Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
Com a revolta na voz
 

Hoje, na Praça da Revolta, a indignação, a revolta, a exortação à luta, são cantadas - em primeiro lugar o padre Mário da Lixa vai cantar com letra sua, uma canção que Paco Ibñez compôs para o o poema de Gabriel Celaya - "La poesía es un arma cargada de futuro" - "Faz da tua casa uma trincheira", assim se chama esta intervenção vigorosa de Mário de Oliveira, uma das mais recentes entradas na tripulação desta nossa Argos:

 

 
"Vemos, ouvimos e lemos" por Francisco Fanhais, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen. Todos conhecemos esta canção de resistência antifascista, mas vamos ouvi-la agora, num contexto social em que volta a fazer muito sentido:
 

 

 

E  terminamos por hoje com  "Y ahora me pides el voto", com letra, música e interpretação de Diego Escusol, uma das vozes do M15:

 



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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
Perspectivas negras – por Júlio Marques Mota

Hoje a Praça da Revolta fica entregue a Júlio Marques Mota que, como sabemos é Professor de Economia. Foi-lhe pedida uma abordagem não profissional, a opinião do cidadão. O que fez. Porém, o cidadão é um professor e, no seu testemunho, é  evidente o saber do académico. É um belo artigo.

 

Fiz uma nota de entrada para um texto extraordinário de François Morin. Dada a sua qualidade, não fui capaz de falar do texto em questão, e limitei-me a referir um ou outro pormenor sobre CDS, sobre o que agora vamos pagar. E o nosso serviço da dívida passará no próximo ano de 6 mil milhões de euros qualquer coisa como 8 mil milhões, com a nossa taxa de crescimento ainda por cima negativa. Isto representa a massa total dos ordenados da função pública. Nessa entrada (que será publicada a seguir) mostra-se como é que essas taxas de juro a pagar, que reflectem estes juros que para o ano iremos pagar , são elas formadas, formadas nos tais mercados onde o Passos Coelho nos quer rapidamente afundar. As consequências são as que se apresentam numa síntese dos cortes. Que aqui coloco:

 

Cortes

 

“ Os ministérios da Defesa, Segurança Social, Saúde e Educação têm cortes nos orçamentos para 2011 superiores a 10% face ao valor estimado para este ano, segundo a proposta do Orçamento do Estado hoje divulgado.

 

 De acordo com o documento, o Ministério da Saúde lidera os cortes na despesa consolidada para 2011 com um decréscimo de 12,8%, dos 9.818,88 para os 8.563 milhões de euros, o que será possível através das "medidas de contenção propostas, bem como dos ajustamentos decorrentes da aplicação de cativos, com especial relevo na dotação do Sistema Nacional de Saúde que sofreu uma redução de 6,4%".

 

O Ministério da Educação é o segundo mais atingido com cortes no Orçamento para 2011, que sofre um decréscimo de 11,2% face à estimativa para este ano, para os 6.391,1 milhões de euros.

 

"A diminuição verificada no subsector do Estado resulta do efeito conjugado da aplicação das medidas generalizadas de redução de despesa, da poupança que se pretende atingir pela aplicação das cativações previstas na lei, bem como das medidas de política sectorial implementadas e a implementar", esclarece o documento.

 

O orçamento consolidado do Ministério da Defesa Nacional para 2011, de 2.145,1 milhões de euros, representa uma diminuição de 11,1%, "devido às medidas de contenção da despesa em resultado da redução dos encargos com os salários e outros abonos".

 

 O Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social tem menos 10,4% para gastar em 2011 face à estimativa para este ano, uma redução de 902,2 milhões de euros, o que reflecte ajustamento por aplicação dos cativos previstos na Lei do OE para 2011 e o impacto, em termos relativos, das medidas de contenção de despesa propostas, com especial incidência na redução das despesas com pessoal.

 

 Os ministérios da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, dos Negócios Estrangeiros e da Justiça também vão ter cortes no Orçamento de 2011, de 3,2%, 8,2% e 5,6% respectivamente, face aos valores estimados para este ano.

 

“ Adicionemos a este quadro negro, muito negro mesmo , de que muitos dos viajantes irão falar, adicionemos pois as outras perspectivas negras que aí vêm quanto aos bens alimentares e cito um outro texto que por este blog vai aparecer:

 

 A ameaça de uma nova crise alimentar é já uma realidade. O preço dos alimentos começou a subir para níveis recordes uma vez mais, de acordo com o Índice de Preços da FAO de Fevereiro de 2011, que faz uma análise mensal dos preços globais de um cabaz de bens básicos composto de cereais, óleos de sementes, produtos lácteos, carne e açúcar. O índice chegou a um novo máximo histórico, o maior desde que a FAO começou a estudar a evolução dos preços dos alimentos em 1990. Nos últimos meses, os preços estabilizaram, mas os analistas prevêem ainda mais aumentos nos próximos meses.

 

Este aumento do custo dos alimentos, especialmente dos cereais básicos, tem sérias consequências para os países do sul com baixos rendimentos e com uma dependência da importação de alimentos, e para milhões de famílias que nesses países dedicam entre 50 e 60 por cento dos seus rendimentos para a compra de bens alimentares, uma número que sobe para 80 por cento nos países mais pobres. Nesses países, o aumento do preço dos produtos alimentares torna-os inacessíveis.

 

Estamo-nos a aproximar de um milhar de milhões de pessoas - uma em cada seis pessoas não tem hoje acesso a uma alimentação adequada. O Presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que com a actual crise alimentar tem aumentado o número de pessoas que sofrem de fome crónica calculado esse aumento em cerca de 44 milhões. Em 2009, esse número foi ultrapassado, atingindo 1,023 mil milhões de pessoas subnutridas no planeta, um número que desceu ligeiramente em 2010, mas sem regressar aos níveis de antes da crise alimentar e económica de 2008 e 2009.

 

A crise actual desenrola-se num no contexto de uma abundância de produtos alimentares. A produção de alimentos tem-se multiplicado ao longo das três últimas décadas e desde os anos sessenta, enquanto que a população mundial apenas terá duplicado desde então. Há uma enorme abundância de alimentos. Ao contrário do que instituições internacionais como a FAO, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio têm andado a dizer, não se trata de um problema de produção, mas sim de um problema de acesso aos alimentos. Estas organizações pretendem que haja um aumento da produção através de uma nova revolução verde, que só irá tornar as crises alimentares , ecológicas e sociais ainda piores. (1)

 

Simples, portanto os dados da equação. Os pobres deste país, e serão agora mesmo muitos mais, começarão a ficar completamente espalmados, sem emprego, sem dinheiro, sem apoios sociais e com os preços de tudo, até a alimentação a disparar, vão viver uma vida de inferno e de tal modo será que à face deste país, deste governo, das suas determinações, os vai forçar a viver paredes meias com a miséria e também com a marginalidade. Esta enquanto que individual, é passível de prisão, mas quando colectiva é ela expressão de revolta e caminho possível para a revolução. Chegados aqui, tudo é possível. Nem quero imaginar.

 

Deixem-me citar aqui um cartaz dos Indignados em Madrid:

 

When injustice becames law, resistance becames duty!

 

_____________

 

1 - Esther Vivas. Americas Updater, Vol.9. No.13, The Food Crisis Strikes Again, disponível em CIP Americas Program www.cipamericas.org.



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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
Nazim Hikmet – um poeta no coração do seu povo – por Carlos Loures

(Publicado em Estrolabio com pequenas alterações)

 

Em 1943, em plena Guerra Mundial, um jovem investigador turco chegou a uma aldeia isolada numa região montanhosa e descobriu que as canções de um grande poeta que ali recolheu, as quais «enterneciam as mais altas montanhas e os mais duros rochedos», supostamente um poeta popular muito antigo, eram afinal de um poeta contemporâneo. No entanto, os camponeses afirmavam que já seus pais e avós sabiam aquelas poesias. Como podia ser? Sem jornais, sem rádio, com a povoação mais próxima a 14 horas de marcha, como chegaram os versos de Hikmet a tão recôndito lugar e se instalaram de maneira tão profunda entre os hábitos ancestrais dos aldeãos?

 

 

 

Nazim Hikmet Ran nasceu em 20 de Novembro de 1901 e morreu em 3 de Junho de 1963. Foi o mais importante poeta turco do século XX. Veio ao mundo em Salónica, na altura integrada no Império Otomano, e foi membro do TKP (Partido Comunista da Turquia), sendo desde muito jovem perseguido pela polícia do sultão. Entre 1922 e 1925, esteve exilado na União Soviética, completando os seus estudos em Moscovo. O advento da Revolução turca de Mustafa Kemal Atatürk, em 1923, não melhorou a situação do poeta, mantendo-lhe a condição de proscrito. Só este em 5 de Janeiro de 2009, quase 46 anos após a sua morte, o governo de Ancara aboliu por decreto a decisão que em 1951 retirara a nacionalidade turca ao grande poeta. Mas voltemos a 1943 e ao trabalho do folclorista universitário. A aldeia a que acabava de chegar, era um aglomerado de quarenta casebres, com tectos de terra batida. Os aldeãos viviam em condições de extrema pobreza. Como já disse, a povoação mais próxima ficava a 14 horas de marcha, por acessos difíceis, estreitos carreiros talhados no flanco das rochas. Na aldeia, uma rapariga disse saber «belas canções de um grande poeta, com força para «enternecer as mais altas montanhas e os mais duros rochedos». E a jovem começou a recitar versos que o investigador se apressou a anotar no seu bloco de apontamentos.

 

Ao cabo de momentos, foi tomado de uma grande surpresa – os poemas que a camponesa sabia de cor, eram versos de Nazim Hikmet. – Quem foi o poeta que compôs estas canções? - perguntou aos aldeãos. - «Foi um grande poeta» - responderam -«Os seus versos são mil vezes por nós repetidos. Os nossos pais e os nossos avós já os cantavam também. Vieram-nos dos nossos antepassados. Como podemos saber quem os escreveu?»

 

O jovem investigador ficou estupefacto. Como era possível que os poemas de Nazim Hikmet, escritos poucos anos antes, tivessem podido chegar até àquela longínqua aldeia da Turquia asiática e enraizar-se no coração dos seus habitantes, misturando-se com as odes dos bardos tradicionais da Turquia – o legendário Korkout e o sublime Younous? Um dos poemas recitados pela jovem aldeã tinha sido escrito escassos anos antes numa cela da prisão de Brousse. Como era possível Hikmet misturar a sua voz com as obras dos velhos cancioneiros populares?

