Eva Cruz Aurora Adormecida
("Mãe", Adão Cruz)
No último dia de publicação do livro da Eva Cruz
apresentamos em maiores dimensões o belo quadro
do seu irmão Adão Cruz que nos serviu de ícone
em todos os capítulos
Capítulo 31
(conclusão)
Viveu catorze anos em casa da filha, numa relação com os netos, única e singular. Faziam dela a sua mascote. Brincavam, arreliavam-na, beijavam-na, amando-se mutuamente. Só estava bem junto deles, ora no quarto de um ora no do outro.
° Sai daqui, avozinha, deixa-me estudar.
* Sempre a pôr-me do quarto para fora, a quem tanto faz por vós.
º Que fazes tu ? Nós é que te damos banho, te levamos a comer um bolo, até te levo ao colo para a garagem.
* Banho, a mim? Eu é que dou banho a toda a gente aqui em casa. Trabalho nisto e naquilo. Comprei tudo o que está cá dentro e este é o pago.
º Compraste o quê, avozinha?
* Olha, este armário e estes livros todos.
º Os livros? Onde os compraste tu?
* Na feira, não sei se na dos nove, se na dos vinte e três.
° Como os compraste?
* A tua mãe escolheu-os e eu paguei-os.
° Ai, avozinha, tu és uma pândega, uma pateta.
* Se eu sou pateta, tu és pateta.
Riam-se com as suas conclusões. Na mente dela comprava tudo. Andava sempre com uma carteirinha preta e o dinheiro da sua reforma. Nem para dormir largava a bolsa. Era um tormento quando lhe perdia o lugar. Tão generosa a vida inteira e agora tão presa ao pouco que tinha! O filho chegou a fazer-lhe umas notas falsas no computador para ela se entreter a contar. Embora tivesse estranhado a textura do papel lá se foi iludindo.
Para além da carteira, faziam parte do seu tesouro a cartilha, o livrinho de orações, a bengala, os óculos de ver ao perto, os óculos de ver ao longe, a bandolete, os vestidos, os lenços de adorno, os colares, os alfinetes e os cheirinhos. Agora, ao lado das bonecas, tudo jaz abandonado, espólio de guerreiro, livros abertos de tempo, de vida, de poesia.
º Vá, põe-te a, andar, quero estudar. Não percebo nada disto.
* Se não percebes, a tua mãe que te ensine. Se ensina os outros, mais depressa ensina a ti.
° A minha mãe não sabe nada.
* A tua mãe não sabe nada? Essa é que é boa, rapaz! Tanto tempo a estudar para não saber nada? Quem não sabe nada és tu. Tu é que não sabes nada.
° Deixa-me estudar, já te avisei.
Porém, ela continuava ali sentada junto deles, sempre linda e bem cheirosa, enfeitada nos seus vestidos de seda ou de lã, com o lencinho ao peito, de cores doces. Tinha um orgulho enorme nos vestidos, nos lenços, colares e alfinetes. Muito direita, apoiada na bengala encastoada de prata, um porte distinto de matriarca, advindo do alto conceito da sua beleza e do seu carácter, lá andava ela de um lado para o outro procurando sempre a presença dos netos. Orgulhavam-se dela. Era para eles o grande adorno da casa.
° Ó mamã a avó é o melhor enfeite desta casa. Até dá respeito.
Passavam o tempo a alindá-la como quem enfeita uma boneca. Em contrapartida arreliavam-na tanto, e faziam tantas diabruras que só o excesso de ternura podia explicar. Pintavam-lhe a cara de Rato Mickey, escreviam-lhe frases cómicas na testa, ornavam-lhe o vestido no fundo ou atrás com pregadeiras da roupa, fazendo rir toda a gente com as figuras a que, inocentemente, se prestava. Um dia calçaram-lhe umas botas de ski, cujo peso a impedia de se mexer, puseram-na em cima de um par de skis, bastões nas mãos, barrete na cabeça, cachecol ao pescoço. Fingindo-se arreliada, lá se aprumava toda vaidosa para a fotografia. Enquanto dormia a sesta, trocavam-lhe os óculos por óculos escuros. Acordava, e, com ar de vedeta, queixava-se de ter escurecido tão depressa. Quando apareceram os primeiros leitores automáticos de CDs diziam-lhe que o porta-CDs só abria quando pela frente passassem boas pessoas. Passavam eles, e sem ela se aperceber, abriam-no com o comando. Mandavam-na passar a ela e... nada acontecia.
º Vês, avozinha, ele só abre quando passam as boas pessoas. Tu não prestas para nada.
Divertiam-se, depois, ao darem com ela, à socapa, a passar de um lado para o outro diante do aparelho, a ver se ele abria. Apanhavam-na de surpresa, irritando-a no seu orgulho.
° Dá-me um beijinho, avó.
* Dou-te mas é uma ferradela. Só sabem é consumir-me, a quem tanto fez por vós. Não há direito.
° Portas-te mal, vais para o lar, avozinha.
* Para o lar? Lar tenho eu em minha casa. Tive toda a vida um lar. E o Estado é meu amigo, dá-me uma reforma que chega para comer e sobra. E tinha muito. Se não tenho é porque vos dei tudo em vida. Tendes obrigação de me criar e educar.
° Ai, lá isso criar, criamos-te nós, agora educar é que é mais difícil porque tu não deixas.
* Educada sou eu. Fosses tu assim, meu malcriado.
Falar-lhe em lar era o diabo que lhe aparecia. Ficava furiosa e triste. Mas depois de a tentarem amansar, e de tão insistentemente lhe pedirem um beijo, ela lá lhes dava uma ferradela que não era mais do que um afago.
Adorava que a levassem a passear mas desconfiava sempre da intenção do passeio. Um dia, quando subia, amparada pelo filho, as escadas do Museu do Caramulo, perguntou em voz alta, antes que fosse tarde, às pessoas que desciam, se não era ali a casa onde se deixava os velhinhos.
Aos noventa e quatro anos teve de voltar à sua casa das Figueiras para aí viver com duas empregadas, uma de dia e outra de noite. Nada lhe falta, nem o carinho nem a dedicação de ambas. E mimada de filhos e netos, vizinhos e amigos. Agora meiga, serena, muito linda, branca e rosada, com pele de veludo e cabelo de seda, deslumbra quem a visita.
— Parece uma santinha numa redoma.
Viveu até à quarta geração. Tem um bisneto que brinca com ela. Tem uma bisneta. De novo, um menino e uma menina.
Canta de dia e de noite, conta, faz versos, monólogos e diálogos, num distanciamento total da realidade.
* Quem me dera, dera., dera estar sempre a dar, a dar beijinhos até morrer e abraços até acabar.
Está longe, muito longe. Talvez num conto de fadas, no conto da Bela Adormecida. Sei apenas que é feliz e irradia felicidade. Reconhece ainda a filha e o neto que mais a arrelia, e que mais a ama. Já se despediu do mundo mas vive ainda.
Vive, talvez no Paraíso, no Limbo, mansão de inocentes sem pecado original. Paradise Lost? Paradise Regained?
Quem me dera poder elevar-te aos altares das Mães de Gorki, de Steinbeck, de Brecht. Na minha simplicidade ergui-te um altar dentro do meu peito, enfeitado com as flores e as hastes dos campos e dos matos e tecido com as fitas de veludo azul e rosa do teu baú.
Quarto de dormir
de azul pintado e flores no cortinado
casinha de Coppèllia
bonecas por todo o lado.
O Popeye espreita no topo da cama
uma boneca de cabelos cor de chama
um boneco vestido de azul
todo empertigado
no cortinado.
Bonecos no sofá
no chão
em todo o lado.
.
Minha mãe de tão velhinha fez-se menina.
Ai de mim
se o encanto se parte
e o quarto fica vazio
sem velhinha
sem menina
a aconchegar os bonecos
cheios de frio.
.
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 30
(continuação)
Aurora ficou viúva muito nova. Continuava fresca e bonita. No mesmo ano em que viu partir o marido, casou o filho e a filha.
* Em seis meses vi a minha casa vazia. Fiquei só, nas Figueiras, entregue à dor e à solidão. Só se veja quem só se deseja! Depois de viúva ainda tive quem me quisesse. Nunca o disse a ninguém. Um homem chega para dizer o que é mundo.
° Então o que é mundo, avó?
* Tu sabes bem o que é mundo. Olha! É céu, terra e água.
Sempre gostou de viver com gente nova. Fez-se rodear de crianças. À noite, fizeram-lhe companhia duas meninas por quem sempre nutriu grande afecto e de quem recebeu muito carinho. Aos serões iam para sua casa vizinhos, parentes e as primas direitas. Aqueciam-se à lareira, a ver televisão e a beber chá ou cacau. A sua generosidade, a lealdade e a firmeza do seu carácter conquistavam todos com quem privava.
* Víamos todas as telenovelas e uma era muito bonita.
° As Dallas, não era, avozinha?
* Isso mesmo, as Dallas.
Era uma série americana com três mulheres bonitas. Não sabendo as amigas que Dallas era uma cidade, entendiam que se tratava do nome das actrizes.
* Já era sina minha e da minha casa. Agora vinham ver televisão. Noutros tempos, em vida de meu marido, vinham ouvir o rádio.
Na aldeia foi a casa de Aurora a primeira a ter rádio, um Philco, que dava música e as notícias. Abria-se a porta da sala para quem quisesse ouvir, na calçada.
Não era vulgar esta abertura e generosidade na aldeia. Apesar de toda esta franqueza, o respeito era grande.
* Ai de alguém que me faltasse ao respeito! Toda a gente sabe que por boa sou uma e por má sou outra.
° O que te vale é a mamã e o tio, senão ninguém te ligava nenhuma.
* Não há dúvida, essa é que era boa, rapaz, eu é que imponho respeito e estou a valer a todos vós. Sem mim o que é que tu eras? Quem julgas tu que és?
No campo trabalharam jornaleiros que a adoravam, e toda a gente que mais cedo ou mais tarde para ela trabalhou, a respeitava muito. Depois da morte do marido, tomou as rédeas da vida e de novo se sentiu dona e senhora do mundo. Começou a vender algumas propriedades, ampliou a casa para melhor receber a família, alindou o quintal, mandou compor ramadas. De novo sentiu a liberdade de poder administrar, sozinha, os seus bens e deles dispor a seu bel-prazer.
* Vendi muito, os Valdantes, os Valinhos, lameiros e matos, mas reparei casa, ramadas e tudo o que estava a cair.
° Pois é, avó, desbarataste tudo. Não soubeste conservar o que tinhas e o que o teu marido te deixou.
* Homessa, deixei-vos muito e em boas condições. Olha o que por aí vai. Tendes muito que herdar. Ele é o Paul, o Cortinhal, o Covo, os Couços, as Portelas...
º Cala-te mas é. Tudo isso não vale um corno.
* Se não vale um corno, então dá-o. Há muito quem queira, ora essa! Eu para vocês não tenho valor nenhum, fui uma grande mulher e este é o pago. Fiquei sem mãe ao nascer. Ai filhinha que não tens pai nem mãe...
° Cala-te, cala-te, avozinha, roda, roda a cassete.
Aos domingos lá ia ela à capelinha de S. Gonçalo, à missa, onde se rodeava de pessoas que a estimavam. Ofereceu toalhas de renda e linho para o altar-mor, ajudava a zelar pelo enfeite da capela e a sua voz esmerava-se a acompanhar cânticos das missas. Não havia coro e as vozes das mulheres eram muito tímidas para se fazerem ouvir. Ela, como sempre, avançava, convencida de que era apreciada. Na missa dispunham-se os homens à frente e atrás, e no meio da capela ficavam as mulheres. Tinha o seu lugar e a sua almofadinha de veludo castanho onde se ajoelhava. Se, porventura, tomasse lugar noutro sítio, logo almofadas eram arremessadas pelo chão até ela, umas de chita, outras de estopa, não fosse ajoelhar-se na pedra fria da capela. Toda a gente gostava de a sentir por perto. Recebia mais atenções do que muita gente rica da terra.
º Tu quem és, avozinha?
* Sou a Aurorinha do Engenho, aquela menina mais bonita que veio há pouco do Porto.
° Do engenho? Que engenho?
* O engenho do linho, que engenho havia de ser?
° Pensava que era engenho de arte, mas tu não sabes fazer nada!
* Sei fazer tudo e teria ido longe se fosse cultivada. Não tive a tua sorte.
E não lhe faltava realmente engenho e arte.
Com muita saúde ganhou de novo gosto pela vida. Nasceram-lhe cinco netos, quatro rapazes e uma menina. Foram o orgulho da sua velhice e a nova grande razão de viver. Filhos e netos vinham aos fins de semana à casa das Figueiras e ela sentia-se feliz.
* Era uma casa cheia.
A casa enchia-se de amigos dos filhos, e lá se realizavam tertúlias em longos dias de Verão ou noites frias de Inverno, aquecidas pela lareira e pelo saboroso cacau com gosto a limão. Sempre acreditou nos filhos. Mesmo em tempos quentes, de grande controvérsia política, e apesar da sua mentalidade de pessoa de aldeia, presa a tantos preconceitos religiosos, sempre tomou posição ao lado dos filhos. Em altura de votação era com eles que se aconselhava.
