Um Café na Internet
(continuação)
E uma tarde perfeita amadureceu lentamente, lentamente se foi apagando, lentamente fecharam-se as suas pétalas.
― Nunca um garden-party foi tão delicioso… ―, ― O maior acontecimento…―, ― Foi mesmo o máximo…
Laura ajudou a mãe nas despedidas. Ficaram lado a lado no alpendre até tudo ter acabado.
― Acabou tudo, finalmente, graças a Deus, ―disse a Senhora Sheridan. ― Junta os outros e vamos tomar um café acabado de fazer. Estou exausta. Pois, correu tudo muito bem. Mas estas festas, estas festas! Porque é que, miúdas, insistem em dar festas! ― E foram todos sentar-se debaixo do toldo deserto.
― Querido papá, come uma sanduíche. Fui eu que fiz o letreiro.
― Obrigado. ― O Senhor Sheridan deu uma dentada e a sanduíche foi-se. Pegou noutra. ― Suponho que não ouviram falar de um acidente brutal que aconteceu hoje? ― perguntou.
― Meu querido, ― disse a Senhora Sheridan, levantando a mão, ― ouvimos. Quase estragou a festa. A Laura insistia em que a suspendêssemos.
― Oh, mãe! ― Laura não queria que a arreliassem com o assunto.
― Foi um acontecimento horrível de qualquer modo, ― disse o Senhor Sheridan. ― O fulano ainda por cima era casado. Morava mesmo aqui em baixo na travessa, e deixa viúva e meia dúzia de garotos, ao que contam.
Caiu um silêncio pesado. A Senhora Sheridan abanicava a chávena. Realmente, era cá uma falta de tacto do pai…
De súbito, olhou em frente. Sobre a mesa restavam por comer sanduíches de todos os tipos, bolos, bombas. Iam ser deitados fora. Teve uma das suas ideias brilhantes.
― Já sei. ― disse. ― Vamos arranjar um cesto. Vamos enviar àquela pobre criatura alguma desta comida em perfeito estado. Seja como for, será o melhor regalo para as crianças. Não acham? E com certeza que ela tem lá vizinhos a visitá-la, fora o resto. Que bom ter coisas já prontas para comer. Laura! ― Levantou-se com um pulo. ― Vai buscar o cesto grande ao armário da escada.
― Mas, mãe, acha que é boa ideia? perguntou Laura.
Como era curioso que, mais uma vez, ela se sentisse diferente de todos os outros. Levar migalhas da festa. Será que a pobre mulher iria gostar?
― Claro que sim! Que se passa contigo hoje? Há uma hora ou duas insistias em que devíamos ser simpáticos, mas agora….
Está bem! Laura foi a correr buscar o cesto. A mãe encheu-o até cima.
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
O almoço acabou lá para a uma e meia. Às duas e meia estava tudo preparado para a batalha. Tinha chegado a orquestra, com os músicos de casaco verde, e instalaram-na num canto do campo de ténis.
― Minha querida! ― trinou Kitty Maitland, ― não achas que são tal e qual rãs? Devias tê-los posto à roda do lago, com o maestro ao meio sobre uma folha.
Laurie chegou e cumprimentou-as a caminho de se ir vestir. Ao vê-lo Laura lembrou-se novamente do acidente. Queria contar-lhe. Se Laurie fosse da mesma opinião que os outros, então é que estava mesmo tudo bem. E entrou no átrio atrás dele.
― Laurie!
― Olá! ― Ele ia a meio das escadas, mas virou-se e quando viu Laura encheu as bochechas e arregalou os olhos para ela. ― Acredita, Laura! Estás mesmo estonteante. ― disse. ― Que categoria de chapéu!
Laura respondeu com voz fraca ―Achas? ―, sorriu para o irmão e acabou por não lhe contar nada.
A seguir as pessoas começaram a chegar aos magotes. A orquestra começou a tocar; os criados contratados despachavam-se entre a casa e o toldo. Por todo o lado viam-se casais deambulando, inclinando-se para ver as flores, cumprimentando, passeando sobre o relvado. Eram como passarinhos coloridos que tivessem poisado no jardim dos Sheridan naquela tarde, na sua viagem para – onde? Ah, que agradável é estar com pessoas que estão felizes, apertar mãos, acariciar faces, sorrir uns nos olhos dos outros.
― Querida Laura, que bem que estás
― Como te fica bem esse chapéu!
― Laura, pareces mesmo uma espanhola. Nunca te vi tão encantadora.
E Laura, animadíssima, respondia suavemente, ― Já tomaram chá? Não querem um gelado? Os gelados de maracujá são qualquer coisa de especial. ― Foi a correr ter com o pai e pediu-lhe ― Paizinho querido, pode-se servir qualquer coisa para beber á orquestra?
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
― E pensa no que vai custar à pobre mulher estar a ouvir a orquestra, ― disse Laura.
― Oh, Laura! ― Jose estava a começar a ficar seriamente preocupada. ― Se proibires uma orquestra de tocar sempre que alguém tem um desastre, vais ter uma vida muito agitada. Tenho tanta pena do que aconteceu quanto tu. Também sinto muita pena. ― Os olhos dela endureceram. Olhou para a irmã da mesma maneira como quando eram pequenas e andavam à zaragata. ―Não consegues fazer ressuscitar um trabalhador bêbedo com sentimentalismos, ― disse suavemente.
― Bêbedo! Quem foi que disse que ele estava bêbedo? ― Laura olhou furiosa para Jose. Disse, tal como costumavam em ocasiões assim, ― Vou já dizer à mãe.
― Vai, querida,― provocou Jose.
― Mãe, posso entrar no seu quarto? ― Laura fez girar o puxador de vidro da porta.
― Claro, filha. O que se passa? Porque estás tão corada? ― E a Senhora Sheridan levantou-se da mesa de vestir. Tinha estado a experimentar um chapéu novo.
― Mãe, morreu um homem, ― começou Laura.
― Aqui no nosso jardim? ― interrompeu a mãe.
― Não, não!
― Que susto me pregaste! ― A Senhora Sheridan suspirou de alívio, tirou o chapéu grande e poisou-o nos joelhos.
― Mas oiça, mãe, ―disse Laura. Ofegante, meio engasgada, contou a história terrível. ― Claro que não podemos dar a nossa festa, pois não? ― implorou ela. ― Com a orquestra e toda a gente a virem por aí. Vão ouvir-nos, mãe; são praticamente nossos vizinhos!
Para espanto de Laura a mãe reagiu tal qual Jose; era ainda mais difícil de suportar com o ar divertido dela. Recusou levar Laura a sério.
― Mas, minha querida filha, sê razoável. Só soubemos disso por acaso. Se alguém tivesse morrido naturalmente – e não consigo perceber como conseguem viver naqueles buraquinhos tão acanhados ― nós teríamos a nossa festa à mesma, não é verdade?
Laura teve de responder que sim àquele raciocínio, mas sentia que estava tudo errado. Sentou-se no sofá da mãe e beliscou o folho da almofada.
― Mãe, é uma grande falta de sentimentos da nossa parte, não é? ― perguntou.
― Querida! ― A Senhora Sheridan levantou-se e veio até ela, com o chapéu na mão. Antes que Laura a pudesse deter, colocou-lho na cabeça. ― Minha filha! ― disse a mãe, ― o chapéu é teu. É como se tivesse sido feito de propósito para ti. É demasiado juvenil para mim. Nunca te tinha visto a parecer tal e qual um quadro. Vê-te ao espelho! ― E passou-lhe um espelho para a mão.
― Mas, mãe, ―Laura ia a começar outra vez. Não conseguia ver-se ao espelho; voltou-se.
Desta vez a Senhora Sheridan perdeu a paciência, tal como Jose anteriormente.
― Estás a portar-te de uma forma completamente absurda, Laura, ― disse friamente. ― Pessoas como aquelas não esperam sacrifícios da nossa parte. E não é muito simpático estragar a boa disposição dos outros como agora estás a fazer.
