Considera-se violência doméstica “qualquer acto, conduta ou omissão que sirva para infligir, reiteradamente e com intensidade, sofrimentos físicos, sexuais, mentais ou económicos, de modo directo ou indirecto (por meio de ameaças, enganos, coacção ou qualquer outro meio) a qualquer pessoa que habite no mesmo agregado doméstico privado (pessoas – crianças, jovens, mulheres adultas, homens adultos ou idosos – a viver em alojamento comum) ou que, não habitando no mesmo agregado doméstico privado que o agente da violência, seja cônjuge ou companheiro marital ou ex-cônjuge ou ex-companheiro marital” (Machado e Gonçalves, 2003).
Através da realização do inquérito nacional à violência contra as mulheres em Portugal, N. Lourenço, M. Lisboa e E. Pais, chegaram à conclusão que é a casa “o espaço privilegiado da violência contra as mulheres e a violência ser transversal a todas as classes sociais, diferenciando-se contudo quando analisada segundo as suas formas/tipos de manifestação” (“Homicídio conjugal em Portugal, 1998).
Só a partir dos anos 60/70, através dos movimentos feministas estes factos começaram a ser denunciados. Estudos mostram ainda que “a violência é o resultado da existência de uma ordem hierárquica, ou seja, trata-se de alguém que julga que os outros não são tão importantes como ele próprio e que esta é uma atitude que abre a porta à violência nas relações” (Machado e Gonçalves, 2003)
Um estudo que a UMAR apresentou, a partir de um levantamento, cuja fonte foi a imprensa escrita em Portugal, a partir de notícias que aparecem na imprensa sobre violência doméstica no nosso país, em especial os dados referentes ao homicídio conjugal. Dos 50 casos apontados, 32 assassínios foram efectuados por maridos ou companheiros no momento da morte e 4 ex-maridos, companheiros ou namorados. A isto se pode acrescentar um caso efectuado por um amante, outro por um genro, outro por um irmão e de 4 pelos próprios filhos.
A UMAR apresentou os dados do Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR relativamente ao homicídio e tentativas de homicídio de mulheres por violência de género, concluindo que, apesar de todos os avanços da legislação portuguesa, este tipo de crime não está a diminuir. 40 homicídios em 2004, 35 em 2005, 36 em 2006, 22 em 2007, 46 em 2008, 29 em 2009 e 39 em 2010 mostram que não estamos a ser eficazes no combate a este tipo extremado de violência doméstica.
A UMAR reitera a necessidade de reforçar as medidas de polícia, avaliação de risco e aplicação de medidas de coacção, no sentido de melhor preservar a segurança e protecção das vítimas. Reitera igualmente a pertinência para a tipificação autónoma do crime de homicídio por violência de género”.
Da análise efectuada pelo Observatório de Mulheres Assassinadas verifica-se que, na maioria das situações, existiam antecedentes relativamente ao crime de violência doméstica registando-se mesmo processos-crime em curso. É também de reportar que o conhecimento da situação de violência é, na maioria das vezes do conhecimento da comunidade, e que em algumas situações esta se mobilizou no sentido da denúncia e apoio. Contudo, o sistema não se mostrou eficaz acabando por se tornar fatal ou quase fatal a violência até ai exercida.
A UMAR salienta o papel que os média têm prosseguido no registo da informação nesta área contribuindo, para o aumento do conhecimento sobre o homicídio na conjugalidade e relações de intimidade e sua caracterização.”
VI
Desenvolvemos um estudo correlacional de verificação de modelo teórico com uma amostra de 183 participantes (N = 183), no qual, de acordo com o nosso objectivo e expectativas, observámos que o cavalheirismo paternalista, o amor romântico e o sexismo hostil predizem significativamente a aceitação dos mitos da violência doméstica. Com carácter exploratório, observámos ainda que a religiosidade prediz significativamente o sexismo benevolente e o cavalheirismo paternalista. O modelo apresenta um bom ajustamento com um χ2 / 5 = 2.944, p = .709, GFI = .99, CFI = 1.00, RMSEA = .000.
