinham actividade política em Portugal, e que tinham aceitado essa graciosa "bolsa de estudos" do Salazar, era o que fazer com essa enorme massa de emigrantes.
Ao lado da actividade política partidária, era evidente que era necessário criar for¬mas de Associativismo, de animação cultural e de apoio social e educacional.
Entre as iniciarivas mais influentes conta-se a Liga Portuguesa para o Ensino, apoia¬da pela sua congénere Francesa, de espírito laico e Republicano.
Ai se desenvolveu um grupo de teatro, se criou um jornal, e também aí a acção se foi esriolando como consequência de guerras entre grupos políticos.
As divergências eram várias entre os exilados.
Falando de teatro, havia quem pensasse fazer peças que fossem autorizadas pela Censura em Portugal (!); outros, apresentavam peças no centro de Paris, destinadas à intelectualidade Portuguesa emigrada e aos seus amigos Franceses; e até havia uma escória (que eu me recuso a pôr ao mesmo nível destes "caminhos diferentes" com quem estou em desacordo), que tentava (e conseguia) obter patrocínios do consulado de POrtugal para formar "um teatro para os Portugueses" - tentativa sempre falhada, tanta era a incompetência dos seus "empreendedores" e a impopularidade do projecto.
O começo do grupo
O minúsculo grupo que arrancou com a ideia do "Teatro Operário" tinha outros planos: era preciso levar o teatro, a música, a cultura, a arte, a agitação política, os jornais anti-fascistas, a alfabetização, a ajuda social, a quem mais precisava de tudo isso: as centenas de milhares de emigrantes que se empilhavam em bairros de lata e "foyers" miseráveis.
Em 1970, com "Histórias para serem contadas" de Oswaldo Dragún, assinalou a nossa estreia.
O trabalho era difícil? Era. Principalmente, porque era preciso vencer o medo dos emigrantes, e combater os provocadores que, desde a estreia do grupo apareciam com bandeirinhas portuguesas (como se vê, também tinham tendência para a teatralidade!), tentando expulsar os "agitadores que tinham terminado com o belo sossego daquele recanto". Nada feito. O público dava todo o apoio para nós refi-larmos, e não perdíamos a ocasião ...
Resultado: no fim do espectáculo, havia debate e convidavam-se eventuais interes¬sados em aderir ao trabalho de teatro. Uns, ficavam a a organizar um grupo nesse local, e para isso, um dos elementos do "Teatro Operário" reservava umas noites por semana para dar o primeiro empurrão aos novos artistas. Outros, mais livres, aderiam ao "Teatro Operário" e passavam a fazer parte do grupo.
Em 6 meses criaram-se 2 grupos nos arredores, e o grupo passou de 5 para 17 elementos. E, ao mesmo tempo, deram-se 40 espectáculos.
Convém informar que toda esta gente não recebia nenhum subsídio da Secretaria de Estado da Cultura, nem de nenhum partido político nacional ou estrangeiro; os espectáculos eram gratuitos, e todas as despesas eram suportadas militantemente por cada elemento do grupo; convém também informar que isto não era nada de excepcional, dado que todos os elementos eram trabalhadores com salário garantido. (E os desempregados, que também havia, eram ajudados como calhava, pelo colectivo) Lá diz o povo, "quem corre por gosto, não cansa".
Mas isso já é outra conversa.
Guerra colonial II
Súbita e inesperadamente, numa bela manhã reparámos que os estudantes negros tinham desaparecido da cidade ... a frente anti-fascista e anti- colonialista começava a tomar forma.
Para citar alguns nomes, refiro amigos de Moçambique, Oscar Monteiro, José Luis Cabaço, Luis Filipe Pereira, José Julio, Orlando e outros da República dos Milionários.
E também Jacinto Veloso (que eu conheci em 1964 num Festival de teatro da UNEF em Lyon, e com quem estabeleci o primeiro protocolo de colaboração com a Frelirmo). Todos cumpriram o destino honroso da sua geração: lutar pela independência da sua Pátria.
Entretanto, o movimento contra a guerra desenvolveu-se.
Com casas clandestinas, saídas pela fronteira, falsificação de passaportes, recolha de fundos para ajudar desertores e refractários, e organização de apoios em vários paí¬ses de acolhimento. Os quartéis enchiam-se de panfletos anti-coloniais, distribuía¬se o "Manifesto dos Soldados Portugueses" apelando à deserção e à integração na luta anti-fascista.
Nesta acção de risco surgiam episódios cómicos e absurdos. Uma vez, esta eu a diri¬gir a Assembleia Geral da Faculdade de Direito de Lisboa, espreitou à porta um colega que estava na tropa, convenientemente fardado.
- Oh diabo!
Um secretário ficou a dirigir a Assembleia.