 

 Voltou por diversas vezes à aldeia para tentar decifrar o enigma, mas recebeu sempre a mesma resposta: «- É um grande poeta, um grande homem. Recebemos os seus versos dos nossos pais, que os receberam dos seus pais…» Nunca conseguiu descobrir como os poemas de Hikmet viajaram até àquela aldeia e se incrustaram entre a poesia ancestral.

 

Devo acrescentar que a modernização da língua turca muito deve a Hikmet. Os grandes mestres estavam mergulhados num total esquecimento.

 

Ninguém descobrira que o turco podia ser uma linguagem poética, literária no melhor sentido e, ao mesmo tempo, terna e vigorosa. Foi Hikmet que lhe conferiu essa característica ao abandonar cânones empolados, só entendidos por eruditos, e ao adoptar a linguagem do povo, vinculada à sua realidade quotidiana, ao trabalho, à rudeza da vida. O poeta em particular, e o escritor em geral, têm de estar no cerne da vida. Hikmet compreendeu isso e rapidamente ganhou um lugar no coração do seu povo, lugar mais importante do que mil cadeiras de academias. Como um subtil, mas impetuoso, lençol subterrâneo de água, impregnou a alma do povo turco.

 

Esta a única explicação para o folclorista surpreendido, sem compreender como é que aquela gente ignorante, analfabeta na sua maioria, recitava poemas que estavam proibidos. Por aqueles anos 40, a posse de um texto de Hikmet dava direito a uma pena de cinco a dez anos de prisão, a sevícias e a tortura. Numa outra escala, numa outra realidade, apesar de tudo menos dramática, não foi isto que se passou em Portugal com as canções de José Afonso? Muitas pessoas sem cultura ou consciência política cantavam as suas canções e recitavam os seus versos. Por exemplo, a sua canção sobre Catarina Eufémia valeu por milhões de panfletos e jornais clandestinos. Quantas mulheres, entre os 30 e os 40 anos, se chamam hoje Catarina? Homenagem, em muitos casos inconsciente, de seus pais ou padrinhos à ceifeira assassinada no Baleizão. Nem a repressão policial, nem os elitistas preconceitos intelectuais, conseguem fechar o coração de um povo à poesia, à música, à arte com que a sua alma se identificar.

 

Muito do que o hoje se celebra como grande literatura, por exemplo, morrerá logo que se extingam os temporais conceitos que servem de pedestal a essa suposta grandeza. Só sobreviverá o que for genuíno e intemporal. Foi assim com Nazim Hikmet. E, entre nós, Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Fernando Pessoa, não terão, também eles, descoberto a subtil chave para os nossos corações? Será por isso que perduram?

 

Acho que sim.



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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
A última lição de Unamuno - Faz hoje 75 anos - Carlos Loures

 

No dia 12 de Outubro de 1936, Salamanca, uma das mais belas cidades de Castela, foi cenário de um drama. Um

entre milhares dos que, por aquela época Espanha foi cenário. Quando a Guerra Civil foi desencadeada, de 17 para 18 de Julho, com o desembarque do Exército de África, Salamanca foi tomada pelas tropas rebeldes no dia 22. A cidade transformou-se na capital provisória, com a instalação de ministérios e das sedes de organizações falangistas.

 

O reitor da Universidade, Miguel de Unamuno, defendeu inicialmente a sedição contra a República, fazendo um apelo aos intelectuais europeus para que apoiassem a rebelião. A sua adesão ao movimento foi breve. A repressão criminosa à solta pela cidade, os fuzilamentos sumários, depressa o puseram contra a barbárie fascista. Os intelectuais eram presa apetecida pelos falangistas – e fácil, pois em geral não eram de grandes resistências.

 

Às armas, opunham às vezes belos e corajosos discursos que provocavam gargalhadas aos imbecis das camisas azuis, discursos que muitas vezes eram cortados a meio pelo ladrar das espingardas. Em fins de Julho, nos bolsos do reitor amontoavam-se cartas de familiares e de amigos, de colegas e alunos seus presos – professores, escritores, jornalistas, artistas, pedindo-lhe que usasse a sua influência para livrar os entes queridos da morte. Unamuno foi, no início de Outubro, ao paço episcopal, onde Franco estava a residir e instalara o seu posto de comando, suplicar clemência para os amigos. Em vão, pois todos iam sendo executados.

 

Unamuno já não acreditava naquela gente e arrependeu-se de a ter apoiado com o seu prestígio de figura mundialmente conhecida, espantando e desiludindo a intelectualidade internacional que, salvo raras excepções, condenou o golpe militar fascista contra a República. Foi-se apercebendo, dia a dia, do horror que alastrava por Espanha.

 

Em 12 de Outubro, decorreu na sala dos actos (o «paraninfo») da Universidade a abertura solene do ano académico. Unamuno, acabrunhado, decidira não falar e tomava apontamentos enquanto os discursos «patrióticos» se sucediam. De súbito, pôs-se de pé. As palavras brotaram-lhe de um jorro, como um impetuoso rio de lava: «Falou-se aqui de guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu próprio o fiz. Mas não, a nossa é apenas uma guerra incivil. » (…) «Vencer não é convencer e é preciso convencer, principalmente, e não pode convencer o ódio que não deixa lugar para a compaixão. Falou-se também de catalães e bascos, chamando-lhes anti-Espanha; pois bem, com a mesma razão podem eles dizer o mesmo. E aqui está o senhor bispo, que é catalão, para vos ensinar a doutrina cristã que não quereis conhecer, e eu, que sou basco, levei toda a minha vida a ensinando-vos a língua espanhola, a qual não sabeis…»

 

Nesta altura, o general Millán-Astray, que odiava Unamuno, que o acusara de corrupção, começou a gritar «-Posso falar? Posso falar?» A sua escolta puxou das armas e alguém entre o público gritou - «Viva a morte!». O general derramou todo o seu estúpido rancor, designando a Catalunha e o País Basco como cancros de Espanha. Contudo, acrescentou, o fascismo redentor de Espanha iria exterminá-los cortando em carne viva como um frio bisturi. Estava tão enraivecido que ficou sem voz. Ouviram-se então diversos vivas a Espanha. Fez-se um silêncio absoluto e mortal.

 

Os olhos voltaram-se para Unamuno. Erguendo-se, este proferiu um discurso que seria a sua derradeira lição, a sua lição magistral: «Conheceis-me bem e sabeis que não sou capaz de ficar em silêncio. Por vezes, ficar calado é o mesmo que mentir, pois o silêncio pode ser interpretado como aceitação» (…) «Acabo de ouvir o grito necrófilo e insensato de “Viva a morte!” Isto soa-me igual a “Morra a vida”. E eu que passei toda a vida a criar paradoxos que provocaram a reprovação e o enfado daqueles que os não compreenderam, tenho de vos dizer, com autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Uma vez que foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que foi a ele dirigida, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele próprio é um símbolo da morte. E outra coisa. O general Millán-Astray é um inválido. Não é preciso que o diga em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Porém os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, hoje em dia há demasiados inválidos. E depressa haverá mais se Deus não nos ajudar. Custa-me pensar que o general Millán-Astray possa ditar normas de psicologia de massas. Um inválido que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem, não um super-homem, viril e completo apesar das suas mutilações, um inválido, como disse, que não possua essa superioridade de espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em seu redor» (…)«O general Millán-Astray gostaria de criar uma Espanha nova, criação sem dúvida negativa, à sua própria imagem. Por isso ele desejaria uma Espanha mutilada».

 

Millán-Astray que entretanto recuperara a voz, rugiu: «Morra a inteligência!». Unamuno respondeu-lhe com a serenidade de quem se sabe perdido: «Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vós estais profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta no meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque tendes força bruta de sobra; mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de uma coisa que vos falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha».

 

Carmen Polo, a mulher de Franco, deu o braço Unamuno e acompanhou-o até sua casa, protegendo-o da fúria dos falangistas. O marido censurou Millán por não ter executado o professor logo após o seu discurso. Houve quem propusesse a sua expulsão do cargo de reitor, acusado de tudo, o que da perspectiva fascista era condenável. Em 22 de Outubro Franco assinou o decreto da destituição. Prisioneiro em sua casa, deu uma entrevista ao escritor e filósofo grego Nikos Kazantzakis (1883-1957) em que, em certo passo, afirmou: «Um dia, em breve, levantar-me-ei, e lançar-me-ei na luta pela liberdade, eu sozinho. Não, não sou fascista, nem bolchevista; sou um solitário».

 

Morreu em sua casa em 31 de Dezembro de 1936, de doença súbita.

 

Apesar de tudo o que se tinha passado e de praticamente o terem mantido sob prisão domiciliária, os falangistas fizeram-lhe um funeral exaltante, como se em vida ele tivesse sido um deles. Morto, já não os podia desmentir nem afrontar. Ortega y Gasset escreveu: «A voz de Unamuno ecoava sem parar por toda a Espanha há um quarto de século. Ao cessar para sempre, temo que o nosso país sofra uma era de silêncio atroz». Não se enganou – o «silêncio atroz» iria durar até 1975 e os seus ecos, traduzidos na herança que o regime democrático recebeu do fascismo, ressoam ainda na imposição de uma Espanha «Una» que sufoca a liberdade na Catalunha, no País Basco e na Galiza.



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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011
A PIDE e os métodos de tortura - 3 - por Carlos Loures

 

 

No texto anterior referi a morte de José Dias Coelho. José Afonso em «A Morte Saiu à Rua» é a esse assassínio que se refere. É uma canção de uma beleza arrepiante.

 

José Dias Coelho, era um artista plástico com prestígio firmado. Militante e funcionário do Partido Comunista Português, dedicara uma gravura à camponesa alentejana Catarina Eufémia, assassinada a tiro por um oficial da GNR, em 1959. E, noutra gravura que criara em homenagem ao operário corticeiro Cândido Martins Capilé assassinado em Novembro de 1961 quando seguia na frente de uma manifestação em Almada, Dias Coelho escrevera a legenda - De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas.

 

Um mês depois, no dia 19 de Dezembro de 1961, chegou a sua vez.

 

Seguia pela Rua dos Lusíadas, em Alcântara, eram cerca das oito da noite. Um carro parou bruscamente e cinco agentes da PIDE saltaram do interior, cercaram Dias Coelho e desfecharam-lhe três tiros à queima-roupa. Levaram-no no automóvel, e devem-no ter torturado para tentar obter alguma informação.

