Entre missas e mísseis teus irmãos
Entre medos e mitos teus amigos
Entretanto entre portas tu contigo
entretido a sonhar como eles vão
Entre que muros moram suas mãos
Entre que murtas montam seus abrigos
Entre quem possa ver deste postigo
entre que morros morrem de aflição
Entre murros enfrentam-se os mais tristes
Entre jogos ou danças proibidas
entre Deus e a droga os menos fortes
Entre todos e tu vê o que existe
Entreacto em comum somente a vida
Entre tímidas aspas já a morte
Escolhi este soneto entre a vasta obra de David Mourão-Ferreira, não exactamente ao acaso mas, precisamente porque gosto. Também não foi eleito com o sentido de fazer uma análise do poema e muito menos da sua obra.
Não o saberia fazer. Não será fácil falar de obra tão avultada e de tanto mérito.
Incluí neste texto um soneto de David Mourão-Ferreira para ilustrar as minhas palavras de mais um MESTRE. Meu e de tantos.
David Mourão-Ferreira licenciou-se em Filologia Românica em 1951.
Foi professor do ensino técnico e do ensino liceal e depois iniciou a sua carreira de professor universitário na Faculdade de Letras de Lisboa.
Afastado desta actividade entre 1963 e 1970, por motivos políticos. Foi professor catedrático convidado da mesma instituição a partir de 1990. Simultaneamente manteve nos anos 1960 programas culturais de rádio e televisão.
Foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores e, mais tarde, presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
Após o 25 de Abril de 1974 foi Secretário de Estado da Cultura em vários governos entre 1976 e 1978. A partir de 1981 é Responsável pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, e dirigiu a revista Colóquio/Letras, da mesma instituição
A sua carreira literária teve início em 1945, com a publicação de alguns poemas na revista Seara Nova, e em 1950, publicou o seu primeiro volume de poesia Secreta Viagem.
Colaborou nas revistas Graal e Vértice e foi um dos co-fundadores da revista literária Távola Redonda. Igualmente colaborou com vários jornais, como o Diário Popular e O Primeiro de Janeiro, e foi também director-adjunto do jornal O Dia e director do jornal A Capital.
Na sua poesia é assinalada as presenças constantes da figura da mulher e do amor, sendo considerado como um dos poetas do erotismo na literatura portuguesa.
A vivência do tempo e da memória são também constantes na sua obra, assinalada por uma procura rigorosa de equilíbrio, de força lírica, de grande riqueza rítmica e melódica que fazem dele um clássico da modernidade
Para além de quase duas dezenas de títulos publicados em poesia, como ensaísta teve também diversas obras notáveis, e igualmente na ficção narrativa estreando-se em 1959 com Gaivotas em Terra.
Alguns textos seus foram adaptados à televisão e ao cinema, e foi ainda autor de poemas para fados, muitos deles celebrizados por Amália Rodrigues, tal como, Maria Lisboa, Nome de Rua, Fado Peniche, Barco Negro, Madrugada de Alfama entre outros.
Recebeu vários prémios pelas suas obras como o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores e foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada.
Poeta, ficcionista, ensaísta, professor, crítico, divulgador, tradutor e dramaturgo, são os aspectos que caracterizam o trajecto de um homem que deixou marca por onde passou e nas pessoas que conheceu.
Eu conheci o David Mourão-Ferreira em Caracas, já muito tempo depois de conhecer a sua obra.
Em 1990, foi a vez de ele ter sido convidado pelo Instituto Português de Cultura de Caracas para as manifestações do Dia de Portugal. Como era habitual para com os convidados, foi constante a minha companhia.
Ficámos amigos.
Até que, na cama do hospital me prometeu escrever um texto para um catálogo de uma exposição minha. Já não lhe foi possível escrever.
Em 1989 o Instituto Português de Cultura de Caracas convidou o José Cardoso Pires para as manifestações do Dia de Portugal. Como era habitual com outros convidados, acompanhei-o em todos os actos em que ele participava. Foi excelente para nós a sua estadia na capital da Venezuela. Mais agradável ainda porque ele se fez acompanhar da Edite, sua mulher, a quem ele carinhosamente chamava «esquilo».
Disse antes «excelente, para nós», porque para ele não foi tanto assim. Creio que não se deu bem a falar para o público, talvez para aquele público, ou porque ele gostava muito mais de falar em grupos pequenos e… bem acompanhado… Para o Cardoso Pires e para a Edite também não foi muito agradável porque num dos momentos, livres de actos, em que passeávamos pela cidade, acompanhados também pela minha mulher, assaltaram a Edite roubando-lhe um fio (supostamente de ouro para o assaltante) acabado de comprar.
Já nessa altura, e não só agora, era habitual os assaltos.
Não foi o valor do roubo que apoquentou, mas a situação em si, e a forte marca deixada no pescoço da Edite pela força do puxão.
