Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
OS HOMENS DOI REI - 93 - por José Brandão

OS HOMENS DO REI - BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

 

ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal, Lisboa, Promoclube, s. d.

AMEAL, João, História de Portugal, Porto, Livraria Tavares Martins, 1974.

BEIRÃO, Caetano, História Breve de Portugal, Editorial Verbo, 1960.

BRANCO, Camilo Castelo, Perfil do Marquês de Pombal, Porto, Porto Editora, 1981.

BRANDÃO, José, A Vida Dramática dos Reis de Portugal, Lisboa, Ministério dos Livros, 2008.

BRANDÃO, José, Portugal Trágico – O Regicídio, Lisboa, Âncora Editora, 2008.

FRANÇA, José-Augusto, O Romantismo em Portugal, Lisboa, Livros Horizonte, 1999.

HERCULANO, Alexandre, História de Portugal, Lisboa, Ulmeiro, 1983.

LABOURDETTE, Jean-François, História de Portugal, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003.

MARQUES, A. H. de Oliveira, História de Portugal, Lisboa, Palas Editores, 1981.

MARTINS, Oliveira, História de Portugal, Lisboa, Guimarães Editores, 1987.

MATOSO, José, (dir.), História de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992-1993.

MEDINA, João, (dir.), História de Portugal, Amadora, Ediclube, 1994.

PERES, Damião, (dir.), História de Portugal, Porto-Barcelos, Portucalense Editora, 1935.

RÊGO, Raul, História da República, Lisboa, Círculo de Leitores, 1986.

REIS, António, (dir.), Portugal Contemporâneo, Lisboa, Publicações Alfa, 1990.

RIBEIRO, Ângelo, História de Portugal, Porto, Lello & Irmão, 1936.

RIBEIRO, Aquilino, Príncipes de Portugal, Lisboa, Livros do Brasil, s. d.

SARAIVA, José Hermano, (dir.), História de Portugal, Lisboa, Publicações Alfa, 1983-1985.

SÉRGIO, António, Breve Interpretação da História de Portugal, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1978.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Lisboa, Editorial Verbo, 1977-1990.

SERRÃO, Joel, (dir.), Dicionário de História de Portugal, Porto, Livraria Figueirinhas, 1981.

 



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Domingo, 4 de Dezembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 92 – por José Brandão

Paiva Couceiro (1861-1944)

 

Filho de José Joaquim de Paiva Cabral Couceiro, oficial de engenharia militar do Exército Português, e de Helena Isabel Teresa Mitchell, uma protestante irlandesa convertida ao catolicismo, Henrique Mitchell de Paiva Couceiro foi um militar, administrador colonial e político português. Ficou conhecido após as campanhas de ocupação colonial em Moçambique nos anos seguintes ao ultimato de 1890, pelo qual o Reino Unido impediu que Portugal reclamasse vastos territórios no interior de África. Foi governador-geral de Angola entre 1907 e 1909. Paiva Couceiro abandonou o cargo em 1909, devido a dificuldades levantadas ao seu plano de administração.

 

Assumidamente monárquico, tinha uma personalidade quase quixotesca e notabilizou-se como inspirador das chamadas incursões monárquicas contra a Primeira República Portuguesa. Tendo lutado contra a revolução de 5 de Outubro e a instauração da República, comandou várias incursões monárquicas entre 1911 e 1912.

 

A contra-revolução monárquica sucedeu quase de imediato à proclamação da República, em 5 de Outubro de 1910 e teve como objectivo primordial organizar um movimento político-militar capaz de derrubar as instituições do novo regime e restaurar a situação vigente até àquela data. A história da I República é pontuada, desde os seus alvores, por um esforço contra-revolucionário levado a cabo por sectores descontentes com as medidas decretadas pelos governos republicanos e que, incluindo o clero e forças politicas conservadoras e radicais, tinham nos monárquicos de diversas tendências os seus mentores mais salientes e inconformados. O chefe carismático da contra-revolução monárquica foi sem dúvida Henrique de Paiva Couceiro, um dos poucos realistas que resistiu em armas à revolução republicana e que, refugiado político na Galiza, comandou duas frustradas incursões no norte do País, em 1911 e 1912.

 

No início de 1919, conseguiu subverter as instituições da parte do território continental que ia do Minho à linha do Vouga, restaurando a monarquia durante 25 dias. Em nome do Rei e estrategicamente, restaurou a Carta Constitucional de 1826. Contudo, o seu objectivo maior era o regresso à Monarquia Integral, medieval, católica e corporativa. Foi fugaz a experiência da Monarquia do Norte, durante a qual uma Junta Governativa presidida por Couceiro revogou toda a legislação republicana promulgada desde 5 de Outubro de 1910, restaurou a bandeira e o hino monárquicos e legislou intensa e infrutiferamente. A sublevação monárquica de 1919 haveria de abortar, ao não lograr obter apoios fundamentais que poderiam garantir a sua sobrevivência. O malogro da breve experiência monárquica era inevitável.

 

A sua devoção monárquica valeu-lhe várias vezes o exílio, antes e depois do advento do Estado Novo. Pelas incursões feitas e pela sua fidelidade monárquica ficou conhecido O Paladino.

 

Em 22 de Outubro de 1937, numa carta dirigida a Salazar, faz uma violenta crítica ao regime:

 

Cantam-se loas às glórias governativas e ninguém pode dizer o contrário. O Portugal legítimo do "senão, não" foi substituído por um Portugal artificial, espécie de títere, de que o Governo puxa os cordelinhos. Vela a Polícia e o lápis da censura. Incapacitados uns por esse regime de proibições, entretidos outros com a digestão que não lhes deixa atender ao que se passa, e jaz a Pátria portuguesa em estado de catalepsia colectiva. Está em perigo a integridade nacional. É isto que venho lembrar... Critica virulentamente a política colonial, considerando que o desenvolvimento de Angola é objectivo nacional, falando nesta como um país a fazer.

 

Paiva Couceiro nasceu em Lisboa, no dia 30 de Dezembro de 1861 e morreu a 11 de Fevereiro de 1944.

 

 

A seguir - Bibliografia



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Sábado, 3 de Dezembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 91 – por José Brandão

 

Aires de Ornelas (1866-1930)

 

Oficial do exército e colonialista, político e escritor, Aires de Ornelas e Vasconcelos nasceu no Funchal, a 5 de Março de 1866.

 

Enveredou pela arma de Cavalaria, assentou praça em 27 de Novembro de 1881, e, mais tarde, diplomado já com o curso do Estado-Maior, esteve presente em Madrid quando, em 1892, ali se realizou a Conferência da Paz.

 

Entretanto, e de colaboração com alguns camaradas, Aires de Ornelas, que sempre se revelaria interessado pelos problemas da cultura, já por essa altura havia fundado a Revista do Exército e da Armada, em cujas colunas, entre outros trabalhos de muito mérito, publicou «Os Processos de Guerra e de Comando de Napoleão I».

 

Em 1895, partiu para Moçambique, a fim de participar na campanha contra o Gungunhana. E, como adjunto do Estado teve papel relevante nas mais importantes jornadas de ocupação e pacificação daquela província. A começar pela de Marraquene, travada em 2 de Fevereiro, e a respeito da qual, além do mais, deixou testemunho que tem o mérito de ter sido intensamente vivido.

 

Esteve presente em Coolela, episódio brilhante da luta pelo abatimento do poderio vátua, resolvido com rapidez na manhã de 7 de Novembro. E, após o regresso à metrópole do comissário régio António Enes, Mousinho de Albuquerque que, nos princípios de 1896, assumiu as funções de governador-geral, nomeou-o seu chefe do Estado-Maior.

 

Promovido a capitão em 7 de Fevereiro de 1897, participou na luta contra os Namarrais e, igualmente, no feito de Macontene, a jornada gloriosa de 21 de Julho de 1897, que decisivamente contribuiu para a pacificação da região de Gaza.

 

Regressou, então, a Lisboa, acompanhando Mousinho de Albuquerque.

 

Em 1901, assumiu a direcção política do Jornal do Comércio e das Colónias, e, no ano seguinte, por direito de hereditariedade ocupou uma cadeira na Câmara dos Pares. E, em 1905, foi nomeado governador do distrito Moçambique, cargo de que pediu a exoneração em 15 de Fevereiro do ano seguinte.

 

Entretanto, por essa altura, a situação política interna agravava-se por forma preocupante. Hintze Ribeiro, sentindo que diminuíam as suas forças de influência e que o País, sob o seu Governo, corria o risco de resvalar para a anarquia apresentou ao monarca, a 15 de Maio de 1906, o pedido de adiamento das Câmaras ou, na alternativa, a demissão do Ministério. D. Carlos decidiu pela segunda hipótese e chamou João Franco a constituir novo Governo. E nele ocupou Aires de Ornelas a pasta da Marinha e Ultramar. Acompanhou, então, o príncipe real D. Luís Filipe numa larga digressão pelas colónias africanas, viagem considerada indispensável para a educação do príncipe por várias personalidades, e cuja realização encontrou o melhor acolhimento por parte de D. Carlos.

 

No entanto, foi depois da queda da Monarquia 5 de Outubro de 1910, que a sua acção política adquiriu maior notoriedade, mormente, quando, no desempenho funções de lugar-tenente do ex-rei D. Manuel II, a quem se manteve fiel e dedicado até à morte, foi alvo de ataques dos seus adversários republicanos e, também de ataques não menos rudes dos seus correligionários monárquicos da ala integralista, que não raro o cobriram  de insultos e sarcasmos. De facto, a sua intervenção, aliás, hesitante e contraditória, nos acontecimentos que levaram os monárquicos de Lisboa a secundar, em 23 de Janeiro de 1919, a tentativa restauracionista do Porto de 19 do mesmo mês, e as dificuldades inerentes ao desempenho do seu elevado cargo na política monárquica contribuiriam grandemente para as críticas acerbas de que foi alvo.

 

Faleceu em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1930.

 

 A seguir - Paiva Couceiro



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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 90 - por José Brandão

 

D. MANUEL II (reinou de 1908 a 1910)

 

 

Cinco de Outubro de 1910. O último rei de Portugal caminha pesarosamente pelo areal de uma pequena praia da Ericeira. D. Manuel II, o Desventurado, está prestes a embarcar no iate real D. Amélia que o levará para longe da Pátria. Do seu pensamento não saem as imagens da grande tragédia que ele presenciara na véspera de subir ao trono em 1908. Nesse dia vê assassinarem-lhe o pai e o irmão mais velho.

 

No dia seguinte ao regicídio subia ao trono D. Manuel II, então com 18 anos. O jovem rei começa por adoptar algumas medidas para tentar conter o ambiente de agitação que tomou conta do país, nomeando imediatamente um novo ministério.

 

Após o assassinato de D. Carlos, em 1908, Portugal passou a viver um clima de pré-insurreição. D. Manuel II, embora desse o seu melhor para acalmar as tensões, nomear um governo credível e ultrapassar as dificuldades, não conseguiu evitar a derrocada do regime, que caiu num crescente descrédito. Os republicanos preparavam-se para o golpe, que ficou marcado para o dia 3 de Outubro. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a implantação da República esteve à beira do fracasso. Só a desorientação das forças leais ao regime e a ousadia e coragem de um punhado de revoltosos é que permitiu que o movimento triunfasse. Os 4470 soldados e os 3771 polícias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam com Machado Santos no Parque.

 

Pouco faltava para a uma da manhã de dia 4. Do Centro Republicano de Santa Isabel, situado nas proximidades do quartel de Infantaria 16, em Campo de Ourique e onde combinara encontro com o grupo carbonário chefiado pelo civil Meireles, Machado Santos sai para cumprir a missão que lhe fora confiada. Apenas dispõem de catorze armas. Mesmo assim não hesitam, nem sequer esperam o quarto de hora que ainda falta para a hora combinada. Tomam Infantaria 16 onde os sargentos tinham sido já conquistados na totalidade por Machado Santos.

 

Entretanto, chega a informação do suicídio do Almirante Cândido dos Reis, carbonário e chefe militar da sublevação.

 

Seriam cerca de 7 horas da manhã do dia 4 quando a notícia da morte do almirante Cândido dos Reis chegou à Rotunda. O velho militar republicano e chefe carbonário aparecera morto, para os lados de Arroios. Suicidara-se ao julgar que a Revolução voltara a falhar.

 

No acampamento revolucionário a noticia causa grande abalo. Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Ao todo não chegam a ser uma dúzia. Na cocheira do palacete do conde de Saborosa reúnem duas vezes para avaliar a situação. Concluem que não há nada a fazer e votam por abandonar o local. Há apenas um voto contra: Machado Santos.