― Não compreendo, ― disse Laura, e saiu imediatamente do quarto da mãe e foi refugiar-se no seu. Aí, por acaso, a primeira coisa que viu foi uma rapariga encantadora ao espelho, com um chapéu preto ataviado com margaridas douradas, e uma longa fita de veludo preto. Ela nunca tinha pensado que podia ter aquele aspecto. Será que a mãe tem razão? pensou ela. E agora desejava que a mãe tivesse razão. Estarei a ser extravagante? Talvez fosse extravagante. Veio-lhe um vislumbre instantâneo da pobre mulher e das crianças pequenas, e do corpo a ser transportado para casa. Mas tudo lhe aparecia nublado, irreal, como uma fotografia no jornal. Vou pensar nisto quando a festa acabar, decidiu. E de algum modo pareceu-lhe ser o melhor a fazer…
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
― Tac, tac, tac, ― a cozinheira parecia cacarejar como uma galinha agitada. A Sadie tinha a mão a agarrar a cara como se estivesse com dor de dentes. O rosto de Hans contorcia-se com o esforço para compreender. Só o homem da Godber parecia estar contente; era ele quem contava a história.
― Que se passa? Que aconteceu?
― Houve um acidente terrível. ― disse a cozinheira. ―Morreu um homem.
― Morreu um homem! Onde? Como? Quando?
Mas o homem da Godber não ia deixar que alguém contasse a história por ele.
― Estão a ver aquelas casinhas ali em baixo, meninas? ― Se as conheciam? Claro que as conheciam. ― Pois, vivia ali um rapaz chamado Scott, que trabalhava como carroceiro. O cavalo dele, na curva da rua Hawke, assustou-se com um tractor, e ele foi projectado e bateu no chão com a parte de trás da cabeça. Morreu,
― Morreu! Laura olhava para o homem da Godber.
― Estava morto quando o levantaram, ―disse o homem da Godber com ar prazenteiro. ― Iam a levar o corpo para casa quando eu vinha para aqui. ― E disse para a cozinheira, ― Deixa mulher e cinco filhos.
― Anda cá, Jose. ― Laura puxou a manga da irmã e levou-a através da cozinha até passarem a porta forrada a baeta verde. Parou e encostou-se ali. ― Jose! ― disse, horrorizada, ― como é que vamos suspender tudo?
― Suspender tudo, Laura! ― exclamou Jose espantada. ― Que queres dizer?
― Suspender o garden-party, claro. ― Porque é que a Jose fingia não perceber?
Mas Jose estava cada vez mais espantada. ―Suspender o garden-party? Minha querida Laura, não sejas absurda. Claro que não podemos fazer nada disso. Ninguém espera que o façamos. Não sejas tão extravagante.
― Mas nós não podemos de modo nenhum dar um garden-party com um homem morto mesmo do lado de fora do nosso portão da frente.
Era realmente extravagante, pois as casinhas ficavam numa travessa só delas, mesmo ao fundo de uma ladeira que conduzia à casa. Havia uma estrada larga de permeio. Era verdade que não deveriam estar ali tão perto. Constituíam uma ofensa para a vista, e não tinham qualquer direito de estar ali ao pé. Eram moradias muito humildes pintadas a castanho chocolate. Nas nesgas ajardinadas só se viam caules de couve, galinhas doentes e latas de tomate. Até o fumo que saía das chaminés tinha um ar de pobreza. Aos bocadinhos e a retalhos, tão diferente das grandes plumas prateadas que se desenrolavam da chaminé dos Sheridan. Viviam na travessa lavadeiras, varredores e um sapateiro, além de um homem cuja casa tinha a frente toda coberta com gaiolas de aves minúsculas. As crianças enxameavam. Quando os Sheridan ainda eram pequenos estavam proibidos de pôr ali os pés por causa da linguagem grosseira e das doenças que poderiam apanhar. Mas quando cresceram, a Laura e o Laurie passeavam às vezes por ali. Era repugnante e sórdido. Voltavam de lá sobressaltados. Mas era preciso ir a todo o lado; devia ver-se tudo. Por isso lá iam eles.
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
Lá conseguiram encontrar o envelope atrás do relógio da sala de jantar, embora a Senhora Sheridan não tivesse a menor ideia sobre como teria ido lá parar.
― Uma de vocês surripiou-mo da minha mala, porque eu lembro-me muito bem … queijo creme e requeijão. Escreveste?
― Sim.
― Ovo e… ― a Senhora Sheridan tirou-lhe o envelope. ― Parece ratazanas. Não pode ser ratazanas, pois não?
― Azeitonas, mãezinha, ― disse Laura, por cima do ombro dela.
― Azeitonas, pois claro. Que mistura horrível. Ovo e azeitonas.
Lá conseguiram acabar, e Laura levou foi levar tudo à cozinha. Encontrou Jose a acalmar a cozinheira, que não parecia querer aterrorizar ninguém.
― Nunca tinha visto sanduíches com um aspecto tão requintado, ― dizia Jose com uma voz entusiástica. De quantas qualidades é que disse que há, cozinheira? Quinze?
― Quinze, Miss Jose.
― Bem, cozinheira, os meus parabéns.
A cozinheira varreu umas migalhas com a faca de cortar pão, e mostrou um grande sorriso.
― Chegaram da Godber, ―avisou Sadie, a sair da copa. Tinha visto o homem a passar em frente á janela.
Portanto as bombas tinham chegado. A Casa Godber era famosa pelas suas bombas. Ninguém pensava sequer em fazê-las em casa.
― Trá-las e põe-nas na mesa, menina, ― ordenou a cozinheira.
A Sadie trouxe-as para dentro e voltou à porta. Claro que a Laura e a Jose eram demasiado crescidas para ligarem muito aquelas coisas. De qualquer modo, não podiam deixar de concordar que as bombas tinham um aspecto muito atraente. Muito. A cozinheira começou a arranjá-las, limpando o açúcar gelado a mais.
― Não achas que nos fazem recordar todas aquelas festas em que já estivemos?
― Acho que sim, ― disse a prática Jose, que não gostava de recordar o passado. ― Parecem muito leves, como penas.
― Tirem um cada uma, queridas, ― disse a cozinheira com voz tranquila. ― A vossa mãe não dá por isso.
Oh, não podia ser. Imaginem, bombas logo a seguir ao pequeno almoço. Só pensar nisso causava sobressaltos. De qualquer maneira, dois minutos depois Jose e Laura lambiam os dedos com aquele ar pensativo que só o chantilly consegue causar.
― Vamos ao jardim, pelo caminho de trás, ― propôs Laura. ― Quero ver como é que os homens se estão a haver com o toldo. São tremendamente simpáticos.
Mas a porta de trás estava impedida pela cozinheira, por Sadie, pelo homem da Godber e por Hans.
Tinha acontecido alguma coisa.
(continua)
Um Café na Internet
(continuação)
Laura poisou o auscultador, levantou os braços acima da cabeça, respirou fundo, esticou-os e deixou-os cair. ― Uuuh!― suspirou, e levantou-se rapidamente. Parou, a ouvir. Todas as portas da casa pareciam abertas. A casa estava viva com o som de passos rápidos e suaves e vozes activas. A porta forrada a baeta verde que dava para os lados da cozinha abria e fechava com um som abafado. Ouvia-se um som longo, absurdo, como um cacarejo. Era o piano tão pesado a ser arrastado sobre as rodinhas rijas. Mas o ar! Parando a observar, seria que o ar era sempre assim? Ligeiras correntes de ar brincavam a apanhar por todo o lado, no cimo das escadas, ou às portas. E apareciam dois pequenos reflexos de sol, um no tinteiro, outro numa moldura de prata de fotografia, também a brincar. Que lindos reflexos. Sobretudo o na tampa do tinteiro. Estava mesmo quente. Uma pequena estrela quente de prata. Gostava de a ter beijado.
A campainha da porta da frente tocou, e ouviu-se o roçagar da saia estampada de Sadie a descer a escada. Uma voz de homem disse qualquer coisa; Sadie respondeu despreocupadamente, ― Não sei nada. Um momento. Vou perguntar à Senhora Sheridan.
― O que é, Sadie? Laura entrou no átrio.
― É o florista, menina Laura.
