“ Poemas brasileiros de Ana Hatherly”
O que aqui chamamos de “poemas brasileiros” de Ana Hatherly são composições que formam aquela parte de um de seus últimos livros de poesia, Itinerários (Edições quasi, Vila Nova de Famalicão, 2003), composições essas inseridas na Parte III do dito volume com a denominação geral de “Evocação do Brasil”, por um total de dezesseis poemas. Sendo poemas de viagem, mostram-se igualmente mais que isso: são as reconquistas de sentimentos de lugares, pessoas e coisas sempre vividas de longe.
Ana Hatherly, ex-professora de “literatura portuguesa” da Universidade de Lisboa, especialista do barroco e uma das mais ativas vozes da poesia portuguesa contemporânea, está igualmente ligada à pesquisa da modernidade poética brasileira pela grande adesão que sempre deu à poesia experimental do movimento concretista, sendo ela uma das figuras centrais da poesia visiva em Portugal. Na sua obra ligada à “poesia visual”, podemos citar: Mapas da imaginação (1973), A reivenção da leitura (1975), O escritor (1975), Escrita natural (1988). Ao lado dos presente Itinerários, a lírica de Ana Hatherly está em outros vinte-e-um volumes, desde o primeiro, Um Ritmo Perdido (1958), até Théatres de la Parole, Paris, Vallongues, 2002 (Prix Evelyne Encelot).
Em seguida, sob a total responsabilidade de meu gosto pessoal (mas igualmente de outras razões muito menos poéticas...), apresento uma amostra da riqueza desses poemas brasileiros da autora portuguesa.
EM IPANEMA
(Já não muito garota…)
“.......................................
II
O Brasil é um país da natureza
parece a Grécia nisso.
O que é da terra é gente
seja planta bicho ou monte.
Cada monte é um gigante que sente
tudo é do gigantesco ente.
Cada folha sente
é um leque rente.
O gigante dormente
meio mergulha na lagoa que sente
entre mar e gente
entre ar e ente.
Na cidade
a favela transborda de gente:
Quando irão descer sobre a outra gente?
III
O bairro é Ipanema
a rua é Pirajá
a árvore amendoeira
- Amendoeira? indaguei descrente
(pensei no Algarve
na neve da lenda) –
Nesta amendoeira as folhas são enormes
as páginas são volumes
É Inverno
Julho, mês de Júlio e Império
(sou um ser cultural)
Passeio e olho:
nas árvores há folhas vermelhas
não são folhas são frutas abertas
largas romãs reais
(penso: é uma pintura fauve).
Passeio e olho:
as plantas – que fortes! –
parecem bichos
animais robustos
Suas raízes devem ser enormes
........................................
V
Ó Ipanema
não posso resistir:
É de manhã
quero ser um naïf!
Ipanema é canção de muita gente
rua cheia
praia cheia
lua cheia
tenho a alma cheia de gente
tudo anda
gente anda
carro anda
corpo mexe
anca dança
tenho a alma numa balança
sobe desce
corre passa
volta vira
olha mira
Sou criança
quero entrar na dança
........................................
XI
A terra é tua
cai
deixa-te cair
deixa deixar-te
Cede
é cedo ainda
A terra erra
sem erro”
EM BRASÍLIA
“.......................................
III
Canto-te
vou ser o teu cantor
deslumbrado e obsoleto
Canto-te
e estou morrendo
em tua nascença
minha herança
minha longínqua linhagem
Canto-te
estou no chão
de tuas torres.
deito-me sobre ti
e despeço-me”
A jovem investigadora universitária italiana de literatura portuguesa, Simonetta Masin, igualmente poetisa e tradutora de poesia, tem pronto um volume com a tradução para o italiano – completado com um estudo introdutório - do livro de poemas de Ana Hartherley, A Néo-Penélope.
“ Exposições de Afro e Gina Pane no MART, de Rovereto“
Rovereto encontra-se próxima das cidades maiores Trento e Bolzano, na zona italiana que limita com a Áustria. Estrutura urbana com uma bela arquitetura, no estilo típico dos palácios e prédios austro-húngaros, em sua predominâcia ligados ao estilo neo-clássico. Auto-definida “Cidade dos Museus”, com várias sedes museais nos campos da arte (de particular realce a “Casa Futurista de Depero”), da história e da ciência, Rovereto encanta o visitante pela harmonia das linhas de sua estrutura geral.
Até dez anos atrás, para quem parte de Veneza e deseja chegar a Rovereto, a viagem podia ser feita em velozes e cômodos trens diretos que, passando pelo eixo ferroviário central de Verona, tomavam a direção de Bolzano para chegar até a austríaca Insbruck. Assim eu fazia sempre que deixava os ares venezianos excessivamente quentes em julho e agosto, para o refrigério das férias na Val Pusteria. Hoje, porém, já não se tem a mesma escolha, isto depois da privatização da Ferrovia italiana. Hoje o viajante que parte na direção da linha do Brenero, como fiz eu na manhã do dia 16 de março passado, indo a convite do MART-Rovereto, museu de arte moderna e contemporânea do grupo de dois espaços expositivos, um a Trento, o outro a Rovereto, para participar no encontro entre jornalistas e críticos de arte com a direção do Museu na ocasião da apresentação e abertura das Exposições: “Afro – O período americano“ e “Gina Pane – ‘É por vosso amor: o outro’ “, manifestações abertas ao público no período 17.03 – 08.07/2012, hoje o dito viajante deve passar por várias horas vazias em subir e descer dos comboios que o levam de Veneza, passando por Verona, até Rovereto.
Chegado à cidade sede das Exposições, o viajante algo tomado de desconforto, sai da estação e logo se defronta com uma atmosfera que lhe faz mudar de humor: belos jardins, amplas avenidas, trânsito tranquilo e muito em ordem. Imediatamente à sua frente está a Avenida Rosmini (de Antonio Rosmini, 1797/1855, sacerdote católico, filósofo teórico da linha liberal na ação da Igreja, o mais ilustre filho de Rovereto) que o levará, quando chegar ao seu fim, ao início da Avenida Bettini, no número 43, no qual encontrará a bela estrutura do MART-Rovereto. Esta estrutura de um dos mais modernos museus italianos ocupa uma vasta área, tendo como referência marcada o prédio de 4 andares que aloja o espaço expositivo, o arquivo e a biblioteca. Tratam-se de espaços de grande dimensão, capazes de hospedar exposições as mais amplas. Desta parte principal deriva duas alas com edifícios que hospedam o arquivo, a biblioteca, a administração do Museu, restaurante, além de mais uma importante Biblioteca Civica, ponto de encontro da juventude da cidade de Rosmini. Todas essas construções se compõem com uma grande cúpula convexa que cobre o imenso pátio-praça, com a sua fonte ao centro. Por essa praça circulam os visitantes do museu, os jovens que frequentam a Biblioteca Cívica ou simplesmente fazem da mesma o ponto fulcral de seus encontros.
Depois da conferência da imprensa com a direção do Museu e com os organizadores das exposições de Afro e de Gina Pane, os convidados se encaminham livremente para os espaços expositivos.
Entro nas salas que hospedam Afro pronto a confrontar-me com obras por mim jamais vista de um artista de meu interesse. A exposição da maior importância, pelo centenário de nascimento de Afro Basaldella (1912-1976), prêmio da Bienal de Veneza de 1956, organizada e coordenada por Gabriella Belli, se concentra sobre o período americano de sua obra, fase de grande importância tanto para a obra do artista friulano, quanto para a história das relações artísticas e de mercado entre Itália e USA. Esta fase cobre mais de dez anos da vida do pintor, mas se projeta por toda a vida do artista.
A mesma organizadora da exposição de Afro abre o magnífico catálogo da exposição que se completa com textos dos críticos Rosemary Ramsey Stewart, que estuda as relações existentes entre Afro e sua galerista principal em terras estadunidenses, Catherine Viviano, bem como a grande penetração do artista no mercado do país que então guiava o comércio artístico internacional; tal fenômeno de venda e de presença de Afro não somente no grande mercado, mas igualmente em vários grandes museus americanos, permite ao crítico Raffaele Bedarida de estudar a possível imagem da Itália nos Usa, justamente naqueles anos do boom econômico italiano dos anos 50 e 60; tudo quanto concluído com a pesquisa de Adrian R. Durant quanto às relações existentes entre “Afro, a América do Norte e a recíproca influência na pintura do post-guerra”.
A exposição comemorativa do centenário de nascimento de Afro mostra um material praticamente inédito ao público europeu, com quadros de grandes museus estadunindenses e de dois de propriedade do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), assim como os Estudos para o mural, “Il Giardino della Speranza” (O Jardim da Esperança), da sede da UNESCO, em Paris. A partir deste rico material se pode percorrer e compreender ainda mais a obra de um artista que, partindo das mais jovens experiências cubistas, oscila entre um figurativo apenas esboçado e uma abstração sempre mais presente, para finalmente dedicar toda a sua criatividade a um expressionismo abstrato de grande intensidade cromática e sempre beneficiada de um domínio excepcional da luz.
Gina Pane (1939-1990), artista francesa de origem italiana, é muito conhecida principalmente pelas suas perfomances marcadas sempre de inusitada intensidade. A sua presente retrospectiva, nascida de uma idéia de Gabriella Belli e organizada por Sophie Duplaix, com a colaboração de Anne Marchand, companheira de vida da artista, além da documentação fotográfica e material de suas principais perfomances, mostra igualmente e com grande riqueza uma produção que se coloca entre os maiores exemplos da Body Art. Nas obras da artista francesa convivem os mais opostos elementos expressivos, desde o lúdico até o dramático. Marcante é igualmente a versatilidade da artista no uso de diversos materiais, em especial o vidro e os metais. Tudo numa insólita síntese entre pintura e semiologia.
Estamos no ano do centenário de Jorge Amado.
É sem dúvida um dos maiores escritores de língua portuguesa. Por isso parece-nos pertinente recordar palavras suas a propósito de um romance de um argonauta, o Professor Sílvio Castro que foi lançado em Itália antes de ter sido publicada a edição em português. Referimo-nos a Memorial do Paraíso (Memoriale del Paradiso)
Jorge Amado publicou no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, logo após o lançamento dessa edição em Itália, o artigo que temos a honra e o prazer de transcrever.