O não total agrado do Cardoso Pires pela sua passagem por Caracas está patente num autógrafo que ele fez num livro seu.
Foi nessa sua estadia em Caracas que conheci pessoalmente o José Cardoso Pires. Ficámos amigos. Depois encontrámo-nos várias vezes. Mas já há muito que o conhecia pelos seus livros.
Talvez depois de ter lido O DELFIM, que é geralmente considerado a sua obra-prima, ou O RENDER DOS HERÓIS, ou JOGOS DE AZAR, ou BALADA DA PRAIA DOS CÂES. Estes e mais alguns.
Usando uma linguagem depurada, e de um enorme rigor, José Cardoso Pires era um MESTRE, e já unanimemente considerado um dos maiores escritores portugueses do século xx. Depois, ALEXANDRA ALPHA e A REPÙBLICA DOS CORVOS que tinham saído há pouco. Depois…José Cardoso Pires sofre um acidente vascular-cerebral grave, que lhe causou a perda da memória. Deixa de saber quem era. O centro da fala e da escrita tinha sido também profundamente afectado. Mas algum tempo depois recupera para voltar a escrever DE PROFUNDIS, VALSA LENTA. Um livro que relata o seu acidente vascular cerebral e que é apresentado pelo Cardoso Pires como uma «viagem à desmemória», contando-nos esse momento único passado num túnel branco, entre a memória perdida e a memória recuperada, sendo a única narrativa da sua obra que se pode considerar autobiográfica. Desde OS CAMINHEIROS E OUTROS CONTOS de 1949 (o seu primeiro livro, que foi retirado do mercado pela Censura) até 1997, Cardoso Pires publicou dezoito livros, muitos deles traduzidos em várias línguas e que ficaram arquivadas junto ao melhor da literatura universal. Ganhou vários prémios literários entre eles o Prémio União Latina, Roma, 1991 e o Prémio Pessoa em 1997.
Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema como, BALADA DA PRAIA DOS CÃES realizado por José Fonseca e Costa e O DELFIM, realizado por Fernando Lopes. O RENDER DOS HERÓIS e outras obras suas foram levadas à cena. José Cardoso Pires é um autor português que, para quem teve a fortuna de o ler, e para quem ainda o irá ler, será para sempre um verdadeiro MESTRE.
Coloco aqui um pequeno texto (como um delicioso aperitivo) para relembrar e reler O DELFIM.
(...) Um lavrador de arrozais, João B. de L., ganadeiro e presidente de concursos hípicos, jura a pés juntos que jamais aceitou um recibo ao pessoal da casa, porque, com sessenta e oito anos feitos, ainda acredita na palavra alheia. Na noite de Natal, reúne a família e os criados à mesa, e, esteja onde estiver, logo que nasce um filho a um trabalhador da herdade, nunca se esquece de lhe mandar o dote; um cordão de ouro, se for rapariga, duas acções da Companhia Agrícola J. B. de L, Herdeiros, se for rapaz. «Faço o socialismo à minha maneira», costuma ele dizer. Há ainda o caso de um outro - esse muito antigo - que semeava bastardos entre a cria¬dagem e que a cada amante oferecia um lenço vermelho. Tem barbas, a história. Ouvia-a ao Padre Novo, que, por sua vez, a tinha ouvido a alguém dos seus tempos de liceu. Numa das versões, o homem morria crivado de tiros de zagalote; noutra, o fim era a loucura: acabava, velho e podre, a sonhar com procissões de lenços vermelhos. Prefiro a segunda.
Poderia ter conhecido o José Saramago em 1968. Estive uma vez em sua casa quando ele era casado com a Ilda Reis, mas ele não estava. A Ilda Reis, excelente gravadora pouco lembrada mas de obra reconhecida, participou comigo em algumas exposições colectivas de Artes Plásticas. Foi na altura de uma dessas exposições que fui a casa da Ilda acompanhado da Mariana Quito, outra excelente gravadora e pintora também pouco recordada. A Ilda estava só com a Violante, a filha do casal.
Pessoalmente só conheci o Saramago pela sua passagem fugaz na Diabril Editora, uma cooperativa editorial de curta existência, na qual eu fazia parte da direcção, e onde já no seu final o Saramago se juntou.
Até a essa altura o Saramago apenas tinha editado TERRA DO PECADO e três livros de poesia, OS POEMAS POSSÌVEIS, PROVÁLMENTE ALEGRIA e O ANO DE 1993, ligado que estava ao jornalismo, tendo passado por último pelo Diário de Notícias como Director-Adjunto.
Pela experiência vivida, Saramago toma a decisão de mudar o curso da sua escrita: substituir de vez a de jornalista por a de ficcionista.
Pouco tempo depois edita o MANUAL DE PINTURA E CALIGRAFIA.