Era mesmo. Mesmo ao entrar da porta, estava uma bandeja larga e rasa carregada com vasos de lírios rosados. Nenhuma outra flor. Apenas lírios – de cana, grandes flores rosadas, bem abertas, radiantes, quase assustadoramente vivas sobre hastes carmesins brilhantes.
― O-oh, Sadie! ― disse Laura, e a voz parecia um gemido. Curvou-se como se quisesse aquecer-se ao brilho dos lírios; sentiu-os nos dedos, nos lábios, a crescer no seio.
― Há algum engano, disse com voz fraca. ― Ninguém ia mandar vir tantos. Sadie, vá ver se encontra a mãe.
Mesmo nesse instante a Senhora Sheridan chegou ao pé delas.
― Está tudo bem, disse calmamente. ― Eu encomendei-as. Não são lindas? ― Pegou no braço de Laura. ― Ontem ia a passar pela loja, e vi-as na montra. E veio-me à cabeça a ideia de, ao menos uma vez na vida, ter todos os lírios de cana que eu quisesse. O garden-party é uma boa desculpa para isso.
― Mas pareceu-me ouvi-la dizer que não queria interferir em nada, ― disse Laura. A Sadie já não estava ao pé delas. O homem do florista ainda estava na rua, ao pé da carroça. Laura passou o braço à volta do pescoço da mãe e, suavemente, muito suavemente, mordeu a orelha da mãe.
― Minha filha querida, não me diga que preferia ter uma mãe toda racional, se calhar? Não queira uma coisa dessas. Aqui está o homem.
Ele trouxe mais lírios, mais uma bandeja deles.
― Ponha-os aí do lado de dentro, ao pé da porta, nos dois lados do alpendre, ― disse a Senhora Sheridan. ― Laura, achas bem assim?
― Claro, mãe.
(continua)
Um Café na Internet
(Continuação)
Tinha que ser. Os homens já tinham posto ao ombro as aduelas e encaminhavam-se para o lugar em questão. Apenas o fulano alto ficava para trás. Baixou-se, apanhou um rebento de alfazema, levou o polegar e o indicador ao nariz e aspirou o cheiro. Ao ver este gesto Laura esqueceu tudo a respeito das karakas, estupefacta por ele dar atenção a coisas como o cheiro da alfazema. Quantos homens conhecia ela que fariam uma coisa assim? Pensou que os trabalhadores eram muito simpáticos. Porque não poderia ela ter trabalhadores como amigos em vez dos rapazes parvos com quem dançava e que vinham cear ao domingo? Dar-se-ia muito melhor com homens como estes.
Isto é tudo, concluiu ela, enquanto o fulano alto desenhava nas costas de um envelope uma coisa que tinha de ser envolvida ou pendurada, por causa destas absurdas distinções de classe. Bem, por parte dela, não as levava em conta. Nem um bocadinho, nem um átomo… E agora começava o pam – pam dos martelos de madeira. Alguém assobiou, outro gritou ― Estás aí, rapaz? ― . ― Rapaz! ― O afecto com que era dito … Para provar como estava contente, para mostrar ao fulano alto como se sentia á vontade, e como desprezava convenções estúpidas, a Laura deu uma grande dentada no seu pão com manteiga enquanto olhava para o pequeno desenho. Sentia-se uma trabalhadora.
― Laura, oh Laura, por onde andas? Vem ao telefone, Laura!
― Lá vou! Deslizou pela relva fora, até ao caminho, subiu os degraus, atravessou a varanda e entrou em casa. No átrio o pai e Laurie escovavam os chapéus para irem para o escritório.
― Ouve, Laura ― disse Laurie rapidamente, ―podias dar uma vista de olhos ao meu fato antes de logo à tarde? Para ver se precisa de ser passado a ferro.
― Eu vejo ― respondeu ela. De repente, não se conseguiu conter. Correu atrás de Laurie e agarrou-lhe o braço.
― Gosto muito de parties, e tu? ― sussurrou.
― Bastante ― disse Laurie com a sua voz quente e juvenil, e agarrou também no braço da irmã, empurrando-a suavemente. ― Olha o telefone, miúda.
Claro, o telefone. ― Sim, sim. Olá. É a Kitty? Bom dia, querida. Vens almoçar? Vens, pois. Fico muito contente, é verdade. Vai ser tudo improvisado, uns restos de sanduíches e de merengue, tudo sobras. Olha que linda manhã que está! Vens com o branco? Era o que eu faria também. Espera só um momento, não desligues. A mãe está a chamar. ― e a Laura chegou-se para trás e endireitou-se ― O que é, mãe? Não oiço.
A voz da senhora Sheridan ecoou na escada. ― Diz-lhe que traga aquele lindo chapéu que ela tinha domingo passado.
― A mãe diz para trazeres aquele lindo chapéu que tinhas no domingo passado. Está bem. À uma hora. Até logo.
(Continua)
Um Café na Internet
(Continuação)
― É verdade, menina ― disse o homem mais alto, um fulano magro e sardento, e poisou a caixa de ferramentas que trazia, deu um piparote para trás no chapéu de palha e sorriu para ela ― É por isso mesmo.
Tinha um sorriso tão natural, tão simpático que Laura recuperou a calma. Que lindos olhos que ele tinha, pequenos, mas tão azuis! E quando olhou para outros, viu que também sorriam. ―Anima-te, que a gente não te morde ― pareciam dizer. Que trabalhadores tão simpáticos! E que manhã tão bonita! Não devia falar na manhã tão bonita, tinha de mostrar um ar grave. Claro, o toldo.
― Então, acham que pode ser no relvado dos lírios? Fica bem ali?
E apontou para o relvado dos lírios com a mão que não segurava o pão com manteiga. Os homens viraram-se para olharem para lá. Um baixinho forte mordeu o lábio inferior, e o alto franziu as sobrancelhas.
― Não me parece ― disse ele. ― Não dá suficientemente nas vistas. Está a ver, quando se tem um toldo ― virou-se para Laura com o seu jeito descontraído, ― procura-se metê-lo num sítio em que nos apareça tal como um estalo na cara, se me faço compreender.
A educação de Laura fez com que lhe viessem à cabeça dúvidas sobre se não seria uma falta de respeito um simples trabalhador falar com ela com termos como um estalo na cara. Mas procurou seguir a ideia dele.
― Um canto do campo de ténis ― sugeriu ela ― Mas a orquestra também tem de ficar num canto.
― Hum, vão ter orquestra? ― disse outro homem. Estava pálido. Tinha um ar ansioso enquanto os seus olhos negros percorriam o campo de ténis. No que estaria a pensar?
― Vai ser só uma orquestra muito pequena, ― disse Laura delicadamente. Talvez ele não se importasse tanto se a orquestra fosse realmente pequena. Mas o fulano interrompeu.
― Olhe, menina, ali há lugar. Ao pé daquelas árvores. Ali fica muito bem.
Ao pé das karakas. Assim, as árvores das karakas ficavam escondidas. Eram encantadoras, com as folhas largas e reluzentes, e os cachos de frutos amarelos. Eram como as árvores que imaginamos numa ilha deserta, altivas, solitárias, erguendo as folhas e os frutos ao sol num esplendor silencioso. Porque haveriam de ser escondidas por um toldo?
(Continua)
Um Café na Internet
E afinal o tempo estava magnífico. Nem por encomenda teriam arranjado um dia melhor para um garden-party. Sem vento, quente, e o céu sem uma nuvem. Havia apenas uma névoa de luz dourada a velar o céu, como às vezes acontece no princípio do Verão. Desde manhã cedo que o jardineiro andava a aparar e a varrer a relva, de modo que as ervas e os florões com margaridas até pareciam brilhar. Quanto às rosas, quase que se era levado a pensar que elas se sentiam como as únicas flores que as pessoas nos garden-parties apreciam; as únicas flores de que toda a gente tem a certeza de saber o nome. Numa só noite tinham desabrochado às centenas; os arbustos verdes abanavam como se tivessem recebido a visita de arcanjos.
Ainda não tinham acabado o pequeno almoço quando os homens chegaram para armar o toldo.
― Onde quer que se ponha o toldo, mãe?
― Filha querida, não me perguntes nada. Este ano, estou resolvida a deixar tudo ao vosso cuidado. Esqueçam que eu sou a vossa mãe. Tratem-me como uma convidada de honra.