 

Cerca das dez da noite, entregaram-no, agonizante, no Hospital da CUF.

 

Todos estes acontecimentos se sabiam. Circulavam panfletos policopiados narrando-os. Quando alguém era preso, para além de tudo o que lhe ia acontecendo nos interrogatórios, havia essa sobrecarga de histórias sinistras, mas verdadeiras. Quem estava preso sabia que podia não sair dali vivo. Durante a tortura do sono, horas, dias a fio sem dormir, havia tempo para pensar em tudo isso.

 

Antes da «tortura do sono», que, como o nome indica, consistia em deixar o paciente sem dormir até «confessar», houve a «estátua» que, à insónia forçada, juntava a imobilidade também forçada. Os «cientistas» policiais parecem ter descoberto que a imobilidade produzia um desgaste físico acelerado e que na nova modalidade, podendo mover-se, os presos aguentavam mais enquanto, privado do sono durante mais tempo, o cérebro se cansava e a capacidade mental de resistir também.

 

Lembro um estudante de Agronomia que esteve 21 dias sem dormir e que sendo deficiente motor (poliomielite) foi obrigado pelos agentes a dançar a Kalinka… Mesmo assim, não terá sido um recorde.



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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
101 anos de República - por Carlos Loures

Hoje falarei de uma "Revolta" de há 101 anos:
 

Às 9 da manhã do dia 5 de Outubro de 1910, a bandeira da República foi içada na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. José Relvas fez a solene proclamação do regime e a nova insígnia nacional subiu no mastro perante uma multidão que no Largo do Pelourinho (ou do Município) aclamava a República Portuguesa.

 

Lisboa e Porto, as duas principais cidades do País, eram maioritariamente republicanas e esse factor foi decisivo para o êxito do movimento. Num país com 80% de analfabetos, as elites culturais eram também, na sua maioria, pelo fim da Monarquia. Porém, nem só os republicanos contestavam a situação do País. Existem hoje provas de que o Regicídio, embora levado a cabo no terreno por carbonários republicanos, foi organizado por monárquicos, também eles carbonários. O afastamento de D. Carlos, nem que fosse pela supressão física, e a queda da ditadura de João Franco, eram objectivos centrais para esses monárquicos. E ainda que para tal houvessem que suportar a proclamação da República, seria depois fácil derrubá-la e reimplantar a Monarquia. Pensavam eles.

 

 

 Desde 1890, com a humilhante cedência perante o ultimato britânico, a instituição monárquica sofrera um rude golpe. Desde as comemorações camonianas de 1880, o ideal republicano vinha-se impondo entre grande parte da população, mercê de uma propaganda bem organizada e que aproveitava todos os pretextos, para demagógica, mas certeiramente ir debilitando a credibilidade do regime.

 

Porém, para lá do ideal político subsidiário da Revolução Francesa de 1789, aceite por uma grande parte dos portugueses, os dislates, na política e na vida pessoal, de D. Carlos foram uma das alavancas para o triunfo da República. Todas as acusações dos políticos republicanos eram confirmadas e sublinhadas por actos e declarações do rei. Se D. Carlos, como pessoa tinha aspectos positivos, nomeadamente na sua prepação cultural, como governante foi um desastre. O seu reinado quase começou com a questão do vergonhoso Ultimato britãnico. Disso não teve culpa. Mas a sua vida privada era tudo menos modelar - amantes, prostitutas, filhos bastardos e gastos excessivos, e, sobretudo, exibições de despesismo num país onde parte significativa da população passava fome. D. Carlos ter-se-á mesmo convencido de que era intocável e de que podia fazer o que quisesse.

 

Uma das apostas dos conspiradores monárquicos era a falta de consenso existente no seio das hostes republicanas. E nesse aspecto, tinham razão, pois os dezasseis anos que durou a I República foram de caos quase permanente. Todos os vícios que afectavam a classe política e que tinham sido, com escândalos sucessivos, um dos principais factores na queda da monarquia, permaneceram intactos. Aos erros dos republicanos e às lutas ferozes entre eles travadas, somou-se a permanente conspiração monárquica. E em 28 de Maio de 1926, embora formalmente se mantivesse, a República caiu. Mas voltemos atrás.

 

Para mim torna-se incompreensível, não o ideal monárquico do qual discordo, mas que respeito como a qualquer outro, mas a série de meias verdades e de mentiras com que os defensores da Monarquia procuram branquear os erros cometidos, as manobras sujas levadas a cabo pelos seus antecessores nesse conturbado período. A primeira grande tentativa de destruir o novo regime foi a de Sidónio Pais. Acabou, como se sabe, com o seu assassínio. A segunda, apoiada no início por democratas que desesperavam com o caos instalado, foi o golpe militar de 28 de Maio de 1926 que, sete anos mais tarde, poria termo à I República e viria a consolidar-se num estado corporativo, autoritário, repressivo – uma versão nacional do fascismo e do nazismo que alastravam pela Europa e pelo mundo. A esse período, de ditadura e de obscurantismo, chamou-se a II República. Com a Revolução de 25 de Abril de 1974, a normalidade democrática voltava e tinha início a III República. Cento e um anos depois da queda de um regime anquilosado, antidemocrático por natureza, muitos dos males que afligiam a Nação, persistem – a qualidade da classe dirigente, a corrupção, a sistemática alienação da independência nacional, faz com que muitos portugueses sonhem com uma IV República onde se consubstanciem as grandes consignas de 1789 - LIberdade, Igualdade e Fraternidade.

 

 

Viva a República! Viva Portugal!

 

 

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Da Monarquia à República em imagens:

As imagens são acompanhadas pelo "Hino da Carta" (hino nacional monárquico) e por "A Portuguesa".

 



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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
A PIDE e os métodos de tortura - 2 - por Carlos Loures
 

 

(Desenho de João Abel Manta) 

O poema «Manhã», de Luís Veiga Leitão, com que encerrava o texto de ontem e o desenho de João Abel Manta com que abro o de hoje, dizem muito sobre o que, no imaginário colectivo, perdura sobre a repressão policial que o Estado Novo exerceu.

 

Para além das visões artísticas que essa repressão suscitou (e que, apesar de tudo, não são tão abundantes como seria de esperar), houve abordagens diversas, mais objectivas, mais isentas de emoção. Escassas também. Entre o que se tem escrito sobre a polícia política do regime ditatorial - que teve três siglas, PVDE, a PIDE e a DGS – destaca-se o já referido trabalho de Irene Flunser Pimentel - A História da PIDE, publicado em 2007.

 

Em torno desta polícia foram criadas lendas e contadas histórias rocambolescas, algumas delas atribuindo-lhe uma eficiência que nunca teve. A PIDE foi uma polícia onde afluía principalmente gente boçal e pouco inteligente. Dir-se-á, mas isso acontecia e acontece com todas as polícias políticas – pessoas bem formadas não aceitam tais tarefas. O que quero dizer é que os torcionários animalescos e estúpidos não eram enquadrados por “crânios”" com os que existiam e existiam em estruturas policiais similares. congéneres.

 

Face aos números encontrados, confirma-se a ideia de que a PIDE não foi tão criminosa como o foram a Gestapo e a sua congénere italiana a OVRA, por exemplo. Nem sequer como a Brigada Político Social que, durante franquismo, estava encarregue de erradicar o comunismo. Conclusão que não serve de grande consolação aos que foram presos e torturados pela polícia políitica portuguesa.

 

Pese embora esta relativa brandura, só no campo de concentração do Tarrafal morreram, até 1945, 31 presos confirmados, embora outros cujos nomes não ficaram para a posteridade tenham morrido ou adoecido durante o cativeiro. Alguns eram libertados moribundos e morriam «em liberdade» em suas casas ou nos hospitais, não contando em termos estatísticos para o rol dos assassinados – embora menos letais do que as suas congéneres, as polícias políticas do Estado Novo mataram uns milhares de concidadãos nossos, cujo crime, na maioria dos casos, era o de não estarem de acordo com a política do regime e de, na sua maior parte, estar organizado clandestinamente para distribuir uns jornais ou organizar uma greve.

 

A luta armada, com a LUAR, as BR e a ARA, só ganhou expressão nos últimos anos da ditadura. Se são do conhecimento geral nomes como o de Humberto Delgado, Dias Coelho, Militão Ribeiro, é preciso não esquecer que houve muitos outros, como o caso do médico António Ferreira Soares, morto a tiro em 4 de Julho de 1942 em frente de uma irmã e de uma criada, do José Moreira que, em 1950, «caiu» do terceiro andar da sede da PIDE, do Raul Alves que em 1957 também «caiu», dos dois presos mortos na delegação do Porto em 1957 – Joaquim Lemos Oliveira e Manuel da Silva Júnior… centenas de nomes.

 

Oficialmente, as mortes deviam-se a suicídios. a quedas acidentais, a doenças cardíacas, etc. Em todo o caso, a historiadora não nos fornece um número total de vítimas. Não é possível encontrar esse número. Suponhamos que à lista dos assassinados em Portugal, queremos adicionar os que foram mortos nas ex-colónias – portugueses e, sobretudo, africanos? – Tudo se complica.

 

As mortes não eram convenientes, davam mau aspecto e, se possível, pioravam a reputação da polícia. Embora nunca se dissesse que as pessoas morriam devido ao que lhes faziam – como já vimos, eram geralmente «suicídios», «acidentes» e «doenças súbitas». Quando os familiares tinham acesso aos corpos, não podiam vê-los.

 

Porque seria?

 

Egito Gonçalves termina o seu poema Morte no Interrogatório («Os Arquivos do Silêncio»,1963), desta forma dramática e irónica:

 

Na sala o interrogatório atravessava o tempo;

lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável,

 

Às três da madrugada o coração fraquejou

E os dois comissários ficaram perante um homem morto

E dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros.

 



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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
A PIDE e os métodos de tortura – 1 – por Carlos Loures

 

 

Os métodos de tortura, da Idade Média aos nossos dias, não mudaram substancialmente. Vamos encontrar em Guantánamo, com nomes diferentes, métodos usados pela Inquisição. A vida humana, há quinhentos anos, por exemplo, valia ainda menos do que vale hoje. Por outro lado, desde 1789, têm vindo a ser aprovados documentos que consagram alguns direitos – ainda que, as mais das vezes, os torcionários os ignorem – nas guerras da segunda metade do século XX, inclusivamente nas três frentes da Guerra colonial que o estado português manteve em África, praticaram-se actos horríveis (de ambos os lados).

