Em Bali, na Indonésia, o Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) considerou ontem, o fado como Património Imaterial da Humanidade. É uma boa notícia, uma vitória da cultura portuguesa, vitória modesta, mas assinalável. Dentro do pequeno universo do nosso blogue, tentámos demonstrar que o fado não é um género exclusivamente lisboeta, é cantado em todo o País e em todo o mundo. Só a futebolização crescente da vida nacional explica certas reacções portuenses de repúdio e desvalorização. Como se o “Porto Sentido”, do Rui Veloso e do Carlos Tê, uma das mais belas canções portuguesas do século XX, não fosse um fado – só não o será porque os autores não o designaram como tal.
Porém não sabemos até que ponto esta decisão nos irá favorecer – a UNESCO é o braço cultural das Nações Unidas, mas é um membro esclerosado que já esteve para fechar as portas – O fado, o tango, o flamenco, o samba, são bem mais sólidos e duradouros do que a UNESCO. E dizemos isto com mágoa, pois a UNESCO é talvez o mais honrado organismo da ONU.
Nos anos 60, o boletim da UNESCO (em francês ou inglês) era uma fonte de notícias importante. A imprensa regional, vigiada pela Censura, transcrevia textos do boletim. Os censores, muitos deles coronéis reformados, ficavam baralhados, sem ousar cortar textos oriundos de uma agência das Nações Unidas. Os editoriais do director-geral, René Maheu (1905-1975) eram geralmente muito bem escritos e davam excelentes peças para as nossas páginas culturais (os blogues da época).
Pois a UNESCO está em perigo de vida. A entrada da Palestina foi, no fim de Outubro, aprovada por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções (Portugal absteve-se) e os Estados Unidos não gostaram. Como represália imediata foi suspenso o pagamento de 60 milhões de dólares que estavam agendados para ser pagos em Novembro pelo governo de Washington. A ajuda anual dos Estados Unidos, cerca de 70 milhões de dólares, representa 22% do orçamento da organização.
A UNESCO foi a primeira agência da ONU a reconhecer o Estado Palestiniano, que se tornou o 195° membro da entidade. Brasil, China, Rússia, Índia e França estão entre os países que votaram a favor. Estados Unidos, Alemanha e Canadá opuseram-se ao ingresso da Palestina como membro de pleno direito. A Itália e a Grã-Bretanha e Portugal abstiveram-se. Os Estados Unidos declararam que a adesão da Palestina é "prematura e contraproducente"."Essa ação realizada hoje complica a nossa capacidade de apoiar os programas da UNESCO", afirmou o embaixador americano na organização, David Killion. Duas leis americanas, do início dos anos 90, proíbem que o governo desembolse recursos em organizações da ONU que reconhecerem entidades não reconhecidas internacionalmente e que tenham em seus quadros de funcionários membros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
Não é a primeira vez que os Estados Unidos suspendem a ajuda à UNESCO, pois boicotaram a instituição durante 18 anos, entre 1985 e 2003, alegando problemas de gestão da agência da ONU. O governo de Israel, que também anunciou cortar sua ajuda financeira, afirma que a iniciativa irá prejudicar as negociações de paz.
Na verdade, a vitória diplomática dos palestinianos na UNESCO poderá abrir caminho para o reconhecimento do Estado pelo Conselho de Segurança da ONU, conforme pedido apresentado em Setembro pelo presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, e que está sendo discutido.
O que tem isto a ver com o fado? Apenas deixar duas ideias: é uma honra para a nossa cultura ver uma expressão popular portuguesa ser reconhecida por um organismo como a UNESCO; porém esta agência das Nações Unidas, que tem actividades mais importantes do que a de organizar listas de patrimónios imateriais, está em risco de ela própria se imaterializar.

Vamos conhecer ainda hoje ou na madrugada de amanhã a decisão do comité da UNESCO sobre a candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade. Temos dito por diversas vezes que a decisão tem uma importância relativa - nada de transcendente ocorrerá se o parecer for favorável. Se for desfavorável, também nada mudará.
No entanto, seria interessante e justo que a UNESCO integrasse o fado numa lista onde o tango já entrou.
Enquanto esperamos pela decisão, vamos ouvir três fadistas... japonesas:
Começamos por Machico Kousuki em "Canção do Mar", de Frederico de Brito e Ferrer Trindade:
Segue-se Naomi Chiaki, talvez a mais conhecida cantadeira nipónica, cantando um fado japonês.
E por agora terminamos com a fadista Yoko cantando "Maria Lisboa" no Zip Zip em Alfama
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
Maria Inês Aguiar
Mário Nuti
Mário Pais de Oliveira (padre de Macieira da Lixa)
Moisés Cayetano Rosado
Octopus
Paulo Ferreira da Cunha
Paulo Rato
Paulo Serra
Pedro Godinho
Pedro de Pezarat Correia
Raúl Iturra
Roberto Vecchi
Rui de Oliveira
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