Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
A POESIA E A MÚSICA - António Sales

 

Pintura de GEORGES BRAQUE

 

Os Violinos

 

O arranque vibra
ao som das cordas brancas
soltando a harmonia
de sombras solitárias espelhadas no céu
entre satélites.
Os arcos riscam ondas de luz
ao espírito de coros conventuais.

Os primeiros violinos
espalham suspiros de vento
evadido de um tempo gotejante.
Cinzento e leve
percorre as abóbadas do universo
fecundando a multiplicação dos séculos
na busca de perpétua fantasia
sublime e mística.
Dedos pisando as cordas,
vibrações expandidas,
soltas, vivas.

A voz noturna chama .

Os segundos violinos,
batendo os arcos como asas
em vibratórios movimentos
largam no ar um fio melódico
de vestes brancas
à procur da revelação das notas certas.
Tocam a alegria dourada
dos girassóis dançando pelo corpo.
Vigor da existência
paixão e esperança
beleza encantadora das cordas
que depositam paz nos corações.

Um espaço
um silêncio de braços
um gesto de compasso.

Subitamente
todos sobem  o rio das ninfas musicais,
entre fontes de amor
e beijos de amantes nupciais.
Num hino superior
os violinos tornam-se senhores
das emoções hunanas  plantadas
pela terra.

Som majestoso este
ao encontro dos corações
onde jazem
pecados encardidos de o serem.
tristeza e vozes em clausura
agora libertas pelos violinos
que procuram virtudes incógnitas
no  superior sentido do destino.

E assim termina a partitura!

 

(inédito)



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
A POESIA E A MÚSICA - Ana Hatherly

Com este poema de Ana Hatherly, damos início a uma nova série de poesia matinal - A POESIA E A MÚSICA, poemas em língua portuguesa onde a música seja tema dominante. Nesta série, publicaremos poetas argonautas e poetas consagrados. As ilustrações, sempre que possível, terão o nome do autor.

A casa onde nasceu Beethoven

 

 


Tem quatro pisos
Mas é pequena e triste:
Em 1999
Está cansada.
O soalho range perigosamente
Quando passam os turistas
Que caminham lentos
Um tanto receosos.
A um canto
Dois pianos da época
Encostam as suas caudas
Timidamente
Temerosos de algum
Não desejado contacto.
Em todos os andares
Nas paredes
Há velhos retratos
E em vitrines
Algumas velhas partituras
Jazem sonolentas.
Fazendo pendant
Com os aparelhos de ouvir
Estão as lunetas embaciadas
Do Mestre.
A casa está vazia
Porque o Mestre
Não está.
Só no jardim
Paira ainda
No leve murmúrio da folhagem
Uma inaudível voz
Um som longínquo
Que ressoa dentro

 



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Chico Buarque

Chico Buarque (1944)

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague.

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Domingo, 13 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Sérgio Godinho

Sérgio Godinho (1945)

As horas extraordinárias

Foi a saudade do teu braço
e o olhar que já da luz me dói
trabalhei sem dar p´lo cansaço
horas extraordinárias, foi
um dia que passou num furacão
um furacão que se amainou, só
quando, aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

E assim que volto ao meu lugar
reencontro com dor e com prazer
o coração que fiz falar
à máquina de escrever, a ver
ela a dar corda à máquina de amar
e um coração a se amainar, só
quando aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

 



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Sábado, 12 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Miguel Macedo

Miguel Macedo (?)

São mãos que trabalham

 

São mãos que trabalham.

São os homens que puxam barcos, guiam máquinas, arrancam pedras, martelam
nas ruas.

Estas mãos têm dores.

As mãos com feridas têm saudades da água fresca, das flores, da língua dum
cão, das penas dum passarinho.

Os homens destas mãos são tristes. Têm fome, têm sede, gostavam de acordar
num dia a descansar de manhã à noite.

Gosto muito das mãos das pessoas que trabalham.

Estas mãos fazem lembrar um coração com susto.


(A Criança e a Vida, Maria Rosa Colaço, ITAU, 1969)



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
LVCÍADAS - por César Príncipe

LVCÍADAS

 