Mas não era possível à Meg ir vigiar os homens. Tinha lavado o cabelo logo antes do pequeno almoço, e estava sentada a beber o café com um turbante verde na cabeça e um anel escuro do cabelo molhado em cada face. Jose, a borboleta, descia sempre em saiote de seda e com um casaco de quimono.
― Tens de ir tu, Laura, és a artista da família.
E lá foi a Laura a correr, com um pedaço de pão com manteiga ainda na mão. Era muito agradável ter um pretexto para comer ao ar livre, e além disso, ela adorava ter coisas para organizar; achava que nisso era melhor do que qualquer outra pessoa.
Quatro homens em mangas de camisa esperavam juntos no caminho do jardim. Carregavam aduelas com rolos de couro à volta, e traziam caixas grandes de ferramentas penduradas às costas. Eram impressionantes. Laura começou a achar que não devia ter o pão com manteiga na mão, mas não sabia onde o pôr, e sentia que não devia deitá-lo fora. Corou e tentou pôr um ar sério, e até um pouco míope, enquanto se aproximava deles.
― Bom dia ―, disse, imitando a voz da mãe. Mas soou de um modo tão afectado que ficou com vergonha, e gaguejou como uma miúda pequena. ― Oh, … ― ah…― vieram …― por causa do toldo?
(Continua)
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(Texto publicado in Estrolabio)
Na passagem do século XV para o XVI, um escritor alsaciano de língua alemã, Sebastian Brant (1457-1521), um jurista formado em Basileia, escrevia, em 1494, uma obra, Das Narrenschiff ou Stultifera navis, na versão em latim. Obra que, sem grande mérito literário, teve uma grande repercussão não só na sua época como nos tempos que se seguiram. Chegou o seu eco até aos nossos dias. Para um escritor menor, ser recordado ao longo dos quinhentos anos que se seguiram à sua morte, não está nada mal.
Grandes artistas como Hieronymus Bosch e Albrecht Dürer, inspiraram-se nesta obra de Brant. Teve epígonos por todo o mundo. Gil Vicente, por exemplo, pensa-se que a poderá ter lido. A ideia central do livro é muito simples – numa era de navegações, a simbologia náutica era uma constante. Assim, Brant fez embarcar numa nave – a Sultifera navis – diversos tipos de loucos, 112 ao todo - todos os loucos do fantástico país da Cocanha, quer dizer, da abundância, numa nave que atravessa a Narragonien (Mattagonia), ou seja, o «reino da loucura». Os passageiros representam todos as classes – clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e artífices.
A cada louco, Brant dedica um capítulo do poema o qual, além do prefácio e do epílogo, tem cento e doze capítulos. Brant não de se esquece de si mesmo, referindo-se aos seus méritos e defeitos no prólogo, no primeiro e nos dois últimos capítulos – «O Louco dos Livros» e «Dos Livros Inúteis», falando dos loucos que, como ele gente que ama a sua biblioteca mais do que o saber que ela lhes pode oferecer, transformando-se em coleccionadores de livros, mas, nem por isso, em pessoas mais sábias.
Outros temas interessantes são, por exemplo, «A Apologia do Poeta» e «O Homem Sábio e Prudente», em que faz o elogio de Sócrates (o filósofo grego, claro). Em cada um dos capítulos a obra retrata um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predomina a tutelar figura de Frau Venere (Vénus). «Das Narrenschyff» é sobretudo um poema moralista e, como tal, nele abundam sentenças bíblicas, aforismos populares alemães portadores da sabedoria conceptual da Idade Média.
Por outro lado, representa-se nas suas páginas uma viva angústia pela trágica situação da Igreja, onde sopravam já os ventos de divisão que resultaram na Reforma, e pela iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado naquela época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos de Brant era, portanto, uma mística barca representando a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», filhas do Renascimento, concebidas a partir das cinzas profanas da Grécia e de Roma. Pela mesma época, o grande pintor brabantino Hieronymus Bosch criava o seu Barco ou Nave dos Loucos, também antes do final da era de Quatrocentos, pintura inspirada pelo poema de Sebastian Brant.
A narrativa de Brant Inspirou também o romance «Ship of fools» da norte-americana Katherine Anne Porter (1890-1980), publicado em 1962 e, em 1965, baseado no livro e com o mesmo título, um filme do genial Stanley Kramer, com Vivien Leigh, Simone Signoret, José Ferrer, Lee Marvin, entre outros. Num paquete de luxo, no ano de 1933, pessoas de diversos estratos culturais e sociais, numa amostragem de um pequeno universo concentracionário, viajam do México para a Alemanha – No decurso da viagem, na Alemanha a situação muda, Hitler sobe ao poder. Alguns dos passageiros, judeus por exemplo, vão alegremente a caminho do holocausto. E chegamos à terceira parte da minha «homilia» de hoje.
A política partidária portuguesa, tal como actualmente se apresenta, afigura-se-me repugnante. Não compreendo como podem as pessoas levar a sério a generalidade da nossa classe política. É gente que não pensa existe no sentido nobre da palavra (pois recebe o pensamento já mastigado pelos seus donos de Bruxelas, de Washington, da Sonae, da Galp, do Espírito Santo …
Max Aub, um grande escritor espanhol (1903-1972) num dos seus deliciosos «Contos Exemplares», diz que as árvores existem, mas não pensam, pondo com esta constatação em causa o princípio de Descartes. Eu diria que estes nossos políticos não pensam e que, a aceitarmos a cartesiana teoria, como não pensam logo não existem. Andam por aí, fala-se muito neles, mas daqui por dez anos ninguém se lembrará deles. De facto, não têm qualquer importância. São meros peões movidos por gente mais ou menos discreta, mas que em todo o caso não goza do protagonismo dos políticos.
Quarta e última parte - vamos à moralidade (ou imoralidade?) da história.
Numa barca cheia de gente alienada, vamos navegando na irremediável direcção do caos. Não seria inevitável, se soubéssemos exigir aquilo a que temos direito, se soubéssemos escolher entre nós os mais capazes de dirigir a barca e de escolher a rota. Mas não. Masoquistas impenitentes, vamos elegendo como aparentes capitães os criados de poderes ocultos ou discretamente afastados da ribalta.
Chegados à ponte de comando, perguntam aos patrões como e para onde devem conduzir a barca, pois nem sequer são eles os timoneiros desta nave que nos conduz ao caos. São simples marionetas. São os rostos e as bocas da corrupção, mas não o seu coração, os seus pulmões. Não nos enganemos com as frases grandiloquentes, mas ocas, com que protestam patriotismo e honra – são coisas que não têm. Se for preciso e der jeito até ajudam a vender a nação a quem der mais. Sempre em nome dos «superiores interesses nacionais».
Uma nave de loucos conduzida por crápulas.
Um Café na Internet
Nesta semana da Economia, não queria deixar de abordar um tema afim. Escolhi falar sobre capital. Acontece que Capital é palavra com muitos significados. Das mais importantes acepções destaco duas, dois substantivos com géneros diferentes – o capital, acepção do foro da Economia; a capital, na área da geopolítica. Dois famosos livros, entre muitos outros, celebram cada uma das acepções - «O Capital», de Karl Marx, e «A Capital», do nosso Eça. Como adjectivo tem também a sua importância – pena capital, por exemplo, para quem a ela tiver sido condenado, assume uma dimensão transcendente. Muito mais dramático do que não ter capital ou ainda pior do que viver nos subúrbios da capital.
“A Capital”, de Eça de Queirós, foi um romance que viria, depois, a dar lugar à sua obra-prima «Os Maias». Refere-se à capital de Portugal – Lisboa. No seu livro, Eça relata as vicissitudes de um provinciano numa capital, também ela provinciana. Porque naquela época final do século XIX, tal como agora, a capital era um espelho do País. Como se cada país tivesse a capital que merece.