 

Os oficiais vestem-se à civil e partem cada para seu lado. Um é teimoso e fica: Machado Santos.

 

Agora sem oficiais, Machado Santos manda tocar a sargentos. Respondem nove. Estão para o que der e vier. São todos carbonários. Vão ficar na História: serão os comandantes dos menos de 200 militares que restam depois da saída dos oficiais. Alguns jovens cadetes da Escola de Guerra estão lá também. O reduto revolucionário dispõe de oito peças para sustentar a sua defesa pesada. As barricadas são aquilo que se pode arranjar: toscas, improvisadas, incapazes de resistir a um ataque a sério das forças monárquicas.

Ao meio-dia e meia hora começam a chover as primeiras granadas que anunciam a chegada de Paiv

a Couceiro à frente das baterias de Queluz. A pontaria não é de aprendiz de artilheiro. Caem em cheio sobre a primeira linha de fogo. O duelo de peças é feroz e intensa a fuzilaria que envolve por completo a Rotunda. No meio do combate, Machado Santos olha para o lado e vê, ainda vestido a paisana, um dos oficiais que tinha abandonado o acampamento revolucionário. Era o alferes Camacho Brandão, que regressava para se pôr ao lado dos que aquela hora já morriam pela República. De volta a Rotunda, é-lhe confiado comando das peças que vão conseguir suster o ataque de Paiva Couceiro. Durante toda a luta, dirigiu o tiro de artilharia com um tal convencimento que pôs as tropas monárquicas em completo desnorteio. Comandava o fogo das peças com «tanta serenidade e com um movimento de braços tão compassados como se estivesse dirigindo a orquestra de S. Carlos!»

 

Por volta das quatro da tarde, as baterias de Queluz entendem que o melhor é voltarem para as frescas bandas da Serra de Sintra e com este ânimo põem-se a caminho da respectiva unidade.

 

Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal. Finalmente a Marinha estava onde era ansiosamente esperada pelos resistentes do Parque.

 

O Palácio das Necessidades, residência oficial do Rei, foi bombardeado, pelo que o monarca terá sido aconselhado a dirigir-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde sua mãe, a Rainha, e a avó, a Rainha-mãe D. Maria Pia de Sabóia viriam juntar-se a ele. Pouco depois, o rei D. Manuel II, acompanhado de sua mãe, D. Amélia e de sua avó, D. Maria Pia, embarcava numa praia da Ericeira no iate D. Amélia, rumo a Gibraltar. Daí seguiria para Inglaterra, para o exílio.

 

D. Manuel fixou residência nos arredores de Londres, local para onde seguiram os seus bens particulares, e onde já sua mãe havia nascido, também no exílio.

 

Apesar de deposto e exilado, D. Manuel teve sempre um elevado grau de patriotismo, o que o levou, em 1915, a declarar no seu testamento a intenção de legar os seus bens pessoais ao Estado Português, para a fundação de um Museu, manifestando também a sua vontade de ser sepultado em Portugal.

 

Desde 1911 que forças de monárquicos exilados se centram na Galiza, com o beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e restaurarem o regime monárquico. Eram lideradas pelo carismático Henrique de Paiva Couceiro, veterano das campanhas de África e o único oficial que se havia batido com denodo pelo regime aquando do golpe de estado de 5 de Outubro.

 

D. Manuel apoiou como pôde estas incursões, embora os seus recursos financeiros, nos primeiros anos de exílio, fossem bastante limitados. Acresce o facto de que esta primeira incursão ter sido feita sob a bandeira azul e branca, mas sem a coroa.

 

Em 4 de Setembro de 1913, D. Manuel II casou com D. Augusta Vitória pelo civil e mais tarde pelo religioso, cerimónia essa que foi presidida pelo antigo cardeal-patriarca de Lisboa D. José Neto, exilado em Sevilha.

A 2 de Junho de 1932 D. Manuel II, o último rei de Portugal, morre em Londres devido a doença prolongada.

Aires de Ornelas e Paiva Couceiro foram homens do rei D. Manuel II.

 

 A seguir: Aires de Ornelas



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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 89 – por José Brandão

 

João Franco (1855-1929)

 

João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco já passara a casa dos cinquenta quando é chamado por D. Carlos para constituir Governo. Vem de um passado político que começara como deputado do Partido Regenerador e por várias participações em governos regeneradores ora como ministro da Fazenda ou das Obras Públicas.

No Governo regenerador de Hintze Ribeiro, formado em 1893, cabe-lhe a importante pasta de ministro do Reino onde defende então o fortalecimento da autoridade governamental fazendo promulgar uma lei que contem várias disposições repressivas contra opositores ao regime. Os sectores da oposição chamam à lei de João Franco, «Lei Celerada».

 

Em 1901 rompe com o seu partido e, com aparato de propaganda pouco usual na época, lança o novo Partido Regenerador Liberal, que se apresenta como algo de novo em relação aos esquemas rotativistas, afirmando um carácter «nacional», defensor de um poder real forte e de reformas que combatam no terreno republicano.

A falência do rotativismo, partilhado durante vários anos entre os partidos dinásticos Regenerador e Progressista leva a que D. Carlos se «lembre» de João Franco em Maio de 1906.

 

«Sem luta não há prazer em vencer, e a vitória sem combate, e combate sério, nunca é uma vitória duradoura», declarava o monarca que no 1.º dia do mês de Fevereiro de 1908 cai às balas de dois carbonários, que e no dizer de vários depoentes, em princípio, «apenas» se dispunham a eliminar o ditador João Franco.

 

João Franco negará em absoluto a veracidade desta versão que o coloca como principal alvo. Afirma mesmo que passeou junto ao local onde se prostravam os assassinos e nada lhe sucedeu. No cortejo, a sua carruagem era a quarta da fila, passando incólume.  

 

A morte do rei trouxera o desânimo às fileiras monárquicas que não poupavam o chefe do Governo, apontando-o como o principal culpado do que tinha acontecido no Terreiro do Paço.

 

Quando o tentaram avisar de que a vida do rei corria sério perigo responde: «Pois quê? É lá possível tocar em el-rei... Todas as medidas estão tomadas. Há polícia em Vila Viçosa, a linha do caminho-de-ferro está vigiada. Que mais quer? Boatos, sempre boatos…».

 

O próprio rei desconfiava do ambiente que o circundava. Não ignorava que a sua vida andava em perigo permanente. Quando lhe falavam das circunstâncias ameaçadoras, a resposta invariavelmente era esta: - As minhas armas estão sempre carregadas.

 

D. Carlos sentia que havia algo que não estava correcto; e um dia, passeando com o seu ajudante, tenente-coronel José Lobo de Vasconcelos, desabafa: «Tu julgas que eu ignoro o perigo em que ando? No estado de excitação em que se acham os ânimos, qualquer dia matam-me à esquina de uma rua. Mas, que queres tu que eu faça? Se me metesse em casa, se não saísse, provocaria um grande descalabro. Seria a bancarrota. E que ideia fariam de mim os estrangeiros, se vissem o rei impedido de sair? Seria o descrédito. Eu, fazendo o que faço, mostro que há sossego no País e que têm respeito pela minha pessoa. Cumpro o meu dever. Os outros que cumpram o seu.»

 

E no dia 1 de Fevereiro de 1908, nenhumas providências excepcionais foram tomadas porque para João Franco não havia razões algumas para tal.

 

Nessa mesma noite de 1 de Fevereiro de 1908 o Conselho de Estado reúne-se no Palácio das Necessidades onde se decide o afastamento de João Franco.

 

 Morre em Lisboa no dia 4 de Abril de 1929.

 

 A seguir:



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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 88 – por José Brandão

Mouzinho de Albuquerque (1855-1902)

 


Nascido a 11 de Novembro de 1855, na Quinta da Várzea, Batalha, Leiria, descendente de uma família da nobreza, Mouzinho de Albuquerque ingressou cedo no Colégio Militar da Luz, terminando o curso na Escola do Exército em 1878, sendo promovido a alferes. No ano seguinte, matriculou-se nas Faculdades de Matemática e Filosofia da Universidade de Coimbra, tendo aí casado com sua prima, D. Maria José Mascarenhas de Mendonça Gaivão. Em 1882, Mouzinho de Albuquerque adoeceu, facto que o impediu de frequentar o 4º ano da Universidade e o obrigou a regressar a Lisboa, onde permaneceu dois anos em inactividade.

 

No ano de 1884 foi promovido a tenente e nomeado regente de estudos no Colégio Militar. Dois anos depois, partiu para a Índia, ocupando um lugar na fiscalização do Caminho-de-ferro de Mormugão e, em 1888, foi nomeado secretário-geral do governo do Estado da Índia. Em 1890, foi promovido a capitão e nomeado governador do distrito de Lourenço Marques, cargo que ocupou até 1892, altura em que regressou a Lisboa. O ano de 1894 marca o regresso de Mouzinho de Albuquerque às colónias, desta vez comandando um esquadrão de Lanceiros que se iriam juntar às forças de expedição militar que tinha por objectivo dominar as rebeliões indígenas no Sul de Moçambique.

 

Foi aí que Mouzinho de Albuquerque se destacou nas campanhas de África, nomeadamente a que levaria à prisão do chefe Vátua Gungunhana em 28 de Dezembro de 1895, em Chaimite. A 11 de Novembro de 1895, as tropas comandadas por António Enes, e entre as quais se encontrava Mouzinho, tomaram e incendiaram Manjacaze, a residência principal de Gungunhana, levando à fuga deste. António Enes pede reforços à Metrópole. Perante a indecisão do governo português, Enes decide finalizar a sua missão e regressar a Portugal. É nessa altura que, a 10 de Dezembro de 1895, Mouzinho de Albuquerque é nomeado governador do distrito militar de Gaza e, inicia a sua própria campanha, entendendo que só através da prisão do «Leão de Gaza», a soberania portuguesa poderia ser mantida. Após uma marcha de três dias em direcção a Chaimite, as tropas conduzidas por Mouzinho cercaram a povoação, prendendo o chefe Vátua e grande parte da sua família, forçando-o a entregar mil libras em ouro, oito diamantes, armas e munições e todo o gado e marfim de que dispunha.

 

No dia 6 de Janeiro do ano seguinte, Gugunhana e os restantes prisioneiros são entregues, oficialmente, em Lourenço Marques, por Mouzinho de Albuquerque ao governador-geral da colónia para, dias mais tarde serem enviados para a Metrópole. Depois deste êxito militar, que granjeou numerosas manifestações de apoio na Metrópole, Mouzinho de Albuquerque foi nomeado governador-geral de Moçambique, a 13 de Março de 1896, tomando posse a 21 de Maio. A 27 de Novembro, do mesmo ano, foi nomeado comissário régio. Depois de comandar, durante o ano de 1897, as campanhas de ocupação colonial de Naguema (3 de Março), Mocutumudo (6 de Março) e Macontene (21 de Julho), Mouzinho de Albuquerque partiu para a Metrópole, a 18 de Novembro, com o intuito de resolver, pessoalmente, com o governo de Lisboa questões relacionadas com a administração e o desenvolvimento económico da colónia de Moçambique, nomeadamente a concessão de um empréstimo que lhe permitisse proceder a algumas reformas.

 

Chegou a Portugal a 15 de Dezembro de 1897, tendo sido recebido de forma muito calorosa. Após algum tempo de repouso viajou pela Europa (Inglaterra, França e Alemanha) e, a 22 de Abril de 1898, regressou a Moçambique sem levar qualquer resultado prático da sua presença na Metrópole.

 

Em Julho do ano de 1898, Mouzinho de Albuquerque recebe, finalmente a notícia de que tinha sido concedido o tão esperado empréstimo, pelo qual se batera na viagem que fizera à Metrópole três meses antes. No entanto, no mesmo dia, recebeu uma informação, pela qual tinha sido decidido, a 7 de Julho, o fim das suas funções como comissário régio, o que o levou a apresentar, de imediato, a sua demissão, aceite pelo Presidente do Conselho, José Luciano de Castro, a 19 de Julho.

 

Mouzinho de Albuquerque voltou, então, a Lisboa sem ter realizado aquilo a que se tinha proposto, apesar de ter conseguido implementar algumas obras de fomento, bem como um importante impulso às receitas públicas. Foi nomeado, a 28 de Setembro de 1898, ajudante de campo efectivo do Rei D. Carlos, oficial-mor da casa real e aio do príncipe D. Luís Filipe.

 

A sua posição crítica face à política e aos políticos da sua época foi determinante no lançamento de uma campanha contra a sua pessoa, para o afastar do Paço, correndo também rumores sobre uma sua ligação íntima à rainha D. Amélia.