O Memorial do Paraíso - Jorge Amado
Li o romance de Sílvio Castro, Memoriale del Paradiso, na belíssima edição italiana do Centro Internazionale della Grafica de Venezia, com ilustrações preciosas de Luigi Rinciotti. As ilustrações completam o texto não menos precioso: a escrita do romance de Sílvio Castro tem um tratamento de iluminura, a graça e a fluidez.
Não é a primeira vez que leio romances de autor brasileiro em língua estrangeira antes que seja publicado em português. Durante a ditadura militar aconteceu-me idêntica experiência com livros cuja editoração no Brasil fizera-se impossível. Recordo ter lido, igualmente em língua italiana, romance de Ignácio de Loyola Brandão, inédito em língua portuguesa devido às circunstâncias de ordem política, a ordem política dos gorilas: creio que o excelente romancista que é Ignácio de Loyola se fez conhecido e admirado na Europa antes de se tornar um dos escritores preferidos do público nacional. Eu próprio, levado pelas contingências da vida pública, publiquei um livro, O Cavaleiro da Esperança, na Argentina, em 1942; somente em 1945 foi possível editá-lo em português.
Tendo lido Memoriale del Paradiso em italiano, desejo antes de mais referir-me à qualidade da tradução, muito boa, de Sandra Bagno e Laura Scalambrin, em língua(s) portuguesa(s), formadas ambas sob a direcção de Sílvio Castro, cujo extraordinário trabalho no estudo, na pesquisa e na divulgação da cultura brasileira no norte de Itália não cabe neste breve texto; o que ele tem realizado nesses trinta anos de cátedra em Veneza e em Pádua é matéria para muitas páginas. Mais vale lembrar que Sandra Bagno está debruçada sobre os materiais que deverão resultar no estudo definitivo que a figura tão importante que a figura tão importante e tão injustamente esquecida de Almachio Diniz está a reclamar.
Memorial do Paraíso é o primeiro volume de uma trilogia que, completada, será com certeza de notável importância como reconstrução histórica e literária: a este primeiro romance seguir-se-ão Os Senhores Singulares e Aventuras e desventuras do veneziano Piero Contarini entre os selvícolas brasileiros. Por fim teremos a recriação em termos de ficção dos dias iniciais da vida brasileira após a descoberta, um painel do Brasil em seus começos, quando ainda não existia nação, apenas as tribos e os recém-chegados europeus, os portugueses e os demais.
Este Memorial, primeiro volume da trilogia, nasce da carta de Pero Vaz de Caminha a dom Manuel, rei de Portugal (dela, por sinal, Sílvio Castro fizera publicar em 1984 uma primeira edição crítica em italiano), a acção narrativa se desenvolve através de uma série de cartas, espécie de diário, dirigidas pelo escriba português a Maria, “filha amada e infeliz”, nas quais pretende “tudo contar” e tem muito que contar. No bojo desse diário de epístolas se projeta um espetáculo teatral, a “Festa para o Príncipe Perfeito”, o texto ganha força de ação, enriquece-se com o diálogo, e complementa e amplia o que é revelado nas cartas a Maria.
Sílvio Castro conseguiu construir uma arquitectura original para o romance, nela os tempos e os espaços romanescos encontram a medida justa e certa da narrativa, a pluma de Pero Vaz de Caminha faz a unidade da peça e das missivas, mantendo sempre em alto nível a compreensão e a escrita. Tome-se de qualquer das páginas para que se comprove a maestria do autor: “Principe, lá sono i vostri nuovi sudditi”; releio o capítulo no gozo da leitura, no prazer da frase a revestir o assunto.
Pena citar em tradução italiana. Já que o faço, aproveito para recomendar aos editores brasileiros a publicação, o quanto antes, deste romance de Sílvio Castro. O ficcionista nada fica a dever ao mestre pesquisador, ao catedrático, ao ensaísta, ao historiador da literatura; além da erudição, o autor possui o dom da inventiva. E que à edição deste primeiro romance sigam-se as dos dois outros para que se complete a trilogia e nos seja dado saber como éramos e de que maneira tropeçamos os primeiros passos no caminho da nacionalidade brasileira.
“O 25 de Abril italiano”
A festa da Libertação da Itália, a grande festa da Resistência italiana ao nazifascismo, chega neste 2012 ao seu 67° aniversário; e todo o país a celebra num tom de justa exaltação. Certamente o ambiente atual da vida nacional pouco tem a que ver com a tomada de consciência daquela inicial, porque as transformações vividas nesses tantos anos decorridos desde 1945 nem sempre levaram a manifestações correspondentes ao alto teor cívico e moral da revolução vitoriosa.
Nesses sessanta e sete anos a vida italiana passou por muitas mudanças, mudanças essas que conduziram o país a colocar-se como a quarta economia da Comunidade Européia, conquistando assim uma vida de serenidade material para a grande maioria de seus cidadãos. Igualmente a histórica vitória revolucionária levou a Itália a organizar-se politicamente, a partir de 1945, com um quadro político constituído de partidos de fortes estruturas, como o Partido Comunista Italiano (PCI), a Democracia Cristiana (PDC) e o PSI, Partido Socialista Italiano. O imediato grande resultado desse quadro político foi a Constituição de 1947, universalmente considerada como uma das mais avançadas dos tempos modernos. Esta se abre com aquele Art. 1, de rara inovação, que proclama ser a Itália uma República baseada no trabalho. De todos esses valores partiram as gerações que se completavam: aquela de quantos viveram diretamente as lutas contra a onda nazifascista que destruia a Nação, e aquela outra dos muitos jovens que se preparavam para levar adiante todos os ideiais revolucionários. De tudo isso resultava uma Itália politicamente avançada e de estável consciência social.
Com o extraordinário desenvolvimento trazido pelo boom econômico, a partir do final da década de 50, a vida italiana goza de todas as vantagens e desvantagens de um consumismo sempre mais incentivado pelas constantes evoluções do mercado internacional, cada ano mais globalizado. A uma tal euforia, a cada ano o país era chamado a reflexões pelo suceder da festa do 25 de Abril. Porém, tais chamadas se faziam sempre menos universais pela perda da inicial consciência anti-fascista que sempre caracterizara o evento. A nova tendência era diminuir ao máximo qualquer choque histórico não só com aqueles que viveram o fascismo e depois aderiram ao regime da República de Saló, mas igualmente todos os mais jovens que continuavam a proclamar tais valores, numa clara tomada de posição neo-fascista.
Ao lado de todos esses fenômenos, a vida política italiana assistia a uma desintegração lenta das estruturas de seus partidos – em especial o PSI e Democracia Cristã - particularmente envolvidos num processo de corrupção incessante. Tudo isso explode a partir de 1993, o que leva a Itália a forte processo de regressão tanto política, quanto econômico-financeira.
A Festa do 25 de Abril continuava sempre a ser proclamada com todos os seus valores e assim era comemorada com o passar dos anos e dentro desses tempos novos. Porém, começava igualmente a modificar-se, porque os jovens italianos que se estavam preparando para entrar no novo século, pouco ou quase nada recordavam e sabiam da grande epopéia nacional da Resistência.
Porém, chegado a este 2012 – quando igualmente se comemora os 150 da Unidade da Itália - o 25 de Abril italiano se mantém sempre vivo na recordação de um momento heróico de seu povo e dos muitos jovens que sacrificaram a própria existência pelo ideal de um bem comum. Enquanto isso, dentro de uma crise econômica de fortes proporções, o país procura renovar a sua vida politica e a reencontrar os ideais que a Festa da Resistência a cada ano repropõe em maneira oficial.
Existem muitos pontos de contatos entre o 25 de Abril português e aquele sempre festejado por toda a Itália como um de seus grandes momentos nacionais. Para darmos uma consciência da proximidade das duas grandes Festa, propomos como mensagem comum aos dois eventos um iluminante poema de Sophia de Melo Breyner, com uma sua tradução italiana por méritos de Simonetta Masin,
25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.
25 aprile
Questa é l’alba che io aspettavo
Il giorno iniziale intero e pulito
Dove emergiamo dalla notte e dal silenzio
E liberi abitiamo la sostanza del tempo.
Quando trabalho não sinto o suor
de meu esforço, já que procuro pôr
nele todo o meu eu em liberdade,
que depois dele vive a sua cidade.
Minha cidade é o espaço aberto
livre de qualquer mendacidade, no qual
sei que sou um gesto que então
vive o pleno do ser previsto e igual.
Mais que suor sinto no trabalho
que faço em liberdade, indolor,
o respirar profundo deste gesto
que me acompanha e no qual resto
agora e sempre como certa dor
para sempre renegada, ora flor.
(em Poemas construtivos, 2007)
(Desenho de Dorindo Carvalho)
“Os 75 anos do bombardeamento de Guernica“
Neste 26 abril de 2012 ocorrem os 75 anos do bombardeamento de Guernica pela poderosa aviação nazista de Hitler, presente na Guerra Civil que devastava a Espanha ao lado das forças fascistas de Franco. Aquele 26 de abril de 1937 ficou na história pela violência sem fim que a Luftwaffe hitlerista usou contra a indefesa cidadezinha basca, destruindo-a quase completamente e assassinando centenas e centenas de vidas inocentes. A avassaladora blitz da aviação nazista servia aos alemães, sequazes de Hitler, como avant-première de quanto vinha sendo planejado em Berlim para chegar à catastofre mundial que começaria daí a dois anos, com a invasão da Polônia. As forças hitlerianas e as tropas fascistas de Mussolini dão o maior apôio à ação anti-democrática da Falange franquista e se servem de uma tal oportunidade para alardear aos remanescentes democratas italianos e alemães quão poderosas eram as capacidades de seus líderes nacionais. Em meio às tantas ações que fizeram dos anos da Revolução espanhola um claro pré-anúncio do que logo em seguida viveria toda a Europa e, de imediato, todo o mundo, o bombardeamento de Guernica ficou para sempre na nossa sensibilidade como um icone absurdo.