Canto a Irmã LvCIA Os bispos barrigudos Os santos pós-modernos e os santos recLvsos A ConVersão da Rússia As virgens inDecentes Canto a lvcidez da populaça lvsa Que veste roupa branca sobre a CUeca suja e deu a Volta ao Orbe Por razões eVidentes Canto a ImaCUlada e os canhões da NATO Os mercados abertos A Terra ao desbaRato Os heróis dos estádios e os votos deMentes Canto o iLustre peito da SenhOra do Leite Tudo que uma maDona (sem fornicar) deLeite Num país de varões ImortAis e valEntes Canto esta Casa Pia de infantes e espumas A cruz das caraVelas nas procissões noctUrnas As lvcidas donzElas apalpadas por crentes Canto Outra Cruzada A Nova Cristandade A da Pomba da Paz da ocidental jihad Pregando no deserto com armas e seMentes Canto a Fé no Petróleo Os segredos da CIA O Século dos USA e o Mês de Maria A riqueza das pátrias e almas indiGentes Canto esta Lvcitânia de laraAnjas e rosas De banqueiros-templários e de monjas manhosas Os venERAndos mestres dos nossos diriGentes

Cantemos o Adeus
Cantemos o Ave
Nesta EurOpa Sem Deus
Neste Mundo Sem Fé

(in  Seara de Vento, 2007)



publicado por Carlos Loures às 11:00
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O labrego - poema de Manuel Maria

Sempre Galiza!

Sempre Galiza!

 

 

Manuel Maria (1929-2004)

 

 

O labrego

 

Un labrego tan só é unha cousa

que case non repousa.

Da sementeira a seitura,

pasando pela cava,

a súa vida é moi dura

e moi escrava.

Sempre trafegando,

arando,

sachando,

malhando,

gadanhando,

percurando o gando.

Sempre a olhar pró ceo

com medo e com receo.

Sempre a sementar ilusión

ponhendo na semente o corazón

pra colheitar probeza e mais tristura.

Dilhe ao labrego da beleza

da campía,

da súa fermosura

e poesia.

Dírache que sí,

que a beleza pra tí.

Pró labrego é o trabalho

o andar tocado do caralho,

o pan mouro i o toucinho.

(Múdanse de calzado ou de traxe

cando van de viaxe,

de feira ou de romaxe

e xantan, eses días, pulpo e vinho);

os eidos ciscados, minifundiados

que quér decir atomizados);

o matarse sachar de sol a sol

pra lograr seis patacas

com furacas,

catro grãos de centeo i unha col;

o dobregarse sobor dos sucos

pra pagar gabelas e trabucos;

o vivir entre esterco i animales

en chouzas case inhabitabeles.

I aguantar, aguanta e aguantar,

Agardando morrer pra descansar.





publicado por Pedro Godinho às 10:00
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A POESIA E O TRABALHO - Millôr Fernandes

Millôr Fernandes  (1923-2012)

 

Poeminha sobre o trabalho

 

 

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

( in "Pif-Paf")



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Home amb esperança - poema de Joaquim Horta

Quatre Barres

 

 

 

Joaquim Horta (Barcelona, 1930)

 

 

HOME AMB ESPERANÇA

 

Acabarem algun dia, potser demà,

amb les paraules inútils i boniques,

el dring de la porcellana fina,

i les marionete de foscos colors.

I ensenyarem als fills, parits sense dolor,

el com i el perquè de cada cosa,

i els baixarem al carrer, sense temor,

i jugaran a construir pobles.

I tocaran la terra,

i la faran seva i de tots,

i escriuran, amb nous mots,

noves lleis, història i vida.

També vindrà un vaixell de vela àgil,

esquivant tempestes i roques altives,

i s'endurà tot l'or de la terra, mites i falsos déus,

i ens deixarà quieta la mar, i una barca petita.

Anb ella anirem a saludar els pobles,

a l'espatlla un sarrío amb eines i amb llibres,

als ulls un esclat d'alegria,

i creurem en els homes i en els dies.

 

(um poema de Paraules per a no dormir, 1960)



publicado por Pedro Godinho às 10:00
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A POESIA E O TRABALHO - José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira (1900-1985)

 

O Suor dos operários


O suor dos operários
sujos de trabalho e sol
engrossa a argamassa
conclui a cal.
E os tijolos?
Que sangue os trespassa?
Não o meu
que, enquanto os outros agem,
fica nas urzes que piso.
Quando chego,
dou os bons-dias,
dou as boas-tardes,
construo nuvens de casas no céu
com novos horizontes,
espreguiço-me, bocejo no sorriso,
e atiro os olhos para a paisagem
que por momentos pairam
sobre as águias dos montes
«ó Sintra de Lorde Byron!»
Entretanto,
os pedreiros, já sem o rigoir de juntar as pedras,
não perdem tempo como eu
a tange a lira de Orfeu
para construir uma mulher
de sombra eterna.
Preferem a intimidade
de uma Eurídice provisória qualquer
- harpa de suor,
leite de sonho efémero.

(Obra Poética)



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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Urbano Tavares Rodrigues

Urbano Tavares Rodrigues (1923)

 

 

Mulheres do Alentejo

 

Mulheres do Alentejo

Com papoilas nos olhos

São primaveras erguidas

Contra os bastões contra as balas

Oculto o rosto

Seus negros chapéus descidos

Frene ao sol

O claro choro nas mãos

Com bagos de amanhã.