Depois de encerrada a Diabril tive poucos contactos com o Saramago, mas em contrapartida fui tendo os seus livros.
Em 1988, estava eu na Venezuela, a Comissão Fernando Pessoa, que em 1990 deu lugar ao Instituto Português de Cultura (IPC), convidou o Saramago para ir a Caracas para as comemorações do Dia de Portugal e do centenário do nascimento de Fernando Pessoa.
Durante a sua estadia em Caracas, nas palestras que deu, como por exemplo no Centro de Estudos Latinoamericanos Rómulo Gallegos (Celarg), em conferências de imprensa e encontros com a Comunidade Portuguesa na Venezuela, como membro da direcção da Comissão Fernando Pessoa, sempre o acompanhei.
Na altura foi publicado nos jornais da Venezuela um desenho/caricatura que fiz alusivo às teses iberistas da fusão de Portugal e Espanha num único Estado que Saramago defende na JANGADA DE PEDRA:
Para mim foi uma excelente oportunidade de estar com ele, de conversar-mos muito, e de sentir mais de perto, não só escritor que entretanto já tinha conquistado o respeito internacional com os seus livros LEVANTADO DO CHÃO; MEMORIAL DO CONVENTO e O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, mas o José Saramago como cidadão interventivo, cívico e político.
Depois encontramo-nos uma vez por outra, sempre em encontros casuais e rápidos, mas os seus livros seguiram sempre fazendo-me sentir a sua companhia, O ENVAGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, A CAVERNA e todos os outros largamente conhecidos.
Escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta, vencedor do Prémio Camões em 1995 e galardoado com o Nobel de Literatura de 1998, criador de um estilo único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Um verdadeiro MESTRE.
Não sei se parece estranho de, nem na minha exposição Os Meus Mestres, nem nestes textos, tenha aparecido uma figura que tivesse sido meu professor no meu curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio.
O título que dei à exposição foi exactamente por considerar nunca ter tido um professor nas disciplinas de desenho ou de pintura que me influenciasse ou me tivesse deixado «marcas».
O que já não aconteceu noutra disciplina: Física e Química. Claro que não fui influenciado pela matéria ensinada, ou melhor aprendida, por isso não segui essa área de estudo.
O que me deixou impressionado no professor dessa disciplina foi o seu modo, a atitude, a inteligência e acima de tudo foi a sua referência moral e cívica. Homem de uma simplicidade contagiante, própria das pessoas sábias e com enorme vontade de aprender em tudo e com todos.
Era um professor jovem que se tinha licenciado há pouco tempo em Ciências Físico-Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Depois de terminado meu curso (1958) poucas vezes o encontrei e sempre casualmente. Não tive largas conversas com ele, nunca realizei uma capa para qualquer livro da vasta obra que publicou, mas a minha admiração por ele sempre se manteve e aumentou. Passados os anos essa afeição justificava-se. Não era eu só, por algo muito pessoal, que o considerava. Seguindo a sua carreira, fui-me inteirando que a consideração era geral. Um MESTRE. Este meu escrito não tem pretensões a ser uma homenagem. Ele teve várias e grandes e respeitadas homenagens, no entanto creio (e não sou só eu), não teve as homenagens e principalmente o reconhecimento que lhe é devido e merecido.
Fernando Bragança Gil, para além de ter concebido e promovido a criação do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, tendo sido o seu primeiro Director, teve uma vida profundamente preenchida e totalmente dedicada à cultura e à educação. Licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorou-se em Física pela Universidade de Paris e pela Universidade de Lisboa. Foi investigador e professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um dos fundadores do seu Centro de Física Nuclear. Publicou uma extensa obra, cobrindo as áreas da física, física aplicada, ensino superior, divulgação da ciência, história da ciência, museus e museologia.
Fernando Bragança Gil (1927-2009), era professor jubilado de Física da Universidade de Lisboa foi um cientista e um divulgador de renome internacional. Chefiou a missão portuguesa à II Conferência Internacional das Nações Unidas sobre a utilização pacífica da energia atómica e integrou a direcção do ECSITE, European Network of Science Centers and Museums. Introduziu em Portugal a espectroscopia nuclear após o seu regresso do Institut de Physique Nucléaire da Universidade de Paris, orientou e participou em inúmeros projectos de investigação aplicada, júris e teses de mestrado e doutoramento. Participou em múltiplas conferências e seminários em prole da literacia científica, muito particularmente entre a juventude e os professores. Foi co-fundador da Associação dos Museus e Centros de Ciência de Portugal.
Mas muito para além do Professor Fernando Bragança Gil ter sido um cientista de desmedido mérito, foi um Homem bom, dedicado e amigo de partilhar saberes. Um MESTRE.
A vida e a obra de Urbano Tavares Rodrigues, bem conhecida e reconhecida, é uma das referências marcantes do século XX , e também já neste século, devido não só à sua obra literária, mas também à sua postura assinalada por uma generosidade e uma solidariedade invulgar.
