Adão Cruz Mãe
(foto da eurodeputada italiana Licia Ronzulli que tem levado o filho consigo para várias sessões do Parlamento Europeu)
Mãe a palavra universal a palavra mais consensual da humanidade
Nem Deus… Deus é de uns e não de outros Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos
A mãe não a mãe é de todos sem excepção
A mãe é de todos e é só nossa a mãe é do crente e do ateu a mãe é do pobre e do rico do sábio e do ignorante
A mãe é dos poetas dos filósofos e artistas dos bons e dos maus a mãe é do amigo e do inimigo
Não há mãe de uns e não de outros não há ninguém sem mãe não há mãe de ninguém
A mãe é de toda a gente a mãe é de cada um a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto
A mãe é do longe e do perto da água e do fogo do sangue e das lágrimas da alegria e da tristeza da doçura e da amargura da força e da fraqueza
A mãe é certeza e aventura é medo e firmeza dúvida e crença a haste que se ergue no céu ou se aninha rente ao chão para que a morte a não vença
A mãe é a outra parte de nós
Sem mãe somos metade sem mãe nada é exacto igual a um igual a infinito onde se tocam princípio e fim onde os tempos se encontram sem tempo presente passado e futuro
A mãe é tudo a mãe é de mais a mãe é o máximo
A mãe é a lágrima que não seca no sorriso que não se apaga a nuvem que chove no sol que aquece a mensagem da luz e da harmonia e dos acordes matinais com que abre o nosso dia
A mãe levanta-se no orvalho das lágrimas da noite e mesmo cansada não perde a voz nem a cor da madrugada
A mãe é a voz que se não teme a voz que se confia a voz que tudo diz nas consoantes do grito nas vogais do silêncio nos abismos da agonia
Mãe
Primeira palavra a nascer a última palavra a morrer a mãe é sempre a mesma a mãe nunca é outra na sua infinita diferença
A mãe é criação a mãe é sempre o fim da obra-prima inacabada a mãe nunca é ensaio nem esboço nem projecto
A mãe é um milagre no milagre do mundo o único milagre concebido neste mundo real e concreto
Chora para que outros riam ri para que a dor a não mate mistura-se com a luz das estrelas para vencer a escuridão devora as nuvens por um raio de sol
A mãe é beleza e poesia aurora fulgurante aurora adormecida a mãe é bela porque é simples a mãe é simples porque nasce da silenciosa lógica da vida
A mãe é o que é a mãe é a fragilidade da semente a força do tronco a beleza da flor a doçura do fruto o dom de renascer
A mãe é tudo numa coisa só
Amor
Eva Cruz O jardim de Raquel
(Manuel Cruz)
O jardim de Raquel abre-se ao sol
caindo da Serra
uma coberta de retalhos
tecida de mil aromas
borda a pedra do tanque grande.
Entrelaçam ervilhas de cheiro
os toros das couves galegas
esporas azuis na cidreira e na hortelã
abraçam-se pica-narizes e alecrim
e os cosmes cor-de-rosa
chamam os pintassilgos ao cair da tarde.
Malmequeres de muitas cores
e amores-perfeitos
desdenham da singeleza
dos miosótis azul-sulfato
que bebem a água do rego da mina.
As tímidas flores da rama das batatas
estendem o jardim pelo campo fora
fundindo verdes
no verde de todo o Vale.
Raquel desprende-se da pedra do tanque
veste-se da cor dos cosmes
enche a vida de flores
e voa na brisa que afaga o seu jardim.
No regresso do tempo sonhado
à beira do tanque grande
só um pintassilgo volta
ainda
Pablo Neruda La Lâmpara Marina
(Adão Cruz)
Informação: por ausência dos seus responsáveis na próxima semana não se publicarão as rubricas "Estuário", "Jardim das delícias" e "Terna é a noite". O "Estuário" retomará a publicação no próximo dia 30, as outras duas rubricas no dia 2 de Maio.