* Vou por vós, porque acredito que quereis o melhor para o mundo.
Na altura das vindimas ou de colheita juntavam-se as pessoas, não só por ela mas também por respeito pelo filho, para os trabalhos mais difíceis, sem por isso levarem dinheiro. Nesses dias fazia almoço e jantar de festa, e exigia à noite a presença dos filhos e netos. Rituais havia em que ela não perdoava a falta deles. Eram dias de grande alegria. As pessoas vinham pelo gosto de ajudar. Para elas era dia de festa. Para ela eram momentos marcantes da sua actividade. Deles se orgulhava e para eles vivia.
* Servia-se doce, champanhe e vinho fino.
Morreram todos os que participaram nesse trabalho comunitário. Resta ela, semi-viva.
° Ficaste para aqui agarrada à terra, não é, avozinha?
* Eu passeei muito com a minha prima Laurindinha, fui ao Brasil, à Alemanha e a Espinho.
° Estás tola, avozinha, tu algum dia foste ao Brasil?
* Pois não, tens razão, eu vim do Brasil.
° E à Alemanha foste mas é com a mamã, onde não estava a tua prima Laurindinha!
* Mas fui à Espanha com o teu tio e vi o Palácio do Oriente, e uma vez com o meu marido que Deus haja. Ele até me disse que aquelas ovelhas além são espanholas, são do Franco e as de cá são de Portugal, são do Salazar.
º O Salazar sabes tu quem é. E o Franco?
* Sei lá quem é o Franco. Frango sei, é aquilo que eu te dou, estufadinho. O que ele dizia é que eram tudo ovelhas. Ele não era político mas sabia o que dizia.
° Ai, avó, tu saíste-me uma grande revolucionária. Podias ter sido presa.
* Presa, só se fosse pelo rabo.
Eram conversas misturadas, com algum nexo ou sem ele, ao sabor da sua imaginação em que confundia pessoas e tempos. Lentamente foi envelhecendo e tornou-se, apesar da sua saúde de ferro, dependente da filha. Os ossos foram-na traindo e cada vez era mais difícil viver sozinha. Sempre mandona e exigente, mesmo apoiada na bengala, obrigava a filha a segui-la para todo o lado que lhe desse na veneta. Em férias, lá ia ela agarrada aos netos e à bengala, fosse para onde fosse. Nunca dava parte de fraca, e empertigava-se no seu orgulho para mostrar que ainda não tinha perdido as forças e a frescura.
* Isto não é doença. Eu ando de bengala mas isto não é doença. Eu sou muito sã. Escorreguei numa escada interior de madeira com uns carapins de lã e desconjuntei os ossos. Eu sou muito saudável.
Acabou por viver definitivamente com a filha, exigindo sempre que pelo menos a levassem à missa, à feira e à casa dela todos os fins-de-semana.
* Leva-me às Figueiras para ver o que lá vai.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 29
(continuação)
Os filhos cresceram e saíram de casa, cada um para a sua Universidade. Aurora ficou só com o marido e a sua dependência do álcool. De três em três meses vinham os filhos a casa. Viveu anos de angústia, escondendo o mais que pôde a sua dor para os não entristecer. Estava sempre presente em tudo com uma força gigantesca.
* Fui sempre o esteio desta casa..
º Tu, avozinha, tão pequenina, que esteio eras tu?
* O burro não se mede por grande orelha. Sou pequenina, mas segura. Nunca caí à primeira, nem à segunda, nem à terceira.
° Mas caíste à quarta, avozinha.
* Quarta, sermil e alqueire.
Era tal a força e a segurança que dava aos filhos e à vida que dificilmente eles se apercebiam de que estavam à beira da ruína económica. O marido não queria vender nada e ainda se metia em compras de terras, quando já mal tinha para as despesas.
Ela não recorda os tempos mais próximos. A sua memória vai para o passado longínquo.
° Parabéns, avozinha, fazes hoje noventa e nove anos.
* Noventa e nove anos? Estás tolo, rapaz. Se tivesse esses anos todos já tinha morrido. Dez anos pr'aí talvez, vá que não vá.
Na verdade, a mentalidade daquela velhinha não estaria muito longe dessa idade.
° Dez anos, avozinha, com filhos de sessenta e tal? Põe-te fina. Estás tolinha de todo, ainda te dou uma galheta para ver se afinas.
* Sei lá o que é uma galheta, se me desses mas é um chocolatitol Um pra mim e outro pra estas crianças.
º Crianças, avó, não vês que são bonecas?
* Boneco és tu.
° Estás-me a insultar, vou-me embora.
E logo, mais mansa, porque via a companhia e o interlocutor a faltarem, perguntava:
* Para onde vais tu? Vais ao brejo, não é? Vão todos para o brejo e deixam-me ficar aqui sozinha.
Na sua cabeça, andava toda a gente no brejo, e ela que tão brejeira era, tinha de ficar em casa.
Para a arreliar batia ele com a bengala nas bonecas que a rodeavam. Malhava numas e noutras sem dó nem piedade. Enfurecia-a de tal ordem que a fazia gritar pela filha.
* Vem cá que este malandro mata-me as crianças.
Ele ria-se a bom rir.
º Tu és tola, põe-te fina, só tens areia nessa cabeça. Tu não vês que isto não são crianças, são bonecos. Põe-te fina. Só gosto de ti fininha.
Já mais lúcida, repetia:
* Areia na cabeça? Eu não sou nenhuma praia.
º Tu és histérica, histérica é que tu és.
* Como é que eu sou histérica, se eu tive dois filhos?
E ria-se de sobranceria e autoridade.
O certo é que sempre que o neto a provocava, ela afinava de uma forma repentina. A lucidez surgia com toda a força, mas pouco tempo depois deixava-se mergulhar na fantasia, no seu devaneio pelo mundo do passado, vivido e criado ao sabor do momento,
° Avozinha, gostas do Rui Veloso?
* Sei lá quem é o Rui Veloso.
° Avozinha, repete, eu curto o Rui Veloso.
* Curto e comprido. Sei lá eu bem o que é isso.
Depois de tanto insistir, lá repetia contrariada.
* Eu curto o Rui Veloso.
Num riso espontâneo, ele cobria-a de beijos.
° Ai, avozinha, tu estás uma teenager.
* Estou o quê?
º Uma teenager, avozinha, se não sabes, pergunta à mamã.
A saúde do marido esvaía-se, na altura, de dia para dia. Felizmente os filhos estavam quase a acabar o curso. Teve ele ainda a alegria de ver os filhos formados, o filho médico com o seu nome, e sentir todo o orgulho do mundo. Os elogios que ouvia ao bom nome deles enchiam-lhe os olhos de lágrimas e comoviam-no até aos soluços. Era muito terno e doce. Estavam, porém, ainda reservados para um grande sofrimento, a partida do filho para a guerra colonial da Guiné.
Foram dois anos de enorme sofrimento em que a mãe passava as noites em claro, a rezar. Só os aerogramas, de onde em onde, lhe traziam alguma alegria e muitas incertezas, porque na hora em que ela os lia já não sabia se seu filho estava vivo ou morto.
* Passei todo esse tempo a rezar, correndo para a capela a acender velinhas à Senhora da Boa Viagem para que me trouxesse o meu filho são e salvo. E assim aconteceu, louvado seja Deus! Tanto passei para lhe salvar a vida em criança, para agora o deixar morrer, sabe-se lá onde. Teve a coqueluche em pequenino, não comia nada, saía com ele, de manhã, para os matos, por causa do ar puro, levava uma conservadeira de leite e andava por lá todo o dia, fiquei na espinha mas salvei a vida ao meu filho. Mais tarde salvou-me ele a minha.
Um dia sofreu ela uma intoxicação alimentar e ficou à beira da morte. O filho, ainda aluno dos primeiros anos de medicina, recorreu a um médico da aldeia que, com a sua velha experiência, o ajudou realmente a salvar a vida à mãe.
Regressado da Guiné, a aldeia recebeu o seu filho, em festa. Durante a noite ardeu uma fogueira ao cimo do Caminho Novo e toda a gente se manteve alerta. De madrugada estoiraram foguetes. Houve missa de festa e banda de música. Um almoço com centenas de pessoas. Era tal a alegria e o orgulho dos pais que a emoção se manteve por muito tempo. O pai viveu ainda mais um ano a glória do filho e a alegria de ver a filha formada, ainda que não na carreira de advogada, que ele tanto ambicionara.
- Gostava que fosses advogada.. Juíza não. Talvez notária. Professora também não é mau. Podes vir a ser reitora de liceu. O Gasparinho das Ordens de Cima é professor e toda a gente lhe tira o chapéu.
Havia também as Ordens de Baixo. As Ordens eram um local junto à igreja matriz onde se erguia uma casa lindíssima na qual viviam uns ingleses com quem ele se dava bem. Tagarelando a sua lenga-lenga, assustavam muitas vezes os aldeões que andavam por ali, à erva, nos lameiros. Chegavam a ser confundidos com quadrilhas que, constava, vinham de Lisboa. Amava tanto a filha que via nela o melhor do mundo. O carinho e a ternura cegavam-no. Por isso as canas brancas de S. José, na leira de cima, nunca mais deixaram de florir.
- Essas não se cortam, são as predilectas da minha Ervinhas.
Morreu um ano após a chegada do filho. Era uma tarde de meados de Março, daquelas Primaveras que fazem rebentar toda a natureza por dentro e deitar cá para fora os bolbos, os fetos, os gomos e os talos. Era uma tarde sem sossego. Apesar das melhoras da véspera, um fim de semana, a inquietude daquela segunda-feira fez regressar a filha. O ambiente era pesado.
O irmão José, seu padrinho, a um canto da sala, esperava o momento final num misto de dor e resignação. O filho, melhor do que ninguém, sabia até onde aquele coração poderia resistir. Exalou o último suspiro nos seus braços, com um sorriso nos lábios, fazendo pouco da morte.
Apesar da dor profunda, Aurora nunca soltou uma lágrima.
A filha não aceitou a morte. Virou-lhe as costas humilhada pela dor desse corte fatal. Olhou o quintal de cima e as caninhas de S. José estavam a florir. O pai gostava de flores brancas e de cravos. Nunca lhe faltaram em cima da sua campa rasa.
Se a morte o tivesse deixado viver, gostaria também, de certeza, de cravos vermelhos.
Banalizou-se a morte
de tal sorte
que saiu por cima a vida.
Cortou as asas ao sofrimento
a vida voou para dentro
de mim e ali ficou guardada
entre o vazio e o nada.
A morte é feia
voa no vento
no uivar do cão
pela madrugada
na noite adormecida
no rebentar e no cair da folha.
Vindima de cangalheiro
não me há-de levar de vencida.
Mesmo de costas voltadas
hei-de lutar contra ela
até ao fim da minha vida.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 28
(continuação)
Aurora e o marido decidiram matricular o filho num colégio da terra. Porém, a sua preparação dos jesuítas era tão boa, que ele entendeu nada ter ali a aprender. Foi, então, para um colégio mais distante, com melhor reputação pedagógica. Mais tarde acompanhou-o a irmã.
Todos os dias os filhos acordavam, automaticamente, ao som da sirene da fábrica e dos afagos da mãe. Preparava-lhes um lanche para a tarde, uma garrafinha com uma gemada e um pão com marmelada ou manteiga. Subiam o Caminho Novo, sempre à recta, com o simpático motorista da Leyland, à sua espera quando raramente se atrasavam. Ao princípio da noite regressavam a casa. Esperava-os, sobretudo em tempo de chuva, o Bininho, o corcunda, para os ajudar a trazer as pastas pela calçada abaixo. O Bininho vivia com a mãe, velhinha, a ti Fruménia (forma aldeã da palavra Filomena). Tinha uma figura tão bizarra e grotesca que fazia lembrar o Quasimodo da Notre Dame, de Victor Hugo. Já nesse tempo, os dois miúdos liam muito e faziam eles próprios essa analogia com o corcunda do grande escritor francês.
Não era fácil crescer intelectualmente num ambiente tão rural, nem tão pouco crescer saudavelmente em tempos tão difíceis. Só a grandeza de alma, a inteligência e a sensibilidade dos pais que tiveram, facilitaram a sua perspectiva de vida e o modo como futuramente construíram a sua visão do mundo.
O Bininho era mais uma das muitas figuras com aleijões físicos e mentais que se tornaram carismáticas na aldeia. Uns corcundas, outros mongolóides, filhos últimos de casais com grande prole, outros vítimas de meningite ou poliomielite iam vivendo e convivendo por ali, perante a complacência de muitos e a troça de outros. Toda a aldeia tem um tolo, era um ditado popular. Aquela tinha vários.
O cigarrito era o principal prazer da vida do Bininho. Volta e meia abria a cigarreira de metal, que lhe havia dado uma irmã que vivia no Porto, olhava de lado a ver se alguém se compadecia da cigarreira vazia e lhe dava uns tostões. Quando fazia anos, abordava ao romper do dia os seus meninos e dizia:
- Meninos, parabéns.
- Porquê, Bininho?
- Hoje faço anos.
Em casa havia um pequeno cão de raça, o Pluto, e uma cadelita meio raçada, a Xerxes, assim baptizada por influência de leituras.