Urbano Tavares Rodrigues é muito mais do que o grande escritor do Alentejo.
É autor de rica e vastíssima obra literária e ensaística traduzida em inúmeros idiomas, sendo constante a sua intervenção cívica e política. Foi jornalista, professor universitário e catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Membro da Academia das Ciências, obteve diversos prémios, entre eles o de Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores. Um Mestre.
Conheci o Urbano na desaparecida Prelo Editora onde organizei graficamente e realizei a capa para um livro editado em 1972, Esta Estranha Lisboa, com textos seus e fotografias de Eduardo Gageiro.
Já antes de nos conhecermos, em 1967, o Urbano fez um apontamento crítico no jornal «O Século» sobre uma exposição minha realizada na Galeria Diário de Notícias. A primeira que fiz em Lisboa, depois de já ter exposto em Luanda. Bastanteagradável essa nota que terminava assim: (…) Há múltiplas perspectivas nesta exposição que augura descoberta e aventura – a sina de um verdadeiro pintor.
Em 1977, realizei a capa e duas ilustrações para o livro do Urbano Tavares Rodrigues Elegia À Esperança, editado pela Diabril, editora também desaparecida e de curta existência.
Na minha permanência na Venezuela, o Instituto Português de Cultura de Caracas, de que eu fazia parte da direcção, convidou o Urbano Tavares Rodrigues para participar em 1991 nas comemorações do dia de Portugal. Acompanhei-o durante toda a sua estadia e nas várias acções em que interveio no programa das comemorações.
Em 1998, realizei uma exposição de pintura em Reguengos de Monsaraz, Olhares Além Tejo. Uma exposição sobre tema alentejano quem poderia fazer um melhor texto para o catálogo senão o Urbano Tavares Rodrigues.
Igualmente o Urbano escreveu um texto de apresentação para um livro editado em 2002 sobre o meu trabalho, «O Homem é a Medida de Todas as Coisas… Dorindo / pintura / desenho gráfico», acompanhando textos de Cruzeiro Seixas e José Fernando Tavares.
Nesse texto quero ressaltar um pequeno parágrafo em que o Urbano diz:
(…) Mas Dorindo é um experimentador, que não se fixa numa aventura estética, num processo, numa maneira. Como se se procurasse sempre e, encontrando-se em estilhaços de escolas, passasse por uma decomposição das formas próximo da abstracção para regressar a uma plena figuração lírica, de cores quase estridentes e grandes superfícies lisas. (…)
Há quem me critique por essas mudanças de estilo, mas ele não.
Talvez porque o Urbano diz de si próprio, (O meu estilo é a mistura do estilo de Teixeira Gomes, um estilo que tem a ver com o decadentismo e o simbolismo, e do Camilo Pessanha que me marcou profundamente e cujo onirismo marcou muito a minha escrita.)
Sobre estilo, eu penso no que perguntava Picasso, (… Mas afinal o que é o estilo? Por acaso Deus tem estilo?).
Que é hoje a classe operária?
Dois factos convergem nesta simples reflexão: o encerramento sucessivo de duas fábricas no Norte do País (a de Tecidos do Rio Ave, que lançou na miséria 700 operários, a União Metalúrgica da Fontaínha, que deixou no desemprego outros cem operários, entre homens e mulheres) e o aparecimento do importante ensaio de N. Gaouzner «A Classe Operária Irá Desaparecer?»
Não venho aqui exibir a mágua profunda, nem mesmo a indignação (que levaria tempo a esmiuçar: por detrás das insolvências estão as estruturas) em mim – e em tantos outros decerto – causadas pelo espectáculo dos milhares de pessoas marginalizadas e acossadas por estes tristes sucessos.
Pergunto-me, sim, aqui no centro do calor húmido deste dia de Lisboa, qual o destino das camadas sociais cada vez mais numerosas que representam a força do trabalho e não têm qualquer controle sobre os meios de produção. Refiro-me não só à gente dos armazéns e das fábricas, das oficinas e dos campos, mas aos empregados dos escritórios, dos bancos, das lojas, aos investigadores, aos técnicos, e, já que vem a pelo, porque não aos jornalistas?, em suma a todos os produtores assalariados sem contacto algum com, a transformação do seu esforço em rendimento.
Gaouzner, no seu oportuno estudo, regista o acelerado aumento dos efectivos da classe operária e a sensível alteração dos seus componentes. Não se trata só da degradação ou ruína dos pequenos proprietários agrícolas ou artesanais compelidos à proletarização. Põe-se o problema de um desenvolvimento qualitativo dois meios trabalhadores. Que é hoje a classe operária, perante a revolução tecnológica? Nos países capitalistas industrialmente avançados o salário real dos operários aumentou de20 a100% em vinte e cinco anos. Claro que isso não pôs termo ao desemprego, nem aos acidentes e doenças profissionais (os traumatismos físicos e psicológicos nas linhas de montagem são notórios). A «racionalização» do trabalho provoca por um lado maiores lucros, por outro lado uma fadiga extrema.