Adão Cruz A minha música
.
(Adão Cruz)
Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie.
Como foi possível parecerem-me tão semelhantes?
Que percebe de sons este monocórdico espírito?
Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.
Como vou misturar é quase certo que nada existe nada está perto nem eu estou triste com Embryons desséchés e Peccadilles importunes?
Eu próprio me sinto mistura de contradições e acasos harmonia de contrastes santidade e pecado.
Nada percebo de música mas quero que a música seja ar chuva ou vento olhos boca sustento febre delírio amor e tormento.
Não sei onde fica a música nem a terra onde ela conduz sei apenas que é de sol e de luz ar puro e perfume o caminho da música para o alto dos montes.
Adão Cruz Esse bocadinho de tarde cinzenta
(Adão Cruz)
Ela não sabia mas a vida havia-lhe ensinado naturalmente que os mais belos poemas se fazem com gestos e palavras simples
Que os nossos corpos ainda que distantes no tempo se uniam como a clara e a gema
Fora da jaula com a ponte ao longe sentia-se voar e dizia que o ar fresco da liberdade acendia nela um poderoso desejo
Nos corredores da casa o céu abria-se ao vê-la frente ao espelho provando a blusa que lhe trouxera de fora
Ao sentir a sua pele macia coberta apenas pela leve blusa que vestia frente ao espelho ficava enraivecido por alguém lhe pôr as mãos em cima uma vida inteira
Sentir nos dedos a maciez do seu sexo era um poema com versos de fogo
Para lá da beleza a transparente ternura da infelicidade prendia cada vez mais aos olhos aquele corpo de sonho e magia
Os seus beijos não tanto pela sensualidade como pela necessidade de fuga através deles para um qualquer lugar de paz e segurança tornavam mais dolorosa a hora que viria a seguir sem ela
A alegria que tinha ao vê-la entrar era tão grande quanto a tristeza que sentia ao vê-la sair
Era como se levasse consigo a sina de não voltar embora tivesse voltado sempre como uma aparição
Era como se o mundo caísse ao chão e se partisse e não houvesse forma de unir os pedaços
Uma imensa amargura pelo desencontro de idades e de vidas cerrava os olhos mas a beleza interior daquela mulher sabia abri-los e agarrar o sol de forma sublime
Nesse bocadinho de tarde cinzenta só uma alma grande podia fazer da tristeza e da amargura um acto de amor

Poema de agradecimento à corja
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.
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Joaquim Pessoa nasceu no Barreiro em 1948. Iniciou a sua carreira no Suplemento Literário Juvenil do Diário de Lisboa.O primeiro livro de Joaquim Pessoa foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais de vinte obras incluindo duas antologias. Foram lhe atribuídos os prémios literários da Associação Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura (Prémio de Poesia de 1981), o Prémio de Literatura António Nobre e o Prémio Cidade de Almada. Bibliografia: "O Pássaro no Espelho", "A Morte Absoluta", "Poemas de Perfil", "Amor Combate", "Canções de Ex cravo e Malviver", "Português Suave", "Os Olhos de Isa", "Os Dias da Serpente", "O Livro da Noite", "O Amor Infinito", "Fly", "Sonetos Perversos", "Os Herdeiros do Vento", "Caderno de Exorcismos", "Peixe Náufrago", "Mas.", "Por Outras Palavras", "À Mesa do Amor", "Vou me Embora de Mim".
Maria do Rosário Pedreira Poema
(Adão Cruz)
O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.
O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.
O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.
(in Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica)
Eva Cruz Uma casa grande
(Adão Cruz)
É uma casa grande
tem dentro o mundo
em recantos de lenda
e história.
Alma de poetas.
Retratos e santos
recordações de vida
por todos os cantos…
Livros nas paredes
seu melhor recheio
quadros a saber a poesia
e o vento que agita a figueira
a entrar pelas portas adentro.