São cor de terra

Cor de trabalho

Cor da habituação à dor.

Nossa Pátria do sofrimento

E do valor

Meu sinal de luz

Em toda a palavra que escrevo

Meu território do regresso e do futuro

Minha praia de secura

Percorrida pelo ódio e pelo pânico

Eis o ardente povo torturado

Esperança viva de um sonho feito carne

Mulheres searas fontes azinheiras

Nossa esperança, ainda em flor e fruto

No vermelho das feridas deste País de Abril



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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Casimiro de Brito

Casimiro de Brito (1938)


Memória do Primeiro de Maio

Um país iluminado por ruínas nunca repousada
Em teus olhos cegos subitamente
Rasgados / um país distendido
Entre velha colónias emancipadas
No ardor da guerra / um povo libertando-se
Do seu ovo de silêncio amoras cifrado & usura –
Tubérculo apodrecido
D’onde foi banido
o dente cariado da ditadura
O mar foi o mar na praça pública a luxuriante
Vegetação / a festa solar / a luz crua
Do exílio e da morte / o espectáculo
De um povo (águas
D’abril) a quem foi devolvido
O dom da fala / a mística
Da revolução. Ouve-se
Por toda a cidade
grande coral da liberdade

 

(Labyrinthus, Lisboa, 1981 e Poemabril, 2ª edição, 1994)
.



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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - D. Dinis

D. Dinis (1261-1325)

 

Levantou-s'a velida

 

Levantou-s´a velida,
levantou-s´alva
e vai lavar camisas
em no alto,
vai-las lavar alva.

Levantou –s´a louçana,
levantou-s´alva,
e vai lavar delgadas
em no alto,
vai-las lavar alto.

Vai lavar camisas,
levantou-s´alva,
o vento lhas desvia
em no alto,
vai-las lavar alva.

E vai lavar delgadas,
levantou-s´alva,
o vento lhas levava
em no alto,
vai-las lavar alva.

O vento lhas desvia,
levantou-s´alva,
meteu-s´alva em ira
em no alto,
vai-las lavar alva.

O vento lhas levava,
levantou-s´alva,
meteu-s´alva em sanha
em no alto
vai-las lavar alva.



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Sábado, 5 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Maria Rosa Colaço

Maria Rosa Colaço (1935-2004)


Para um operário da Lisnave


Sou um operário!
Amarra certa
neste cais de angústia
Olho o casco azul
de um navio do mundo
sonho por momentos
com viagens que nunca farei.
Sem trabalho
aqui estou frente ao Tejo
Mas permaneço
vigilante.

 

(O Trabalho - antologia poética)



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Joaquim Namorado

Joaquim Namorado (1914-1986)

Port-wine

O Douro é um rio de vinho

que tem a foz em Liverpool e em Londres

e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:

quando chega ao mar vai nos navios,

cria seus lodos em garrafeiras velhas,

desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos

onde remam os barqueiros suas desgraças,

primeiro se afundam em terra as suas vidas

que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas

assemelham cristais cheios de rubis,

em Cape-Town, em Sidney, em Paris,

tem um sabor generoso e fino

o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos

fecundados de sangue e amarguras

onde cava o meu povo as vinhas

como quem abre as próprias sepulturas:

nos entrepostos dos cais, em armazéns,

comerciantes trocam por esterlino

o vinho que é o sangue dos seus corpos,

moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,

no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos

acham no Porto um sabor divino,

mas a nós só nos sabe, só nos sabe,

à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,

por onde o sangue do meu povo corre.

Meu povo, liberta-te, liberta-te!,

Liberta-te, meu povo! – ou morre.

 

 



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

 

Poema para a padeira que estava a fazer pão

enquanto se travava a batalha de Aljubarrota

 

Está sobre a mesa e repousa

 

o pão

como uma arma de amor

em repouso

As armas guardam no campo

todo o campo

Já os mortos não aguardam

e repousam

Dentro de casa ela aguarda

abrir o forno

Ela tem mão que prepara

o amor

Pelos campos todos armas

não repousam

nem aguardam mais os mortos

ter amor

 

Sobre a mesa põe as mãos

pôs o pão

Fora de casa o rumor

sem repouso

Lá de fora entram armas

os homens

As mãos dela não repousam

acolhem

Sobre a mesa pôs o pão

arma de paz

Contra as armas de batalha

arma de mão

Contra a batalha das armas

não repousa

Caem contra a mesa os mortos

contra o forno

Outra paz não defende ela

que a do pão

Defende a paz que é da casa

a das mãos



publicado por Carlos Loures às 08:00
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
A POESIA E O TRABALHO - Ruy Belo

Ruy Belo (1933-1978)

 

Emprego e Desemprego do Poeta

 

Deixai que em suas mãos cresça o poema

como o som do avião no céu sem nuvens

ou no surdo verão as manhãs de domingo

Não lhe digais que é mão-de-obra a mais

que o tempo não está para a poesia



Publicar versos em jornais que tiram milhares

talvez até alguns milhões de exemplares

haverá coisa que se lhe compare?