 

Mas estou a falar de tortura policial, praticada com o objectivo de obter confissões e denúncias. Provocar a morte, pelo menos antes de o paciente ter confessado, era considerado falta de profissionalismo. Havia médicos que iam vigiando o estado em que o preso de encontrava. pOr vezes, a tortura era suspensa e continuava depois. 

 

Mas falava na antiguidade dos métodos - a tormentum insomniae, a tortura do sono, de que a “estátua”  era uma variante, não foi inventado pela PIDE, é um método que sempre foi utilizado – a privação de sono, provocando alucinações visuais, auditivas, olfactivas, conduz ao cabo de uns dias a uma situação em que o preso perde a noção da realidade. Altura de contar segredos.

 

Há um livro da professora e investigadora Irene Flunser Pimentel onde, de forma objectiva, baseando-se em documentos, registos, testemunhos, em fontes primárias, evitou entrar no universo dos mitos que relativamente à polícia política portuguesa se foram criando. É um excelente trabalho que recomendo vivamente a quem pretenda saber o que realmente foi a repressão exercida sobre as oposições ao Estado Novo.

 

Os relatos de quem passou pelas salas de tortura (“gabinetes de investigação”) são necessariamente subjectivos. A investigadora relata de forma desapaixonada os dados que apurou, nunca preenchendo os hiatos documentais com suposições. Numa série de pequenos artigos de que este é o primeiro, abordarei o tema, não fugindo à face emocional da questão. E dessa face fazem parte os poemas (poucos) que se produziram sobre o tema da repressão policial. Galeria que abro com Manhã, de Luís Veiga Leitão.

 

 

- Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço… apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?

Olhe, senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!

 

 

(Luís Veiga Leitão, In «Noite de Pedra», 1955).



publicado por Carlos Loures às 20:00
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Sábado, 1 de Outubro de 2011
NOITE E NEVOEIRO - 2 - por Carlos Loures

 

 

 

Jean Ferrat

 

Diga-se que a primeira vez que em Portugal se falou em Nuit et Brouillard , exceptuando os leitores dos Cahiers du Cinema, foi a partir  de meados dos anos 60 com a bela canção de Jean Ferrat, saída a público em Dezembro de 1963 num álbum da Barclay. Terá começado a ser conhecida em Portugal no ano seguinte.

 

Nuit et Brouillard, canção composta e interpretada por Ferrat, encerra uma história que só mais tarde conhecemos. Compreendemos que era uma homenagem à memória das vítimas dos campos de concentração. Porém, desconhecíamos que, ao mesmo tempo, se tratava de um drama pessoal. O Jean - Pierre  de que nos fala, era seu pai, judeu vindo da Rússia para França. Preso e depois confinado no campo de Drancy pelas autoridade francesas  foi, em 30 de Setembro de 1942 deportado para Auschwitz, de onde não regressou. A directiva Nacht und Nebel  foi assinada em 1941 por Hitler, estipulando que as pessoas que representassem ameaça para o Reich seriam transferidas para a Alemanha e desapareceriam sem deixar rasto e num total segredo.

 

A canção, que vamos ouvir em seguida, foi proibida na rádio e na televisão – por intervenção directa do Eliseu ou desaconselhada pelo director do canal de serviço público (ORTF) – um domingo, ao meio-dia, passou no primeiro canal, provocando escândalo. O disco foi premiado, foi um grande sucesso de vendas e significou para Ferrat o começo do êxito. Ouçamos Nuit et Brouillard . Preferi esta gravação ao vivo a outras, porventura mais perfeitas. Deve ser quase contemporânea do lançamento do disco.

 

 
Voltemos ao filme de Alain Resnais
 

O filme levantou também uma lebre que estava amarrada – as responsabilidades francesas em matéria de deportação e de colaboração com os nazis. A comissão de censura exigiu em 1956 a supressão de uma fotografia de arquivo onde se pode ver um gendarme francês de sentinela no campo de Pithiviers. Os autores e produtores do filme recusaram, mas acabaram por ser obrigados a retocar a fotografia, fazendo um enquadramento da foto que permitiu suprimir o característico boné cilíndrico do gendarme.

 

Por seu turno, as autoridades alemãs exigiram que o filme fosse retirado da selecção oficial do festival de Cannes de 1956, alegando que o filme punha em causa a reconciliação franco-alemã. Estive uns tempos em França no ano de 1959 e pude observar que a colaboração francesa com os alemães era um dado adquirido, sendo uma acusação recorrente das esquerdas; o ódio aos judeus estava ainda vivo numa parte da população. Num próximo artigo, falarei deste aspecto da questão.

 

Portanto, estas manigâncias e censuras destinavam-se a preservar o futuro. E, de facto, o filme de Resnais é mostrado aos alunos do ensino liceal. O tê-lo expurgado das alusões ao colaboracionismo, foi uma medida «acertada». Vejamos então a segunda metade.

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
NOITE e NEVOEIRO - 1 - por Carlos Loures

 

Nacht und Nebel  era o nome de código dado pelas autoridades alemãs às vagas de deportados para os campos de concentração e extermínio. Entre eles, os nazis simplificavam – diziam apenas “NN”. O objectivo era claro – lançar sobre os deportados o nevoeiro do esquecimento – como se nunca tivessem existido.

 

O filme Nuit et Brouillard, realizado por Alain Resnais, foi uma encomenda feita pelo Comité d’histoire de la Seconde Guerre mondiale, organismo criado em 1951 pelo governo francês para lançar luz sobre o fenómeno da deportação, do extermínio, do holocausto. Henri Michel  foi nomeado secretário-geral desta comissão.

 

Encontrar documentação, testemunhos, que contrariassem a névoa com que os nazis procuraram ocultar um dos maiores crimes que a história da humanidade regista. À comissão interessava particularmente a pesquisa referente ao período de ocupação alemã de França, entre 1940 e 1945.

 

Seguindo um guião escrito por Jean Cayrol e dito pelo actor  Michel Bouquet, o filme consiste numa mistura de registos de arquivo a cor e a preto e branco. Foi realizado em 1955, dez anos decorridos sobre o fim da Guerra. Com o anti-semitismo, o racismo, o totalitarismo, ainda à solta pelas mentes, tornaa-se difícil avaliar, mais de meio-século depois, o impacto provocado pela estreia de Nuit et Brouillard, em 1956, em plena guerra fria. Ganhou o Prémio Jean Vigo.

 

Sem demagogia, com serenidade, o filme mostra cruamente como eram os campos de concentração, como era o trabalho forçado dos prisioneiros, as operações de extermínio…  O guião de Jean Cayrol reflecte a experiência pessoal do autor, resistente, deportado – viveu na primeira pessoa o que descreve – a humilhação, a tortura, o sofrimento, o terror… a linguagem é poética, as imagens que ela transporta são de um horror e tragédia levados ao paroxismo. Só em 1996 foi feita uma versão alemã do filme (por Paul Cellan). A música é da autoria do compositor germano - austríaco Hanns Eisler, homem de esquerda.

 

Hoje mostramos a primeira metade de Nuit et Brouillard. Continuaremos amanhã com este tema, mostrando a segunda parte do filme de Resnais. Mas não só.

 

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
Hoje há novidades na Praça!

 

Há entre os argonautas muitos admiradores de Eduardo Galeano.

 

Ora vejam e ouçam este vídeo:

 

 

 

 
 
E agora vamos ler este excelente e lúcido texto da Augusta Clara de Matos:
 
 

Impedir a guerra – por Augusta Clara

 

Quando a palavra guerra nos vier à cabeça, é urgente pôr em acção na nossa mente duas verdades insofismáveis:

 

- a guerra é a acção em que a estupidez humana é elevada à sua mais alta potência;

 

- uma guerra só serve para enriquecer alguns grupos sociais, nunca para acabar com as desigualdades.

 

Isto porque há quem afirme a necessidade de guerras quando grandes desequilíbrios se verificam nas sociedades humanas. Mas não é verdade. Nunca nenhuma guerra serviu de fio de prumo à humanidade. Mudam-se as configurações geopolíticas e acaba-se com multidões de vidas jovens que mais vantajosamente, de outra maneira, contribuiriam para mudar os rumos do  planeta. Não fora a ganância, evidentemente.

 

Ninguém tem que obedecer aos senhores da guerra. Deve ser esta a nossa palavra de ordem como cidadãos do mundo sem interesses a defender senão as vidas dos seus filhos e uma sociedade baseada nos genuínos  valores, aqueles que sempre considerámos tornarem-nos diferentes de todos os animais das outras espécies.

 

Mas  seremos?

 

Fomos quando consentimos nas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, as de mais larga escala do século que ainda passou há tão pouco tempo?

 

Quando não travámos os levianos e criminosos generais que se propunham resolver um conflito em poucos meses e lançaram numa horrorosa chacina, em trincheiras de inferno, toda uma geração de jovens na denominada Grande Guerra, a tal que terminaria pelo Natal, mas se prolongou por quatro anos, de 1914  a 1918?

 

Quando, nós, os europeus, deixámos chegar Hitler ao poder, com todas as consequências que isso teve, e, perante a Guerra Civil de Espanha, para não o hostilizarmos, tomámos partido pela ditadura, em vez de apoiarmos as forças de libertação? 

 

Falo de nós, os homens e mulheres de todo o mundo, não de nós os portugueses. É que só é possível impedir o eclodir das guerras com um grande empenhamento das consciências a nível mundial.

 

Actualmente, voltamos a viver esse risco. Muitas campainhas já tocam pelo mundo fora mas acho que ainda não lhes demos a atenção devida.

 

A guerra pode não vir já aí, mas a mobilização contra ela não se faz de um dia para o outro.

 

É verdade que não podemos deixar de atender às decisões nacionais porque há muita gente que com elas sofre. Mas é imperativo lançarem-se, simultaneamente, os olhos para mais longe, para onde o mal germina. E, enquanto é tempo, tudo fazermos – todos e cada um de nós – para criarmos um movimento global anti-guerra.

 

Michel Chossudovsky, num seu artigo recente, afirmava a convicção da iminência de um terceiro conflito mundial e não se limitava a enunciar as razões para tal. Reflectia, igualmente, sobre aquilo que, com determinação, temos que empreender para o evitar, o abortar.