- Sempre que a cadela paria, o corcunda andava num sino, para levar os cãezitos a afogar no rio. O teu avô dava cinco escudos por isso. O tolito passava a vida a chegar os cães à cadela e arreliava-se todo por ela não emprenhar.
Era tão tolo ou tão pouco, que um dia foi-se confessar ao Sr. Prior e ele perguntou-lhe se ele tinha alguma amiguita. O palerma foi-lhe dizer que tinha sim, senhor, que era a Aurorinha do Engenho. O teu avô fartou-se de rir.
° Se calhar, Avó, era mesmo verdade.
* Rais te partam, amiga dele e dos pobres como ele, fui eu toda a vida. O que vale é que o prior sabia que ele era pobre de espírito.
Todas as festas de ano eram celebradas com rigor naquela casa. No Natal não faltava o presépio com musgo, e por técnicas e hábitos aprendidos no seminário, chegava a fazer-se um presépio com água a correr e pastorinhos a mexer. Nessa época também se representavam comédias e teatros de sombra para as pessoas da aldeia que ali quisessem vir. Na lareira ficavam os sapatos e as chanquinhas, à espera dos bonecos de chocolate revestidos de pratas coloridas e reluzentes, que o Menino Jesus iria trazer à meia-noite, entrando pela chaminé. A tudo isto se juntava a ceia de Natal, a bacalhoada, as rabanadas, os mexidos, os belharacos, as castanhas cozidas, o cheiro a canela e vinho fervido. No Entrudo, as caras enfarruscadas na lapeira, as serpentinas, as bichas, as caretas, a fantasia da simplicidade. Na Páscoa,o repicar dos sinos, o cortejo pascal, o doce sortido, as amêndoas e o doce cheiro da Primavera. As romarias, as cascatas com canos de abóbora e ramalhos de carvalhas e o S. João a mijar em bica.
- Um tostãozinho para o santinho.
A Senhora da Saúde, as pandeiretas, as rusgas, as cestas com o farnel, o manjerico atrás da orelha, o frenesim dos carroceis e do arraial eram a apoteose das festas de Verão. As de S. Gonçalo, as da Senhora da Piedade e até a Senhora do Carmo, a maior da freguesia, não se comparavam à da Senhora da Saúde.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 27
(continuação)
Faziam-se piqueniques com os familiares vindos de Lisboa, com os amigos e com os jesuítas do seminário. Havia em Macieira de Cambra um seminário de Jesuítas, para o qual o marido de Aurora se tornou um grande benfeitor. Todo o trabalho de dentista era feito gratuitamente, não só a padres e irmãos coadjutores, mas também a alunos. Não era religioso, tendo porém com eles essa atenção, sabe-se lá bem porquê. Talvez porque, sempre atraído pelo saber, os julgava muito cultos.
Todos os anos lhes mandava dois cestos de vindima cheios das melhores uvas das suas videiras. Tinha boas ramadas de vinho verde mas quis experimentar fazer uma vinha de cepa com castas do Douro. A terra era bem batida pelo sol e havia muita água. Mesmo assim não resultou. Enxertou-as e fez ramadas. As uvas, apesar de traçadas, eram excelentes e passaram a ser uvas de mesa.
Um dia, o reitor do seminário, com a devida cortesia, ofereceu-lhe a oportunidade de receber o seu filho como aluno. Fazia-o por gratidão. Era uma excepção merecida. Afinal ele era o melhor benfeitor do seminário, vinha logo em número um no jornal lá editado. Se o filho não quisesse seguir a vocação do sacerdócio, sairia quando assim o entendesse, e poderia continuar os seus estudos onde quisesse.
* Podia até vir a ser um bom dentista como o pai. Não perdia com isso.
O seminário preparava muito bem e o filho lá entrou. Mais tarde ofereceram à filha aulas de música. Já então não se encontrava lá o irmão.
Novamente ousada foi esta inédita excepção permitida pelo reitor. Nunca ali tinham entrado mulheres para além da porta principal. Esta atitude só revelava a grande consideração e admiração que tinham por aquele benfeitor. Menina dos seus catorze anos, lá foi ela aprender o solfejo, para tocar órgão nas missas. A mãe sempre ambicionara educá-la como a prima Laurindinha. O solfejo bem ela aprendeu, era apenas técnica. Chegou ainda a tocar harmónio na capelinha do seminário, mas a brincadeira era superior à vocação musical e por ali ficou. Hoje mal conhece as notas, as de música, claro!
O rapaz também não deu conta do recado. Sempre que vinha a casa, de férias, ia à missa só ao Domingo e passava o tempo numa total distracção e desinteresse, rodopiando, irrequieto, o terço em voltas e contravoltas, para arrelia e desgosto da mãe, que via a vocação a esfumar-se. Realmente, cedo chegou ao seminário, através do prior da freguesia, a notícia de que o rapaz não tinha qualquer jeito para padre.
* O reitor disse ao pai que tinha muita pena, mas que o teu tio não era feito para padre e a melhor altura para o tirar de lá era agora.
° E tu tiveste pena, avó? Assim não precisavas de ir à igreja, tinhas um padre em casa e ias direitinha pró céu.
* Sabes que mais, meu garoto de merda, muitas graças a Deus e poucas graças com Deus.
Antes, porém, da decisão da saída, o rapaz fugiu, de madrugada, avançando a cerca do edifício, e apareceu em casa dos pais, determinado a não pôr lá mais os pés. O seminário ficava no alto de uma colina, donde se via, ao longe, a sua aldeia. Não resistiu à saudade que sempre o invadiu, quando ao sol poente avistava o cabeço do monte, por trás do qual adivinhava a sua casa com a família, o seu rio ao fundo, serpenteando por entre juncos e salgueiros, esse rio que lhe correu nas veias desde criança.
Solta papagaios ao vento
leva nos pés uma bola
céu e terra em pé de guerra.
O rio corre-lhe nas veias
chama-o no calor da tarde.
Na mente irrequieta
inventa sonhos de menino
e engenhos na calçada.
Oprimido pela ausência
da infância perdida
chora a saudade
em rezas distraídas
de cara mal benzida
e genuflexão a meia haste.
Volta à paz do ventre materno
todo ele é razão e ciência
todo ele é terreno.
Vai para a frente volta atrás
encontros e desencontros
rasgam-lhe o coração
que estuda até ao fundo
desatando o nó
que o prendeu ao mundo.
Esquece tudo.
Esquece o rio.
A alma em que não acredita
toma as cores da fantasia
e com os papagaios ao vento
voa pelos céus da arte.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 26
(continuação)
O cunhado padre foi entretanto ameaçado pela hierarquia religiosa, que não admitia a propriedade em seu nome individual, e obrigaram-no a desistir da fazenda em Moçambique. Não cedeu e apostatou. Resolveu, então, vir a Portugal mas não passou de Lisboa onde residia o irmão Gonçalo. Seria grande o escândalo se aparecesse na aldeia sem cabeção e com gravata, como surgira em Lisboa.
O marido de Aurora e o filho, adolescente, deslocaram-se à capital onde o esperaram à saída do barco. A par da grande alegria de rever o irmão predilecto, havia uma escondida tristeza, não tanto pelo facto de ele se desligar da igreja, mas pela humilhação que a situação representava. No próprio filho, criança educada em atmosfera religiosa, o sentimento nascido da insólita imagem de um padre de gravata, fumando cachimbo, só muito tarde se desvaneceu.
O padre decidiu emigrar novamente, desta vez para o Brasil, onde, mais tarde, regressou à Igreja. Foi pároco em S. Paulo onde fundou uma obra social, tendo morrido aos noventa anos, sem vintém.
* Foi uma alegria quando o meu cunhado padre voltou ao seio da Igreja. Em todas as capelas e igrejas foi anuncida a boa nova.
° Nessa altura já não tinhas chouriços para lhe mandar, não era avozinha?
* Hom'essa! Na minha casa matavam-se dois a quatro porcos por ano, conforme o tamanho ou a necessidade.
A matança era um acto tão solene que dava direito às crianças de faltarem à escola. O marido de Aurora fugia para os matos logo de manhãzinha, para não ouvir os guinchos angustiantes dos animais. Era um acto tão selvagem que ele não aguentava presenciá-lo. O almoço era melhorado, quase sempre arroz de frango ou de vitela e aletria de cortar à faca. Servia-se vinho do melhor que havia, tinto, branco ou de casta. O porco ficava pendurado na adega, a sangrar, até ao dia da desmancha. Parte dele repartia Aurora pela aldeia.
* A tua mãe, pequenina, ia de porta em porta, com uma cestinha, levar às pessoas mais velhas e mais pobres a sua oferta. Para as mais doentes, ia unto para um caldinho e para os outros adubo. Os rojões já iam feitos, menos gordos para os doentes e mais entremeados para os que tinham saúde. O teu tio só queria saber era da bexiga do porco para fazer uma bola.
Tanto Aurora como o marido eram pessoas muito generosas e toda a vida reconhecidas como tal. Ela acudia e valia a muita miséria que então havia nas aldeias. Até na casa de gente tuberculosa ela entrava, na flor da sua vida, para levar uma enxerga limpa e queimar a velha. Tratava queimaduras de crianças com folhas de malva e valia a quantos podia. Chegava a enviar encomendas de roupa, açúcar e arroz para pessoas que, por doença ou infelicidade da terra se ausentaram. Nunca entrava ninguém naquela casa que não bebesse um copo ou tomasse um chá. Não havia pobre a quem fosse negada esmola, pequena ou grande. Nunca o portão estava fechado. Só se dava conta de que alguém tinha entrado no pátio quando se ouvia a lengalenga de um padre-nosso que estais no Céu. Era uma família feliz e havia alegria naquela casa, apenas toldada pelos amuos do marido. Sempre se fizeram boas merendas para os trabalhadores do campo, pataniscas, salada de bacalhau, bifinhos de peito de frango, azeitonas, pão e vinho ou comida de garfo. Para os de casa havia chá ou cacau, com um sabor único. Levava manteiga, sal e limão. A manteiga era pura. Batia-se o leite num cântaro de barro e retirava-se a nata ao de cima embrulhando-a em papel vegetal. Acompanhavam o chá e o cacau torradas polvilhadas de canela. Aurora trouxe toda a sua educação de outrora para a casa, para a família e para a aldeia. Todos os que com ela privaram, com ela aprenderam e lucraram.
O marido, sempre que ia ao Porto tratar de assuntos profissionais, trazia da Rua das Flores e da rua Mouzinho da Silveira, polvo seco, línguas ou caras de bacalhau, queijo da serra ou figos de seira.
* Para os filhos comprava latas de cálcio e de cola granulada.. Teve sempre cuidado com a saúde deles. Dava-lhes óleo de fígado de bacalhau e o remédio das lombrigas uma vez por ano. Era um suplício aquele sabor. O pai tapava-Ihes o nariz com uma mão e com a outra metia-lhes uma colher do remédio pela boca abaixo. Eu, ali à beira, passava-lhes na língua uma rodela de limão com açúcar, que os fazia estremecer.
Todos os anos se davam passeios, desta vez no velho Hillman cor de café com leite e de estofos de couro. O pai fazia questão em instruir os filhos pequenitos, levando-os para Norte ou para Sul, a visitar castelos ou museus. Tão intensamente transmitiu aos filhos a sensação e o desejo da aventura e do conhecimento, que, ainda muito pequenos, lhe propuseram uma ida, sozinhos, ao parque da La-Salette, a meia dúzia de quilómetros de casa, para, na simplicidade da sua ideia, se desenvolverem. Mais tarde, tinha o rapaz à volta de dez anos, e a miúda os cinco, quando a mãe os entregou na camioneta, para irem passar uns dias a Ovar, onde estava de férias o tio de Lisboa.
Simplesmente teriam de fazer transbordo na Ponte de Cavaleiros, para o que estavam bem instruídos. Porém, quando lá chegaram, já a camioneta tinha partido. O rapaz não desanimou, e logo, puxou dos conhecimentos que tinha, decidindo ir para a estação de caminho de ferro do Vale do Vouga, que ficava a dois ou três quilómetros. Sabia que o comboio os levaria a Espinho, onde tomariam outro vindo do Porto que passava em Ovar.
* Isto deu tanta aflição, tanta aflição, pois eles não apareciam em Ovar. Ainda por cima, gentes da terra que estavam a banhos em Espinho e regressaram nesse dia, me disseram, muito admiradas, que os tinham visto lá, a comer uvas e bananas.
° Pois é, Avó, deixavas os teus filhos ao abandono, eras uma mãe desnaturada.
* Desnaturada, eu? Que tão preocupada fui toda a vida. com eles? Alguém esperava semelhante coisa?
Ao pai atraíam-no, especialmente, os portos, os aeroportos ou estações de caminho de ferro, o que deixou marca nos filhos. Havia nele uma nostalgia dos longes, um sentido de partida ou de chegada, sabe-se lá, a busca do desconhecido, o desvendar de novos horizontes e, talvez também, o desejo do regresso, do descanso na cogitação, na dissecação das vivências, no deleite do encontro do longe e do perto, do passado, do presente e do futuro.
(continua)
.