 

Incapaz de, pela sua própria formação militar rígida e pelo feitio orgulhoso, de resistir ao clima de intriga, de indecisão política e de decadência em que a monarquia agonizava, Mouzinho de Albuquerque prepara minuciosamente a sua morte, suicidando-se no dia 8 de Janeiro de 1902.

 

Na noite de 7 de Janeiro de 1902 assistiu a uma peça no teatro. Na manhã seguinte levantou-se aparentemente calmo e mandou que lhe chamassem o trem, tendo conversado demoradamente com a esposa, de quem se despediu afectuosamente. Seguiu para o Paço e pediu ao Rei uma dada fotografia que lhe prometera. Às 14 e 30 seguiu para a baixa de Lisboa, entrou numa espingardaria na Rua do Ouro, comprou balas para o seu revólver. Esteve no Turf-Club onde escreveu cartas e na Livraria Ferrin, onde perguntou por certos livros que deixara a encadernar e comprou o romance Cruelle Énigme, que folheou.

 

Deu ordens para que o carro descesse até ao Rossio, mandou subir a Avenida e seguir para Benfica. Quando o trem transpunha as antigas portas de S. Sebastião da Pedreira, local deserto, na velha estrada de Benfica, desfechou um tiro na fronte. A detonação fez com que o cocheiro desse um salto no banco. Surpreendido, abriu a portinhola do coupé e deu com o corpo inerte, tombado para diante, empastado em sangue, tendo aos pés o revólver. Foi de imediato conduzido ao Hospital da Estrela mas o ferimento era mortal.

 

A sua morte causou grande sentimento e o funeral foi imponente. Foram muitas as pessoas que quiseram estar presentes na última homenagem.

 

Além das honrarias já citadas, Mousinho de Albuquerque era comendador e oficial das ordens da Torre e Espada e de Avis, por serviços distintos, cavaleiro de S. Jorge, de Inglaterra; tinha as comendas da Águia Vermelha da Alemanha, de S. Maurício e S. Lázaro de Itália, da Legião de Honra, de Leopoldo III, da Bélgica, e Carlos III de Espanha.

 

 

 

A seguir - João Franco



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Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 88 - por José Brandão

 

 

D. CARLOS (reinou de 1889 a 1908)

 

O penúltimo rei de Portugal é o resultado do cruzamento de quase todas as casas reais europeias. Tem primos espalhados pela Europa fora.

 

Em 1908, há dezanove anos que D. Carlos é rei de Portugal. Em 19 de Outubro de 1889, na velha cidadela de Cascais, assistira ao termo da penosa agonia de seu pai, D. Luís I, e fora sua mãe a rainha D. Maria Pia a primeira pessoa a prestar-lhe a homenagem.

 

- Abençoo-te, Carlos, para que sejas tão bom rei como foste bom filho - dissera, na mesma altura, ao cobrir-se com os véus de viuvez, a mãe do novo soberano.

 

Começou, aliás, da pior forma o reinado de D. Carlos.

 

Logo em Janeiro de 1890, a Inglaterra exigiu, em termos brutais, que Portugal renunciasse ao chamado «mapa cor-de-rosa», nome dado ao projecto de se aproveitarem as explorações portuguesas no interior do continente africano para se estabelecer a ligação entre Angola e Moçambique. O Governo cedeu e ordenou a retirada portuguesa de alguns territórios já ocupados.

 

Ser bom rei, porém, não seria tarefa muito fácil para aquele príncipe de 26 anos, a quem o pai deixou uma monarquia desacreditada, uma administração pública feita ao gosto dos interesses dos dois partidos que se revezavam alternadamente no Poder - o Progressista e o Regenerador - um défice de 83 400 contos e uma oposição republicana que principiara poucos anos antes, mas que progredia rapidamente.

 

Será precisamente com o pretexto da falência do rotativismo partilhado durante vários anos entre os partidos dinásticos Regenerador e Progressista que D. Carlos se «lembra» de João Franco em Maio de 1906: «Há muito a fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquele trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação, como tu podes contar com o meu auxílio e com toda a força que te devo dar.» - Anuncia o rei na carta em que convida João Franco a formar governo.

 

Este, não só aceita como não demora muito a entrar em ditadura, dissolvendo o Parlamento em Abril de 1907, contra a forte oposição tanto de republicanos como dos demais partidos monárquicos.

 

Do rei tem todo o apoio para esta decisão: «São precisas obras e não palavras. De palavras, bem sabemos, está o País farto», escreve D. Carlos na carta que envia na altura ao chefe do seu Governo. Já algum tempo antes tinha respondido a um pedido de demissão de João Franco com esta argumentação: «Há muita coisa a fazer e creio que se pode e deve fazer e temos de seguir o nosso caminho doa a quem doer.»

 

É neste cenário que lança João Franco na governação ditatorial e que, em Novembro de 1907 dá uma entrevista ao jornal Le Temps, onde explica: «Caminhávamos não sei para onde. Foi então que dei a João Franco os meios de governar. Fala-se da sua ditadura, mas os outros partidos, os que mais gritam, pediram-me, também, a ditadura. Para a conceber, exigia garantias de firmeza. Precisava de uma vontade sem fraqueza para levar as minhas ideias a bom fim. João Franco foi o homem que eu desejava.»

 

Opinião diversa tinham outros que, como Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria,  haveria de escrever: «A ditadura franquista, com os seus corregedores à maneira de Pina Manique, irritava a opinião, e pode bem dizer-se que muito contribuiu para acelerar a marcha da República».

 

Enquanto isto, D. Carlos, em carta a João Franco, ia dizendo: «Quanto aos anarquistas… não me admira que nestes momentos turvos alguns apareçam e alguma coisa tentem; mas para isso é que nós cá estamos e por certo nem a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar caminho. Cada vez mais me convenço que o caminho que nós traçamos é o bom, para não dizer o único e portanto já sabes que me encontras ao teu lado a ao governo, por pensamentos, palavras e obras!» 

 

Logo de seguida, em entrevista ao jornal francês Le Temps, na qual o rei se reafirma solidário com o governo franquista diz que «tudo está calmo em Lisboa, como no país» e que «só os políticos se agitam».

 

Como se nada lhe importasse, o rei continuava a viver como gostava.

 

D. Carlos não se poupa em gastos que custam caro ao País. Muda de iate como quem muda de camisa. O Amélia I depressa se torna pequeno para dar lugar ao Amélia II que não demora muito até ser ultrapassado pelo Amélia III a que logo sucede o Amélia IV.

 

Entre outros casos mais ou menos conhecidos, fala-se na compra de dois prédios na Calçada das Necessidades que o rei adquire para os seus encontros extra-conjugais.

 

O País era pobre, e se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico.

 

Entretanto, Mouzinho de Albuquerque tinha sido nomeado, a 28 de Setembro de 1898, ajudante de campo efectivo do Rei D. Carlos, oficial-mor da casa real e aio do príncipe D. Luís Filipe.

 

D. Carlos vivia como rei de um País de que não desejava ter muitas maçadas. Entre as maçadas e as caçadas não hesitava na escolha.

 

Desde muito cedo fizera de Vila Viçosa um local de eleição para as suas digressões cinegéticas e de lazer relaxante. Os ministros e até o próprio presidente do Ministério tinham de rumar até esta vila alentejana quando havia algo a tratar ou o rei os chamava.

 

Foi o que sucedeu no dia anterior ao regresso fatídico de 1 de Fevereiro de 1908.

 

Nesse dia recebe o ministro da Justiça, que ali se desloca com um decreto elaborado pelo Governo reunido na noite de 30 para 31.

 

O documento foi assinado por D. Carlos, nesse mesmo dia 31 de Janeiro. Com este novo diploma régio o primeiro-ministro João Franco fica mandatado para desencadear violentas acções sobre quem ousasse contra a política e o regime vigentes.

 

O Governo ficava com poderes totais para meter num navio e atirar para Timor, Angola ou outra colónia distante, qualquer indivíduo, mal fosse pronunciado por delito político ou crime de imprensa, prevendo ainda a isenção de julgamento e o efeito retroactivo da lei.

 

João Franco não deixa margem para dúvidas, quanto às suas intenções de esmagar tudo o que possa causar-lhe embaraços. «Os republicanos estão precisando de sabre como de pão para a boca», dizia ele com todo o arrojo.

 

Como recorda Raul Brandão, as coisas eram de tal ordem que só se ouvia dizer: «Venha tudo, venha o pior, venha o Diabo do Inferno que nos livre disto!»

 

«Isto termina, fatalmente, por um crime ou por uma revolução», advertia o monárquico Júlio Vilhena, assustado com as proporções das arremetidas franquistas.

 

E foi no crime que ocorreu o 1.º de Fevereiro de 1908. Dia em que morreu D. Carlos I, penúltimo rei da Monarquia Portuguesa.

 

Estava consumada uma das páginas mais dramáticas de toda a História de Portugal. «O rei morreu na tarde do 1.º de Fevereiro, no Terreiro do Paço. A Monarquia morreu essa noite, no Paço das Necessidades», escreve alguns meses depois um jornal republicano.

 

Penúltimo rei de Portugal, D. Carlos foi uma figura histórica incontornável, tendo reinado num dos mais conturbados períodos da vida política nacional.

 

Mouzinho de Albuquerque e João Franco foram homens do rei D. Carlos.

 

A seguir- Mouzinho de Albuquerque

 



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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 87 - por José Brandão

Silva Porto (1817-1890)

 

Historiador, explorador e africanista português, António Francisco da Silva Porto, nasceu a 24 de Agosto de 1817, cidade do Porto.

 

Filho de pais humildes, na infância, após se alfabetizar, embarcou com toda a família no Rio Ave e foi para o Brasil em1829.

 

No Rio de Janeiro empregou-se como caixeiro e, percebendo que seu futuro ali seria restrito, em 1835, embarcou para a Baia e logo ao chegar, anunciou no jornal Correio Mercantil que mudara de nome: doravante se assinaria António Ferreira da Silva Porto.

 

Dois anos depois, partiu para a Africa, desembarcando em Angola, onde permaneceu por pouco tempo, indo depois para Cabo Verde, onde ficaria ainda menos tempo.

 

De regresso à Baia, encontrou-a num período de revoltas políticas e estagnação comercial. Assim, partiu outra vez para a África, desta vez, com destino a Luanda, onde iria se iniciar na vida de explorador e sertanejo.

 

Nesta colónia portuguesa, por várias vezes embrenhou-se na selva, comerciando e travando relações com novas tribos, actividades sempre anotadas em seus diários que se tornariam famosos. Nestas anotações – que dedicou aos portugueses – conta em detalhes as sucessivas viagens que realizava: em 1839 penetrou as planícies internas de Luanda; em 1841, desceu por Benguela, explorando as selvagens regiões de Lui pelo rio Lutembo e o Zambeze superior, pelo Riambeje. Em 1845, fixou-se no Bié, de onde iniciou sua frequente e sucessiva jornada ao Barotze, que abriu ao comércio com Benguela e implantou o que acreditava ser uma digna civilização (1845 a 1852).

 

Silva Porto residiu pouco tempo em Luanda, preferindo seguir para o interior do território em 1839, como funante, levando bens para mercadejar no sertão. Fundou a povoação de Belmonte em 1847 (depois chamada Silva Porto, elevada à categoria de cidade; capital da província angolana do Bié).

 

Percorreu as vastas regiões então praticamente desconhecidas do sertão, a ele se ficando a dever um melhor conhecimento do Bié, remota zona para onde a sua actividade desbravadora viria a atrair colonos e comerciantes.

 

As relações com indígenas bienos foram em geral pacíficas até à grande revolta destes, eclodida em 1890.

A acção mais memorável da sua longa vida de sertanejo e aventureiro foi a travessia que iniciou na mira de atingir a costa oriental africana, acompanhando mercadores árabes.

 

Durante o percurso viria a encontrar o célebre missionário e explorador Livingstone em 1853, a quem forneceu informações acerca do caminho a seguir até Luanda.

 

Silva Porto viria a desistir da travessia no Alto Zambeze, a qual seria no entanto completada por pombeiros seus que atingiram Moçambique em1854.

 

Anos depois, o sertanejo, tendo adoecido, regressou a Portugal, para se tratar e se ressarcir das canseiras do mato.

 

Quando se restabeleceu, partiu para Angola, esperando-o no Bié uma calamidade: um grande incêndio havia destruído, durante a sua ausência, todos os seus haveres.

 

Denodadamente, voltou ao trabalho e reconstruiu as instalações de Belmonte, sem poder contar com o auxílio da Sociedade de Geografia de Lisboa ou do rei D. Luís, aos quais solicitara ajuda.

