Pintura de GEORGES BRAQUE
Os Violinos
O arranque vibra
ao som das cordas brancas
soltando a harmonia
de sombras solitárias espelhadas no céu
entre satélites.
Os arcos riscam ondas de luz
ao espírito de coros conventuais.
Os primeiros violinos
espalham suspiros de vento
evadido de um tempo gotejante.
Cinzento e leve
percorre as abóbadas do universo
fecundando a multiplicação dos séculos
na busca de perpétua fantasia
sublime e mística.
Dedos pisando as cordas,
vibrações expandidas,
soltas, vivas.
A voz noturna chama .
Os segundos violinos,
batendo os arcos como asas
em vibratórios movimentos
largam no ar um fio melódico
de vestes brancas
à procur da revelação das notas certas.
Tocam a alegria dourada
dos girassóis dançando pelo corpo.
Vigor da existência
paixão e esperança
beleza encantadora das cordas
que depositam paz nos corações.
Um espaço
um silêncio de braços
um gesto de compasso.
Subitamente
todos sobem o rio das ninfas musicais,
entre fontes de amor
e beijos de amantes nupciais.
Num hino superior
os violinos tornam-se senhores
das emoções hunanas plantadas
pela terra.
Som majestoso este
ao encontro dos corações
onde jazem
pecados encardidos de o serem.
tristeza e vozes em clausura
agora libertas pelos violinos
que procuram virtudes incógnitas
no superior sentido do destino.
E assim termina a partitura!
(inédito)
Com este poema de Ana Hatherly, damos início a uma nova série de poesia matinal - A POESIA E A MÚSICA, poemas em língua portuguesa onde a música seja tema dominante. Nesta série, publicaremos poetas argonautas e poetas consagrados. As ilustrações, sempre que possível, terão o nome do autor.
A casa onde nasceu Beethoven
Tem quatro pisos
Mas é pequena e triste:
Em 1999
Está cansada.
O soalho range perigosamente
Quando passam os turistas
Que caminham lentos
Um tanto receosos.
A um canto
Dois pianos da época
Encostam as suas caudas
Timidamente
Temerosos de algum
Não desejado contacto.
Em todos os andares
Nas paredes
Há velhos retratos
E em vitrines
Algumas velhas partituras
Jazem sonolentas.
Fazendo pendant
Com os aparelhos de ouvir
Estão as lunetas embaciadas
Do Mestre.
A casa está vazia
Porque o Mestre
Não está.
Só no jardim
Paira ainda
No leve murmúrio da folhagem
Uma inaudível voz
Um som longínquo
Que ressoa dentro
Chico Buarque (1944)
Construção
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague.
Sérgio Godinho (1945)
As horas extraordinárias
Foi a saudade do teu braço
e o olhar que já da luz me dói
trabalhei sem dar p´lo cansaço
horas extraordinárias, foi
um dia que passou num furacão
um furacão que se amainou, só
quando, aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias
E assim que volto ao meu lugar
reencontro com dor e com prazer
o coração que fiz falar
à máquina de escrever, a ver
ela a dar corda à máquina de amar
e um coração a se amainar, só
quando aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias
Miguel Macedo (?)
São mãos que trabalham
São mãos que trabalham.
São os homens que puxam barcos, guiam máquinas, arrancam pedras, martelam
nas ruas.
Estas mãos têm dores.
As mãos com feridas têm saudades da água fresca, das flores, da língua dum
cão, das penas dum passarinho.
Os homens destas mãos são tristes. Têm fome, têm sede, gostavam de acordar
num dia a descansar de manhã à noite.
Gosto muito das mãos das pessoas que trabalham.
Estas mãos fazem lembrar um coração com susto.
–
(A Criança e a Vida, Maria Rosa Colaço, ITAU, 1969)
LVCÍADAS
Canto a Irmã LvCIA Os bispos barrigudos Os santos pós-modernos e os santos recLvsos A ConVersão da Rússia As virgens inDecentes Canto a lvcidez da populaça lvsa Que veste roupa branca sobre a CUeca suja e deu a Volta ao Orbe Por razões eVidentes Canto a ImaCUlada e os canhões da NATO Os mercados abertos A Terra ao desbaRato Os heróis dos estádios e os votos deMentes Canto o iLustre peito da SenhOra do Leite Tudo que uma maDona (sem fornicar) deLeite Num país de varões ImortAis e valEntes Canto esta Casa Pia de infantes e espumas A cruz das caraVelas nas procissões noctUrnas As lvcidas donzElas apalpadas por crentes Canto Outra Cruzada A Nova Cristandade A da Pomba da Paz da ocidental jihad Pregando no deserto com armas e seMentes Canto a Fé no Petróleo Os segredos da CIA O Século dos USA e o Mês de Maria A riqueza das pátrias e almas indiGentes Canto esta Lvcitânia de laraAnjas e rosas De banqueiros-templários e de monjas manhosas Os venERAndos mestres dos nossos diriGentes
Cantemos o Adeus
Cantemos o Ave
Nesta EurOpa Sem Deus
Neste Mundo Sem Fé
(in Seara de Vento, 2007)
Sempre Galiza!