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 25
(continuação)
Aurora amava o marido mas sofria em silêncio ao vê-lo arruinar-se. Os filhos sofreram com ela. Homem lúcido e respeitado, deixou degradar a sua imagem até perder a auto-estima por completo. Acabou numa dependência total, como uma criança, numa docilidade que tudo aceitava, até a própria morte. Nunca perdera o juízo. Ficava eufórico, de olhar toldado, sempre manso, mas a degradação crescia de dia para dia e a doença depressa se apoderou do seu corpo. Uma cirrose hepática mirrara-lhe a vida durante anos até o arrancar ao seio da família.
Aurora tinha muitos ciúmes do marido, com ou sem razão. Fazia-lhe a vida negra e não o deixava parar em ramo verde. Ele gostava muito dela, a seu modo. Não era homem para a adular com presentes, pelo contrário. Ela tinha muita dificuldade em lhe arrancar dinheiro que não fosse para o indispensável e necessário. Essa dependência económica do marido tolheu-a a vida inteira. Senhora e mandona, sofria, ao ver-se assim controlada.
Era considerado um homem rico, para a época. Tinha algumas economias, em empresas da terra. Emprestava dinheiro sem juros a gente pobre, perdoou algumas dívidas por razões de saúde ou morte. O dinheiro guardava-o numa caixa de madeira, atulhada de notas e numa gaveta cheia de moedas, no guarda-livros. Em dias de boa disposição, regalava-se a mostrar aos filhos a sua pequena fortuna.
Um dia escorregaram algumas notas de conto de reis pelas traseiras do armário. Aurora guardou-as muito bem guardadas a ver no que dava. Ele nunca descobriu. Com esse dinheiro pagou as explicações da filha à professora primária, a fim de, em Coimbra, fazer o exame de admissão ao Liceu. Só o filho estudava, então. A mãe achava que a filha também tinha o mesmo direito.
* Ambos saíram da mesma barriga.
O irmão José, também padrinho da miúda, achava que a garota era esperta e lembrava-lhe a tristeza que ele sempre sentira por não ter estudado.
* Fui uma grande mulher e uma grande mãe. Se não era eu, a tua mãe nunca teria ido estudar e hoje era uma empregadeca e tu eras um borradito.
° Eu, avó, um borradito, neto de uma avó tão limpinha? Ai, avó, avó, vê lá bem de quem eu sou neto.
* Ai, limpinha, limpinha sou.
° És limpinha porque a mamã te limpa. Se não era a mamã, queria-me rir.
* Queres-te rir porquê? Então ri-te, ri-te, caganite.
A sua preocupação era enaltecer-se aos olhos dos netos, provocando-os constantemente no seu discurso. Não precisava de o fazer porque eles tinham-na num pedestal tão alto como ninguém. Deve ter sido a imagem mais bonita que lhes ficou da vida. Felizmente, ela sabia-o bem, mas gostava de se sentir provocada nessa lisonja.
Aurora viveu anos de grande felicidade com o marido e os dois filhos, um menino e uma menina. Fazia as roupas da menina, os bibes de popeline, os calções e as camisinhas do menino. Tratava da casa, cevava porcos, criava galinhas, patos e perus. Tinha uma toura e uma cabra para dar leite. Ajudavam-na uma criada velha, a quem o marido pusera o nome de Faruk, por se movimentar de rabo alçado em forma de prateleira, e um criado, rapaz novo, que no tempo da guerra ia, de madrugada, para a bicha do pão, a fim de conseguir dois ou três pães ou uma simples sêmea. De casa do cunhado Zé vinha todas as semanas broa e bolo de milho.
O irmão padre, então missionário em Moçambique, dono de uma grande área onde fundou escolas e uma cantina para os negros, juntamente com algumas religiosas, mandava cachos de bananas e sacas de arroz e açúcar, com caras de pretas nelas desenhadas. Era um luxo para tal época de fome, tempo da guerra.
Em troca, enviava-lhe a cunhada os melhores chouriços e salpicões feitos com vinho branco, que, depois de defumados, eram religiosamente guardados no escabelo da cozinha à espera da altura de serem enviados ao tio padre.
* Um dia, abri o escabelo para fazer a encomenda para o tio padre e...chouriços de grilo. Fiquei morta. O teu tio foi tasquinhando, tasquinhando e lambeu-os todos.
º Fez ele muito bem, avozinha. Se fosse eu fazia o mesmo. Que era o padre mais do que ele?
* Capaz disso eras tu, meu macaco.
No escabelo restara apenas o cheirinho apetitoso envolto no pano de linho primorosamente limpo.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 24
(continuação)
Aurora era dotada de grande sensibilidade artística. Em tudo onde punha a mão saía obra bonita. Ninguém melhor do que ela era capaz de enfeitar um altar ou dispor flores numa jarra. Com umas simples hastes campestres fazia realçar uma mesa de Páscoa. Pintava quadros em vidro, avivando a pintura com papel de estanho no avesso.
* Na missa nova do meu cunhado padre, ofereci-lhe um anjo da guarda com a hóstia e o cálice, em tons de azul celeste, que ele muito estimou.
Outro irmão do marido, Gonçalo, vivia em Lisboa e tinha um carro de praça junto à Basílica da Estrela. Meteu na cabeça do irmão a compra de mais um carro, a meias, um Mercedes.
Gonçalo, homem de uma delicadeza invulgar, passava férias todos os anos em casa do irmão. Oferecia à cunhada bonitos presentes, e deu aos sobrinhos os brinquedos mais lindos que tiveram. Na aldeia brincava-se então com bonecas de trapos, carros e carretas de pau, arcos e ganchetas, Os bonecos por ele oferecidos eram de celulóide ou de loiça, e os carros de folheta, um luxo e o espanto da imaginação das crianças da aldeia. Ao sobrinho ofereceu um triciclo, coisa rara, que o transformou em vedeta, ao dar voltas e reviravoltas, como se fosse artista do poço da morte.
A relação destes irmãos, extremamente amigos, foi-se modificando com o tempo, até chegar à ruptura. O dinheiro que o carro rendia era pouco, gerando este negócio alguma desconfiança que progressivamente pôs fim àquela bonita amizade.
Tudo isto, aliado à velha tendência para a frustração, foi empurrando o homem de Aurora para o álcool. Raramente o procurava fora de casa. A sua adega era farta e de boa qualidade. Começou a beber, sempre debaixo da reprimenda do irmão José, o seu fiel amigo. Este bebia muito pouco.
— Ó homem, tem juízo, um gole no fim da refeição chega para lavar o moinho.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 23
(continuação)
O marido de Aurora era ateu e Aurora religiosa, sem ser beata. Ia à missa aos domingos e pouco mais, mas era devota e crente. Ele nunca a impedira ou demovera da sua convicção. Por estranho que pareça, até colaborava com ela. Muitas vezes lhe lembrava que já tinham tocado as segundas para a missa e estavam quase a cair as três. Também nunca interferiu na educação dos filhos, nesse e noutros aspectos. Dava o dinheiro para o seu sustento e estudos, confiando neles e na intuição pedagógica da mulher. Preocupava-se essencialmente que fossem bem alimentados.
- Um estudante tem de comer bem para dar bom rendimento.
Nunca bateu num filho.
- Todo o homem que bate numa criança ou numa mulher é um cobarde. A luta é desigual.
Ironizava com a religião da mulher de uma forma mansa e tolerante, com um humor que a desarmava por completo. Era um homem bom e muito terno. Tinha um defeito, amuava com frequência sem razão visível para tal. A frustração que sempre o acompanhara não o deixava ser totalmente feliz. Tinha uma enorme avidez pelo saber, de ir mais longe, mas sempre achou que lhe tinham cortado as pernas. Levava dias amuado, passeando-se debaixo das ramadas, com o olhar vazio, diluído pelos campos fora. A filha pequenita era a única que conseguia arrancá-lo àquele voar perdido. O pai era homem cheio de ironia e gostava de imitar algumas figuras caricatas da aldeia. A miúda tentava brincar com ele imitando as suas imitações até lhe ver no rosto um esboço cúmplice de sorriso. Logo a seguir pegava-lhe na mão e arrastava-o com ela.
- Papá, vamos para a mesa.
E era assim que muitas vezes se quebrava o amuo. Havia nele uma corda de criança que, tangida pelas mãos de outra criança, o tocava tão fundo no coração que assim cedia de uma forma tão simples, tão submissa, que aos olhos de hoje se explica pela ternura da sua alma.
Apesar de possuir algumas terras de herança, nunca a elas se dedicara. No entanto, passava a vida a fazer enxertos e experiências com árvores e frutos. Enxertava pêras e maçãs na mesma árvore, conseguia que a mesma videira desse uvas brancas e tintas, que o mesmo cacho tivesse bagos brancos e tintos, e o mesmo bago, gomos tintos e brancos. Surpreendia toda a gente com a sua esperteza e habilidade.
Passava tardes inteiras a conversar com o irmão mais velho, seu padrinho, especulando sobre tudo. Sonhavam e engendravam interessantes planos de lavoura, de construção de bairros em matos seus, de empresas disto ou daquilo, mas raramente passavam à acção. Era a expressão mais pura, mais sábia da dialéctica, práticos exemplos de simplória especulação filosófica. Assuntos simples e banais que levavam a conclusões inteligentes através de meandros de belas imagens. E porque há-de a dialéctica e a filosofia tratar só os intrínsecos campos da Razão, dos Sentimentos, do Eu, e não debruçar-se sobre os campos de milho ou vinha? Não é o desprezo do conhecimento ou do elemento espiritual, é o pragmatismo, a lógica da simplicidade, da circunstância e do universal. O sonho vai tanto mais alto quanto mais se aproxima da terra.
Eram anti-salazaristas ferrenhos, por razões nem sempre verdadeiramente políticas. Umas vezes, porque as árvores da ponte faziam sombra a um campo de milho e não o deixavam crescer, outras porque os impostos sobre as terras não lhes agradavam. Corria-lhes, no entanto, nas veias alguma lucidez e sentido de justiça.
Ainda solteiros, organizaram uma greve do leite. Da sacada da casa dos pais ataram uma corda à sineta da capela e fizeram tocar o sino a rebate. Assim juntaram o povo para esclarecimento da situação e tomada de posição.
Ironizavam com o governo e em tudo usavam comparações e metáforas. Comparavam-no, e aos seus adeptos, com cardumes de barbos e trutas à volta do raizeiro, dentro do viveiro que ambos construíram no fundo do rio, junto à margem do Paul, um dos seus campos.
Apoiaram a candidatura de Norton de Matos. Tinham um ódio de morte ao sistema e ao poder local que o acolitava. Mas não passava disto.
O irmão mais velho, Gabriel, regressara rico da América. Tinha um filho ainda mais rico, comendador, dono de grande empresa de café e algodão no Brasil. Gostavam muito do irmão, puseram-lhe o nome de of, mas passavam a vida a desdenhar da sua fortuna e da comenda do filho. O outro irmão, António, era padre. A missa nova fora um acontecimento único, um sucesso, decorrente do zelo e brio do irmão, marido de Aurora. Ainda em casa dos pais, nessa altura, tratou de tudo, da boda, dos toldos que vieram de Estarreja, da loiça que veio do Centro Vidreiro, dos convites. Foi uma azáfama tremenda.
* Fez ver aos Tochas.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 22
(continuação)
Decidiu então Aurora ir com o cunhado Zé e o cunhado Gonçalo a Rio de Frades.
* Partimos uma madrugada para Cabreiros e daqui para Rio de Frades. De camioneta e a pé lá chegámos. Dormimos em Cabreiros, em casa de um proprietário de filões. Pensei que morria nessa noite. Por baixo do quarto dormiam ovelhas, cabras e bodes. Era essa uma forma de aquecer os quartos. O fedor era tal que ia pondo a minha filha pela boca. Pensei que perdia o fruto que trazia na barriga.
° Pela boca, avozinha, os meninos não saem pela boca. És uma ignorante.
* Ignorante é ele. Eu sei muito bem por onde eles saem.
° Então por onde saem, avozinha, é pelo umbigo?
* Também achas que saíste pelo umbigo? Oh coitado! Eras muito pequenito!
° Então por onde saem, avozinha?
* Saem por onde tu saíste.
º Tu sabes muito, avozinha, tu és fresca, uma sabidola!
* Se eu sei muito, tu sabes muito mais.
* Num quartito ao lado dormiram os meus dois cunhados, numas camas assentes em bancos de madeira.
A meio da noite ouvi-os falar e rir.
* Está bem, cunhada?
* Eu morro, não aguento tal cheiro.
- Venha cá ver o espectáculo.
* Fui ao quarto deles. Acenderam a candeia e vi-os ambos dois vestidos, à janela, a apontar para duas carreiras de percevejos, cama acima.
- Isto é o exército alemão, cunhada, à frente das tropas vai o Hitler.
* Riram toda a noite e nada dormimos.
De manhã foram à procura dos filões mas era tal a sua localização e inacessibilidade, tão pouca a vontade de gastar esforços, e tão grande a crença na burla, que se contentaram a vê-los de longe. Desiludidos e enganados regressaram, tendo sido alvo de gozo por parte do irmão, marido de Aurora.