 

Incumbido do governo português sob a tutela de D. Luís I, foi encarregado de pacificar tribos e pôr um fim às injustiças sociais a que se submetiam os selvagens. A isso e aos iminentes perigos de invasão, solicitou ajuda da corte para uma intervenção militar na região. Não atendido, fez-se agricultor, formando uma grande fazenda no Bié (Belmonte) e outra próximo a Benguela.

 

Regressou a Portugal para negociar e, assim que retornou à África, viu suas propriedades incendiadas. Foi nomeado capitão-mor da região, realizando grandes esforços para assegurar o prestígio das autoridades portuguesas ante as invasões estrangeiras e as ameaçadoras tendências da política nativa.

 

Velho, empobrecido e extremamente nacionalista, esperava que chegassem recursos e reforços para que Portugal não sofresse grandes humilhações. Mas essa ajuda nunca chegou: a metrópole sofria a transição com a posse de D. Carlos I, a situação ficava cada vez mais tensa e percebeu bem o seu isolamento diante da rebelião dos nativos ao colonialismo que por mais de meio século ali se instalara.

 

Era capitão-mor do Bié quando a população indígena se revoltou contra a autoridade portuguesa, representada na vasta região por escassas forças militares, que protegiam um reduzido número de colonos.

 

Só, desamparado e amargurado, optou pelo suicídio.

 

Ainda hoje não se conhecem as razões fundamentais que o levaram a um bizarro suicídio.

 

Levantou-se de madrugada, embrulhou-se na bandeira portuguesa, sentou-se sobre um barril de pólvora e ateou fogo, explodindo com ele.

 

Abandonado no interior, na sua fazenda «Belmonte», perante uma revolta de naturais, segundo alguns quase contrário a violências e sem protecção militar, decidiu fazer da sua morte uma página da história-pátria, protestando talvez com esse gesto.

 

Morreu a 3 de Abril de 1890, em Bié, Angola.

 

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Domingo, 27 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 86 – por José Brandão

 

Fontes Pereira de Melo (1819-1887)

 

 

António Maria de Fontes Pereira de Melo nasceu em Lisboa, a 1819.

 

Era filho de João de Fontes Pereira de Melo que foi governador de Cabo Verde por duas vezes. António Maria nunca foi governador de Cabo Verde mas foi eleito deputado pelas ilhas, que foi o primeiro passo para uma brilhante carreira política.

 

António Maria Fontes Pereira de Melo, fidalgo da Casa Real, do conselho de Sua Majestade e do conselho de Estado, chefe do partido regenerador, ministro e secretário de Estado em diversas épocas, deputado e eloquente orador, salientando-se o discurso que pronunciou na câmara contra a lei conhecida pelo nome de «lei das rolhas», que restringia a liberdade de imprensa, contra a qual o país inteiro se sublevou e que em muito contribuiu para que se destacasse brilhantemente como oposicionista.

 

António Maria de Fontes Pereira de Melo dá entrada na vida política quando, em 1848, foi eleito Deputado. Em 1866 é nomeado Conselheiro de Estado, em 1870 Par do Reino e, em 1871, 1878-1879 e 1881-1886 assumiu a chefia do executivo.

 

Depois de um período de agitação política que marcou a primeira metade do século XIX, teve início em 1851 uma nova etapa da monarquia constitucional portuguesa. Esse período foi chamado de Regeneração, pois os governos tentaram recuperar o atraso em que Portugal vivia em relação a outros países da Europa através da modernização da administração e do desenvolvimento económico do país. No primeiro governo da Regeneração foi criado um novo ministério, o das Obras Públicas, do qual Fontes Pereira Melo se encarregou.

 

Fontes Pereira de Melo aumentou o número de estradas, construiu o primeiro troço dos caminhos-de-ferro, que ligava Lisboa ao Carregado, iniciou a construção de outros dois caminhos-de-ferro e montou a primeira linha telegráfica.

 

Além dessas obras, iniciou a revolução dos transportes e das comunicações, inaugurando carreiras regulares de barcos a vapor, os serviços postais e as redes telefónicas.

 

Na pasta do reino, Fontes deixou a nova lei eleitoral, a mais liberal e razoável que até então tinha havido, a transferência do Conselho de Instrução Pública de Coimbra para Lisboa, a reforma do ministério, a passagem da Escola Politécnica para a jurisdição do ministério do reino, a abolição dos passaportes, a lei que concedeu pensões aos que se tinham distinguido na verdadeira campanha contra a febre-amarela. Durante os 16 meses em que geriu este ministério, desde Março de 1859 a 4 de Julho de 1860 contribuiu para a instrução pública a organização mais justa do ensino superior, a beneficência e a fundação do hospital de D.ª Estefânia.

 

Em 1871 encarregou-se das pastas da fazenda e da Guerra, sendo que, nesta última o exército recebeu dele as brilhantes peças Krupp ao mesmo tempo que a fortificação de Lisboa recebia um poderoso impulso.

 

Fontes Pereira de Melo tinha as mais altas distinções honoríficas, tivera duas honrarias raramente concedidas em Portugal a quem não fosse príncipe de sangue, a ordem da Anunciada da Itália e do Tosão de Ouro de Espanha.

 

Fontes Pereira de Melo faleceu no posto de general de divisão; foi governador da Companhia do Crédito Predial Português e presidente do Supremo Tribunal Administrativo; foi também presidente da comissão central do Primeiro de Dezembro de 1640, que promoveu a inauguração do monumento aos Restauradores, a qual se realizou em 28 de Abril de 1886, assistindo el-rei D. Luís e o príncipe D. Carlos.

 

Fontes Pereira de Melo foi um dos principais políticos portugueses da segunda metade do século XIX. 

 

Morreu no dia 22 de Janeiro de 1887.

 

A seguir - Silva Porto

 

 



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Sábado, 26 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 85 - por José Brandão

 

D. LUÍS (reinou de 1861 a 1889)

 

D. Luís I, segundo filho da rainha D. Maria II e de Fernando II, nasceu no Palácio das Necessidades a 31 de Outubro de 1838 tendo recebido o nome de Luís Filipe Maria Fernando Pedro de Alcântara António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando.

 

Por morte de seu irmão D. Pedro V, ocorrida a 11 de Novembro de 1861, assumiu o governo e foi aclamado em 22 de Dezembro.

 

Primorosamente educado, hábil marinheiro, dotado de tolerantíssima bonomia, D. Luís tinha um temperamento de literato e de artista. Apreciava e executava música clássica e traduziu para Português obras do grande dramaturgo inglês Shakespeare.

 

Entretanto, e porque um dos primeiros deveres de um rei é o de garantir a sua sucessão no Trono, D. Luís resolveu casar-se.

 

Escolhida a noiva, a jovem Princesa Maria Pia de Sabóia, então somente com 15 anos, pois que nascera a 16 de Outubro de 1847, realizou-se por procuração passada ao duque de Loulé, o casamento, primeiro em 27 de Setembro de 1862, no Palácio Real de Turim.

 

Chegada a Lisboa em 5 de Outubro a bordo da Corveta Bartolomeu Dias que a fora buscar a Génova, realizou-se no dia seguinte a cerimónia na Igreja de S. Domingos havendo, nesse altura, uma tão pródiga distribuição de títulos, mercês e demais condecorações.

 

O seu longo reinado caracterizou-se, no aspecto político, pela formação de dois grandes partidos políticos, que se alternariam no poder por largos anos, e pela propaganda das ideias republicanas, habilmente conduzidas pelas promessas de uma prosperidade económica que a Monarquia não poderia dar.

 

Experimenta-se o rotativismo, a alternância no poder entre os partidos progressista e regeneradores.

 

Em 1862, José Anselmo Braamcamp expulsa as irmãs da Caridade e extingue os morgados, propriedades que não podiam alienar-se ou dividir-se. Passavam sempre para o filho primogénito.

 

A população de Braga amotinou-se pouco depois, por causa da expulsão das Freiras, tornando-se necessário enviar, para essa cidade, fortes destacamentos militares com o fim de, através da costumada receita da caserna, acalmarem os beatíficos, mas pouco cordatos, ânimos da gente bracarense.

 

No decorrer destas operações, o capitão Guilherme Augusto da Silva Macedo, conjurado com os sargentos de Infantaria 6, ido do Porto, conseguiu amotinar 200 soldados com os quais, e com a ajuda do Batalhão de Caçadores 3, tentou nova revolta, marchando sobre Barcelos, na esperança de obter a adesão de Infantaria 5 e 13 ali acampados nessa ocasião.

 

Apesar dos seus poderes serem limitados devido ao regime parlamentar, D. Luís tentou dirimir os conflitos dos primeiros tempos sem por em causa os direitos e liberdades adquiridos.

 

Em 1866, o ultra-romantismo conservador é contestado por Antero, Teófilo de Braga e outros, em oposição a António Feliciano de Castilho. Vai dar origem à Questão Coimbrã ou Bom Senso e Bom Gosto, fecunda polémica que iria abrir novos rumos e novos ritmos à literatura portuguesa.

 

Entrado já o último quartel do século, a política interna, por tanto tempo em relativa calma, enveredou por uma fase de transformações que viriam a ser fatais à Coroa. A 7 de Setembro de 1876, mediante o Pacto da Granja, o Partido Histórico e o Partido Reformista fundiram-se no Partido Progressista, no decurso de uma reunião efectuada naquela praia e na qual, entre outros, estiveram presentes Anselmo Braamcamp (sucessor do duque de Loulé na chefia dos Históricos), o bispo de Viseu, D. António Alves Martins (chefe dos Reformistas), José Luciano de Castro, Francisco Pinto Bessa, Luís de Campos, Tomás Lobo, Adriano Machado, Francisco de Albuquerque e Mariano de Carvalho.

 

Nos começos de 1877, depois de se conservar no poder durante seis anos, demitiu-se o Ministério regenerador de Fontes Pereira de Melo. Seguiu-se-lhe, em 6 de Março, o do duque de Ávila, que, aliás, não logrou manter-se por falta de maioria. E, após um conflito parlamentar, foi de novo chamado Fontes – facto que deu origem a uma das campanhas de mais vastas consequências que houve em Portugal. Os progressistas atacaram directamente a pessoa do rei, acusando-o de patrocinar os regeneradores. Mariano de Carvalho, no Diário Popular, Emídio Navarro, no Progresso, e Joaquim Martins de Carvalho, no Conimbricense, publicaram artigos violentíssimos, atirando ao ódio da turba a imagem de um rei que se subalternizara.

 

Entretanto, o republicanismo que, a par de tendências socializantes, surgira no plano meramente intelectual aquando das Conferências do Casino, não só evoluíra, como ganhara raízes.

 

As Conferências Democráticas do Casino, organizadas por Antero de Quental, Augusto Soromenho, Eça de Queirós, Adolfo Coelho, Oliveira Martins, Batalha Reis, Manuel Arriaga, José Fontana aproveitam os temas (política, literatura, sociologia, crítica) para espalhar as ideias republicanas. O Governo proíbe-as. A semente vai germinar sem grandes pressas.

 

Em 1878, toma assento na Câmara o primeiro deputado republicano, Rodrigues de Freitas, eleito pelo Porto.

Assim, a comemoração do tricentenário da morte de Luís de Camões, em 1880, não era já apenas uma grandiosa manifestação de um escol lucidamente animado por sincera vontade de enquadramento no ritmo da Europa culta, mas a expressão do convencimento de que só o podia fazer fora das instituições que o imobilizavam. No cortejo cívico então efectuado, nem um viva ao rei, nem a mais insignificante homenagem à rainha. E em vez do Hino da Carta tocou-se uma marcha triunfal.

 

Longe de lutas políticas, decorrem as notáveis viagens dos exploradores africanos que percorrem Angola e Moçambique.

 

O conhecimento do Portugal africano foi intensamente desenvolvido e com essa finalidade o rei fundou a Sociedade de Geografia de Lisboa, de que se declarou Protector e foi Presidente de Honra, participando com o maior interesse nas suas actividades culturais e científicas.

 

Em África, os exploradores portugueses Hermenegildo Capelo, Serpa Pinto, Roberto Ivens e Silva Porto percorrem os sertões e assinalam a presença portuguesa.

 

O reinado de D. Luís assinalou-se materialmente pelo progresso, socialmente por uma certa paz e pelos sentimentos de convivência e politicamente pelo respeito pelas liberdades públicas.

 

Após dolorosa agonia, D. Luís faleceu na Cidadela de Cascais, com 51 anos, a 19 de Outubro de 1889, tendo sido sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora.

 

Fontes Pereira de Melo e Silva Porto foram homens do rei D. Luís.

 

 

A seguir - Fontes Pereira de Melo



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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 84 – por José Brandão

 

 

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

 

Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825, na Rua da Rosa, filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho e de Jacinta Rosa do Espírito Santo, uma sua criada.