Segundo o sexismo ambivalente, quando uma mulher se ajusta e se adapta aos papéis tradicionais de esposa e mãe, merece a veneração e sacrifício do seu homem (Valor-Segura et al., 2008). Esta crença expressa o sexismo benevolente e justifica o sexismo hostil quando a mulher não corresponde ao papel tradicional esperado (Viki et al., 2003). Tal como esta crença, a sociedade está repleta de ideologias que servem de guia e desculpa para o comportamento do indivíduo, legitimando e contribuindo para que homens e mulheres adoptem certos esquemas biológicos e condutas a respeito dos papéis dos géneros (Formiga, 2002). Por outro lado, é possível que as crenças sexistas, hostis e benevolentes, influenciem a sociedade na percepção sobre a violência doméstica (Valor-Segura et al., 2008). Observámos no nosso estudo que, de facto, o sexismo hostil, explicado pelo sexismo benevolente e pelo cavalheirismo paternalista, prediz significativamente a aceitação dos mitos da violência doméstica, por outras palavras, quanto mais sexista uma pessoa é mais deturpada é a sua percepção sobre a violência doméstica.
Como vimos, as atitudes sexistas justifica e reforçam a desigualdade entre os géneros e são expressas de forma ambivalente, isto é, de duas formas distintas, por meio de atitudes tanto hostis como benévolas (Formiga, 2002). No combate ao sexismo e discriminação de género, surgiu na sociedade uma nova forma de sexismo - o neosexismo ou sexismo moderno (Moya & Expósito, 2001; Tougas et al. 2005; Formiga et al. 2005). Esta nova forma de sexismo manifesta-se de forma subtil, discretamente nas relações íntimas e intergrupais, negando a sua existência e mantendo uma atitude de conformidade positiva (Formiga et al. 2005). Ou seja, os sexistas rejeitam agora que o são. Apesar dos estudos sobre as novas formas de sexismo contarem já com cerca de duas décadas, as investigações têm ainda um caminho longo a percorrer, sendo que têm incidido especialmente no mundo anglo-saxónico (Moya & Expósito, 2001).
O objectivo do nosso estudo foi primordialmente observar a relação entre as variáveis sexismo ambivalente, amor romântico e cavalheirismo paternalista, e observar os preditores da aceitação dos mitos da violência doméstica, ou seja, o sexismo hostil, cavalheirismo paternalista e amor romântico. Contudo, outros factores podem estar influenciando a aceitação dos mitos da violência doméstica e das variáveis preditoras, pelo que devem ser, no futuro, desenvolvidas investigações nesse sentido.
Os valores culturais, por exemplo, representam o resultado da cultura, da sociedade e da personalidade, apresentando o poder de influenciar atitudes e comportamentos (Rokeach, 1973 cit. in Belo et al., 2005). Considerando o vínculo do sexismo com o contexto cultural, é possível que os valores reúnam elementos determinantes para se compreender a manifestação deste tipo de preconceito (Belo et al., 2005). Segundo o modelo de Hofstede (1980, cit. in Pina e Cunha & Rego, 2009), Portugal caracteriza-se por ser colectivista (mais do que individualista) e com maior distância ao poder, por conseguinte, as categorizações sociais têm um peso elevado na percepção social, logo em toda a diferenciação intergrupal.
O nosso estudo foi desenvolvido em Portugal e os participantes considerados foram apenas a população nascida em Portugal. A maior parte da nossa amostra foi recolhida no Algarve (43,2%), uma zona que vive em muito do turismo, e por isso habituada à presença de culturas diferentes. Julgamos que seria pertinente alargar este estudo a outras regiões do país de modo a comparar resultados. Portugal é considerado um país ainda com alguma dimensão conservadora, onde estes estereótipos mais se acentuam Furnham (1999, cit. in Pereira & Veríssimo, 2008). Países mais conservadores, laicos (há pouco tempo), de valores colectivistas como Portugal, só há relativamente pouco tempo é que tem vindo a manifestar interesse científico e a considerar o fenómeno de responsabilidade social. A inexistência de escalas (ou traduções publicadas) adaptadas à população portuguesa para o estudo do fenómeno ilustra bem a diferença entre Portugal e outros países no que respeita à preocupação com esta temática.