- Eu não vos dizia? Estavam lá os filões guardados, à vossa espera!
Mais esperto e mais lúcido, tinha a noção da desonestidade e da corrupção que giravam à volta da exploração do minério.
- Foi pena não terem levado picareta e martelo, que podiam trazer os bolsos cheios. Dava ao menos para o caminho.
Era homem que não corria a foguetes e sabia bem onde a porca torce o rabo. À falta de armas para lutar, conformava-se com o humor, ridicularizando as situações, mesmo que, muitas vezes, as reconhecesse como dramáticas.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 21
(continuação)
Aurora voltou em plena guerra a Rio de Frades, grávida de sua filha. Soubera que lhe tinham cabido em herança alguns filões de minério. Insistiu com o marido para a acompanhar, mas ele não era homem de se entusiasmar facilmente. Em nada lhe interessavam tais filões. Porém, dois dos seus irmãos, cunhados de Aurora e muito seus amigos, fizeram-lhe a vontade e foram com ela.
* Quem saberia se não estava ali a fortuna deles todos!
Um vivia em Lisboa. Homem polido, de alma muito generosa e delicada, cedeu ao pedido da cunhada porque a estimava muito. O outro, um grande proprietário, daqueles lavradores que nunca deram uma cavadela no chão, era um sonhador. Os caseiros adoravam-no. Generoso, em tempo de seca, de vendaval ou cheias, perdoava sempre as rendas.
Gastava muito dinheiro a comprar reagentes e materiais químicos, pois tinha uma verdadeira paixão por experiências, passando a vida a inventar, a fazer chaminés, poços e minas, pesquisando sempre e perseguindo constantemente a comprovação de suas ideias. Chegou a inventar uma pasta de caldear ferro, comercializada em placas quadriculadas que lembravam tabletes de chocolate, baptizando-a com o nome de Adelvas. Muitos lhe pediram o segredo, mas, bem guardado no cofre, morreu com ele. Não lhe interessava qualquer fim lucrativo. O seu grande interesse era a busca e a invenção. Após a descoberta desinteressava-se do resto.
Aprendeu a arte de ourives, no Porto, mas nunca a exerceu. Por curiosidade, fazia cristos e bonecos de matraquilhos.
Demorava-se pouco em cada uma das artes, só enquanto lhe desse prazer.
Como era homem rico em terras, não precisava de trabalhar. Vivia dos rendimentos. Talvez por isso fosse tão bem disposto, tão amante da vida e tão temente da morte. Morreu a insultar a morte.
Casou com senhora rica, mais velha dez anos e teve uma filha mais ou menos esquizofrénica. Tratava-as muito bem mas procurava fora de casa aquilo que lá não encontrava. Teve sempre amantes, mas, de tão generoso que era, nunca as deixava sem nada. Fazia-lhes casa, dava-lhes pinheiros, alqueires de milho ou castanhas, compensava-as segundo as exigências delas ou conforme os caprichos dele próprio.
O cunhado Zé vivia numa casa grande. Pertencera a uns padres e tinha uma estrutura de base em pedra, lindíssima. Em forma de T, assentava num cabecinho com um enorme muro de pedra a toda a volta. Mandou construir sobre uma parte dessa estrutura uma casa nova com duas águias ou pegas no telhado, adulterando por completo a casa antiga. Tinha um portão grande que dava para um jardim interior, uma eira e um canastro de dois carros, de onde se dominava toda a beleza daquele lado do vale. Por um portal lateral descia-se uma escadaria estreita e muito alta até uma pequena represa de água da mina com grandes japoneiras ali dispostas ao acaso, e onde cresciam agriões e plantas aquáticas.
O cunhado Zé era um hedonista, mas amigo dos prazeres simples, dos prazeres existenciais. Gostava de bifes com batatas fritas, detestava couves e chamava-lhes orelhas de mula. Tinha um medo terrível de morrer e só desejava que o céu fosse feito de bifes. Gostava de vestir bem, mas depressa dava cabo dos fatos e por isso andava sempre a estrear roupa. Chegou a usar colarinhos engomados.
* Fui eu que vali aos meus cunhados. Tratei do meu cunhado Zé até à morte. Dei-lhe leite e sumos por uma sonda durante seis meses e ele não queria outra enfermeira. Pelo meu cunhado Gabriel também fiz o que pude. A esse só ajudei com a minha presença porque teve enfermeiros e criadas para o tratar. Faltava-Ihe o melhor, o carinho e o afecto da família que praticamente nunca teve.
O cunhado Gabriel emigrara novo para a América. Trabalhou primeiro em Cuba e dali foi para os Estados Unidos.
* Casou com uma senhora de família de manteigueiros e teve dois filhos.
Consta-se que a mulher lhe fora infiel quando ele estava ausente.
º Queres tu dizer, avozinha, que ela lhe pôs os cornos, não é?
* Que cornos, que meios cornos. Cornos é para os carneiros. Não sei para que anda a vossa mãe a pôr-vos a estudar, anda a perder dinheiro e vocês a perder tempo.
Falava sempre no plural para ser mais abrangente a reprimenda e chegar também à filha.
O cunhado Gabriel regressou à terra já muito para lá dos setenta anos. Nunca mais tinha voltado desde que se divorciara. Um divórcio, na altura, era como que um endemoninhamento, um estigma de peçonha.
A casa onde morava e a quinta à volta, Quinta Pombal de S. Tiago, situavam--se no topo da outra encosta do vale, dominando uma paisagem soberba.
* A casa tinha três bicos, como eram as casas de manteigueiros.
Quando Gabriel regressou, estavam os dois filhos no Brasil e a mulher era já morta. Um dos filhos, com o mesmo nome, era riquíssimo, possuía grandes firmas de café, açúcar e algodão, com roças por sua conta e recebeu do Estado Português uma condecoração de comendador.
Regressado da América, restaurou o pai a casa ao gosto dos anos sessenta e ao gosto do filho. Este ficara viúvo ainda novo e casou com a secretária. Tinha da primeira mulher um filho, advogado, e uma filha adoptada. A casa levou uma reviravolta tal, que se tornou irreconhecível. Gastou milhares de contos, dinheiro do pai ou do filho, não interessa, porque o dinheiro não guerreia. Uma fortuna, para a época!
Por artes de um arquitecto do Porto, de concepções modernas, rasgaram-se janelas, ampliou-se a casa e nasceu dali qualquer coisa como uma pousada. Só quartos eram dezassete. Aos olhos da época foi uma obra de arte, hoje seria um crime de modernidade.
Em época de Verão, regressava a família do Brasil e contratava-se cozinheira diplomada e acreditada para receber os senhores. Apesar de muito ricos, todo o serviço era simples,sem deixar de ser requintado. Eram também pessoas de muito bom trato.
Todo o ano havia criadas, jornaleiros, uma governanta e um motorista que habitavam uma parte da casa a eles destinada. Na garagem esperava o ano inteiro um Chevrolet preto para ser utilizado quando o filho chegasse.
Para além de outras propriedades, havia ainda a Quinta da Relva, onde eram criados porcos e vacas que davam a carne e o leite.
No centro da vila foi também construída por eles um cinema e sala de espectáculos, um luxo para a época, numa rua que tem hoje o nome do filho — ou do pai, pois eram iguais. Por morte deles tudo foi vendido, e a Quinta Pombal de S. Tiago foi comprada por um industrial da terra que virou a casa, de novo, do avesso. Da anterior já pouco deve restar, talvez só as paredes. Desta vez, também ao sabor do tempo, da moda e do dinheiro, mas com a preocupação de voltar à traça original.
* Era uma riqueza aquela casa. Vivia sozinho, o meu cunhado Gabriel. No Natal convidava-nos para consoar com ele. Todos os anos fazia uma ceia de Natal com o que havia de melhor. Vinha tudo da mercearia do Bolhão e da confeitaria Cunha do Porto. A governanta fazia questão de ficar naquela noite para nos servir. A casa aquecida, a mesa comprida e um bolo-rei no meio, tão grande que parecia a roda de um carro. Os teus pais e os teus tios bem no sabem. Já viúva e com os filhos casados, a ceia de Natal era sempre em casa do cunhado Gabriel. A tua mãe fartou-se de viajar com eles. Correu todo o estrangeiro, quando ninguém arredava daqui pé. Morreu aquela gente toda, acabou tudo.
° De pé põe-te tu avozinha, toca a levantar, estás sempre sentada ou deitada, não fazes puto. Não mereces o que comes. Mais vale manter um burro a pão-de-ló. Anda toda a gente a trabalhar, uns a semear batatas, outros a podar, outros a cavar, e tu aí na malandrice.
* Que queres tu que eu faça?
º Vai limpar o pó.
* O pó limpa-o tu.
Mandá-la limpar o pó era o diabo que lhe aparecia, era quase um insulto, trabalho demasiado monótono e meticuloso para a sua criatividade e espírito frenético.
* Limpo o pó e ele está logo a cair outra vez. Se ainda fosse descascar batatas, vá que não vá!
Só pensava em descascar batatas. Quando a filha se arreliava com tanta batata descascada, vinham logo os netos em defesa dela.
° Descasca batatas, avozinha, há aí muitas batatas para descascar.
* Já li as orações da manhã e a minha cartilha de cabo a rabo, de fio a pavio. Agora faço o que quiserem.
° Lê também estas ilustraçõezitas da mamã de cabo a rabo e de fio a pavio. Quando voltarmos das aulas tens que nos contar tudo o que leste.
* Só faço o que me apetecer. Em mim ninguém manda!
O ar autoritário e indomável fazia-os rir de ternura e complacência.
(continua)
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Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 20
(continuação)
O marido de Aurora continuou, porém, a viver e a trabalhar na casa dos pais. Aurora e o menino almoçavam ritualmente com o marido, ao domingo, em casa dos sogros. Logo de manhã, o criado, o Cabalai, pegava no menino, punha-o às cavalitas e com todo o carinho e cuidado saltitava, calçada abaixo, anunciando o meli, o meli, até casa dos avós.
Era ali tradição o arroz de vitela, aos domingos, com muitos padre-nossos (nacos de carne). Entre as sobremesas, a sopa-seca era a mais apreciada.
A avó aliciava e presenteava o neto com cerejas ou rebuçados, dependurados nos brincos de pingente.
Na despensa, o cheiro a goiabada, enviada de África pelo filho padre, perfumou a infância do neto para a vida inteira.
Era uma velhinha muito doce, de olhos cor de água. O avó era magro, escorreito, pequeno, de saúde de ferro e olhos muito vivos.
O filho entendia-se muito bem com a mãe. Ela protegia-o e pedia-lhe que nunca a deixasse só naquela casa. Morreu não muito velha. O filho não se conformou com a morte da mãe e entrou em depressão profunda. O velhote não parecia ter sentido assim tanto a morte da mulher. Assobiava pelos cantos, o que desesperava o filho. Pouco tempo depois de ela morrer, começou a fazer o rapapé à criada, ainda nova, que vivia com eles. A morte nem sempre é vencedora. Do lado de cá a vida chama a vida. Se a relação entre pai e filho não era boa, piorou dali para a frente.
* Um dia, tendo o filho presenciado o toledo do pai pela criada, arremessou pela janela fora o colchão da rapariga, exigindo que se fosse embora daquela casa.
Moveu-lhe então o pai uma acção de despejo e ele foi obrigado a sair da casa paterna.
O velho morreu de velho, com noventa e quatro anos, e o filho, ao avistar ao longe o funeral, chorava e praguejava ao mesmo tempo, num misto de dor e de revolta onde se confundiam verdadeiros sentimentos de amor e ódio.
A partir daí, Aurora passou a viver com o marido na Casa do Engenho. Pela primeira vez sentiu o seu estado de mulher casada.
Foi composta a casa. Era uma casa em pedra, não tão grande como a dos sogros, com uma escada e uma enorme cerejeira de cerejas negras, junto ao patamar de cima. No cabecinho havia outra que dava cerejas bicais. Em frente estava o engenho do linho e um grande tanque de pedra para onde corria água de merujo. Pela frente da casa passava o caminho que dividia a quinta em duas partes. Fizeram diligências para mudar o caminho para trás da casa e demoliram uma parte desta, aumentando-a para o lado. O terreno já tinha sido dividido entre as tias de Aurora.
A Quinta do Engenho tomava agora uma configuração diferente, dividindo-se entre quintal de cima e quintal de baixo. O engenho desapareceu. No seu lugar foi aberto um poço que jorrava água noite e dia sem estancar. Em vez de linho, passou a cultivar-se milho, outros cereais, vinho e culturas de subsistência.
Muitas figueiras cresciam naquele lugar. Havia uma enorme na ponta do quintal de baixo, uma verdadeira catedral. De tão alta que era não se chegava aos deliciosos figos de pingo de mel. Todas as manhãs, bem cedo, eles eram o pequeno almoço da passarada. Pegas e gaios, em gritos e berros estridentes, disputavam os figos maduros.
* Sempre ali houve pelo menos uma figueira a dar bons figos.
Resta uma destas figueiras, muito velha, com a raiz meio descoberta por um vendaval. A ramada e as árvores à volta deram-lhe solidariamente a mão e a raiz foi-se agarrando ao chão, de novo.