- O que é?
- Estão aqui as coisas.
Fiquei verde quando vi uma grande mala de viagem.
- Está aí tudo. - Espera aí. Voltei para dentro, rapidamente acelerei as votações finais, encerrei a Assembleia, e reencontrei o "artista".
- Vamos embora.
Peguei na mala, pesava como chumbo.
- Eh, pá, tu és doido? trazer isto para a Faculdade! O contínuo olhava atentamente para nós. (No 25 de Abril confirmou-se que ele era mesmo da Pide).
Taxi, casa de uma namorada, mala aberta e surgiu um escaparate de armamento digno do bando de AI Capone. Granadas, Walter, Vigneron, fardas ...
- Já que ia fugir, trouxe tudo o que pude.
- Já agora, podias ter trazido o quartel.
Com certeza que se passaram muitos episódios deste estilo em toda a actividade revolucionária e anti-fascista.
Actos inconscientes e irreflectidos, não haja dúvida.
Mas não foi sempre com alguns desses actos que se operou a transformação da História?
Não foi sempre a rebeldia da juventude que derrubou muros e ameias?
Que idade tinham Che, Fidel, Ben Bella, Samora Machel, Dimirrov, Mao, Ho Chi Minh, os nossos Capitães de Abril?
Mais tarde, a partir de 1968, surgiram em vários países da Europa os Comités de Desertores, ponto de encontro e salva vidas de muitos jovens, com roupas, comi-da, casa e empregos.
Organizados por portugueses, mas com a cobertura oficial de intelectuais e Universitários anti-fascistas, muitos deles com a experiência de terem lutado con-tra as tropas Hitlerianas.
Essa cobertura era essencial para defesa da nossa actividade. Mas era evidente que não era suficiente, e passo a contar uma última peripécia (chamemos-lhe assim), antes do 25 de Abril.
Guerra Colonial - 1
Não tenho dúvidas em considerar que a posição sobre a Guerra Colonial foi a pedra de toque, a linha de demarcação entre as forças de esquerda nos anos 60. Nessa época eu era estudante em Coimbra, e tinha muitos colegas das Colónias (e de várias cores, pretos, mulatos, indianos, e até brancos, que o colonialismo até era bastante colorido).
A imensa maioria de nós vivíamos em Repúblicas, centros de acolhimento dos estudantes que vinham de longes terras e que se tornavam - ao contrário do que julgava a gente comum, que só tinha olhos para as farras e os copos a mais - , em locais onde se aprendiam as regras do respeito pelo outro e da mais elementar convivência.
A razão deste milagre cívico era simples: nós éramos os gestores da casa, o dinheiro era pouco e tinha de chegar para tudo, éramos muitos e só havia uma casa de banho, era preciso poupar e evitar despesas supérfluas. Por conseguinte, ninguém podia deixar a casa de banho suja depois de a utilizar, era preciso aprender a apa¬gar a luz, estar a horas para o almoço, etc.
Que ninguém se aflija com este inesperado "rigor" numa juventude tradicional-mente acusada de estroinice e inconsciência; pelo contrário, acredite-se que era com imenso prazer que se aprendiam regras de saber estar uns com os outros, para poder haver o respeito mútuo.
Esses locais de liberdade estimulavam logicamente os hábitos democráticos: a dis-cussão, a polémica, e também o grito e a zanga porque ser democrata não significa ser um xoninhas que não tem direito à indignação.
E o-que a geme se indignava com o ensino autoritário, medíocre e bafiento! E com os pseudo aristocratas de meia-tijela que lambiam as botas aos professores caquéticosl
E com os bufos, e a Pide, e as proibições de tudo, por tudo e por nada! E assim se foi criando uma amizade sólida entre as Repúblicas (com a excepção de duas, cujos elementos foram devidamente recompensados com belos cargos no aparelho político do fascismo e hoje, evidentemente reciclados em democratas, lá continuam no aparelho de Estado. Convenientemente divididos por vários partidos, claro; até porque é preciso dividir o mal pelas aldeias).
Essa amizade solidificou-se nas lutas Académicas e no trabalho comum nos vários organismos culturais, Orfeon, Tuna, Teuc, Citac, Cine Clube, Via Latina, canto, música, teatro, cinema, jornais, livros, tudo devorávamos com a ânsia da liberdade e o desejo de aniquilar o cinzentismo em que sufocávamos.
Começaram perseguições, prisões, castigos, expulsões da Universidade.
E os laços entre nós ficavam mais apertados e mais sólidos.
Quando começa a guetra, nasce a perplexidade. E agora? Eu vou lutar contra o meu camarada de luta porque ele é preto ou é das colónias? Como é possível?