Música de um bandolim adormecido…
Levanta o pó
descobre Marx, Brecht
e Nietsche.
O vento da história
acorda a memória
aconchegada ao canto da lareira.
É uma casa grande
com escadas
onde se brinca às escondidas
e as crianças inventam anjos
pelos cantos…
Gostam da casa
correm-na a rir
sem medos de partir
o que por lá há.
É uma casa grande
tem dentro o mundo
onde só vale
a alma do que lá está.
Maria Inês Aguiar Sílaba da paz sem idade
(Adão Cruz)
Que nasçam armaduras do silêncio
fúria de sangue e de pedra
que se levante uma muralha
voz de povo voz de terra
Que do desespero nasçam asas
força de gente cravo de fome
que se ergam punhos de brasas
punhais de aço com nome
Que se despertem todas noites
e se escrevam madrugadas
que se inventem novas rotas
e se fecundem alvoradas
Que se levantem as âncoras
deste tempo despojado
que nasça o homem novo
do velho homem curvado
Que nasça do ventre da hora
o rascunho da ilusão
que se chamem as palavras
páginas de vida em cada mão
Que se faça um filho à liberdade
sílaba da paz sem idade!
(publicado no Jornal de Notícias em 2012-04-02)
Ainda não vi ninguém queixar-se (e, que diabo!, não acredito que seja só eu o eleito e o escolhido): fui atacado por um "hacker" anónimo ao serviço da Kultura e do dr. Malaca Casteleiro e, em silêncio, sem aviso, o meu Word adoptou o celerado Acordo Ortográfico. Mesmo agora acaba de sublinhar a vermelho a palavra "adoptou" (e voltou a fazê-lo!)
Não tenho conhecimentos de informática nem tempo para tentar desactivar (outra vez!) no corrector (de novo!) ortográfico o cavalo de Troia nele alojado não sei por que sinistro Torquemada linguístico, e irrita-me saber que alguém vigia o modo como escrevo pois, a seguir a isso, há-de vir também a vigilância sobre aquilo que escrevo. (O biltre sublinhou o "há-de" a vermelho; só falta notificar-me, como nas cartas de condução, de que já cometi x ou y infracções (outra vez!) ortográficas graves e de que ficarei impedido de escrever durante um mês ou, sabe-se lá, para sempre). Que fazer? A quem pedir satisfações? Ao Windows Update? Ao dr. Miguel Relvas? Ao SIS? À Loja Mozart?
Por que obscura porta se terá infiltrado a Coisa no meu computador? Poderá entrar igualmente pela minha consciência e pela minha vontade dentro, censurando a vermelho o que penso e o que quero como censura o que escrevo? Já pensei voltar a escrever à mão, mas temo que até esferográficas e lápis tenham já sido programados pelo dr. Casteleiro para não me deixarem escrever consoantes mudas.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’
POESIA MATEMÁTICA
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.