Com os tempos, o nome de Quinta do Engenho foi-se apagando da memória daquelas gentes, nascendo outro para aquele lugar e para aquela casa sem engenho, mas onde os figos ainda são de mel.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 19
(continuação)
Aurora apaixonou-se pelo rapaz moreno e simpático. Os pais não gostaram do namoro.
* Ele teve outra namorada e constava-se que a tinha enganado, e essa tinha campos e matos.
Aurora era aos olhos dos futuros sogros uma pobretana, mas ele não a trocava por nada deste mundo.
* Havia festas de arromba na aldeia. Que lindas as de S. Gonçalo! Na procissão saíam todos os santos nos andores enfeitados, uns à frente, outros atrás. A Imaculada Conceição, a Senhora da Boa Viagem, o Senhor dos Passos e, por fim, o S. Gonçalinho. Seguiam todos conforme a sua jeriquia.
º Jeriquia, avozinha, vê lá bem o que dizes, Jeriquia vem de jerico.
* Era assim que diziam os antigos. Tu é que não percebes nada disto e és malcriado.
º Tu queres dizer hierarquia e não te chega a língua, não é?
O que ela realmente queria usar era a palavra jerarquia.
* Uns eram advogados disto, outros daquilo, e saíam conforme a sua importância.
° Advogados e santos ao mesmo tempo, avó? O que vai aí nessa cabeça!
* Íamos passear no carro até ao mar, claro, sempre acompanhada das outras raparigas da aldeia com quem me dava bem. À Senhora da Saúde fomos, um ano, todas com lenços chineses na cabeça a enfeitar os lindos trenús, e ele sozinho de rapaz. Fez um brilharete quando chegou ao arraial com o carro cheio de raparigas bonitas. Que belo tempo aquele! Já lá vão tantos anos que lhes perdi a conta.
º Eras fresca, avó. Além de vaidosa, eras uma levantada da cabeça, uma leviana.
* Estás tolo, rapaz, fui sempre uma mulher de respeito e séria. Ele apanhou-me porque eu era inocente. Nunca tive outro homem na vida.
º Mas caíste na esparrela como as outras, não é?
* Quando se gosta muito, quem quer cai. Coitadinha de mim, não tinha pai nem mãe para me dar conselhos. Perdi o amor maior que pode haver, perdi-o, perdi-o ao nascer.
Com três letras se escreve
o nome que eu mais adoro
soletre quem saiba ler
e verá por quem eu choro.
º Caíste porque eras uma tolita.
* Cala-te rapaz, tu é que só dizes tolices por essa boca fora.
Aurora engravidara ainda solteira. Dali para a frente a sua vida foi um inferno. Queriam casar, mas como ela era brasileira, tinham de correr, primeiro, os papéis. Dia após dia surgiam sempre entraves. A barriga começara a crescer e não havia casaco ou xaile que a encobrisse.
* Ele, por ele, andava bem intencionado mas as pessoas de fora começavam a murmurar. As minhas próprias amigas eram as primeiras a dizer que ele me não queria para mulher. Eu era pobre e os pais dele não gostavam. Por isso ele nunca iria desobedecer aos pais. Eu seria mais uma para o rol.
Aurora, que sempre acreditara no amor do namorado e nas suas boas intenções começava a duvidar.
* Se não me quiser para mulher também não lhe servirei para mais nada.
Afastou-se, mas ele não se deixava de promessas, mantendo sempre, contudo, o mesmo argumento da dificuldade da sua naturalização.
Nasceu entretanto a criança, um menino, loirinho como a mãe. Para ela foi o momento mais feliz da sua vida. Foi corno se o mundo inteiro lhe entrasse pela porta dentro. Passou a viver com a criança no Engenho.
Dia após dia, ia definhando a esperança da chegada dos documentos, mas agora já nada tinha importância perante a felicidade de ter um filho. Um dia, porém, dissiparam-se as névoas da sua desilusão, e os ambicionados papéis chegaram, finalmente.
* Tinha ele pedido tanto a uma senhora da conservatória do Porto, que, comovida com a situação, rasgou os meus documentos de brasileira e fez-me nascer em Portugal na terra que me serviu de berço.
Num dia de Carnaval foi Aurora a casar na igreja da sua terra. Deixou o menino entregue a uma amiga. Vestia um vestido curto, cinzento claro e véu comprido, também do mesmo cinzento. Ela própria fez o vestido, o véu e a boda. Um peru assado, um cabrito recheado com os miúdos, dois rolos doces e vinho da Quinta do Engenho.
* Pela. primeira vez entrei na casa dos meus sogros. A minha sogra, quando me viu, disse: Ó homem, tu não arranjaste uma mulher, arranjaste uma pomba. E o meu cunhado padre disse também que uma mulher como eu fazia falta naquela casa há já muito tempo.
Foram, então, a criada e o Cabalai, buscar a boda a casa de Aurora, e ali se fez uma nova família. Pela primeira vez viram os avós o menino. Trazia vestido um fatinho azul e branco feito pelas mãos primorosas da mãe.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 18
(continuação)
Havia leilões e festas na aldeia. As mais recordadas por ela eram a da Senhora da Saúde, a da Senhora do Carmo e a de S. Gonçalo, padroeiro da sua aldeia.
* Num leilão, foi arrematada um dia uma prenda para a menina mais linda da terra que chegara há dias do Porto. Era uma garrafa de vinho fino e um rolo recheado de marmelada. Foi-me entregue o presente por um rapaz simpático, para o moreno. Não lhe liguei grande importância. No meu coração só havia lugar para o Ibrahim. Ele não tinha nada a ver com os rapazes da aldeia. Era um homem fino, de chapéu de palhinha, um papo-seco. Os que me queriam eram todos uns labroscos. Um deles, cheio de campos, até apanhou uma sova da mãe antes que se apaixonasse.
— Isso são mulheres de cidade, habituadas a luxos que não servem para nada. Quer-se é mulher de vida e com muitos campos.
Aurora era pobre. Só tinha a Quinta do Engenho e nem família para a ajudar. O rapaz simpático e amorenado nunca mais a largou.
* Tanto andou que a pouco e pouco o fui achando bonito e já não pensava noutra coisa. Era filho de uns grandes lavradores, das maiores casas de lavoura da terra, de boa gente. Este agradava à tia Emília. Tinham muitos campos e matos. Eram seis filhos, cinco rapazes, e a mais velha rapariga. O filho mais novo andava a estudar para padre. Um irmão estava em Lisboa, outro tinha emigrado para a América. Nenhum queria ser lavrador. O mais velho dos rapazes aprendeu de ourives no Porto. A irmã já estava casada. O pai era lavrador e relojoeiro.
A casa situava-se junto à capela e tinha uma sineta que dava as horas vindas de um grande relógio de pé, na entrada da sala. Era uma casa grande, toda de pedra, com uma sacada para o adro da capela e uma escadaria. Ali se sentavam ele e os irmãos a mirar as meninas que iam para a missa. Os relojoeiros, como eram conhecidos, tinham fama de brejeiros e marotões. Ele não escapava à fama. Era bem disposto e alegre. Evoluído de mais para a época e para o meio, não se conformava com a lavoura. Gostaria de ter estudado e nunca perdoou ao pai não o ter ajudado nesse sentido. O pai tinha posses para o mandar estudar mas eram muitos filhos, e para todos devia ser igual. O mais novo foi distinguido porque os estudos para padre eram então de graça, embora acarretassem despesas à família. Um estudante tinha outras exigências.
É certo que a vocação do irmão não parecia ser grande.
* Passava a vida a tirar retratos às meninas com um kodak, no rio ou nos campos.
Às interrogações e dúvidas acerca da verdade do que ele pregava, o futuro padre respondia que noventa e cinco por cento deveria ser mentira.
* Um dia, era ele ainda estudante, e sabendo que o irmão gostava de mim, disse-me que havia de conseguir o que queria, mas levaria muito tempo, e assim foi.
Eram todos inteligentes, dos poucos que fizeram a quarta classe de então. O professor era exigente e mau, vergastava os alunos com um molho de vimes, e partia-lhes canas na cabeça. Muitos ficaram analfabetos para a vida inteira porque fugiam com pavor à escola. Pulavam sebes, refugiavam-se nos matos, descalços, com os pés gretados do frio e do esterco, com as calças rachadas no cu e atadas à cinta com um vime. Os relojoeiros eram finos e venceram o rigor e o pavor da escola primária de então.
O rapaz moreno pensou emigrar para a América onde estava um dos irmãos. Já tinha a passagem comprada e ia embarcar no navio em Lisboa. Despediu-se da mãe e deixou-a a chorar.
* Adorava a mãe, uma autêntica cegueira. Estivera para se matar quando ela morreu.
Chegado a Lisboa, não teve coragem de embarcar e voltou para casa. Pelo pai nunca nutriu grande afeição e veio a ter com ele muitos problemas.
* Na casa dos pais trabalhavam uma criada, nova, e um criado, o Cabalai, meio tolo, que era ainda da família.
O rapaz tinha que dar rumo à vida. Na lavoura não ficava ele. Deu voltas à cabeça e decidiu andar pelos próprios pés. Aprendeu a arte de relojoeiro com o pai, mas não deu para ir longe. Com o dinheiro que ganhou comprou um carro em segunda mão, por quatro contos, um Renault descapotável, um calça arregaçada, coisa rara na época, que chamava a atenção de todos e particularmente a das raparigas. Foi das primeiras pessoas do Concelho a tirar carta de ligeiros e pesados.
A sua paixão era ser médico. No Porto, frequentou clandestinamente algumas aulas teóricas de anatomia, na Faculdade de Medicina, com a cumplicidade bem paga de um bedel, comprou livros, incluindo o tratado de anatomia cefálica de Testut, e toda a ossatura crânio-facial. Muitos anos mais tarde, já o filho era estudante de medicina e recordava-se de o ouvir falar com toda a facilidade dos complexos ossos e músculos da face, bem como do trajecto dos nervos cranianos, nomeadamente do trigémeo e do facial. Em Lisboa chegou a carregar sacas de açúcar no cais de Alcântara, para poder estudar de noite. Mergulhava os pés em água fria para não adormecer e punha sal numa vela para a fazer durar mais tempo.
Estudou, sozinho, tanto quanto lhe foi possível para poder trabalhar como dentista. Montou um pequeno gabinete na casa do pai. Para além de algum saber, teve a inteligência e a habilidade para criar em pouco tempo, uma invejável clientela. Por inveja, foi acusado e teve de responder em tribunal por exercício ilegal de profissão médica. Eram de tal modo reconhecidas as suas qualidades, e ficou de tal forma patente a maldade da denúncia, que a multa foi atenuada pelas palavras do juiz, ao dizer que o condenava à pena mínima, não por não saber, mas por não ter o título.
Não desistiu, continuou a estudar e fez um curso de protésico dentista. Para conseguir o diploma tinha de ir a Paris e isso era mais difícil. Tinha contacto com laboratórios, recebia revistas, francesas e suíças, sobre materiais dentários e também de relojoaria.
Tornou-se conhecido em todas as redondezas. Para além de protésico continuava clandestinamente a fazer trabalho de dentista, tal era a solicitação.
Fora de novo acusado. Dali para a frente associou-se, ainda que contrariado, dado o seu espírito corajoso e rebelde, a um médico que dava o nome ao consultório. Montou gabinete em mais do que um concelho, e não havia ninguém nas redondezas e por terras distantes que o não conhecesse.
Chegou a ser dentista particular de comendadores e de outras pessoas na altura consideradas importantes e que o mandavam buscar a casa nos seus carros de luxo. Chamavam-no doutor, mas ele dizia sempre que o não era, mas que haveria, um dia, de ter um filho doutor. Assim aconteceu, e com o seu mesmo nome. Era um homem brilhante e bom. Morreu novo e o seu funeral foi o maior que até então se viu naquela terra.
Tão cedo a esta vida te roubaram
Saudoso pai, meu bom e grande amigo
Que mal teus olhos fundos se fecharam
Boa porção de mim partiu contigo.
Flores e velas, preces lacrimosas,
Oh! Alienas artes da razão!
Ainda bem que não te iludem rosas,
Meu doce pai que em tudo és meu irmão.
Minha fé, minha crença, minha idade
De homem-filho, é grito de homenagem
Que outro não sei, sem lágrimas, sem prantos.
Mãos dadas pelos céus da eternidade,
Nesse reino sem trono e sem linhagem
Vives tu, vivem papas, reis e santos.
Do filho com o mesmo nome.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 17
(continuação)
A Quinta do Engenho era muito bem tratada pelo caseiro. Tudo crescia em abundância.
* A colheita dava para mim e para a tia Emília e ainda fazia dinheiro com as sobras. A água do merujo da presa dos meeiros regava então o linho, O linho dava muito trabalho, mas eram lindos aqueles campos cobertos de azul celeste. A flor do linho era muito azul e bonita. Depois de semeado era arrancado. A arrancada era uma festa. Em cima do linho davam-se pulos, risadas e vira-cus. As fibras eram depois postas de molho no rio, espadeladas num cortiço, secas, assedadas no sedeiro com pregos, lavadas nas barreias, fiadas e dobadas. Quanto mais corado fosse o linho mais branco se tornava. E os lençóis de linho branco eram tão lindos e frescos! Nas camas dos doentes, o melhor eram os lençóis de linho.