Terá sido a necessidade de centralizar, de criar estruturas como, por exemplo, a Casa da Mina e da Índias que levou à criação de uma capital .. Creio que não se utilizava ainda, no século XV, o termo «capital», mas Lisboa começou nessa altura, como maior cidade do País, a concentrar as funções de «cabeça do Império», pois ali se acumulavam todos os órgãos gestionários quer das frotas que demandavam os mares, execução de mapas (o termo «cartografia» só apareceu no século XIX), armazenamento das mercadorias que saíam e entravam, e toda essa complicada operação de logística que implicava infra-estruturas fixas.
Lisboa é desde a Idade Média a maior cidade do País. Na lógica que veio colada ao dealbar do Renascimento, era o sítio ideal para instalar o centro de um império vasto que se espalhava pelos cinco continentes. Como diz Oliveira Marques, no 1º volume da sua «História de Portugal», terá sido «o desenvolvimento de Lisboa que caracterizou demograficamente o fim da Idade Média em Portugal». Era quatro a cinco vezes maior do que qualquer das outras cidades portuguesas.
Ignoro quando apareceu o termo «capital» na acepção geopolítica, mas só o começo a ver mais ou menos generalizado em textos do século XVIII (embora possa surgir esporadicamente em documentos mais antigos). Mas se a palavra não existia ou não estava vulgarizada, existia desde os alvores da Idade Moderna, em Portugal e nos restantes países europeus a realidade da concentração numa cidade dos órgãos de poder e das estruturas e infra-estruturas de governação. Na Corte.
Carlos V transformou Madrid, uma pequena vila no centro geográfico da Península, numa grande capital. Em todo o caso, saudosistas da grandeza espanhola, lamentam que Filipe II não tenha instalado a capital em Lisboa (na época a maior cidade da Península, só acompanhada de perto por Sevilha e Barcelona). Ter-se-ia, segundo ele, com essa manobra, consolidado a unidade ibérica. Ainda bem que Filipe II não teve tal ideia.
Parece-me que este conceito de capital é arcaico. Nos dias de hoje não se justifica concentrar todos os centros de poder numa única cidade. Por esse mundo fora há exemplos de descentralização que podíamos seguir. Nos Países Baixos, embora a Constituição determine que a capital é na cidade de Amesterdão, quer o Governo, quer o chefe de e o supremo tribunal de justiça estão na Haia. No Chile, embora a capital oficial seja na cidade de Santiago, o Congresso Nacional está sediado em Valparaíso. A África do Sul tem uma capital administrativa, que é Pretória, uma capital legislativa – a Cidade do Cabo, e em Bloemfontein está sediada a capital judicial. Para não estragar este pacífico artigo sobre Economia (?), não falo de Jerusalém que Israel diz ser a capital do estado judaico e que os palestinianos consideram também como sua capital.
Sou de Lisboa, gosto da minha cidade, mas não me parece que retirar-lhe a capitalidade fosse prejudicial para os lisboetas. Construir uma cidade no centro geodésico de Portugal seria uma excelente ideia. Fica perto de Vila de Rei. Mas não deveria chamar-se Vila de Rei, nem Cidade de Rei – afinal somos uma República desde há cem anos! Um bom nome, seguindo o exemplo do Brasil, seria chamar-lhe Portugália. A venda dos direitos de naming à empresa cervejeira renderia bom capital. Por outro lado, a construção de uma nova cidade, acessibilidades (aeroporto, auto-estradas, TGV...), etc. , além de aumentar a oferta de emprego, daria um bom impulso ao sector das Obras Públicas, um sector estratégico da nossa Economia. Bingo!
Era aqui que eu queria chegar, mas não foi fácil.
Um Café na Internet
Katherine Mansfield nasceu a 14 de Outubro de 1888 na Nova Zelândia. Estudou em Londres, no Queen’s College, até aos dezoito anos. Embora não fosse uma estudante extraordinária, tornou-se uma violoncelista notável, e começou as suas tentativas na literatura. Regressou entretanto à Nova Zelândia, onde entrou em conflito com a família. Parece também que, embora o ambiente na sua terra, à época, fosse de franca abertura ao progresso em vários aspectos , que Katherine ficou muito impressionada com a situação dos Maori. Regressou entretanto a Londres, onde por algum tempo teve uma vida de algum desequilíbrio, mesmo afectivo. Apesar dos conflitos, continuou a relacionar-se com a família, tendo ficado profundamente chocada com a morte do irmão na I Grande Guerra. Na altura (1911) já tinha sido publicado o seu primeiro livro, Numa Pensão Alemã. Nele começou a revelar-se o seu génio. Mas entretanto o seu estado de saúde agravou-se e declarou-se-lhe a tuberculose, que havia de a levar.
Katherine Mansfield (o seu nome verdadeiro era Kathleen Beauchamp) faleceu aos 34 anos, prematuramente, acabando assim, logo no início, uma brilhantíssima carreira de escritora. João Gaspar Simões, na sua introdução ao volume Garden Party, publicado na colecção Os Contos Universais, da Portugália Editora, assinala o papel fulcral que a escritora desempenhou no reconhecimento do conto como forma maior da literatura. Neste capítulo só talvez Tchekov se lhe poderá equiparar. Katherine Mansfield, com certeza, foi influenciada por outros escritores, como Maupassant, Tchekov e Oscar Wilde, e, também, por Joyce. João Gaspar Simões assinala também que a escritora pertence à corrente realista, e refere a influência que sobre ela exerceu Elizabeth Gaskell (1810 – 1865), conhecida por Mrs. Gaskell, que descreveu de modo profundo e crítico os usos e costumes da época vitoriana.
Katherine Mansfield consegue a aproximação do conto à poesia, na medida em que utiliza uma psicologia muito fina para descrever ao leitor os personagens das suas histórias e os seus sentimentos. E deste modo dá-nos uma descrição muito transparente da realidade, do que é a sociedade e dos problemas das pessoas.
Na próxima segunda-feira, no nosso blogue, vamos iniciar a publicação do conto O Garden-Party.
Este texto foi publicado no Estrolabio
Um Café na Internet
(Continuação)
O estilo de Guilherme de Azevedo dobra-se com admirável flexibilidade a todos os caprichos da fantasia; de sorte que, dado o facto sobre o qual o artigo tem de ser bâclé para o jornal do dia seguinte, ele arranca-lhe de dentro em cinco tiras de papel tudo o que se lhe pedir: cabriolas, guinchos, métodos científicos, carrancas de palhaço, religiões, filosofias, buca-pés, baba de tigre, teorias de arte, formas de governo, bandeirolas, blasfémias ou pastilhas. Exercendo uma considerável força de crítica e de mordacidade sobre os compadrios caturras da sociedade de Lisboa, ele nunca teve inimigos. Quando há meses partiu para Paris, onde presentemente reside, li eu num jornal que vinte e três dos seus amigos tinham ido dizer-lhe adeus. Vinte e três amigos, para um homem que não tem pelo menos dois ou três ministros fechados em cada mão, parecce-me ser o mais expressivo elogio que se pode fazer à bonomia de um malicioso. E esse elogio, Guilherme de Azevedo merece-o mais que ninguém, porque nunca a fibra belicosa de um mais arrogante sapador revestiu o coração ingénuo de um melhor rapaz.» Este texto lavrado num registo encomiástico serve de contrapeso á descrição, talvez realista, mas ácida de Fialho de Almeida, nas páginas que, no número 40 de Os Gatos, dedica ao escritor santareno.
(Excerto da biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
Paris
Para além das crónicas que foi enviando, não existem muitas referências ao que terá sido o percurso dos dois anos que Guilherme viveu em Paris. Correspondente telegráfico e literário da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, recebe por essa incumbência mil francos por mês, não estando contudo impedido de colaborar nos jornais de Lisboa e Porto. Por isso, não terá tido grandes dificuldades económicas. Habita numa sobreloja, num entresol, do boulevard Saint Germain, em frente do Teatro Cluny. À partida, sonhara ir ali, na Meca do chic (como diz Fialho), produzir finalmente a sua «grande obra».
Em A Alma Nova, Lisboa, «a cortesã devassa», não é mais do que a correspondência autóctone e possível à grande e tentacular metrópole dos versos de Baudelaire, de Hugo, de Lamartine – Portugal é, no dizer de Eça, «um país traduzido do francês em vernáculo»; por consequencia, Lisboa, provinciana e atrasada, é, apesar de tudo, aquilo que de mais parecido temos com uma grande cidade. Mas agora, nada de imitações – Guilherme está no coração da civilização, na fonte de todas as misérias, de todas as opulências: está em Paris.