Neste mesmo 1937 o icone se universalizou diante dos olhos do mundo, assim ficando também para as gerações futuras, quando Picasso revestiu o pavilhão espanhol no Salão Internacional de Paris daquele ano com uma das suas obras-primas, Guernica, grito de repulsão contra a violência e os atos de anti-humanidade. O grande painel se desenvolve com vigorosos cromatismos derivados do preto e do branco como uma desesperada denúncia. Fechado no recinto de um só ambiente, o preto-e-branco picassiano mostra o espaço coberto de despojos, verdadeiros fragmentos da consciência, dos quais se eleva o touro, simbolo da violência e da brutalidade absolutas. A obra-prima picassiana – hoje no Museu “Reína Sofia“, de Madrid – além de comover todos os contemporâneos de sua apresentação, condiciona toda a obra do autor até 1945, e somente depois de passada a catástrofe mundial essa pintura retorna aos tons mais diversificados que a caracterizaram sempre.X Para comemorar os 75 anos da tragédia de Guernica, a cidade basca apresentará a partir de 12 de abril um vasto programa artístico relacionado com o evento.
Tal programa parte com a apresentação de uma série de filmes proibidos pela ditadura franquista, com um grande desfile de representantes do “cinema d’essai”: 1) “O dia da Vingança”, protagonizado por Gregory Peck, direção de Fred Zinemmeman; 2) “Roma, cidade aberta”, de Roberto Rosselini; 3) “Chuva preta”, direção de Umamura< 4) “Harpa birmana”, de Ichikawa; 5) “Germania ano zero”, de Rosselini; 6) “A Cruz de ferro”, de Sam Peckinpah; 7) “Veredas de Glória”, direção de Stanley Kubrick. No dia 26 de abril as comemorações de Guernica hospedarão igualmente 3 peças cinematográfica de Alain Resnais: “Resnais/Guernica 37” e um Documento, dividido em em dois momentos de testemunhos de contemporâneos do histórico evento.
Ao lado de tais manifestações, as comemorações de Guernica se alargam a uma grande mostra internacional, apresentada inicialmente em Bilbao, passando em seguida por Guernica, e concluindo-se em San Sebastián. Para esta mostra, organizada pelo artista e crítico italiano Massimiliano Tonelli, participarão igualmente artistas venezianos. Artistas componentes do “Atelier Aperto”, da associação “Venezia Viva”, esses apresentarão obras especialmente preparadas para a oportunidade. Essas obras devem basear-se exclusivamente sobre o bombardeamento de Guernica, sem referências e citações do inimitável painel de Picasso. Na oportunidade estarão presentes os venezianos: Milo Bianca, Giussi Naletto, Gita Kohls, Liliana Conti Cammarata e Willy Pontin.
16h00 - O coronel Abrantes da Silva, a pedido de Salgueiro Maia, entra no Quartel para dialogar com os sitiados.- Forças do CIOE dirigem-se aos estúdios da R.T.P. (Monte da Virgem) e do R.C.P. (Tenente Valadim), no Porto, para proceder à sua ocupação.
16h15 - O capitão Salgueiro Maia dá ordens ao alferes miliciano Carlos Beato para instalar os seus homens no cimo das varandas do edifício da Companhia de Seguros Império e fazer fogo sobre a frontaria do Carmo, agora com armas automáticas G-3.
16h25 - O comandante da força da EPC, na ausência de resposta por parte dos sitiados no Quartel do Carmo, ordena a colocação de um blindado em posição de tiro e chega a dar "voz" de "um, dois"..., sendo interrompido pelo tenente Alfredo Assunção que conduz dois civis até ele. Trata-se de Pedro Feytor Pinto, director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, e Nuno Távora, que se dizem portadores de uma mensagem do general Spínola para Marcelo Caetano.
16h30 - Salgueiro Maia autoriza a entrada no Quartel dos dois mensageiros.
c. 16h30 - Spínola comunica ao Posto de Comando do MFA ter recebido um pedido de Marcelo Caetano para ser ele a aceitar a rendição do chefe do governo. Otelo, após recolher a opinião dos presentes, concede-lhe esse mandato.
16h45 - Os dois mensageiros saem do Quartel do Carmo e deslocam-se num jipe, acompanhados por Alfredo Assunção, para casa de Spínola que, entretanto, se dirige já para o Carmo.
Sílvio Castro, um argonauta carioca que vive em Veneza e é professor de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Pádua, descreve o dia histórico num poema em que ele, o poeta brasileiro Sílvio Castro, preside a uma assembleia de poetas portugueses, com intervenções sobre 25 de Abril: poesia do socialismo português. Oxalá na Serra da Estrela, onde se faz a reunião, a temperatura seja positiva...
I
Na luminosida deste dia
de Setenta-e-quatro
não me fecho no meu quarto
mas me encontro no alto
alto da Serra da Estrela
com meus companheiros vindos
de muitos tempos e tantas partes –
escuto a voz de cada um deles
que me chega até o alto da Serra –
eis Antero que ecoa sacro
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
logo depois tenho também a companhia
de Cesário, deambulante entre o campo e a cidade
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
com ele vem Gomes Leal
que grita a todas as alturas
Soou a hora, ó rei. A aurora vem raiando.
a eles se junta vindo do Brasil o Crespo que
anota com convicção segura
Mas nota que somos filhos
Dos combatentes d’Avis,
E que firmes seguramos
O pendão da liberdade
Somos todos um verdadeira comunhão
de companheiros
que aumenta quanto mais alto chegamos
e a ela agora se acrescenta a universalidade
de Torga
Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras
Passam as horas, mas não cessa a espera
de novas dádivas testemunhas -
então a a nós unidos vem estar a doce
iluminante convicção de Sophia
que ainda mais nos une
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Agora escuto atento o aparecer amigo
de dois Manuéis muito chegados
ao meu estar hoje nesta montanha –
da voz clara de Alegre escuto
e me rejubilo pela certeza dos ditames
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir
canto de encontro ao qual se junta
aquele também claro de Simões
contra os inimigos do homem
e de sua liberdade
E como não ferir os parágrafos da fome
que as crónicas dissipam ante o clamor geral,
o ciclo das carências, polígono
tão marcado, ou a indignidade
submetendo todo um povo ao seu exílio.
V
No alto da Serra da Estrela me junto
a tantos companheiros
então estamos atentos a Loures
Desse momento falo, do instante breve e puro
em que o Paraíso pareceu estar à mão dos nossos dedos;
não, não é do passado que vos falo – juro,
pois foi no futuro que Abril aconteceu.
“Cientista e escritor português recebe prêmio em Veneza”
O neuro-biólogo e escritor Antonio Damásio, de grande fama internacional pelos seus estudos sobre a fisiologia das emoções e sobre a doença de Alzheimer, nascido em Lisboa e atualmente residente em Los Angeles, onde ensina na Universidade da California do Sul, ao mesmo tempo que dirige o Brain and Creativity Institute, recebeu o prêmio internacional “Bauer Ca’ Foscari-2012”no ato de inauguração do Congresso Internacional Incroci di Civiltà (Ponto de encontro de Civilizações) – Encontros internacionais de literatura em Veneza, sessão inaugural que teve como sede a belíssima Scuola Grande de San Rocco, morada estável das principais obras-primas de Tintoretto.
O Encontro veneziano - que vai de18 a21 de abril deste 2012 – congrega na oportunidade 24 autores originários de 17 países diversos. Estes escritores são: Antonio Damásio, Ghada Abdel Aal, Ariane Ascaride, Roberto Calasso, Andrea Cavazzuti, William Emmerik, Per Olov Enquist, Alícia Giménes-Bartlett, Robert Guédiguian, Howard Jacobson, Alain Mabanckou, Hisham Matar, Maaza Mengiste, Giselle Meyer, Malika Mokeddem, Andrea Molesini, Cees Nooteboom, Steven Sem-Sanderberg, Alawiya Sobh, Vladimir Sorokin, Santino Alexian Spinelli, Juan Villoro, Xu Xing.
Ao inaugurar o Congresso e receber das mãos do Reitor da Universidade veneziana o Prêmio do Grupo Bauer e de Ca’ Foscari (esta é a segunda maneira usada para dizer a Universidade de Veneza), Antonio Damásio pronunciou uma conferência sobre o fenônemo da tomada de consciência do próprio ser e a mente. Para o famoso neuro-fisiólogo português, a mente é o centro revelador de toda a consciência do homem. Através da ação do cérebro, a mente registra e “corporifica” toda e qualquer forma de emoção: “Toda nossa ação é modelada pelo cérebro. A sua fusão com o corpo é constante”. A mente, então, cria muitos “mapas” que nos permitem de conscientizar a nossa complexidade emotiva. Assim, o cientista português considera a biologia como a ciência humana maior: “Os sistemas morais e religiosos, as leis e as artes não são outra coisa senão projeções da biologia”.
O cientista Antonio Damásio que se manifesta igualmente como um escritor de grandes recursos expressivos e criatividade de escritura nos recorda uma das linhas tradicionais das culturas portuguesa e brasileira que sempre tiveram presentes em seus quadros exemplos de cientistas igualmente magnífcos literatos. A cultura literária de Damásio se mostra ampla e universal. Partindo de grandes exemplos da literatura portuguesa,em particular FernandoPessoa, ele se avizinha às mensagens de muitas outras expressões nacionais. Aquela estadunidense é uma das sua prediletas, e nela a figura muito particular do romancista Francis Scott Fitzgerald.
Para a criação das sínteses de seu pensamento científico, António Damásio naturalmente aproxima a ciência à filosofia. Nessa, depois do ponto de partida dialético com o pensamento doutrinário de Descartes, o cientista português demonstra particular atenção pelas doutrinas de Spinoza. Com um tão amplo espaço de pensamento, ele vem construindo uma obra que se projeta em muitas partes do mundo. Na Itália, dele já foram publicadas edições dos seguintes seus estudos, todos aoresentados pela editora milanesa Adelphi: L’errore di Cartesio, 1995; Emozione e coscienza, 2000; Alla ricerca di Spinoza, 2005; Il sé viene alla mente, 2012. Esta última edição, de cujo título também se serviu a conferência que permitiu ao númeroso público que lotava o belíssimo salão da Scola Grande de San Rocco o conhecimento pessoal do cientista e escritor português, foi lançado justamente na oportunidade do Encontro de Veneza. Damásio principia este seu estudo com citações de Pessoa, nas quais o Poeta define a alma como uma “misteriosa orquestra”, e a consciência, “como uma sinfonia”.