Para além da Quinta do Engenho, herança do pai, possuía Aurora ainda um carvalhal e um olival por parte da mãe, em Anissó, uma pequena aldeia semeada no coração do Minho.
A mãe nascera no seio de uma família simples, e em pequenina fora para casa de um tio rico, em Penafiel, onde foi educada e com quem emigrou para o Brasil.
Com a veíha tia Emília decidiu Aurora ir a Anissó, conhecer a família da mãe e tratar da sua herança.
* Entre camioneta e carro de praça levámos um dia a chegar. Aí passámos uma semana. A casa dos meus avós era toda em pedra, junto à igreja. Tinha uma varanda em madeira cheia de cravinas cor-de-rosa e cravos vermelhos. Estava toda florida e um cheirinho a cravinas perfumou a nossa chegada. Parece que estou a ver os meus avós e as minhas tias muito branquinhas e rosadas.
* Que linda que é, parece a nossa Raquelinha!
* Naquela semana ninguém trabalhou. Foi uma festa. Tocava-se viola e dançava-se. Mataram-se cabritos.
Era visita da casa um escrivão chamado Bernardino, que fez a escritura da venda da sua herança, um olival e um carvalhal, por dois contos de reis.
* O escrivão morria por mim. Os meus avós e tias viam ali um bom futuro. Um homem de bem e rico. A minha tia Emília não via o encanto com bons olhos. Não me queria perder por terras de Anissó.
E por lá não ficou Aurora.
* Vai-te embora, amor, não julgues
que eu te fico a chorar
ainda estou em tempo
de melhores amores tomar.
Já te quis, já te não quero
já te perdi a afeição
já te deitei de rebolo
fora do meu coração.
Com o dinheiro da venda deu Aurora um arranjo à Casa do Engenho conforme podia e sabia. Continuava, mesmo assim, a viver com a tia lá no topo da aldeia, por baixo do miradouro, sobre o vale.
* Fui sempre uma mulher séria e não queria dormir sozinha na Quinta do Engenho.
A aldeia era linda. Ramadas cobriam as orlas dos campos verdes de milho. O linho continuava a crescer mas dava muito trabalho, e pouco a pouco Aurora foi deixando de o cultivar.
Ao fundo do vale corria o Caima por entre juncos, choupos e salgueiros. No açude das Remolhas, ao longe, onde o Caima recebia as águas cristalinas do Vigues, passeavam-se em barquinhos os ricos da terra. Mais perto da Quinta do Engenho, o rio dividia-se para formar ilhas de verdura e seixos, e na furna as lavadeiras lavavam e coravam a roupa. Aí corria uma levada ao lado do rio, até à Varziela, onde taramelavam os moinhos que moíam o milho das terras, a troco da maquia, umas quartas ou um sermil de farinha.
* Eu ia lavar a roupa ao rio com as lavadeiras da terra. A minha roupa era a mais branca e a mais linda que por lá se estendia a corar. Tive que me adaptar mas os meus princípios eram outros. Ia às festas e às romarias. A romaria da Senhora da Saúde era a maior. Modifiquei os meus vestidos ao jeito da terra, e de farnel na cesta ia com a minha tia, juntando-me às rusgas, de manjerico à orelha, ao som das pandeiretas. Eram tempos diferentes, também lindos mas muito diferentes. Os rapazes atrás de mim eram aos montes. Não tinha ar de labrosca e era bonita e branquinha, de pele cor-de-rosa e acetinada.
° Eras como as outras avozinha, uma parolita armada em fina.
* Parolo é ele, parola nunca fui. Fui mulher de vida, isso sim. Se fosse outra vendia o que tinha e comia do ganhado. Deixei-vos muito e isto é o pago.
Chamá-la de parola era o pior que lhe podia acontecer.
* Eu, parola, a minha mãe era uma senhora muito distinta e eu fui educada em casa dos meus tios no Porto como uma princesa. Tomaras tu.
° Então não achas que a mamã nos educa como príncipes?
* Príncipes?! Só se for com orelhas de burro, a avaliar pela educação que levam!
Ficava arreliada com os netos mas amava-os cegamente. Eles tratavam-na como quem trata uma criança, tu cá, tu lá, uma relação afectuosa e comovedora. Gostavam de a arreliar e de a provocar até aos berros.
º Vou-me embora, avozinha, portas-te mal, vou-me embora.
* Some-te da minha vista.
Passados minutos perguntava aflita:
* Que é feito deles? Para onde foram esses marotos?
E já homens feitos continuavam a arreliá-la. Para ela eram sempre meninos.
* Vê lá que eles podem cair ao poço.
(continua)
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Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 16
(continuação)
Um dia, resolveu passar com a filha pela Quinta dos Castelos. Perdera o rasto da família. Laurindinha morreu, morreram tio e tia, e mais tarde o primo, com quem pouco contacto tivera. A quinta, muito desprezada, tinha ainda tudo no seu lugar. Não faltavam os torreões, a pérgula de japoneiras, o catavento, a escadaria, os portões altos e o gradeamento de ferro e os três castelos junto à linha, guardiães altivos e imponentes da memória daquela mansão e daquela família. Vivia lá a viúva, a mulher do primo, já velha, uma sombra do que fora, senhora da alta-roda, arruinada, a queimar os últimos resquícios da ilusão. Aurora pediu licença e correu a casa toda.
* Aqui era o meu quarto e o da Laurindinha.
A saudade dessa felicidade longínqua recolhia-se nos seus olhos, que se fechavam para esconder a emoção e não deixar cair uma lágrima. Aurora nunca chorava. Nos momentos mais dramáticos nunca soltara uma lágrima, por pequenina que fosse. No quarto da prima viu então a fotografia de um senhor.
* Não é este o primo, pois não?
— Não, Aurorinha, é o senhor com quem vivo.
* Era o amante. Foi sempre uma mundana, que coragem! Nunca teve nada a ver com a minha prima Laurindinha. A minha prima tinha outra decência, muito mais recatada. De nada lhe valeu, coitadinha, não teve sorte nenhuma e bem merecia tê-la.
Sempre que ia ao Porto pedia para passar por Gaia, ver a Afurada, os Quatro Caminhos, e o portão alto da quinta, lá ao fundo.
* Deíxem-me só espreitar, foi o tempo mais lindo da minha vida, deixem-me só espreitar.
Um dia, entrou pelo portão aberto, com o neto mais velho pela mão, meteu-se pela casa dentro, toda esventrada e vazia. Vivia lá uma família de ciganos. Era tal a ânsia de revisitar a sua vida e a sua juventude que se deixou rodear de vários homens um tanto desconfiados, e de mulheres e crianças ciganas. Queria a todo o pano saber notícias da sua gente. Eles nada conheciam, para grande angústia sua. Tinham apenas ocupado a casa que estava em ruínas.
* O meu tio levantava-se do túmulo se visse isto!
Olhou em volta e só restava o vazio adornado de passado. Deixou-se embalar pelo cheiro das flores que ainda se aventuravam nos restos de jardim e pela música do piano de cauda do salão grande, tocada pelas mãos singulares da prima Laurindinha.
* O Senhor a tenha em eterno descanso e se compadeça da sua alma.
Sonhava acordada. Pagou a um cigano para lhe arrancar um arbusto e uma japoneira que por lá iam morrendo à sede. Plantou-as no quinta do Engenho. A árvore morreu mas a japoneira cresceu e deu flores vermelhas e singelas.
* Vê lá, eram camélias dobradas e agora são singelas, como eu!
Um dia, já velhinha, com os olhos baços de cataratas, foi de novo espreitar a quinta e crispou as mãos ossudas nas grades do portão fechado, olhar desterrado no vazio. Já nada existia. A casa desaparecera, os castelos esboroaram-se, as silvas cobriam árvores e japoneiras. No meio dos ferros velhos erguia ainda a crista o galo do cata-vento. As mãozitas descarnadas desprenderam-se lentamente do portão e Aurora entrou no carro, calada para o resto do dia. Nunca mais voltou à Quinta dos Castelos. Esta última visita é recordada no poema que o filho lhe fez:
Mãos sem poder nem domínio
sem rigor nem justiça
mãos impermanentes
demasiado abertas
para os punhos fechados que encerram.
Mãos secas
pegadas à idade das pedras
a cabeça de ontem
nas grades ferrugentas de hoje.
Olhos molhados
um olhar mendigo a tempos de outro tempo.
Dentro da quinta em ruínas
no meio de silvados
urtigas e ervas daninhas
anos e lustros a caminho de séculos.
Quinta dos Castelos
a imagem da Laurindinha
no confuso cérebro de uma velhinha
que muito amou.
Os olhos de minha mãe
cheios de outroras
mostram-me
sem lágrimas
todas as lágrimas do mundo
nas lágrimas de tudo
o que se verte em lágrimas
por dentro e por fora do tempo.
Restos de um lago seco
entulhos e restos
esqueletos de japoneiras
escadas sem fins nem degraus
portas e janelas esventradas
de foras e sombras.
Mãe
que o sol se lembre de nascer
onde o carinho é poema
onde o amor e o mar se tocam
dentro de uma gota de orvalho.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 15
(continuação)
A aldeia era então pobre, sem luz, servida por caminhos estreitos. A casa da tia Emília situava-se na encosta do vale, por baixo do miradouro olhando o rio, lá no fundo. A Quinta do Engenho ficava um pouco mais abaixo, onde o caseiro lavrava os campos e colhia o linho. Aurora deu ordens para dali em diante lhe entregar as rendas. Vendia o que restava do produto da quinta, cevava um porco.
* Para. mim e para a minha tia dava e sobrava. Éramos umas rainhas.
Depressa se adaptou à aldeia e esqueceu as grandezas da cidade e da vida que até então levara. Indómita e independente fez-se dona e senhora de si.
* Nunca mais voltei à casa dos meus tios nem tão pouco à da minha madrinha Tafula. Desde a minha infância só lá fui mais uma vez, estava ainda em Gaia. Havia lutas entre Republicanos e Monárquicos. Ouviam-se tiros no Porto. Na quinta caíam granadas. Com bacias de zinco na cabeça para nos protegermos dos tiros, fugimos para o carro que nos esperava ao portão da quinta. O meu tio foi o último a sair. Ficou a esconder a bandeira. Enterrou-a no jardim. Ele era monárquico. Já na Casa dos Torreões viemos a medo à janela, e passaram cavalos e cavaleiros a fazer vénias e a atirar sorrisos galanteadores a minha prima e a mim.
Laurindinha casou, entretanto, com um médico das Virtudes, para as bandas da Cordoaria.
* Era menina muito frágil e biqueira. As criadas viam-se aflitas para lhe fazer os paparicos. Teve dois filhos, dois rapazes. Constava-se que o marido a traía com uma colega. Com o desgosto e a falta de apetite tuberculizou e foi internada no sanatório do Caramulo. Piorou de saudade aos seus meninos e pouco a pouco foi definhando.
Ouvi dizer mais tarde que um era engenheiro e outro aviador. Coitadinha, levou-os atrancados no coração.
Laurindinha dera entrada no sanatório do Caramulo, muito debilitada e por imposição do marido. Ele sabia que já nada resultava mas quis fazê-lo mais por razões profissionais do que por sentimento. Não a privou de nada em vida mas dizem que a fez sofrer muito.
* Ai o que a pobrezinha deve ter sofrido naquele desterro!
O ambiente do sanatório era deprimente. As fumigações de formalina cheiravam a morte. Dentro daquele gigante de pedra na vertente da serra, a noite parecia não ter fim. Os corredores despojados eram túmulo de moribundos. O ar da montanha era puro, tão puro como o silêncio que se gera no momento da vida em que se adivinha a morte.
Os tuberculosos, amarrados à serra para a vida, aí estagnavam o espírito e deixavam o corpo escorregar para a morte. Embrulhados na sua tosse de tísicos, agasalhavam a doença dia e noite sem esperança. Na sua fraqueza trocavam olhares de forte cumplicidade, fazendo nascer amizades e amores que a dor e o sofrimento alimentavam. Montanha Mágica de sentimentos, de superstições, de medos e de morbidez, onde em vez de retratos se trocavam radiografias!
Mais pequenos sanatórios se espalharam pela montanha, satélites do grande sanatório. Hoje, formam uma impressionante constelação de esqueletos erguidos, de janelas estilhaçadas, de paredes descarnadas, preenchidas pelo silêncio do isolamento na dor e na saudade dos que ali sofreram e ali morreram. Lá dentro nunca houve tempo nem vida, e hoje, apenas a morte lá vive.
Aurora soube que a prima estava a morrer e quis visitá-la.
* Laurindinha vivia então numa casa apalaçada nas Virtudes, pertencente ao marido. Toquei à campainha, ele abriu, logo me reconheceu e manifestou afecto e alegria por voltar a ver-me.
— A Aurorinha tem coragem para ver a sua prima? Vai encontrar uma pessoa muito diferente. Veja lá!
* Tenho sim, senhor doutor.