 

Com apenas dezasseis anos, Camilo casa com Joaquina Pereira de França e instala-se em Friúme (Ribeira de Pena). O casamento precoce parece ter sido resultado de uma mera paixão juvenil, não tendo resistido muito tempo. No ano seguinte prepara-se para ingressar na Universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha.

 

Depois da morte da esposa Joaquina Pereira em 1847, Camilo muda-se para o Porto e entrega-se a uma vida de boémia, entremeada com escândalos de carácter amoroso, ao mesmo tempo que se dedica mais profissionalmente à actividade jornalística, prestando colaboração ao Jornal do Povo. Rosa, a sua filha legítima, morre e nasce uma outra filha, Bernardina Amélia, fruto da relação com Patrícia Emília.

 

Em 1850 instala-se durante algum tempo em Lisboa e passa a viver exclusivamente da sua actividade literária. É por esta altura que conhece Ana Plácido, noiva de Manuel Pinheiro Alves, o que não o impede de se envolver amorosamente com uma freira do Porto, Isabel Cândida Vaz Mourão.

 

Em 1857, transfere-se para Viana do Castelo, como redactor do jornal A Aurora do Lima. Ana Plácido vai também para lá, a pretexto de apoiar uma irmã doente, e a ligação entre os dois torna-se pública. O escândalo cria-lhe dificuldades com vários jornais em que colaborava.

 

Após queixa de Manuel Pinheiro Alves contra a mulher e o amante, Ana Plácido é presa em Junho de 1860 e Camilo foge à justiça durante algum tempo, mas acaba por entregar-se em Outubro, ficando detido na cadeia da Relação do Porto, onde é visitado pelo próprio rei D. Pedro V. Finalmente, em Outubro de 1861 os dois são absolvidos pelo juiz, curiosamente, pai de outra grande figura das letras, Eça de Queirós.

 

No Porto, inicia uma vida de boémia e escândalo, marcada por inúmeras aventuras amorosas e uma tentativa de suicídio. Em 1850, depois de uma breve atracção pela vida sacerdotal, inicia o seu período de maior produção literária.

 

Em 1863, nasce em Lisboa o segundo filho do casal, Jorge, que viria a criar-lhe sérios problemas, com o seu alcoolismo crónico. Ao longo destes anos, Camilo desenvolve uma intensa actividade, ganhando notoriedade pública como escritor.

A produção literária de Camilo sofreu grande influência das atribulações, nomeadamente amorosas, da sua vida. Tendo de se sujeitar frequentemente às exigências dos seus editores, fazendo cedências, apressando a escrita, recorrendo a estereótipos que satisfizessem o gosto da época, a sua produção é algo irregular e apresenta algumas falhas.

 

A maior glória da literatura portuguesa escreveu uma carta datada de 21 de Maio de 1890: «Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego».

 

A 1 de Junho do mesmo ano, depois do dr. Edmundo de Magalhães Machado, oftalmologista de renome, o ter examinado cuidadosamente na sua casa de S. Miguel de Ceide. Camilo percebe que a cegueira era irreversível. Despediu-se do médico, saindo este acompanhado de Ana Plácido: «Calmo e decidido, Camilo sacou do revólver, em seu poder há vários anos, e disparou sobre o parietal direito».

 

O suicídio sempre lhe fora familiar, parece que «primeiro como uma especulação da inteligência», depois, à medida que a cegueira progredia como resolução final. O escritor recusava deixar-se ficar um morto vivo.

 

A seguir - Fontes Pereira de Melo



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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 83 – por José Brandão

 

Alexandre Herculano (1810-1877)

 

Alexandre Herculano de Carvalho Araújo nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810, no seio de uma família da classe média. Era filho de Teodoro Cândido da Araújo, um modesto funcionário administrativo e de D. Maria do Carmo de S. Boaventura, filha de José Rodrigues de Carvalho, pedreiro empregado nas obras da Casa Real.

 

Preparou-se para a matrícula na Universidade de Coimbra, mas em 1827, seu pai ficou cego, e seu avô materno sofreu um grande revés da fortuna, pela falta de pagamento de somas importantes de que era credor como mestre nas obras da Ajuda, faltaram-lhe os recursos; contudo, Alexandre Herculano não desanimou do propósito de se educar, e conseguiu aprender particularmente os idiomas francês, inglês e alemão, matriculando-se no primeiro ano da Aula do Comércio em 1830, seguindo o curso de Paleografia, a que então se chamava Diplomática, na Torre do Tombo.

 

Os ânimos políticos eram acirrados naquela época; a guerra civil com todos os seus horrores absolutistas, enchia as cadeias de presos do reino só pelo crime de serem liberais, e nas praças públicas eram os levantados patíbulos frequentemente. Alexandre Herculano viu-se obrigado a interromper os estudos para seguir a revolução.

 

Em 1831 compromete-se na revolta do 4 de Infantaria, escapando à matança dos insurrectos que a liquidou, e vê-se obrigado a fugir para Inglaterra.

 

Regressou a Portugal como soldado da expedição de D. Pedro, e tomou parte em combates e acções militares. Mas já então colabora em trabalhos de reforma cultural relacionados com a revolução.

 

A Revolução de Setembro de 1836 trouxe o moço escritor para a notoriedade: demitiu-se, como protesto, do seu lugar de bibliotecário, e em Lisboa, para onde veio, publicou contra os novos governantes um folheto a Voz do Profeta.

 

 No ano de 1858 o círculo de Sintra quis elegê-lo seu representante em Cortes, porém ele não aceitou. Era cavaleiro da ordem da Torre e Espada, agraciado por decreto do 1º de Março de 1839.

 

Aceitou esta mercê porque entendia que a merecera como soldado, mas depois dessa data rejeitou sempre todas as honras, recusando a comenda da mesma ordem do próprio soberano, el-rei D. Pedro V, que o procurou um dia para lhe oferecer os arminhos de par em 1861, e a grã-cruz da ordem reformada de S. Tiago em 1862.

 

D. Pedro V respeitava os homens políticos importantes do seu tempo, e era grande respeitador de Alexandre Herculano, a quem visitava frequentes vezes, entretendo com o notável historiador discussões científicas; passava largas horas, quando estava em Mafra, a consultar crónicas e outros livros antigos daquela valiosa biblioteca.

 

Privava o autor da amizade de D. Pedro V, mas não quis aceitar as benesses e distinções que lhe foram oferecidas.

Em 1867, desgostos

o com a morte precoce de D. Pedro V, rei em quem depositava muitas esperanças, e desiludido com a vida pública, retirou-se para a sua quinta em Vale de Lobos, onde se dedicaria quase exclusivamente à vida rural, casando com D. Maria Hermínia Meira, sua namorada da juventude.

 

Com a morte prematura do monarca as suas reacções são sentidas:

 

«Se eu tivesse um filho e me morresse, não me custava mais a morte dele do que me custou a daquele pobre rapaz…» - dirá Alexandre Herculano.

 

Afirmando que dava por terminada a sua carreira literária dedicou-se, nos anos seguintes, à vida agrária.

Defensor intransigente da propriedade rural, o nosso pensador no entanto mostrou-se sensível à sorte dos camponeses da sua região, que lhe renderam sentida homenagem quando da sua morte, ocorrida em 13 de Setembro de 1877.

 

A seguir - Camilo Castelo Branco



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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 82 – por José Brandão

 

António Alves Martins, Bispo de Viseu (1808-1882)

 

 

Foi prelado católico e político liberal, e soube exemplarmente harmonizar os deveres pastorais com a honestidade administrativa. Nasceu em Trás-os-Montes, na Granja de Alijó, em 18 de Fevereiro de 1808, de pais humildes, mas de comportamento que lhe deu as primeiras lições da sua arte de bem servir, e morreu em Viseu, no seu Paço de Fontelo, em 5 de Fevereiro de 1882. Era sua intenção dedicar-se ao professorado universitário, e para isso se matriculou na Faculdade de Artes, mas em 1828, no seu terceiro ano de curso, proclama-se D. Miguel rei absoluto, e o jovem franciscano, levado pelo entusiasmo liberal, abandona a Universidade e colabora na reacção antimiguelista, atribuindo-se-lhe responsabilidades na revolta do Porto. Expulso da Universidade, regressa à calma conventual, e ali se aplica aos estudos abandonados. Em 1832, porém, tendo ido, pouco antes do desembarque das forças liberais no Mindelo, por ordem de seus superiores, exercer uma capelania na Armada, função confiada à ordem franciscana, não tardou que fosse novamente julgado em reincidência, sendo condenado à morte.

 

Segue-se ao julgamento a trágica situação sua e de outros três companheiros condenados, com quem fugira à escolta que os conduzia. Junto do Mondego, perto de Vila Verde, surpreendem sentinelas do exército miguelista, ocultam-se numa salina, e durante quatro horas ali estiveram, cheios de frio e fome, arrepiados de medo, até que puderam atravessar o rio e dirigir-se a Leiria, onde se apresentaram ao tenente-coronel Vasconcelos, mais tarde visconde de Leiria. O frade consegue curar-se do tifo nessa aventura contraído, e como o triunfo liberal o livra da execução, volta à Universidade, para ali frequentar, com altas classificações, a Faculdade de Teologia, a cujo magistério concorre. Como, porém, demorasse o acesso à cátedra, concorre à cadeira de História e Geografia no Liceu do Porto.

 

Entretanto, havia-se iniciado na actividade política, como deputado, e na actividade administrativa, como enfermeiro-mor do Hospital de S. José, numa e noutra função revelando qualidades que lhe deram notoriedade. D. Pedro V quis galardoá-lo com a Comenda da Conceição, mas Alves Martins recusou-a. O cumprimento do dever – declarou não excedia a actividade normal exigida, por isso não havia razão para prémio. Foi, porém, apresentado como bispo de Viseu em 2 de Julho de 1862, e em 25 de Setembro tomava posse por procuração.

Como prelado entendeu poder continuar a servir a Pátria em sua carreira política, porque a Pátria e a Igreja passavam pela mesma crise naquele momento de conflito entre o absolutismo da tradição e a liberdade em ensaio.

 

Tinha o prelado ido a Roma, em 1864, à celebração do centenário de S. Pedro. Na saudação com que os bispos, na Capela Sistina, responderam à do Pontífice, formularam-se votos pela observação do poder temporal e pela definição do dogma da infalibilidade pontifícia. D. António Alves Martins já tinha retirado para Paris, quando foi informado de que a saudação fora posteriormente assinada por todos os presentes e o seu nome nela figurava. Foi imediato o seu protesto, pois discordava de tais votos. Respeitou-se-lhe a leal e corajosa atitude, e, conforme à sua exigência, a sua declaração foi registada em acta na Legação de Portugal em Roma, onde uma comissão de três prelados lhe tinham ido explicar que fora engano a indevida inscrição.

 

O prelado de Viseu foi ministro do Reino por duas vezes – de 1869 a 1871, com os chamados históricos, que constituíam o partido considerado mais avançado.

 

O prelado viseense não seria de zelo muito eficaz na pregação verbal da Fé, mas era-o no exercício prático da Caridade. Todos os seus proventos eram património dos pobres, sem sobras para enriquecer os parentes, nem para luxos no Paço de Fontelo, onde se finou em 1882.

 

A seguir - Alexandre Herculano



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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 80 - por José Brandão

 

 

Costa Cabral (1803-1889)

 

De origem social modesta, filho do conselheiro António Bernardo da Silva Cabral e de D. Francisca Vitória Rebelo da Costa Corte-Real, António Bernardo da Costa Cabral – que foi grão-mestre da Maçonaria (1814), conde (1845) e marquês de Tornar (1878) – nasceu em Fornos de Algodres, a 9 de Maio de 1803, e faleceu na Foz do Douro, a 1 de Setembro de 1889.

 

Concluída, com muito brilho, a formatura em Direito na Universidade de Coimbra (1823), exerceu a advocacia em Celorico da Beira (1826) e em Nelas (1828). De formação liberal, não tardou a alistar-se nas forças do futuro conde de Samodães, mas, após o fracasso da Belfastada (1828), teve de seguir, como tantos outros, o rumo do exílio: Galiza, Inglaterra e Bélgica, donde passou à ilha Terceira. Aqui, teve assento na Junta de Justiça, no Supremo Tribunal de Guerra do exército liberal e, por fim, desempenhou o difícil cargo de auditor-geral do exército de D. Pedro.

 

Integrado na expedição que desembarcou no Mindelo (1832), serviu no cerco do Porto e desempenhou, nesse período particularmente dramático, as funções de procurador régio na Relação do Porto, regressando em seguida aos Açores, na qualidade de juiz da Relação do Arquipélago (1833).