Grandes mulheres como semiramis

públia hortênsia de castro ou vitória colonna

todas aquelas que mais íntimo morreram

não fizeram tanto por se imortalizar



Oh que agradável não é ver um poeta em exercício

chegar mesmo a fazer versos a pedido

versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria

quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor

Bem mais do que a harmonia entre os irmãos

o poeta em exercício é como azeite precioso derramado

na cabeça e na barba de aarão



Chorai profissionais da caridade

pelo pobre poeta aposentado

que já nem sabe onde ir buscar os versos

Abandonado pela poesia

oh como são compridos para ele os dias

nem mesmo sabe aonde pôr as mãos



(Aquele Grande Rio Eufrates)



publicado por Carlos Loures às 08:00
editado por João Machado em 01/05/2012 às 22:57
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012
PRIMEIRO DE MAIO - por João Machado

 

 

 

O Primeiro de Maio

 

Vão pela rua larga, a dar a curva

Um homem alto, uma mulher baixa

Uma linda rapariga, que a vista não turva

Uma senhora gorda, o braço nela encaixa

 

Lado a lado marcham e cantam alto

Amanhã vou para o trabalho

Que é verdade que nunca falto

Mas um dia vão saber quanto valho

 

Comigo somos mais de um milhão

Hoje aqui contentes, alinhados

Ouçam todos bem a nossa canção

E lembrem-se que num dia então

Havemos de ficar todos parados

 

À chuva, ao sol, com vento agreste

A nossa marcha faz girar o mundo

Por todo o firmamento celeste

E navegar pelo mar sem fundo

 

Ouçam lá nos vossos altos impérios

Como é forte o som da nossa marcha

Ponham os vossos semblantes sérios

Que não paramos do Marquês até à Baixa!

(Desenho de Dorindo Carvalho)



publicado por Carlos Loures às 18:30
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PRIMEIRO DE MAIO - "O sol quando nasce" - por Adão Cruz

 

 

 

O sol quando nasce…

 

Primeiro
Único
Verdadeiro
Maio acordado
Penoso
Duro
Forçado
Floresta de braços e abraços
Festa dor do Maio primeiro
Carne e alma
Seio fecundo
Onde corre o leite que alimenta o mundo
Ir e voltar
A ir e a vir
Noite e dia
Penoso caminho da vida inteira
Para prender um braço de sol
Entre mãos crispadas
Calejadas
Calor que os filhos aquece
Calar da fome que os adormece
Luta que não esmorece
Na esperança de outros sóis
Medos e canções de Maio
Maio de sempre
No fundo dos corações
Terra vida
Vida de todos que amam a terra
Na palma da mão
Aberta e solidária
Festa da alegria
Maio dor e lágrimas
Nunca Maio da agonia
Sol inteiro roubado
Sol do acordar de Maio
Incandescente
Que o sol será de todos
Maio de sol nascente

 



publicado por Carlos Loures às 18:00
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PRIMEIRO DE MAIO - "Requiem" - por Carlos Loures

O monstro agoniza, o hálito apodrece,
roubando à  primavera o claro rosto,
a carne canceriza e a mão estremece,
mas mata, mata sempre o seu punhal,
pois quer como sudário o próprio mundo.
Moribundo o chacal, com o grito inunda
a terra de destroços incendiando o vento;
o corpo já vacila, o olhar escurece,
mas mata, mata sempre a sua lâmina,
pois quer como mortalha as nossas vidas.
A boca é uma cratera de pasmo e pus,
em raiva e em argila os pés afunda,

as flores esmaga no mortal orgasmo,
e mata, mata ainda o seu gládio –
toda a luz quer devorar o seu estertor,
aniquilar o amor, destruir a esperança,
tudo o que é caro à vida, à morte dar -
é a morte que nos quer deixar de herança,
escrevendo nas cinzas da paisagem:

Aqui jaz o capital.
Em sangue amanhecido,

em sangue anoiteceu;
fez todo o mal que pôde -
só então morreu

 

 

(in A Poesia Deve Ser Feita Por Todos , versão revista.Desenho de Dorindo Carvalho)

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 16:30
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ARGONAUTAS

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António Mão de Ferro

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