Entrou num quarto enorme, de janelas altas e cortinados brancos. Numa cama antiga de casal viu a prima, quase irreconhecível. Mais lhe parecera uma máscara. Os cabelos fortes e ondulados, soltos, desarranjados, ao desalinho, o rosto desfigurado, tão sumido que só se viam dois olhos negros no fundo da cabeça, comoveram-na tanto que teve vontade de chorar e fugir. Mas conteve-se. A cama estava ladeada por duas botijas de oxigénio, esse salvador dos agonizantes, dado para lhes prolongar a vida por mais uns momentos, ilusão a que os vivos julgam que eles têm direito. Aurora aproximou-se para lhe dar um beijo mas a prima levantou a mão e deteve-a.
* Espremeu uma lágrima que lhe correu pela cara chupada. Assobiando, ele fazia o curativo à chaga de uma perna, fora da roupa da cama, ao que ela já não reagia.
Gerou-se dentro de si um silêncio cheio de recordações, cheio de rumores de um passado, de uma música tão bela que entorpecia o espírito e não o queria deixar acordar. Aurora quis abraçá-la contra o peito e dizer-lhe quanto a amava, quanto sofrera por se ter separado dela, ela que fora a mãe, a irmã, o símbolo de uma família a que nunca teve direito.
— Vamos deixar-nos de lamechiches, não vais entristecer a tua prima, a tua menina bonita de pele de veludo.
Ao sair do quarto, viu Aurora numa vitrina todas as jóias da prima e lá no meio o broche com a parra de esmalte verde, bordada a ouro, que pertencera a sua mãe. Teve vontade de o pedir ao marido mas faltou-lhe a coragem. A dor era tanta que não conseguiu.
* Laurindinha morreu ao outro dia. Parece que estava à minha espera para se despedir.
Laurindinha ficou na sua memória como um símbolo de alguém acima da vida, um misto de princesa e santa, de finura e de beleza. À sua imagem procurara educar a filha em quem revia a prima, e no fim da vida confundia os nomes e as pessoas.
* Quatro cantos tem a casa
quatro cantos tem o leito
quatro anjos da guarda
quatro anjos no meu peito.
Velhinha, cantarolava Aurora esta toada, em forma de reza, sempre que recordava a prima. Era uma espécie de oração que a encomendava aos céus.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 14
(continuação)
Ao chegar ao alto da aldeia, avistou Aurora o vale que lhe servira de berço. Ao fundo lá estava a Quinta do Engenho que lhe coubera em herança.
* Tratava da minha quintinha um caseiro, bom homem, muito sério, mas já velhote.
Deu ordem ao motorista para a deixar ao cimo do quintal da tia Emília, a irmã do pai.
— Ai, menina, o seu tio mata-me. Estou, afinal, a desobedecer às suas ordens.
* Eu já sou maior, tenho 21 anos. Não volto mais para casa do meu tio.
A tia Emília também não a queria receber. Temia responsabilidades. Era a irmã mais velha do pai. Ficou viúva muito nova, os filhos já estavam casados e viviam no Brasil. Era costureira.
* A minha tia era a melhor modista da terra. Os homens só queriam as camisas feitas por ela. Fazia as saias de baixo em cambraia cheias de tomados, nervuras e folhos, e trabalhava o veludo como ninguém. Com ela aprendi de costura.
Aurora foi sempre voluntariosa, nunca submissa.
* Fui uma grande mulher, corajosa, devota e séria. Sem pai nem mãe, nem ninguém por mim, fui sempre uma mulher séria e digna. O Altíssimo bem-no sabe.
º Cá para mim, avozinha, estás a aldrabar o Altíssimo.
* Ele bem sabe, vê tudo e sabe tudo.
° Então, onde está Ele?
* Está no Céu.
° E onde é o Céu, avozinha?
* É para além das nuvens.
º Que nuvens? Está lá em cima escondido, avozinha?
* És tolo, rapaz, está sentado no seu trono, à mão direita de Deus Padre.
° E o trono não cai, avozinha?
* Cala-te, rapaz, não quero conversas contigo. Senhor me leve o meu corpinho prà terra e a minha alminha pró Céu.
° E como vai a tua alminha pró Céu, avozinha?
* Olha, vai a voar como uma pomba.
º Como um pomba, avozinha? Tu nem tens asas nem sabes voar. Mostra-me as asas, avozinha.
* A voar põe-te mas é tu daqui pra fora.
E assim se prolongava um diálogo por tempos sem fim, um diálogo profundo e teológico que não levava a lado nenhum e que, para gáudio dos netos, a punha ao rubro, de fúria, perdendo argumento atrás de argumento, mas sem nunca dar o braço a torcer. Os netos amavam-na cegamente, cobriam-na de beijos e de carinho e adoravam vê-la arreliada até ao infinito. Era uma relação de amor, de igual para igual, uma relação muito bonita e singular.
* De menina da cidade depressa me adaptei à vida da aldeia.
De novo, de senhora de alta roda desce à plebe. Começou a ir com as moçoilas da sua idade às desfolhadas, às romarias, aos leilões. Dava nas vistas pela delicadeza e pela beleza. A educação e o seu porte fizeram dela a atracção dos rapazes.
* Só tinha bons pretendentes e ricos. Nos leilões arrematavam sempre prendas para a menina mais bonita que chegara há pouco do Porto.
º Cala-te, avozinha, não sejas vaidosa. Eras bonitinha mas burrinha como as outras.
* Burro é ele. De facto, o meu tio devia ter-me posto a estudar. Só não lhe perdoo isso. Aprendi ao menos a ler e a escrever. Na aldeia as mulheres não sabiam ler e eu escrevia as cartas para os namorados delas. Elas ditavam e eu escrevia. Lia a cartilha, o missal e umas ilustraçõezitas.
° Lias o quê, avó?
* Não sabes o que é? És um ignorante. A cartilha deu-ma o meu marido. Toda em osso com aplicações de prata. Quando me namorava dava-me muitas coisas, depois de casada, não me dava nada.
° Não te dava nada?
* Dava, dava, malicioso és tu.
Dos casacos compridos fez curtos para não destoar e até comprou um xaile de merino e outro de argolinha.
Ibrahim veio um dia visitá-la, de carro. A tia não gostou. Se o tio não permitiu o namoro, quem era ela para o fazer.
* O Ibrahim voltou uma. vez mais e esfaquearam os estofos de couro do carro do pobre rapaz. Lá dentro estava um bilhete. Se cá voltares, morrerás. Há muitos rapazes na aldeia, não é preciso rapazes do Porto para namorar as raparigas da nossa terra.
E assim se foi o Ibraim para sempre. Só na cabeça da pobre velhinha ele ainda não morreu.
* Era um belo rapaz, bom e distinto. Nada tinha a ver com os labroscos desta terra. São sortes. Não tínhamos de ser um para o outro.
Quando te vi adorei-te
julgava que te lograva
tinha olhos e não via
a cegueira em que eu andava.
º Ai andavas, andavas, avozinha, ontem disse alguém na televisão que ele está preso por trafulhice na alfândega.
* Não digas disparates, um homem tão honesto e tão sério, se calhar até já morreu o pobre do homem, pois eu já sou tão velhinha!
° Então quantos anos é que tu tens, avó?
* Faz tu a conta. Nasci em 1906.
(continua)
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 13
(continuação)
Todos os sábados saíam Aurora e Laurindinha dos portões da Quinta dos Castelos, atravessavam a rua e entravam na outra quinta, a da Lavoura, também pertença do tio, para enfeitarem o jazigo no outro extremo, junto à igreja.
* Ao domingo, Laurindinha tocava órgão na missa grande e eu acompanhava-a a cantar. As comunhões solenes eram tão lindas! Que pena tenho de não ter ido de branco, quando era pequenina.
° Pequenina és tu, avozinha, só medes metro e meio.
* Sou pequenina e dei um neto tão grande, como é que pode ser isso, então?
Vinha um anjo e levava uma menina de um lado e um menino do outro. A minha prima tocava e eu cantava:
Vamos, meninos,
à mesa santa
que o pão encanta
que o pão encanta
a comungar.
º Cala-te, avozinha, já chega. Tens uma voz de cana rachada.
* Homessa! A minha prima dizia que eu tinha uma voz muito bonita. Para ti tenho todos os defeitos.
Um dia, foi Aurora, como de costume, desta vez sozinha, enfeitar o jazigo. Saiu-lhe ao caminho um papo-seco, de chapéu de palhinha, Ibrahim de nome, irmão do motorista da casa. Era empregado da alfândega. Assim começou uma paixão secreta, o primeiro amor da sua vida, tão grande que foi o único nome que resistiu à perda da memória. O nome do seu segundo amor com quem casou, pai dos filhos que teve, apagou-se, para o fim da vida, por completo.
* Já fui mar, já fui navio
já fui ao Brasil e vim
já fui amada de um anjo
e querida de um Ibrahim.
º Cala-te avó, o Ibrahim era paneleiro.
* Seus malcriados, vocês não sabem o que dizem. Era um homem a sério, empregado da alfândega, bonito, um papo-seco.
O tio descobriu-a uma vez a falar com ele por trás do portão dos castelos. Deu-lhe uma bofetada e obrigou-a a recolher a casa.
* Podias fazer um bom casamento à minha sombra mas não tens juízo.
O sangue soltou-se do nariz e Aurora só encontrou consolo para os seus soluços no regaço da prima. Tinha então vinte e um anos e nunca perdoou ao tio tal ofensa.
Ao outro dia foi avisada por uma criada que o motorista da casa estava à sua espera para a levar de novo à Casa dos Torreões, da madrinha Tafula, a passar uma temporada até esquecer o namorico. Despediu-se da prima, desfeita em lágrimas, e confessou-lhe que nunca mais voltaria. Tinha da mãe uma única recordação, um alfinete em forma de folha de parra, de esmalte verde, bordado a ouro. .
* Laurindinha, apesar das suas muitas jóias, pedia-mo sempre para apertar o casaco de peles quando saíamos à noite. Tirei-o do meu peito e ofereci-lho.
Todo o resto do ouro que o meu pai tinha, nunca o vi. Tudo levou sumiço, as correntes, o morro do açúcar cravejado de brilhantes, o pedantife, até os vestidinhos e as fitas de veludo azul e rosa. Só fiquei com o broche verde bordado a ouro que era da minha mãezinha.
Mais tarde encontrou ela o baú de couro vazio e velho. Recuperou-o para a filha e ali lhe deixou como herança o enxoval de noiva e todos os sonhos que para si sonhara. Aurora parte de novo, sem eira nem beira, apenas com uma mão adiante e outra atrás.
(continua)
.
Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 12
(continuação)
Faziam, Aurora e os tios, uma temporada de praia em Espinho.
* Hospedávamo-nos num hotel em Espinho Vouga e íamos ao casino. A minha prima ia de chapéu. Tinha resmas de caixas de chapéus, uns de Inverno outros de Verão, lindas capelines de palhinha a condizer com os vestidos. Eu, mais menina, levava no cabelo uma fita.
O banho de mar era dado pelo banheiro. Os nossos fatos eram de baeta preta com fitas de nastro branco, uma decência, até aos joelhos e pelo meio do braço.
° Hoje fazias topless, avozinha, com esse corpinho de atleta de metro e meio.
* Olha que era bem bonita e jeitosa, parecia feita de cera e a minha pele era cor-de-rosa. Quando cheguei à aldeia, nos leilões, todos arrematavam prendas para a menina mais bonita que chegou há dias do Porto.
° Pára, pára, avozinha, roda, roda a cassete. Deixa-me estudar.
* Laurindinha teve uma grande paixão por um filho da casa-palacete dos Marques Gomes que ficava perto da quinta. As famílias não se davam e aquele amor foi contrariado do princípio ao fim. Uma noite vieram fazer uma serenata à minha prima. Era ele. Às escuras saímos do quarto até aos castelos para ouvir a serenata. De repente estoiraram foguetes que alumiaram a quinta.
— Ai, se o meu pai nos vê, mata-nos.
* Esgueirámo-nos por baixo da pérgola de japoneiras dos castelos, até casa.
- Quem me dera, Laurindinha
afogar-me nas ondas do teu cabelo
como em noite de Verão
nas praias do Cabedelo.
Aurora viveu em alegria no seio da sua verdadeira família. Todos se orgulhavam dela, da sua beleza, da pele branca de veludo, do brilho dos seus cabelos lisos com réstias de sol. A prima fez dela irmã e Aurora dedicou-lhe todo o amor filial a que não tivera direito. Era brincalhona, pregava partidas a todos, fazia rir tios e criados. Um dia, enganou um outro tio, mais velho, o tio Inocêncio, parente pobre, aldeão, que viera visitar o irmão Bernardo.
- Tio, a tia Maria veio hoje de diligência e já se foi deitar. Estava mal disposta da viagem.
O velhote, de olhos muito azuis, Inocêncio de nome e inocente de espírito, ficou intrigado mas acreditou na sobrinha. Aurora metera-lhe entretanto na cama uma boneca grande de trapos com um lenço amarrado à cabeça. Foram todos para a porta do quarto escutar a sua conversa enquanto se despia.
- Ouves ou não, Maria, estás doente?
De imediato, apenas ouviram:
- Rai's vos partam.
Era homem de não dizer outro tipo de asneiras. Riram às gargalhadas.
(continua)
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
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Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
Rui Rosado Vieira
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