Observámos diferenças significativas quanto ao género dos participantes no nosso estudo. A nossa amostra contou com uma maioria do género feminino entre os participantes. Em relação às variáveis habilitações literárias e rendimentos também foram observadas diferenças significativas na nossa amostra (p ≤ .000), traduzindo-se numa amostra que evidencia uma baixo nível socioeconómico.
Outro aspecto importante, decorrente da nossa análise exploratória é o tema da religião. Não foi nosso objectivo avaliar a relação das diversas religiões perante a aceitação dos mitos da violência doméstica, contudo, o grau de religiosidade foi considerado na investigação e permitiu observar a sua relação com o sexismo benevolente e cavalheirismo paternalista. Porém, será necessário um estudo que aprofunde esta relação e tome em consideração não apenas o grau de religiosidade mas também qual a religião do participante. A religião é uma das dimensões mais importantes da pessoa humana, influenciando todo o sentido da vida e da morte, o modo como se encara o mundo, as relações, a família, as alegrias e o sofrimento, a tolerância ou o racismo, a política e o trabalho (Oliveira, 2000, cit. in Silva, 2008). Também nas relações amorosas, Garcia e Maciel (2008, cit. in Andrade & Garcia, 2009a) afirmam que o envolvimento romântico é influenciado pela religião, podendo esta contribuir de forma positiva ou negativa para a satisfação conjugal e para o processo de escolha do companheiro.
V
À volta do amor…
«A pessoa é empurrada pela atracção por alguém especial, sente torrentes de emoção e de desejo sexual, torna-se desajeitada e preocupada, tenta aproximar-se da outra pessoa. Idealmente, a outra rapidamente começa a sentir o mesmo. Algumas pessoas preferem imaginar amor à primeira vista, enquanto outras gozam a gradual escalada da atracção. A presença do outro traz alegria e excitação. O casal passa cada vez mais tempo em conjunto, partilhando pensamentos e sentimentos, descurando outras preocupações e relações, e o seu mundo é completamente transformado pela descoberta desta necessidade imperiosa e por esta felicidade dominante. No auge desta experiência, a atenção está sobretudo focada no outro, e descobrem uma relação íntima dificilmente imaginável com outra pessoa. Celebram o seu amor através da união sexual e do compromisso pessoal mútuo. Tal é o sonho do amor…» (Baumeister e Wotman, 1992 cit. in Narciso & Ribeiro, 2009).
Sonho que, para se manter, diz Pasini (1992) exige na relação que o outro seja uma pessoa singularmente importante, ou seja, admirado pelo outro; que exista generosidade, não se contabiliza o que se dá e o que se recebe; a relação dos amantes é um tempo de desenvolvimento e crescimento, sobretudo com confiança e estima.
Assim, a felicidade conjugal só é possível se existir estima, amizade, admiração, conhecimento mútuo profundo, respeito mútuo, prazer na companhia do outro, expressão dos afectos…e é precisamente a estima que permite a continuidade da paixão (Gottman e Silver, 2000).
Stendhal, nome literário de Henri-Marie Beyle (1783-1842), reputado escritor francês, ficou conhecido pela delicadeza na análise dos sentimentos dos seus personagens. Há mais de cento e setenta anos parecia afirmar que a paixão não desaparecia. Descreveu-a como um processo em sete estádios: Admiração – encontro com o outro e a atracção física e psicológica por ele; Antecipação – a imaginação de estar com o outro e dos prazeres daí decorrentes; Esperança – a reciprocidade desejada e esperada; o Nascimento do Amor instigado pela Esperança; Primeira Cristalização – a idealização do outro e a descoberta progressiva de novas perfeições gerando o delírio de ser amado por ele, e, simultaneamente, a incerteza e o medo de ser abandonado; Dúvida – nascida da incerteza e do terror do abandono; e Segunda Cristalização - após a dúvida, a confirmação de que se é amado pelo outro. Um momento de redescoberta do outro, de dúvida novamente e a busca por provas de amor. A oscilação entre certezas e dúvidas: «este caminho que toca por um lado, a borda extrema de um terrível precipício e, por outro lado, a perfeita felicidade, é o que dá tanta superioridade à Segunda cristalização sobre a primeira (Stendhal, 1978, p.14 cit. in Narciso & Ribeiro, 2009).