 

Dizia ele, entre outras coisas, que é necessário denunciar as grandes mentiras que nos contam, fomentar a discordância,  estender  o movimento anti-guerra às estruturas estatais e militares e recusar-se a combater. 

 

Perante isto, parece-me que não basta continuarmos a reflectir sobre a crise financeira mundial provocada pelas grandes burlas recentemente desvendadas e sobre a consequente crise económica que arrasta milhares para a pobreza. Adicionemos à nossa capacidade intelectual de entendimento dos factos uma componente de mobilização no sentido do despertar de consciências para a prevenção de um terceiro conflito mundial cuja sombra aponta no horizonte.

 

Com todo o armamento nuclear de que vários países dispõem actualmente, qualquer comparação com os anteriores não tem expressão.

 

Quem disser que a solução não está nas nossas mãos só terá a opção de se – de nos - render à barbárie.

 

 

 

 

 

 

 

E terminamos com uma nota de humor. Na voz do nosso querido amigo Aristides, vamos ouvir «O galinho da Madeira».

 

A quem se estará ele a referir?

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara às 15:59
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Domingo, 25 de Setembro de 2011
A banalização do mal e o axioma de Henry Ford, por Carlos Loures
 

 

 

 

Já aqui tive oportunidade de, mais de uma vez, ter referido a obra Eichmann in Jerusalem : A Report on the

Banality of Evil, Nova Iorque, 1963, de Hannah Arendt (1906-1975) a filósofa alemã, de ascendência judaica, e naturalizada norte-americana. A tese da banalização do mal, inteligentemente exposta por Arendt, demonstra que uma mudança de paradigma, convertendo a anormalidade em coisa corrente, pode transformar homens normais em monstros.

 

Um funcionário zeloso, metódico e competente, o homem que estava a montante de uma extensa cadeia de responsabilidades terá sido “vítima” dessa instauração do mal como moeda corrente na Alemanha de Hitler. A “solução final”, Endlösung der Judenfrage, foi a designação criada para o plano de genocídio sistemático. Adolf Eichmann parece ter sido o criador da expressão – partiam os nazis da premissa de que os judeus constituíam um problema endémico da sociedade europeia e que exterminá-los seria a solução desse problema.

 

 

Em 20 de Janeiro de 1942, na Villa Wannsee, um palacete debruçado sobre um lago a sudoeste de Berlim, foi tomada a decisão que conduziria ao Holocausto. O objectivo era estudar a maneira de erradicar definitivamente os judeus da sociedade alemã. Os maiores horrores, filtrados por expressões eufemísticas, assumiam um ar de normalidade. Calculados os judeus em onze milhões, foram meticulosamente estudados meios de «eliminar a praga» - Sendo eles sujeitos a «trabalho apropriado» (trabalho escravo e subnutrição em campos de concentração), calculou-se que uma elevada percentagem seria eliminada por «causas naturais», O remanescente seria tratado de forma adequada, pois se posto em liberdade seria semente de uma restauração hebraica. As pessoas de sangue misto não foram esquecidas.

 

Terá então Eichmann inventado a expressão «solução final». Entre o pessoal que servia à mesa destas diligentes

e metódicas criaturas havia um judeu que fixou a expressão. Azar de Eichmann. Nem terá sido ele o mais interventivo no processo. Por exemplo o médico Josef Buhler terá insistido com Reinhard Heydrich no sentido de levar a cabo a « solução final» como dissera, e muito bem, o camarada Eichmann. A questão judaica, tinha segundo Buhler de ser resolvida no curto prazo. As actas de reunião foram encontradas. Lá estava o louvor a Eichmann por ter encontrado uma expressão feliz para designar algo que a todos preocupava. A expressão «solução final» pôs a corda em torno do pescoço de Eichmann.

 

Ele teve um papel na concretização do plano de extermínio – tal como muitos outros – médicos, engenheiros que conceberam os fornos crematórios, químicos que trabalharam no gás fatal. Eichmann foi quem tudo organizou como funcionário competente e zeloso que era. Teria levado a cabo com igual eficiência uma operação de salvamento, uma operação de resgate de náufragos. Esta a tese de Arendt. Quando muda o paradigma numa sociedade e o que é monstruoso passa a ser normal, o mal banaliza-se, ninguém estranha e homens que normalmente seriam apenas bons funcionários, transformam-se em seres horrorosos.

 

O julgamento de Adolf Eichmann foi rodeado de grande mediatismo. Os grandes jornais de todo o mundo enviaram jornalistas. O governo israelita abriu as sessões do Tribunal ao públicos para cobrir as sessões que foram tornadas públicas pelo governo israelita. Hannah Arendt era a correspondente da revista The New Yorker e foi nessa qualidade que recolheu elementos para o seu livro. Além de crime contra o povo judeu, apesar de se ter declarado "Inocente no sentido das acusações”, Eichmann foi acusado de crimes contra a Humanidade, e de pertencer a um grupo organizado com fins criminosos. Foi condenado por todos os seus crimes e enforcado em 1962, nas proximidades de Telavive.

 

Arendt expendeu então a sua tese sobre a banalização do mal, dizendo ter sido a « pura ausência de pensamento que lhe permitiu transformar-se num dos maiores criminosos da sua época. É banal e até mesmo cómico: nem com a melhor boa vontade se conseguiria descobrir em Eichmann a mais pequena profundidade diabólica ou demoníaca», diz Hannah Arendt na obra citada. Por «ausência de pensamento» quer ele significar, inexistência de sentido critico que leva as pessoas a aceitarem como normais as maiores anormalidades. Não sei se no caso de Eichmann Arendt teria razão. Porém, vemos na nossa sociedade banalizarem-se situações anómalas.

 

Em Portugal, a ausência de pensamento, levou-nos durante 50 anos a aceitar uma ditadura fascista e leva agora pessoas inteligentes a aceitar como normais todas as anormalidades que transformam a nossa democracia representativa num novo fascismo – ou seja, numa oligarquia em que dando aos cidadãos o direito de escolher o faz segundo o célebre axioma de Henry Ford - até 1925 os modelos só estavam disponíveis na cor preta, que tinha secagem mais rápida. Daí surgiu a famosa frase: “Os clientes podem escolher qualquer cor, desde que seja preto”. Nós podemos escolher o governo que quisermos, desde que escolhamos entre a pior gente do PS ou do PSD, os empregados dos grandes grupos económicos e dos interesses do grande capital. Se acham que «banalização do mal» é exagerado, corrijo - é a banalização da estupidez. 



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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011
Pablo Neruda! Presente, agora e sempre!» - por Carlos Loures

 

 

"O que aconteceu? Ficaram todos loucos?"

 

Hoje dou a palavra a Isabel Allende: «A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,tradução de José Carlos Gonzalez).

 

Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.

 

Li tudo o que pude ler de Pablo Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos como não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, na adolescência, pegava nos livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas. Lia Neruda, com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».

 

Anos depois, saboreei os quatro volumes de «Odas elementales» que o meu amigo Manuel Guimarães me ofereceu. Encantou-me a ideia de se dedicarem palavras tão belas a coisas tão simples e comuns, tão ligadas à face mais humilde do quotidiano, como uma cebola, o pão, uma colher, uma laranja, um cão, uma maçã… Magia "tão simples" como transformar chumbo em ouro. Alquimia que só está ao alcance de um grande poeta como Pablo Neruda. Em «Confieso que he vivido», confia-nos que nas «Odas» quis descrever coisas já cantadas, ditas e reditas. Como se fosse uma criança que começa, mordendo o lápis, uma redacção sobre o sol, sobre a ardósia escolar, o relógio ou sobre a família humana. Nenhum tema podia ficar de fora da sua órbita, tinha de tocar em tudo, andando ou voando, submetendo a sua expressão à máxima transparência e virgindade.

 

 

Voltando a Isabel Allende, ela conta como no funeral «diante dos olhares raivosos dos soldados, todos iguais  com os rostos ensombrados pelos capacetes reminiscentes dos usados pelas tropas de Hitler,  e com as armas a tremer-lhes nas mãos», os amigos desfilavam lentamente, com cravos vermelhos nas mãos, gritando: «Pablo Neruda! Presente, agora e sempre!»

 

Agora e sempre, Pablo, as tuas palavras ecoam nos corações amantes da liberdade.

 

(Este texto, com ligeiras alterações, foi antes publicado no Estrolabio)

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Ouçamos Pablo Neruda dizer o seu famoso Poema 20 - Puedo escribir los versos mas tristes esta noche.....

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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
Os símbolos da Revolta – por Carlos Loures

 A Internacional é o hino da Revolta!

 

A bandeira que se exibe no logótipo desta rubrica é uma bandeira vermelha. Nela e na sua génese hei-de falar. Hoje falarei apenas da canção que se transformou num símbolo indissociável da Revolução. Eu diria das Revoluções. Entre nós, e não só, há a tendência de considerar A Internacional um cântico comunista. Veremos que não. Antes de mais, vejamos como surgiu.

 

Ao contrário do que muitas vezes acontece, a letra foi criada primeiro, escrita em francês no ano de 1871 por Eugène Pottier (1816-1887), operário anarquista, um dos membros da Comuna de Paris. Após o sangrento esmagamento da Comuna, em cuja defesa participou, Pottier partiu para o exílio durante o qual escreveria diversos poemas, entre os quais o que viria a constituir a letra de A Internacional . A intenção de Pottier era a de que o poema fosse cantado com a música da Marselhesa.

 

Porém, em 1888, Pierre De Geyter (1848–1932) musicou o poema. Foi no dia 18 de Junho de 1888. A De Geyter, operário anarquista de origem belga fixado com a sua família na cidade francesa de Lille, foi oferecido nesse dia um livro de poemas de Eugéne Pottier. Impressionado com a pujança das palavras, terá composto a música de um jacto. Mas só a partir de 1896, após a realização do congresso do Partido Operário Francês realizado nesse ano em Lille e durante o qual foi tocado e cantado, que o hino se espalhou por França e pela Europa através dos delegados estrangeiros presentes.

 

O autor da versão portuguesa da sua letra foi o anarco-sindicalista Neno Vasco que no ano de 1909 traduziu o poema de Pottier do francês para o português. Aacompanha de perto o original francês, reflectindo no seu fraseado a influência da literatura e poesia ligadas ao anarco-sindicalismo, maioritário no movimento operário português nas primeiras décadas do século passado. Neno Vasco (1878 - 1923) foi um poeta, advogado, jornalista e escritor, ardoroso militante anarco-sindicalista nascido em Portugal. Emigrou para o Brasil onde estabeleceu uma série de projectos com os anarquistas daquele país. Como se pode verificar, A Internacional, não é de raiz comunista.