“O meu ‘Poema dos 80 anos’ na versão italiana de Simonetta Masin“ O meu “Poema dos 80 anos”, eu o completei em janeiro deste 2012, tendo tido a grande satisfação de vê-lo publicado já aos 6 de março do mesmo ano nas páginas deste nosso caro blog, em publicação de João Machado e edição de Carlos Loures. Logo em seguida o poema teve boa divulgação no Brasil, saindo publicado nas páginas do Jornal de Letras e Artes – JL, do Rio de Janeiro; no Suplemento Literário de Minas Gerais, de Belo Horizonte, e nas páginas da Revista da ANE (Associação Nacional de Escritores), de Brasília.
Hoje “A Viagem dos Argonautas” hospeda a primeira tradução que o mesmo poema acaba de receber, aquela em língua italiana, por obra de Simonetta Masin. Simonetta Masin é uma jovem estudiosa italiana das literaturas de língua portuguesa. Paduana de nascimento, realizou a sua formação superior na Universidade patavina, frequentando os nossos cursos e licenciando-se em “Língua e Letteratura Portoghese”, com a tese de láurea, “O Histrião ou o Simulacro da Vida“, no ano-acadêmico de 1998-99.
Pela mesma, ela recebeu uma bolsa para o Curso de Doutorado, por ela realizado sob a minha direção, tendo defendido com o maior êxito a tese, “Il declino dei chierici e l’ascesa degli intelletuali – La poesia portoghese a ridosso delle date cruciali del 1865 e del 1871”, Dottorato di Ricerca in Romanistica – ciclo XVII (2002-2004), Univ. de Padova, 2005. Convidada a integrar-se no corpo docente do Setor de Língua Portuguesa, da Faculdade de Letras, aonde se doutorara, logo em seguida ela recebe do Instituto Camões uma bolsa de 2 anos para a divulgação didática da cultura portuguesa. Como acontece com a grande maioria dos jovens pesquisadores da Itália, Simoneta desde então encontra-se na contigência de esperar por um concurso que a crise italiana e de suas universidades faz com que se perpetue contra os jovens doutores prontos para continuar a própria atividade professional.
Simonetta Masin, além de tradutora de poesia – dela a tradução italiana do volume de poemas de Sílvio Castro, Gira Mu(o)ndo, com a edição veneziana, Gira Mo(u)ndo, trad. e introd. de Simonetta Masin, Centro Internazionale della Grafica, Veneza, 2003 – é autora igualmente de artigos e ensaios sobre a sua especialidade, bem como poetisa, com poemas saídos em várias publicações italianas.
Dela é igualmente o livro inédito de poemas, pronto para uma edição, do título, Storia di copertina. Sílvio Castro -“Poema dos 80 anos” Este tempo que agora passa qual água fluente de origens várias tudo me informa num código pessoal forjado afora. Leio o código desde longes plagas e cada estação percorrida se recompõe em binários largos em que fatigantes locomotivas correm. Corro e estou parado na velocidade do trem desabusado de todos os sinais e para a frente sempre avança. Paisagens matizadas abraçam o trem de incansável foga; eu estou na corrida e a um só tempo na matização alada. Muitos são os verdes desses campos, muitas as flores e os frutos amáveis; quanto mais frutos e flores me recobrem, mais avanço para paradas novas. Forte me faço da corrida franca procurando sempre o tempo inédito que me está chegando e que eu almejo prontamente em ato. Tempo, binários, locomotivas afora, enquanto eu me fixo na contemplação veloz de tudo quanto os meus olhos sabem. Sou sempre eu a cada estação passada, mas também sou aquele novo que surge nas curvas mais agudas da viagem em indo. Quanto mais viajo, mais me curvo. Viajo sempre e então sou também pranto versado, mas composto sempre pelo amor que encontro nas mulheres. Com este amor retomo forças e recomeço o viajar que se faz vivo e sem fim.
A tradução italiana de Simonetta Masin:
“Degli 80 anni”
Questo tempo che ora passa come acqua da origini varie tutto mi informa in un codice personale forgiato nel fuori. Leggo il codice fin dalle plaghe lontane e ogni stazione percorsa si ricompone in larghi binari su cui corrono affaticate locomotive. Corro e sono fermo sulla velocità del treno disingannato di tutti i segnali sempre innanzi va. Paesaggi sfumati abbracciano il treno dall’instancabile foga: io sono nella corsa e allo stesso tempo nello sfumare alato. Molti sono i verdi di questi campi, molti i fiori e i frutti amabili; più sono i frutti e i fiori che mi ricoprono, più io avanzo verso nuove fermate. Forte mi faccio della corsa franca sempre in cerca del tempo inedito che mi arriva e che io subitamente bramo in atto. Tempo, binari, locomotive nel fuori, mentre io mi fisso nella contemplazione veloce di tutto quanto i miei occhi conoscono. Sono sempre io in ogni stazione passata, ma sono anche colui che nuovo viene nelle curve più acute del viaggio che va. Più viaggio, più mi curvo. viaggio sempre e allora sono anche pianto versato, ma sempre composto dall’amore che nelle donne incontro. Da questo amore riprendo forza e ricomincio il viaggiare che si fa vivo e senza fine.
Sílvio Castro
(traduzione dal portoghese di Simonetta Masin)
Morreu o meu gato Billi
Hoje, 11 de abril de 2012, em Veneza o tempo não é somente feio, mas horrível: o céu está inteiramente coberto, com as nuvens que impede qualquer passagem de luz, a bendita luz veneziana; chove em modo intermitente, fazendo com que as ruas sejam percorridas por pessoas que não conseguem ver uns aos outros a quatro passos e nada além do próprio guarda-chuva; um vento navalha percorre todos os espaços possíveis e cobre os rostos com o frio da neve das montanhas próximas.
Hoje, 11 de abril, tudo ficou mais triste ainda para nossos olhos, os meus e os de Anna Rosa, porque nesta manhã absurda morreu o nosso gato Billi.
Billi é – era – um belíssimo gato da chamada raça “italiana”, grande, muito grande, pelo alvo, alvíssimo, com manchas pretas elegantemente cobrindo o seu dorso forte e sua cabeça forte de gato campeão. Os olhos, amarelos e escuros, projetam todas as variantes de um contemplação felina: profundamente impenetrável quando Billi prescruta a natureza das coisas e dos espaços; doces e amigáveis quando ele dialoga com os seus amigos humanos, não somente comigo e com Anna Rosa, mas com um multidão de passantes, venezianos ou forasteiros que passam pela nossa Calle Lunga San Barnaba quando, duas vezes por dia, Billi e eu descemos as nossas escadas de casa para que ele possa fazer os seus passeios sempre desejados. Então Billi comunica não somente com os olhos, mas igualmente através da sua grande capacidade de falar: se um velho passa e lhe diz “Ciao Billi!”, ele logo responde clara e cordialmente “ciao”. Se o turista se lhe chegue para acareçia-lo, depois da obrigatória fotografia, ele se deixa prazeirosamente acareciar. Depois, se a pessoa lhe agrada muito, ele se esfrega nela voluptuosamente.
Por isso mesmo, eu que não só mais do que um guardião durante os seus passeios, muitas vezes sinto pelas ruas venezianas saudações de pessoas desconhecidas, mas que logo me perguntam: “e o gato, como vai?”
Billi, nós o encontramos que ele era ainda um gatinho que não completara o seu primeiro ano de vida. Era o gato de um grupo de estudantes universitários moradores quase defronte a nós, numa casa de três andares. Billi e seus amigos ocupavam o andar térreo. Ali Billi crescia num pátio enriquecido por um pequeno jardim. Porém, o maior prazer do pequeno Billi era subir no alto muro do jardim, alto três, e dali falar com a gente que passava pela rua. O miagolar constante de Billi não era um simples miagolar, mas um sistema de comunicação muito pessoal, rico de nuances e formas.
Mas Billi desde cedo demonstrou sempre uma particular atenção por Anna Rosa. Via quando ela saia de casa e
quando voltava, e então ele aprendia como funcionava aquela porta da casa de portal gótico. Mas Billi também tinha o seu portal gótico: o seu muro muito alto tinha dois grandes espaços, como janelas do jardim, emolduradas de motivos góticos. Billi se intrometida entre esses espaços para melhor falar com Anna Rosa. Assim fazendo, Billi aprendeu que a nossa casa tinha uma janela no andar térreo e que essa janela, ainda que gradeada e coberta por uma tela – justamente para evitar entradas e saídas indevidas... – apesar de tudo isso, deixava um dos espaços gradeados aberto. Por ali um dia entrou Billi. Mas ele não sabia que naquela casa vivia igualmente um outro gato, o nosso Mino tanto caro a nós dois, Anna Rosa e eu. Gostaria de contar para vocês todos tudo isso e mais, mas se trata de uma outra história de homens e gatos. Hoje não tenho outros pensamentos senão para Billi. Para a sua doçura, gentileza, amizade, capacidade de amar e de doar-se, mais do que quanto recebia. Não posso falar de outra coisa senão da ausência que a partir desta triste manhã sentimos, Anna Rosa, porque Billi já não virá mais procurar os nossos braços, não mais chegará dentro da noite a dormir entre mim e ela, a acordar-me docemente para que levantasse a coberta e assim ele pudesse cobrir-se mais ainda contra o frio de certas noites. Não sentiremos o seu insistente pedido de querer provar o que comíamos, de ver a televisão junto conosco e de, como nós, também adormecer-se com ela. Já estamos vivendo o grande vazio provocado pela ausência de Billi, sempre presente, mesmo quando fugidio nos seus passos felpados que percorrem todos os cômodos da casa que ela também tanto ama. Já sentimos o peso dessa ausência e o dia se faz cada vez mais triste.