A automatização em marcha, se é certo que ocasiona despedimentos maciços, exige do operário uma qualificação, digamos uma cultura técnica que o aproxima das «classes» tidas como superiores na escala do prestígio ou do dinheiro. Será esse operário ainda um operário?, ou é já o intelectual assalariado um operário como ele? Sabemos perfeitamente que os sistemas fascistas dificultam a manifestação dos «talentos oriundos do povo», sabemos que o acesso geral à instrução não se verifica em largas zonas do mundo.
Mas a maioria dos técnicos, desenhadores, empregados de laboratório, repórteres, pouco mais (quando tal sucede) ganham do que os operários especializados. E mesmo os quadros superiores, dessas profissões, ainda quando têm nível de vida mais alto, jamais podem encarar o futuro sem inquietação ou angústia, a menos que tenham réditos de família, o que os situa logicamente noutro campo. O intelectual assalariado vive normalmente o pânico da velhice. O jornalista trabalha até poder e morre amiúde antes de alcançar a reforma, fixada aos 65 anos.
Tudo isto justifica amplamente a pergunta: que é hoje a classe operária?
Mestres foram aqueles de quem recebi ensinamentos não só na pintura mas nas mais diversas artes e nas mais distintas «artes» de pensar e de viver. Directa ou indirectamente sempre aprendemos com alguém que, ao longo dos anos, nos vai moldando.
Muitas vezes nem sabemos como, nem o porquê, nos foram influentes as palavras que ouvimos, os textos que lemos, a música que escutamos e as múltiplas manifestações de arte que vimos. O certo é que aceitamos, memorizamos, e nos marcam.
Com Alves Redol, que pouco ou quase nada com ele convivi, unicamente um par de vezes na sua editora na altura, foram, para além das suas poucas palavras que ouvi, os seus livros que me ajudaram a orientar as minhas posições sociais e políticas.
Não foi o seu primeiro livro que li, mas Gaibéus, talvez por razões especiais, foi o que mais me marcou. Para além de colaborar na realização de algumas capas dos seus livros e de ter criado a capa para as suas Obras Completas, desenhei a capa para uma colecção de livros de bolso onde foi integrada a obra de Alves Redol e para a qual igualmente realizei a ilustração que figurou na capa de Gaibéus.
Li e reli Gaibéus.
Publicado em 1939, é o primeiro romance de Alves Redol e considerado como o romance que marca o aparecimento do neo-realismo em Portugal
Gaibéus possui uma enorme base ideológica e social, denunciando as desigualdades sócio económicas através das suas incursões ao país rural, de um povo trabalhador e explorado, com um realismo cruel, o modo de vida dos jornaleiros da Beira Baixa e do Alto Ribatejo que vão trabalhar nas lezírias por altura das mondas e ceifas.
Com imensa investigação da linguagem escrita, e da linguagem visual e pictórica, narrando com a oralidade do povo, Alves Redol é um perfeito organizador de sensações e impressões, criando imagens de variados tipos nas descrições das paisagens ribatejanas e nos gestos e expressões de suas personagens.
(…) A faina começa. Partidos pelos rins, quebram-se em ângulo de cabeças pendidas como as panículas do arroz que se ouvem no marulhar brando da aragem da manhã. Com a mão canha, os ceifeiros jungem as canas dos pés e lançam a foice com a direita, cortando-as à força de pulso, sem pancada, não vão os bagos saltar. Voltam-se para trás e depõem as espigas em gavelas, com movimentos bruscos, como se andassem de empreitada. O terreno está fofo, empapado das águas, onde os pés descalços se atascam na lama e esfriam. A cada corte, as nuvens de mosquitos elevam-se e envolvem os ceifeiros; pousam-lhes no rosto e nas mãos, penetram-lhes na boca aberta pelo arfar ou nas ventas. Os cavalos-do-diabo e os tira-olhos zumbem em busca de novo abrigo, orientando-se no espaço. Alguns, mais tontos, embatem nos ceifeiros e caem na resteva a tremelicar. Só se ouve o balanço das espigas que tombam ao contacto das foices. E o arroz estala nas gavelas, como fogueira a crepitar achas secas. Na toalha doirada da seara, as cores vivazes das blusas das mulheres são úlceras que a gafam. Os ranchos acordaram a madrugada e o Sol rompeu agora o manto cinzento que cobre o céu. As gotas de orvalho fulgem ao seu contacto e ferem os olhos, encandeados pelo amarelo das paniculas. Como uma cheia que cobrisse os campos, o amarelo invadiu os ceifeiros. Já lhes apagou nos olhos a luz do orvalho a lucilar e parece que entra nos corpos e corre nas veias, em enxurrada, desaguando amarelo, amarelo, amarelo, na cabeça entontecida pelo ritmo da faina. O zuido dos mosquitos é um eco do vendaval que cobre os corpos dos ceifeiros. As mãos não estagnam. A meia-lua das foices fende o espaço com a sua lâmina azougada. Na resteva enleada de limos, as gavelas ficam a repousar. São teias de uma trama grossa e esverdeada. – Quem chega à borda, anda pra riba! – grita o capataz.X – As bordas não se cortam!... Num abrir e fechar de olhos, as foices tragaram um canteiro. (…)
E quem não entende porque Alves Redol foi durante muitos anos, um dos escritores de maior êxito e que mais foi lido em Portugal?