«O amor é como a febre, nasce e extingue-se sem que a vontade desempenhe qualquer papel.» (Stendhal in Do Amor).
(Continuação)
Príncipe encantado – desencantado
«És na verdade um mundo, ó Roma; mas sem o Amor
O mundo não seria mundo, e Roma não seria Roma.»
(Goethe, W. cit. in Barrento, 1998)
Descrevemos anteriormente, ainda que de forma sucinta, as variáveis preditoras sexismo ambivalente e cavalheirismo, bem como, procurámos exemplificar alguns dos mitos da violência doméstica e a sua aceitação.
Uma outra variável observada nas relações íntimas é o amor romântico (Narciso & Ribeiro, 2009). Isto significa que quanto mais romântica uma pessoa é, maior será a sua aceitação dos mitos da violência doméstica (Guerreiro, A.A. et al., 2011).
Vejamos então algumas das teorias do amor romântico mais retratadas na literatura, sendo que o que se pode afirmar consensualmente é que as relações românticas fazem parte de um processo natural da vida da maioria das pessoas e é um elemento comum em diferentes culturas, sociedades e momentos da História (Hatfield, Rapson & Martel, 2007 cit. in Andrade, 2009ª).
O amor romântico é definido por Branden (1988, cit. in Narciso & Ribeiro, 2009) como «uma apaixonada vinculação espiritual – emocional – sexual entre duas pessoas que reflecte uma elevada estima pelo valor de cada uma». O autor defende que para se amar romanticamente é necessário existir sobretudo admiração mútua. É indispensável uma vinculação profundamente apaixonada, afinidade espiritual entre os amantes, mutualidade e partilha ao nível da própria filosofia de vida. O amor romântico exige assim, um grande envolvimento emocional e uma forte atracção sexual. Para Branden para que se possa falar em amor romântico, é necessário que todos estes ingredientes estejam presentes na relação amorosa.
Por outro lado, a teoria triangular do amor de Sternberg sugere que o amor romântico é constituído por três componentes que formam simbolicamente um triângulo: intimidade, paixão e decisão / compromisso (Sternberg, 1997). A intimidade refere-se aos sentimentos de proximidade e aos laços emocionais que ligam o casal. A paixão é o conjunto de impulsos que levam ao romance, através da atracção física e concretização do acto sexual. A decisão / compromisso diz respeito à decisão de que se ama o outro, logo existe o compromisso de manter esse amor. De acordo com o autor, só podemos falar em amor romântico quando este triângulo é espelhado na relação.
Para Solomon (1990) o amor romântico é um processo em movimento (jamais passivo), em desenvolvimento, criação mútua e criação do si. Não o próprio si, nem exclusivamente o si do outro, mas sim um si partilhado.
Outra teoria é a teoria do apego e do amor romântico de Hazan e Shaver (1987, cit. in Andrade, 2009). De acordo com os autores, as pessoas têm diferentes orientações e histórias de vinculação na infância e precisamente por isso possuem diferentes crenças acerca do amor romântico. Bowlby (1988, cit in. Paiva & Figueiredo, 2003) acredita que as experiências vividas na infância são relevantes para a construção do self e na estruturação do mesmo e que os modelos internos dinâmicos então construídos vêm a manifestar-se na complexidade das relações interpessoais, íntimas estabelecidas mais tarde, na idade adulta.