Adão Cruz Poema Inteiro
(Adão Cruz)
Foi a noite mais triste a mais negra noite mais triste do que todas as sombras mais triste do que a noite de Orfeu mais triste do que a sombra dos coqueiros sem lua mais negra do que o mergulho do tarrafe nas águas fundas do Cacheu
O homem honesto vítima de esconso agravo sozinho na noite sem força sem amor sem atitudes enrolou-se na torrente de lágrimas e não dormiu as longas horas dessa noite tudo se tinha rasgado o sol a lua a paisagem os rios os braços e o sonho em tiras de trapos que à toa foi enfiando nos sacos de lixo sozinho na noite sem que uma espada refulgisse em suas mãos impondo a fronte e a palavra no renascer do horizonte
O nevoeiro inesperado entrou pela frincha da janela e comeu tudo comeu a casa que caiu comeu os olhos que deixaram de ver comeu as mãos tensas que deixaram de tocar a casa ruiu não ficou pedra sobre pedra e no fim nem pedras se viam no chão nem terra nem pó tudo limpo impecavelmente limpo feito em nada num lençol apenas mordido de pétalas e sedução
E o nada entrou na alma como nevoeiro cerrado e o coração deixou de bater preso na argila agarrada às veias apenas um fio de luz de prata fria incandescente atravessava o sítio onde devia estar a mente e as ideias gerando um lamento seco como um gemido fremente não há remédio para o gemido o gemido é a coisa mais só mais terrível mais cortante da carne viva latido de cão
perdido no monte não dorme ante o silêncio de mil ouvidos moucos e agarra-se ao sangue como crude apenas o dissolve a lama da noite jorrando fontes de silêncio sobre um corpo sem beijos de bocas atadas e olhos sem horizonte
A noite do desespero despenhou-se sobre a cidade cuspindo nomes falsos fincou as garras nas janelas rasgou em feridas extensas o corpo nu da solidão queimou a vida em catedrais de cinzas abriu com estrondo a porta de saída sem porta de entrada a janela era só uma frincha desmesurada tudo era dentro e tudo era fora sem nada… nada havia pelo meio só livros a voar sem paredes nem estantes de permeio
Tudo soava a violino sem cordas num ritmo de movimento sem cor sobre um tabuleiro sem pedras sem força nem entreactos numa franca abertura da porta que desce aos infernos chorando a virtude em forte clamor à beira da morte que sobe no sangue glosando a pobreza de mil retratos impressos noutra era em letra de amor atirados ao fundo abismo de uma profunda cratera
Havia em tempos cobertores ainda que dobrados em opróbrios jugulares havia um cobertor alheio como lívido veneno dentro de casa mas não há casa nem cobertor que aqueça por dentro o frio é mais dentro do que de fora do corpo não há fora nem exterior nem mãos nem cara apenas dor e um mar de nada gelado sem brilho e sem cor enganando a amargura de uma fogueira sem calor
O nevoeiro traiçoeiro penetrou de mansinho sorrateiro enleou-se no orvalho gelado e num abraço apertado dançaram os dois até se esfumarem e entrarem pelos olhos cegos e pela respiração já frouxa prestes a apagar-se no chão sem pedras desenhado no pó que se havia sumido num tempo esquecido na imobilidade das promessas e no correr das águas em qualquer sentido
Gritou o homem sem voz pela mãe que havia morrido como gritam os filhos pelas mães e as mães pelos filhos vivos que não ouvem nos momentos de aflição mas não havia mães nem filhos nem momentos de aflição eram apenas restos de uma ilusão espalhados pelo chão que não era chão mas uma angustiante perda de forças para gritar se gritar fosse água no incêndio da solidão
O tempo era de morte seria assim a morte pior não seria se houvesse uma porta de entrada para onde para o nada e não de saída para onde para a vida se vida houvesse para o frio da rua se rua houvesse para a fímbria do mar se o mar tivesse fundo onde o silêncio grita e explode numa girândola de palavras e gestos de outroras perdidos entre nuvens que choveram relâmpagos
entontecidos
A memória era um vidro estilhaçado vermelho de sangue quebrado um pedaço de vidro partido que o nada deixou esquecido entre os dedos sangrantes do homem que caminhava por dentro do nevoeiro quando homem inteiro nada sendo agora desde que em nada se desfez a casa e dela tomou conta o nevoeiro
Ainda havia lágrimas havia restos de sonhos pedaços de vida espalhados pelo chão que agora estava impecavelmente limpo depois da entrada do nada e da inundação do nevoeiro como se nada ali tivesse caído ou fosse lambido pelo orvalho que entrou pela frincha da janela agora em buracos que davam para a rua esburacada onde a violência silenciada pelo vinho azedo havia deixado todas as coisas na sombra do barro da terra apagando milhões de estrelas demasiado cedo