Tudo indica, porém, que o sonho vai sendo adiado - vagabundagens, hábitos de café, prostitutas, as noites perdidas em cavaqueiras estéreis ou nos teatrinhos de boulevard... A «grande obra» vai ficando sempre para «amanhã». As crónicas obrigatórias de cuja escrita depende economicamente, são sempre alinhavadas à última hora, escritas de um jorro, uma vez que já as tem pensadas de antemão - não são sequer emendadas, pois, impaciente, o paquete espera que ele termine, para ir correndo levá-las ao telégrafo.
Gaba-se de nunca ler nada para preparar os seus escritos – segundo diz, tudo lhe surge na mente já acabado (depois, saber-se-á que assim não é – quando adoece, os amigos descobrem-lhe apontamentos, revistas francesas sublinhadas... fontes de consulta, enfim. O que está longe de ser um crime, mas que, apesar de tudo, ele esconde como se de um crime se tratasse). Um dia de Março de 1882, indo avisá-lo de que haviam chegado uns amigos de visita, a porteira dá com ele desmaiado, vítima de uma síncope.
Ao despi-lo, os amigos descobrem que todo o seu lado esquerdo está ulcerado, gangrenado. Durante seis meses, sabe-se depois, escondeu de todos o avanço da doença que começara, décadas antes, com o tumor provocado pela sua queda na infância. Ao cabo de uns dias, já em Abril, lá se deixou conduzir pelos amigos – Lino de Assunção, Bordalo e Eduardo Garrido, à Casa de Saúde Dubois.
(Continua)
Um Café na Internet
(Continuação)
Como já sabemos, tendo deixado de ser funcionário da Fazenda, Guilherme está agora disponível para ser escritor e jornalista a tempo inteiro. Encontra facilmente colaboração nos jornais de Lisboa, como a Lanterna Mágica (em cujas páginas, em 1875, Bordalo cria a figura do Zé-Povinho), a Gazeta do Dia, o Diário da Manhã. Algumas das suas crónicas jornalísticas são publicadas sob o sugestivo pseudónimo de «Guarda Nocturno». Em 1878 é-lhe proposta a direcção da revista Ocidente, cargo que aceita e onde se mantém até partir para França.
O Ocidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, fora criada em 1 de Janeiro desse ano pelo prestigiado gravador Caetano Alberto da Silva, Brito Rebelo e Manuel de Macedo, e vinha na sequência de outras revistas ilustradas, como O Ramalhete (1837), O Panorama (fundada por Alexandre Herculano em 1837 e que se manteve, com interregnos, até 1868), Arquivo Pitoresco (1856), Dois Mundos (1877), etc. A sua qualidade gráfica e literária é atestada pelos numerosos prémios que irá receber nas exposições de Paris (1878), Lisboa (1888), Antuérpia (1894), Saint Louis (1895), Paris (1900) e Lovaina (1907). Por esta revista, de que se publicam 31 volumes, passam grandes vultos intelectuais portugueses, tais como Guerra Junqueiro, Maria Amália Vaz de Carvalho, Pinheiro Chagas, Cesário Verde, Luciano Cordeiro, Jaime Batalha Reis, Cândido de Figueiredo, Gonçalves Crespo, etc. Aí, Guilherme publica as suas crónicas ocidentais. Voltemos a escutar Fialho:
«A vida literária no tempo de Guilherme, era pouco mais ou menos o que é hoje; misantropias azedas sem vintém, acessos de mau humor com pretensões paradoxais, ceias baratas, espanholas, redacções, Martinho, Grémio, Casa Havanesa, e os camarins de algumas cómicas mais puxadas. Guilherme de Azevedo vivia de república numa casa da Rua dos Retroseiros*, o terceiro andar que olha prò Frade, com Junqueiro, no esplendor então da sua verve demoníaca, com Luís de Andrade, Magalhães Lima e não sei quem mais.»2 Em suma, o jovem provinciano, qual herói de Eça, conquistara a capital.
Alma Nova
Quando em 1874 sai Alma Nova, o livro transporta já e dá corpo nos seus versos a esse anseio por uma literatura colocada ao serviço das ideias democráticas e revolucionárias defensoras de uma nova ordem social que despontam um pouco por toda a Europa. Esta obra desperta mesmo uma grande curiosidade nos meios literários da capital. Segundo Ramalho Ortigão assinala no Jornal do Comércio (13 de Abril de 1882), A Alma Nova «abriu caminhos inexplorados até então, dentro da nossa poesia.» Guilherme de Azevedo, o quase desconhecido santareno, transforma-se assim quase num poeta consagrado, num jornalista de prestígio, num precursor dos novos caminhos que irão abrir-se à literatura. O livro é dedicado a Antero de Quental – «Meu amigo, Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo, fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.» Na realidade, Quental é a figura tutelar da chamada «escola nova» onde se inscreve a poesia realista de Guilherme. Por sua vez, o grande escritor açoriano elogia-o em A Revolução de Setembro (1871) e dedica-lhe o soneto Mais Luz (1872).
Óscar Lopes afirma que A Alma Nova (bem como já acontecia com Radiações da Noite) se conta «entre os livros de versos que mais contribuiram para fixar o estilo dos numerosos poetas panfletários desta época», sendo o seu tema «por excelência, a Cidade Burguesa, industrializada, enegrecida de fumo, proletarizada...»: Por seu turno, Manuel Simões, a quem se deve o mais esclarecedor estudo sobre Alma Nova e sobre Guilherme de Azevedo, diz:
«Todo o livro é percorrido por sinais que antecipam a visão de Cesário acerca da antinomia cidade/campo. De um modo geral, é o campo que sai exaltado no processo discursivo que organiza o material do discurso. É claro que a recusa da «civilização» citadina corresponde, algumas vezes, aos mecanismos republicanos que recusam servir o rei.» [...] «É inegável, porém, uma antipatia visceral pelo espaço urbano («a cidade dormia o sono dos devassos», XXII), reiterada com insistência no poema XXIX:
Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
a velha imperatriz da inércia e da cobiça,
não sendo arbitrária a permanência na estrofe seguinte dos significantes «lama» e «preguiça».»
Ramalho descreve-o.
Ouçamos agora João Ribaixo, ou seja Ramalho Ortigão, na folha do Álbum das Glórias que é dedicada a Guilherme de Azevedo:
«Chegado de Santarém pelo comboio da manhã, ele entrou em Lisboa há onze anos trazendo consigo um livro primoroso – A Alma Nova.
Desde então até hoje a sua pena nunca mais cessou de correr no papel em alegres esfuziadas que, como um fogo de artifício, estalam na página em arabescos luminosos e em estrelas rutilantes.
Não é possível estar mais na publicidade e ao mesmo tempo aparecer menos em evidência.
Toda a gente o leu e ninguém pessoalmente o conhece.
No meio do estrépito retumbante da sua obra, assinada pelos pseudónimos famosos de Gil Vaz ou de João Rialto, na Lanterna Mágica e no António Maria, ele, encolhido, recluso, escorredio, atravessou a celebridade lisbonense pelo lado da sombra, caminhando no escuro em bicos de pés.
Os diferentes prazeres da glória, que consistem para o eleito em ser curiosamente apontado no Passeio Público pelas mulheres feias que infestam aquela região ao domingo à tarde, em ocupar uma cadeira em São Carlos e em ter um retrato fotográfico exposto nas vidraças da rua do Ouro entre o de um bailarino e o de uma cocotte – esses prazeres capitosos e ardentes, que tantas imaginações devoram no interior das nossas províncias –, Guilherme de Azevedo repeliu-os sempre com uma energia inexpugnável.
O Álbum das Glórias, abrindo nesta página um alçapão que faz tombar de chofre no meio do público a personalidade do organizador literário desta galeria, emprega a emboscada como único meio de trazer a lume esse perfil, o mais refractário às seduções de notoriedade. Apesar de coxear um pouco, por defeito físico, como Lord Byron, Guilherme de Azevedo é dos raros escritores que na imprensa caminha pelo seu pé. A maior parte dos jornalistas seus confrades andam pela mão, amparados às ideias e ao estilo dos outros.