Manuel Maria (1929-2004)
O labrego
Un labrego tan só é unha cousa
que case non repousa.
Da sementeira a seitura,
pasando pela cava,
a súa vida é moi dura
e moi escrava.
Sempre trafegando,
arando,
sachando,
malhando,
gadanhando,
percurando o gando.
Sempre a olhar pró ceo
com medo e com receo.
Sempre a sementar ilusión
ponhendo na semente o corazón
pra colheitar probeza e mais tristura.
Dilhe ao labrego da beleza
da campía,
da súa fermosura
e poesia.
Dírache que sí,
que a beleza pra tí.
Pró labrego é o trabalho
o andar tocado do caralho,
o pan mouro i o toucinho.
(Múdanse de calzado ou de traxe
cando van de viaxe,
de feira ou de romaxe
e xantan, eses días, pulpo e vinho);
os eidos ciscados, minifundiados
que quér decir atomizados);
o matarse sachar de sol a sol
pra lograr seis patacas
com furacas,
catro grãos de centeo i unha col;
o dobregarse sobor dos sucos
pra pagar gabelas e trabucos;
o vivir entre esterco i animales
en chouzas case inhabitabeles.
I aguantar, aguanta e aguantar,
Agardando morrer pra descansar.
Millôr Fernandes (1923-2012)
Poeminha sobre o trabalho
Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.
( in "Pif-Paf")
Quatre Barres
Joaquim Horta (Barcelona, 1930)
HOME AMB ESPERANÇA
Acabarem algun dia, potser demà,
amb les paraules inútils i boniques,
el dring de la porcellana fina,
i les marionete de foscos colors.
I ensenyarem als fills, parits sense dolor,
el com i el perquè de cada cosa,
i els baixarem al carrer, sense temor,
i jugaran a construir pobles.
I tocaran la terra,
i la faran seva i de tots,
i escriuran, amb nous mots,
noves lleis, història i vida.
També vindrà un vaixell de vela àgil,
esquivant tempestes i roques altives,
i s'endurà tot l'or de la terra, mites i falsos déus,
i ens deixarà quieta la mar, i una barca petita.
Anb ella anirem a saludar els pobles,
a l'espatlla un sarrío amb eines i amb llibres,
als ulls un esclat d'alegria,
i creurem en els homes i en els dies.
(um poema de Paraules per a no dormir, 1960)
José Gomes Ferreira (1900-1985)
O Suor dos operários
O suor dos operários
sujos de trabalho e sol
engrossa a argamassa
conclui a cal.
E os tijolos?
Que sangue os trespassa?
Não o meu
que, enquanto os outros agem,
fica nas urzes que piso.
Quando chego,
dou os bons-dias,
dou as boas-tardes,
construo nuvens de casas no céu
com novos horizontes,
espreguiço-me, bocejo no sorriso,
e atiro os olhos para a paisagem
que por momentos pairam
sobre as águias dos montes
«ó Sintra de Lorde Byron!»
Entretanto,
os pedreiros, já sem o rigoir de juntar as pedras,
não perdem tempo como eu
a tange a lira de Orfeu
para construir uma mulher
de sombra eterna.
Preferem a intimidade
de uma Eurídice provisória qualquer
- harpa de suor,
leite de sonho efémero.
(Obra Poética)
Urbano Tavares Rodrigues (1923)
Mulheres do Alentejo
Mulheres do Alentejo
Com papoilas nos olhos
São primaveras erguidas
Contra os bastões contra as balas
Oculto o rosto
Seus negros chapéus descidos
Frene ao sol
O claro choro nas mãos
Com bagos de amanhã.
São cor de terra
Cor de trabalho
Cor da habituação à dor.
Nossa Pátria do sofrimento
E do valor
Meu sinal de luz
Em toda a palavra que escrevo
Meu território do regresso e do futuro
Minha praia de secura
Percorrida pelo ódio e pelo pânico
Eis o ardente povo torturado
Esperança viva de um sonho feito carne
Mulheres searas fontes azinheiras
Nossa esperança, ainda em flor e fruto
No vermelho das feridas deste País de Abril
Casimiro de Brito (1938)
Memória do Primeiro de Maio
Um país iluminado por ruínas nunca repousada
Em teus olhos cegos subitamente
Rasgados / um país distendido
Entre velha colónias emancipadas
No ardor da guerra / um povo libertando-se
Do seu ovo de silêncio amoras cifrado & usura –
Tubérculo apodrecido
D’onde foi banido
o dente cariado da ditadura
O mar foi o mar na praça pública a luxuriante
Vegetação / a festa solar / a luz crua
Do exílio e da morte / o espectáculo
De um povo (águas
D’abril) a quem foi devolvido
O dom da fala / a mística
Da revolução. Ouve-se
Por toda a cidade
grande coral da liberdade
(Labyrinthus, Lisboa, 1981 e Poemabril, 2ª edição, 1994)
.
D. Dinis (1261-1325)
Levantou-s'a velida
Levantou-s´a velida,
levantou-s´alva
e vai lavar camisas
em no alto,
vai-las lavar alva.