No ar se ar havia voava um texto de mil palavras sem língua uma nicotínica melodia de álcool e soníferos na frágil clareza de um cérebro brumoso se cérebro havia trancado de sofrimento entre a perda e a morte gargalhando a fraqueza para tentar encher o último momento se momento era aquele onde cabia a tristeza e o sofrimento de uma aurora escondida onde os astros quebraram a luz que dá luz à cidade e as pálpebras se incendiaram com os olhos de fora
Altas horas da noite por entre castanheiros podres e montes de estevas sem cheiro precipícios e falésias suicidas lânguidos cantares da planície seca secaram as lágrimas fugiram as sombras dos olhos baços do pensamento inteiro e uma luz de prata sensual escorreu de alto a baixo quase conclusiva persuasiva desejosamente metafísica mas de cálculo tão frio que a força das lágrimas quentes avançou no sono precipitado por entre abismos para as águas do mar
Do fundo dessa longa noite gritam as mãos erguidas novos olhos doces de chorar e negar o velho altar do homem empoleirado grosseiro brutal avarento derradeiro a condição de ser inteiramente outro com sabor a mel a terra e a resina nem eterno nem intacto nem primeiro sem medo de caminhar por dentro do nevoeiro sem medo nem angústia de se perder devorado pelo orvalho de pedra de qualquer noite mais triste que possa tombar sobre o leito de morte de um homem inteiro
Adão Cruz, Clara Reis, Eva Cruz, Isilda Graça À Nelly-Poema a quatro mãos
(autor desconhecido)
Amaina o vento
sobre a areia rendada de espuma branca.
Do alto da falésia metade do sol se esvai
abrindo o céu à lua inteira.
Uma mantilha de ouro estende-se a teus pés.
Tímidas gaivotas olham para os teus dedos
e de ternura as algas te acariciam.
Sabem que o mar é teu
que tu és dele
e sempre dele sentiste o ondular das ondas
nas teclas do teu piano.
Jovem mulher com seu piano de sol
de sombra e de tempestade
escreve suavemente na areia branca
a partitura quase incriada quase incerta
do instinto palpitante das ondas da vida.
O corpo arde por dentro
e o sangue fervente navega nos dedos febris
dobrados pela música do cantar da vida
até à exaltante alegria de morrer.
Subirão à tua face
as águas incendiadas pelo mítico brilho da falésia
que aquecem as ruas frias da nossa cidade interior.
Impregnados de silêncio
teus cabelos se incendeiam
de gesto fulgurante ou de loucura.
Onde a mulher começa nasce o sorriso
e o desejo se faz auréola de santidade
até que a beleza e o lume
se dêem tempo de incendiar a vida.
Sempre foste memória que se perde e se ganha
na espuma de um mar fecundo de fogo e leite
vertido num piano em noite de lua cheia.
No jogo das tuas mãos
levadas pelo vento da maré
nasce a luz e a sombra do linho branco
e a tua música subirá contigo
entrelaçada em algas
até pousar no alto da falésia.
Adão Cruz Já fui poeta da luz (Poemas de mãos dadas)
(Adão Cruz)
Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.
Quando a vida alumiava o infinito eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.
Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.
Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino.
A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus.
Um dia abri as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só me apareceram muralhas.
Nada de crianças.
Os homens comeram as crianças os homens comeram-se crianças os homens pariram-se adultos.
Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro.
Por isso a luz se apagou por isso já não sou poeta já não sou poeta nem nada não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada.
Talvez louco…
O louco não tem número o limite da soma é o vazio.
Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa.
Não sou quebra-luz nem gavinha entrelaçada num abraço de frio.
Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma o fecundaram.
Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem seiva.
Morreram Afrodites e leões de pêlo fulvo quando se inventou a alma e eu não sou mais do que rescaldo.
Já não sou poeta nem nada já não sou quem era… não sinto as noites de prata nem mexe comigo a ventania que varre as faldas da serra.
Não me doem as videiras espetadas no céu nem os castelos de fantasia caídos por terra.
Cada erva cada semente é resto de uma canção que já não sei cantar.