“Machado de Assis, Fernando Pessoa e Edgar Allan Poe” O caro amigo e companheiro destas “Viagens”, o argonauta-editor João Machado, teve a magnífica idéia de repropor a todos os argonautas a tradução de Fernando Pessoa para o celebrado poema de Edgar Allan Poe, “The Raven” (“O Corvo”). Trata-se evidentemente de um dos mais claros, ainda que complexo, modelos de tradução para a língua portuguesa. Diante de uma tal circunstância, ocorreu-me que poderia ser do interesse geral a reproposição da tradução feita do mesmo poema por Machado de Assis, alguns anos antes daquela de Pessoa. Desta maneira teremos a oportunidade de encontrarmos o prazer de confrontar-nos com dois significativos exemplos de tradução em português em duas épocas literárias diversas, Machado de Assis ligado aos melhores exemplos da estética realista, de raiz romântica; Fernando Pessoa, aos de um tempo de revoluções vanguardistas.
Assim fazendo, verificamos as diferenças estéticas existentes entre as duas versões, típicas dos dois diversos tempos, ao mesmo tempo que temos a oportunidade de verificar aquelas próprias de dois grandes nomes das literaturas de língua portuguesa. Desde logo, e em rápida síntese, a tradução de Machado de Assis se mostra aberta na modificação formal do poema do grande artista estadunidense, criando o grande mestre brasileiro a sua versão em estrofes de 10 versos, invés dos 5 do original. Assim fazendo, Machado procura encontrar o mais adequadamente possível o ritmo característico do poema de Poe. Pessoa, por sua vez, mantém-se formalmente ligado ao original, mas endereçando a voz poética a dimensões menos dramáticas com um uso sutil da ironia e, entre outras novidades, não citando em momento algum o nome de Lenora, essencial em Poe e em Machado de Assis.
Desta maneira, e por tantas outras razões que, num futuro próximo, merecerão de nossa parte uma análise mais profunda, enquanto Machado se situa no espaço dramático do original, Pessoa se projeta como um transmissos mais transgressivo do mesmo original. Em seguida, repropomos o texto da tradução de Machado de Assis, convidando os caros leitores a sintonizar-se igualmente com a publicação daquela de Fernando Pessoa, bem como com o original em língua inglesa, ambos encontráveis na edição do nosso blog de 6 de março de 2012. “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, na tradução de Machado de Assis Em certo dia, à hora, à hora Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um voar devagarinho, E disse estas palavras tais: “È alguem que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais“. Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial dezembro; Cada brasa do lar sobre o chão refletia A sua última agonia, Eu, ansioso pelo sol, buscava Daqueles livros que estudava Repouso (em vão!) à dor esmagadora Destas saudades imortais Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora, E que ninguém chamará mais. E o rumor triste, vago, brando Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido, Nunca por ele padecido. Enfim, por aplacá-lo aqui no peito, Levantei-me de pronto, e: “Com efeito, (Disse) é visita amiga e retardada Que bate a estas horas tais. É visita que pede à minha porta entrada: Há de ser isso e nada mais”. Minh’alma então sentiu-se forte; Não mais vacilo e desta sorte Falo: “Imploro de vós, - ou senhor ou senhora, Me desculpeis tanta demora. Mas como eu, precisando de descanso, Já cochilava e tão de manso e manso Batestes, não fui logo, prestemente, Certificai-me que aí estais“. Disse; a porta escancaro, acho a noite somente, Somente a noite, e nada mais. Com longo olhar escruto a sombra, Que me amendronta, que me assombra, E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, Mas o silêncio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta; Só tu, palavra única e dileta, Lenora, tu, como um suspiro escasso, Da minha triste boca sais; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço, Foi isso apenas, nada mais. Entro coa alma incendiada, Logo depois outra pancada Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela: “Seguramente há na janela Alguma coisa que sussurra. Abramos, Eia, fora o temor, eia, vejamos A explicação do caso misterioso Dessas duas pancadas tais. Devolvamos a paz ao coração medroso, Obra do vento e nada mais“. Abro a janela, e de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias, Não despendeu em cortesias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto De um lord ou de uma lady. E pronto e reto, Movendo no ar as suas negras alas, Acima voa dos portais, Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas; Trepado fica, e nada mais. Diante da ave feia e escura, Naquela rígida postura, Com o gesto severo, - o triste pensamento Sorriu-me ali por um momento, E eu disse: “Ó tu que das noturnas plagas Vens, embora a cabeça nua tragas, Sem topete, não és ave medrosa, Dize os teus nomes senhoriais; Como te chamas tu na grande noite ombrosa?“ E o corvo disse: “Nunca mais”. Vendo que o pássaro entendia A pergunta que lhe eu fazia, Fico atônito, embora a resposta que dera Dificilmente lha entendera. Na verdade, jamais homem há visto Cousa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta Num busto, acima dos portais, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é seu nome: “Nunca mais”. No entanto, o corvo solitèario Não teve outro vocabulário, Como se essa palavra escassa que ali disse Toda a sua alma resumisse. Nenhuma outra proferiu, nenhuma, Não chegou a mexer uma só pluma, Até que eu murmurei: “Perdi outrora Tantos amigos tão leais! Perderei também este em regressando a aurora“. E o corvo disse: “Nunca mais!” Estremeço. A resposta ouvida É tão exata! é tão cabida! “Certamente, digo eu, essa èe toda a ciência Que ele trouxe da convivência De algum mestre infeliz e acabrunhado Que o implacável destino há castigado Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga Que dos seus cantos usuais Só lhe ficou na amarga e última cantiga, Esse estribilho: “Nunca mais“. Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; E mergulhando no veludo Da poltrona que eu mesmo ali trouxera Achar procuro a lúgubre quimera, A alma, o sentido, o pálido segredo Daquelas sílabas fatais, Enterder o que quis dizer a ave do medo Grasnando a frase: “Nunca mais”. Assim posto, devaneando, Meditando, conjeturando, Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava, Sentia o olhar o olhar que me abrasava. Conjeturando tui tranqüilo a gosto, Com a cabeça no macio encosto Onde os raios da lâmpada caíam, Onde as tranças angelicais De outra cabeça outrora ali se desparziam, E agora não se esparzem mais. Supus então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso, Obra de serafins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro turíbulo invisível; E eu exclamei então: “Um Deus sensível Manda repouso à dor que te devora Destas saudades imortais, Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora”. E o corvo disse: “Nunca mais”. “Profeta, ou o que quer que sejas! Ave ou demônio que negrejas! Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno Onde reside o mal eterno, Ou simplesmente náufrago escapado Venhas do temporal que te há lançado Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo Tem os seus lares triunfais, Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?” E o corvo disse: “Nunca mais”. “Ave ou demônio que negrejas! Profeta, ou o que quer que sejas! Cessa, ai, cessa! Clamei, levantando-me, cessa! Regressa ao temporal, regressa À tua noite, deixas-me comigo, Vai-te, não fique no meu casto abrigo Pluma que lembre essa mentira tua, Tira-me ao peito essas fatais Garras que abrindo vão a minha dor já crua.” E o corvo disse: “Nunca mais”. E o corvo aí fica; ei-lo trepado No branco mármore lavrado Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. Parece, a ver-lhe o duro cenho, Um demônio sonhando. A luz caída Do lampião sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e, fora Daquelas linhas funerais Que flutuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais! (de Ocidentais, 1900)
“Concerto do Quarteto Casals em Veneza”
Sendo a cidade na qual predomina o valor do silêncio, Veneza é naturalmente uma como capital internacional da música. Para quem vive em Veneza, cada concerto começa com o espaço exterior vivido e percorrido para chegar-se à sede do espetáculo musical escolhido. Caminhando pelas ruas, superando as muitas pontes do caminho pessoal, o expectador de um concerto já se sente nele integrado antes que o mesmo comece diretamente. Chega-se ao teatro, a uma igreja, à sede musical escolhida e, sentando-se no lugar escolhido e envolvido pela musicalidade do ambiente procurado, este expectador se acomoda confortado pela musicalidade do silêncio que o acompanhou até ali.
Foi, mais uma vez, o que me aconteceu na noite de 5 de março passado quando me acomodei numa das cadeiras do mágico espaço da Basílica de San Marco. Estava por começar um dos espetáculos da Temporada de Música de Câmera 2011-2012 da Sociedade veneziana de concertos, promovida pelo Teatro La Fenice. Todos os anos, do início do outono, de um; ao fim da primavera, do seguinte, o Ente veneziano promove três grandes temporadas musicais: além daquela de câmera, igualmente a sinfônica e a operística-ballet. (Esta seção do terceiro setor das manifestaçõe venezianas tem como responsável permanente o bailarino e coreógrafo brasileiro Ismael Ivo.) O Teatro La Fenice mantém convenções com outros espaços da cidade, em especial com aqueles das igrejas, para neles localizar determinados espetáculos de sua vasta programação anual.
É o que acontece na noite da segunda-feira, 5 de março de 2012, quando as luzes que iluminam o espaço da Basílica de San Marco, principalmente aquelas emanadas de seus a frescos bizantinos que descem das altas abóbodas da arquitetura irregular, mas fascinante, para como que cobrir todo o espaço circunstante, acolhem o magnífico Quarteto Casals que se exibirá na execução de uma das mais famosas composições de Franz Josef Haydn (1732-1809), os “7 quartetos opus 51”, com uma Introdução e com uma conclusão, o Terremoto. Esta composição do mestre de Viena é também conhecida como a “das 7 palavras do Redentor na Cruz”, numa transcrição da versão original para orquestra. Haydn compôs 83 quartetos, com os quais o compositor imprimiu marcantes inovações para o gênero. Entre outras invenções, dele é a fixação da concepção que a composição de quartetos deve ser exercutada por um conjunto de quatro instrumentos homogêneos de timbre, (dois violinos, uma viola e um violoncelo), que procedem em ações alternadas, ora num conjunção de um tecido harmônico, impreciso ou apenas esboçado, com outras até mesmo completamente livres, por parte dos quatro instrumentos. Desde os seus primeiros quartetos, até o último, de 1803, a construção dos quartetos de Haydn se faz sempre mais complexa, com reveladoras inovações de linguagem.