Para perturbar mais o debate, surgiu uma bizarra directiva do partido comunista: "é preciso ir para a tropa, para fazer a guerra mais humana"! Como? O que é isso de ser mais humano quando se está frente a frente para morrer ou matar?
E a decisão, não unânime, mas com a força para fazer (e fez) um belo caminho, foi a palavra de ordem de recusar ir para o Exército. Esta palavra de ordem evoluiu consoante a consciência política de cada um e a própria evolução do fascismo.
Pela lógica do estado de coisas, e pelos acontecimentos internacionais - Revolução Cubana, independência de Argélia, derrota da França em Dien Bien-Phu, a luta do Vietcong contra o imperialismo Americano, é evidente que começa a fazer caminho a ideia da luta armada.
Quando surgiram noticias de terem morrido camaradas na Guiné e em Angola, claro que surgiu a dúvida do assassinato pela Pide.
- O que é isto, malta? Andam a matar a gente e a malta não responde? E a resposta surgiu com a palavra de ordem de ir para a tropa, fazer a recruta para aprender a lutar e dar tiros com pistolas, metralhadoras, e o mais que o Exército inventasse, e desertar com armas na altura da mobilização.
Uma história de política e futebol – 2

E não faltaram as inevitáveis manifestações no Rossio, a praça nobre onde a oposição insistia em se reunir e gritar contra pides e Censuras.
Numa dessas manifestações, marcada para as 6 da tarde, muita gente se começou a juntar, deambulando calmamente entre o Pic-nic, a Suiça, o teatro D. Nacional, enfim, por aqui e por ali… o tempo passava, e as coisas não começavam… foi então que um jornalista de figura inconfundível, o nosso Baptista Bastos, perguntou como quem não quer a coisa “então esta merda nunca mais começa?”. Parecia uma palavra de ordem, minutos depois já estava instalado o velho ambiente de correrias e de ingénua mas decidida “guerrilha urbana” de “grita-e-foge”.
E a dada altura surgiu uma ideia “louca”, imediatamente aceite pela direcção da agitação.
Estávamos no período do glorioso Benfica com Eusébio, Coluna e companhia a fazerem estragos por essa Europa. Aproximava-se o jogo com o Real Madrid, e pensámos em fazer uma distribuição de panfletos durante o jogo.
Desenhámos o plano do estádio, distribuímos as equipas por pontos nevrálgicos das bancadas e do terceiro anel, e procedemos a uma complicada engenharia de contactos para garantir que a Pide – mesmo que já tivesse infiltrado o nosso movimento -, não conseguisse sabotar a operação.
Os panfletos foram impressos em diferentes locais, um elemento centralizou o transporte de material para diferentes caixas de bagagens em estações de comboios, outro elemento centralizou as chaves, ainda outro passou a outro, e a rede ia sendo abastecida progressivamente dos indispensáveis panfletos.
Recordando isto, não deixo de reconhecer a inestimável educação clandestina que nos forneciam os filmes sobre mafiosos e a Scotland Yard.
No dia do jogo, surgiu a questão está tudo OK, mas como é que vamos distribuir os papéis? Aquilo está cheio de polícia, somos logo presos!
A saída para este verdadeiro problema, só tinha uma resposta possível:
- Sempre que for golo do Benfica, aproveitamos os gritos e os abraços. Atiramos os panfletos ao ar e mudamos de sítio. No final do jogo, subimos para a última fila do terceiro anel. Atiramos o resto dos panfletos para fora do estádio e preparamo-nos para sir no meio da multidão”.
Éramos jovens e os deuses estavam connosco.
O Eusébio, a alegria do povo, marcou três golos, o Benfica estava em forma e ganhou 5-1 ao Real Madrid. Os panfletos voavam, o público surpreendido lia-os e segredava, e a nossa operação funcionava a cem por cento. Um dos camaradas entusiasmou-se tanto au até atirou panfletos quando o Amancio marcou para o Madrid; houve uns olhares estranhos, mas como estava tudo em festa, o agitador conseguiu desaparecer, gritando sempre “Benfica! Benfica!”.
À saída do estádio, pudemos ver com grande prazer que as pessoas apanhavam os últimos panfletos e os guardavam para ler no remanso do lar… Foi uma bela operação e foi muito agradável assistir à colaboração do futebol numa acção política contra o regime.
Uma pequena nota para se perceber a inconstância dos furiosos da bola. Imgaginem que o Eusébio era o herói do jogo, passava bolas, metia golos, fazia a cabeça em água aos Madrilenos, e a dada altura veio uma bola à entrada da área, e imagine-se, o Eusébio falhou o remate! Pois aquele povo eufórico com as proezas do seu ídolo, desatou a chamar-lhe “preto dum cabrão”, “vai para a tua terra”, coisas assim.
Vá lá perceber-se o vário e difícil género humano!
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