 

Regressado com D. Pedro IV ao continente, transitou, depois da vitória liberal, dos combates de arcabuz, que implantavam o novo regime, aos combates da palavra e às manobras das contendas políticas.

 

Chamado a sobraçar a pasta da Justiça, revelou-se o estadista. Reorganizou o seu Ministério, em actividades e pessoal, e na Novíssima Reforma Judiciária, que fez promulgar, deu a melhor prova das capacidades que ultrapassavam as de simples Pina Manique.

 

Mas Costa Cabral sentia cada vez mais a estreiteza dos limites da sua pasta ministerial para a sua ambição de plenamente se realizar. Depois, o País estava na situação aflitiva do Erário esvaziado e da Inglaterra exigindo o pagamento das dívidas contraídas pelas suas intervenções militares desde a de Wellington. Cada vez mais as lutas partidárias repercutiam em anarquia, que de Norte a Sul agitava a província.

 

Ficou patente, que a rainha, se não foi conivente na manobra, ao menos facilmente perdoou a mentira, que lhe trazia desembaraço à acção governativa. Dentro de pouco, estava Costa Cabral dirigindo toda a actividade política e com força moral tal e tais processos de a intensificar e prolongar que a sua ditadura durou de 1842 a 1846, caindo não perante a oposição parlamentar ou perante forte resistência da parte consciente da Nação, mas ante a revolução da Maria da Fonte, ou seja, o movimento popular de recusa à sepultura dos cadáveres fora dos templos determinada pela deliberação civilizada que criava os cemitérios!

 

É claro que os políticos aproveitaram a repulsa popular, rapidamente propagada aos defensores da ordem, civis ou militares, e Costa Cabral foi obrigado a abandonar o País – com o decoro exterior duma colocação em Madrid como nosso ministro plenipotenciário.

 

Os quatro anos de Governo do cabralismo ficaram inesquecíveis na História portuguesa, e não apenas pela formidável resistência dum homem aos ataques da mais longa e aguerrida oposição de toda a nossa vida parlamentar, pois todos os partidos se foram coligando contra a sua ditadura, e viam-se miguelistas associados a setembristas, estes não tanto para derrubar o ditador, como para restaurar o rei exilado.

 

O ditador, porém, parecia embriagar-se na emoção do golpe que se dá e se recebe. Evocando a cada passo o respeito pelas urnas, em que ele cozinhava a representação nacional, mantinha aberto o Parlamento com larga maioria de deputados funcionários públicos que ele arregimentava. Todavia, mantinham-se oposições que supriam pela qualidade as suas deficiências de quantidade. Garrett, Joaquim António de Aguiar, Silva Sampaio, António Maria Grande, no Parlamento, como o conde de Lavadores, na Câmara dos Pares, atacavam-no sem tréguas, mas o seu orgulho não dispensava aquelas diárias exibições de boxe.

 

Exasperava-se ele, exasperavam-se os inimigos no duelo em que o orgulho os impedia de ceder, e Costa Cabral recorria, colérico, à própria suspensão dos jornais de oposição, ao que ela respondia pela fama terrível de Rodrigues Sampaio e o seu O Espectro. Era um jornal fantasma, que não se sabia onde era feito nem donde vinha gratuitamente espalhar no ambiente sobreaquecido o grisu que mais cedo ou mais tarde havia de deflagrar. Perseguições, encarceramentos, desterros, a tudo recorria o orgulho do lutador, que oposição de igual veemência acirrava.

 

O novo Código Civil dispusera o funcionalismo político e administrativo numa organização hierárquica que todo o submetia aos delegados do Governo – aos regedores de freguesia, na dependência dos administradores do concelho, estes vigiados pelo governador civil, por seu turno de nomeação ministerial e a ela subordinado. Quando Costa Cabral, cuja ditadura ele exerceu em duas câmaras de deputados e pares do reino, queria manter a máquina eleitoral que lhe garantisse maioria, confiava aos seus delegados na hierarquia administrativa a montagem da máquina eleitoral, pela qual eram eleitos, em grande parte, funcionários públicos.

 

Os barões nomeados para a Câmara dos Pares, na maioria com os seus novos brasões, a substituírem a antiga nobreza, exprimiam nas votações a sua gratidão a quem lhes dera condições de prosperar e fulgir com suas cruzes, crachats e colares.

 

Mas, na doutrina cabralista, a riqueza não dava apenas investiduras honoríficas: aqueles galardões facilitavam operações bancárias, que por seu turno estimulavam a investimentos no fomento a todos benéfico, civilização do País e orgulho dos governos.

 

Investiam-no em obras do Estado, e destas foi, na verdade, incentivada a realização, sendo nesta época que se iniciou a construção de estradas. Várias companhias se formaram, como a do Tabaco, a Nacional e a das Obras Públicas, todas fundadas em 1844. Infelizmente, os investimentos foram apenas caseiros, pois a banca estrangeira não confiava em nós, ao contrário do que sucederia mais tarde, quando, na Regeneração, a ordem estava consolidada.

 

A sua queda ante a revolução popular de Maria da Fonte não feriu de morte o político, que foi para Madrid como ministro plenipotenciário e lá manobrou e conseguiu a intervenção da Espanha e da França na nossa vida política.

 

Costa Cabral voltou ainda ao poder, e com o mesmo vigor antigo. Novos ataques e nova defesa dele, com ímpeto de agressão formidável. E novas embaixadas se sucedem depois da queda ministerial.

 

Foi a primeira a de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto do Governo do Rio de Janeiro, onde habilmente resolveu as dificuldades alfandegárias que fechavam, pode dizer-se, o mercado brasileiro aos vinhos portugueses. A segunda, quando, em 1870, a pedido de Saldanha, no período grave da luta pela unificação italiana chefiada por Vítor Manuel II, foi tomar conta da nossa legação junto da Santa Sé, acabando, por delegação dos seus pares, por assumir a direcção da conduta a adoptar pelo corpo diplomático acreditado no Vaticano.

Ascendeu a embaixador em 1878 e, pouco depois, foi o seu título elevado ao grau de marquês, mediante decreto referendado pelo seu antigo adversário político Rodrigues Sampaio, então ministro de D. Luís.

 

Morreu em 1889, na Foz do Douro.

 

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Domingo, 20 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 79 – por José Brandão

Duque de Palmela (1771-1850)

 

 

Fidalgo de fina estirpe e de aprimorada cultura, dotado de subtil inteligência, diplomata e político, D. Pedro de Sousa Holstein, filho do embaixador D. Alexandre de Sousa Holstein e de D. Isabel Juliana de Sousa Coutinho, nasceu em Turim, a 8 de Maio de 1771, e enquanto criança sofreu, naturalmente, as vicissitudes que acompanham a vida dos filhos dos diplomatas, votados a viver no estrangeiro grande parte do tempo. Assim, só em 1794 veio a matricular-se na Universidade de Coimbra, mas a sua posição social obrigou-o a seguir a carreira das armas, assentando praça, em 1796, no regimento da guarnição da corte, exercendo, logo no ano seguinte, já como capitão, as funções de ajudante do velho duque de Lafões, ao tempo marechal-general do Exército português.

 

Em 1802, encontrando-se seu pai como embaixador em Roma, foi D. Pedro Holstein despachado para a corte pontifícia como conselheiro da embaixada. Percorreu então, nas naturais demoras da viagem, várias cidades, apurou a sua cultura, conviveu em Florença com o famoso dramaturgo Alfieri e, mais tarde, em Roma, com o ilustre Humboldt. E tal prestígio alcançou quer junto do papa Pio VII, quer junto do secretário de Estado, Consalvi, que, perante a morte repentina de seu pai, logo foi por estes sugerida ao Governo português a sua nomeação para embaixador.xxx Como, porém, a sua juvenil idade – apenas 21 anos – não se coadunava, dentro das tradições diplomáticas, com tão elevado cargo, permaneceu realmente na Cúria, mas como encarregado de negócios.

 

Em 1805 conheceu, em Itália, Madame de Staël e, deixando nesse ano o seu lugar em Roma, veio passar dois meses na residência que a ilustre escritora possuía em Coppet, junto do lago Léman, onde conviveu com altas figuras da política e das letras, e onde traduziu para francês alguns episódios d’Os Lusíadas, publicados em Londres, em 1814, no Investigador Português

 

Regressou ao seu País, em 1806, para se entregar à administração da sua casa, mantendo-se, de certo modo, afastado da corte.

 

Mas, quando Arthur Wellesley assumiu o comando do exército anglo-português que lutava contra os franceses invasores, D. Pedro Holstein ofereceu-lhe os seus serviços e, com o posto de major, foi nomeado ajudante de ordens do coronel Trant, contribuindo voluntária e largamente, também, para as despesas da guerra.

 

Em 1810, foi ocupar o cargo de ministro plenipotenciário junto do Governo espanhol de Cádis e, em 1812, já com o título de conde, assumiu as funções de embaixador em Londres. Hábil e perspicaz, tal prestígio alcançou que foi escolhido para representar Portugal, juntamente com os futuros condes de Oriola e de Porto Santo, no Congresso de Viena (1815). E voltou à capital britânica no ano seguinte, agora para interferir no diferendo com a Espanha acerca do rio da Prata.

 

Chamado ao Rio de Janeiro para sobraçar a pasta dos Negócios Estrangeiros, aproveitou a sua passagem por Lisboa para aconselhar a Regência a enveredar por uma política que conduzisse à constitucionalização do País, o tipo de política que sempre defendeu, pois Palmela, na síntese de Oliveira Martins, «não era vintista jacobino, nem miguelista apostólico; não era propriamente português, mas sim um inglês da escola de Canning, liberal-parlamentar, moderado, temperado, equilibrista». No Brasil, sugeriu ao monarca a promulgação de uma Carta Constitucional, mas, discordando da índole reaccionária do decreto de 2 de Fevereiro de 1821, acompanhou D. João VI no seu regresso a Lisboa. As Constituintes, no entanto, não autorizaram o seu desembarque – e foi-lhe fixada residência em Borba.

 

Apoia, é certo, a Vilafrancada (1823), aceita fazer parte do Ministério saído deste movimento, mas, porque sempre defendeu a necessidade de dar ao País uma Constituição, cai no desagrado de D. Carlota Joaquina e de D. Miguel, e é encarcerado na Torre de Belém após a Abrilada (1824). Embaixador de Portugal em Londres, na altura em que D. Pedro promulgou a Carta Constitucional de 1826 – diploma a que se manteria fiel durante toda a sua vida – pediu a exoneração das suas funções quando D. Miguel se fez aclamar rei em 1828.

 

Organizou então, na capital britânica, o movimento de resistência contra o regime miguelista, e, muito embora tenha nascido nessa altura a sua rivalidade com Saldanha, isso não o impediu de lhe confiar o comando da expedição que partiu para a ilha Terceira.

 

Após a tomada do Porto pelos constitucionais, Palmela – que viera na expedição, e que na Terceira fizera parte da Regência foi mandado a Londres a fim de obter socorros e dinheiro para a continuação da luta, conseguindo o concurso do almirante Napier. Incumbido, depois, de organizar e dirigir politicamente as zonas que fossem sucessivamente arrancadas ao domínio de D. Miguel, ascendeu a duque em 13 de Julho de 1833 e, terminada a guerra civil, assumiu a presidência da Câmara dos Pares e a do primeiro Ministério organizado por D. Maria II.

 

Forçado a emigrar após a revolução de Setembro (1836), são, no entanto, os próprios adversários políticos que, reconhecendo os seus dotes de diplomata e o prestígio de que gozava além-fronteiras, que o nomeiam novamente embaixador em Londres, a fim de assistir como nosso representante às cerimónias da coroação da rainha Vitória (1837). Restaurada a Carta pelo golpe de estado de 1842, presidiu ao primeiro Ministério cartista, o «Ministério do Entrudo», de vida efémera. Mas, como o poder se concentrasse nas mãos de Costa Cabral, afastou-se da política e empreendeu larga viagem pela Itália.

 

Regressado ao reino, precisamente no período culminante das violências do partido de Costa Cabral e quando tudo se encaminhava para o movimento revolucionário da Maria da Fonte (1846), a rainha D. Maria II entregou-lhe a presidência do Ministério. Mas de novo a facção cabralista voltou ao poder, agora com um Gabinete presidido por Saldanha – e Palmela foi convidado a emigrar.

 

Só regressou depois da assinatura da Convenção de Gramido (1847), passando os dois últimos anos de vida retirado no seu palácio do Lumiar, onde faleceu a 12 de Outubro de 1850.