O Quarteto Casals, chamado a Veneza para esta execução de Haynd, foi fundado em 1997 na Escola da Raínha Sofia, de Madrid, e desde a sua fundação, sob a direção de Antonello Farulli, se assinalou como um dos mais prometentes jovens quartetos europeus, com grandes sucessos de público e de crítica. Ativo por toda a Europa, nos Estados Unidos, na América do Sul e no Japão, o conjunto tem no seu próximo programa concertos no Wigmore Hall e no Barbican Center de Londres; no Concertgebouw de Amsterdão; no Lincoln Center e no Carnegie Hall de Nova Iorque; na Philharmonie e Konzerhaus de Berlim; na Tonhalle de Zurique; no Auditorio Nacional de Madrid; no Konzerthaus e Musikverein de Viena; na Philarmonie de Colônia; no Chatelet e na Cité de la Musique de Paris; na Library of Congress de Washington e na Marinskij de São Petroburgo. O Quarteto, composto pelos violinos Vera Martinez Mehner e Abel Tomàs, pela viola Jonathan Brown e pelo violoncelo Arnau Tomàs, acohidos por cordial aplauso, sobe no palco baixo que lhe servirá de espaço e começa, exatamente às 20 horas daquela noite de fim de inverno, mas ainda não de início da primavera, o concerto tanto esperado pelo numeroso público. Esta obra-prima de Haydn introduz a grande composição camerística esperada pelo público veneziano com uma Introdução começada por um tempo Majestoso e completada por um dolente Adagio.
Segue-se a primeira sonata da composição, aquela da palavra da expectativa: “Pater, dimite illis, quia nesciunt, quid fasciunt”, em um Largo conduzido pelos dois violinos e completado pela viola e pelo violoncelo. À mesma segue a sonata II, em ritmos Grave e Cantabile, “Hodie mecum eris in Paradiso”, canto de infinita esperança para todos os pecadores. A sonata III se desenvolve em constante ritmo Grave, comunicando violinos, viola e violoncelo com rara expressividade a entrega de todos os homens à proteção da Mãe do Filho de Deus imolado: “Mulier, ecce filius tuus”, entrega sublinhada pela harmonia dos instrumentos executantes, com particular ressalto do violoncelo. A sonata V, Adagio, dita “Sitio”, (Giovani 19,28), na sofrida doçura projetada pelas notas em Adagio, preanuncia a dolorosa melodia do movimento Lento da sonata VI: “Consumatus est”, com uma estrepitosa execução dos quatro componentes do Quarteto espanhol. A sonata VII, com o seu movimento Largo, “In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum”, com amplo sentimento de participação vivido pelo público com a música reveladora, fecha o relato do drama, relato completado em forma harmonicamente apoteótica com o Terremoto que tudo encobre: ”De repente, o véu do templo se rompeu em duas partes, de alto a baixo, a terra tremeu e as rochas se partiram, os sepulcros se abriram e deles sairam muitos corpos de santos, depois que repousavam, ressuscitaram e sairam dos sepulcros; depois da ressurreição, entraram na cidade santa e se mostraram a muitos.
O centurião e aqueles que faziam a guarda a Jesús, vendo o terremoto e aquilo que acontecia, tiveram grande medo e disseram: (Mateus, XXVII)”. Sob uma atmosfera de terror, resultada de inovadoras dissonâncias, tremados, de rápidos trilos, notas acentuadas e rebatidas, em uma complexidade musical de modernidade, chega-se à última nota. E um infindável sentimento temporal percorre toda a Basílica que vive a magia da execucação primorosa. O público chama reiteradamente por cinco minutos, ao palco descoberto, os componentes do Quarteto Casal. Saindo da proteção das naves bizantinas e retomando a caminhada por ruas e pontes de Veneza, encontramos de novo o silêncio, agora alargado em sons graves e dolentes provenientes da grande música apenas vivida no arco de uma execução durada exatamente uma hora, mas que permanece por longo tempo nos ouvidos do expectador reconfortado.
Na manhã do domingo, 25 deste março de 2012, morreuem Lisboa Antonio Tabucchi, o escritor italiano contemporâneo mais próximo da literatura e da cultura de Portugal. Nascido na província de Pisa aos 24 de setembro de 1943, antes de completar 69 anos foi acometido por um cancer do pulmão, de breve conhecimento, mas radical.
Escritor de ampla produção nos campos da prosa de ficção, com seus romances e livros de contos, bem como naquele do ensaio, literário e político, Tabucchi procurou sempre conjugar literatura e empenho social em todos os seus atos.
Ao lado da direta atividade literária, exerceu por longo tempo, a partir de 1973, a função de docente universitário de Lingua e Letteratura Portoghese, inicialmente na Universidade de Bolonha, para chegar à titularidade de cátedra na Universidade de Siena. Ele então se mostra como um dos mais ativos representantes da geração de professores – italianos, portugueses e brasileiros - de língua portuguesa e das literaturas portuguesa, brasileira e dos países africanos de expressão portuguesa, ativa na Itália entre 1960 e 2000. Este é o período de máximo esplendor do ensino de Lingua Portuguesa e de suas diversas literaturas nacionais, justamente quando 23 universidades espalhadas por toda a península mantêm cursos regulares do setor, com uma média anual de mais de 2500 estudantes. Quadro este muito diverso do atual, quando o ensino do Português nas universidades italianas se vê ameaçado e em declínio pela falta de renovação do quadro docente através dos concursos que não mais se fazem e pela carência dos meios financeiros de pesquisa.
A função de docente universitário ligado à literatura de Portugal, com derivação não estritamente didática para com aquela do Brasil (recorde-se aqui o empenho que Tabucchi dedicou em particular à divulgação na Itália da poesia de Carlos Drummond de Andrade) é de fundamental importância para a existência do escritor Antonio Tabucchi, pois por esse exercício ele se integra naquela literatura portuguesa, principalmente no seu capítulo contemporâneo, que lhe permitirá de moldar definitivamente uma das mais inovadoras presenças ativas na moderna literatura italiana, em particular no campo do romance. O tradutor e intérprete da poesia e da complexa personalidade literária de Fernando Pessoa, bem como a do pessoano Livro do Desassossego – tradução esta realizada em conjunto com sua mulher, Maria José de Lencastre, titular de Lingua e Letteratura Portoghese da Universidade de Pisa – se integra na língua portuguesa e na cultura de Portugal, assumidos como fatores essenciais da sua existência pessoal.
A literatura portuguesa muito deve a Tabucchi pelo empenho por ele empregado na divulgação de seus autores maiores, com ênfase para a poesia de Fernando Pessoa. Pessoa representa para o romancista italiano aquela fonte que lhe permitirá de desenvolver suas primeiras experiências literárias, forjadas particularmente sobre a perspectiva estética da pesquisa da linguagem, na direção de uma longa e variada prática de uma prosa inovadora nos quadros do moderno romance italiano. Essas muito particulares linhas adquiridas foram um dos mais importantes fatores que fizeram do criador de Réquiem um romancista de dimensões européias.
Escritor de grande sucesso, Tabucchi conquistou inúmeros prêmios pelos seus romances, em particular com Sostiene Pereira, de 1994, que no mesmo ano conquista os prestigiosos prêmios “Viareggio” e “Campiello”. Este romance da maturidade de Tabucchi se transforma no belo filme de Ricardo Faenza que mantém o mesmo título do livro.
Confirmação da grande versatilidade e modernidade da prosa de ficção de Tabucchi são as muitas versões cinematográficas que as mesmas recebem. Além daquela de Faenza, contam-se Requiem, por Alain Tanner, apresentado no Festival de Cannes de 1995; Donna di Porto Pin, sob a direção de Toni Salgot, 2001; e mais Notturno indiano, de Alain Corneau; Rebus, direção de Massimo Guglielmi; aquela de Fernando Lopes, Il filo dell’orizzonte. O filme de Faenza foi a versão de maior sucesso, talvez também em razão da grande interpretação de Marcello Mastroianni.
Os meus contatos diretos com Antonio Tabucchi foram poucos e em geral muito circunstanciais. O mais prolongado, no qual tive oportunidade de conhecer um pouco mais o homem Tabucchi, aconteceu numa oportunidade de um concurso público para um posto de pesquisador de língua portuguesa na Universidade de Siena. Além de mostrar-se então com um perfeito sentido de hospitalidade, como membro interno, enquanto
representante docente da Universidade, ele então tinha todo o direito a um primeiro plano nos diversos momentos das atividades da Comissão examinadora. Porém, com grande gentileza e alta consciência profissional, ele me deixou sempre a mais ampla responsabilidade na apreciação dos diversos candidatos que lentamente se apresentavam. Principalmente quando dos momentos daqueles formados por ele na sua Universidade.
Vespúcio desde a sua juventude em Florença fizera-se um estudioso de cosmografia, na então escola citadina da disciplina – conforme ele mesmo declara numa de suas cartas a Lorenzo di Pierfrancesco de’ Medici, seu amigo e colega na dita escola -, desenvolvendo tais estudos depois de sua chegada a Sevilha, para onde fora mandado pela poderosa família dos Medici com encargos de operador bancário.
A curiosidade cultural do provisório agente financeiro florentino o leva sempre e mais a desenvolver seus interesses pelos estudos cosmográficos e de navegação. Vivendo proximamente às gestas das viagens de Colombo, desde a primeira, de 1492, quando o navegador genovês atingindo terras novas crê de haver percorrido e descoberto o sempre sonhado caminho das Índias, Vespúcio se enche de admiração pelas revolucionárias descobertas. Assim, desde logo associa a sua personalidade de cosmógrafo em constante evolução àquela de navegador. A partir de 1497 a 1505 ele cumpre um percurso de viagens e revelações que revolucionam o conhecimento do mundo de sua época, revolução essa que encontra seu ponto máximo na sua carta Mundus Novus, publicada em Paris, no início de 1504, desde logo transformada em grande best-seller, com novas edições da versão latina inicial e com dezenas de traduções nas principais línguas da época. Com ela, e em outras obras, Vespúcio ultrapassa as mais importantes fontes das tradições geográficas, como a Bíblia, bem como o faz em relação às lições de Ptolomeu.