 

Quer a versão comunista quer a socialista alteraram alguns dos versos de Neno Vasco. Mas isso é natural e pouco importante. Instrumento político, não faria sentido que contrariasse aspectos fundamentais do comunismo ou da social-democracia. Que a reivindique quem entender – é o hino da Revolução. Vamos ouvir a versão do PCP. Dizem-me haver uma interpretada pela orquestra e pelos coros do Teatro Nacional de São Carlos, mas não a encontrei disponível. Aliás, as tais diferenças na letra não retiram a força deste hino que é o de todos os que querem transformar o mundo num lugar mais digno. Ouçamos A Internacional:

 

 

 



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Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
Crenças e fundamentalismos - por Carlos Loures

A propósito de uns artigos que publiquei sobre as raízes do fundamentalismo islâmico, recebi uma série de mensagens. Nenhuma delas ameaçadora, esclareço desde já, até porque era gente minha conhecida, amigos, quase todos. Dois ou três deles enviaram-me fotos, que já conhecia,de uma manifestação em Londres onde muçulmanos exibem cartazes com frases de um profundo radicalismo. Não sei se as fotos são autênticas ou fruto de habilidades e, por isso, não as reproduzi. As mensagens vinham sobretudo de cristãos censurando a justificação que dou para o terrorismo. Mas houve também  um (islâmico?), descontente com o que digo dos clérigos muçulmanos. Houve ainda dois comentários anónimos no blogue, estes de um anti-islamismo muito primário.  De facto, é uma matéria em que não consigo agradar a nenhuma confissão. E nem sequer abordaria tal tema, não fossem as profundas ligações entre as crenças no Além e o que se passa no mundo real.

 

Foi Carl Sagan que disse não ser possível «convencer um crente de coisa alguma, pois as crenças não se baseiam em evidências, mas sim numa profunda necessidade de acreditar». Só recentemente li esta frase de Sagan, mas nunca tentei demover ninguém da sua crença. Até porque acreditar que há um ser que olha por nós deve ser reconfortante. Quem, como eu, não acredita em nenhum deus não deve sequer tentar retirar esse bem seja a quem for. Que fique claro - não faço proselitismo do ateísmo. É produto de consumo interno.

 

A minha relação com a Igreja Católica foi conflituosa. Lisboeta, nascido em plena Baixa, a minha avó tinha casa no Banzão e deve ter sido por isso que foi em Colares que me baptizaram. Os meus pais eram católicos não praticantes – missas só as dos principais sacramentos. Em todo o caso, rodeado como estava de gente, mais ou menos, crente, não consigo compreender por que razão nunca acreditei que pudesse haver um ser que tudo controlasse. Fazia perguntas incómodas que despertavam risos e às vezes irritações.

 

Em dada altura fui para a catequese. Uma dúzia de miúdos e miúdas entre os seis e os dez anos talvez. Era enfadonho, a sala contígua á sacristia cheirava mal a rosmaninho apodrecido e tinha umas vitrinas com paramentos ou lá o que era aquilo. Um tormento. O padre não seria velho, embora a mim me parecesse um sobrevivente do Dilúvio.

 

Um dia, insistiu na Santíssima Trindade e tantas voltas deu que, embora embirrando comigo desde o primeiro dia, me fez uma pergunta. Eu com aquela queda que conservo para fazer humor às vezes a despropósito debitei uma graça que tinha ouvido não me lembro onde (mas não a inventei) e em vez de responder à pergunta, perguntei se o Espírito Santo era o mesmo que jogava no Benfica. Havia um grande jogador chamado Guilherme Espírito Santo. Havia e há, pois ainda está vivo. A miudagem desatou a rir, o meu objectivo estava alcançado.

 

 Mas o padre não achou graça, ficou corado levantou-se e, pensei, «vou levar uma chapada». Depois reconsiderou, deu meia volta, sentou-se, mas não me dirigiu mais a palavra. Quando a minha mãe me foi buscar, houve uma longa conversa. Minha mãe não me falou durante o caminho até casa. Quando o meu pai chegou, contou-lhe. Lembro-me de o ver de costas para mim, estremecer os ombros. Estava a rir-se. «Estou safo». Mas lá arranjou maneira de compor uma expressão severa e de me passar um raspanete. Mas o crime pareceu compensar e fiquei livre da catequese. Isto foi no Verão.

 

Passados meses a minha avó, uma grande amiga, morreu, e no princípio do Outono foi-me diagnosticada uma pleurisia. Pensei que o tal ser ou não existia, ou era mau e vingativo e, portanto, não merecia consideração e muito menos orações.

 

Quando tinha quase catorze anos nasceu a minha irmã e os meus pais quiseram que eu fosse padrinho de baptismo. O padre era o mesmo, mas não se lembrou de mim. E lá me obrigou, dado que não tinha feito a comunhão, a frequentar a catequese. Dei a volta por cima – a sacristia continuava a cheirar mal e aleguei incompatibilidade com os horários escolares. Comprometi-me a decorar o livrinho e assim foi. Um fim de tarde lá fui com a minha mãe, papagueei tudo o que o homem perguntou e arranquei-lhe um sorriso de agrado.

 

Quando casei a minha mulher ainda era menor e a minha futura sogra quis exigir-me o casamento religioso. Recusei sem lhe dar hipótese – ou era só o casamento civil ou esperávamos pela maioridade. O negócio não estava acabado. Contra minha vontade, impôs o vestido de noiva – Cedi, com uma condição – eu não aparecia em nenhuma fotografia. E assim foi – há dezenas de fotografias da minha mulher e nenhuma minha. Há pouco tempo, trabalhando com o José Ferraz Diogo na biografia de Manuel Rodrigues Lapa, tive a surpresa de saber que assumira, muitos anos antes de mim, posição idêntica.

 

Numerosos amigos meus são católicos praticantes. Amigos como o António Cabral, sacerdote católico quando o conheci ou como o José Guilherme, de Tomar, do qual fui sócio numa livraria. Grandes amigos. A instituição é odiosa. E para que não fiquem dúvidas – detesto a Igreja Luterana, a Anglicana … O Islamismo é igualmente detestável, sobretudo quando é defendido por aqueles clérigos que cospem ódio por todos os poros. O Hebraísmo idem, pois é o culpado de tudo, - foi sobre o Antigo Testamento ou Torah que se decalcaram as demais crenças, tem ainda o ónus, a meu ver, de ser suporte moral do imoral e miserável sionismo. Enfim, seja sob que disfarce me apareça o grande Manitu, para mim vem de carrinho.

 

E mais uma vez cito o Carl Sagan: «A ideia de que Deus é um gigante barbudo de pele branca sentado no céu é ridícula. Mas se, com esse conceito, se pretende referir um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então claramente existe um Deus. Só que é emocionalmente frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar uma oração à lei da gravidade!”

 

Boa Carl!



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara às 18:40
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
Alberto Ferreira, um filósofo esquecido - por António Sales

Num período da minha vida profissional, em publicidade, tive a oportunidade de conhecer o escritor Alberto

Ferreira, ao tempo na agência de publicidade Êxito, onde estavam também o Alves Redol, o cineasta António Pedro de Vasconcelos, entre outros intelectuais que ali trabalhavam (1966).

 

Eu já havia lido alguns dos seus ensaios mas foi o “Diário de Édipo” (1965), a sua primeira obra de ficção narrativa, que proporcionou uma surpreendente reflexão de natureza histórica e filosófica.

 

Começámos por aí as nossas conversas e por aí foi seguindo a origem de uma boa relação com esse homem de extraordinária capacidade analítica da política e da economia do Portugal de então. Era um espírito de ideais firmes odiados pelo Estado Novo.

 

Alberto Ferreira nasceu em Lisboa a 5 de outubro de 1920 e formou-se na Escola Agrícola de Santarém. Em 1954, com 34 anos, publicou o primeiro título: “Condições Sociais do Pensamento Moderno”, seguido de outros ensaios, nomeadamente sobre o romantismo português de que foi especialista. Nas publicações Seara Nova e Vértice tornou-se frequente colaborador.

 

Quando o trabalho em publicidade nos colocou em contacto pessoal, Alberto Ferreira não era para mim um desconhecido, antes pelo contrário, sobretudo porque havia sido publicado por essa altura o “Diário de Édipo” e cinco anos depois a Seara Nova editava “4 Semanas em Outubro” (1970), cujo sucesso projetou o autor a um patamar de popularidade.

 

Abordámos diversos temas nas nossas múltiplas conversas, fossem eles políticos, culturais, literários, racionalistas, místicos, em trocas que me encantavam pelo seu raciocínio rápido que eu tinha, por vezes, dificuldade em acompanhar. Ele era um filósofo que dava gosto contrariar para melhor seguir a sua capacidade analítica polvilhada por um idealismo que, todavia, mantinha intacto o rigor do pensamento.

 

Foi este homem que me ensinou imensa coisa pelo muito que eu ouvia e o pouco que falava. Alberto Ferreira era dotado de uma inteligência brilhante e rápida, embora de certo modo amargurada conforme o denuncia em “Crise” (1974). O seu mundo correspondia a uma interrogação permanente porque necessária e, quanto a mim, digo-o por experiência própria, quem muito interroga mais desiludido se torna.

 

Com a sua lucidez publicou “Estudos da Cultura Portuguesa – séc.XIX” (1980) quando já era professor da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas. Após o 25 de Abril regressou ao ensino como professor de liceu e depois universitário. Por essa altura reduziram-se os nossos encontros e cada vez menos passei a falar ou ouvir falar do Alberto Ferreira. Até que a editoria Escritor editou “Viagens no Reino da Mediocracia” (1998), onde é patente a desilusão e a tristeza, até porque se encontrava bastante doente. O seu último título, editado pela mesma editorial, foi “Deambular ao Lusco Fusco” (1999).

 

Alberto Ferreira foi mais filósofo que ficcionista, mais reflexivo que inventivo. Aliás a sua obra traduz isso se considerarmos que em 14 títulos, onze são estudos e ensaios e apenas três são romances, um género onde nunca esteve à vontade. Fazia, então, parte de um núcleo de intelectuais (Alves Redol, Urbano Tavares Rodrigues, Alexandre Cabral, Mário Dionísio, etc) a quem o Salazar votava um ódio de estimação. No dia 10 de Dezembro do ano 2000, morria em Lisboa, com 80 anos, um dos maiores filósofos portugueses da segunda metade do século XX, hoje esquecido em todas as vertentes da sua personalidade e do seu pensamento.