Unânime é que de fato, o amor romântico produz um forte impacto nas relações íntimas e interpessoais. De acordo com Narciso e Ribeiro (2009), o amor romântico não existe apenas no início das relações, ele continua ao longo da vida das relações e é essencial para a construção de uma identidade partilhada, para os níveis de satisfação do casal e para a estabilidade e harmonia conjugal (Narciso e Ribeiro 2009).
Deste modo, o amor romântico é essencial para a felicidade das pessoas e contribui para elevar os níveis de bem-estar e satisfação dos casais. Contudo, as pessoas trazem para a relação as suas dúvidas, medos, inseguranças, entre outros problemas, o que pode realmente causar desilusão, conflito e desencantamento (Branden, 1988 cit. in Winter et al. 2008). De acordo com vários autores (e.g. Solomon, 1990), para existir um “nós” saudável, deve existir um “ele” e um “ela” independentes.
As consequências negativas da valorização do amor romântico, assim como do cavalheirismo paternalista patente no sexismo ambivalente, traduzem-se na aceitação dos mitos da violência doméstica (Giger et al., 2011) o que, por seu turno dá sustentabilidade à existência da própria violência doméstica.
«Ele não é ciumento, possessivo…apenas me ama loucamente…»
III
As variáveis preditoras da aceitação dos mitos da violência doméstica
Vimos que os mitos da violência doméstica são crenças falsas, infelizmente comuns, usadas para minimizar, tolerar, negar ou justificar a existência de violência doméstica (Peters, 2003). Alguns estudos (e.g. Guerreiro, A.A. et al. 2011; Giger et al., 2011) observaram que o sexismo ambivalente, o cavalheirismo paternalista e o amor romântico predizem significativamente a aceitação dos mitos da violência doméstica.
Segundo o sexismo ambivalente, quando uma mulher se ajusta e se adapta aos papéis tradicionais de esposa e mãe, merece a veneração e sacrifício do seu homem (Valor-Segura et al., 2008). Esta crença expressa o sexismo benevolente e justifica o sexismo hostil quando a mulher não corresponde ao papel tradicional esperado (Viki et al., 2003). Tal como esta crença, a sociedade está repleta de ideologias que servem de guia e desculpa para o comportamento do indivíduo, legitimando e contribuindo para que homens e mulheres adoptem certos esquemas biológicos e condutas a respeito dos papéis dos géneros (Formiga, 2002). Por outro lado, é possível que as crenças sexistas, hostis e benevolentes, influenciem a sociedade na percepção sobre a violência doméstica (Valor-Segura et al., 2008).
No combate ao sexismo e discriminação de género, surgiu na sociedade uma nova forma de sexismo - o neosexismo ou sexismo moderno (Moya & Expósito, 2001; Tougas et al. 2005; Formiga et al. 2005). Esta nova forma de sexismo manifesta-se de forma subtil, discretamente nas relações íntimas e intergrupais, negando a sua existência e mantendo uma atitude de conformidade positiva (Formiga et al. 2005). Ou seja, os sexistas rejeitam agora que o são. Apesar dos estudos sobre as novas formas de sexismo contarem já com cerca de duas décadas, as investigações têm ainda um caminho longo a percorrer, sendo que têm incidido especialmente no mundo anglo-saxónico (Moya & Expósito, 2001).
Ditado popular: “Entre marido e mulher não se mete a colher”
Se uma cultura é tolerante, nega a sua existência e recorre a ditados populares de não responsabilidade social, é natural que a violência doméstica se mantenha. Só há relativamente pouco tempo, países como Portugal (mais conservadores, laicos há pouco tempo, colectivistas) se interessam cientificamente pelo estudo desta problemática, considerando o fenómeno como de responsabilidade social. Apesar de proibido por lei, o sexismo permanece na sociedade, em todo o mundo, deixando contudo, de se apresentar directamente como discriminação à mulher, mas assumindo formas subtis, designadamente através do sexismo moderno (e.g., Tougas et al., 2005). De acordo com o Artigo 13.º da Constituição Portuguesa «Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei», independentemente do género de cada um. Ao nível internacional, a Carta dos Direitos Fundamentais, consagra a igualdade de mulheres e homens (artigo 23º).