Temos seguramente no país uns quinhentos ou seiscentos indivíduos perfeitamente habilitados para alinharem quotidianamente ao longo de uma gazeta três ou quatro colunas de frases aproximadamente correctas.
Cumpre unicamente advertir que essas frases nem exprimem as ideias nem representam os processos estéticos dos sujeitos que se encarregam de as reduir ao sinal gráfico. São as frases que toda a gente respira njo espaço e que se apanham no ar como moscas. A prosa expressiva, artística, pessoal, dando a imagem viva de uma ideia através da força de um temperamento, essa é apenas mantida nos jornais portugueses por uns quatro ou cinco escritores originais, que vão adiante; e todos os demais, consciente ou inconscientemente, os seguem.
Guilherme de Azevedo é um desses chefes de fila. Ele possui em alto grau as grandes qualidades do jornalista moderno: – a coragem da opinião, a fina sensibilidade mental perante a orientação científica do seu tempo, a suficiente dose de irreverência por todas as expressões da autoridade, e o poder da forma; – não da velha forma clássica dos compêndios de eloquência, mas da forma irregular e individual que mete a alma do artista na expressão da sua ideia e transforma o vocábulo inerte na palavra alada de que fala Homero.
(Continua)
(Adaptação da biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
Este texto já saiu no Estrolabio
Um Café na Internet
Na segunda metade do século XIX, Santarém, apesar da sua proximidade da capital, era uma cidade tipicamente provinciana. A visão de uma vila adormecida, bucólica, como a que Almeida Garrett nos descreveu em Viagens na Minha Terra, não sofrera alterações de monta nas poucas décadas que entretanto tinham decorrido. A cidade portuguesa que aparte Lisboa segundo o polígrafo Alberto de Almeida Pimentel, mereceu dos estudiosos de arte um mais elevado número de obras, a chamada capital do gótico. Bela, mas entediante. Bucolismo e tédio que os poderes vigentes procuram manter num sono vigiado por um «bom senso» de uma elite burguesa que tudo controla em termos económicos, políticos e sociais. Nada escapava à abrangente visão desse grupo dominante, muito menos as manifestações culturais.
Guilherme de Azevedo nasceu no seio desse escol, filho de um escrivão de Fazenda, o senhor Felício José Chaves, que desejava que o filho lhe seguisse as pisadas e herdasse o prestigioso, honrado cargo. Guilherme tinha outro projecto de vida. Quando termina o ensino liceal, pretendeu prosseguir os estudos na Universidade, em Coimbra. Desejava vir a ser escritor, jornalista... Mas o pai solicitou aos superiores que o cargo fosse herdado pelo filho. Guilherme vê-se, pois, escrivão de Fazenda, mergulhado num abominável pesadelo burocrático. Sobre a luta entre o que Guilherme quer ser e aquilo que seu pai o obrigou a ser, ouçamos Fialho de Almeida em Os Gatos (Lisboa, 1889-1894): «Chegado à adolescência, e vendo o pai que o seu varão dificilmente conseguiria trepar a bacharel, porque era cábula, e não havia meio de reagir sobre um organismo flébil e queixoso, resolveu-se fazê-lo interromper o curso dos liceus e integrá-lo na burguesia lugareja.» [...] «Como a família gozasse em Santarém duma pequena mediania, Guilherme com os proventos do emprego, aliás rendosos, ali viveu sem maiores faltas de conforto, e até desenvolvendo entre o dandismo da terra, umas galhardias de trajo, que miserabilizavam mais ainda, a sua pobre carcaça de aleijado. Na terra, era antipático, chamavam-lhe o diabo coxo.» [...] «Ele não podia consolar-se de ser defeituoso, e sem se queixar, evitava todos os ricochetes de palestra donde pudesse sair alusão à sua deplorabilíssima invalidez.»
Pertencem a este atormentado período da sua juventude, em que mitiga as agruras do quotidiano com ávidas, apressadas, leituras de Baudelaire, de Leconte de Lisle, de Victor Hugo, os primeiros versos do Almanaque de Lembranças (1864) e a recolha de poemas publicados em jornais e revistas e a que dá o título de Aparições (1867). Com o jornalista e escritor Tomás Lino de Assunção e com o numismata e compositor musical José Ferreira Braga, funda em 1871 O Alfageme, jornal onde colabora escrevendo crónicas satíricas e humorísticas. É esta inspirada veia satírica que o levará, anos depois, a ser convidado por Bordalo para dirigir literariamente o António Maria. Mas estamos agora a falar de O Alfageme, onde, entre outras coisas, tem a ousadia de fazer o elogio da Comuna de Paris, o governo insurreccional, constituído por socialistas e por operários, que, perante o quadro de miséria vivido pela população, entre Março e Maio de 1871, gere a capital francesa, numa atitude de repúdio pela humilhante capitulação do Estado após o cerco dos exércitos prussianos.
Esta corajosa posição custa-lhe a devolução da folha pelos seus escassos assinantes, a extinção do Alfageme que, nascido em 6 de Agosto, falece a 19 de Outubro, chegado o seu sexto número, vale-lhe a cruel alcunha de diabo coxo, aludindo ao suposto espírito satânico do poeta e, sobretudo, à sua deficiência física motivada pelo acidente na infância e pelo tumor que daí adveio. À pequena escala do burgo, o escândalo é clamoroso. Mesmo os poucos amigos que ainda tinha na cidade, se afastam. Santarém é demasiado pequena para conter o sol de revolta e de inconformismo que arde no peito de Guilherme. Porém, em contrapartida, são também estas posições ousadas que lhe valem a aceitação por parte dos escritores da chamada Geração de 70. Está com 35 anos. Entretanto, seu pai morre. Converte o parco património herdado em moeda, encerra a sua odiada carreira de escrivão e transfere a residência para Lisboa. Um novo ciclo da sua vida - o último e o mais importante - vai começar. «Estou deveras fatigado de Santarém; vou-me embora.», dissera Garrett. Guilherme subscreve.
Ainda neste agitado ano de 1871 publicara Radiações da Noite, em cujo prefácio manifesta já o desejo de dar um novo rumo à sua escrita, pois anuncia-se como «iconoclasta-inovador» [...] «afirmando-se com mais veemência e mais calor a palavra da nova fé social e democrática». Guilherme de Azevedo ganha fama, começa a ser falado para lá das muralhas de Santarém. Não será por mero acaso que o vemos, em Maio desse mesmo ano, entre intelectuais da dimensão de Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Augusto Soromenho, Adolfo Coelho, Jaime Batalha Reis e outros, no Grupo Cultural do Cenáculo, promotor das Conferências do Casino Lisbonense (que se projectava realizar de 22 de Maio a 19 de Junho de 1871), destinadas a, com realismo, «tratar as grandes questões contemporâneas, religiosas, políticas, sociais, literárias e científicas...» Como se vê, todo um programa de regeneração da anquilosada sociedade portuguesa. O Governo, porém, cancela a realização das Conferências. Afinal, nem só em Santarém as autoridades zelam por que o sono não seja interrompido.
(Continua)
(Adaptação da biografia publicada pelo autor em "Vidas Lusófonas")
«A tribuna actual, diz-se na brochura, reserva-se para ocasiões especiais, como o juramento do cargo de Lehendakari e de Deputado Geral de Biscaia.
Uma placa recorda as palavras utilizadas em 1936 por José Antonio Agirre, primeiro Lehendakari, que se converteram em fórmula protocolária para realizar o referido juramento.» São estas as palavras:
«Inclinado perante Deus, em pé sobre a terra basca em memória dos antepassados sob a Árvore de Gernika juro desempenhar fielmente o meu cargo (Jaungoikuaren aurrean apalik euzko-lur zutunik asabearen gomutaz Gernika’ko zuaizpian nere aginduba ondo betetzia zin dagit)»
Este juramento passou a repetir-se sempre que havia uma tomada de posse por todos os Lehendakaris (Presidentes do Governo Basco), sobre um crucifixo e uma Bíblia em euskera. Entretanto, acrescentou-se, antes da palavra «juro», a frase «perante vós, representantes do povo». Em 7 de
Maio de 2009, tomou posse o primeiro Lehendakari não nacionalista, o socialista Patxi López, marcando a distância, sempre salutar, entre o Governo do País Basco e a Igreja, modificando o juramento tradicional para:
«De pé, em terra basca, sob a Árvore de Gernika, perante vós representantes da cidadania basca, em memória dos antepassados, prometo, no respeito pela Lei, desempenhar fielmente o meu cargo de lehendakari»
Mas não se limitou à alteração do juramento, dado que o fez substituindo o crucifixo e a Bíblia pela Constituição espanhola e pelo Estatuto de Gernika.