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara em 20/09/2011 às 18:39
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Domingo, 18 de Setembro de 2011
Hannah Arendt: * "Salvar la patria judía - por Josep Anton Vidal

Citas de HANNAH ARENDT: Una revisión de la historia judía y otros ensayos:

 

", mayo 1948: Aun cuando los judíos hubieran de ganar la guerra, [...] los judíos 'victoriosos' vivirían rodeados por una población árabe totalmente hostil, encerrados en unas fronteras permanentemente amenazadas, absortos en su autodefensa hasta un punto que ahogaría todos los demás intereses y actividades." * "¿Paz o armisticio en Oriente Próximo?, escrito en 1948 y publicado en 1950: Los judíos están convencidos [...] de que la historia, o una moralidad de orden superior, les debe una reparación por las injusticias causadas durante dos mil años y, más concretamente, una compensación por la catástrofe de los judíos europeos, que en su opinión no fue simplemente un crimen de la Alemania naz, sino de todo el mundo civilizado. Los árabes, por otro lado, replican que dos injusticias no hacen una acción justa y que 'ningún código moral puede justificar la persecución de un pueblo en el intento de reparar la persecución de otro'. [...] Ambas reivindicaciones son nacionalistas, porque solo tienen sentido en el marco cerrado del propio pueblo y la propia historia, y legalistas, porque dejan de lado los factores concretos de la situación. La absoluta incompatibilidad de reivindicaciones que hasta ahora ha frustrado cada intento de compromiso [...] cuyos intereses comunes son evidentes para todo el mundo menos para ellos mismos no es más que el signo externo de una incompatibilidad más profunda y real. [...] El fracaso judío y árabe a la hora de ver a su vecino próximo como un ser humano concreto tiene muchas explicaciones. Entre ellas destaca la estructura económica del país. [...] Mientras esté asegurado el apoyo financiero exterior a gran escala, la cooperación judeo-árabe difícilmente puede llegar a ser una necesidad económica para el nuevo Estado israelí. El apoyo financiero del mundo judío, sin el que todo el experimento habría fracasado, significó económicamente que el asentamiento judío pudo afirmarse sin preocuparse por lo que ocurría en el mundo circundante, que no tuviera ningún interés vital en elevar el nivel de vida árabe, y que las cuestiones económicas pudieran abordarse como si el hogar nacional judío estuviera completamente aislado de sus vecinos. * "Eichmann en Jerusalén", interncambio epistolar entre Gershom Scholem y Hannah Arendt, 1963: Tienes bastante razón: yo no me siento movida por ningún 'amor' de esa clase [el "amor al pueblo judío" al que alude Scholem en su carta], y ello por dos razones: yo nunca en mi vida he 'amado' a ningún pueblo ni colectivo, ni al pueblo alemán, ni al francés, ni al norteamericano, ni a la clase obrera ni a nada semejante. En efecto, solo 'amo' a mis amigos y el único género de amor que conozco y en el que creo es el amor a las personas. En segundo lugar, ese 'amor a los judíos' me resultaría, puesto que yo misma soy judía, algo más bien sospechoso. Yo no puedo amarme a mí misma ni a cosa alguna de la que sé que es miembro y parte mi persona. [...] yo no 'amo' a los judíos ni 'creo' en ellos; simplemente, formo parte de ellos como algo evidente, que está más allá de toda discusión. * "Las enseñanzas de la historia", enero 1946 La vitalidad de una nación, sin embargo, se mide en función del recuerdo vivo de su historia. Nosotros los judíos propendemos a tener una perspectiva histórica invertida: cuanto más alejados del presente están los acontecimientos, con tanta mayor viveza, claridad y precisión aparecen. Semejante inversión de la perspectiva histórica significa que en nuestra conciencia política no queremos asumir la responsabilidad por el pasado inmediato y que, al igual que nuestros historiadores, queremos refugiarnos en períodos pasados que nos hacen sentirnos seguros en cuanto a las consecuencias de la política.

 

Citas de HANNAH ARENDT: Una revisión de la historia judía y otros ensayos. Barcelona. Ediciones Paidós Ibérica, 2004, Colección Paidós Básica, 122.



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara em 20/09/2011 às 18:38
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Sábado, 17 de Setembro de 2011
Ponto da situação - por Ricardo Araújo Pereira

(Com a devida vénia. transcrevemos da revista Visão de Quinta feira, 15 de Set de 2011)

 

Passos Coelho bem avisou que iria fazer cortes na despesa. Só não disse que era na nossa. A nossa despesa com alimentação, habitação e transportes está cada vez menor

 

 

Os portugueses vivem hoje num país nórdico: pagam impostos como no Norte da Europa; têm um nível de vida como no Norte de África. Como são um povo ao qual é difícil agradar, ainda se queixam. Sem razão, evidentemente.

 

A campanha eleitoral foi dominada por uma metáfora, digamos, dietética: o Estado era obeso e precisava de emagrecer. Chegava a ser difícil distinguir o tempo de antena do PSD de um anúncio da Herbalife. "Perca peso orçamental agora! Pergunte-me como!" O problema é que, ao que parece, um Estado gordo é caro, mas um Estado magro é caríssimo. Aqueles que acusavam o PSD de querer matar o Estado à fome enganaram-se. O PSD quer engordá-lo antes de o matar, como se faz com o porco. Ninguém compra um bácoro escanzelado, e quem se prepara para comprar o Estado também gosta mais de febra do que de osso.

 

Embora o nutricionismo financeiro seja difícil de compreender, parece-me que deixámos de ter um Estado obeso e passámos a ter um Estado bulímico. Pessoalmente, preferia o gordo. Comia bastante mas era bonacheirão e deixava-me o décimo terceiro mês (o atual décimo segundo mês e meio, ou os décimos terceiros quinze dias) em paz.

 

Enfim, será o preço a pagar por viver num país com 10 milhões de milionários. Talvez o leitor ainda não tenha reparado, mas este é um país de gente rica: cada português tem um banco e uma ilha. É certo que é o mesmo banco e a mesma ilha, mas são nossos. Todos os contribuintes são proprietários do BPN e da Madeira. Tal como sucede com todos os banqueiros proprietários de ilhas, fizemos uma escolha: estes são luxos caros e difíceis de sustentar. Todos os meses, trabalhamos para sustentar o banco e a ilha, e depois gastamos o dinheiro que sobra em coisas supérfluas, como a comida, a renda e a eletricidade.

 

Felizmente, o governo ajuda-nos a gerir o salário com inteligência. Pedro Passos Coelho bem avisou que iria fazer cortes na despesa. Só não disse que era na nossa, mas era previsível. A nossa despesa com alimentação, habitação e transportes está cada vez menor. Afinal, o orçamento gordo era o nosso. Agora está muito mais magro, elegante e saudável. Mais sobra para o banco e para a ilha.

 

 



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editado por Augusta Clara em 20/09/2011 às 18:37
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
A shoah no discurso político de Israel - Carlos Loures

 

A Declaração Balfour, carta escrita em 2 de Novembro de 1917 pelo responsável pela diplomacia britânica, Arthur James Balfour, a Lord Rothschild, expondo a sua intenção de conceder aos judeus o direito de povoarem a região da Palestina, “a Terra de Israel”, lançou um processo que conduziu, mais de trinta anos depois, à criação do Estado de Israel. Embora os habitantes do território, súbditos do Império Otomano, não formassem um Estado, eram, os donos de suas terras, ali viviam, ali tinham as suas famílias e os seus bens. O gesto de Balfour, supostamente generoso, pois deu o que não era seu, criou um vulcão que até hoje não cessou de estar em ebulição.

 

Sabe-se o que foi o horror do Holocausto, da Shoah. (palavra hebraica para Holocausto). Mas não é aceitável que Israel continue a invocá-la para justificar acções criminosas contra o povo palestiniano. Israel tem de se reconciliar com a história - Se todas as vítimas de injustiças reagissem do mesmo modo, a humanidade extinguia-se num ápice. As perseguições étnicas, a escravatura a que os africanos estiveram sujeitos, as discriminações «inomináveis sofridas pelas mulheres, a exploração a que os trabalhadores foram alvo… O processo histórico é um caminho tortuoso, povoado de martírios, discriminações de toda a ordem, tiranias, genocídios.

 

Os judeus que, sem dúvida, foram vítimas de um dos mais monstruosos crimes de que há conhecimento, pedem contas à história – a shoah serve para justificar tudo – o terem uma polícia política com métodos semelhantes aos da Gestapo, os raids aéreos que fazem sobre as povoações palestinianas, o muro da Cisjordânia… tudo. A shoah abriu um crédito ilimitado aos sionistas. É no entanto motivo de esperança e júbilo verificar que algumas das mais enérgicas vozes que se erguem contra o terrorismo israelita, são vozes hebraicas. Vou referir três casos exemplares.

 

Hannah Arendt.(1906-1975) Nasceu numa família hebraica de Linden (Hanôver), estudou Filosofia e Teologia

 

em Königsberg (actual Kalinigrado) e trabalhou com Martin Heidegger na Universidade de Marburgo, mantendo com ele relação que não foi apenas intelectual. Foi depois para Heidelberga, doutorando-se na respectiva universidade, em 1929, com uma tese, acompanhada por Karl Jaspers - «A experiência do amor na obra de Santo Agostinho». Em 1933, com a chegada de Hitler ao poder, dada a sua condição de judia, foi proibida de publicar as suas obras e de ensinar. Por outro lado, o seu envolvimento com os movimentos sionistas, obrigaram-na a fugir das garras da Gestapo. Com seu marido, Heinrich Blütcher, foi presa em França.

 

Fugindo e escondendo-se por diversos países da Europa. Chegou em 1941 aos Estados Unidos. Em 1951 publicou «Origens do Totalitarismo» que, quase seis décadas depois, surgiu há meses, finalmente, traduzido em hebraico. De forma polémica para a época, Arendt compara o estalinismo com o nazismo, considerando que o totalitarismo se instala explorando a «solidão organizada» das massas. Publicaria em 1963 «Eichmann em Jerusalém» onde, contrariando as teses oficiais de que Eichmann era um monstro, demonstra que ele foi apenas um burocrata que cumpriu ordens com zelo. As organizações judaicas consideraram-na traidora, tanto mais que aludia à cumplicidade de judeus na prática dos crimes de extermínio. Arendt apenas alertava para a necessidade de manter vigilância para garantir a defesa da liberdade.