E quem não entende porque Gaibéus e em todos os seus textos, de mais de trinta títulos publicados, estão repletos de palavras de MESTRE?
Não vou falar da sua obra porque ela é sobejamente conhecida. Médico, «acorrentado» a todas artes, Fernando Namora autor de extensa obra literária que se desenvolve ao longo de cinco décadas e onde se deve ressaltar a sua precoce vocação poética.
No ano em que abri os olhos para ver este mundo (1937), Namora edita o seu primeiro volume, Relevos, livro de poesia. Talvez por esta coincidência escolhi o Poema da Utopia para ilustrar este pequeno texto.
Poema da Utopia
A noite
caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.
Se a obra de Fernando Namora em Poesia não é a mais conhecida, igualmente também não é tão divulgado o Namora pintor.
Sobre pintura falamos algumas vezes. A sua presença na exposição que realizei em 1972 na galeria do Diário de Notícias no Chiado, foi muito agradável e incentivadora.
Conheci o Namora na casa editora onde na altura ele publicava. Realizei algumas capas para os seus livros. Casualmente não foi sobre a capa de um livro seu que recordo constantemente estas suas palavras de estímulo: Esta capa é boa em qualquer lado do Mundo.
O nosso contacto foi maior quando, como desenhador gráfico, passei a executar trabalhos para o laboratório farmacêutico onde o Fernando Namora dirigia a área promocional.
Muito para além dos temas do trabalho, tanto conversamos, muito o ouvi, e com ele muito aprendi. É para mim um enorme agrado, e inteiramente justo, prestar-lhe esta homenagem de mencioná-lo como um dos Meus Mestres.
Viver sempre também cansa
Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois
achando tudo mais novo?
Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã
agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.»
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
Carta em que José Gomes Ferreira anulava o contrato com a sua editora na altura,
com um P.S. que me dedicou.
.
Talvez para o meu primeiro tributo a um Mestre, alheio à pintura, devesse ter sido outro e não o Heitor Gomes Teixeira a quem me referi na nota anterior.
Outro, que na realidade foi o meu primeiro Mestre, o que me ensinou a dar os primeiros passos na vida, que me formou, talvez uma formação pouco aberta, mas a que me deu a consciência para mais tarde poder ver, analisar e aceitar, outras perspectivas globais da existência.
Desenhos de Costa Carvalho
E porque não incluí-lo também no grupo dos Mestres da Pintura e do desenho? Porque não?! O meu pai desenhava bem! E foi por isso que nasceu em mim o gosto de desenhar e pintar. O meu pai, José Rodrigues da Costa Carvalho (Costa Carvalho como assinava), desenvolveu o seu gosto pelo desenho quando na velha Escola Rodrigues Sampaio passava o tempo a fazer bonecos com o seu colega de carteira. Depois o meu pai interessou-se pela fotografia e foi fotógrafo profissional toda a vida.
O Desenho e também a pintura era uma paixão.
Mas também se interessou por outras áreas da Arte. Foi actor, no teatro amador é certo, mas era um grupo de qualidade dirigido pelo meu avô materno. E cantava. Se a gravação que tenho do seu cantar tivesse melhor qualidade arriscava a coloca-la aqui.
Mas voltando a seu companheiro de carteira que foi desenhador sempre e também pintor de mérito.
Quem não se lembra do José de Lemos?
José de Lemos foi um desenhador humorístico e um invulgar contador de histórias para crianças. Tornou-se conhecido do grande público através de quase todos os jornais e revistas portugueses e brasileiras da sua época. Ficou célebre, sobretudo, pelos seus trabalhos no já desaparecido jornal Diário Popular, onde participou durante décadas no suplemento infantil, com bonecos e histórias ilustradas, e no jornal propriamente dito, com caricaturas de acontecimentos e situações do dia-a-dia. Crítico da sociedade portuguesa que, a seu ver, era impiedosa com os fracos e demasiado tolerante com os poderosos.
Pintura e desenho de José de Lemos:
Os seus desenhos eram caracterizados por um traço simples, com pormenores cheios de humor. Como autor de livros para crianças, que escrevia e ilustrava, recebeu por duas vezes o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho.