Sem qualquer pretensão de substituir Colombo na admiração dos Reis Católicos, Vespúcio contribui para um mais perfeito e lógico conhecimento das terras novas descobertas, em particular porque nega que essas fossem partes da Àsia, como sonhava Colombo. Tais convicções o cosmógrafo e navegador florentino amplia sempre com suas viagens feitas sob a proteção da raínha Isabel, tornando-se desta maneira um lógico sucessor de Colombo.
Desde a assinatura do Tratado de Tordesilhas, a ciência náutica portuguesa sabia da existência de terras desconhecidas na parte sul do hemisfério, o que conduz a mesma diplomacia à escolha dos meridianos convencionais que Portugal tomava para si e que conformavam parte do futuro Brasil.
As contribuições vespucianas não passaram despecebidas pela política diplomática de Portugal e de seu rei, D. Manuel I, principalmente quanto às notícias da viagem que Vespúcio iniciara em maio de 1499, na qual o florentino se faz o primeiro explorador a tocar a foz do rio Amazonas, no futuro espaço brasileiro. A fama de Américo Vespúcio chega, assim, até Lisboa, o que leva D. Manuel a convidar o florentino ao seu serviço para viagens já programadas. A primeira das viagens documentadas de Vespúcio a serviço de Portugal se faz em 1501, a dita viagem de exploração da grande costa das terras novas reveladas a 22 de abril de 1500 pela expedição capitaneada pelo almirante Pedro Álvares Cabral. A sua viagem de exploração da costa das terras apenas descoberta, Vespúcio a repete em 1503 quando possivelmente chegou até o Rio da Plata. Memórias dessas viagens ao Brasil de Vespúcio se encontram em muitos pontos da terra brasileira, como em Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro, e em Florianópolis, capital de Santa Catarina.
Com as suas viagens reveladoras de novos conhecimentos, Vespúcio cria toda uma mitologia cultural que tem como centro o Atlântico e que justificam a escolha feita, em 1507, por Martin Waldseemüller de dar ao novo continente o nome “América”, em homenagem ao sábio que com espírito revolucionário afirmara ser aquele um continente novo, até então completamente desconhecido e capaz de hospedar populações de milhões de homens, sendo assim revelação da realidade que a vida ali – até então um espaço imaginário aonde não era possível sinais de vida, segundo a ciência antiga e medieval, por encontrar-se nos extremos do mundo – contrariamente tal vida era possível e real.
Amerigo Vespucci, em 1506, recebe por concessão do rei da Aragona o título e os encargos de Piloto mayor, inspetor e cartógrafo da flota real. Em tais funções vem a falecer a 22 de fevereito de 1512.
Estamos assistindo, e assim será por todo o ano, é as celebrações do 5° Centenário da morte de Amerigo Vespucci – 22 de fevereiro de 1512 –, com exposições e congressos internacionais. Em Florença, cidade natal do grande cosmógrafo e navegador, desde o dia 23 de fevereiro se apresenta a exposição comemorativa oficial da capital toscana justamente no Pátio do Hospital Velho, no Borgo Ognissanti, doado à cidade no século XV por Simone di Piero di Vespucci, o então patriarca da família.
Nesse mesmo dia de fevereiro 2012 e na mesma Florença, inaugura-se no Palazzo Bastoggi o Congresso “Amerigo Vespucci, humanista, cosmógrafo, navegador“. Prosseguem as comemorações florentinas, a partir de 9 de março – data do nascimento de Vespúcio, em 1454 -, no Palazzo Vecchio, uma das jóias arquitetônicas de Florença, o Encontro de estudos “I navigatori toscani”.
O quadro comemorativo se alarga em Nova Iorque, no Manhattan Campus da St. John’s University com a exposição “Amerigo América. Florença e os mercantes do Novo Mundo“, exposição que estará na capital toscana a partir de 25 de março, seguindo logo depois para Tóquio.X Américo Vespúcio está profundamente ligado à mitologia do Brasil. Mitologia essa que nasce em correspondência com o nome “brasil”, denominação geográfica legendária presente na cartografia medieval a partir do século XIII. Tal presença legendária corresponde à transcrição de uma ilha viajante, localizada inicialmente no sudeste da costa da Irlanda, de onde parte, como se fosse por uma navegação mágica, e já no famoso Isolari, de Benedetto Bordone (cerca 1450-1530), se encontra próxima às ilhas dos Açores. Dali vai para a “Terra do Brasil”, onde se faz continente
Com Vespúcio, cosmógrafo . e navegador, o sistema da mitologia do Brasil toma um corpo definito. Já em 1499, deixa mais uma vez Sevilha para uma viagem ordenada pelo Soberano de Castela; nela Vespúcio toca a foz do A|mazonas e, com grande temeridade, a percorre e descreve. Depois das suas explorações longo a costa do norte do futuro, o navegador toma o largo, à esquerda, dirigindo-se para os territórios anteriormente tocados por Colombo. Tal viagem, de grande importância para a navegação no Atlântico, de 18 de maio de 1499 a 8 de setembro de 1500. Antes desta expedição de grande importância para a mitologia do Brasil, Vespúcio realizara aquela que vem considerada a sua 1ª. viagem, de 10 de maio de 1497 a 15 de outubro de 1498.
Logo depois da 2ª. viagem, o cosmógrafo e navegador florentino recebe convite do Rei de Portugal, D. Manuel, dirigida a uma ampla exploração da costa das novas terras descobertas no hemisfério sul e com a mesma confirmar os resultados reveladores da expedição de Cabral. Com esta sua terceira viagem, de 10 de maio de 1501 a 7 de setembro de 1502, Vespúcio percorre longamente o litoral das novas terras. Então, conhecendo a gente e explorando os locais de um mundo por revelar, ele principia a conceber os termos que depois conformarão o Mundus Novus. Tal aprendizagem da magia incansável de uma nova realidade física se amplia com a 4ª. viagem vespuciana, a viagem de 1503, quando os seus pensamentos tomam dimensões definitivas.
Já no início de 1504 sai em Paris a possível obra-prima de Vespúcio, o Mundus Novus. Nela está o retrato mitico do Brasil: paraíso terrestre recuperado, terra de uma gente de doce e amável índole, e um território sem fim. Dirigindo-se nela ao Soderini, magistrado da Grande República de Florença, ele escreve: “Nos dias passados dei à S.V. aviso do meu retorno, se bem me recordo, lhe contei de todas aquelas partes do mundo novo às quais eu fora com as caravelas do Sereníssimo Rei de Portugal; e se diligentemente serão consideradas parecerá que realizamos um outro mundo; por isso que, não sem razão, o chamamos mundo novo.”
A vespuciana carta Mundus Novus – traduzida para o latim pelo frei Giovanni Giocondo, literato e arquiteto veneziano – recolhe uma grande e universal acolhida de público, transformando-se em um verdadeiro best-seller, com várias edições, logo seguida por traduções em diversas línguas. Assim, o mundo toma conhecimento de uma terra nova e de sua gente, mundo que a partir de então passa a ser um lugar mítico para todo o europeu. Como próprio da tradição dos povos da Europa, por muitos anos, com o cair da noite e o aumentar do frio, acentuava-se o hábito da gente de reunir-se diante de um fogo para escutar, lida por um dos seus mais sapiente, as maravilhas do Paraíso recuperado.
A contribuição vespuciana à mitologia do Brasil se engrandece em 1507 quando o cartógrafo e cosmógrafo alemão Martin Waldseemüller, influenciado pela leitura do Mundus Novus, publica a sua Cosmographiae Introduction na qual propõe de chamar as terras do Mundo Novo com o nome “América”. Sai então, neste mesmo 1507, o mapa de Waldseemüller que traz para as novas terras a denominação proposta, localizando o cartógrafo a mais adequada posição para o nome nos confins do espaço continental do Brasil. Assim se acrescentava, em razão da contribuição de Vespúcio, uma outra grande dimensão para o sempre vivo mito do Brasil. Para todos, então, a idéia de América correspondia principalmente à realidade física da terra recentemente descoberta pelos portugueses.
Mais do que pessoal, universal, é a consciência que estar em Veneza representa uma valiosa conquista. Nela e a partir dela pode-se conquistar a certeza da posse de uma posição privilegiada enquanto observatório que fixa o mundo a partir de uma lúcida visão. Assim é o que chamamos de “Observatório veneziano”, posto de chegada e de muitas andanças. Estando aqui, vivendo e trabalhando aqui, posso então atuar o privilégio de fixar o mundo a partir de suas mais diversas manifestações: culturais, políticas, econômicas, literárias, artísticas, esportivas etc. Porém, não verei o mundo a partir de Veneza; mas o verei integrado nela. Tudo isso em natural sintonia com a realidade objetiva do que denominamos “ Observatório veneziano“.
A realidade veneziana – a partir da qual escreverei as minhas Cartas para todos os possíveis argonautas - é um fenômeno particularmente complexo. Começa pelo fato que se trata de uma realidade urbana e humana onde convivem 100 línguas. Línguas das mais diversas partes do mundo, entre as quais o português. Nós, os falantes venezianos de língua portuguesa somos algumas dezenas de pessoas, portugueses e brasileiros, mais brasileiros que portugueses; e ainda alguns angolanos, moçambicanos e caboverdianos. A língua portuguesa se encontra com as outras 99 línguas estrangeiras, e logo resolve os possíveis problemas de compreensão com a ajuda do italiano, muitas vezes igualmente com aquela do dialeto veneziano, o mesmo de Goldoni.