Intimamente ligado ao sexismo ambivalente, o cavalheirismo paternalista, através de atitudes gentis e atenciosas para com as mulheres, como por exemplo, abrir a porta para a mulher passar ou pagar a conta no restaurante, coloca todavia, restrições ao seu comportamento (Viki et al., 2003; Glick & Fiske, 2000), isto é, a mulher deve comportar-se de acordo com os papéis tradicionais esperados, como cuidar da casa e dos filhos e ter sobretudo um papel passivo na relação (Glick et al., 1997).
A verdade é que as mulheres estão sob risco de violência, principalmente por parte dos seus companheiros e a violência doméstica ocorre em todos os grupos socioeconómicos, desde os mais pobres aos mais ricos. Nas relações amorosas, a violência muitas vezes é multifacetada e tende a piorar com o tempo, sendo certo também que na maioria dos casos, os homens violentos não sofrem de doenças mentais. A violência psicológica e emocional é tão prejudicial quanto a física, sendo muitas vezes considerada pior, na experiência das mulheres (Heise, 1994). Considerando as graves implicações que a violência doméstica tem na saúde mental das vítimas, este é um fenómeno que merece todo o nosso empenho na continuação deste combate.
«Enquanto não compreendermos a motivação de um agressor que, durante os períodos de acalmia, continua a dizer-nos que nos ama, será difícil tomar uma decisão esclarecida que afectará o resto da nossa vida.» (Samson, 2010).
II
“Prefiro não ver” – Aceitar os mitos da violência doméstica
No início, uma relação amorosa vive marcada pelo romantismo (Samson, 2010), ou seja, nesta fase inicial o casal vive ao rubro o amor romântico, encontrando-se num estado de imaginação e idealização permanentes, sonham que viverão juntos e felizes para sempre. Neste período, os defeitos do outro são entendidos como qualidades e será especialmente propício aceitar os mitos da violência doméstica. Falamos por exemplo, de acreditar que «Ele não é ciumento, só me ama loucamente.» (Samson, 2010) ou «Se foi agressivo é porque perdeu a cabeça.»
De facto, todos nós já ouvimos dizer que o ser humano tem a tendência generalizada de tentar explicar o mundo que o rodeia. O tipo de atribuições que fazemos é de facto (pelo menos em parte) determinado por crenças que estão enraizadas na sociedade (Valor-Segura, Expósito & Moya, 2008). A literatura sobre violência de género mostra que as atribuições do fenómeno são muitas vezes influenciadas por mitos e estereótipos de género e por diferenças na percepção da violência doméstica por homens e mulheres. É possível que as crenças sexistas (hostis e benévolas) influenciem a sociedade na percepção sobre a violência doméstica (Valor-Segura, Expósito & Moya, 2008).
Vejamos então, alguns exemplos de mitos da violência doméstica: «A violência doméstica não afecta muita gente», ou seja, as pessoas tendem a negar a existência da violência doméstica, não a reconhecendo e desvalorizando a sua ocorrência; «Quando um homem é violento é porque perdeu o controlo do seu temperamento», justificando e tolerando deste modo comportamentos agressivos; «Se uma mulher continua a viver com um homem que lhe bate, então a culpa é dela se ele lhe bater outra vez», significa que as pessoas tendem a culpar a mulher que, por diversos motivos (por exemplo: medo, dependência económica, entre outros) permanece com o parceiro que a agride; «Fazer ciúmes a um homem é “estar a pedi-las”» (culpabiliza-se a mulher); «Os homens violentos perdem o controlo de tal maneira que não sabem aquilo que fazem», ou seja desresponsabiliza-se o homem (Peters, 2008).