 

A seguir - Costa Cabral



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Sábado, 19 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 78 – por José Brandão

D. MARIA II (reinou de 1834 a 1853)


D. Maria II nasceu no Rio de Janeiro, no Palácio de S. Cristóvão, a 4 de Abril de 1819, recebendo o nome de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga. É a segunda rainha de Portugal com este nome, filha de D. Pedro, primeiro imperador do Brasil e quarto deste nome rei de Portugal, e de sua mulher D. Leopoldina, filha de Francisco I, imperador da Áustria.

 

Quando, em 1826, morreu D. João VI, era já seu pai imperador daquela nação tornada independente e, assim, não favorável a que seu chefe de Estado cingisse a mesma Coroa de que o país fora colónia. Daqui a abdicação de D. Pedro em sua filha do reino a que como rei outorgara uma Carta Constitucional, mas pondo como condição o casamento dela com seu tio D. Miguel, que ficaria como regente até que a rainha atingisse a idade de governar. Tinha então 5 anos a pequena rainha.

 

É sabido que D. Miguel, inicialmente jurando a aceitação de tais condições e nunca tendo posto em dúvida a legitimidade do reinado de seu irmão primogénito D. Pedro, foi promovido a rei absoluto de Portugal, quebrando o juramento feito da aceitação da Carta, do casamento e da regência, do que resultou a continuação da realeza de D. Pedro IV até à outorga da Carta Constitucional e, depois de tal acto, a sua regência.

 

Querendo D. Pedro que sua filha fosse educada na Áustria, na corte do imperador seu avô, veio a rainha para a Europa, acompanhada do marquês de Barbacena, que trazia igualmente o encargo de negociar o casamento em segundas núpcias do mesmo D. Pedro com a filha de Leuchtenberg.

 

Quando, porém, que o barco aportou a Gibraltar foi informado do perjúrio do irmão D. Miguel, já então no exercício efectivo da sua realeza absoluta em Portugal, daí resultando que à rainha fosse mudado o itinerário de Viena para Londres, onde o problema internacional levantado pela nova situação teria a sua solução definitiva. Enquanto a pequenina rainha física e moralmente se desenvolvia no convívio das duas damas, continuava D. Miguel em Portugal um reinado a que era favorável o governo presidido por Wellington.

 

A França, pela mesma altura com o seu rei Carlos X em obediência à Santa Aliança, era igualmente favorável ao miguelismo. Todavia, a revolução que elevou ao trono Luís Filipe foi útil à causa liberal, à qual também a mudança de Governo em Inglaterra criou melhor ambiente.

 

Com 16 anos D. Maria II casa em primeiras núpcias com o irmão da sua madrasta D. Augusto de Leuchtenberg, que faleceu dois meses depois não tendo havido descendência. Começava tumultuosa a vida do regime liberal. D. Pedro já o tinha sentido em manifestações oposicionistas em S. Carlos. Agora, era o levantamento do povo contra Palmela, chefe do Governo, suspeito de ter feito envenenar o rei para tornar possível o casamento do filho com a rainha. Os tumultos mantiveram-se, mesmo depois da substituição do Governo de Palmela pelo de Saldanha, minados em guerrilhas pelos fogachos do incêndio miguelista, ainda não extinto de todo.

 

Passado um ano de viuvez realiza-se novo casamento da rainha. Desta vez com D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, em 9 de Abril de 1836. Jovem como ela, chegou acompanhado, por determinação do rei dos belgas, Leopoldo, do ministro belga Van der Weyer, que, vindo como mentor dos jovens esposos, também procuraria servir o seu senhor, o rei Leopoldo.

 

Entretanto, no reino mantinha-se o clima de instabilidade. As discussões políticas decorriam mais de quezílias pessoais e rivalidades políticas que de confrontos ideologicamente consistentes. Eram polémicas estéreis e incompreensíveis para a quase totalidade da população. Por exemplo, Costa Cabral era inicialmente um Setembrista radical, ligado aos clubes maçónicos e então próximo de José Estêvão. Posteriormente foi evoluindo no sentido de apoio à Carta de 1826. No meio de todo este mar encapelado assiste-se uma profunda crise social. Carestia de vida, atraso ou falta de pagamento dos vencimentos aos funcionários públicos, das pensões etc., em contraste com os elevados rendimentos dos titulares de altos cargos da administração.x

 

Neste entendimento, o pronunciamento militar no Porto que restaurou a Carta Constitucional de 1826 e levou ao poder Costa Cabral foi o corolário lógico. O governo então existente, e em funções há cerca de um ano, era presidido por Joaquim António de Aguiar, destacado político cartista, e tinha Costa Cabral como Ministro da Justiça. Em Janeiro de 1842, Costa Cabral faz mais um pronunciamento militar; restabelece a Carta Constitucional. É indicado para ministro do reino e governa em Ditadura até 1846.

 

Declaradamente D. Maria II ia pactuando com o Cabralismo e os seus excessos.

 

Costa Cabral governa com mão de ferro. É acusado de dominar toda a administração, de fazer censura e de dominar, inclusivamente, a própria rainha, que já lhe dera o título de marquês de Tomar.

 

Com na sua longa concordância política com Costa Cabral, ela comprometeu até as suas próprias virtudes de esposa. Essa concordância exagerada vai custar à rainha a afronta e ignomínia de ser acusada de manter relações mais íntimas com o seu ministro. Incidente que ultrapassa as fronteiras e caricaturas e artigos maldizentes em jornais estrangeiros vão deixar amargurada D. Maria II.

 

O que cumpre dizer é que no momento em que a imprensa portuguesa soube que Costa Cabral, para desafrontar a honra da soberana, querelou um jornal inglês, explodiu numa tempestade de protestos contra a imprudência de sujeitar a honra da rainha a um escândalo internacional.

 

Tendo perdido o ensejo de repreender os jornais que haviam dado origem à calúnia que uma gazeta inglesa apenas dela reproduziu, com quase geral clamor, exprimiu o reconhecimento das virtudes da esposa e da grande educadora dos reis e infantes seus filhos que por esse título ficaram na história como paradigmas. E, de facto, não houve melhores educadores de filhos que os pais de D. Pedro V e D. Luís.

 

A 15 de Novembro de 1853 morte da rainha ao fim de 19 anos de governo. Morreu no Palácio das Necessidades em consequência de parto do seu décimo primeiro filho.xxx Duque de Palmela e Costa Cabral foram homens da rainha D. Maria II.

 

A seguir -  Duque de Palmela

 

 



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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 77 - por José Brandão

Conde de Amarante (1763-1821)

 

Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira, filho de Manuel da Silveira Pinto da Fonseca e de D. Antónia da Silveira, nasceu a 1 de Setembro de 1763 em Canelas.

 

Em 25 de Abril de 1780, apresentou-se como praça de cadete no Regimento de Cavalaria de Almeida. Escassos anos depois, é promovido a Alferes da mesma instituição, precisamente a 27 de Fevereiro de 1790. Mas as suas aspirações não se ficariam por aquela patente honrosamente alcançada e a 17 de Dezembro de 1792 é promovido a Tenente do regimento de cavalaria nº 6, denominados os «ligeiros de Chaves». Alguns anos após é lhe incumbido outro posto, o de capitão e ajudante do Marechal João Brun da Silveira responsável pela área militar da província da Beira, em 17 de Dezembro de 1799.

 

Em Dezembro de 1807, assiste à «destruição» dos regimentos de cavalaria nº 6, 9, 11 e 12 por ordens do general francês Junot.xxx Apresenta a sua demissão ao governo francês e tenta evadir-se para um navio militar inglês, para viajar para o Brasil, mas tal intento foi mal sucedido.

 

Encaminha-se então para Vila Real, onde é uma peça vital para aclamação do governo provisório em 1808. É agraciado pela Junta do Supremo Governo do Porto, com a patente de Coronel, título da sua extinta unidade de cavalaria nº 6, que chefiava.

 

A 15 de Fevereiro de 1809, já com a categoria de Brigadeiro é lhe confiado o cargo de governação militar da província de Trás-os-Montes, por ordem régia exarada em carta de 15 de Fevereiro de 1809.

 

Foi o primeiro general português a obter vitória face aos opositores franceses bem organizados e lutadores. Comandando duas brigadas de milicianos e voluntários de Trás-os-Montes e com a ajuda dos regimentos nºs 12 e 14, respectivamente de infantaria e milicianos de Miranda, Moncorvo, Lamego, Bragança, Chaves e Vila Real toma a praça de Chaves, ocupando posições vitais.

 

Depois do assegurado controle da praça, o general Silveira, preocupa-se em estruturar uma defesa meticulosa da ponte de Amarante, opondo-lhe os regimentos de milícias de Miranda, Chaves e Vila Real apoiado com umas escassas peças de artilharia contra os inimigos franceses fortemente armados, chefiados pelo general Loison.

 

Mas, os opositores acabam por trespassar, a defesa, atacada pela sua retaguarda, beneficiaram com a traição de alguns portugueses e ao “coberto” das condições atmosféricas, que propiciou a repentina incursão nas fileiras dos combatentes portugueses. Pela sua heróica colaboração na defesa da ponte, o General Silveira, recebe o título de conde de Amarante em 13 de Maio de 1811.

 

Quando sucedeu a Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820, despoletada na cidade do Porto, a junta provisória tenta convencer o conde de Amarante a participar na rebelião, ao que este recusa.

 

Mas as suas tropas seriam persuadidas pelo seu cunhado Gaspar Magalhães a combater por aquela causa.

 

Em Vila Real, em Fevereiro de 1823, o conde de Amarante, opõe-se à Constituição. É a favor do rei absoluto. Trás-os-Montes adere quase na totalidade.

 

Desgostoso com a situação militar vivida, o conde sai de Chaves e vai para Ponte de Lima, vindo depois de algum tempo para Vila Real, onde em Maio de 1821, faleceu e ficou sepultado na capela do Espírito Santo.

 

A seguir - Duque de Palmela



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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 76 - por José Brandão

Visconde de Santarém (1791-1850)

Foi o filho único do primeiro matrimónio do 1.º visconde de Santarém, João Diogo Barros Leitão de Carvalhosa, e sua mulher, D. Mariana Rita Xavier Procille O’Kally Ribeiro Rangel, D. Manuel Francisco de Macedo Leitão e Carvalhosa, 2.° Visconde de Santarém Nasceu em Lisboa, em 18 de Novembro de 1791, e morreu em Paris, em 17 de Maio de 1850. Era ainda estudante, quando, em 1808, partiu para o Brasil na comitiva da família real, no momento histórico em que, para evitar as humilhações da primeira invasão francesa, ela fugiu para o Brasil. Logo no ano seguinte, apenas com 18 anos de idade, começou a coligir e classificar os documentos diplomáticos portugueses lá existentes. Em 1817, porém, nomeado conselheiro da Embaixada em Paris, para lá partiu, regressando no ano seguinte.

 

Não querendo aderir à revolução vintista, saiu com a família de Portugal para Inglaterra e foi residir em Paris com as oito pessoas que a constituíam.

 

Não cortou, porém, as relações com a família real, nem com o Governo português, ainda no Brasil, e mais de uma vez foi ele que do Rio de Janeiro recebeu instruções para transmitir ao representante de Portugal no Congresso de Viena. Pelo regresso da família real a Lisboa, esta cidade o atraía de novo, e a Corte, que lhe admirava os talentos e as pesquisas, deu-lhe disso a prova na insistência com que tentou fazê-lo nosso embaixador na América do Norte, honra que resistentemente recusou.

 

O que ele não recusou foi o encargo de dirigir, como guarda-mor, a Torre do Tombo. Mas a sua dedicação à família reinante, e, no momento histórico em que ela estava dividida geográfica e moralmente, de modo muito mais caloroso, a D. Miguel e à regente D. Isabel Maria, envolveu-o na confusão da política do tempo, não tardando a aceitar, em 1827, a pasta do Reino, a que juntou a de ministro da Marinha e Ultramar.

 

Não aqueceu o lugar. O Governo vivia em vácuo gélido. Nem apoio de apostólicos, nem de liberais pedreiros-livres, como lhes chamavam. Abandonou-o dentro de pouco. Mas no ano seguinte, quando D. Miguel se proclamou rei absoluto, o visconde, tradicionalista, sentiu nele o genuíno representante da nação antiga, reavivada até ao delírio no zelo a cada posso violento com que a cacete defendia o imobilismo do passado e ei-lo ministro dos Estrangeiros, o sector de mais urgentes tarefas, sobretudo a de fazer reconhecer pelas nações estrangeiras o Portugal que ele inculcava restituído ao seu antigo ser. Foi dele a carta ao corpo diplomático acreditado em Lisboa, escrita com o mesmo objectivo, depois de a Câmara Municipal de Lisboa proclamar D. Miguel o soberano legítimo da Nação.