 

Regressou à Alemanha, onde contactou o antigo professor Martin Heidegger, que, dada a sua adesão ao regime nazi, fora afastado do ensino. Envolveu-se na reabilitação de Heidegger, o que levou as associações judaicas a atacarem de novo. Da sua correspondência com Heidegger saiu um notável livro: – “Lettres et autres documents(1925-1975)”, Editions Gallimard, Paris.

 

Idith Zertal(1944), Professora de História e Filosofia Política na Universidade de Basileia, nascida antes da

 

fundação do Estado num kibutz de Ein Shemer, ficou entusiasmada por finalmente ver traduzida em hebraico a obra de Hannah Arendt («Origens do Totalitarismo» - que li na sua edição espanhola, outro, um ensaio da própria professora Idith Zertal - «A Nação e a Morte». Em tradução para o castelhano surgiu o livro de Idith Zertal com o título «La nación y la muerte. La Shoah en el discurso y la política de Israel», obra em que a autora fala de «um país de excessos e de paradoxos».

 

Não hesita em qualificar como maligna a ocupação dos territórios palestinianos, dizendo. «Governar outro povo de uma maneira tão brutal é devastador também para nós». E condena a omnipresença do Holocausto como explicação e justificação para tudo, inclusive para o facto, de usarem sobre outros uma violência brutal, assumindo apesar disso o papel de eternas vítimas. «O vínculo entre a constituição do Estado e a Shoah e os seus milhões de mortos continua a ser indissolúvel… Desde 1948 e até à crise de 2000 não houve guerra que não tenha sido entendida, definida e conceptualizada na sociedade israelita de uma perspectiva relacionada com o genocídio».

 

Usar e abusar da memória para, de forma descontextualizada, praticar actos condenáveis é a melhor forma de dar razão aos que querem ver destruído o Estado de Israel, conclui. Zertal traça no seu ensaio um minucioso percurso através das diferentes funções que o discurso político atribuiu ao intento de exterminar os judeus nos campos de concentração, começando em Israel com as intervenções de Ben Gurion no momento da fundação do Estado. Essas funções contribuíram, por um lado, para interpretar a história dos judeus como uma sucessão de episódios que, desde os tempos mais remotos, prefiguravam a formulação da utopia sionista de finais do século XIX e a sua concretização em 1948. Mas, por outro lado, contribuíram também para aquilo que Shlomo Ben Ami define no prefácio como «a base ideológica de uma sociedade de vítimas com imunidade moral na sua confrontação com o mundo árabe e com o mundo em geral». Zertal conflui com Arendt, no conceito que esta aplicou a Eichmann, da banalização do mal que leva homens normais a aceitar assassínios em massa. Mas há uma terceira voz coincidente – Zygmunt Bauman.

 

 Zygmunt Bauman(1925) é um sociólogo polaco que iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde

teve artigos e livros censurados, sendo, em 1968, afastado da universidade. Emigrou, reconstruindo a carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Ali conheceu o filósofo islandês Ji Caze, que influenciou sua produção intelectual, que lhe valeu os prémios Amalfi (em 1989, pela obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra).

 

Actualmente é professor emérito de Sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Nos últimos dias chamou as atenções por dois motivos: coube-lhe o discurso inaugural do Congresso Europeu de Cultura, realizado na cidade polaca de Wroclaw, com a presença de intelectuais como Umberto Eco, Vaclav Havel, Zbigniew Libera, Amos Oz, Anda Rottenberg, Tadeusz Różewicz ou Zbigniew Rybczyński.

 

O programa do Congresso foi elaborado com base no livro de Bauman “A Cultura na modernidade fluente” e foi ele que inaugurou o Congresso. Demonstrando que a cultura é uma das mais vivas e diversificadas áreas da civilização, delineou um cenário do seu desenvolvimento e concluiu que a cultura é o melhor produto europeu de exportação. Ou outro motivo foi a afirmação que fez Bauman expôs de que Israel “se aproveita do Holocausto para legitimar actos inconsequentes” e comparou o muro de separação construído na Cisjordânia com aqueles que circundavam o Gueto de Varsóvia, onde centenas de milhares de judeus pereceram durante o Holocausto.

 

Numa extensa entrevista à importante revista polaca, “Politika”, declarou que Israel não está interessada na paz: “Os políticos israelitas estão horrorizados com a paz, eles tremem de medo com a possibilidade de paz, pois sem a guerra e sem a mobilização geral eles não sabem como viver” (…) “Israel não vê os mísseis caindo nas comunidades ao longo da fronteira como coisa má. Pelo contrário, ficariam preocupados e mesmo alarmados se não fossem os ataques”.

 

Estes três contributos judaicos merecem de per si estudos pormenorizados, pois demonstram que a guerra não é inevitável e de que seria possível, mantendo o erro cometido pelos políticos britânicos em 1917, o erro que se chama Estado de Israel, criar ali uma zona de paz. Os Estados Unidos, na sua cega protecção ao pequeno território, estão a agravar a situação, enraivecendo e radicalizando os activistas muçulmanos. Propiciar um arsenal nuclear a Israel é uma atitude que só pode ser qualificada como estúpida. Para que precisa Israel de bombas nucleares – para responder às pedras da intifada?



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara em 20/09/2011 às 18:35
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Aconteceu em 15 de Setembro – por Carlos Loures

 

Todos os dias há efemérides a comemorar (ou a lamentar). O dia de hoje é, no entanto, particularmente rico nessa matéria – senão vejam uma lista, não exaustiva de nascimentos de pessoas famosas.

 

Em 15 de Setembro de 1254, nasceu na República de Veneza, Marco Polo, o famoso mercador, embaixador e explorador. Na companhia de seu pai, Niccolò, e de seu tio, Matteo, foi um dos primeiros ocidentais a percorrer a Rota da Seda. Partiram no início de 1272 do porto de Laiassus, na Arménia. O relato detalhado das suas viagens pelo Oriente, incluindo a China, foi durante muito tempo uma das raras fontes de informação que, sobre a Ásia, existiu no Ocidente. Regressando à Sereníssima em 1258, Marco Polo participou na guerra contra Génova, sendo aprisionado.

 

No cárcere, ditou as suas aventuras de viagem a outro prisioneiro, Rustichello da Pisa. Traduzidas para o latim, em 1315, correram a Europa sob a forma de códices. Já traduzidas em diversas línguas, foram impressas em 1471. A primeira tradução portuguesa impressa data de 1508, com o título de Livro de Marco Polo. Marco Polo morreria em Veneza no dia  29 de Janeiro de 1324.

 

 

 

 

 

Em 15 de Setembro de 1765, nasceu em Setúbal,  Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage. Um dos maiores, senão mesmo o maior poeta e o mais representativo do arcadismo em Portugal. Elmano Sadino seu nome árcade, marcou a transição deste movimento tipicamente setecentista para o Romantismo que quase iria  monopolizar as letras portuguesas na primeira metade do século XIX. Bocage, pelo seu génio criativo e  pela aura de boémio devasso, consolidada pelas suas Poesias satíricas, eróticas e burlescas, entrou no imaginário popular como personagem anedótica, herói de múltiplos episódios pícaros. Morreu em Lisboa no dia 21 de Dezembro de 1805. Aqui deixo um soneto seu:

 

Marília, nos teus olhos buliçosos


Os Amores gentis seu facho acendem ;
A teus lábios voando os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos:

Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem :
E em arte de Minerva se não rendem
Teus alvos curtos dedos melindrosos :

Resiste em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura:

És dos céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura
Para criar tua alma e teu semblante.

 

 

 

 Em 15 de Setembro de 1850 - nasceu Abílio Manuel Guerra Junqueiro  em Freixo de Espada à Cinta. Bacharel (licenciado) em Direito pela Universidade de Coimbra, desempenhou cargos administrativos e políticos, foi deputado, jornalista e poeta. No conturbado período que antecedeu a proclamação da República, a sua poesia directa e panfletária terá sido um dos múltiplos factores que confluíram na queda da instituição monárquica. Representante da chamada Escola Nova, deixou uma obra vasta. Morreu em Lisboa no dia 7 de Julho de 1923. Transcrevo um soneto de A Velhice do Padre Eterno:

 

Parasitas

 

 

 

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

 

 

 Andavam a mostrar, em cima dum jumento

 Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

 Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

 Os magros histriões, hipócritas, evassos,

Exploravam assim a flor do entimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 15 de Setembro de 1890,  nasceu em Torquay, Inglaterra,  Agatha Mary Clarissa Mallowan, que viria a ser conhecida como Agatha Christie. Pode dizer-se que foi a romancista policial mais famosa do mundo, autora de mais de oitenta livros. A sua obra é a mais traduzida em todo o mundo, apenas ultrapassada pela  Bíblia e pelas obras de Shakespeare. No total, o número de cópias ascende a mais de 4 mil milhões em diversas línguas. Criou famosos personagens  como Hercule Poirot ou Miss Marple. Morreu em , 12 de Janeiro de 1976. Remeto-vos para um texto que escrevi há cerca de um ano sobre Ágata Christie, que sairá já em seguida, às 21:30.

 

Termino esta lista com um cineasta – Em 15 de Setembro de 1894, nasceu Jean Renoir Mostro-vos um trailer do filme La Grande Illusion, realizado em 1937 por Jean Renoir. Era interpretado por grande artistas como Jean Gabin, Eric von Stroheim, Pierre Fresnay…

 

 

 

 

 Mas, além do nascimento de celebridades, aconteceram outras coisas: em  1276, o português, Pedro Julião, (Pedro Hispano), foi eleito Papa, adoptando o nome de João XXI. Pontificado curto - no ano seguinte morreria num acidente que alguns historiadores entendem que pode não ter sido acidental. Não indo tão atrás, foi neste dia, em 1928 que Alexander Fleming anuncia a descoberta da penicilina. 1988 - O Parlamento Europeu condena a ocupação de Timor-Leste pela Indonésia e defendeu o direito do povo timorense à autodeterminação. E é apenas uma selecção.

 

E hoje, 15 de Setembro de 2011, será recordado porquê?

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Augusta Clara em 20/09/2011 às 18:34
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