Assim presto homenagem a um meu Mestre, meu pai e recordo outro Mestre, José de Lemos, não exactamente meu Mestre, mas Mestre de tantos que apreciaram e foram influenciados pela sua arte. .
Depois de inaugurada a minha Exposição de Pintura OS MEUS MESTRES no Museu da Água / Reservatório da
Mãe d’Água das Amoreiras, prometi aqui prestar o meu tributo a alguns ou a tantos Mestres, fora da área da Pintura, que directa ou indirectamente se cruzaram no meu caminho fornecendo-me exemplos. Mestres foram aqueles de quem recebi ensinamentos nas mais diversas áreas das artes e da «arte» de pensar e de viver. Inicío estes escritos com a minha homenagem e gratidão a uma figura, decerto das menos conhecidas, mas para mim foi das mais importantes, senão a mais importante que conheci e que me proporcionou ensinamentos e uma visão global da «arte» do pensamento.
Terminado o Curso nocturno da Escola António Arroio e o Serviço Militar normal, fui, pouco mais de um ano mais tarde, mobilizado para a Guerra Colonial em Angola. Educado no seio de uma família tradicional respeitadora dos conceitos e preconceitos em vigor, nada mais podia fazer do que aceitar essa mobilização como um acto natural e correcto. Não tinha, confesso, como muitos, o conhecimento da realidade dessa guerra e também não tomei a decisão de fugir dela, como alguns, unicamente porque era uma guerra.
Fiquei em Luanda aproximadamente um ano antes de seguir para o interior. A minha especialidade militar (operações e informações) foi para isso decisiva.
Foi então nessa estada em Luanda, que ao ter contactado com o meio cultural angolano conheci várias pessoas interessantes, muitas das quais a minha memória não me ajuda a recordar seus nomes. Conheci pintores, entre eles o Cruzeiro Seixas que na altura era Director do Museu de Angola, conheci o Rui Romano, um personagem da Rádio de Angola e que mais tarde pertenceu aos quadros da Radiotelevisão Portuguesa, e conheci o Heitor Gomes Teixeira.
Aqui está o Mestre de quem quero falar.
Na altura o Heitor Gomes Teixeira era o Director do Teatro Experimental de Luanda. Homem culto, demasiado culto, se é que há excesso em se ser culto. Colaborei com ele para o desenho de cenários e figurinos das obras teatrais que ele colocou em cena. Foi uma experiência interessante.
Durante o meu convívio com o Heitor houve em mim uma abertura alargada a trezentos e sessenta graus sobre a visão do mundo e das suas realidades.
Para o Heitor Gomes Teixeira o Teatro era uma paixão. Paixão germinada enquanto trabalhava no Teatro Experimental do Porto com António Pedro, personalidade vincada ao Teatro português e às Artes Plásticas, na altura que estudava em Coimbra.
Em Luanda era advogado e professor no Liceu de Luanda.
Ainda em Luanda participou num filme de Augusto Fraga «A Voz do Sangue», parece de má memória para ele.
Mais tarde decidiu tirar o Curso de Filologia Germânica e veio para Lisboa.
Entretanto trabalhou com Luzia Maria Martins no já desaparecido Teatro Vasco Santana existente na Feira Popular em Lisboa, na obra Bocage - Alma Sem Mundo de que a Luzia Maria Martins era autora, iniciando a figura de Bocage. Pouco tempo depois por algo que não lhe agradou abandonou essa participação. Após o seu curso, foi leitor de português em algumas cidades da Europa e por último pertenceu aos quadros da Universidade Nova de Lisboa. Heitor Gomes Teixeira, como autor escreveu algumas peças teatrais como por exemplo a farsa teatral Os Homens Dividem-se em Dois Grupos, editada pela Imbondeiro, velha e conceituada editora angolana da antiga Sá da Bandeira.
No ensaio, para além da apreciável colaboração na Revista Colóquio/ Letras da Fundação Gulbenkian em que
consta o texto Sá de Miranda : Um Soneto Maneirista, é ainda autor de outras obras e publica em1977, numa edição da Universidade Nova de Lisboa, As Tábuas do Painel de um Auto (António Serrão de Crasto), uma bibliografia do poeta acompanhada de uma selecção de textos inéditos com a reprodução do facsímile de um dos textos.
Heitor Gomes Teixeira e Urbano Tavares Rodrigues na inauguração da Exposição Reencontro(s). Exposição motivada pelo meu regresso da Venezuela, onde estive 12 anos.
Obra que é o único estudo contemporâneo que se conhece acerca da vida e obra deste poeta e boticário judeu seiscentista (da Academia dos Singulares), vítima do Santo Ofício e deixado morrer na miséria.