Fugiu do peito o coração foi-se embora o luar e o rio que eu era nem sequer chegou ao mar.
Resta-me a tarde que declina como o lento caminhar de uma nuvem para o fundo escuro da noite.
Resta-me a saudade dos olhos na luz viva de um sonho perdido num campo de violetas.
A tarde declina para onde não há outra manhã de corpos apertados e corações bem perto.
Já não sou poeta nem nada nem credo nem sonho nem dilema nem a magra esperança de uma luz que faça nascer um verso para acabar o poema.
Sou pirilampo das sombras voando pelos regatos secos não sei se vou longe se vou perto se ao cimo se ao fundo não sei se giro por dentro ou por fora do mundo.
Adão Cruz O Labirinto
(Adão Cruz)
O labirinto tem que ter uma porta uma saída um caminho que não encontro.
Sei que sou buraco de mim mesmo mas não é por aí que eu quero sair.
Meu sonho é ser um pássaro voar na proporção do amor sem medo nas penas…
Meu pesadelo é ser um homem à medida do vento arrastando a vida.
Há pessoas que têm dentro de si uma eterna paisagem uma manhã de luz uma tarde de azul.
Ainda que as nuvens se eternizem entre elas e os passos brilham as estrelas.
Eu sou apenas caminho andado sou fim de tempo resto de palavras e gestos perdidos na eternidade de um dilema.
Já não giram os turvos olhos mortos nem os lábios descarnados suspiram.
Já o coração não treme e a alma desliza pela neve fria.
Foi-se embora o cheiro a alfazema.
Entre o silêncio das árvores e o rugido do mar há-de haver um verso para acabar o poema.
Ethel Feldman Caminho de ferro
(Adão Cruz)
Maria Inês Aguiar Anacoretica(mente)
(Adão Cruz)
agito-me impaciente pelas ruas da cidade
em busca da tua sombra
procuro-te em todos os olhos que por mim passam
não sou mais do que um espelho disforme desfocado
atirando-me de encontro à fome de te amar
estremecer o teu nome saciado
e, desespero a realidade do meu quarto
um leito vazio, um só prato
e, se um dia me esqueci de ti
se não te abracei e no meu egoísmo
fui o fátuo o negligente
hoje sou só gente, anacoretica(mente)
Adão Cruz Desilusão
(Adão Cruz)
Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso.
Minha voz de gravador que outros ouvem só eu não tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.
Sonho de amor invisível e ateu.
Pela escada fantasma do falso destino destino essencial quem subia ou descia afinal…era eu.
Nos gestos por dentro nos jardins de contraste da natureza fecunda no penoso brio de um curriculum lavrado na areia meti as mãos na areia e palpei o futuro.
Palpei a filosofia dos cadáveres e em febril pulsação espremi a vida dentro de uma mão cheia.
Enchi de virilidade a cidade a cidade e o lixo o lixo e o luxo a luz e eu.
No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo feito de tempo gasto e de nojo.
Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.
A verdade era uma mesa a vida os dados e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.
Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe não há sim nem não entre passado e presente e o futuro é o deserto que temos à frente.
Neste chão de lama na ejaculação abortada nos restos de orgia da orgia de restos em ritmo de coração moribundo sobra o tremor da carne adormecida.
A arte o sonho a verdade o viço e a cor perderam o brilho e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.
Jorge Sousa Braga Portugal
(agradecemos a Maria Lua, do blog Estorias de Lua, que nos enviou o poema)
(Adão Cruz)
Jorge Sousa Braga nasceu em Cervães, Vila Verde, em 1957. Vive no Porto, onde exerce Medicina. Publicou vários livros de poesia e traduziu e antologiou autores como Jorge Luis Borges, Matsuo Bashô e Apollinaire, entre outros.
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o
Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver
se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um
resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e
idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os
pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder
espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar
estava no poder nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra tenho amigos que
emigraram nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os
Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propôr-te um projecto eminentemente
nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que
Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
Vasco Lourenço
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