Levantou –s´a louçana,
levantou-s´alva,
e vai lavar delgadas
em no alto,
vai-las lavar alto.
Vai lavar camisas,
levantou-s´alva,
o vento lhas desvia
em no alto,
vai-las lavar alva.
E vai lavar delgadas,
levantou-s´alva,
o vento lhas levava
em no alto,
vai-las lavar alva.
O vento lhas desvia,
levantou-s´alva,
meteu-s´alva em ira
em no alto,
vai-las lavar alva.
O vento lhas levava,
levantou-s´alva,
meteu-s´alva em sanha
em no alto
vai-las lavar alva.
Maria Rosa Colaço (1935-2004)
Para um operário da Lisnave
Sou um operário!
Amarra certa
neste cais de angústia
Olho o casco azul
de um navio do mundo
sonho por momentos
com viagens que nunca farei.
Sem trabalho
aqui estou frente ao Tejo
Mas permaneço
vigilante.
(O Trabalho - antologia poética)
Joaquim Namorado (1914-1986)
Port-wine
O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.
O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.
Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.
O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
Poema para a padeira que estava a fazer pão
enquanto se travava a batalha de Aljubarrota
Está sobre a mesa e repousa
o pão
como uma arma de amor
em repouso
As armas guardam no campo
todo o campo
Já os mortos não aguardam
e repousam
Dentro de casa ela aguarda
abrir o forno
Ela tem mão que prepara
o amor
Pelos campos todos armas
não repousam
nem aguardam mais os mortos
ter amor
Sobre a mesa põe as mãos
pôs o pão
Fora de casa o rumor
sem repouso
Lá de fora entram armas
os homens
As mãos dela não repousam
acolhem
Sobre a mesa pôs o pão
arma de paz
Contra as armas de batalha
arma de mão
Contra a batalha das armas
não repousa
Caem contra a mesa os mortos
contra o forno
Outra paz não defende ela
que a do pão
Defende a paz que é da casa
a das mãos
Ruy Belo (1933-1978)
Emprego e Desemprego do Poeta
Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia
Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar
Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão
Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos
(Aquele Grande Rio Eufrates)
O Primeiro de Maio
Vão pela rua larga, a dar a curva
Um homem alto, uma mulher baixa
Uma linda rapariga, que a vista não turva
Uma senhora gorda, o braço nela encaixa
Lado a lado marcham e cantam alto
Amanhã vou para o trabalho
Que é verdade que nunca falto
Mas um dia vão saber quanto valho
Comigo somos mais de um milhão
Hoje aqui contentes, alinhados
Ouçam todos bem a nossa canção
E lembrem-se que num dia então
Havemos de ficar todos parados
À chuva, ao sol, com vento agreste
A nossa marcha faz girar o mundo
Por todo o firmamento celeste
E navegar pelo mar sem fundo
Ouçam lá nos vossos altos impérios
Como é forte o som da nossa marcha
Ponham os vossos semblantes sérios
Que não paramos do Marquês até à Baixa!
(Desenho de Dorindo Carvalho)
O sol quando nasce…
Primeiro
Único
Verdadeiro
Maio acordado
Penoso
Duro
Forçado
Floresta de braços e abraços
Festa dor do Maio primeiro
Carne e alma
Seio fecundo
Onde corre o leite que alimenta o mundo
Ir e voltar
A ir e a vir
Noite e dia
Penoso caminho da vida inteira
Para prender um braço de sol
Entre mãos crispadas
Calejadas
Calor que os filhos aquece
Calar da fome que os adormece
Luta que não esmorece
Na esperança de outros sóis
Medos e canções de Maio
Maio de sempre
No fundo dos corações
Terra vida
Vida de todos que amam a terra
Na palma da mão
Aberta e solidária
Festa da alegria
Maio dor e lágrimas
Nunca Maio da agonia
Sol inteiro roubado
Sol do acordar de Maio
Incandescente
Que o sol será de todos
Maio de sol nascente
O monstro agoniza, o hálito apodrece,
roubando à primavera o claro rosto,
a carne canceriza e a mão estremece,
mas mata, mata sempre o seu punhal,
pois quer como sudário o próprio mundo.
Moribundo o chacal, com o grito inunda
a terra de destroços incendiando o vento;
o corpo já vacila, o olhar escurece,
mas mata, mata sempre a sua lâmina,
pois quer como mortalha as nossas vidas.
A boca é uma cratera de pasmo e pus,
em raiva e em argila os pés afunda,
as flores esmaga no mortal orgasmo,
e mata, mata ainda o seu gládio –
toda a luz quer devorar o seu estertor,
aniquilar o amor, destruir a esperança,
tudo o que é caro à vida, à morte dar -
é a morte que nos quer deixar de herança,
escrevendo nas cinzas da paisagem:
Aqui jaz o capital.
Em sangue amanhecido,
em sangue anoiteceu;
fez todo o mal que pôde -
só então morreu
(in A Poesia Deve Ser Feita Por Todos , versão revista.Desenho de Dorindo Carvalho)
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
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Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
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