 

Foi na sua atormentada e dolorosa despedida da vida pública e, dentro de algum tempo, do País que julgava servir com o amor de sempre e as tarefas da circunstância.

 

Uma atitude do ministro, já no fim do efémero reinado de D. Miguel, foi a de lhe sugerir, por intermédio da carta ao duque de Lafões, a capitulação e negociações com seu irmão D. Pedro, para evitar a derrota que tudo fazia prever. D. Miguel, irritado contra tal atitude e tal sugestão, demitiu imediatamente o ministro. Após a Convenção de Évora-Monte, o visconde de Santarém, depois de demitido do seu cargo de guarda-mor da Torre do Tombo e tendo sido despojado de toda a correspondência que guardava em casa, cujo exame foi confiado a uma comissão nomeada pelo Governo, adivinha-se com que conflito de sentimentos fez a declaração de que acatava o novo regime, mas seguindo imediatamente para Paris, onde fixou para sempre residência.

 

Morreu em 17 de Maio de 1850, à beira de completar 60 anos de idade.

 

A seguir - Conde de Amarante



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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI - 75 - por José Brandão

D. MIGUEL (reinou de 1828 a 1834)

 

Rei de Portugal desde 11 de Julho de 1828 a 26 de Maio de 1834, terceiro filho varão de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, nasceu no Palácio Real de Queluz, a 26 de Outubro de 1802.

 

Em 1807 partiu com a família real para o Brasil, com ela regressando a Lisboa, em 1821, mas tendo ficado seu irmão mais velho, D. Pedro, a governar aquela nossa antiga colónia de além-Atlântico, elevada à categoria de reino em 1815. No entanto, durante o período de permanência da corte no Rio de Janeiro, ocorreram no Portugal metropolitano acontecimentos da maior relevância nomeadamente a malograda conspiração de 1817 e a revolução liberal de 1820, acontecimentos que vão condicionar o papel desempenhado por D. Miguel na cena política portuguesa.

 

Com efeito, não tardou o infante a assumir a chefia dos partidários do antigo regime, aglutinados em torno da rainha D. Carlota Joaquina, que fez do seu Palácio do Ramalhão o foco do movimento reaccionário. E nessa qualidade esteve à frente dos movimentos contra-revolucionários da Vilafrancada (1823), que pôs termo à nossa primeira experiência liberal, e da Abrilada (1824).

 

Tudo indica que a Abrilada foi concebida e executada como um passo em frente na via já encetada. Porém, a intervenção decidida de Hyde de Neuville, representante diplomático da França, e de outros diplomatas estrangeiros acreditados em Lisboa levou ao malogro do golpe de Estado. D. João VI, após ter demitido o filho do alto posto ocupado por este a partir da Vila-Francada, refugia-se na nau inglesa Windsor-Castle, donde ordena a libertação dos presos políticos às ordens do infante, a prisão dos amotinados e o exílio do filho, que abandona o País a 13 de Maio, em direcção a Brest. Daqui dirige-se a Paris e depois a Viena de Áustria, capital da Santa Aliança, por onde estanciará, sob as vistas de Metternich, durante quatro anos. Ora a morte de D. João VI (1826) trará de novo ao primeiro plano da actualidade política portuguesa a personalidade de D. Miguel. Com efeito, o herdeiro do trono, D. Pedro IV, então já imperador do Brasil, outorga a Carta Constitucional e abdica em sua filha D. Maria da Glória, que, de acordo com o arranjo dinástico e político então combinado, casaria, uma vez chegada à maioridade, com o tio D. Miguel.

 

D. Miguel deixou Viena a 6 de Dezembro e entrou no Tejo, a bordo da mesma fragata Pérola que o levara ao exílio, a 22 de Fevereiro de 1828, instalando-se no Palácio da Ajuda, que escolhera para sua residência, onde recebeu os cumprimentos da Câmara de Lisboa, da Corte e dos generais.

 

Nomeia pouco depois novo Ministério, presidido pelo duque de Cadaval, em 14 de Março dissolve as Câmaras e em 11 de Julho as Cortes aclamam-no rei absoluto.

 

D. Miguel e os seus seguidores, apesar do seu absolutismo, são obrigados a convocar os Três Estados do reino, à maneira antiga, para o proclamarem rei, criando assim uma espécie de base à ilegalidade.

 

A subida ao trono de D. Miguel, quer dizer a instauração do regime absolutista em Portugal, é uma vitória da Santa Aliança. Uma derrota para a burguesia inglesa, de que, no entanto, ela apenas parece ter-se apercebido ao abrir as suas portas à emigração liberal e ao conceder honras de rainha à princesa D. Maria da Glória, filha de D. Pedro e futura D. Maria II.

 

Durante anos, até 1834, reinou o cacete, a forca. Reinou o absolutismo e seus métodos, em quase todo o território nacional, com excepção da Terceira nos Açores.

 

Mas a segurança do absolutismo não era tão grande como julgavam aqueles que batiam às portas dos liberais e os arrastavam para as masmorras ou para a forca.

 

Em Julho de 1830, a monarquia absolutista de Carlos X é substituída pela monarquia liberal burguesa de Luís Filipe de Orleães. Esta viragem da política europeia teve consequências extraordinárias na política portuguesa.

 

O perjúrio de D. Miguel obriga a uma vista geral da complexa circunstância histórica. O que é para surpreender é tanto o perjúrio, como o juramento haverem sido formulados longe de Portugal, no meio da fornalha dos ódios e na confusão existente ao tempo.

 

Veio D. Miguel para Lisboa, e a visão da realidade nacional não pôde deixar de ser profundamente alterada. A mãe, D. Carlota Joaquina, que tanto lhe queria e a quem ele tanto amava, era natural que lhe comunicasse o ardor do seu apostólico tradicionalismo. Grande parte do exército era com aguerrida actividade oposto aos liberais e suas tendências republicanas, consideradas de pedreiros-livres, incompatíveis com a ordem exigida pelos interesses das classes mais tradicionalistas e retrógradas.

 

Classes de que Carlota Joaquina e o infante D. Miguel foram as suas bandeiras e, de certo modo, seus teóricos. Em menos de meia dúzia de anos desencadeia-se uma série de pequenos acontecimentos que contudo são suficientes, como rasteiras, para o derrubamento da fragilíssima força liberal.

 

Esta atitude de regresso à política tradicional provocou, como facilmente se compreende, forte reacção nas hostes constitucionais, mormente nos núcleos de emigrados que, após terem-se reunido na ilha Terceira, sob a égide de D. Pedro, numa altura em que já lhes sopravam de feição os ventos da ideologia política europeia, daqui partiram na disposição de fazerem valer os direitos de D. Maria II. Conseguiram-no ao cabo de uma guerra civil (1832-1834) que, sem dúvida, ensanguentou o País, mas que também o dotou de novas estruturas, graças à legislação de Mouzinho da Silveira.

 

Entretanto, o miguelismo como que procurava justificar-se ante si mesmo pela desesperada violência com que procurava definir-se. Segundo um jornal inglês da época, de 25 de Abril de 1828 até 31 de Julho de 1831 haviam sido presos 26 270 indivíduos, degredados 1600, executados 39 e andariam homizíadas 5000 pessoas e emigradas 13 700. Quando verificou a impossibilidade de prosseguir na luta, D. Miguel rendeu-se sem condições e a 26 de Maio assinou a Convenção de Évora-Monte, obrigando-se a deixar o País dentro do prazo de quinze dias, embora enquanto aqui permanecesse lhe fosse garantida, nos termos daquele diploma, «toda a segurança para a sua pessoa e comitiva, bem como todo o decoro devido ao seu alto nascimento».

 

Embarcou em Sines a bordo de um navio inglês que o conduziu a Génova. Nesta cidade italiana lavrou um protesto contra a renúncia ao trono português, a que havia sido compelido, atitude que posteriormente repetiu em diversas oportunidades, e em consequência da qual acabou por lhe ser cancelada a pensão anual de 60 contos de réis que, «atendendo à elevada categoria em que nasceu», lhe havia sido concedida nos termos da Convenção de Évora-Monte. Passou então a viver de um subsídio dos seus mais fiéis partidários, alguns dos quais lhe patentearam inexcedível dedicação.

 

Casou, em 25 de Setembro de 1851, com a princesa Adelaide de Loewenstein-Wertheim-Rochefort-Rosenberg, de quem teve sete filhos.

 

Viveu com a maior placidez em Brombach, escusando-se a tomar parte activa em quaisquer tentativas para o repor no trono, naquela cidade falecendo a 14 de Novembro de 1866.

 

Visconde de Santarém e o conde de Amarante foram homens do rei D. Miguel.

 

A seguir - Visconde de Santarém

 



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Terça-feira, 15 de Novembro de 2011
OS HOMENS DO REI – 74 – por José Brandão

Duque da Terceira (1792-1860)

 

Filho primogénito dos condes de Vila Flor, ligado à melhor nobreza do Reino, D. António José de Sousa Manuel e Meneses Severim de Noronha nasceu em Lisboa, a 18 de Março de 1792.

 

Promovido a tenente em 1809 e a capitão em 1811, serviu primeiro como ajudante do general conde de Sousel e, depois, do general Beresford. Já com o posto de major, seguiu com o exército anglo-português através de Espanha, na perseguição às tropas francesas, distinguindo-se particularmente na batalha de Vitória (1813). Elevado rapidamente a tenente-coronel e a coronel, foi escolhido em 1817 para governador e capitão-general do Pará, ascendendo em 1819 a marechal-de-campo, para no ano seguinte ser nomeado governador e capitão-general da Baía.

 

Regressou a Lisboa com o soberano, mas, numa época em que se entrechocavam ideologias opostas, uma carreira de militar ou de homem da corte exigia uma tomada de posição política. E Vila Flor, se de início acompanhou o infante D. Miguel, de quem foi ajudante-de-ordens (1823), orientou-se depois para o lado liberal.

 

Assim, promulgada a Carta Constitucional de 1826, foi par do Reino e combateu as forças miguelistas, alcançando as vitórias de Coruche, da Beira e da Ponte do Prado, forçando as tropas do marquês de Chaves a refugiarem-se em Espanha.

 

Todavia, com a aclamação de D. Miguel como rei absoluto, foi obrigado a emigrar para Inglaterra. Tomou parte na expedição do Belfast para apoiar a revolta de 1828 no Porto, mas, dado o fracasso verificado, retirou de novo para aquele país. Daqui passou à ilha Terceira única parcela do território português fiel à rainha – e foi nomeado pelo marquês de Palmela governador da ilha, fazendo parte, mais tarde, da regência instituída em nome de D. Maria II. E, com grande coragem e capacidade de organização, dirigiu a ocupação das outras ilhas açorianas.

 

Comandante do exército de terra da expedição que veio desembarcar no Mindelo, teve acção de grande relevo no período dramático da contra-ofensiva miguelista, designadamente no ataque às Antas.

 

Entretanto, como se tornasse necessário dar à guerra um rumo decisivo, foi o então já duque da Terceira encarregado do comando de uma expedição que, transportada na esquadra do almirante Napier, veio desembarcar no Algarve, entre Cacela e Tavira, a 24 de Junho de 1833.

 

Aureolado pelo seu prestígio de soldado, soldado sincero, obediente, reflectido, assaz diferente de Saldanha, que foi, pode dizer-se, um soldado profissional e irrequieto, o duque da Terceira transitou, após a Convenção de Évora-Monte (1834), para as lutas políticas que vão arrastar-se, situando-se sempre na ala direita liberal. Assim, sobraçou a pasta da Guerra no primeiro Ministério constitucional presidido por Palmela, e, após várias vicissitudes políticas, foi chamado a constituir Ministério em 19 de Abril de 1836. Mas a oposição por parte dos extremistas era cada vez maior, e o Ministério foi derrubado pela revolução de Setembro (1836). E o duque da Terceira, que sempre se manteve fiel à Carta, organizou, com Saldanha, a revolta dos Marechais (1837), inútil e fracassado movimento cartista que dá evidência à superioridade da dedicação com que serviu a rainha sobre a inteligência com que serviu a Nação.

 

Nomeado comandante da l.ª Divisão militar após a Convenção de Gramido (1847), geriu a pasta da Guerra no primeiro Gabinete saído da Regeneração (1851) e, em 1855, assumiu as funções de ajudante-de-campo de D. Pedro V. Incumbido novamente, em 1859, de formar Ministério, exercia as funções de presidente do Conselho quando faleceu no ano seguinte, a 26 de Abril, sendo sepultado no panteão de S. Vicente de Fora.



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