Assim, os mitos da violência doméstica são na realidade crenças falsas, infelizmente comuns, usadas para minimizar, tolerar, negar ou justificar a existência de violência doméstica (Peters, 2003). Ao considerarmos que a sociedade acredita, aceita os mitos da violência doméstica é levantado um problema no que se refere à manutenção deste fenómeno, na medida em que, a violência doméstica é um problema social com graves implicações sociais, económicas e na saúde dos indivíduos (Heise, 1994 cit. in Giffin, 1994). Por outro lado, Rush (2000, cit. in Paiva & Figueiredo, 2003) apresenta a questão da violência contra a mulher não apenas como um problema social, mas também como um problema de saúde pública.
_______________
Ana Afonso Guerreiro nasceu em Faro em 1978. É Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, tendo apresentado a dissertação Aceitação dos Mitos da Violência Doméstica e Variáveis Preditoras.
É doutoranda em Psicologia Social, também pela FCHS da Universidade do Algarve. Profissionalmente, trabalha para a Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson (APDPk), assegurando a coordenação técnica da Delegação do Sotavento Algarvio. Tem a seu cargo a orientação de um projecto de intervenção junto dos doentes e dos seus cuidadores, e a dinamização de grupos de auto-ajuda.
Também dinamiza um grupo de auto-ajuda sediado em Lisboa.
Conceção gráfica: José de Brito Guerreiro
I
Nas primitivas hordas nómadas, os homens e as mulheres viviam da caça e da pesca, integrados em grupo e desempenhavam papéis idênticos. Quando as populações passaram a viver sedentariamente e a viver da agricultura e pastorícia, os seus papéis começaram a diferenciar-se (Almeida, 1995). No Neolítico, período de sedentarização e início da agricultura, os modos de vida suponham uma organização social adaptada, com uma divisão dos papéis entre homens e mulheres (Vidal & Browaeys, 2006). Os homens passaram a ter uma missão social e a mulher uma missão doméstica e de procriação, fundamentada por diferenças biológicas (Almeida, 1995). As diferenças entre homens e mulheres, permitiram ao homem alcançar um papel de maior destaque e poder em relação à mulher. Este processo desenvolveu uma forma discriminação baseada no género da pessoa, o sexismo. A literatura inicialmente centrada numa perspectiva mais clássica, de avaliação negativa traduzida em crenças ou inferioridade em relação à mulher, foi enriquecida nos últimos anos com diversos trabalhos (e.g. Tougas et al., 1995; Formiga et al., 2002) em particular com o estudo de Glick e Fiske (1996) propondo que o sexismo é ambivalente, ou seja, coexiste no indivíduo através de duas formas: hostil e benevolente. Estas formas traduzem-se nas relações intimas através do cavalheirismo paternalista, atitudes gentis e protectoras para com as mulheres, (Glick et al., 2000). A mulher parece aceitar o sexismo benevolente, reforçando assim, o maior poder dos homens e ainda sentindo-se recompensada por isso na medida em que esse poder a protege (Ferreira, 2004). Por outro lado, a valorização do amor romântico incute na mulher o desejo de ser amada e protegida pelo “príncipe encantado”, romântico, cavalheiro, protector, mas em contrapartida hostil, que de forma subtil…desvaloriza-a.
Guerreiro, A.A. (2011). A aceitação dos mitos da violência doméstica e as variáveis preditoras. Dissertação de Tese de Mestrado. Universidade do Algarve, Faculdade Ciências Humanas e Sociais.
Adão Cruz
Afonso da Rocha Aguiar
Aleksandra Serbim
Álvaro José Ferreira
Amadeu Ferreira
Ana Afonso Guerreiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Mão de Ferro
António Marques
António Sales
Augusta Clara
Carla Romualdo
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Dorindo Carvalho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Pereira Marques
Francisca da Rocha Aguiar
François Morin
Hélder Costa
João Brito Sousa
João Machado
João Vasco de Castro
Joaquim Magalhães dos Santos
José Brandão
José de Brito Guerreiro
José Goulão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Peres Lopes
Luís Rocha
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Manuela Degerine
Marcos Cruz
Margarida Antunes
Margarida Ruivaco
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Paulo Rato
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