Actualmente, embora o juramento represente o pacto entre o «lehendakari» eleito e a lei, comprometendo-se a respeitá-la e a cumpri-la, a verdade é que o juramento e o cargo foram referendados pela soberania popular. Sobre o Juramento em Gernika, escreve Imanol Villa: «…,muito possivelmente, aqueles que escreveram o juramento pronunciado por José Antonio Aguirre em 1936 desenharam uma fórmula de respeito e evocação ao passado –‘em memória dos antepassados’- que era mais um acto de cortesia e reconhecimento pela História, que uma maneira de recuperar antigas lealdades e pactos.»
Sobre a Casa de Juntas de Gernika, há ainda a referir a «Sala do Vitral», que resultou da transformação em 1964 do pátio descoberto do projecto inicial num pequeno museu dedicado à História de Biscaia, onde a nossa atenção logo se dirige à cobertura do espaço, o referido vitral (v., acima, as fotografias da sala), instalado em 1985, que mostra graficamente o simbolismo da árvore como ponto de encontro dos diferentes municípios de Biscaia.
Falar demoradamente sobre o que será o maior símbolo do País Basco e não falar do desejo de muitos em que se constitua como país independente, poderá parecer estranho, sobretudo para alguns dos nossos amigos do blogue. Lembro, no entanto, que sou defensor de uma Europa federal, agora mais convicto com a crise em que vivemos.
Lembro também um meu comentário em que remetia a questão para a vontade do povo basco, a quem caberá a decisão, desde que utilizados processos democráticos, ou seja, não sou apoiante de processos terroristas, normalmente originando uma maioria de vítimas inocentes.
Nesta passagem pelo País Basco, lembro um episódio curioso. Saíamos de um dos muitos e bons restaurantes existentes na parte velha de San
Sebastián quando, de repente, ouvimos gritos de alegria e pessoas a saltar na rua. Curiosos, logo verificámos que se jogava o Real Madrid – Barcelona e o clube catalão acabava de marcar o primeiro golo, enchendo de satisfação os bascos presentes, deixando eu a interpretação do facto aos leitores. Mas, dentro do respeito pelos valores democráticos numa sociedade livre, para a qual ainda muito devemos trabalhar para conseguir, registo com muita alegria a admissão da candidatura da Bildu pelo Tribunal Constitucional Espanhol, tendo sido o segundo partido mais votado no País Basco nas eleições municipais ontem realizadas em Espanha, ultrapassando os nacionalistas do PNV, obtendo mesmo a maioria em San Sebastián, elegendo no total mais de 1100 vereadores. Em Bilbao ganhou o PNV.
Terá sido bom para o País Basco? E para a ETA? Foi, com certeza, um bom princípio para a defesa democrática dos interesses dos bascos.
Convém também reflectirmos um pouco sobre o Bildu, nomeadamente sobre as forças que o constituíram. O novo partido congrega as forças do Batasuna (ou os seus herdeiros), o Euska Alkartasuna (EA) e a Alternativa (os dissidentes dos comunistas bascos), ou seja, a força predominante é claramente a esquerda basca próxima da ETA, dado que tanto o EA e a Alternativa são formações que hoje deterão pouca força. Presumo também que muitos dos votantes no Bildu eram ou votantes no PNV ou mesmo nos socialistas do lehendakari Patxi López, cujo executivo tem tido o apoio dos nacionalistas do PNV, partido este que também se comprometeu a apoiar o Governo de Zapatero. Como vai ser agora?
Vamos ter de seguir com muita atenção a evolução no terreno do novo quadro político no País Basco. Eu vou procurar fazê-lo!
Pedindo a argonautas e a leitores que nos enviem poemas para o Primeiro de Maio, continuamos hoje a publicar obras de autores consagrados. Hoje apresentamos um poema de Egito Gonçalves (1920-2001)
Um dia de Maio
Recordo esse momento, esse
terrível entusiasmo. Eram
milhares, dezenas de milhar
e todos se esticavam, todos
tentavam ver os carros, sentiam
o solene momento, gritavam
da alegria mais pura. Era
um som de pólvora liberta,
uma explosão de esperança,
de loucura, de vida – sim,
por uma vez, a vida -. Lembro
esse gosto de pão, o corte
brusco na inércia, o fogo
da presença em oferenda,
a compressão da ira vinculada
agora a um caminho. Hoje
contemplo esta praça, estas ruas
que a tristeza semeou
de novo e espero a multidão
que uma vez aqui floresceu.
Confio em que virá. O vento
fala já nos seus passos, faz
da espera alimento; o ar
vai encher-se de vozes, vai
ver-nos todos juntos, livres,
respirando através das mãos
unidas, através do ardente
fluido de alegria que liberta
as raízes do canto estagnado.
Durante o mês de Maio, "Um Café na Internet" , sempre neste horário das oito horas, publicará poemas relacionados com o trabalho. Convidamos todos os argonautas e visitantes a enviarem-nos poemas sobre este tema - o trabalho, os trabalhadores. Hoje publicamos um poema de Manuel da Fonseca:
Manuel da Fonseca (1911-1993)
Coro dos empregados da câmara
É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...
... O Sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente práqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias
fazendo letra bonita.
Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente práqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando,
bocejando.
Das várias visitas ao País Basco sempre privilegiámos as principais cidades e, já que estamos sempre com pressa, as «autopistas» e as «autovías», aqui sempre com pagamento, o que não deixa de constituir uma diferença com as restantes autonomias de Espanha.
Desta vez, com prévio acordo familiar, resolvemos evitar, sempre que possível, as melhores estradas e privilegiando as pequenas localidades, com uma
incursão à parte francesa do País Basco, nomeadamente a Biarritz e a St-Jean-e-Luz, belas cidades turísticas, mas sem a beleza de outras terras ao longo da costa do País Basco em Espanha –quase 200 km de uma estrada maravilhosa, com belas enseadas e baías, que se opõem às belíssimas
serras arborizadas- e de outras mais interiores, como no Parque Natural de Aizkorri-Aratz, percorrendo cerca de 9 km de uma estrada de montanha que vai de Oñati (Guipúzcoa) até ao Santuário de Arantzazu, por baixo do Pico de Aitzgorri.
Numa das incursões pelo interior do país, chegámos por fim a Gernika, a cidade que sempre pretendemos visitar, o que implicava desvio das auto-estradas e que, sobretudo por isso, ia ficando para uma próxima oportunidade.
O bombardeamento dos nazis, pela Legião Condor, iniciado às 16H45 de 26 de Abril de 1937, tornou Gernika universalmente célebre, celebridade
reforçada depois pelo quadro de Pablo Picasso, hoje exposto no Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid.
O quadro de Picasso, em cores branco, preto e várias tonalidades de cinza, mostra bem o que terá sido o desespero da população de Gernika.
Gernika era uma pequena cidade basca sem qualquer valor estratégico. Em menos de 3 horas, a aviação alemã nazi, ao serviço da causa franquista, matou 25% da população, 1,6 mil habitantes e destruiu a cidade, tornando-se no primeiro objectivo civil e no primeiro banho de sangue de uma população indefesa, reunida para as suas habituais compras em dia de feira, prelúdio do que viriam a ser os bombardeamentos de grandes cidades na II Guerra Mundial. (1)
(Continua)
Um Café na Internet
Hoje, segundo dizem, é o aniversário do inventor do fecho éclair - Sobre o tema lembramos o poema de António Gedeão.
Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras
rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.
Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.
Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.
Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
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João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
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Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
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