Sem saber explicar, depois da inauguração da minha exposição Reencontro(s) que realizei na Galeria da
Câmara Municipal da Amadora em 1993, perdi o contacto com o Heitor. O que lamento!
Muito gostaria de ter noticias dele!
Nem o Manuel Simões, nem o Liberto Cruz que o conheci na mesma altura em Luanda, sabem como comunicar com o ele.
Voltando a esse tempo, transcrevo extractos de notas publicadas nos jornais de Luanda em 1963 sobre as minhas primeiras exposições.
Desligado da atitude ou da figura «surpreendidas», Dorindo Carvalho, um dos quatro melhores desta mostra de pintura volta-se para o individuo, que analisa, para depois sintetisar no tipo, com um objectivo marcadamente social. Isola o homem, depois de o arrancar às circuntâncias. Nesse homem sobressaem a força, a virilidade, a trágica aceitação do trabalho como destino e penitência, o orgulho dos pés firmes no chão sem deus ou do rosto ocultando-se à piedade), enquanto na mulher, dona das mesmas formas vigorosas e solidárias, há apesar de tudo a ironia cristalizada num sorriso disposto a entender, e uma espantosa mão aberta – uma espantosa mão aberta ! – ao respeito e à veneração, mais do que à esmola do preço.
Portinari andou por ali... no movimento, ou no estaticismo intencional, trágico, mas obstinado na crença de dias melhores... Dorindo Carvalho é o mais distante de Paris e o mais africanizante dos seus companheiros. Talvez por isso nos emocionam mais os seus quadros-documentos, profundamente dramáticos, mas livres de literatura, em que a realidade é a dor epicamente esperançosa. Dor que não sucumbe e esperança que não esquiva ao protesto, até se tornar incómoda. Panfleto liberto de esteticismos gongorizantes, não esquece ter sido a pintura o meio escolhido para o diálogo. E por isso é pintura o resultado obtido.
Heitor Gomes Teixeira in «Provincia de Angola» Junho1963, Exposição 10 x 3 ...
Uma exposição desesperante. Exactamente aquilo que as pessoas não gostam de ver – as palavras que Liberto Cruz achou para o momento, os olhos cheios das figuras dolorosas espalhadas pela sala... ...Angola, reinventou-a Dorindo Carvalho. E isso é que é importante! Viu-a com os olhos de quem passou meses por terras de que guardamos coragem apenas para ouvir falar...
Heitor Gomes Teixeira In ABC de Luanda - Outubro 1963
Acabei de inaugurar uma exposição de pintura no Museu da Água / Reservatório da Mãe d’ Água nas Amoreiras.
A propósito da exposição que intitulei de «Os Meus Mestres», diria que não existe arte sem influência. É normal ter um Mestre directo, quero dizer, um Mestre com quem se trabalhou ou foi nosso professor e de quem recebemos as maiores influências. O meu caso assim não é. As influências a que estive exposto ao longo da construção dos meus trabalhos, situam-se, mesmo que o não queira, ou não o assuma, em momentos precisos da história da pintura, a história dos meus próprios Mestres que viveram imprimindo a marca de uma existência criadora, e não a qualquer Mestre directo ou próximo.
Não é frequente um artista prestar tributo aos seus Mestres, dada a tendência em considerar a sua obra um acto de criação original, uma obra executada na sua íntima plenitude, no entanto eu quis homenagear aqueles que de uma maneira ou de outra me marcaram conduzindo- me a novas propostas e novos caminhos. Agora, neste conjunto de telas, numa explosão abstraccionista, em que uma composição de formas geométricas irregulares, os gestos e as linhas num fundo negro perfazem uma polícroma expressividade, e de onde surgem evocações de muitas obras-primas impondo ao quadro o seu manifesto estético.
Mas nem só na pintura considero que tive Mestres. Não foi só Picasso, Leonardo da Vinci, Vermeer, Goya, Francis Bacon, Kandinski, Portinari, Botticelli, Valerio Adami e tantos outros, que foram meus Mestres. Mestres foram aqueles de quem recebi ensinamentos nas mais diversas áreas das artes e da «arte» de pensar e de viver. Porque não prestar o meu tributo a alguns ou a tantos, que directa ou indirectamente se cruzaram em meu caminho fornecendo-me exemplos?
A alguns mais conhecidos, e a outros não tanto, irei prestar a minha homenagem em escritos aos com quem convivi de perto, como por exemplo Heitor Gomes Teixeira, Fernando Namora, José Gomes Ferreira, José Saramago, David Mourão Ferreira, José Cardoso Pires, Fernando Bragança Gil, e aos que, através dos seus livros, do cinema, do teatro, da música e noutras áreas, os considero igualmente OS MEUS MESTRES.
Proponho-me assim escrever, (não pintar) se possível ilustrar e publicar, rebuscando na minha memória, algo sobre algumas dessas figuras da História (ou da minha história) que habitam em mim.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
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