Caminhando pelas ruas de Veneza não é que se sinta tantas línguas, mas uma outra que, mesmo não entrando normalmente na oficial estatística linguística, de certo predomina sobre todas as demais e ao mesmo tempo contamina cada um dos transeuntes distraídos por ruas e praças (calle e campi): a do silêncio. Assim guiados pelo idioma de todas as vozes, pode-se ler com maior clareza as linhas de uma múltipla arquitetura, o bizantino da Basílica de São Marco, o gótico do Palácio dos Doges, o barroco – raro - como se vê na Igreja de San Mosé e, mais, aquelas outras, neo-clássicas, com obras epocais, de artistas como Palladio, criador da magnífica Igreja da Piedade, a casa de Vivaldi. Pode-se ler tudo isso e mais. Por exemplo, apoiado em outro valor muito próprio de Veneza, a luz sempre especial, o transeunte se surpreende de descobrir em uma esquina a partir da subida de uma ponte ou diante do monumento sobejamente conhecido um novo ângulo arquitetônico ou panorâmico somente porque mudou, no deambular, o seu ponto de vista. Isto, por uma ponte das muitas que mostram como Veneza seja o resultado da fatigosa união de mais de duzentas ilhotas. Pode-se quasi dizer que aqui se caminha sempre sobre as águas e ninguém mais pensa ao milagre.X Depois, ao lado de todos esses fatores de magia, encontramos os canais, os “rios”, que sabem aumentar a intensidade das cores fluídas da luz veneziana e manter o silêncio enquanto os percorremos, deslisando como peixes, numa gôndola quase alada. Então, o mágico acontece mais uma vez: os palácios mostram outras fachadas, outros rostos, iluminados por uma nova luz emanada das águas.
E as estrelas, as muitas estrelas que constelam o céu de Veneza. Agora estou sentado, ao lado do meu gato Mino, no quinto e último degrau de uma descida-e-subida do rio que corre na rua-fondamenta do meu mais familiar quotidiano: a rua do “rio de le Romite”, isto é, das freiras da Congregação feminina das Romites. De um lado e do outro do canal ficam as duas ruas, “fondamenta”: aquela dita “di Borgo”, e a outra, “de le Romite”. Estou aqui, na minha “fondamenta di Borgo” com o meu gato Mino, ele que ama contemplar as águas estreladas do rio. Em silêncio, por mim muito aprendido dele, contemplamos águas e estrelas refletidas. Tudo como um doce movimento imperceptível. Rio, luz, água, estrelas. No silêncio e na luz reflexa das águas, com Mino vejo miríades de estrelas. Aquela é Vega, a estrela alfa da constelação do Centauro; aquela outra, de vivo vermelho molhado, é Venus, a estrela d’alva. São muitas as estrelas refletidas aos meus olhos e mais ainda aos de Mino no rio de meu quotidiano familiar. O contemplar sem fim me leva até mesmo ao sonho. Sonho não de estar diante das estrelas do hemisfério norte, mas sim muito mais distante, naquele imenso céu que procura o nadir do sul. Então me parece com certeza de ver o meu sempre contemplado Cruzeiro do Sul, rutilante com as quatro estrelas-pontas e uma outra, na margem esquerda da cruz, a iluminar os caminhos ao navegador ousado.
Depois estou diante da Ponte de Rialto e o poema mais uma vez me acomete,
Rialto
Subo a escada nas águas
subo a escada no tempo
subo a escada nas águas
no tempo das águas e
desço a escada dos tempos
das águas que voltam no
tempo de escada e pé.
Todas as vezes que escreverei d’ora em diante um texto, uma crônica semanal para a multidão de argonautas que nos acompanha, o estarei fazendo a partir deste “Observatório veneziano”. Assim o farei a partir da próxima semana, quando falarei do 5° Centenário da morte de Américo Vespúcio, associando-me às festividades que grande parte do mundo está fazendo em homenagem ao revelador de tantos Mundos Novos.
Apresentação da obra Poesia do Socialismo Português, Sílvio Castro é o terceiro, ao centro. O nosso colaborador, António Gomes Marques, faz a apresentação. O acto decorreu no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.
Sílvio Castro, nasceu em Laranjais, Rio de Janeiro, em 1931. Poeta, ficcionista, ensaísta e titular da cátedra de Língua e Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira na Universidade de Pádua. Em 1960-61, foi presidente da União Brasileira de Escritores. No campo da ficção, a sua obra mais divulgada é Memorial do Paraíso — o Romance do Descobrimento do Brasil, uma bela interpretação da “Carta de Pero Vaz de Caminha” ao rei D. Manuel, onde pela primeira vez o Brasil é descrito, trabalho a que Jorge Amado rendeu rasgados elogios. O seu livro mais recente, Poesia do Socialismo Português no Percurso de 1850 a 1974, estudo que ostenta como objectivo central demonstrar a existência, no período considerado, de um recorrente projecto de associar a poesia à realidade sociopolítica portuguesa. As suas obras mais importantes são: Infinito Sul (1956); As Noites (1958); Machado de Assis e a Cidade do Rio de Janeiro (1959); Tempo Presente (1961); Rachel de Queiroz e o Romance Nordestino (1961);Raiz Antiga (1965); Tempo Veneziano (1967); Campo Geral: Estrutura e Estilo de Guimarães Rosa (1970); A Revolução da Palavra: Origens e Estrutura da Literatura (1976);Teoria e Política do Modernismo Brasileiro (1979); A Carta de Pero Vaz de Caminha (1987): O percurso sentimental de Cesário Verde (1990); Viver em Malabase (1993); Memorial do Paraíso — o Romance do Descobrimento do Brasil (1998); História da Literatura Brasileira (2000); Poesia do Socialismo Português no Percurso de 1850 a 1974 (2010).Dedicatória Autógrafa de Autor , Kelps, Goiânia, 2011, diz]
O Tribunal de Justiça de Turim promulgou, no dia 13 de fevereiro passado, uma sentença que traz uma contribuição inédita para a jurisprudença internacional, bem como para o Direito Comunitário sempre em evolução: Xpela primeira vez o vértice de uma multinacional vê-se condenado penalmente. O Tribunal piemontês condenou a 16 anos de prisão o milionário suiço Stephan Schmidh – que foi consultor de Clinton - e o barão belga Louis De Cartier, os dois ex-proprietários da fábrica de amianto Eternit acusados de desastre ambiental doloso e omissão dolosa de cautela antiinfortúnio. O processo, começado oito anos atrás, foi promovido principalmente pela administração pública de Casale Monferrato pela morte por câncer causado por amianto de milhares de operários da Eternit do Piemonte. Além das condenações penais, o Tribunal condena Eternit civilmente ao ressarcimento aos familiares das vítimas e às diversas administrações públicas interessadas a um montante de 95 milhões de Euros.
Já em 1964, na New York Academy of Sciences, Irvin Selikof declara que o cimento amianto é cancerógino não tão somente para quem o trabalha, ma igualmente para quem vive na zona aonde se encontram as fábricas produtoras do mesm. Tal denúncia recebeu uma campanha de descrédito pelas lobbies amiantíferas. Enquanto isso, o câncer causado pelo amianto, a mesotelioma, espalhou-se sempre mais por quase todo o mundo, com milhares e milhares de mortos. Porém, segundo indicações de estudiosos, o ponto culminante de casos de mortes por mesotelioma, tumores pulmonares e tumores da laringe acontecerá entre 2015 e 2020. Mas nada disso faz diminuir a produção mundial de amianto, da qual um dos protagonistas é o Brasil. Segundo as estimativas, hoje em todo o mundo vem produzidas mais de 2 milhões de toneladas de amianto. Os maiores produtores são a Rússia ( 1 milhão de toneladas em 2010), a China (400.000), o Brasil (270.000), o Kazakistan (214.000) e o Canadá (100.000). Os países aonde vem maiormente empregado são a China (mais de 613 toneladas), a Índia (426.000), a Russia (263.000), o Brasil (139.000) e a Indonésia (111.000). Tais estatísticas insofismáveis não contribuem para o aumento da simpatia que as potências emergentes da área do BRIC vêm alcançando no plano internacional mais progressista...
O caso do Brasil é emblemático. Sendo o terceiro maior produtor de amianto e entre os quatro maiores consumadores do cimento cancero canceroso, segundo a observadora do Ben Asbestos Brazil, presente nas audiências de Turim, confirma que o amianto é muito difundido no país e que somente agora começa a difundir-se uma tomada de consciência pública do problema. São Paulo-capital apresenta a situação mais grave e aonde cerca de 4.000 indústrias têm produtos manufatorizados no cimento-amianto. Mas, igualmente nas pequenas aldeias e vilas do interior brasileiro vive-se o problema, como é o caso, diz a observadora, da pequena aldeia de Itapua, dos índios Tupinambás, com uma população de 400 indivíduos, que apresenta suas casas construídas com o tradicional processo sertanejo da taipa – barro e madeira – mas com o telhado, invés do material habitual, feito de amianto. Isto porque, segundo os habitantes de Itapua, o amianto é mais barato e a casa fica muito bonita.
O presidente do Tribunal de Justiça de Turim, durante a sentença vanguardista para o direito do trabalho e por uma maior segurança do trabalhador no seu ofício, em determinado ponto leu os nomes das 2900 vítimas da indústria multinacional Eternit, aos parentes dos quais a fábrica foi condenada a pagar uma indenização. Foram exatamente três horas de uma aparente monótona leitura de nomes. Mas em verdade era uma requisitória pioneira contra a produção mundial do amianto e um hino pelo direito à saúde.

Este quadro de Dorindo Carvalho inspirou o poema
Abstração visionária- por Sílvio Castro
As muitas formas se mostram como
invisíveis, mas indeléveis cubos
ao olhar que corre na
vibração colorida
e inebriante;
mas o olhar inebriado sabe
caminhar por mãos de ressonâncias
quase dramáticas
do encontro de uma vertical
com uma horizontal.
De tantas linhas, formas e sinais
desabrocha a flor definitiva
e eu já a vejo:
poliédricos cubos
muitos cubos,
como um corpo de mulher.
(inédito)
Um Café na Internet
sem fim.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
Sílvio Castro
Vasco de Castro
Vasco Lourenço
L'utilization des entités juridiques a des fins illicites (Relatório da OCDE sobre Paraísos Fiscais)
Arquivo
Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa
Histórias de suicidios famosos em Portugal
Livros Proibidos Nos Útimos Tempos da Ditadura
biografias
crónicas
livros
música
Património Imaterial da Humanidade
Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo
rubricas
Blogues
Amigos Maiores que o Pensamento
De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas)
Editoras